Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Em tempos de “tá dando condição”…

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Algo tem me intrigado nos últimos tempos. É uma pergunta simples e recorrente em conversas com as amigas de todos os tipos: biscates, recatadas, solteiras ou casadas. Como é possível ser gentil, trocar uma ideia, fazer novos amigos sem que o outro ache que você tá a fim, tá dando mole ou, na gíria atual, “tá dando condição”? E ainda, que porra afinal é esse troço de dar condição?

Pra ilustrar, vale lembrar um casinho tão real quanto corriqueiro.

Ele chama ela pra uma cerveja, ela topa. Ela nem sabe se quer mesmo “encontrar ao vivo” , mas o cara parece legal pelas conversas inbox. É amigo de amigos, inteligente, por que não? No dia da tal cerveja o cara dá uma investida e ela recua (sua suspeita de que ele era mais interessante no inbox procede). No dia seguinte o cara manda um inbox indignado: “Se não queria nada, por que topou encontrar?”

O ser humano é de fato curioso… O cara chama pra um chope, você topa. Ok, até aí nada. A única coisa combinada é que vocês vão tomar um chope. Certo? Errado. Tem um determinado tipo de pessoa que acha que ir tomar um chope “sozinha” com o cara é “dar condição”. Nessa lógica, chamar ou dizer “sim” pro chope é “dar condição” pra todo o resto. (E não vou nem mencionar aquele subgrupo que acha que “quando ela diz não, no fundo quer dizer sim.” Ardil 22. Neste caso não tem saída mesmo.)

Então, vamos lá, voltemos ao básico, tantas vezes maltrapilho, maltratado e esquecido.

Vivemos num mundo de sedução. Estamos todos, a todo momento, seduzindo uns aos outros. Isso é bom. É saudável. É gostoso. É biscate. Eu, você, casado, solteiro, padre ou adepto do poliamor, queremos gostar e ser gostados. Daí pro sexo, pra relação estável e pro pedido de casamento há um mundo de possibilidades. Às vezes, comprometimentos anteriores e convenções sociais nos impedem de ir adiante. Outras vezes simplesmente não queremos ir adiante. Queremos parar por ali mesmo, pelo menos por ora. Há ainda as inúmeras vezes em que mudamos de ideia. É aquela velha máxima: depois de um chope, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Assim, topar um chope, conversar ou mesmo seduzir e jogar charme não quer dizer rigorosamente nada. Pra que “algo” além da sedução aconteça é preciso que os dois queiram aquele algo específico. E que isso fique claro.

Vamos fingir que o processo de sedução é um jogo de tabuleiro onde a pegação ou o sexo, ou qualquer “algo mais”, sejam o ponto de chegada. Este jogo, a meu ver, só tem uma regra clara: os dois têm que avançar juntos (repito, juntos, essa parte é importante). Pode pular casas? Pode. Se o outro topar, tudo bem, pulam juntos. Pode virar o tabuleiro de cabeça pra baixo e jogar ao contrário? Pode. Começa na pegação e vai caminhando pro “Qual é o seu nome?”, contanto que os dois concordem. Pode ficar várias rodadas sem jogar? Pode. O outro que respire, tenha paciência e vá meditar ou pular casinhas em outro tabuleiro pra se distrair. Se em qualquer momento do jogo alguém decide voltar uma casa, não há o que fazer, além de voltar uma casa. O que realmente não pode é achar que um dá a condição e o outro avança. Ou os dois avançam juntos ou ninguém avança.

 Aí o amigo pergunta: E as mulheres que fazem joguinho? Que dizem uma coisa, mas querem outra? Vamos lá. Sim, há mulheres que fazem joguinho. Há também homens que fazem joguinho. Você não pode saber o que ela/ele quer. Sabe apenas o que ela/ele diz.  Quem sabe do outro é o outro (às vezes nem ele/ela). Mas no nosso caso hipotético concreto, se o outro está confuso, indeciso ou faz joguinho, problema de quem faz o joguinho. Essa pessoa vai ter que aprender a dizer “sim” quando tá a fim e dizer não quando for o caso.

Voltando à nossa historinha do começo… Ela disse sim pro chope porque ele parecia um cara legal e ela quis ver qual é. Ao vivo, achou menos interessante e não quis mais nada. Quando ela viu a  mensagem indignada do dia seguinte, respirou aliviada, ele se mostrou um mané.

Nesse jogo de sedução há um mundo de subjetividade e interpretações possíveis. E se não foi hoje, amigo, quem sabe um dia… Ok, a regra pode não ser tão clara. Mas também não é muito difícil. Qualquer dúvida, é só perguntar. E existe, sim, a possibilidade dela querer só ser amiga.

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Por um GIF

Por Sonia M. Nunes*, Biscate Convidada

Eu tava quieta. Juro. Aos 54 anos incompletos, os calores da menopausa substituindo, ainda que sem muito prazer, os calores afoitos do tesão desmedido da juventude.

Eu tava plácida, sem graça, até. Um banco vazio de uma igreja silenciosa. Há tempos que Morzinho não acreditava, dizia que era desculpa de quem não amava mais, como se tesão e amor fossem gêmeos siameses e inseparáveis. Vai explicar pro gajo o que é uma xoxota seca…haja macho com cabeça (ops) boa pra pra não se sentir rejeitado, desprezado, traído.

E lá vai ela, a relação, se esvaindo pelo KY, pelo “desculpa-de-novo” e pelo “não-tô-a-fim/ não é nada pessoal”. Até que um “eu não quero, porra!” coloca a derradeira pá de cal na porta do quarto. Da casa. De nós.

One more kiss dear… one more sigh… only this, dear, is goodbye…

Mas eu tava tranquila mesmo, juro quantas vezes quiserem. Achava até bom tanta calmaria. Nunca fui partidária da velha máxima “é impossível ser feliz sozinha”. Me divirto legal comigo mesma, minha imaginação é fértil, cês nem imaginam… A bem da verdade, acho até mais fácil não ter que compartilhar, argumentar, ceder aqui para ganhar ali.  Tenho amigas que acham difícil viver sem um par, ok, eu respeito, mas nunca entendi isso muito bem. Tava na minha e tava feliz. Sem sexo e sem sentir a falta de. Sabe aquela mansidão morninha que se confunde com paz de espírito? Pois.

Tem gente que chama isso de “egoísmo”. Eu prefiro creditar à preguiça. Tesão na balela da quase “melhor idade” dá trabalho, pô. Tem aquela coisa de conquistar a cada dia, não tem? De calcinha nova, brilho nos olhos, pegapácapá. E os ciúmes. E as pazes. E os suores. Mesmo que não seja numa relação mais firme, que seja na mais pura piranhagem, a coisa toda tem que rebolar, subir, descer, remexer, chacoalhar. E o orgasmo… não, não é que eu não goste, imagina. É que sempre me incomodou o “ter que”. A perguntinha “já gozou?”, que considero infame, me tira do sério, por melhores que possam ser as intenções. Assim como sempre me incomodou Morzinho achar que era ele quem me dava o orgasmo. Ah, os homens, tão tolinhos: nem percebem que o orgasmo é meu!

Então…

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Eis que uma mordida no cangote e um…ahn….bate coxa entre dois jogadores num jogo de futebol qualquer se me chegam às carnes via um GIF do Facebook. Pra quê? Os suores se multiplicam em questão de segundos, o fogacho se transforma em fogo interior e todo um mundo de pensamentos libidinosos relampeja – me em arrepios. Donna Summer, Gainsbourg, lá estava eu, 20 e poucos anos de aflição novamente. Os lábios – os grandes e os pequenos – batendo palminhas e cantando alegremente um parabéns pra você tal qual uma bêbada e lânguida Marilyn. Valha-me Nossa Senhora da sacanagem: dois homens suados e barbudos, eis os meus neo- cupidos da esperança! Há algo de estranho nesse fetiche, vamos combinar. Ou será que não? Ah, mas, quer saber? Do alto dos meus 54 anos incompletos, já me sinto apta a declarar um rotundo e sonoro Foda-se. Melhor ainda: Foda(m)-me.

Ah, essa carne, querida carne… até que é bom sabê-la ainda fraca! Safada! Vaca, cachorra, puta! Welcome back, lust . Finalmente de volta ao lar, Messalina de Copacabana!

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*Sonia M. Nunes
se cala, se fala, se sente. Se acha, se larga. Se lagarta, tixa. Solta, salta e sola. Brinca, braque e breca. Gosta de rimas e de prosas, de palavras e palavrões. De coisas como dedos e dedões (duros, não). Fala pelos, pentelhos e desassossegos. Pudores e pruridos. Sonia não se cabe, não se pesa, não se mede. Só, se toca. Sonia is a bitch. She wish.

Das nossas faltas

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Vou escrevendo esse texto conversando comigo mesma. Tentando entender. Desentender. Sem pretensão de ser ou dizer nada que faça muito sentido. Sem teorias ou rotas explicativas. Coisas de que apenas desconfio.

– corta –

Somos falantes. Todxs nós, humanos. Humanas. Faltamos. Sempre faltamos conosco e com os outros que nos relacionamos. Em nossas complexidades de existir resolvemos tantas vezes existir juntos. Juntas. Casamos, namoramos, nos relacionamos. Fazemos casa, criamos laços, amamos, trepamos, enredamos umas às outras em afetos. Somas. Talvez seja da natureza humana criarmos famílias, relações afetivas, casas. Talvez seja uma convenção social ou uma imposição cultural. Ou talvez não seja nada disso. O fato é que somos inclinados aos laços. Eu sou.

Nos damos uns aos outros. Abrimos espaços em nós para que nos ocupem. Criamos juntos espaços comuns. Como já cantou o poeta, “a vida só se dá pra quem se deu”. E assim vamos nos dando, nos amando, nos penetrando em nós e nos que nos cercam.

As relações conjugais são dessas. Mergulhamos. Namoramos, nos apaixonamos, casamos, queremos. Eu quero. Vou nadando até chegar no fundo. Até que a ilusão de não sermos sós tome conta do espaço vazio de quando as luzes se apagam. Mas. Por mais que nos abracemos embaixo das cobertas e grudemos nossos corpos, a solitude é igualmente humana. Somos nosso próprio universo, cada qual, um ser separado do outro com toda sua complexidade individual. Ou, como diria Rilke sobre o amor, somos em casal duas solidões que se inclinam uma para a outra.

E dentre essas tantas coisas que nos desafiam a dois (ou a três, quatro, em relações poliamorosas), está o limite da individualidade. Quando nos amamos umas às outras, sempre queremos mais daquela que está conosco. Como já dizia Freud, procuramos de alguma maneira a incompletude. Um motor para que a outra pessoas nos prenda e nos encante em conquistas diárias. Um algo intangível da eterna imperfeição que nos encanta, na mesma medida que nos aterroriza. Será que nos encanta um ser sem surpresas e sem contradições às nossas expectativas? Perguntas…..

Pois é, temos expectativas. Cada qual. Cada um. De como o outro deveria agir, de como a outra deveria se posicionar frente a uma e outra coisa, de como o outro deveria demonstrar seu amor, de como a outra deveria se interessar pelas coisas que ela não se interessa. Expectativas sobre coisas cotidianas, expectativas sobre coisas grandes.  De como a outra irá lidar com seu desejo, de como conjuga o trabalho com a vida cotidiana, de como o outro vai lembrar que seu companheiro gosta de receber flores no dia do aniversário. De como ele não gosta. De como ela gostaria que fosse. Somos um eterno jogo dos sete erros, onde vamos marcando com X as faltas do outro na figura que imaginamos ser aquela do relacionamento desejado.

E nessas expectativas reside um grande motor para a desilusão,  e para a quebra do encanto romântico de que o outro irá nos completar, e nos corresponder. Sim, a exatamente aquilo tudo que pintamos em nós quando nos apaixonamos.

A verdade é que sempre será faltante. A outra pessoa não suprirá nossas lacunas. Não corresponderá a tudo que projetamos. Não será o que esperamos. Não, nem sempre. Sempre haverá figuras fora do lugar. E ainda bem.

Mas. Como faz para acomodar as faltas que o outro nos traz? Como acomodar o que você espera que a outra pessoa seja e que – talvez – mesmo que ela tente ela não consiga ser?

Sim, o bom de relacionar – se é que as coisas se conjugam, se ajeitam, se adequam. Ninguém precisa estar feliz com o que lhe falta e ignorar suas frustrações. Mas. Será que precisamos dar tanta ênfase às faltas? Será que não podemos reinventar um relacionar – se onde as faltas existem e, desde que não nos violentem, podemos conviver com elas? Até porque né? Amor romântico só é bom em velas e poesias. Na projeção da completude e do que o outro deveria ser é que a coisa complica.

Como diria Regina Navarro Lins “você idealiza, você inventa uma pessoa. O amor romântico existe mesmo no Ocidente, a pessoa se apaixona pela paixão. Aos poucos você começa  a perceber aspectos nas pessoas que não lhe agradam. Mandar flores, jantar à luz de velas, tudo isso é ótimo. Minha crítica é você inventar uma pessoa”.

Aí vem o famoso “abrir mão” em nome do outro. O que é bem diferente de achar caminhos comuns de conviver com as diferenças e com as individualidades. Tanta dor por não conseguir ser o que se espera. Aí.  Tantos relacionamentos bacanas desfeitos. Tantas mágoas. Tantas tristezas desnecessárias. Tanto choro. Tanto drama. Tantas noites em claro. Tanto sofrimento. Tanto amor bonito desperdiçado em nome de uma busca frenética por uma satisfação que não existe.

Lembro sempre de um conto da Clarice Lispector chamado “Perdoando Deus”, onde ela humildemente reconhece : “… É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é”.

Será que um dia nós, ocidentais, capitalistas, possessivos de propriedades e de quereres nossos sobre o mundo, conseguiremos amar o que é?

 

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

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O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

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O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

Fodidos

separação

Porquejánãoestádandocertoentrenóseeuachomelhor… ele falava rápido, meio sem fôlego, emendando palavras. Pra que eu não argumentasse, talvez. Pra convencer. Alguém. Eu. Ele mesmo. Nosso público imaginário. Eu lembro Verissimo. Quase rio. Temos sempre uma platéia por dentro. Dentro. Vazio.

Depoisdetantosanosjuntosprecisodescobrirmaiscoisassobremim… ele ainda fala. Eu aceno. Menos concordando do que incentivando que ele continue. Ele gagueja, na poltrona baixa, meio inclinado pra  frente, as mãos como em uma prece. Eu, retinha na cadeira da mesa de jantar. O ângulo de 45 graus lembrava uma sala de terapia. Ah, os pequenos hábitos. Ao Verissimo na minha cabeça se juntam Pedro Cardoso e Debora Bloch e colocam um meio sorriso na minha boca. Eu interrompo: nunca assistimos Veja essa Canção juntos. Ele me olha, confuso. Nãoqueromaistempo, ele diz, eu meneio, não era isso, eu não acompanho direito o que ele diz, ele não adivinha o que eu penso.

Ascoisasentrenósnãosãomaisasmesmas… entre nós. Entre lençóis. Entre. Venha. Penetre. Eu sempre fui capaz de pensar em sexo a partir das coisas mais corriqueiras. Ele fala, eu vejo os lábios, a ponta da língua e começo a sentir o bom e velho fogo na periquita. Fico úmida. Meladinha, era como diziam no tempo em que ele não passava tempo se despedindo de mim mas me fodendo.

Éclaroqueeuaindagostodevocêesperoqueagentepossaseramigo. Claro, eu digo e me levantando devagar, um passo, outro, ele levanta a cabeça, pode continuar falando, ele continua, amigosvamosseramigos, eu levanto a saia e tiro a calcinha. Oquevocêstáfazendo… um passo, outro passo, pernas abertas, me lambe. Encosto o corpo no rosto dele, ele inspira fundo meu cheiro de tesão. Ele ajoelha. Eu puxo os cabelos da nuca. Ele sopra. Ele sempre sopra, antes. Praafastaralabareda, ele dizia. Ele diz. Ainda diz. E sopra. E deixa a língua passear. Enche a boca de saliva. Molha. Lambe. Vai, vem, o nariz faz cócega, não é cócega depois dos 15, eu lembro, eu gargalho. Ele afasta a cabeça e diz: depoisdos15. Eu ainda escuto. Ele ainda adivinha. Uma mão, firme, na minha bunda. Tábua de salvação. A outra, vadia por baixo da blusa. Puxa o mamilo. Esfrega. A língua depois dos lábios grandes e pequenos, provoca o clitoris. Firme. Leve. Firme, firme, firme, leve. E deixa e vai brincar de esconder na fresta. Entra sem pedir licença, visita de muito tempo tem intimidades. Um gemido. É meu. Bom. Bom mesmo. Essa facilidade, que pena perder essa facilidade. O pensamento vagueia um pouco, até sentir aquele dedo médio explorando a entrada do cu. Sinto o vazio na hora que ele para de lamber e cospe nos próprios dedos. Aqui e ali e em todo buraco. Findo o vazio. Em todo buraco. Ao mesmo tempo. A perna fraqueja. Bambeio pra frente, ele enfia mais fundo. A língua. Mais. Mais. O dedo. A língua. O outro dedo. Os dedos. O gozo. Morno. Deslizo. O joelho bate no chão frio. A gente nunca comprou um tapete. Agentecompra, ele diz enquanto desabotoa a calça. Eu penso em responder: não mais, mas encho a boca com o pau duro. Faço um vácuo com a boca, ele suspira. Ritmo. Vou e venho, vou e venho, língua, lábios cobrindo os dentes. Estico o braço e enfio meu dedo na sua boca. Ele lambe, um de cada vez. Agora é o meu dedo molhado no cu dele enquanto chupo, firme, gosto como o pau pulsa na minha boca. Sinto o gosto salgado do momento de parar de chupar.

posiçao normal

Deito de lado, ele deita atrás, tão fácil, ensaiado, quase. A camisinha? Eu digo, ele diz, ele escuta, eu adivinho, a gente ri. A gente trepa rindo. A camisinha. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa. A gente trepa até quase esquecer da gente, de tudo, do dito e do que ainda faltava dizer. Quase. A gente goza. Eu, uma, duas, eu gozo no plural. Ele goza. E eu, ainda. Denovo? Não? Simsimsimgozanaminhamãodenovo.

Uma coisa que sempre gostei: o jeito como o pau dele desliza, relutante, pra fora da minha buceta. Pra fora. Saindo. Você foi saindo de mim, devagar e pra sempre, eu canto baixinho. Ele enterra a cabeça no meu pescoço e chora. Não estou desafinando tanto assim, eu penso em brincar, mas calo. Ele chora, uma mão entre as minhas pernas, a outra no meu ombro. Ele escorre no meu pescoço em lágrimas mornas. Eu escorro o prazer passado entre as coxas. Eunãoseise. Sabe. Silêncio. Ainda lembro de dizer: Se você fosse o amor da minha vida e eu fosse o amor da sua vida, a galinha tinha dois pescoços. Ele ri. Verissimo é nossa Paris.

É hora de separar e estamos fodidos.

A decisão mais sensata

Tinha tomado a decisão mais sensata e sentia um certo orgulho disso. Não sabia bem o que isso queria dizer nem no que consistia ser sensata, mas tinha decidido. Pensou, refletiu, pesou. Botou na balança, fumou maconha, foi pro mar. Riu, chorou, pensou em outros caminhos, mas decidiu por aquele. Não tinha como voltar atrás.

Tomou coragem e colocou o coração numa bandeja. Mostrou para o moço das mãos grandes o corte que abrira no peito. Nunca havia se rasgado tanto, não tinha muita ideia de como se fazia isso, foi pela intuição. Cada incisão trazia um paradoxo: era dor e alívio ao mesmo tempo. Deixou que ele visse o peito aberto, as lacerações, o coração palpitando em cima da mesa. Doeu abrir aquele buraco, mas sentiu-se leve depois.

O que o moço pensava sobre o peito aberto, o coração, o sangue nas suas mãos e o sorriso no rosto já não interessava tanto. Estava feliz por ele ter apenas visto, conhecido a matéria da qual era feita. A exposição das suas entranhas não era para convencê-lo a ficar, a acolher e nem mesmo gostar, até porque nem era espetáculo tão bonito assim de se ver. Decidiu mostrar-se porque era uma forma de também se olhar, enxergar o que passou muito tempo escondido, camuflado.

Permitir que alguém a visse tão intimamente, fez com que também se tornasse íntima da sua dor, das suas angústias, seus anseios e desejos. Ao se mostrar, revelava para si mesma sentimentos que nunca pôde manusear e, apesar de assustada se deleitava com as novas descobertas sobre o mar que levava dentro do peito.

Apaixonou-se pelo moço da boca macia por muitas razões. A principal delas é que ele lhe mostrava coisas que ela já não vislumbrava mais em si. Coragem, doçura, beleza já não faziam parte do que via no espelho. O homem barbudo – que deixou a barba crescer a pedido dela – despertava umas coisas adormecidas ali dentro e que foram parar tão fundo que já não imaginava ser possível resgatá-las. Queria agradecer o feito de trazê-la à tona para mais perto de quem queria ser.

Foi uma dor aguda anunciar que não podia mais continuar navegando com ele naquelas águas macias. Decidiu sair daquele barco que nunca iria atracar no porto que agora desejava. No início da travessia tinham acordado seguir juntos, sem norte, sem destino, sem futuro. Mas com o tempo foi aparecendo uma vontade de parar num lugar, sentir terra firme, caminhar distâncias, ver o sol nascer do outro lado. E sabia que isso não teria com ele, o moço da tatuagem de âncora.

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A decisão sensata não se referia somente a voltar ao seu barco e seguir seu caminho sozinha, ou na companhia de outros que fossem aparecendo. Sentia estima por si mesma por ter compreendido que não havia escolha sem perdas, sem faltas. Sair do barco do moço bronzeado doeu um tanto que nem imaginava que existia; porém continuar a jornada sem bússola já não lhe fazia tão mais feliz.

Ia voltar ao mar sem o sorriso do moço, com o peito remendado e um coração exposto. Coisas que a aterrorizavam há algum tempo e agora lhe traziam serenidade, uma certeza de que não podia ter feito diferente. E gostava de pensar que essa nova mulher em que se transformava era mais inteira e gostava de se ver assim: cheia de coragem, doçura e beleza.

Volto

Eu volto. Correndo, respiração pesada, mais álcool que o necessário no corpo, o vento na cara. Volto não sei porque. Volto pra encontrar teu peito e ter sua boca na minha. Volto na ânsia de nunca mais sair. Mas saio. No outro dia ando tonta, com a ressaca de quem bebeu litros de vodka e saudade. Saio com o peito dividido. Saio com vontade de chegar de novo, de nunca ter saído e com a jura de nunca mais voltar.

E volto. Volto prometendo que aquela é a última. Não mais. Nunca mais. Tenho pulso firme. Até sentir sua mão na minha. Até ver seu sorriso doce. Até você dizer que continua me amando. Até planejarmos uma fuga pro Japão. Mas eu me seguro, digo que aquela outra foi mesmo a última vez. Não mais. Nunca mais.

Mas aí eu volto. De novo. Volto quando lembro que minha cabeça encaixa direitinho no seu peito. Volto porque ficaram coisas pra se dizer, mesmo depois de duas horas de conversa, 100 mensagens e três e-mails. Volto não sei por quê. Volto porque quero. Volto porque preciso.

E quando saio é porque não dá mais para ficar. Nossas vidas já não nos comporta. Não sabemos mais ser um casal. Ensaiamos, buscamos imitar o que fazíamos antes, mas é preciso que eu saia. Saio de cena, saio e me recolho e me escondo de você e nesse redemoinho que se transforma minha vida quando eu volto e saio.

Já pensei que se eu só voltasse – e nunca mais saísse – ficaria mais fácil. Ou menos difícil. Prolongar aqueles beijos, os carinhos, sua mão nos meus cabelos e sua barba roçando nas minhas costas. Mas penso que quero voltar assim, só de vez em quando, um pouquinho de cada vez. Já fostes tanto em mim que agora é preciso doses homeopáticas.

Volto sabendo que vai doer depois. Volto sabendo que não somos mais quem já fomos. Volto sabendo que não posso ficar, que só me resta sair. Saio sabendo que não deveria ter voltado. Saio com o peito dolorido. Saio com saudades do que nunca mais seremos.

O Herói Homossexual

Por Vinícius Abdala, Biscate Convidado

Existe uma ideia equivocada quanto às pessoas pertencentes a alguns grupos minoritários no que se adentra à resiliência (principalmente) em sua forma mais complexa.

Não há estudos que comprovem nenhuma característica ligada ao DNA de pessoas homossexuais que define, por exemplo, alguns traços do que, mais tardar, formarão sua personalidade – modelada pelos meios sociais, claro – como paciência, compreensão, resiliência, frieza, racionalidade, didática e empatia. As leis da física quântica se aplicam aqui em sua forma mais simples e, neste caso, desonesta: pra toda ação, existe uma reação. E, desde cedo, somos colocados a teste.

Uma vez que me assumo como homossexual publicamente, pago pelo preço por tal. Pago o preço de um valor incontável e subjetivo [a cada um]. A sensação de que devo é constante: tenho que pagar pelas consequências (negativas) da escolha pela vivência da minha homossexualidade. Devo e sempre deverei explicações de quem sou, do por quê sou (e do por quê não sou). Pago, também, nas humilhações diárias, nos silenciamentos, nas violências, nos direitos negados, nos acessos restritos, na humanidade irreconhecida.

Quando se faz parte de grupos discriminados (e nesse caso, falando somente dos gays), a justificativa do ser e de ser não se corrobora à lógica cartesiana de pensamento claro e de distinção – uma evidência ingênua da epistemologia tradicional. Nesta análise, eu não posso somente ser. Eu vou ser por que (insira aqui qualquer merda). Razão. Qual razão?

Desde que minha homossexualidade se tornou pública a algumas pessoas próximas da família, o discurso vem sempre em um tom que atravessa, entre linhas, a ideia de causa-consequência: “mas você precisa entender o lado dele também”; “você precisa dar tempo a ele”; “você tem que ser paciente, uma hora tudo vai se ajeitar”; “você vai aguentar isso tudo, você é forte”. E isso não se resume as instituições familiares. E quem entende o meu lado?

Eu sou culpado por ser como sou e devo, agora, assumir as responsabilidades por ser quem sou. Neste nível, mais uma vez, as atenções se voltam ao agressor e, como se não bastasse a empatia do mundo para aquele que “lida” com a homossexualidade de um ente (ou qualquer outro tipo de relação), cabe a nós, também, exercitar nossa empatia para com o próximo que nos agride. Não sabemos, quase que diariamente, o que é sofrer violências? Empatia está no nosso sangue, em algum par de cromossomos. Risos irônicos.

A esperança depositada em nós quanto à resiliência também é angustiante. Diariamente, eu preciso ser forte sem que haja sequelas desse enfrentamento e nem uso de outros dispositivos que me mantenham de pé. Faz parte do processo de desconstrução do outro e, com a dignidade já manchada, é dever nosso se manter intacto. Mas e quanto a mim, mesmo? Se eu fraquejar, perco a razão.

A didática no que diz respeito à educação e desconstrução ao que toca nossas vidas também é esperada com ansiedade: temos que explicar, quantas vezes for necessário, a quem quer que seja, que – veja bem – eu também sou gente. Também amo, odeio, fico triste, feliz, tenho dias bons e ruins, como e durmo (e que nada disso se manifesta em função da minha sexualidade), ainda que para os mais tradicionais eu seja um cu a ser preenchido pela maior quantidade de pinto que ali couber.

A minha humanidade, neste ponto já pouco lembrada, é colocada de lado de vez quando, este sujeito estratégico, equipado com características em níveis destoantes do resto mundo, tem que tomar o lugar de quem sou de verdade. Realidade constante.

Acontece que eu já não aguento mais.

Dos sorrisos amarelos que enfeitam o meu rosto e divide seu público entre aqueles que nada têm a ver com meu sofrimento psíquico e psicológico – dado as circunstâncias atuais -, e aqueles que, mesmo ao meu lado, não fazem ideia da dimensão do que a minha realidade significa tão e somente pra mim, me entristeço ao saber que internalizei, depois de anos vividos na prática, a responsabilidade individual pela minha sanidade. “Para de drama, Abdala!”, é o que dizem.

Não demonstro fraqueza, não porque não acredito que não possa ser fraco, mas porque fraqueza se materializou por mais de uma vez durante minha jornada e ninguém se importou. Não quero demonstrar tristeza, não porque não me permito (eu diria que muito pelo contrário, inclusive), mas porque tristeza pontual se trata com ações pontuais, o que não é o meu caso. Não quero me fragilizar mais porque fragilizado eu já estou. Não atravessem a barreira da auto-suficiência e auto-proteção que construí ao longo dos anos; por lá, quero estar só.

Entre perder um pai (simbolicamente), uma casa, uma ceia de Natal e até um sobrenome em nome daquilo que deveria ser somente mais uma característica que me torna um sujeito como qualquer outro, a maior dor fica por conta daquilo que já não consigo mais transformar: a mim mesmo. E com as seqüelas de uma infância conturbada, de um mundo às avessas e uma mente inquieta, internalizei também algo pior: a responsabilidade de fazer o outro ver em mim aquilo que só eu posso enxergar. Paradoxal, portanto, contraditório, eu sei. Mas a este nível, a lógica já nem se faz mais tão necessária.

Eu estou doente. Eu já não consigo lidar, de maneira harmoniosa, com o que a vida tem colocado de obstáculos a serem superados que se corroboram a homofobia destroçada diariamente. Tenho perdido, com o tempo, a capacidade básica de convivência; tornando-me cada vez menos tolerante aos que reproduzem discursos vazios e preconceituosos contra mim ou os iguais a mim, ao passo que também afasto de mim, de certa forma inconscientemente, aqueles que demonstram algum nível maior de simpatia e afeto afinal, enquanto puro processo de construção para um fim, como qualquer outra obra, eu posso ser abruptamente interrompido.

Ergo-me dolorosamente, dia após dia, na certeza de que, para além da materialidade melancólica que minha existência consigo traz, sigo sem o direito à subjetividade, tão importante no meu processo identitário; sobretudo humano.

Termino fazendo das palavras da Daniela Andrade as minhas: “Viver, neste sentido, é preparar-se para estarmos sós, é despedir-se, a cada etapa, de quem muito admirávamos e os quais não poderão permanecer, ou de quem muito pensávamos que admirávamos e se demonstraram independentes da personagem que lhes criamos. […] Vivo no automático, até que por automático saibamos que também é preciso dizer adeus às pessoas com quem cruzamos, com quem convivemos, aos nossos erros e aos erros dos demais. Dizer adeus, inclusive, a nós mesmos, nos permitindo nascer e renascer em uma nova etapa, em uma nova vida, ou quem sabe, para o grande finale. O dia em que, finalmente, saímos de cena”.

Sintomático que isso recaia, em grande parte das vezes, sobre nós.

11944848_10207979992277025_1711212466_nVinícius Abdala é estudante de Psicologia com uma extensão em estudos de gênero e sexualidade. Militante LGBT e profissional do poder público, anseia pelo dia em que o mundo vai descobrir que na verdade, ele é a Beyoncé

O fim daquela história

Levantou-se devagar, cuidando para mover-se de forma tão silenciosa quanto possível.  A cama rangeu de leve. Prendeu a respiração quando ela se virou, resmungando vagamente palavras desconexas no meio do sono.

O quarto parecia abafado, pesado.

O sol penetrava pelas frestas da persiana, fazendo desenhos sobre o corpo estirado na cama. Já em pé, deixou-se observá-la por alguns instantes. Ainda se espantava de como a beleza dela não o comovia mais . Era linda, sem sombra de dúvida. Mais linda ainda naquele sono abandonado, boca, cílios, maçãs do rosto. As redondezas do corpo solto na cama. Mas o olhar que a percorria era distante como o de um marchand avaliando uma peça rara.

Voltou-se e caminhou até a porta. Girou o trinco com vagar e saiu, pisando o frio dos ladrilhos de cerâmica.

Finalmente.

Estava indo embora.

Finalmente.

O portão do pátio logo à frente.

O chinelo. A bolsa.

Acelerou o passo.

a-porta-entreaberta

Sobre o desejo e o amor

Por Maria, Biscate Convidada

Sou monogâmica, tentei não ser e não funcionou comigo. Não sei o motivo de não ser poliamorista,  pode ser que tenha ainda muito que questionar a sensação de posse que relaciono com o amor, entendo que não são coisas que deveriam andar juntas. Na minha vida, consigo diferenciar liberdade dxs outrxs e minha vontade, mas quando é com minhx parceirx tudo muda, tudo dói.

Não sou hipócrita em dizer que não machuca pensar em ver quem eu amo com outra pessoa. Mas, ser monogâmica não faz de mim cega, e, ultimamente, ando mais sensível a essa temática. É muita amiga falando de forma ruim de amantes e pessoas que traem. Dói pra caramba e, todas as vezes que descobri traição, me senti morrendo por dentro. Por muitas vezes odiei x amante, x “traidorx”, ou só x “traidorx”. Hoje, não vejo mais desse jeito. Posso desistir do relacionamento se machucar demais, mas eu desisto porque me machuca, entendo que não há culpa e que o desejo é algo que nos faz tomar decisões que pode machucar x outrx.

Não estou aqui dizendo que a monogamia deve deixar de existir, estou falando que precisamos parar de culpar as pessoas. É difícil, eu faço um exercício diário pra não culpar ninguém, outro dia mesmo, culpei alguéns, primeiro me segurei e pensei “ela não tem culpa, não farei o que tanto digo que é errado”. Culpei a pessoa que estava comigo, perguntei “porque vir atrás de mim, dizer que me ama pra me machucar?”, voltei atrás, depois de pensar muito, não deixou de me amar, não deixou de ser quem eu amo, só fez algo momentaneo, por insegurança, por desejo ou sei lá o motivo. Quem sou eu pra julgar alguém.

Eu tomei a decisão de continuar, mesmo doendo, mesmo sentindo que iria lutar contra minha possessividade todos os dias. Eu decidi amar a pessoa, sem dizer “apesar do que aconteceu”, eu decidi amar e pronto, continuar monogâmica, conversar, querer a pessoa ao meu lado. Mas você pode decidir ir embora também, você pode sair, ou porque te magoa, ou porque você não consegue compreender o que aconteceu. São escolhas, mas não existem culpadxs, existem humanos, existem pessoas que seguiram suas vontades, de “trair”, de continuar após a “traição”, de partir após a “traição”, de conversar e talvez sair da monogamia. As pessoas decidem viver da forma que mais lhe apetecer, da forma que lhe faz mais feliz.

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Não posso e nem devo culpar amante, “traidorx”, não sei em qual posição estarei amanhã nessa equação. Quero ser sábia, quero não odiar, quero não xingar, quero tentar ser com as pessoas o que espero que sejam comigo, nessa e em outras ocasiões. E eu já estive em outro lado dessa equação, já “traí”, quis ser compreendida como uma pessoa boa, não quis ser limitada como a “traidora”, a “errada”. Porque sou mais que aquele momento em que “traí”, somos muito complexxs pra nos resumirem em apenas uma característica ou acontecimento.

Não é questão de perdão, é questão de amor e desejo, é questão de não culpar x outrx por nossas dores e seguir adiante como for melhor pra gente. Sem pesquisas de fidelidade, julgamentos, sem textos humilhando amantes ou quem “traiu”, sem ódio. Só seguir a vida e ser feliz sempre que possível.

Todas Essas Coisas Sem Nome – 5o Capítulo

Esse é o quinto capítulo do livro de Raquel Stanick intitulado Todas Essas Coisas sem Nome. Sua primeira, única e artesanal edição encontra-se esgotada.

Os capítulos seguintes serão publicados quinzenalmente aqui no Biscate Social Club.
As ilustrações utilizadas nos posts serão da mesma autora, vindas da série Ceci n’est pas un blog.

Boa leitura!

8

Não sei se você entende o que me ofereceu. Talvez eu também não. E o que depois me negou quando eu não consegui mais mentir meu desejo, que eu estava tentando aos poucos, nesses últimos meses, que voltasse a desabrochar em alegrias cotidianas.

Cheguei agora do psiquiatra, depois de muito esforço em sair da cama, porque eu tinha que sobreviver. Comer. Parar de fumar um cigarro atrás do outro. Ter horários condizentes com o resto do mundo. Porque tive uma proposta de trabalho que vai pagar meu aluguel do mês que vem, e hoje soube que alguns trabalhos meus não foram aprovados em um festival qualquer. Porque ainda tenho milhões de projetos a serem executados e já gastei o dinheiro que recebi por eles. E não me pergunte como, pois você sabe.

Não quero mais ter que pedir ajuda financeira a minha mãe, como ela me lembra sempre em quase todos os telefonemas que trocamos. Porque eu tive que brigar até para comprar um fogão – que sei, terei preguiça de usar -, preferindo sempre comer fora, logo, gastando mais. Porque eu não tenho número algum nas entradas financeiras do meu caderninho amarelo.

Porque já me sei apenas uma mulher, e dói, dói. Dói ter que me saber também em você. Não quero. Não, obrigada, não quero. Repeti, repeti e repeti. Você não precisava ter que me mostrar novamente o quanto era amargo e doce, para logo depois continuar em sua trilha cega, morrendo de medo de você mesmo. E de mim. Já fui muito bem criada por uma família de loucas. Decorei meu papel, e bem. Não precisava se preocupar tanto.

Claro que você sabe do que eu estou falando, ou você acha que eu também não estava lá?

Acha que não fui eu quem arrumou em perfeita harmonia estética os remédios da minha loucura, e em suas caixas escrevi horários em vermelho para não confundir tudo, junto com uma escova de cabelos, a carteira de cigarros, dois isqueiros (um vermelho e um verde), um cinzeiro com duas piolas dentro, um perfume de frasco lilás, um hidratante com cheiro bom, o celular caro que fotografaria essa cena – mas que tenho que levar na assistência -, um outro aparelho que peguei emprestado, (enquanto não faço isso com meu pai), um pen drive e um fone de ouvido?

Mas tem muito mais coisa aqui nesse móvel que sobreviveu à falência de um bar, que outrora abrigava uma máquina de crepes, e que ficou numa casa que já considerei minha. Mas que nunca o foi, quando de lá fui mandada embora tantas vezes entre gritos e ameaças.

Cores, texturas, projetos, leituras. Não deu para descrever tudo no pouco tempo que nos demos. Ou até daria, mas levaria mais vidas inteiras – que você escolheu tentar viver sem mim.

Penso que você gostaria de ver a tal arrumação, eu achei bonito quando finalmente parei e olhei, logo após guardar a feira feita depois de pagar o aluguel e a conta de energia. Ah, e de ter ido visitar a pessoa que ainda acredito poder me salvar da alienação, junto com as palavras que insistentemente escrevo, mesmo morrendo de medo de pedir e oferecer ajuda em alto bom som.

Depois de fazer essas coisas, finalmente pude gritar sem me importar com os vizinhos: “Pronto, estou louca, louca, louca, louca!”

Tranquilizo-me ao lembrar que tenho meus remédios e os dias que passam. Porque nem tudo é poesia, meu amor. E em toda loucura existe a possibilidade de crueldade. Ou de amor.

Sua condição – a que eu briguei muito para não aceitar -, foi a de me reconhecer doente. E eu achando que era apenas paixão.

(link pro prefácio e primeiro capítulo)

(link pro segundo capítulo)

(link pro terceiro capítulo)

(link pro quarto capítulo)

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