Sonhos sonhos são

Desde o 11 de maio eu não durmo. Perco o sono. Viro, me reviro pensando no caos do meu país. E em você. Você é água mansa por onde meu pensamento desliza quando se esquece do que nos fizeram: a mim, a você e a toda as pessoas. As pessoas que lutam, trabalham, constroem esse país de que tanto me orgulhava de ir me tornando adulta nele. Com todos os problemas, sem reforma agrária, política ou fim do monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim era possível ver um horizonte, havia brechas, lutávamos e acreditávamos mais na vitória do que na derrota.

Penso nas mulheres desempregadas com que conversei durante aquela semana. Uma me disse: “vi um trabalho que parecia muito esquisito. Não queriam pagar nem o salário mínimo. Eu tô precisando, mas não tô passando fome, né?”. Fiquei tão feliz de ouvi-la dizer isso, que não precisava se submeter a um trabalho degradante e mostrei a elas porque muitas não precisavam mais. Aí penso que esse pouco que conquistamos pode se acabar. Meu peito se enche de raiva. Balanço a cabeça pra sumir essa angústia e vir só você à mente.

Em meio a esse temor que se abateu sobre nós, pensar em você é o que me aquece o peito. O que me conforta nessas noites insones. Mas penso que o MinC acabou, golpearam também o presidente da EBC, acham que temos direitos demais. Lembro quem é Mendoncinha e o seu DEM-Elite que odeia pobre, negro, trabalhador sem-terra. E lembro que você, assim como eu e o restante estamos em perigo.

Penso nos adolescentes de São Paulo agredidos pelo Estado por quererem saber onde foi parar a comida a que eles têm direito. COMIDA. Aquele item básico da sobrevivência. O que nos bota de pé, firmes pra luta, que nos sustenta, que nos faz fortes. COMIDA. E esse pensamento puxa outro da tramitação do projeto de redução da maioridade penal e tudo se encaixa. Criminalizar nossos jovens cada vez mais cedo. Enjaulá-los, contê-los, lucrar com o fim de suas vidas. E me lembro da Bolsa-Estupro, da Cura Gay, da CPI da UNE. Claro. Foi pra isso – também – que eles nos golpearam.

O dia já está quase amanhecendo e continuo pensando nisso tudo. É hora de me acalmar e tentar dormir. Mudo a lógica das coisas e me lembro de que em breve você estará aqui. Que talvez eu siga em noites insones, mas porque faremos samba e amor até mais tarde. Ou finalmente poderei dormir aninhada no seu corpo que me traz uma paz do tamanho do mundo. O mundo precisa de mais encontros como os nossos, ele não sabe o quanto perde quando não estamos juntos.

sonho

Durmo e sonho agonias. Uma praça escura, muita lama e você que está para chegar, mas não chega nunca. A plenária vai começar, querem sentar no lugar que reservei pra ti. Você não chega. Um homem engravatado dá entrevista ao meu lado e quando tento xingá-lo perco a voz. Consigo falar, mas na hora de gritar a voz desaparece. Você não veio. Tento gritar pra outro engravatado, mas a voz falha de novo. Acordo ofegante, é dia, e falta pouco pra você passar o inverno comigo.

Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

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Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Para Dançar o Tango

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São precisos dois para o tango. E mais. Entrega. Antecipação. Esse enlace de corpos que se adivinham, um instante antes de ser. Um jogo de quase. Deixar o corpo um pouquinho mais, pra roçar. Tirar o corpo um pouquinho antes, para não esbarrar. Quase encostar. Perto. Mais perto. Sai. Volta. Esfrega. Desejo. Distância. Olhar além. E reconhecer que mesmo ali, o agora da sedução abriga a melancolia de uma solidão, no depois. Talvez, por isso, se tenha dito que “dançar tango é algo grave e profundo, quando se dança não se ri”.  São necessários dois, suspeito, para marcar o vazio, a distância, a geografia da ausência. Dois para dividir o peso da impossibilidade do encontro. E para vislumbrar o encanto, claro, dos momentos em que a gente acredita que sim. Quase.

Como aquele dia. Aquele moço. Errado, claro. Também ela. Sozinhos. Não sempre. Naquela noite. Encontros. Não. Colisões. Dois desejos. Duas fomes. Dois pra lá, dois pra cá. Expedições ao corpo do outro. Mãos que se roçam. Dedos que se entrelaçam. Um pé desnudo que esbarra na perna alheia. Salivas que se misturam no mesmo copo. Desbravadores inexperientes nesse território, precipitam-sem em beijos. Um pra lá, vem mais para cá. Errados. Confusos. Descompasso. Sem salão de baile, um tango interrompido.

O que ela sabe, é preciso deixar as portas abertas. E as janelas. E as pernas, opa, o peito. Os poros. Os olhos. As mãos. Oferece. Recebe. Permite. Acolhe. Dá. Vive. Não negar. Não esperar. Sem receita. Sem modelo. Sem tipo, apesar do Ney. Ela sabe, ela se despe. De receios. De reservas. Ensaia uns passos. Não será tango, que venha a alegria do samba, o suor, a cerveja e que dure enquanto for festa no corpo. Carnaval.

Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

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Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

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Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

Por um GIF

Por Sonia M. Nunes*, Biscate Convidada

Eu tava quieta. Juro. Aos 54 anos incompletos, os calores da menopausa substituindo, ainda que sem muito prazer, os calores afoitos do tesão desmedido da juventude.

Eu tava plácida, sem graça, até. Um banco vazio de uma igreja silenciosa. Há tempos que Morzinho não acreditava, dizia que era desculpa de quem não amava mais, como se tesão e amor fossem gêmeos siameses e inseparáveis. Vai explicar pro gajo o que é uma xoxota seca…haja macho com cabeça (ops) boa pra pra não se sentir rejeitado, desprezado, traído.

E lá vai ela, a relação, se esvaindo pelo KY, pelo “desculpa-de-novo” e pelo “não-tô-a-fim/ não é nada pessoal”. Até que um “eu não quero, porra!” coloca a derradeira pá de cal na porta do quarto. Da casa. De nós.

One more kiss dear… one more sigh… only this, dear, is goodbye…

Mas eu tava tranquila mesmo, juro quantas vezes quiserem. Achava até bom tanta calmaria. Nunca fui partidária da velha máxima “é impossível ser feliz sozinha”. Me divirto legal comigo mesma, minha imaginação é fértil, cês nem imaginam… A bem da verdade, acho até mais fácil não ter que compartilhar, argumentar, ceder aqui para ganhar ali.  Tenho amigas que acham difícil viver sem um par, ok, eu respeito, mas nunca entendi isso muito bem. Tava na minha e tava feliz. Sem sexo e sem sentir a falta de. Sabe aquela mansidão morninha que se confunde com paz de espírito? Pois.

Tem gente que chama isso de “egoísmo”. Eu prefiro creditar à preguiça. Tesão na balela da quase “melhor idade” dá trabalho, pô. Tem aquela coisa de conquistar a cada dia, não tem? De calcinha nova, brilho nos olhos, pegapácapá. E os ciúmes. E as pazes. E os suores. Mesmo que não seja numa relação mais firme, que seja na mais pura piranhagem, a coisa toda tem que rebolar, subir, descer, remexer, chacoalhar. E o orgasmo… não, não é que eu não goste, imagina. É que sempre me incomodou o “ter que”. A perguntinha “já gozou?”, que considero infame, me tira do sério, por melhores que possam ser as intenções. Assim como sempre me incomodou Morzinho achar que era ele quem me dava o orgasmo. Ah, os homens, tão tolinhos: nem percebem que o orgasmo é meu!

Então…

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Eis que uma mordida no cangote e um…ahn….bate coxa entre dois jogadores num jogo de futebol qualquer se me chegam às carnes via um GIF do Facebook. Pra quê? Os suores se multiplicam em questão de segundos, o fogacho se transforma em fogo interior e todo um mundo de pensamentos libidinosos relampeja – me em arrepios. Donna Summer, Gainsbourg, lá estava eu, 20 e poucos anos de aflição novamente. Os lábios – os grandes e os pequenos – batendo palminhas e cantando alegremente um parabéns pra você tal qual uma bêbada e lânguida Marilyn. Valha-me Nossa Senhora da sacanagem: dois homens suados e barbudos, eis os meus neo- cupidos da esperança! Há algo de estranho nesse fetiche, vamos combinar. Ou será que não? Ah, mas, quer saber? Do alto dos meus 54 anos incompletos, já me sinto apta a declarar um rotundo e sonoro Foda-se. Melhor ainda: Foda(m)-me.

Ah, essa carne, querida carne… até que é bom sabê-la ainda fraca! Safada! Vaca, cachorra, puta! Welcome back, lust . Finalmente de volta ao lar, Messalina de Copacabana!

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*Sonia M. Nunes
se cala, se fala, se sente. Se acha, se larga. Se lagarta, tixa. Solta, salta e sola. Brinca, braque e breca. Gosta de rimas e de prosas, de palavras e palavrões. De coisas como dedos e dedões (duros, não). Fala pelos, pentelhos e desassossegos. Pudores e pruridos. Sonia não se cabe, não se pesa, não se mede. Só, se toca. Sonia is a bitch. She wish.

Elevador

15650991_sZsI2Reparou no moço sentado esperando o elevador. Olhou para baixo e viu suas havaianas indignas de propaganda de tv e cada um dos seis grampos usados para segurar o cabelo beliscavam o couro cabeludo. Ele parecia não morar ali, ou teria reparado nele há muito mais tempo. Há muito mais tempo. Além do mais ele dizia ao telefone que estava no bairro. Se morasse ali diria: “Tô em casa”. Né? E seis meses de moradia já dá pra saber os vizinhos. Ou não?

Chegou o elevador. Malditas construtoras que constroem prédios de 22 andares. Além de enfearem a cidade, ainda te obrigam àquele silêncio constrangedor típico dos elevadores. E pra quê morar no último andar? Ela entrou com suas havaianas e o short rasgado na barra. Porra, por quê foi usar justo a bermuda mais velha que tem? Caralho. Entrou de cabeça baixo, ficou olhando pro teto – um dia essas lâmpadas caem – e viu o moço de soslaio. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Bonito.

Apertou o 22. Ele entrou e seu dedo tocou o 21. Puta que pariu! Custava visitar alguém no 3? Primeiro. Segundo. – Silêncio

Terceiro. Boa tarde, ele disse. Ela respondeu de maneira inaudível, que nem conseguiu entender as próprias palavras. Quarto.

Quinto. “Você é gringa?”. Com um riso débil respondeu “não”. Ele riu também. Abaixou a cabeça. Não conseguia olhar para o rosto dele. Que resposta imbecil, ele só queria puxar assunto, claro que sabe que você não é gringa. Você respondeu o boa tarde e não tem cara de gringa. Sexto. Brinco na orelha. Mãos grandes. Quando chegasse em casa ia se desfazer daquele short rasgado. Sétimo.

Oitavo. Nono. Décimo. “Já deve ter ouvido isso muito né?”. Com um terço de sorriso e muito rubor, mentiu que sim. Odiava interações espontâneas assim, nunca sabia o que dizer. Décimo primeiro.

Décimo Segundo. Décimo Terceiro. Décimo Quarto. Por que não se encontraram em algum aplicativo desses de paquera? Perdeu o tato para paqueras ao vivo. Continuava vermelha. Décimo Quinto. Construtoras dos infernos. Destroem as cidades, arrasam a política e ainda te botam numa situação constrangedora dessas. Décimo Sexto. Décimo Sétimo.

Décimo Sétimo. Décimo Oitavo. E como foi sair sem celular? Não tem nem como fingir que está fazendo alguma coisa. Décimo Nono.

Vigésimo. “E seu nome é brasileiro?”, insistiu o moço. Soltou uma gargalhada nervosa. Ficou ainda mais vermelha, sentia o rosto e o colo em chamas. Balbuciou, gaguejou e no fim só respondeu um idiota de um “não”.

Vigésimo Primeiro. A porta se abriu. Ele desceu, deu um tchau e um até mais. Ainda espreitou pra ver o apartamento onde ele entraria. A porta quase bate no seu nariz. Gargalhou com o inusitado da paquera no elevador do prédio.

Vigésimo Segundo. Saiu com a certeza de que sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

Vermelho

O batom.

Os lábios. Grandes e pequenos.

E até os do rosto.

O pano na tourada. Provocação. Convite.

O vinho encorpado.

A rosa do menino príncipe. Ternura.

As paredes de Bergman, em Gritos e Sussurros.

O Boi Garantido e a voz da Fafá. Potência.

Os olhos injetados de desejo, de raiva, da ressaca da noite mal dormida e bem vivida.

O calor em um abraço.

O envolvimento de quem se quer.

A mestra do cordão encarnado. Dança e festa.

A pincelada de Caravaggio.

Os sapatinhos. Casa. Dança. Sorte. Morte.

Audrey Hepburn, nas escadas, em ‘Funny Face’.

O churrasco quente e mal passado. Sabor.

Os morangos, ainda que mofados.

Os cortes. E, às vezes, as cicatrizes. Memórias.

O sol por trás do olho bem fechado inclinado pro céu ao meio dia. A coragem de.

O sangue derramado em luta. Dado a causas. Derramado por amor a outras gentes.

Meia bandeira do Mengo. Alegria.

Todo teu gosto na minha língua.

Pimenta.

A fraternidade, no filme. A liberdade, nas ruas.

Meu coração.

real

Hoje tem

Era uma mesa grande, daquelas animadas, os amigos tinham vindo dar os parabéns, ele era amigo de uma amiga, se conheciam de FB, estou pensando em ir, vem, ele foi. Não se sabe bem como acabaram sentando um ao lado do outro. Não foi de princípio, não. Ele, o centro da mesa, rodeado de quem chegou mais cedo, acenando muito, rindo alto, esbarrando nos copos. O outro do lado da amiga, nem quina nem meio, olhos pequenos por trás da lente, gestos contidos, mais curiosidade que interesse.

Mas era um bar, era festa, muita gente chega, muita gente sai, gente levanta pra fumar, pra beijar, pra mijar. Olha, cabe mais uma cadeia aqui? “Fasta” pra cá. Vai mais pra lá. Vem aqui cumprimentar Fulana, Sicrano, Beltrano e o Edu, que fez a música. E ali estavam, um do lado do outro. Desculpa, ainda não tinha falado direito contigo. Magina, você estava ocupado. Umas impressões sobre a cidade. Gosto sempre de vir aqui. Pena a gente não ter se conhecido da outra vez quando passei mais tempo. O ombro esbarra no outro, a cerveja pula do copo. Desculpa, meio rindo, meio constrangido. Que nada, foi bom, meio safado. Trabalho, amigos em comum, a política, música, música, o céu, o nada. Os joelhos. O inclinar pra falar mais pertinho do ouvido. Muito barulho aqui, né?

As duas mãos em direção ao mesmo copo. Opa, esse é o seu? O copo esquecido, as mãos enlaçadas. Olho. No. Olho. Nu. E foi assim: ele pegou o indicador do outro, levou até os lábios entreabertos, enfiou num movimento rápido e sugou, firme. O outro, choque. Ele continuou a sugar, com a língua catou outro dedo. A mesa continuava, impávida em seu alvoroço de cervejas e tira-gostos, conversas e risadas. O outro semicerrou os olhos, estremeceu, a calça apertando o pênis que endurecia. Ele sorriu, como quem desafia: gosta? O outro inspirou, puxou a mão com uma certa violência, ele quase entristeceu, o outro e seus dedos úmidos puxaram-no pela nuca, a boca firme na boca ainda entreaberta, a língua, dura, invadindo, exigindo, amolecendo, convidando, percorrendo, provocando. A saliva. O tesão. As mãos por baixo da mesa, por cima das camisas, a língua na orelha, que buraco gostoso, o outro ri, desejo é alegria, cangote, lambida, deixa eu respirar, quero te engolir. Delícia. Beijinho na ponta do nariz. Mão na perna. A noite segue, sem pressa, os dois, a mesa, a conversa, o ruído, a cerveja no mesmo copo, a certeza. Hoje tem.

Hands toasting wine glasses

Hands toasting wine glasses

Oferta

O que eu te ofereço é uma cama de lençóis frios e um corpo quente. Um passeio de mãos dadas. Pés descalços descansando no teu colo. Um copo pros dois. Um sorvete provado nos teus lábios. Um abraço em que a gente se esquece nele. Mãos bandoleiras. Uma vitrola, um disco. Ou dois. Um despertar com desejo, um amanhecer de ternuras, demorar-se na cama em cafunés. Um café. Outro. Mais. Uma cerveja na esplanada, esquecendo o tempo. Uma conversa que não começa nem termina, com silêncios expressivos e gargalhadas ruidosas como pontuação.

O que te ofereço é viagem. Ausências. Uma saudade do que não teremos. Uma vontade de mais. Viver mais, trepar mais, saber mais, rir mais. Entontecer um pouco.

O que te ofereço é fazer supermercado junto, implicar com os gostos um do outro, brindar o possível, enroscar o teu cabelo entre os dedos enquanto nos recostamos no sofá e ouvimos música ou vemos um programa bobo na tv. Um telefonema no começo da noite só pra dizer: dá uma chegadinha na janela e olha a lua. Um cartão de aniversário feito de recortes de revista. Uma mensagem no celular com um trecho inteligível de Lacan. Uma carta sobre nada, só pelo prazer de tuas mãos tocarem o mesmo papel que as minhas.

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O que te ofereço é uma companhia na cozinha, tempo e fogo, temperos, os sentidos se aguçando. Uma taça de vinho. Um cheiro no cangote. Um álbum de fotografias. Uma mordida no nariz. Encostar a cabeça em teu peito, enlaçar mãos e chamar pra dançar um bolero. Sem música.

Brincar com teus bichos. Ler teus livros. Esquecer um sutiã no teu armário. Bagunçar teu armário. Lavar a louça. Morder teu dedão. Cutucar. Te agarrar de repente. Te devorar lentamente. Mandar mensagens absolutamente banais em horas pouco apropriadas. Nudes. Da alma, quase sempre.

O que te ofereço são beijos. Molhados. Rápidos. Demorados. Na boca. Na pele. Sugando. Lambendo. Suave. Forte. Com pequenas mordidas. Ou grandes. Em despedida. Em reencontros. Em descobertas. Virtuais. De saudades. De promessas. De convites. Beijos.

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O que te ofereço é companhia no trânsito, um fim de semana na serra, um ombro encostado no teu ombro no cinema, uma pipoca dividida, a escuta das miudezas cotidianas, a acolhida das dores quase esquecidas que se fazem inesperadamente presentes e imensas.

O que te ofereço é termos uma canção. Ou duas. Um fim de semana. Ou dois. Ou mais. Um lance. Um romance. Um rala e rola. Um rolo. Um gozo. O relógio sem ponteiros.

O que te ofereço é um abismo. Um mergulho. Um vôo de trapezista. Sem rede. Também conhecido como primeiro encontro.

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