Tempestade de Sol

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Rir-se. Rirmos. Nosso riso. Essas nossas risadas que sempre tomaram conta do quarto nas noites mais simples de meio de semana. Naquela quarta-feira qualquer. Mesmo sem cerveja, mesmo sem graça. Era bom. Rirmos. Risos de doer a barriga e soluçar de amor. Esse seu riso fácil que tomava conta dos meus olhos pequenos. Que me embalava o sono do seu colo grande, sempre cansada de tanto. Eu sempre tanto. Você sempre suavidade. Sempre esteio para meus pulos sem chão. Toda riso farto de braços abertos. Toda para me receber tanto.

Eu tive que acostumar com as suas lágrimas, que vieram de repente. Uma a uma, rio de espanto. A vida é de repente. E é de repente que. Aprendi a lamber o seu sal na ponta dos dedos. A enxugar a ponta de seus lábios com a minha língua. A dar colo para a sua dor. A ficarmos mudas de mãos dadas diante do espanto. Aprendi, enfim, que o amor também é triste. E que no riso tem um bocado de coisas não ditas que cheiram a lágrimas. E que é bom mesmo assim.

Aprendo. Com o tempo que não vem ligeiro para nos contar que é tudo mentira. Com a reinvenção desse riso mudo de dor. Com a impermanência de nossos respiros. Com uma serenidade estranha diante do que não se controla. A vida é sempre. E é nunca mais. Os dias passam e descolorem a memória de quem ainda somos. E a cada pincelada a nossa eternidade que não se apaga.

Na maquiagem borrada de nossos espelhos invertidos, reinventamo-nos. Amamo-nos. Adormecemos na brisa mansa de um riso que ainda vem. Como naquela noite em que você ria sozinha, sem saber porque. Aquele riso solto, tão nosso, tão sem motivo. Riso dos nossos desejos. Da nossa intimidade musical traçada nos pés sobre as cobertas. “Vai doer mas depois vai passar”, eu canto. Você sorri generosa, tecendo futuros nos meus cabelos afagados. E a gente floresce, na tempestade de sol desses dias de outubro. Um outubro qualquer a se perder no tempo das belezas, dessas que as retinas não filtram.

Despedir-se é sempre

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Eu vou aprendendo a me despedir. Aprendizado que acumulo desde que me conheci perguntadora, e não conseguia entender porque as pessoas cresciam. Eu não queria. Queria estar sempre ali, perene, vivendo intensamente a minha meninice. Mas veio o tempo. O tempo sempre vem. E com ele aprendi que as coisas eram boas quando se cresce. Novos sabores, novos sentires. E que as lembranças que se guarda são parte da gente. Nos formam, se somam, se moldam diferente nos nossos quadris. Remelexo.

E eu ia sofrendo a cada despedida. Da amiga que ia embora. Da cidade que eu deixava pra trás. Do fim da adolescência. Do primeiro namorado que se despediu. De mim que não era mais a mesma. Queria agarrar o momento, guardá-lo emoldurado na parede da memória. Tudo que vivia com a intensidade de nunca mais. Engolia pelos olhos. Mas o tempo. Amarela. Descolore. A gente não retém.

A impermanência era um desafio para meus anseios de viver tudo. E querer sempre mais, sagitarianamente. Eu ficava brava com o tempo. Eu não queria. Crescer era deixar pra trás, e a gente cresce um pouco todo dia. A gente envelhece um pouco todo dia. E a gente se despede todo dia. Um pouco. Por pouco. Grandes e pequenas travessias. O desapego forçado do tempo. O assombro.

Caminhamos, a vida é movimento. O novo sempre vem. E as mãos cansam-se de tentar segurar o que não tem. A areia sempre escapa, fina, para o outro lado da ampulheta. O vento, o fluxo, o rio que não para de correr para o mar.

O que aprendi ao longo dos anos, que não param de somar-se no calendário, é que se despedir é bonito. É vida que pulsa. Aprendi a contemplar a impermanência. Talvez essa seja a verdadeira entrega: pular no rio e se deixar levar. Lavar. Renovar. Sentir o vento frio na nuca enquanto se atravessa.

Saber-se só e filha do tempo. E tão cheia da gente mesma. Sentimentos e memórias que vão navegando com a gente, de tal modo que a solidão não dói. A solidão somos nós povoados de tudo que somos, de tudo que fomos. E que a pergunta nos traz em futuro. Seremos sempre a especulação do que somos. Hipóteses. Entregar-se é saber que a gente não sabe. E que a gente não é, a gente vai sendo. Filhos, filhas, casamentos, relacionamentos, trabalhos, amigas, amores, cidades, viagens, lugares. Tudo vai passando com a gente. De tudo fica um pouco. Tudo nos forma. E tudo se esvai.

Despedir-se é sempre.

 

Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

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Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

História de vó

Quando eu era criança, tinha tanto medo de que ela morresse que, todas as noites, antes de dormir, pedia pra ir antes, porque do contrário eu não ia aguentar. Minha avó Maria sempre foi uma das pessoas que mais amei na vida. Doce, divertida, carinhosa, tímida. E, ao mesmo tempo, firme, debochada, capaz de bons ardis pra conseguir o que queria.

Das histórias que adoro, uma das preferidas é a de seu voto escondido no PT do final dos anos 80, ainda que meu avô, fundador do Arena (!!!)  em Pirapora, minha cidade natal, estivesse crente que podia escolher por ela. Não podia. Ela sorria e aquiescia, mas na urna, sozinha, foi soberana e autônoma em sua escolha.

Não era especialmente quituteira. Não era dessas. Mas, sempre fez o melhor pão de queijo de todos! E um pavê de abacaxi maravilhoso, para ocasiões especiais. E nas vezes que não tinha nada em casa pra oferecer pras visitas, aparecia com uma jarra de limonada e bolacha de água e sal.

Uma vez, tentou me ensinar a fazer crochê. Tadinha. Tarefa insana e inútil. Nunca aprendi. Que nem ela era boa na função. Minha avó não era exatamente uma mulher prendada. Mas, me ensinou outras coisas. Coisas da vida. Reflexões atávicas sobre o racismo que sofreu, de tantas maneiras perversas, e que muitas vezes ela nem sabia bem o que era, embora soubesse que machucava. Que humilhava. Disso, ela nunca teve dúvida.

Lembro de histórias soltas, frases cruéis, que não repito porque não consigo. Lembro de algumas coisas…

E me lembro também de quando ela se juntava com seu irmão, meu tio Gino, e contava casos e cantava canções de antepassados que viveram em senzalas. Histórias que ela ouvia da própria avó, que foi quem a criou e a seus irmãos. E eu, tão criança, nem sabia direito o quão solene era aquele momento. O quão fundamental seria para a escrita da minha própria história.

Dizia-me “intiligente” e me mandava ler em voz alta os livrinhos das edições Paulinas, que ela assinava desde sempre. Achava bonitinho me ver pequena “lendo tudo certinho”. Não me catequizou. Mas, certamente, ajudou muito em minha oratória.

E me levava para o asilo público da cidade toda semana pra conversar com as velhinhas. Dando-me, do jeito dela, uma aula de generosidade, gentileza, entrega e um pouco de porvir. Tinha uma que colecionava bonecas. E aquilo me assustava. E me fascinava. Ficava pensando naquela senhorinha brincando com elas, e parecia não combinar. Realmente, eu não sabia de nada.

Minha avó também me deixava comer uva verde da parreira do quintal. Com sal. E depois me dava uma colher de ruibarbo, pros vermes. Era tão ruim, que chegava a ser bom. No final, virou um ritual nosso, só amargo no sabor na colherada. Remédio pros vermes também era carinho.

Uma vez, comentei que gostava de doce de figo. Coisa que só descobri grande, porque figo não era fruta comum em Pirapora na minha infância. E ela passou a me esperar com uma compota quando eu ia de férias. Às vezes, uma compota pequenininha, que cabia numa xícara, porque ela nem encontrava tanto figo assim. Mas, estava lá. Me esperando.

Com ela aprendi a palavra “malinar”. Dizia “menina malina!”, sem saber que ralhando fazia poesia.

Se estivesse viva, teria feito 93 anos no dia 9 de maio. Morreu tem quase 1 ano. Já eu, fico aqui, lembrando dos últimos anos, quando ela foi deixando a memória de lado, mas permitindo aflorar aquela rebeldia incubada, de quem sublimou tanto, por tantos anos. Os palavrões. Ah.

Acabei de voltar de Minas. A primeira vez, depois que a enterramos. E também a primeira vez que estive lá e não fui em sua casa, vê-la. Porque. E nessa vontade constante de contar historias de mulheres, quis falar um pouco sobre a minha avó.

 A música é porque ela adorava!!!

Mulher, de histórias e existências

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

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Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

Chuá de saudades, Inezita

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher
inezita

Uma mulher não precisa ser feminista de carteirinha ou sem carteirinha para ser uma grande mulher. Basta ser apenas uma grande mulher. E no dia 8 de março, o dia em que se comemora e tal o tal dia, perdemos uma grande mulher, uma das maiores brasileiras que tivemos: Inezita Barroso.

E este post curtinho é só uma homenagem minha a ela, e uma homenagem indireta a outar grande mulher: minha mãe, Teresa, que me ensinou a gostar de música, de arte, de cultura e em especial de cultura brasileira. Me ensinou a amar o Brasil.

Ë engraçado como as músicas que embalam a nossa infância nunca são esquecidas, posso cantar as modas de viola todas de cor até hoje e elas me soam mais doces e mais lindas que todas as outras músicas que conheço.

Inezita era mais que a grande dama da música caipira, era uma grande dama da cultura de raiz brasileira. Apresentou por 35 anos o “Viola Minha Viola”  na TV Cultura aos domingos, som que sempre embalou a casa dos meus pais e dos meus avós. Além de cantora ela foi instrumentista, arranjadora, folclorista e professora.  E como toda mulher forte e admirável, a moça de família tradicional, Ignez Magdalena Aranha de Lima, teve de brigar e desgostar a família para seguir carreira artística, tendo se formado primeiramente em Biblioteconomia, na USp. Pelo seu trabalho como folclorista, e por ser uma enciclopédia viva da música caipira e do folclore nacional, recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore pela Universidade de Lisboa.

Mas o certo é que, durante esses 35 anos, Inezita manteve acesa  a chama da cultura popular caipira brasileira. Uma grande mulher que fará muita falta em nosso cenário cultural e humano, pois era queridíssima de todos que a conheceram.  Em nome de tantas mulheres que fazem muito pelo país e jamais levantam a bandeira feminista é também o dia 8 de março, pois a luta às vezes também é feita de pequenos atos, como seguir em frente pela carreira que se ama, pela cultura que se ama. Esse post é também uma homenagem a tanta mulheres que sacolejam em ônibus lotados pelo pão nosso de cada dia. Talvez elas escutem pérolas do nosso cancioneiro popular nas poucas horas de folga e cantem sem saber que quem manteve vivas essas músicas foi Inezita. Tomara que novas Inezitas surjam dessa músicas que a gente canta.

 

A gente aqui do Biscate

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Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

De repente 30

Hoje é meu aniversário de 30 anos, vendo a Sara do passado e a eu de agora, não estou preocupada, me dei conta do quanto de conquistas atingi… nem todas elas foram as que sonhava aos meus 19 anos, mas, mesmo assim, são inúmeras conquistas.

30

Meu Eu aos 19 anos sonhava com um Eu do futuro em um emprego de concurso público, mestrado finalizado, estável pra adotar uma criança. Não foram os planos que realizei. Na verdade, minha vida tomou um rumo diferente, hoje sou uma mulher que cresceu e amadureceu como feminista, que descobriu talentos em si que não conhecia. Aprendi a ser mais flexïvel, Aprendi a ser mais companheira, menos competitiva e com uma perspectiva de vida diferente agora.

Se eu ainda sonho em fazer mestrado?.Claro que sim, mas acredite, não é mais prioridade. Ando vivendo a vida e deixando a vida seguir e ver onde dá. Não sei se isso  é bom ou não, mas me cansei de planejar, os próximos 30 anos serão de tranquilidade, esperando o que vier pra mim, sem pressa e sem planejar nada.

Ano de Ogum

 

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To aqui sentando chorando por um monte de coisas misturadas. O bestial atentado ao Charles Hebdo, o inédito editorial conjunto de 6 jornais europeus que acabo de ler e uma amizade, que já era longínqua, mas pela qual eu nutria carinho, que acabou.

É…2015 começou quente, e triste,  na vida mundial e pessoal.

De acordo com uma consulta informal biscate aos orixás, OGUM vai  dominar o ano de 2015 e ele não liga para a opinião dos outros, gosta de atravessar fronteiras; isso vai fazer muitas pessoas gostarem de viajar e fazer coisas diferentes e o melhor, no sexo é sem preconceitos, gostas de coisas diferentes, de fetiches!!!! (Oba, fetiches! Trabalhamos!)

Mas também tem o lado ruim de Ogum, deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis,  guerras  a serem declaradas e  as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )

Mas a cigana leu o meu destino e eu sonhei que nem tudo está escrito, então façamos amor, não façamos a guerra. SE for pra fazer a guerra a gente faz a guerra biscate de sempre, contra o preconceito, a caretice e os limites. E a favor da risada e do sexo. Sempre. Um ano de Marte, um ano de luta, mas um ano de luta por um mundo melhor e mais justo. Lutemos sempre a boa luta. Axé.

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(muito axé para todos os jornalistas, cartunistas, franceses e muçulmanos. Paz E Amor para todos)

Sexo é uma delícia

Beijaço contra a homofobia on Vimeo.

Ali pelo minuto 01:12, mais ou menos, tem uma senhorinha explicando, bem claramente, porque apoia o beijaço que rolou em frente a casa do candidato Fidelix. Ela fala que foi criada em uma sociedade repressora e que sua sorte foi aprender que sexo é uma delícia. Que sexo é uma coisa boa, que deve ser feita, mostrada e que a gente deve contar isso pra todo mundo. É nóis \o\ \o\ lol lol /o/ /o/

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Estamos aqui no BiscateSC justamente espalhando essa palavra. OH YEAH! O Biscate Social Club é um coletivo. Um coletivo de amor e letras e anseios de um mundo muito mais livre. Um coletivo que escreve em esperanças e denúncias. Que fica, aqui e ali, na putaria de insistir em ser feliz. Um clube que não se dá ao respeito, que escreve sem certezas absolutas e procurando, partindo dos princípios presentes no Editorial, dialogar com a realidade. Erramos algumas vezes, #quemnunca? Enfiar o pé na jaca, pisar na bola, dar o passo maior que a perna, tudo esportes que praticamos. Mas também exercitamos o voltar atrás, o pedir desculpa, o mudar de ideia e o querer mais. Muito mais. Principalmente muito mais sexo, néam?

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Sexo que liberta, autônomo, escolhido, com um, com vários, na rua, na chuva, na fazenda ou em uma casinha de sapê. Biscatgi que inclui, acolhe, sustenta e luta. Vamos assim, ora biscateando de ladinho, ora sambando ostentoso, beijando, trepando, escrevendo e gozando o prazer e a liberdade de ser biscate.

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Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

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 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

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