Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

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Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

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Jane Eyre e o Sr.Rochester

“Como Homem”

Por Vevê Mambrini*, Biscate Convidada

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Hoje eu tinha que trocar as lâmpadas do farol do carro, e trocar o óleo – na verdade, já tinha passado do tempo. Cheguei no Mercado Car, fui direto pedir ajuda, e o atendente identificou em segundos as lâmpadas queimadas. Eu tinha reparado como ele é bonito e atraente. De costas, debruçado no carro de capô aberto, ele se vira e me fala: “Você não se assusta com o que vou falar? Mas você é a Hermione”. Não tinha como eu não me assustar. “Emma Watson, né? Você é igualzinha a ela.” Eu já tinha achado ele tão simpático, tão atraente. E de repente ele era também divertido – então só conseguia pensar em como deixar meu telefone, como chamar para uma cerveja, perguntar se ele queria bater um papo, se ele queria e podia sair comigo.

Subi no mercado para comprar as lâmpadas e o óleo de motor, pensando em atalhos para chegar no moço (por que não ser direta?) e me pareceu tanto com como quase sempre os moços se aproximam, como se precisasse de um grande pretexto, de uma história. Como se houvesse um “pensar como homem”. Fiquei pensando em como ele se virou de uma forma espontânea e despreocupada, e no fim, eu não sei se ele não olhou mais nos meus olhos longamente por desinteresse ou por vergonha. E eu fiquei com a cabeça nisso: outro dia, um outro moço “se comportou como homem” comigo: contou mentirinhas de amor para chegar num apaixonamento que ele nem queria, e sem querer, descobri que na mesma semana ele tinha feito o mesmo com outra pessoa. Problema nenhum com a piriguetagem, quanto mais melhor. Só me ressenti com a falta de fair play. Não precisava: a gente ia dar de qualquer jeito. Flertar de qualquer jeito. Tremer de qualquer jeito. Mas acho que o interesse, posto assim na mesa, fez perder a graça para ele, especulo. Me pergunto se para todo mundo é assim: se o jogo de enredamento precisa ou prescinde de mentirinhas.

 Mentiras de amor, como o Tom cantaria para a Lígia. Os desencontros de interesses fingidos para chegar a algum lugar. Os papeis esperados para as pessoas ficarem menos confusas diante do mistério do outro. Me peguei na fila, com quatro litros de óleo de motor nos braços, pensando no que lubrifica as relações, no que impede que nossa engrenagem não pare. No meu combustível, na manutenção que falta em algumas relações: uma educação emocional, que ensine a ler o outro, a improvisar um pouco mais fora dos scripts, a ceder com gosto e avançar ao ler com segurança o desejo alheio. Em que uma isca rende uma fisgada, em que onde um lança, o outro caça, e onde o silêncio também é uma resposta.

Esses dias andei pensando em reler O amante de Lady Chatterley. O livro é lindo e livre, mas preciso saber se as mil leituras da minha adolescência vão resistir às pensaduras dos últimos anos. O que ficou são imagens de escolhas muito livres e corajosas, muito além de quadrantes de gênero, ou classe. Escrito em 1928, chega a doer pensar que em 2016, ele seja tão progressista quanto eu me lembro. Arrisco dizer que foi grande parte da minha educação emocional: da escolha de ser transparente com quem desejo, de abrir o peito e mergulhar no vendaval. De gostar de jogar, mas no fair play. De querer curtir as regras iguais para meninos e meninas, nas infinitas combinações. De combinar os combinados, e experimentar o que se apresenta, maduro e doce.

Aí eu penso no moço das mentiras, e no moço para o qual eu não consegui falar a verdade. E penso se tem segunda chance para todos nós. Penso no tempo que estamos perdendo.

vevê* Verônica Mambrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

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A Praia

Voltei à nossa praia esses dias. Refiz o mesmo caminho, passei pelo posto onde compramos cigarro, mas dessa vez não parei. Segui pela mesma estradinha estreita, vi as casas dispostas em círculo, lembrei das histórias que me contou da sua infância. Sorri ao me lembrar de você. Dessa vez não tinha sua mão na minha perna, nem a cerveja entre as minhas coxas.

Refiz todo o caminho, mas cheguei à praia por outro lado. Engraçado isso. Ver que existem outras saídas, outras formas de se chegar àquele lugar tão bonito e tão esquecido. Olhei o mar e lembrei de você. Na verdade, falei de você por um bom tempo enquanto chegava lá. Olhei o mar e me joguei. Pela primeira vez. Sozinha.

Mergulhei naquelas águas calmas em consonância com meu peito agora tranquilo. Deu saudade de você. Deu saudade daquele dia ali com você. Vi o mirante de longe. Sorri aquele canto de boca das lembranças de volúpia da noite que passamos ali.

Aquele mar me lembra você. Entrei nele sabendo que era preciso ressignificá-lo. Ir “à nossa praia” foi a minha maneira de ressignificar os lugares por onde passamos juntos, ressignificar você na minha vida. Entrei no mar e mais uma vez me deu saudade de você. Imaginei teu corpo bronzeado mergulhando ali. Uma pintura bonita. Mergulhei e tive a certeza de que fiz a coisa mais certa que eu podia fazer, a decisão mais sensata que eu podia tomar. Voltei à superfície feliz com que eu sou.

Saí do mar e me esperavam na areia com uma cerveja. As coisas agora eram diferentes. O mesmo cenário, outras histórias. Começo de temporada. Fiz questão de almoçar naquele mesmo restaurante, disse a todo mundo que era o melhor peixe da região. Acho que é o único por ali, né?

Voltei pra casa por outro caminho. Aquela praia não é mais a minha praia com você. É mais uma praia por onde já andei, que está no meu roteiro, que posso dizer que já a conheço. Vivenciei outras alegrias, estive com outras gentes. Você ainda é a pessoa que me apresentou aquele lugar até então desconhecido, mas não é mais minha única referência. Você agora é lembrança doce que me visita vez ou outra.

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Não Há Resgate

Por Tarsila Mercer de Souza*, Biscate Convidada

Quando a gente tem 17 anos, ou quando a gente está apaixonado, nos ocorrem algumas ideias estúpidas, como prometer algo impossível de se cumprir.

Coisas como o amor eterno, a amizade infinita, a fidelidade incondicional, a lua e todo tipo de patifarias que poderiam servir pra comprar mais alguns minutos com a pessoa que a gente deseja.

Nesse mesmo contexto, as pessoas fazem outro tipo de coisa estúpida que é justamente comprar essas promessas.

A consequência lógica é a história de Ícaro. As asas de cera que foram inventadas pra chegar ao sol começam a se derreter com a própria presença do sol. Soa familiar?

Não temos asas, é claro. E seguimos, aos tropeços, apesar do tombo. Eventualmente, vamos sacando outros esquemas menos toscos pra voar: mais seguros, ou mais inovadores, ou mais complexos ou mais atrapalhados – alguma ideia maluca, algum plano futuro, alguma fantasia delirante pra ajudar a empurrar o nosso tempo interno adiante.

Eu ia dizendo que não há resgate.

É que esses tombos amorosos, essas promessas furadas, derrubam pessoas, literalmente. Ainda que as ‘asas’ sejam metafóricas. Quem nunca se trancou num quarto pra chorar e perdeu um dia de sol? Quem nunca esmurrou uma parede? Quem nunca atirou um celular no chão? Quem nunca lambeu o meio fio?

Depois de tentar voar no rabo dum relacionamento platônico que se desmanchou com a concretude. Ou depois de tentar se pendurar num amor eterno que se mostrou inteiramente dependente de uma contingência pra lá de específica.

Pois então. A gente derruba, e se derruba.

Quando a gente está na creche e a gente derruba o coleguinha, a professor nos faz pedir: Des-culpa.

Ora:

Como se desculpar pela ignorância? Ou pior, por uma ignorância que se escolheu livremente?

Como presumir culpa desta situação toda, para que se possa des-culpar?

Como lidar com a morte de um sonho? Como viver e conviver depois do sonho, olhando ainda pras caras de quem participou dele?

Não há resgate. Mas há o resgate de não haver resgate; saber que a matéria transformada jamais será novamente a mesma – mesmo que se retransforme, será uma nova história, um novo contexto. E isso faz dos caminhos dessa matéria – que são os nossos afetos, nesse caso – tão aleatórios, tão contingentes, tão acidentais quanto qualquer outra bela invenção que fazemos. Tão neutros, o que quer dizer: tão potencialmente bons.

Uma amiga, a Renata Correa, me disse esses dias: desromantizar para poder amar, para poder sentir direito. Resgatar o fato de que não há resgate pode, no fim das contas, ser uma boa notícia.

Um pedido de desculpas não des-culpa, não resgata, não redime, não desfaz a queda, não restitui um sonho.

Mas pode ser qualquer tipo de re-começo. Um jeito de não adoecer mais pela falta da redenção. Uma forma de aprender a reutilizar os pés.

foto perfil*Tarsila Mercer de Souza é escritora, pesquisadora qualitativa, gosta de inventar passos de dança.

De perdas virtuais etc.

Sou do tipo que não se desfaz de amigo. Amigo, se é amigo, é amigo. Discordo, discuto, contesto: só que é amigo, ora. E assim será.

Mas esse texto – de que gostei muito – me fez pensar em outra circunstância: aquelas pessoas com quem convivo em redes sociais, algumas que até  já encontrei pessoalmente, e que se desfazem de mim. Assim, sem nenhuma briga, nada: elas me “desamigam”, provavelmente por não concordar com algo que eu disse, que eu postei, ou por terem problema com as pessoas com quem interajo. Por não aderirem à minha opinião, por achar que tenho más frequentações, por se sentir atingidas por uma indireta que não mandei.

Algumas dessas eu gostava de ler, com outras de interagir. Com algumas dessas eu já conversei inbox, já troquei e-mail: um passo à frente nas relações virtuais. Outras ainda eu já encontrei “no mundo real”, já sentei em bar, já tirei dúvidas, compartilhei preocupações e alegrias.
E, claro, é sempre possível brigar. Se desentender de verdade, achar que pra tudo há um limite e que não dá pra continuar daquele jeito. Não é disso que estou falando: é do desamigar fofo, sem aviso prévio: de repente, você vai falar com a pessoa e ela não está mais ali, na praça virtual em que se encontravam todo dia.

A minha reação, nesses caso, é assim, em geral: lamento um pouco pela relação que eu achava que era e não era.

Sinceramente, é só um pouco: porque, de verdade, o que fica mais forte é o “que não era”. E eu sou boa de me adaptar a choques de realidade. Se não era, então… não era. Porque alguém que corta relações comigo por esses motivos, sem nem dar um tchau, afinal, não era amigo, não é mesmo?

Vida que segue.
É aprender a entender a falta, lamentar sinceramente, e seguir adiante. Desapegar, soltar, deixar ir o que não é mais.
(E, sim, eu estou escrevendo um texto inteiro sobre corte de relações virtuais: pequenas coisas que têm a ver com coisas maiores, virtual-real que a cada dia mais são dimensões de uma realidade só.)

Se poupar? Economizar relações? Ficar protegida e resguardada? Não é a minha praia. Não é “do lado de fora”, não será “do lado de dentro”. Prefiro estar sujeita a isso: a descobrir, de repente, que uns que achava que era não eram. Até porque afinal, tem os outros: aqueles que, de verdade, são. E aí é de grão em grão. De clique em clique. De post em post. A gente vai construindo. Desbravando, caminhando, conhecendo. Se escrevendo, comentando, discutindo. Gostando, sim. Gostando, ué. Faz parte.
Bora lá. Me adiciona aí que eu tô com um bom pressentimento.

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Declaro para os devidos fins

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Declaro para os devidos fins que…

Eu sou a fim de você.

Pronto. Falei. Ufa. Saiu. Nem foi tão difícil.

Peraí… Tá falado mesmo? Você ouviu? Ou escrever foi só um jeito que eu arrumei de não falar de outro jeito. Eu sempre com essa mania… Mas agora, fui lá, voltei na primeira linha e parece que eu falei mesmo, com todas as letras.

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Não sei se você queria ouvir isso. Nem sei bem o que eu quero dizer. Mal te conheço… A fim. A fim como? No dicionário diz que é: com intenção ou vontade de. É isso. Tô com vontade. Sou hoje uma vontade em forma de gente. E vontade é como fome, a gente sabe quando sente.

Quando eu tava pensando como é que eu ia falar isso, fiz até uma rima desajeitadamente adolescente que diz assim:

Vou falar de um troço bonito
De um jeito diferente
Vou pegar essa vontade
E embrulhar pra presente

A coisa em si eu não sei definir
Tá lá dentro e é bom de sentir
Faltava falar
Pra poder existir

E aí, você me pergunta: mas por que agora? O mundo caindo e você aí sentindo coisas? Ainda mais em público. Qual é o link? Explico. Outro dia, escrevi um texto aqui mesmo que era um pouco sobre isso. Era alguém muito seguro falando um monte de coisas sobre esse negócio de gostar, de ter vontade e não saber o que se passa na outra cabeça. O texto teve mais de 300 compartilhamentos. Uma penca de gente achou legal. Mas uma amiga observou que eu simplifiquei tanto tudo que aquilo não queria dizer mais nada. E que até parece que esse negócio de gostar é simples. Devo dizer que a amiga tende a ler entrelinhas, sobrelinhas, sublinhas, onde às vezes só tem as linhas mesmo. Mas nesse caso, ela tinha razão. Gostar não é simples.  A começar por mim que não consigo nem falar que eu tô a fim.

Me senti meio canastra, sabe? A real é que pra mim, falar é a última opção possível. Evito com todas as forças, sobretudo na vida pessoal. Falar pra mim é trabalho. Às vezes eu gosto que seja assim. Às vezes desgosto profundamente. Hoje particularmente eu tô achando uma covardia não te contar dessa vontade. Cara, não sinto uma vontade gostosa assim há tanto tempo que seria uma puta sacanagem guardar só pra mim.

Então pronto. Declaro para os devidos fins que… Ah, você já sabe.

Pode não ser a hora nem o lugar pra uma declaração de gostar desatinada. Essa cartinha pode ser datada, pouco moderna, nada cool, mas taí. E pensando bem, eu sou meio assim mesmo: datada, pouco moderna, nada cool, só que de tênis.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Profundidade

Eu sempre cutuco meus irmãos dizendo que meus pais gostam mais de mim. E explico: ora, se os pais gostam igualmente dos filhos como dizem, então eu nasci, eles amavam a mim, dois anos depois minha irmã nasceu, eles passaram a amar igualmente as duas, logo eu tenho dois anos de folga de amor de vantagem, irrecuperáveis, inalcançáveis, já que eles vão amar sempre igualzinho (e ainda mais ampla vantagem sobre o que nasceram 5 e 9 anos depois).

Eu sempre lembro disso quando converso com alguém que me diz: eu queria tanto biscatear, mas só consigo ter relações profundas, namorar muito tempo e tal. Como se calendário fosse critério para entrega, afeto, cumplicidade, tesão, cuidado. E não é uma pessoa ou duas que vai por esse caminho. É como somos ensinados a pensar (especialmente as mulheres): só vale a pena se for com um “felizes para sempre” carimbado. Que não importa o quão gostoso foi o rala e rola, quão intenso foi o fim de semana, quão delícia foram aqueles encontros de feriado-uma-vez-por-ano (assistam, assistam), só valeu de verdade, só foi profundo, só é amor se tiver a medida (e a garantia) do tempo como fiadora. Os relacionamentos tem que dar certo e dar certo means durar muito tempo, de preferência a vida toda, e incluir papel passado e patê de camarão na festinha do enlace.

Mas, luciana, quando se passa mais tempo junto a gente pode se conhecer mais. A gente pode passar por mais coisa, morte de familiar, novos amigos, nascimento da sobrinha. Quando se passa mais tempo junto a gente pode descobrir que lamber aquele vão entre o dedão do pé e o dedinho seguinte deixa a outra pessoa subindo pelas paredes. A gente pode ficar sabendo dos medos, das vontades, dos limites, das perdas. Pode, e é bom. São aqueles dois anos ali do começo do texto, que eu tenho de folga sobre minha irmã. Mas isso não é garantido nem determina a profundidade de um lance. Não tem balança pro sentimento. Nem para vivências. Não tem régua. Afeto não é açude, pra gente medir a profundidade da coisa em centímetro cúbico vivido. Penso eu (mas eu penso muita coisa boba, vai saber).

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Quando os pais (ou qualquer pessoa, estou falando dos pais por ser o exemplo mais clássico) dizem que amam igualmente a gente meneia a cabeça. A gente ri por dentro sabendo que se tem mais intimidade com um, confia mais no outro, ri mais com esse, liga no aperreio mais para aquele. E eles meneiam e riem de volta, porque sabem além, sabem que não é disso que esse “amar igual” trata. É da especificidade de cada relação. Do fato de cada vínculo ser em si mesmo, satisfatório, dolorido, bonito, gostoso, especial. E como justamente a diferença absoluta impede qualquer tipo de comparação ou hierarquia, é nesse igual, alicerçado no impossível de classificar, que se constroem os afetos.

A profundidade do lance – seja o vuco-vuco descontraído e apressado no banco de trás do carro na saída da boite, seja o casamento de 37 anos – se concretiza, acho eu, na forma como lidamos com ele. Não, não sou das abstrações, não prescindo das materialidades. Na minha história, eu sei, eu lembro: tem aquele com quem a cumplicidade foi imediata, o outro a quem confiaria a vida, aquele com quem ri fácil (opa), um pra quem até hoje posso telefonar no aperreio. E por aí vai. Mas sei também que cada envolvimento desse me fez quem sou. E me recebeu inteira (ou melhor, me recebeu faltante, desejante, porque não-ser-toda é característica fundante da humanidade). Sei que cada vínculo é, pra mim, especial, gostoso, bonito, dolorido, satisfatório. Único. Que a profundidade vem do quanto me deixo penetrar. No quão aberta estou. Em como recebo. E, em pêndulo, entrego ao receber.

Não há garantia pro viver. Acho eu que a gente perde um bocado quando não vive alguma coisa porque não vai durar. Há um gozo em não saber. Sabe o gostosinho que era brincar de rodar com os olhos fechados, de braços bem esticados, de mãos dadas com alguém? Tira o fôlego. Como um mergulho. A profundidade não vem de quantas vezes a gente se banhou naquelas águas, mas de quanto tempo a gente consegue ficar sem respirar*.

mergulho_livre_OVD* “Tomás compreendeu então que as metáforas são perigosas. Não se brinca com as metáforas. O amor pode nascer de uma simples metáfora” (Milan Kundera).

Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

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Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Por um GIF

Por Sonia M. Nunes*, Biscate Convidada

Eu tava quieta. Juro. Aos 54 anos incompletos, os calores da menopausa substituindo, ainda que sem muito prazer, os calores afoitos do tesão desmedido da juventude.

Eu tava plácida, sem graça, até. Um banco vazio de uma igreja silenciosa. Há tempos que Morzinho não acreditava, dizia que era desculpa de quem não amava mais, como se tesão e amor fossem gêmeos siameses e inseparáveis. Vai explicar pro gajo o que é uma xoxota seca…haja macho com cabeça (ops) boa pra pra não se sentir rejeitado, desprezado, traído.

E lá vai ela, a relação, se esvaindo pelo KY, pelo “desculpa-de-novo” e pelo “não-tô-a-fim/ não é nada pessoal”. Até que um “eu não quero, porra!” coloca a derradeira pá de cal na porta do quarto. Da casa. De nós.

One more kiss dear… one more sigh… only this, dear, is goodbye…

Mas eu tava tranquila mesmo, juro quantas vezes quiserem. Achava até bom tanta calmaria. Nunca fui partidária da velha máxima “é impossível ser feliz sozinha”. Me divirto legal comigo mesma, minha imaginação é fértil, cês nem imaginam… A bem da verdade, acho até mais fácil não ter que compartilhar, argumentar, ceder aqui para ganhar ali.  Tenho amigas que acham difícil viver sem um par, ok, eu respeito, mas nunca entendi isso muito bem. Tava na minha e tava feliz. Sem sexo e sem sentir a falta de. Sabe aquela mansidão morninha que se confunde com paz de espírito? Pois.

Tem gente que chama isso de “egoísmo”. Eu prefiro creditar à preguiça. Tesão na balela da quase “melhor idade” dá trabalho, pô. Tem aquela coisa de conquistar a cada dia, não tem? De calcinha nova, brilho nos olhos, pegapácapá. E os ciúmes. E as pazes. E os suores. Mesmo que não seja numa relação mais firme, que seja na mais pura piranhagem, a coisa toda tem que rebolar, subir, descer, remexer, chacoalhar. E o orgasmo… não, não é que eu não goste, imagina. É que sempre me incomodou o “ter que”. A perguntinha “já gozou?”, que considero infame, me tira do sério, por melhores que possam ser as intenções. Assim como sempre me incomodou Morzinho achar que era ele quem me dava o orgasmo. Ah, os homens, tão tolinhos: nem percebem que o orgasmo é meu!

Então…

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Eis que uma mordida no cangote e um…ahn….bate coxa entre dois jogadores num jogo de futebol qualquer se me chegam às carnes via um GIF do Facebook. Pra quê? Os suores se multiplicam em questão de segundos, o fogacho se transforma em fogo interior e todo um mundo de pensamentos libidinosos relampeja – me em arrepios. Donna Summer, Gainsbourg, lá estava eu, 20 e poucos anos de aflição novamente. Os lábios – os grandes e os pequenos – batendo palminhas e cantando alegremente um parabéns pra você tal qual uma bêbada e lânguida Marilyn. Valha-me Nossa Senhora da sacanagem: dois homens suados e barbudos, eis os meus neo- cupidos da esperança! Há algo de estranho nesse fetiche, vamos combinar. Ou será que não? Ah, mas, quer saber? Do alto dos meus 54 anos incompletos, já me sinto apta a declarar um rotundo e sonoro Foda-se. Melhor ainda: Foda(m)-me.

Ah, essa carne, querida carne… até que é bom sabê-la ainda fraca! Safada! Vaca, cachorra, puta! Welcome back, lust . Finalmente de volta ao lar, Messalina de Copacabana!

FotoSonia


*Sonia M. Nunes
se cala, se fala, se sente. Se acha, se larga. Se lagarta, tixa. Solta, salta e sola. Brinca, braque e breca. Gosta de rimas e de prosas, de palavras e palavrões. De coisas como dedos e dedões (duros, não). Fala pelos, pentelhos e desassossegos. Pudores e pruridos. Sonia não se cabe, não se pesa, não se mede. Só, se toca. Sonia is a bitch. She wish.

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