Eu vou fazer uma canção pra ela…

Por Patrícia Melo, Biscate Convidada

Se fosse pra escolher, nem tinha ido. Sério! Sabe aquele momento em que tudo que você quer na vida é sossego? Sossego de tudo, mas, principalmente, um tempo de sossego nos afetos, na turbulência do sangue, uma afastada – delicada – daquelas borboletas na barriga?  Então, você me entende, né? Todo mundo tem um tempo assim, desses em que você está ali, em situação de ponto final em uma história e não quer saber de reticências…

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Pois é, foi em tempo assim que eu me vi diante de olhos solares. Já viram isso? São olhos que cintilam! Em qualquer lugar, até no escuro. Nem queria chegar perto porque eu nem queria nada. Com ninguém. Estava bem contente com meu cuidado comigo. Gostava das tardes de cinema vagabundo onde o filme não tinha tanta importância e a pipoca era só minha. Adorava as garrafas de vinho esvaziadas ouvindo música na sala. Achava uma riqueza incomparável um livro inteiro com um dia todinho só prá ele. E quando chovia, era só andar na cidade sem rumo… Eu estava gostando da vida sem olhar o telefone a cada 5 segundos, sem pensar em programas de fim de semana, sem organizar agenda pra poder dar conta de tudo. Gostava da minha companhia. Adorava, pra ser bem sincera. Não queria nada.

Aí, bem… Teve um dia em que fui atropelada por aqueles olhos solares. Já falei deles? Já. Desculpa. Eu acho que nem consigo me explicar direito. Já falei do riso? Eu havia me apaixonado pela Capitu quando li sobre sua gargalhada “argentina”. Só entendi como soava na mesma hora que escutei a dela. Tilintava como prata. Lembrei na hora! Havia um quê de perigo no ar. Eu deveria ter percebido. Tinha energia demais ali. Tinha jogo de cena, muito medo junto e, ao mesmo tempo, muita curiosidade (ou seria coragem?). O mais engraçado é que ninguém queria nada. Mas, havia tanto que saber, tocar, ouvir, compartilhar, sincronizar.  Havia tanto que rir, tanto pra experimentar! (“Chegastes? Cheguei!”) Havia tanto tanto que a gente nem sabia o que fazer. Nada de pânico. Que viesse um dia de cada vez.  E eu, que não queria nada, quis tudo. Porque era ela. Porque era eu.

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* Patrícia Melo é escorpião com ascendente em Touro. Manauara por opção, botafoguense de longa linhagem e historiadora toda a vida porque é super divertido. Mãe de meninos empenhada em fazê-los entender meninas. Daquelas que adoram aprender. Sempre. @SampaioPatricia

 

#FikaDika

Eu não curto muito respostas prontas. Generalizações, mesmo as bem intencionadas. Roteiros fixos. Vocês entenderam. Coisas como “10 maneiras de enlouquecer seu homem” ou “Como ser boa de cama”, então, passo longe. Mas, né. Justamente por evitar o extremo, hoje deixo uma mapinha.  Claro que o improviso e a iniciativa são importantes pra quem quer fazer trilha no corpo e fazer andar o desejo. Mas não custa dar uma mãozinha e oferecer sugestão para os incautos e incautas, pessoas curiosas, galera que deseja uma variada, etc. Vai que.

  1. Comece aqui:

2. Segure pela nuca. Firme. Mordisque o pescoço, desça até o ombro e suba novamente em direção à orelha. Divirta-se aí. Não seja pessoa avara nos carinhos e alcance a orelha oposta. No caminho pode mordiscar meu nariz ou esfregar o seu nariz na minha testa. Suspire alto, gema, faça sons. Desça até o ombro que ainda não tinha sido visitado. Uma das mãos pode manter-se no pescoço, a outra desce até a bunda. Agarre. Apalpe. Afague. Aperte. Faça meu corpo inclinar e beije com vagar onde a veia pulsa. Lambidinhas são bem vindas. As mãos podem, agora, dedicar-se às laterais do corpo. Desvendar curvas, reentrâncias, saliências. Lembre-se que é um corpo de mulher, não de menina. Agora, pode beijar a boca. Beije até que falte o ar e meus pés saiam do chão. Ou que eu sinta como se.

3. Passemos a um outro nível: molhe meus lábios, morda-os de leve e, a seguir, com força. Marque minha pele com seus dedos. Esfregue a língua nos meus dentes, prenda a minha língua entre os seus dentes, invada minha boca, explore-a, domine-a. Sua perna ainda não está entre as minhas? Grande equívoco, leve-a pra lá agora mesmo. Encoste-me em algum lugar: parede, carro, mureta, não importa. Roce. Pra cima, pra baixo, pra cima de novo. Está excitado? Ótimo. Eu estou sem ar, lembra? Beije os olhos, a testa, o rosto. E me vire de costas pra você. Uma mão na cintura, descobrindo meu umbigo; outra mão nos seios.

4. Faça o circuito costas. Ignore tecidos, afaste-os com dentes, sei lá. Ssaboreie a pele. Belisque o mamilo. Mordisque os ombros. Deslize a outra mão até encaixá-la em algum lugar morno. Eu vou arfar. Demore-se, não há motivo pra pressa (a não ser, claro, que estejamos no meio de uma rua movimentada). Sussurre ao ouvido. É aqui que perco o rumo, o prumo e o norte.

5. Permita-se. Permita-me.

Desejos e eternidades

índice

O desejo é uma febre, bonita. Um ardor. Sabe do que eu falo? Aquela vontade de outro corpo, que nada mais resolve. Aquele outro corpo. Com nome próprio. Gosto. Cheiro. Daquela. Nada mais resolve.

O desejo é urgente, bonita. Ele é agora. É um sem tempo, no momento presente. Não tem lugar nem hora, nem contexto. Nem ativo, nem passivo. É latência. Esse desejo que só resolve quando a gente se funde e ele se expande. Nem eu nem você. Uma outra coisa, que vem do encontro. Esse encontro. Esse encaixe. Esse sabor. Essa pele que nos veste. Esse desvario.

 Não tem palavra bonita, tudo está nos olhos. Esses olhos que se derramam em rio. A racionalidade do desejo é latência que se sente nos poros. É voo no céu que a gente pode roçar as pernas.

E é esse desejo que nos excita. esse desejo que a gente deseja mais. Esse descontrole. Esse não saber, nem precisar pensar, onde colocar as mãos. Esse pulo em alguém. Essa dança que vem de dentro. Arrepio. Gozo. Mergulho. Esses instantes que param o tempo. A eternidade e o desejo. Você me entende? É por isso que a gente pulsa.

esse outro dia

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Um tambor toca ao longe. Não sei a mirada do que me espera. Desejo. Desenho traços que não conheço. A morada dos meus olhos repousa longe. O que será que virá? Traço rotas impossíveis de serem tocadas por minhas mãos. Agora.

Não agora. Adivinho. O futuro repousa suave nas asas que me assombram. Faz vento sobre meus olhos. Repouso as sombras que minhas mãos não alcançam. Sobrevoo. Não será agora que toco o que não sei. Espero. Suspenso. Entrelinhas que se abrem sobre os impossíveis de minhas mãos. Trêmulas. Acendo os cigarros que não fumo mais. Nessa fumaça que se ergue, nuvem suspensa, deixo-me guiar pelo destino improvável que me abraça.

Abraço, sem braços possíveis para tocar minha intensidade. Viva, por dentre os dedos. Te toco. Lembrança imaginária da pele que me habita. Habito. Um hálito que se foi, de ontem, da lembrança de ti sobre meu corpo que não alcanço.

Um dia, que será logo. Logo mais. Promessa. Prometo. Derramo-me em linhas longilíneas que percorrem meu corpo. Adormeço como alguém que escapa no que há de vir. É logo mais, meu amor. O pouso que se esparrama em hipóteses. Seguro. Aperto. Sou eu em mim, é você em ti. Pode ser. É. Quantos verbos. Quantas ações e equações desse ser que se conjuga. Conjugo. Nós, terceira pessoa do plural.

É tudo muito. Como os soluços do choro que não se derrama porque não tem água para banhar tudo. E a chuva que não para de cair desse céu de novembro, o sol em sagitário que solta todos os cavalos selvagens do meu peito. Cavalgo por entre planícies e quedas de cachoeiras imaginárias. Deixo correr. A garganta seca dessa sede que não passa e não se faz dezembro. Vou sonhar contigo, quando o sono vier. Outro dia. É o que desejo. Esse outro dia.

Meio Dia

Por Xênia Melo, Biscate Convidado

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Muitas coisas me passam pela cabeça. Volta e meia durante o dia me pego refletindo, quando estou a fazer algo do cotidiano, sei lá, escovando os dentes ou respondendo um email, penso quem serão as pessoas a fazer sexo naquele momento? A contingência da vida nos leva a crer que os casais transam à noite. Antes de deitar, depois que os filhos dormem, depois da janta, quando os corpos já cansados da jornada diária resolvem se aproximar, o pé gelado que teima em não aquecer nesses dias de frio. Juntam os casais os corpos à noite. Qual idade tem esses corpos? Gosto de pensar sobre repartir o ordinário da vida, e isso inclui o sexo, inclusive aquele sem muito movimento e emoção, mas que encaixa, até quando a paixão já não é mais tão combustível e dá espaço aos lençóis que há um tempo não aquecem mais. Tem os casais as mais variadas idades, os que acabaram se de conhecer e aqueles que dividem décadas juntos. Quem serão as pessoas que trepam nesse exato momento em que escrevo, em que você lê, será hoje dia de semana?

Tenho pra mim que os amantes se encontram ao meio dia, não sei se li isso em algum lugar, ou se é habitado pela ideia de que os encontros acontecem nos intervalos possíveis do dia, sem mudar a rotina da vida própria. Quantos amantes haveriam hoje na cidade? Onde e como fazem pra se ver? Há quanto tempo desfrutam dessa relação? Me interessa o corpo das outras pessoas, me interessa o que fazem deles. Se estão a se permitir violar costumes, se apenas vivem platonicamente suas paixões, se empurram esse desejo para algo distante.

Era meio dia, e você me esperava fumando um cigarro, eu estava sem comer, mas minha fome era de você, eu sinto o gosto salgado do seu corpo já cansado na minha boca, era disso que tinha fome, de um corpo sem banho que já fez muita coisa pela manhã. Era assim que você aparecia, já sem graça, pedindo desculpas por estar suado. Eu queria na verdade era que você me comesse em público ali mesmo, havia perto uma praça. O dia estava lindo, fazia sol, sua jaqueta era suficiente a evitar que as formigas da grama nos atingissem, não era necessário tirar toda nossa roupa, abaixamos as calças, e você metia em mim sem esperar muito qualquer umidade dos nossos corpos, foi na pressa e seco, ardia, mas havia urgência e receio de que fossemos pegos, debaixo das árvores e do dia que insistia em brilhar. Você gozou, eu não, às vezes me assustava e me excitava a forma bruta que me tratava em alguns momentos. Rapidamente levantou e fechou as calças, me alcançou a mão para levantar. Eu ainda processava a rapidez daquela transa e o ardor do meu corpo. Mas não, isso tudo foi na minha cabeça enquanto esperava você terminar o cigarro e subirmos. Não estamos dispostos a arriscar e perder nossos segredos. De toda forma não tínhamos muito tempo, decidi abrir mão do almoço para que você me comesse, nossa fome era outra.

Na porta você já tirava a minha roupa, mal consegui trancá-la, sequer chegamos no quarto, eu nua, você ainda não, me coloca na mesa e metia ali mesmo, com urgência, sem um único beijo. Eu me assusto com sua pressa, sequer perguntou se eu estava bem, você tinha fome e desejo por mim. Isso me excitava. Minhas pernas doem e amortecem por conta da pressão contra a mesa. Peço para irmos para cama, você me carrega montada no seu pau, me aperta com força contra a parede e continua a meter em pé, profundamente. Me sinto pequena e impotente perto de você, parece contraditório mas eu gosto, gosto de estar à deriva,  gosto que você saiba que sou vulnerável quando estou contigo. Gosto que você decida sobre o sexo, que me surpreenda. Você não precisa de muito, sua presença é o suficiente para que me deixe molhada e excitada, ainda que eu consiga ter atenção a uma infinidade de coisas outras. Quando estamos perto o tesão é sempre presente, e isso é bom. A parede está gelada, e seu corpo ainda vestido é incapaz de me aquecer. Digo que tenho frio e você me carrega para o quarto, me joga na cama sem muito cuidado, e me chupa com a habilidade de quem há muito faz isso. Meu corpo já não mais sente frio, está consumido pelo tesão que de certa forma não sei traduzir. Você não parece nem um pouco interessado em tirar sua roupa, fico pensando se esconde alguma cicatriz, se será só pressa ou distração por estar tão concentrado no meu corpo. Volta a me comer e ergue minhas pernas contra meu peito, vai tão profundamente que sequer consigo gemer, você me ocupa de tal forma que mal consigo respirar. Olha pro seu pau entrando em mim, seu quadril se movimenta com tanta destreza que me chama atenção. Me pergunto como você me sente, se a mim você parece tão grande e delicioso, qual sentimento te ocorre? qual o desejo que minha vagina te provoca? E o meu corpo? Só agora você faz contato visual comigo, já muito suado, sinto seu rosto pingar sobre o meu, sorri, de certa forma envergonhado. Acho excitante isso, o quanto consegue ter consciência corporal mas ao mesmo tempo carregar uma timidez singular. Toca o despertador, parece que o tempo está a nos dar uma rasteira, há ainda muito desejo pra um tempo que já se exauriu. Você apenas fecha seu zíper, me beija o rosto, se despede. Pergunto se não me acompanha num cigarro, pega o que havia acabado de acender, dá um trago, diz que está atrasado para um compromisso. Me beija a boca, diz tchau e deseja uma boa tarde, eu sorrio.  Levanto, como a comida requentada da geladeira, tomo um banho, canto sozinha uma musica desafinada no chuveiro. Penso na cidade e nos amantes que habitam sobre ela.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Um Amor, Desses de Cinema

Eu não tenho um rosto devastado. Nunca tive um amante chinês. Não tive que proteger meu irmãozinho do ódio do outro irmão – a não ser que se conte uma ou outra birra minha mesmo. Não tinha, adolescente, um chapéu de homem. Mas, tal como a jovem de vestido de seda natural e sapatos de lamê dourado na travessia do Mékong, “muito cedo na minha vida era tarde demais”.

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E é por isso que, mesmo quando desenho corações no guardanapo, nunca esqueço que são de inverídica anatomia em transitório material.

Podia fazer promessas e acalentar esperanças. Podia construir castelos em nuvens. Podia falar finais e felizes e sempres. Podia dizer: fico. Seria sincero, mas não verdadeiro.

Faço as vezes de menina, mas serei sempre a velha que se balança na calçada a contar memórias de uma trapezista que voava sem rede, falando de lonas de circo que se abriam em céus e luas e estrelas, sem saber se as memórias são minhas ou do velho vinil de capa azul.

Ignoro os tempos verbais, os avisos, os abismos. Já esqueci como será te amar, repito, madrugada adentro, enquanto o oco se agiganta. E congelo sorrisos, caso sejam necessários para pôr sob o chapéu masculino, em um rosto, enfim, devastado.

Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

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E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

Cicatriz

Tem o corte. Que mais arde que dói e vai daqueles mais superficiais aos que precisam de pontos. Se foi fundo, sangra e ficamos fracos. Depois do corte, uns dias de tontura. Não sabemos direito quem somos sem aquela parte lacerada, por que nos expusemos ao corte, por que ficamos, por que fomos. Por quê ainda queremos. Ou pior, nem queremos mas sentimos a noite vazia como se quiséssemos. Decerto é a perda de plaquetas. Ou hemácias. Ou dos projetos de futuro a dois, sei lá. Um copo de suco de goiaba e um misto quente diz que ajuda, como depois de doar sangue. Provavelmente à meia noite, sentada no ladrilho frio da cozinha, com um pouco de secreção balançando na ponta do nariz.

Às vezes o corte inflama ou infecciona. Aí é que dói de verdade. Lateja. Fica sensível toda a área ao redor. “Poxa, não fala em X porque parece com Fulano”. “Ah, ele gostava/praticava/era de X?” “Não, não, ele gostava/praticava/era de Y, mas Y é quase parecido com X…”.  Mas não entreguemos os pontos, a inflamação é o corpo reagindo. Os leucócitos tentando garantir alguma saúde. É um pouco melancólico lembrar que muitos deles morrerão no processo. Bom, mas dizia eu, os leucócitos precisam de tempo para fazer seu trabalho.

Vem o tempo, passa o tempo, traz alívio e casquinha. Que protege, mas só se. Se a gente não coça. Se não esbarra em alguma coisa. Se não roça com a toalha de banho. Se não vê no bar da esquina, se não esbarra por acaso no samba, se não percebe online no messenger, se não precisa encontrar pra tratar de alguma coisa importante como a divisão dos LPs. Quando qualquer uma dessas, magoa. Magoar a ferida é osso. Dependendo, começa tudo de novo, da hemorragia ao risco de infecção. Mas a gente torce que não, ferida quase secando.

A casquinha insiste e por baixo dela, o corte vai deixando de ser. Já não lateja. Já não perdemos sangue, já não ficamos fracos. Nem percebemos mais a luzinha verde entre tantas outras pessoas online e chegamos no bar sem fazer o rastreamento de identificação em todas as mesas. Passou. Não arde, não dói, não sangra. É quase como se não tivesse sido. Passou. E não. Já não há corte, é certo. Mas também não há a integridade antiga do corpo. Aquele risco branco na pele é história.

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PS. Se a ferida estiver demorando a fechar, inchada, com vermelhidão a muito tempo, dolorida ao toque, ou ainda se você estiver com dificuldade de deixar a casquinha fazer o trabalho dela, ficar cutucando, etc, procure um médico. Ou uma canção:

O sonho que não te contarei

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

Cara.

Sonhei com você. Fazia muito tempo que não acontecia. Eu podia mandar um inbox, mas não vou. Não quero meter um “oi sumido” nessa história e a gente acabar contando como nossos filhinhos são fofos e como sim, estamos trabalhando bastante e sim, que-difícil-a-situação-do-País-que-vontade-de-mudar-pro-uruguai-viu? Vi.

Ao invés disso eu vou ser cafona e contar como foi foda, fodimais ter que fazer duzentos e cinquenta e sete reuniões de trabalho com você antes de tomarmos o primeiro café sozinhos, antes de nos tornarmos unhicarne, antes de você vai então também vou, antes do pessoal começar a comentar, antes de parecer bem errado ficarmos tão bem juntos e nós estávamos mesmo tão bem juntos que era impossível não reparar.

Lembra daquela vez em uma festa na Lapa que você só de sacanagem colocou aquele vinil do Al Green, que você sabia que eu amava Al Green mas não contava para ninguém? E a gente já tinha tomado todas as drogas da festa, e eu tive que fingir que estava passando mal pro meu namorado me levar embora, senão, sabe-se lá o que ia acontecer? Pois é. Foi naquele dia que eu decidi que não ia mesmo nada acontecer e que essa era a maneira mais fácil que eu conhecia de para sempre e se fosse para sempre para mim tava bom demais.

Na última vez que nos vimos, duas garotinhas nos viram conversando no banco da praça e vieram perguntar se. Respondemos que não. “Vocês são amigos?” Sim. “E como vocês se conheceram?” (Nossa, como eu não suporto esses projetos escolares alternativos-hipsters que acabam por interferir na vida dos adultos melancólicos). Não sei se é por que as crianças berram, os balanços rangem, os vendedores de pipoca passam, os joelhos sangram, as bundas deslizam nos escorregas, as gangorras revelam as relações de poder mas enquanto você contava dos cafés, do job, de nós dois eu só ouvia que você não deveria ter soltado a minha mão por baixo daquela mesa que eu deveria não ter te deixado em casa depois daquele karaoquê, que você não deveria ser tão bro do meu ex, que a gente deveria ter obedecido Al Green pois o Al Green minha gente, sempre tem razão.

E, né, você deve querer saber do sonho. E sinto te informar que nem no sonho a gente conseguiu trepar, no sonho a gente só parava de fazer política & piada, sendo política & piada o nosso modus operandi e sendo tão fácil nesses tempos falar política & piada para se safar de qualquer situação verdadeira e potencialmente perigosa para umas pessoas como eu e você.

Era assim: a gente via “Made in USA” num cinema na Praça Saens Peña. Por mais Urca que eu use pra me curar, permaneço tijucana, pois tem coisas para as quais não existe remédio mesmo. E toda vez que Paula Nelson era interrompida ao dizer o nome do marido desaparecido era o seu nome que eu esquecia. O mais angustiante e delicioso era saber do seu desprezo solene por Gordard e sua firmeza de propósito de estar ali.

Mas como diria Marianne Faithful “as tears go by” e hoje é o dia em que eu não te contarei tudo isso, hoje será esse dia de fechar essa tampa, riscar o calendário, fazer feira, um almoço gostoso, rir com umas amigas e quem sabe chamar aquele alemãozinho-repórter-das-olimpíadas para tomar umas afinal não sou de ferro e tirando você eu gosto mesmo é de gente fácil.

Eu gosto é de gente fácil e tudo tão difícil durante tanto tempo é um troço que realmente não combina. A gente achou que deixar assim tava bom, que tudo que não acontece tem esse jeitinho de tudo ainda pode acontecer.

Pela minha experiência prévia você vai reaparecer mágico, glorioso, lindo, com tantos dentes enfileirados ofuscando a porra do sol, e eu direi sim para qualquer programa ingênuo e diurno. E falaríamos todos os subtextos do Brasil para confessarmos, sem usar as palavras, o quanto nos amamos e não entendemos que porra deu errado.

Mas dessa vez direi não, mesmo sabendo que pelas condições climáticas de tesão, temperatura, mau hábito, pressão, saudade infernal e direção do vento, seria um dia perfeito para dar de comer aos patos do Parque Guinle.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Invicto Nas Batalhas

Por Alexey Dodsworth Magnavita*, Biscate Convidado

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No anúncio da morte da tão querida Elke, seus familiares citaram uma frase grega: “Eros aníkate mahan”, que pode ser traduzida como “o amor é invencível nas batalhas”. Essa era uma frase bastante repetida por Elke nas mais diversas situações. Como a mulher cultíssima que ela era, falante de oito línguas com assombrosa fluência, conhecedora do grego e do latim, Elke certamente leu “Antígona”, de Sófocles. Foi desta obra que ela tirou a frase que funcionava como sua invocação pessoal.

Falemos sobre o contexto da frase: Antígona, na mitologia, é filha da relação incestuosa entre Édipo e Jocasta e, por isso mesmo, filha de um destino inescapável. Antígona é o fruto de um encontro que, não importa o quanto se desejasse evitar, estava fadado a ocorrer.

A ironia é que Antígona, filha deste destino inescapável, é a imagem da desobediência diante do poder autoritário. No mito, ela deseja oferecer os devidos ritos de sepultamento a Polyneikes, seu irmão morto, contrariando as determinações do rei. É como se do enlace inescapável entre Édipo e Jocasta, nascesse seu exato oposto: aquela que desobedece, que enfrenta o poder vigente, nem que isso a prejudique. Com seus atos, Antígona está mandando a ordem externa às favas e fazendo o que ela sabe que deve ser feito. Consequentemente, ela termina dando a vida por seus princípios éticos.

E é por isso que o amor é invencível nas batalhas: os humanos eventualmente vencem, eventualmente caem, eventualmente triunfam, eventualmente perdem. O amor, não. O amor sempre vence, mesmo que isso nos destrua. Se Édipo tiver que amar Jocasta, nada há de impedir. E se Antígona tiver que enterrar seu irmão, ela o fará mesmo que isso a mate. Porque ninguém pode desafiar a vontade do amor.

A oração completa, evocação, clamor ou hino, como vocês preferirem, é a seguinte:

“Amor, tu que és invicto nas batalhas!
Amor, tu que destróis as riquezas!
tu que manténs tua vigília na face macia de uma donzela!
tu que caminhas sobre as águas
e entre as casas dos moradores dos desertos!
nenhum imortal pode escapar-te,
nem tampouco os homens que vivem por apenas um dia,
e aquele para quem tu viestes é louco!
Apenas eles mesmos têm suas mentes por ti urdidas para o mal,
para suas próprias ruínas.
Tu, que despertas a contenda entre parentes,
Vitoriosa é a luz ascendente do amor que brota dos olhos da noiva;
Tu que és o poder entronado no balanço ao lado das leis eternas
por onde a deusa Afrodite urde sua vontade indomável.
Amor, tu que és invicto nas batalhas!”

 

14081186_10154431327914913_2028334642_n*Alexey Dodsworth Magnavita é doutorando em Filosofia Política e Ética pela USP e pela Università Ca’ Foscari de Veneza, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP, escritor de literatura fantástica e tem mania de ganhar concursos de culinária na Itália fazendo comida baiana com ingredientes locais. É um biscateiro da vida.

Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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Ósculos desencontrados

Recebera o convite, mas não estava certo se iria comparecer àquele baile. Vagava perdido por aí, sem saber bem o que fazer da vida e foi gostoso descobrir que havia outros como ele. Pensou que podia ser meio looser ir a um encontro desses. Afinal, já haviam sido perdidos, de que adiantava o encontro dos desencontrados? Por outro lado, podia ser divertido ver aqueles beijos todos que ficaram no ar e nunca foram beijados.

Depois de muito balançar, decidiu: ia ao I Encontro dos Beijos Perdidos. No convite não dizia nada de traje nem se podia levar alguém. Rá. Como que um beijo perdido ia chegar lá de parzinho? Se o beijo já tinha companhia, não era mais perdido.

Ficou imaginando o salão cheio dos beijos que nunca aconteceram. Só pedia pelamordedeus que não fosse uma convenção a la “Qualquer coisa Anônimos”. Afinal, era um encontro de beijos. De beijos que nunca aconteceram, mas que estavam por aí cheios de vontade de beijar. Esperava que fosse uma festa com álcool e cigarros, como o gosto que levava na boca desde que beijou o ar enquanto esperava beijar o que estava à sua frente. Suspirou ao lembrar.

Chegou ao I Encontro dos Beijos Perdidos e viu tudo o que imaginara: música boa, risadas, fumaça de cigarro, bebidas de todos os tipos, aquele cheiro de inferninho no ar. Foi até o balcão, pediu uma dose dupla de whisky. Cowboy. Olhava aquela balbúrdia, feliz e ao mesmo tempo consternado por descobrir que havia tantos beijos que nunca existiram. Não queria fazer uma sessão de “Beijos perdidos anônimos”, mas estava curioso pra saber o que levara cada um deles até ali.

Ao seu lado, um grupo de três beijos conversavam. Contavam suas histórias e ele ali ouvindo e querendo também interagir, dividir o que lhe acontecera. Um beijo de voz grave contava que esperara anos para beijar a vizinha, passava em frente ao portão dela todos os dias, na esperança de encontrá-la e puxar assunto. Mas sempre que ela falava com ele, sua voz engasgava, a língua grudava no palato e não saía voz nenhuma, só grunhidos. Ensaiou o beijo no espelho por anos, até que um dia chegando em casa, viu o caminhão de mudança na porta dela. Correu, mas a vizinha já tinha ido embora antes. Nunca mais soube notícias.

Uma boca vermelha, de lábios bem volumosos e – muito, muito sexy – contava que passara a noite toda rindo, conversando, até dividiu um cigarro, conversavam pertinho, mas na hora de despedir o sujeito lhe deu um abraço e foi embora. Nem menção de beijinho no rosto fez. Um sacana. Agora ela estava ali, vagando, sem ter pra onde ir.

Ele foi se aproximando aos poucos do grupo, rindo, ansioso, tentando se enturmar. Até que alguém perguntou sua história. Contou então, que era um beijo que se perdera há muitos anos. Conheceu uma moça em um festival, assistiram dois dias de filmes sentados um ao lado do outro, e ele o tempo todo querendo acontecer, sentia o cheiro de verbena dos cabelos dela e só pensava em beijá-los, e quando viu a voltinha do seu pescoço, quase escapou por um triz. Um dia tomaram umas cervejas, riram, trocaram uns olhares longos, espetaram a mesma batatinha, riram de novo. Quando ele ia pular na boca dela, louco de vontade, apareceu um beijo barbudo que atravessou seu caminho. Foi tudo muito rápido e em dois minutos o beijo da moça se entregou ao beijo barbudo. Desde então, ele estava fadado a ser o beijo que não aconteceu.

Ao redor, as conversas aumentavam, a música estava muito alta e quase não se ouviam. Até que um par de beijos se beijando dançando na pista chamou a atenção. Rodopiavam, desciam e subiam, riam, estavam mesmo felizes com aquele encontro tão esperado. Eureka! Era pra isso que tinham ido até ali, óbvio! Como não pensou nisso antes? Estava tão acostumado a ser perdido que tinha esquecido como era bom ser beijo de novo? Se aproximou dos lábios vermelhos, falou alguma coisa baixinho e tascou-lhe um beijo demorado, profundo, cheio de querer. Então, uma profusão de beijos tomou conta da festa, que agora podia ser chamada de Encontro Anual dos Beijos Ávidos por Beijar.

bejo

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