Não é sobre a mais recente treta da internet 2

As mulheres têm tido péssimos encontros. Elas dão todos os sinais não verbais de que os encontros estão sendo péssimos, mas os caras não notam. Os encontros não correm nadinha parecidos com o que elas esperam ou planejam e elas sinalizam – na opinião delas, nitidamente, embora não verbalmente – e os caras nem percebem. Eles estão demasiado interessados no fato de que os encontros estão acontecendo dentro das expectativas e referências deles. Elas não falam, não vão embora (embora claramente percebam que eles não impediriam e quando, efetivamente, elas manifestam sua vontade de ir, eles não fazem nada que dificulte isso), elas ficam lá, vivendo aquele pesadelo, sentindo-se mal em cada momento, sentindo-se ignoradas e até mesmo violadas pela forma como eles estragam cada expectativa, cada anseio, sendo meio toscos, alguns escrotos, indo rápido demais, direto demais, tocando-as de uma forma que não era a que elas esperavam, comportando-se completamente diferente das expectativas  delas.

E então, o que aconteceu aí? (um parêntese, qualquer coisa diferente do narrado, que inclua uso de força, poder ou influência que impeça a mulher de verbalizar a negativa não é o tema do post, é estupro e tal). Voltando: e então, o que tem acontecido?

O moço pode ter sido indiferente, negligente, autocentrado. O moço pode ter sido tosco. O moço pode ter sido escroto. Nada disso faz dele um abusador ou do encontro uma violência que ele lhe impingiu.

Isso não significa que, ok, tudo bem, sigamos, é assim mesmo. Nada precisa ser “assim mesmo”.

Não sei se precisava salientar, mas não se perde: não importa se foi o primeiro encontro e a mulher aceitou ir na casa do cara ou levou-o à sua, não importa se ela estava de roupa “provocante”, não importa se ela decidir parar no meio do rala e rola, não importa se ela tirou parte da roupa ou se deixou despir, não importa se o encontro ruim foi com um desconhecido ou com uma pessoa com quem ela se relacionava há mais tempo e de forma estável. Nada disso importa se uma mulher disser não.

E, claro, este é um dos pontos nevrálgicos desta conversa. Nossa capacidade de dizer “não”. Nós, mulheres, somos ensinadas a ser dóceis, cordatas, mansas. Assertividade não é coisa muito feminina. Firmeza não é coisa muito feminina. Acolher o próprio desejo acima dos desejos alheios, especialmente o desejo sexual, deusolivre, não é coisa lá muito feminina. Assim, forjamos mulheres que esperam que as outras pessoas leiam sinais não verbais, discretos, sutis, feitos para não ofender a vontade alheia. Por outro lado formamos homens feitos para agir antes de refletir, para tomar decisões rápidas, para ouvir seu desejo antes de qualquer outra consideração. Homens pouco afeitos à escuta, que dirá entenderem sinalizações confusas e silêncios que parecem consentimento – especialmente no que se refere ao sexo, onde ainda se tem um imaginário em que mulheres não se interessam tanto por, não se divertem tanto no, não se expressam muito durante o sexo. Não sei a quem me lê, mas isso me parece uma combinação desastrosa.

É na estrutura que se inscreve a expectativa do príncipe encantado, mesmo para o encontro casual e que inibe o nosso “não”, coerente com nosso mal-estar. Porque “vai que”. Vai que ele melhora. Vai que ele entende. Vai que ele está em um momento ruim mas minha presença vai fazê-lo ficar bem. Vai que o sapo vira o príncipe que a cultura me ensinou que está nele, bem reservado para quem souber ser perfeitamente feminina e encontrar a chave mágica. E, assim não dizemos o “não”, não caímos fora. É também na estrutura que estão os números dos feminicídios, dos estupros, dos espancamentos contra mulheres. Vai que se eu disser não ele passa do escroto pro violento? Vai que ele me bate? Vai que ele mata? Melhor ficar quieta e encarar o menos ruim, né. Já somos mesmo acostumadas a comer por último, sair da frente, pedir desculpas mesmo estando certas, ver homens aclamados por ideias que demos poucos minutos antes e foram completamente ignoradas, etc. Um silêncio a mais não vai fazer tão mal assim. E, assim, não dizemos o “não”, não caímos fora.

Poderia continuar falando da estrutura/cultura e como internalizamos estes padrões que favorecem que situações como a lá de cima se repitam na zona cinza entre a violência/abuso e um encontro, apenas pessoas conversando, se conhecendo, se apalpando, fazendo sexo, bom ou ruim. Acontece que a estrutura/cultura não é algo absoluto e independente das subjetividades. Não somos seres passivos, tábulas rasas onde toda sorte de inscrições e normativas externas são gravadas e repetidas. Somos seres ativos, seres de desejo, que nos fazemos ao mesmo tempo em que somos feitos.

Eu lembro de um texto do comecinho do blog, que surgiu de uma piada tipo “se sua namorada disser que não quer ovo de páscoa, dê mesmo assim ou ela ficará zangada”. Dizia eu, dizíamos nós: se ela disser que não quer, respeite o que ela disse que é o desejo dela e não o que você acha que ela deseja. E se ela queria mesmo o ovo, mas não disse por recato, por educação, por charme, whatever, azar, da próxima vez quem sabe ela verbaliza sua vontade. Lá no texto tem (e sustento): toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso – perigoso porque continua alicerçado na idéia de que a mulher não pode ser responsável pela sua vida, pela sua vontade, pelos seus interesses, pela sua ação.

Nós podemos, nós devemos. Uma mulher deve poder dizer sim e não. Seguir e parar.

Não é arrumando formas de acolher, proteger e garantir o silêncio das mulheres que avançaremos, penso eu. Não é culpando homens por não saberem traduzir nossos discretos sinais de negativas dúbias, divididas entre o desejo que ele pare e o desejo que ele mude durante um encontro, que avançaremos. Isso não significa que não vamos (vamos, nós-pessoas, não apenas nós-mulheres) trabalhar e insistir para que os homens escutem mais, entendam mais, acolham mais, cuidem mais. Sim, isso é necessário. E será a contrapartida, penso eu, do movimento das mulheres de falarem mais, (se) afirmarem mais, se posicionarem mais em relação às sua intenções, vontades, expectativas, planos.

Não vai ser no automático. Não vai ser de agora pra amanhã. Não vai ser nem mesmo se todas as mulheres lerem este texto (ahahah) e concordarem e decidirem dizer seu sim e seu não. Porque somos seres de inconsciente, somos seres de cultura, somos seres sociais, somos ambíguos, contraditórios, seres em processo. Será preciso tempo, muitos encontros ruins, muitos nãos gaguejados, muita melhora na escuta dos homens, muito avanço na verbalização, muita mudança econômica (porque sim, segurança econômica não define, mas interfere na autoestima e na segurança emocional), muito avanço no campo das relações de igualdade de raça, muito mais coisa precisa acontecer para que.

Mas não vai ser é nunca se resolvermos apenas mudar quem tutela o desejo e a voz das mulheres. Não vai ser é nunca, especialmente, se consideramos que estes desejos e vozes são uniformes ou poderão vir a ser. Não vai ser é nunca se elegemos vilões e projetamos neles os equívocos e mascaramos a nossa conivência. Não vai ser é nunca se cristalizarmos as mulheres no lugar de quem precisa ser sempre defendida e resguardada de tudo – inclusive de um péssimo encontro – seja por família, Estado ou movimento.

Não basta uma decisão individual de cada mulher. Mas não prescinde disso. Então é preciso, penso, acolher a voz das mulheres, sem lhes tirar a responsabilidade pelo que é dito.

radicalchic

PS. o texto tratou do tema focando na relação homem-mulher porque a maior parte das questões que têm surgido de denúncias de abuso é sobre este tipo de relacionamento (sejam relacionamentos entre pessoas heterossexuais ou bissexuais). Isso não significa, de forma alguma, que relacionamentos entre homens e/ou entre mulheres não tenham, também, vivências de abusos, etc.

PS2. Isso não significa que não existam ambiguidades. Que as mulheres não possam dizer “não” e depois dizer “sim”. Ou dizer “sim” e depois mudar para o “não”. Meu argumento é apenas que se respeite o que se disse no momento: não é porque ela mudou pro sim que quando ela disse o não, o não já era um sim disfarçado. É que como pessoa autônoma, consciente e reflexiva ela pode pensar, sentir, ponderar e transformar sua decisão.

Exorcizando Fantasmas

I don’t care if it hurts
I wanna have control
I wanna a perfect body
I wanna a perfect soul

I want you to notice
When I’m not around
You’re so fucking special
I wish I was special

But I’m a creep
I’m a weirdo
What the hell am I doing here?
I don’t belong here

– Creep, Radiohead

Passei anos da minha vida tentando me adaptar a um padrão, tentei ser inúmeras vezes alguém que não se encaixava no que eu realmente me identifico, tudo isso pra ser aceita por outras pessoas. Passei anos da minha vida tentando emagrecer, me encaixar num padrão de feminilidade e beleza que nunca combinou comigo. Era outra mulher, outra Sara, uma Sara infeliz, uma Sara azeda.

Relações abusivas criam essa necessidade, não, nunca parece que é exigência do parceiro, parece sempre que você faz porque deseja mudar, que é algo que vem da sua vontade, que é um agrado a quem você ama. E isso vai te consumindo aos poucos, te fazendo mal, minando sua auto estima, te mostrando que sua beleza não existe, afinal, você não se encaixa naquele padrão que agrada seu parceiro.

O processo de se adaptar a um padrão que não era meu começou antes desse relacionamento, mas foi com ele que esse processo minou minha auto estima por completo, como eu acreditava que ele me conheceu magra, de cabelos compridos, usando roupas “femininas” eu devia me manter assim, se não ele procuraria outra desse jeito. Várias vezes ele deixou isso claro nas entrelinhas, que não era mais a Sara que ele conheceu, que eu parecia não me amar e não me cuidar pois estava engordando, não me depilava, queria cortar meu cabelo curto. Quantas vezes vi seus olhos de decepção pra minhas mudanças, todas essas mudanças vinham de um incômodo meu natural, quando fico estagnada por muito tempo num visual eu preciso mudá-lo. Ele não entendia, ele queria de mim apenas o superficial.

Era um objeto que ele mostrava passeando nas ruas, nas baladas, nos bares, nas fotos do facebook, quando deixei de ser aquele objeto, ele parou de me mostrar, vergonha de se relacionar com uma mulher fora do padrão. Não era mais a “morena” do corpão malhado e cabelos cacheados compridos e vermelhos. Queria raspar a cabeça, queria colorir o cabelo de qualquer cor, queria comer e beber bem sem me preocupar em malhar na segunda pra queimar o que ganhei no fim de semana. Ele ainda descobriu que namorava uma preta, comecei a me afirmar na minha identidade, comecei a questionar eu ficar invisível nas conversas, ele me admirava e me achava inteligente no início, eu tinha muita cultura pra passar pra ele, com o tempo ele foi minando o meu discurso, ele foi se afastando da admiração, comecei a incomodá-lo.

Sim, agora, quase um ano após o término, consigo enxergar tudo de errado que vivi nesse namoro, não foi a “infidelidade” ou a “traição” com outras mulheres que me fez mal, não ligo pra monogamia, o que me fez mal foi a insegurança da corda bamba por anos. Medo de ser abandonada pelo, segundo ele, único homem que iria me querer gorda, feia, de cabelo curto, desleixada, sem me depilar, louca, maníaca de ciúmes. Precisamos dar nomes aos bois, o que vivi foi uma relação abusiva e violenta.

Mulheres, tenham cuidado, se alguém precisa te fazer se sentir menor pra ficar bem, essa pessoa não merece estar ao seu lado. Procure amigas, apoio na família, numx psicólogx ou onde preferir, tente trabalhar sua auto estima pra sair disso antes que seja devastador.

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

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Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

Não é sobre a mais recente treta da internet

“…e eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas.
Tinha muitas caras porque era moço e porque eu mesmo não sabia
quem era e quem queria ser “.
(Milan Kundera, em A brincadeira)

É muito complicado definir o que o feminismo é ou não é. Como movimento social. Como significado individual. Como luta política. Como marco cultural. Nem vou tentar. Eu me disse feminista em 2010. De lá pra cá vi o alcance deste termo chegando em lugares e pessoas que eu não via antes (podia estar lá e ser cegueira minha, claro). E isso, penso, veio com (e trouxe) vários avanços. Um sensor mais atilado para as manifestações do machismo no nível macro e micro, por exemplo. A compreensão de que o individual é político.

Porém, ah, porém, essa última assertiva parece-me que vem sendo um tanto mal interpretada. Muita gente tem se dado o direito de se imiscuir na vida privada de outrens e, bem abancados ali, fazer julgamentos de base moral como se fossem crítica social. Criticar um moço porque ele é galinha é apenas moralista. Criticar um moço porque come mulheres e não dá notícia é apenas moralista. Criticar um moço porque parece legal, fala coisas afins com o feminismo e come muitas mulheres e some depois é apenas moralista.

Eu não estou querendo dizer que há pautas mais importantes. Estou dizendo que responsabilidade afetiva ou sei lá qual é o nome que chamam não deveria ser pauta. Somos seres de cultura. Somos seres de desejo. Somos sujeitos do inconsciente. E somos, homens e mulheres adultos, adultos. Ativos. Autônomos. Não se apoia, não se sustenta, não se valida a emancipação de uma mulher insistindo em uma infantilização afetiva. O desejo tem caráter social, mas não voluntário. Entender esta nuance é importante:

O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações. (texto, todo, aqui)

Um relacionamento não é abusivo porque outra pessoa nos passou um queixo fingindo (ou sentindo) interesse, trepou e depois se desinteressou. Um relacionamento é abusivo quando se usa um poder socialmente legitimado (seja ele financeiro, de gênero, de classe) para limitar a existência, a experiência e a possibilidade de outra pessoa. Eita, mas se a pesosa for escrota no relacionamento? Foi escrota. A gente se magoa e/ou fica puta e/ou ignora mas a gente sentir tudo isso ou uma dessas coisas não faz da outra pessoa um abusador nem do relacionamento um relacionamento abusivo. Do cara mentir pra trepar a mudar de idéia em relação ao que queria do vínculo há um mundão de coisas e nenhuma delas é abuso.

Mulheres e homens somos seres de falta e vamos nos foder nos relacionamentos. Isso não significa que está ok a pessoa mentir. Que está ok a pessoa sair correndo depois da trepada porque “acha que a outra pessoa vai se apegar”. Não está ok atropelar os sentimentos alheios. Vamos ser pessoas melhores, desenhar relacionamentos melhores, criar pessoas melhores, fazer filmes e canções com narrativas melhores sobre vínculos, etc. Vamos fazer do mundo um lugar melhor. Não porque seja machismo magoar a outra pessoa. Porque é legal, gostoso, sensual, delícia, confortável. E, mesmo assim, mesmo no mundo de pessoas gente fina, vai ter gente querendo, gente magoada, gente sozinha, gente ansiando, gente ignorando. Enquanto formos seres de desejo inconsciente, vai ser sempre foda.

Alguém vai ler e achar que estou dando biscoito, passando pano, etc. Ignoro, feliz, especialmente porque aposto que vão usar o termo “macho” na lacração – coisa que me faz desistir, de princípio, da interlocução. Eu vou continuar aqui, com bandeiras antigas,  incluindo aquela de que mulheres são gente, também. Para o bem, para o mal e para a dor de cotovelo.

Carta para Alice

Por Alexey Dodsworth, Biscate Convidado

Alice,

Você não lerá esta carta, mas os outros a lerão por você. Faz sentido, veja só: a partir de hoje, seu pequeno corpo se espalha pelo mundo, e viaja mais do que eu jamais viajei. Deste modo, apesar de a carta ser dirigida ao seu nome, os outros a lerão. No momento em que a escrevo, o processo de devolução de seu corpo ao mundo já começou, e a matéria que lhe compõe gradualmente volta a ser parte de todas as coisas, então faz sentido que os outros leiam o que é seu. Tem gente que não gosta disso, a gente cresce e é treinado a não gostar, mas é um lance muito mágico: a devolução começa pela terra, espalha-se pelo ar, até que um pouco de você estará nas coisas mais insólitas. De um jeito que a gente olha e pensa: será que tem uma molécula sua naquela planta? Átomos espalhados por um monte de pássaros?

Ninguém jamais saberá onde, e isso não tem a menor importância.

A vida é um sequestro temporário, Alice. A gente sequestra o carbono, o nitrogênio, o hidrogênio, o oxigênio, o fósforo, o enxofre e traços de outras coisas. Nossa constituição não é muito diferente da de um cometa, inclusive mais ou menos na mesma proporção, sabia? A diferença é que nós somos mais ricos: temos o fósforo. Será que é isso que acende a chama da vida? Eu não faço ideia, na verdade ninguém faz, mas a gente gosta de fantasiar que sabe tudo.

[…e escrevemos enciclopédias, criamos religiões, fazemos até guerras por causa disso. A gente é muito criativo – para o bem e para o mal.]

Daí que, um dia, todo mundo tem que se espalhar por aí de novo. E o que a gente era vira um sendo, o presente do indicativo se converte em gerúndio, e – olha só a mágica – a vida se refaz em novas formas. Só sofre quem não consegue enxergar a beleza da mutação. Mas, com o tempo, a maioria de nós aprende a ver.

Veja que coisa, menina: meses atrás, eu entrei em uma loja em Salvador, e comprei o vestido mais bonito que eu vi [eu tenho um gosto meio clássico para vestidos, não repare], pensando que você o usaria em seu aniversário de um ano. Você nunca vai fazer um ano, mas hoje seu pai me disse que você o usará no dia do seu espalhamento. Gostei disso. Nunca que sobrinha minha vai entrar desarrumada no grande salão de festas da Terra, que é o coração de todas as coisas.

E eu imagino você linda 🙂

Um beijo. Espalhe-se. Arrase.

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Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida

Mordi a língua [2]

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

Há coisa de um ano, escrevi o texto-declaração “Mordi a Língua” aqui nesse Biscate. Falava desses pontos de virada no roteiro das nossas vidas que pegam a gente de surpresa, fazem uma confusão na cabeça, dão um medão de sentir, mas que são uma delícia de viver.

Há coisa de um ano, eu mordo a língua quase todos os dias.

É um sem fim de bom dias <3 e boas noites <3, um mundo de corações e um monte de descobertas. Que delícia, eu não lembrava, ocupar o mundo do outro e deixar-se ocupar por ele. Embaralhar as manias… Fazer planos juntos. Contar e trocar o dia a dia.

É de uma intensidade esse tal de bem-querer. Essa vontade que dá e não passa. Um tantão de sentimento que não cabia aqui dentro naquele momento, e que continua não cabendo agora. Às vezes transborda.

E é difícil também.

Primeiro eu achei que não ia dar conta (às vezes ainda acho). Eu dizia sem disfarçar que: olha, não sei namorar. Como quem pergunta: tem certeza? Uma frase estranha pra um começo né? Mas queria dizer também (e talvez eu não tenha dito) que eu quero descobrir junto. Me ensina? Vamos nessa? Eu topo o desafio!

E quando digo que “não sei” já é também um pedido de desculpas pelas tantas besteiras que direi ou farei nesse nosso caminhar de mãos dadas.

Caminhando se faz caminho. E achei por bem pedir também: chegue de mansinho, devagarinho, como diria Martinho. Mas quem disse que eu sei mergulhar de pouquinho? Foi só pedir e morder a língua de novo.

Coisas que aprendi juntinho avec toi e que, sei, ainda pode mudar.

Eu sou samba, ele é bossa.

Ele canta, eu danço até na fossa.

Ele é fogo, eu sou ar

Ele é ninja, eu sou devagar

Eu sou texto, ele é melodia

Eu sou Pernambuco, ele Bahia

Ele é par, eu sou impar.

Ele é piscina, eu sou mar.

E a gente é tanta coisa a dois….

A gente é festa, manif, carnaval

A gente é amigos, filhos e tal.

A gente é sempre muito.

A gente é um sem fim agora junto.

Um dia ele pediu: escreve a letra de uma música? Eu não sei fazer isso. Sabe sim. Daí que aquele texto virou melodia. Um samba bossanoveado que é também nossa cria.

P.S. Trilha original do post: “Como Diria Martinho”, de JL e FM

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Sexo é a dois [2]

Já escrevi um sobre este temaMas dá sempre vontade de voltar a ele , tais são as demandas, as pressões, as exigências. Ser “bom de cama”, “satisfazer o outro”. Estar pronta para tudo, sentir um prazer intenso, ter múltiplos orgasmos coloridos, querer uma vez e outra e outra…. Tenso o negócio. Quem faz a contagem de pontos? Quantos quesitos serão avaliados? Evolução, enredo, harmonia? Comissão de frente, alegorias e adereços?

Acho que se fala muito de performance. Se fala pouco de escuta. Escuta do corpo, escuta do outro. Da dança que é o sexo a dois: ajeitos, encaixes, tentativa e erro. Acertos também, como não. Deixar-se ir sem pensar demais na chegada, aproveitando o processo. Exploração. Curiosidade. Abertura para o novo, para o outro: o outro que é outro e que é sempre diferente.

Adianta quase nada seguir regras estabelecidas, usar técnicas aprendidas: pra cada pessoa um ritmo, um gosto, um toque. Claro que a prática ajuda: mas com “prática” quero dizer experiência de escuta, de flexibilidade, de aceitação do que vier. Quanto mais prática, menos regras, entende? Mais possibilidade de perceber nuances e sutilezas. Murmúrios e delicadezas. A escuta do outro: não a mecânica – que é necessária, e seria até bom entender disso melhor -, mas aquela ali, do momento. A escuta sutil. A reação a cada ação.

E algo que acho que talvez seja o mais difícil de tudo: o soltar-se. “Solta o corpo e vai”, como no carnaval. Um desapego da pose, da máscara de todo dia, da compostura. Sexo é sem compostura. Deixar-se perceber assim não é evidente. Pode até dar um frio na barriga, uma sensação de desproteção. Sexo é mergulho também.

(Não, gente, não é amor: amor é outra coisa. Não precisa ter amor, sempre bom frisar. Mas respeito pelo outro, pelo desejo do outro, pelo corpo do outro. Confiança na entrega. Aquela, ali, daquele momento).

E assim dá pra vagar, sem muitas respostas, com vontades de saber mais. De conhecer mais. Aquela pessoa que está ali, naquela hora, com você. Aquele cabelo, aquele olho, aquela boca, aquela mão, aquele corpo inteiro que tem consistência e forma, que tem seu próprio jeito de ser-com-você. Na cama. Ou “na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”.

Ah, só mais uma coisa, que já disse no outro texto, mas acho que vale repetir: leveza. A leveza de saber que não precisa ser incrível todas as vezes. Nem sempre o encaixe, o ritmo, o gosto vão ser aqueles que tirarão você do chão. E daí? Daí nada, ora. Pode ser apenas o.k, ou até não ser bom de fato; dessa vez não foi, quem sabe na próxima? Até mesmo com aquela pessoa, se houver interesse e vontade: de repente não foi da primeira, mas se conhecendo mais, dizendo dos gostos e vontades… sabe-se lá. Vai que.

Resultado de imagem para sexo simbólico

PS. Também no Biscate: Boa de Cama e Tem Sempre que Gozar?

Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

O Último Demônio

Exposição de Raquel Stanick

Exposição de Raquel Stanick

Não sei mais escrever histórias de esperança. Muito menos de acontecimentos alegres. É que cantei demais naqueles dias em que quem sabia fazia a hora, não esperava acontecer. E talvez, apenas talvez, a nossa hora tenha passado enquanto estávamos caminhando.

Ainda acordo de ressaca, sentindo falta dos afetos, que de comum nada tinham, e que brindavam conosco os dias e as noites, em viagens, palavras e encontros, reais e imaginários. Não há mais clima, estamos todos tensos e temos Netflix.

Teorizamos nossas verdades achando que alguém as compraria. Algum dia. Estamos sendo pagos com ódio e medo dos que perderam-se antes de nós. Todos, absolutamente todos, presos na mesma teia de ilusões, esperando morrer ou matar. Talvez essa seja a ressaca.

Talvez melhore a dor de cabeça, se tivermos coca-cola em jejum. Se eu me iludir um pouco mais, talvez dê para aguentar a terra plana e o abismo depois do mar. Talvez eu pare de beber porque ainda somos amigos. E biscates. Talvez, assim, consigamos sobreviver aos encontros e despedidas. Talvez.

Monto um brechó na ilusão de que foi o peso em alguma de nossas tantas viagens. Mais a sobrecarga do tempo. Vendo, troco e negocio em nome da minha negação. Você diz que eu estou fugindo, eu afirmo novos ares. E agora? Amores ou amizades?

Eu vou fazer uma canção pra ela…

Por Patrícia Melo, Biscate Convidada

Se fosse pra escolher, nem tinha ido. Sério! Sabe aquele momento em que tudo que você quer na vida é sossego? Sossego de tudo, mas, principalmente, um tempo de sossego nos afetos, na turbulência do sangue, uma afastada – delicada – daquelas borboletas na barriga?  Então, você me entende, né? Todo mundo tem um tempo assim, desses em que você está ali, em situação de ponto final em uma história e não quer saber de reticências…

ligia guerra olhos

Pois é, foi em tempo assim que eu me vi diante de olhos solares. Já viram isso? São olhos que cintilam! Em qualquer lugar, até no escuro. Nem queria chegar perto porque eu nem queria nada. Com ninguém. Estava bem contente com meu cuidado comigo. Gostava das tardes de cinema vagabundo onde o filme não tinha tanta importância e a pipoca era só minha. Adorava as garrafas de vinho esvaziadas ouvindo música na sala. Achava uma riqueza incomparável um livro inteiro com um dia todinho só prá ele. E quando chovia, era só andar na cidade sem rumo… Eu estava gostando da vida sem olhar o telefone a cada 5 segundos, sem pensar em programas de fim de semana, sem organizar agenda pra poder dar conta de tudo. Gostava da minha companhia. Adorava, pra ser bem sincera. Não queria nada.

Aí, bem… Teve um dia em que fui atropelada por aqueles olhos solares. Já falei deles? Já. Desculpa. Eu acho que nem consigo me explicar direito. Já falei do riso? Eu havia me apaixonado pela Capitu quando li sobre sua gargalhada “argentina”. Só entendi como soava na mesma hora que escutei a dela. Tilintava como prata. Lembrei na hora! Havia um quê de perigo no ar. Eu deveria ter percebido. Tinha energia demais ali. Tinha jogo de cena, muito medo junto e, ao mesmo tempo, muita curiosidade (ou seria coragem?). O mais engraçado é que ninguém queria nada. Mas, havia tanto que saber, tocar, ouvir, compartilhar, sincronizar.  Havia tanto que rir, tanto pra experimentar! (“Chegastes? Cheguei!”) Havia tanto tanto que a gente nem sabia o que fazer. Nada de pânico. Que viesse um dia de cada vez.  E eu, que não queria nada, quis tudo. Porque era ela. Porque era eu.

patricia-sampaio

* Patrícia Melo é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

 

Bisca em Crise

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

“Ainda bem que a gente detém o direito autoral das nossas próprias vidas e pode sair por aí contando o que quiser, do jeito que quiser, como quiser, pra quem quiser”. Ela havia escrito isso recentemente a propósito de um texto antigo do Biscate que compartilhou nas redes. O texto específico era sobre finais e recomeços. E, como todos os que tinha escrito até hoje para este cantinho de libertinagem, tinha um tom absolutamente pessoal.

Ela trabalhava com palavras, criava histórias, personagens e enredos fictícios. E achava que a graça de vez por outra escrever neste espaço biscate era mudar a tecla e desnudar-se um pouco. Falar sem cerimônia de coisas pessoais _ algumas sobre as quais tinha até dificuldade de falar no “ao vivo”, mesmo com amigos próximos. Era uma biscate autorreferente. E, até então, esbarrara apenas no limite entre o quanto queria abrir sobre sua vida e o que queria guardar. Assim, escreveu sobre a dor da separação, sobre a solteirice, declarou-se pra um crush, falou sobre morder a língua e entregar-se de corpo, alma e adoráveis cafonices para uma nova paixão.

No começo do namoro pensou em escrever sobre esse momento de “início de algo que a gente ainda não sabe o que será”. Um tempo de página em branco a ser preenchida, de se apresentar pro outro no meio de tantos sentimentos. Acontece que essa fase, em que a pessoa fica em carne viva, meio que trocando a pele, entendendo como dividir a vida com o outro e esbarrando também nas questões práticas mais diversas, calhou de coincidir com o tempão em que o Biscate ficou fora do ar. Enquanto os dois namorados levavam as novas escovas de dente para a casa um do outro, não teve que pensar em temas “Biscate”.

Agora tinha recebido um inbox: o Biscate voltou, tem texto? Tinha. Alguns. Foi lá na caixinha “primeira pessoa” ver o que podia usar e foi então que se deu conta da crise. A crise mais anti-biscate que alguém poderia ter. Uma crise quase inconfessável neste lugar de mulheres tão fodonas e tão donas de seus narizes, de seus corpos, de suas histórias. Pois bem, a crise era bem banal: será que nesse contexto de ter um “avec” teria coragem de continuar assim tão desabrida para o mundo? E dessa dúvida pintaram outras…

Dá pra continuar falando de suas crises e questões sem explanar a intimidade do outro? Seria incômodo pra ele que ela falasse da relação? Será que ele próprio se sentiria exposto nos escritos dela? Será que o direito autoral do que vivemos com os outros é nosso mesmo ou também é do outro?

A cada pergunta, carregava um pouco mais nas tintas e aumentava um pouquinho essa angústia. Começou a se questionar inclusive se era biscate de verdade. Achou que finalmente seria desmascarada e as editoras do BSC iriam perceber que ela era uma farsa. Uma não-biscate fingindo ser bisca-madura-e-bem-resolvida. Aventou a possibilidade de ter confiscada a sua carteirinha de bisca convidada. Temeu nunca mais pedirem um texto. Ou pior, nunca mais ter uma ideia pra um texto-bisca. Logo ela, cuja vida sempre fora um fêicebuki aberto. Olhou a página em branco e se viu afogada em palavras cortadas, ideias abortadas, temas delicados… Ficou sem ar.

Aí abriu os olhos e acordou. O namorado dormia ali do lado. Sentiu um sossego na alma por aquela parceria que estavam construindo. E um desassossego de ideia nova surgindo. Deu um beijo nele e começou a escrever o texto mentalmente. Foi até o computador e enquanto escrevia teve ideia para outro e outro ainda. Todos pessoais, desabridos, escancarando algum lado da vida dela. Não fosse assim, não seria ela: uma bisca não tão bem resolvida, mas que adorava vez por outra escrever neste espaço e desnudar-se um pouco.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Parênteses

Por Maíra A., Biscate Convidada

2015 foi o meu ano dos homens. E do respiro. E de desejar e ser desejada. Escrevi textos pra todos os meus homens de 2015, que fizeram de mim Fênix, mas não escrevi pra você. Talvez porque você sempre estivesse ali e sempre esteja aqui pra mim. Estar com você é sempre um estar-em-suspensão. Apesar de o-que-ou-quem-quer-que-seja. Homens chegam, ficam ou param por uns minutos, se vão. Mas você é o que sempre volta. E o lindo é isso: você não ser jamais o que fica, mas ser o que sempre retorna. Na forma de uma mensagem de whatsapp, de um café, de um abraço ou do melhor sexo, o mais sem censura, o com mais conexão. Fixação circulante. Solidez evanescente. Profundidade leve. E é mágico esse colocar-entre-parênteses das roupas arrancadas, do desejo realizado, da conversa que passeia da piada cotidiana ao teatro elisabetano. Da lembrança das aulas de grego ao orgasmo homérico do aqui-e-agora.  Com você flutuo na corrente do desejo e juntos boiamos à deriva, sem expectativa alguma de onde chegar, só aproveitando abraçadinhos enquanto a correnteza favorece. E é na suspensão das expectativas, no flutuar do corpo, que a nossa beleza explode, que a nossa alquimia acontece. Completamente despidos de roupas, expectativas ou demandas, juntos somos, apenas e assim mesmo: intransitivamente. Apenas somos. Apesar de. Aliás, exatamente porque. Não sei se cinza da morte ou se apenas poeira cotidiana dos dias. Mas contigo do pó renasço. E ao pó retorno. Poeira de estrelas. Amor-enigma com destinatário, mas sem endereço. Latência que pulsa. Tesão que move. Pulsão que se movimenta. Movência que late. Bocas que se mordem. Braços que se abraçam. Se demoram. Se despedem. E que me suspendem. Enfim, me sinto viva. Parênteses fora do tempo.

11655554_962417763789402_1559661885_nMaíra A. é linguista por profissão, feminista por atrevimento e alegre por esporte. Adora se reinventar e reinventar a maneira de ver as pessoas e o mundo.

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