Chuá de saudades, Inezita

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher
inezita

Uma mulher não precisa ser feminista de carteirinha ou sem carteirinha para ser uma grande mulher. Basta ser apenas uma grande mulher. E no dia 8 de março, o dia em que se comemora e tal o tal dia, perdemos uma grande mulher, uma das maiores brasileiras que tivemos: Inezita Barroso.

E este post curtinho é só uma homenagem minha a ela, e uma homenagem indireta a outar grande mulher: minha mãe, Teresa, que me ensinou a gostar de música, de arte, de cultura e em especial de cultura brasileira. Me ensinou a amar o Brasil.

Ë engraçado como as músicas que embalam a nossa infância nunca são esquecidas, posso cantar as modas de viola todas de cor até hoje e elas me soam mais doces e mais lindas que todas as outras músicas que conheço.

Inezita era mais que a grande dama da música caipira, era uma grande dama da cultura de raiz brasileira. Apresentou por 35 anos o “Viola Minha Viola”  na TV Cultura aos domingos, som que sempre embalou a casa dos meus pais e dos meus avós. Além de cantora ela foi instrumentista, arranjadora, folclorista e professora.  E como toda mulher forte e admirável, a moça de família tradicional, Ignez Magdalena Aranha de Lima, teve de brigar e desgostar a família para seguir carreira artística, tendo se formado primeiramente em Biblioteconomia, na USp. Pelo seu trabalho como folclorista, e por ser uma enciclopédia viva da música caipira e do folclore nacional, recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore pela Universidade de Lisboa.

Mas o certo é que, durante esses 35 anos, Inezita manteve acesa  a chama da cultura popular caipira brasileira. Uma grande mulher que fará muita falta em nosso cenário cultural e humano, pois era queridíssima de todos que a conheceram.  Em nome de tantas mulheres que fazem muito pelo país e jamais levantam a bandeira feminista é também o dia 8 de março, pois a luta às vezes também é feita de pequenos atos, como seguir em frente pela carreira que se ama, pela cultura que se ama. Esse post é também uma homenagem a tanta mulheres que sacolejam em ônibus lotados pelo pão nosso de cada dia. Talvez elas escutem pérolas do nosso cancioneiro popular nas poucas horas de folga e cantem sem saber que quem manteve vivas essas músicas foi Inezita. Tomara que novas Inezitas surjam dessa músicas que a gente canta.

 

A gente aqui do Biscate

Biscates

Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

De repente 30

Hoje é meu aniversário de 30 anos, vendo a Sara do passado e a eu de agora, não estou preocupada, me dei conta do quanto de conquistas atingi… nem todas elas foram as que sonhava aos meus 19 anos, mas, mesmo assim, são inúmeras conquistas.

30

Meu Eu aos 19 anos sonhava com um Eu do futuro em um emprego de concurso público, mestrado finalizado, estável pra adotar uma criança. Não foram os planos que realizei. Na verdade, minha vida tomou um rumo diferente, hoje sou uma mulher que cresceu e amadureceu como feminista, que descobriu talentos em si que não conhecia. Aprendi a ser mais flexïvel, Aprendi a ser mais companheira, menos competitiva e com uma perspectiva de vida diferente agora.

Se eu ainda sonho em fazer mestrado?.Claro que sim, mas acredite, não é mais prioridade. Ando vivendo a vida e deixando a vida seguir e ver onde dá. Não sei se isso  é bom ou não, mas me cansei de planejar, os próximos 30 anos serão de tranquilidade, esperando o que vier pra mim, sem pressa e sem planejar nada.

Ano de Ogum

 

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To aqui sentando chorando por um monte de coisas misturadas. O bestial atentado ao Charles Hebdo, o inédito editorial conjunto de 6 jornais europeus que acabo de ler e uma amizade, que já era longínqua, mas pela qual eu nutria carinho, que acabou.

É…2015 começou quente, e triste,  na vida mundial e pessoal.

De acordo com uma consulta informal biscate aos orixás, OGUM vai  dominar o ano de 2015 e ele não liga para a opinião dos outros, gosta de atravessar fronteiras; isso vai fazer muitas pessoas gostarem de viajar e fazer coisas diferentes e o melhor, no sexo é sem preconceitos, gostas de coisas diferentes, de fetiches!!!! (Oba, fetiches! Trabalhamos!)

Mas também tem o lado ruim de Ogum, deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis,  guerras  a serem declaradas e  as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )

Mas a cigana leu o meu destino e eu sonhei que nem tudo está escrito, então façamos amor, não façamos a guerra. SE for pra fazer a guerra a gente faz a guerra biscate de sempre, contra o preconceito, a caretice e os limites. E a favor da risada e do sexo. Sempre. Um ano de Marte, um ano de luta, mas um ano de luta por um mundo melhor e mais justo. Lutemos sempre a boa luta. Axé.

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(muito axé para todos os jornalistas, cartunistas, franceses e muçulmanos. Paz E Amor para todos)

Sexo é uma delícia

Beijaço contra a homofobia on Vimeo.

Ali pelo minuto 01:12, mais ou menos, tem uma senhorinha explicando, bem claramente, porque apoia o beijaço que rolou em frente a casa do candidato Fidelix. Ela fala que foi criada em uma sociedade repressora e que sua sorte foi aprender que sexo é uma delícia. Que sexo é uma coisa boa, que deve ser feita, mostrada e que a gente deve contar isso pra todo mundo. É nóis \o\ \o\ lol lol /o/ /o/

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Estamos aqui no BiscateSC justamente espalhando essa palavra. OH YEAH! O Biscate Social Club é um coletivo. Um coletivo de amor e letras e anseios de um mundo muito mais livre. Um coletivo que escreve em esperanças e denúncias. Que fica, aqui e ali, na putaria de insistir em ser feliz. Um clube que não se dá ao respeito, que escreve sem certezas absolutas e procurando, partindo dos princípios presentes no Editorial, dialogar com a realidade. Erramos algumas vezes, #quemnunca? Enfiar o pé na jaca, pisar na bola, dar o passo maior que a perna, tudo esportes que praticamos. Mas também exercitamos o voltar atrás, o pedir desculpa, o mudar de ideia e o querer mais. Muito mais. Principalmente muito mais sexo, néam?

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Sexo que liberta, autônomo, escolhido, com um, com vários, na rua, na chuva, na fazenda ou em uma casinha de sapê. Biscatgi que inclui, acolhe, sustenta e luta. Vamos assim, ora biscateando de ladinho, ora sambando ostentoso, beijando, trepando, escrevendo e gozando o prazer e a liberdade de ser biscate.

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Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Jandira, a vítima já condenada

Por Niara de Oliveira  

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Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, está desaparecida desde o dia 26 de agosto. A polícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam. O desaparecimento? Também, mas antes e sobretudo investigam o crime de Jandira, abortar. E a quadrilha que possivelmente está envolvida no desaparecimento de Jandira.

Na imprensa, desde que o caso veio a público, nunca — NUNCA — o “crime” de Jandira deixou de ser mencionado junto com as informações sobre o seu desaparecimento. O tempo de gravidez, as condições, as motivações de Jandira para recorrer a medida extrema de confiar em estranhos e ainda gastar uma pequena fortuna com isso vi em apenas uma das reportagens, mas naquilo que chamamos no jornalismo de detalhes do caso, “encheção de linguiça”, o que vai no último parágrafo das notícias escritas e que quase ninguém lê, e poderia ser dispensável, não é crucial para a informação. Apenas para registrar, não tenho dúvidas, que a mãe e o ex-marido de Jandira sabiam que ela cometeria um “crime”, e que podem ser enquadrados como cúmplices.

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Mas que joça de jornalismo é esse onde a motivação do “crime” é dispensável? Oras, porque a hipocrisia reina e porque o dispensável no caso de Jandira é o que a transforma em vítima de um sistema que criminaliza a mulher por não ter direito ao seu corpo. E os direitos humanos, o direito inalienável à vida, de Jandira vai pelo ralo na tal cobertura jornalística, junto com a obrigação ética do jornalismo de defender os direitos humanos.

A mãe de Jandira informou que a filha pagou R$ 4,5 mil para fazer o procedimento. Segundo umas das muitas matérias, Maria Ângela Magdalena dos Santos afirmou que a filha trabalhava numa concessionária no Recreio dos Bandeirantes e havia juntado todas as economias para conseguir realizar o aborto porque tinha medo de perder o emprego se mantivesse a gravidez. “Eu não achei caro porque dizem que essas pessoas cobram mil reais por mês (de gestação) e ela já estava na 14 semana (quarto mês). Eu não queria que ela fizesse, mas a gente não manda nos nossos filhos. Estou desesperada porque eu não tenho notícia boa nem ruim. Ela estava com medo de perder o emprego e o pai dessa criança foi uma coisa passageira, eles não estavam juntos“, disse a mãe.

Jandira, grávida de uma relação eventual, desesperada, já tinha ultrapassado o tempo limite para a realização de um aborto. Mas, como o assunto é tabu não há sites com informações seguras a respeito, não há matérias no “Fantástico”, no “Bem Estar” ou nos “Repórter” de cada emissora indicando as melhores condições, critérios e cuidados a serem tomados ao abortar.

O que ninguém diz é que ao engravidar por acidente a mulher está condenada, ou a ter o filho que não quer — com todos os riscos que envolvem a gravidez e o parto — ou a virar criminosa caso decida abortar clandestinamente — com todos os riscos que envolve um aborto –. A probabilidade de Jandira ser encontrada viva se torna mais remota a cada dia que passa (últimas informações aqui). O que não é remoto é o seu julgamento. Ela já é culpada. E seus dois filhos agora estão órfãos.

Se Jandira tivesse uma condição social melhor, teria feito seu procedimento normalmente, teria voltado para a sua casa, filhos e emprego sem se tornar notícia. Aborto é uma realidade no Brasil. As mulheres ricas pagam e estão seguras; as trabalhadoras juntam as economias da vida para abortar e correm riscos para tentar a segurança de que dispõe as mulheres ricas; e as pobres (e negras) recorrem a métodos insalubres e correm maior risco de morte. O que leva as mulheres a abortarem é a tentativa desesperada de serem donas de seus corpos e poderem decidir seu futuro.

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As mulheres abortam. A sociedade aborta. O que mata muitas das mulheres que abortam é a hipocrisia de colocar apenas em suas contas e costas os abortos feitos. Até quando vamos fingir que não é conosco?

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Leia também Se minha mãe tivesse me abortado, de Laryssa Carvalho no Blogueiras Feministas.

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Campanha 28 Dias Pela Vida das Mulheres

28 diasDia 28 de setembro é Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Diversas ações serão realizadas. Entre elas está o site: 28 Dias Pela Vida das Mulheres.

Participe desse movimento escrevendo textos, publicando imagens ou mensagens com as #hashtags: #28set #LegalizarOAborto.

Depressão, gênios e demônios

Foi com espanto que o mundo recebeu a notícia da morte do ator Robin Williams na segunda-feira, dia 11, e com mais espanto ainda o fato da causa da morte: suicídio.

Segundo os vorazes sites de fofocas, Robin lutava contra as drogas, álcool e depressão há mais de 20 anos e teve uma forte recaída. Nas redes sociais tivemos de lamentos a condenações. O de sempre quando se trata de depressão e sua pior consequência, o suicídio, mas tivemos bem pouca compreensão.

A depressão não é, como se diz, uma doença moderna, ou mal moderno. Andrew Solomon, jornalista e escritor do já célebre – O demônio do meio dia – que eu li, amei e recomendo, trata de desmistificar a falácia:

“Esse é um mito que tenho interesse em destruir. Comecei pesquisando conceitos históricos de depressão. Hipócrates, há 2,5 mil anos, descrevia a depressão nos mesmos termos com que a descrevemos hoje. Além disso, dizia que era uma disfunção orgânica do cérebro, melhor disparada por fatores externos. Já Platão afirmava que era um problema filosófico, melhor resolvido por meio de conversas. Então, a distinção entre os modelos médicos e psicodinâmicos da depressão já existe há cerca de 25 séculos. Com intuito de observar melhor se era um fenômeno ocidental, me aventurei a estar em uma grande variedade de sociedades. Observei a depressão entre os sobreviventes do Khmer Vermelho do Camboja, entre esquimós inuítes, e fui até o Senegal, onde participei de sessões do tratamento ritual da doença, bastante populares lá. Constatei que a linguagem usada para descrever a depressão varia um pouco, mas a ideia de que algumas pessoas às vezes se sentiam inexplicavelmente divorciadas de todas as oportunidades e de tudo o que dava sentido para suas vidas existia em qualquer sociedade que pude encontrar.”
(Andrew Solomon: “O oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade”)

Enfim, esse trecho foi só pra dizer que tudo que o senso comum sabe sobre a depressão, sobre dizer que a falta de força de vontade, falta de Deus, e o escambau está errado. E sobre isso acho que vocês  já leram vários textos. Mas esse texto aqui é pra dizer que eu tive e tenho depressão e sobrevivi e chorei muito vendo Sociedade dos Poetas Mortos pela milionésima vez, um dos meus filmes favoritos, e uma grande performance do Robin Williams, com outros olhos.

Aquela cena em que ele vê o personagem do Robert Sean Leonard, o Neil Perry, saindo da peça arrastado pelo pai e sendo forçado a entrar no carro…Naquela cena, ainda sob o impacto da notícia de sua morte, vi nos olhos dele uma compreensão que ia além dos olhos do personagem, vi um brilho de tristeza, ele pressentia que ali podia ser o fim.

A depressão é uma força que draga todas as suas demais forças, de se levantar da cama, de comer, de sorrir, de viver. Não adianta ninguém te mostrar que há sol nas árvores, você simplesmente não vê. Ou vê, se procurar ajuda, o tratamento certo que inclui terapia e remédios sim, mas acima de tudo, nada disso funciona se fora não houver amor, se não houver carinho, amigos, família, amores. E a essas pessoas, meu muito obrigado.

Se você tem perto de você alguém em depressão profunda saiba que a morte é sim uma possibilidade real e que mais que tratamento é necessário ter paciência, um pouco de abnegação, sim, mas principalmente carinho compreensão e amor porque com amor tudo passa. Leiam, se informem e ajudem ao próximo.  Nunca pense que é só uma chantagem emocional, é um pedido de socorro. E fique em paz, Robin, obrigado por tudo. É tarde para você agora, espero que o apoio chegue antes pra tantas outras pessoas, assim como mais amor e menos julgamento.

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Aventuras da elite branca classe média sofre na Copa

Como toda brasiliense branca #classemédiasofre da elite lá fui eu #tercopa, afinal não dá para ver a cidade toda postando foto no Instagram e você ser a única a não participar  da festa da democraciERROr… e GENTE QUE MARAVILHA DE COPA!

Comprar ingresso foi a primeira aventura: depois de noites no site da amada FIFA desisti e fui para um grupo do Facebook e dei uma baita sorte, consegui dois ingressos pelo preço de custo, no mesmo anel do estádio (piso) mas em lugares diferentes, eu e filho, torcendo pra na hora sobrar um assento perto e a gente assistir junto (sim, conseguimos, tinha uma assento vazio do meu lado).

Eu queria era sentir a copa, sabe? Adoro copa, sempre assisto todos os jogos que dá pela tv (também adoro Olimpíadas).  Eu queria ver os estrangeiros, falar com eles. Tive uma palhinha deles no show do Jorge Benjor no T-Bone Cultural na 312 Norte e achei muito bacana ver a cidade invadida.  Mas tinha meio que desistido de ir porque sou brasiliense burra e fui ao jogo teste da seleção , o amistoso, e como toda brasiliense estúpida que dirige há 20 anos, insisti em ir de carro. Péssima  idéia, andei um montão para chegar ao estádio porque tem que parar o carro longe e cheguei lá morta e de péssimo humor.

"minha barriguinha e a do Obelix"

“minha barriguinha e a do Obelix”

Mas dessa vez não. Escutei filho e além de sairmos cedo deixei o carro e fomos de metrô. Primeira vez que andei de metrô na minha própria cidade. E nossa! Que transporte público maravilhoso! Eu tava na Brasília da propaganda do AgNulo!!!! É tudo mentira aquilo que passa no DFTV, viu? Claro que tava tudo lindo porque as escolas estão de férias obrigadas pela Lei Geral da Fifa, essa entidade magnífica, e em dia de jogo aqui é ponto facultativo pro Governo Federal e pro GDF, ou seja, o trânsito diminui uns 60% ou mais na cidade. Óbvio que só tinha torcedor no metrô, né? É algo como: o dia em que o metrô fica branco.  Ademais o GDF disponibiliza ônibus gratuitos da rodoviária, ponto final do metrô, até o Estádio, tudo sinalizado por voluntários, pros turistas  não se perderam. Nunca achei achei Brasília tão eficiente, não é a toa que foi uma das capitais mais elogiadas. Quase votei no AgNulo de novo e NÃO PERA…

Chegando ao estádio pensei que ia encontrar hordas de franceses e tal, alegres, bebendo mas não… fui recebida pela Marcha para Jesus na Copa, com cartazes em francês e inglês. Fiquei sabendo que eles estão lá todos os dias de jogo. SOCORRO. QUERO UMA COPA LAICA! To apavorada achando que os visitantes pensam que somos um país fundamentalista, desculpa qualquer coisa, aí, viu, gente? Aqui somos da ZOEIRA. ZOEIRA.

"você chega no estádio e quem te recebe? rysos..."

“você chega no estádio e quem te recebe? rysos…”

O estádio ficou pronto, ao menos onde eu estava, os banheiros eram padrão shopping, padrão FiFA, e pela primeira vez na vida vi uma fila pra banheiro masculino imensamente maior que a feminina. Me senti vingada.

Também fui alertada por filho que tem mei que um dress code pro estádio, eu tava indo a vontade ( diga-se, esportiva desleixada confortável), mas descobri que as brasilienses vão tudo arrumadas  e filho meio que pediu pra eu me arrumar um pouquinho, atendi, porque né? Pra que envergonhar o adolescente acompanhante? Todas vão muito maquiadas e milhares de selfies são tiradas.  O povo tira mais selfies que vê o jogo, me parece. Cada doido com sua mania. Eu tirei foto com o Obelix. Foi meu ponto alto. Aí eu crente que o Obelix era francês, fui gastar o meu je ne suis com ele e…fuén… era brasileiro…

"torcida francesa"

“torcida francesa”

Aliás, eu que queria tanto ver os franceses, nigerianos, etc e vi só de longe mesmo. Mas adorei o clima do Estádio todo torcendo para a Nigéria. Lindo a torcida acolhedora e vingativa contra a França, né? Mas continuamos péssimos de músicas, mas graazadeus ‘sou brasileirooo com muito orgulhoooo’ foi cantada só uma vez. Inclusive, fiquei sabendo que a torcida brasiliense é uma das mais animadas e acolhedoras (um torcedor que está acompanhando todos os jogos da seleção contou para filho no jogo passado) #BSBMELHOREMTUDO. Mas o pessoal que tá lá no estádio entende de futebol tanto quanto eu entendo de cozinha, foi lá para tirar selfie mesmo e por isso que grito de torcida que preste tá difícil. Some-se a isso o fato que a amada FIFA não permite um bumbo, um pandeiro pra gente tocar música. Só se gritava Nigéria mesmo. Elite branca num é muito criativa pra futebol. E digo elite branca porque era o que tinha lá mesmo, eu inclusa.

No final do jogo achei lindo que os brasileiros aprenderam a limpar os estádios com o japoneses e passavam recolhendo os copos deixados embaixo dos bancos. NÃO PERA. Era o mesmo pessoal que curte levar enfeite de mesa de casamento e formatura para casa catando copos usados, além dos seus, para levaram de lembrança. JURO. Fiquei passada. Pessoal passava com pilhas de copos na saída. Morri de rir. Pra completar tinha fila para comprar Fuleco a 79 pila. Irmã me contou que as crianças pequenas estão loucas por Fuleco, culpa da lavagem cerebral das festas juninas das escolas, todas com tema: copa, muito originais.  Acho esse povo da minha classe média todos uns loucos. Romanos não eram nada perto disso, Asterix.

Na volta mesmo percurso: ônibus e depois metrô. Filas longuíssimas para entrar nos ônibus. Gente tentou furar a fila e foi vaiada. Estavam obedecendo as filas!!!! ALELUIA ERMÃOS. Se esse for um legado da copa: filas e catar copos,  já tamo bem. MELHOR COPA!!! Ei, Fifa, a gente pode comprar a outra e parcelar em 12 vezes no Visa? Sem juros?

Silvia

Na cidade de São Paulo, cidadãs descobrem que a bicicleta é também um meio de transporte. Leia a entrevista com a educadora física Silvia Oliveira, de 31 anos e moradora do bairro de Campo Belo.[zona sul]

foto: Antonio Miotto

foto: Antonio Miotto

1-Por que você escolheu a bicicleta como meio de transporte?

“escolhi a bicicleta, como meio de transporte por perceber quanto tempo eu perdia no trânsito.”

2. De modo geral, a saúde melhorou depois que começou a pedalar? O que melhorou exatamente?

“melhorou sim e muito! passei a ter muito mais fôlego, minhas pernas ficaram beeem mais fortes, e eu passei a me sentir bem mais alegre, bem humorada e de bem com a vida!”

Foto:  Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

3. Se uma pessoa que está pensando em usar mais a bicicleta no dia a dia perguntasse a você: “E aí, o que tem de bom em pedalar em cidade grande?”, o que você responderia?

“como passar a vivenciar a cidade de maneira mais humana, mais intima e verdadeira. sua vida passa a ter mais cores, sons, passa a ser mais vida! fora q vc passa a ter mais folego, condicionamento fisico e pernas incriveis! [risos]”

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

obs. hoje, segunda-feira, ocorre o encontro entre algumas as paulistanas que caminham e pedalam, conhecido como “miça” [ um trocadilho para o hábito de beber com as amig@s em algum bar de esquina…]

Renata

“Conversamos” com Renata Oliveira (neta de DORA), ex-moradora do bairro do Itaim [ extremo leste de São Paulo ], que usa e abusa de suas poesias no dia a dia da cidade com dimensões superlativas.

Foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

Balança meus cabelos
Refresca meu cheiro
Bala roubada no beijo
Bálsamo sobre meus medos
Beleza que bane minha tristeza
É você!
Que fala a língua dos meus ouvidos
que faz minar amor
Dos meus dias amargurados
Do pior dia
Só você mesmo
Extrai alegria
Bálsamo da minha vida
Desamarra as cordas do meu peito
E faz brotar notas doces
Num tom assim
Como o da tua voz
Dizendo pra mim.. tranquilo
Bálsamo lindo
Enfeita meu dia com o teu riso
Balança toda minha vida
Com um cheiro de não me deixa…
Que não me deixa
E fica.

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