Oração para Leveza

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Ilustração de Beatriz Vivanco

Com a cabeça no chão, para ouvir as entranhas do terra:

Abrir espaço. Arejar . Tornar-se senhora da dança que vem de dentro. Um pé depois do outro. Trocar os sapatos. Esparramar-se. Ouvir a batida do coração. Permitir o ritmo dos quadris. Decantar. Colocar-se no colo. Nascer um pouco a cada dia. Reiventar o passo. Aprender a ter olhos limpos para o horizonte. Cada dia uma cor. Não reter : abrir as mãos para a impermanência. Corpo leve na correnteza. Admirar o fluxo. Acolher a dor. Espalhar o perfume no vento. Soltar o cavalo da sela. Dar-se flores. Traçar as rotas sem bússola e pretensão de acerto. Lembrar-se de sorrir para as miudezas. Tomar banho de chuva depois da seca. Passar os dedos nas rachaduras do sol. Sentir a pele queimada com gosto de sal. Tocar-se. Poder abrir o peito quando o choro vem. Permitir-se a dúvida. Enterrar as culpas no jardim. Afofar a terra. Olhar os buracos sem medo do fundo. Abracar-se no correr do dia. Comer a ansiedade aos pouquinhos. Desenrolar-se no chão de cimento. Espinha ereta. Batom vermelho. Gozar com os próprios dedos. Deixar a porta aberta para o acaso. Experimentar-se. Deixar vir o amanhã sem medo das perdas. Reconstruir-se. Rasgar as máscaras. Flertar com a solidão como lugar de pertencimento. Dar comida aos pássaros interiores. Navegar-se em mar aberto. Deitar no sol. Sentir a areia por entre os dedos. Procurar abrigo nas tempestades. Saber receber. Poder amar com os pedaços que faltam. Permitir-se ser lagoa calma nas estiagens. Despir-se. Mergulhar nas águas interiores. Sentir o escuro. Travessia. Uma onda depois da outra.

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Ósculos desencontrados

Recebera o convite, mas não estava certo se iria comparecer àquele baile. Vagava perdido por aí, sem saber bem o que fazer da vida e foi gostoso descobrir que havia outros como ele. Pensou que podia ser meio looser ir a um encontro desses. Afinal, já haviam sido perdidos, de que adiantava o encontro dos desencontrados? Por outro lado, podia ser divertido ver aqueles beijos todos que ficaram no ar e nunca foram beijados.

Depois de muito balançar, decidiu: ia ao I Encontro dos Beijos Perdidos. No convite não dizia nada de traje nem se podia levar alguém. Rá. Como que um beijo perdido ia chegar lá de parzinho? Se o beijo já tinha companhia, não era mais perdido.

Ficou imaginando o salão cheio dos beijos que nunca aconteceram. Só pedia pelamordedeus que não fosse uma convenção a la “Qualquer coisa Anônimos”. Afinal, era um encontro de beijos. De beijos que nunca aconteceram, mas que estavam por aí cheios de vontade de beijar. Esperava que fosse uma festa com álcool e cigarros, como o gosto que levava na boca desde que beijou o ar enquanto esperava beijar o que estava à sua frente. Suspirou ao lembrar.

Chegou ao I Encontro dos Beijos Perdidos e viu tudo o que imaginara: música boa, risadas, fumaça de cigarro, bebidas de todos os tipos, aquele cheiro de inferninho no ar. Foi até o balcão, pediu uma dose dupla de whisky. Cowboy. Olhava aquela balbúrdia, feliz e ao mesmo tempo consternado por descobrir que havia tantos beijos que nunca existiram. Não queria fazer uma sessão de “Beijos perdidos anônimos”, mas estava curioso pra saber o que levara cada um deles até ali.

Ao seu lado, um grupo de três beijos conversavam. Contavam suas histórias e ele ali ouvindo e querendo também interagir, dividir o que lhe acontecera. Um beijo de voz grave contava que esperara anos para beijar a vizinha, passava em frente ao portão dela todos os dias, na esperança de encontrá-la e puxar assunto. Mas sempre que ela falava com ele, sua voz engasgava, a língua grudava no palato e não saía voz nenhuma, só grunhidos. Ensaiou o beijo no espelho por anos, até que um dia chegando em casa, viu o caminhão de mudança na porta dela. Correu, mas a vizinha já tinha ido embora antes. Nunca mais soube notícias.

Uma boca vermelha, de lábios bem volumosos e – muito, muito sexy – contava que passara a noite toda rindo, conversando, até dividiu um cigarro, conversavam pertinho, mas na hora de despedir o sujeito lhe deu um abraço e foi embora. Nem menção de beijinho no rosto fez. Um sacana. Agora ela estava ali, vagando, sem ter pra onde ir.

Ele foi se aproximando aos poucos do grupo, rindo, ansioso, tentando se enturmar. Até que alguém perguntou sua história. Contou então, que era um beijo que se perdera há muitos anos. Conheceu uma moça em um festival, assistiram dois dias de filmes sentados um ao lado do outro, e ele o tempo todo querendo acontecer, sentia o cheiro de verbena dos cabelos dela e só pensava em beijá-los, e quando viu a voltinha do seu pescoço, quase escapou por um triz. Um dia tomaram umas cervejas, riram, trocaram uns olhares longos, espetaram a mesma batatinha, riram de novo. Quando ele ia pular na boca dela, louco de vontade, apareceu um beijo barbudo que atravessou seu caminho. Foi tudo muito rápido e em dois minutos o beijo da moça se entregou ao beijo barbudo. Desde então, ele estava fadado a ser o beijo que não aconteceu.

Ao redor, as conversas aumentavam, a música estava muito alta e quase não se ouviam. Até que um par de beijos se beijando dançando na pista chamou a atenção. Rodopiavam, desciam e subiam, riam, estavam mesmo felizes com aquele encontro tão esperado. Eureka! Era pra isso que tinham ido até ali, óbvio! Como não pensou nisso antes? Estava tão acostumado a ser perdido que tinha esquecido como era bom ser beijo de novo? Se aproximou dos lábios vermelhos, falou alguma coisa baixinho e tascou-lhe um beijo demorado, profundo, cheio de querer. Então, uma profusão de beijos tomou conta da festa, que agora podia ser chamada de Encontro Anual dos Beijos Ávidos por Beijar.

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Navegante

Naquele fim de tarde a tristeza era uma velha conhecida, visitando-me com roupas novas de um novo inverno. O frio me abraçava os pés gelados, colados no chão de cimento do quintal da casa. Assim como eu gostava de costurar minhas – meias – verdades, sempre cheias de perguntas sem resposta. Nua no chão de cimento, sentindo o gelado percorrer minha espinha, soltando ar frio pelos pulmões, tão presente quanto meus assombros.

De novo estava só em meus pensamentos de quase noite. Pensei em ti ali do lado, tão perto e tão longe, envolva em dores que eu não conseguia segurar, nem ao menos partilhar – como tanto se espera. Assustada com minha fragilidade diante dos sustos da vida. Eu menina contorcida no canto do quarto, revisitando lugares, tecendo dores nas minhas cobertas esvaziadas de afeto.

O amor é estranho. Um bicho arredio de penas longas, macias, que se assusta fácil. Afugentado por anos de posses e certezas sobre como se ama. Nós, pobres tentantes, tão cheios de sentenças feitas que não cabem no espanto de sentir. Coisas da nossa cultura positivista. Seja nos livros acadêmicos, seja nas religiões cristãs que explicam tudo. A gente precisa saber como. Mesmo quando não é possível somar equação alguma. Quando os ponteiros desorientam-se na tempestade de ventos e areia de mar revolto. Mesmo quando a vida pede calma e um tempo de espera em suspenso.

Não sabemos contemplar o horizonte tomado de ondas e esperas à beira mar. Temos que finalizar a tese com conclusões, com respostas que nos levam sem ao menos termos maturado o tempo de estio. Esse tempo que não podemos perder e que nos perde, o tempo todo, nessa costura estranha e espessa de calos e mágoas. Nossos relacionamentos sem paciência para o tempo de plantar a desconstrução de nós mesmos. E de colher a nudez, sem regras, réguas e exigências estranhas ao sentir do amor. Sem vestir, logo e com voracidade, essa roupa pequena que nos sufoca e nos aperta a vista, cega para o que de fato somos e queremos em nossas solidões partilhadas.

O nosso amor padrão capitalista, superestimado em poesias de Vinícius e contas correntes conjuntas, acalentado em vasos curtos e caros comprados nos shoppings que vendem à prazo no cartão, uma conta que nunca terminamos de pagar. Todas essas alegorias tão frágeis e tão pequenas diante de tudo que se sente com o peito aberto. Toda essa dor de não caber no comercial de margarina onde o outro não nos falta, onde não tem vazio nem dúvida nem medo nem nada entrecortado por espaços em branco. Onde o amor é tão fácil e completo como o kit colorido que vem junto com a carta de princípios e o conjunto de regras morais. É só achar a pessoa que. Ou não é a pessoa porque isso, aquilo, aquilo outro que.

E é amor também esse tanto que nos escapa nas entrelinhas, esse tanto que nos falta em respostas, em caminhos, essa falta tamanha, sem contornos e sem rédeas. Esse tanto misturado, cheio de surpresas e avessos que não conhecemos. Esse vento que não precisa parar de soprar nem quando a rota se desvia e a vida nos derruba. Isso que a gente não controla como quer e como manda o roteiro. Porque – penso eu – não se faz inteiro o que não vem dessas descobertas de fundo de rio e de mares profundos. Cada qual o seu próprio, e as mãos estendidas para alguém cheio de si mesmo, tão faltante quanto real. E que sejamos insatisfeitos atravessantes, porque as marés nos levam sempre para além de nós. E que bom poder navegar no que não se sabe.

Fico

Então, fico. Mais um pouco, mais um dia, mais um tempo. Mais. Mais pele. Mais fogo. Mais suor, pernas encaixadas, mais língua, gosto, gemido, mais nós. Mais coração acelerando o ritmo, mãos modelando carne, olhos mergulhando em olhos. Mais perto. Mais.

 

Fico. Deixo a mochila encostada na porta da rua, lembrando que a despedida será. Alerta do café que esfriará na xícara enquanto o pensamento passeia por manhãs em comum. Anúncio antecipado dos dias que escreverei saudade com lápis para poder apagar em papel o que não se apaga em tesão. Avisando o bem querer com calendário.

 

Fico sabendo que já não somos. Que é um puxadinho. Fico apesar de. Da passagem comprada. Do projeto acertado. Dos dias que estavam certos de ser. Fico sabendo que não engano o relógio, não engano a rota, não engano a vida. Não me engano.

 

Fico com a cabeça encostada em teu peito, buscando me ensudercer pelas batidas do teu coração e assim não ouvir o sussurro zombeteiro do tempo. Fico mesmo sabendo os acertos. Os planos. Os contras. Fico mesmo sabendo que você não cabe na minha vida e eu não orno com a sua.

 

Fico e imitamos tão bem a felicidade que sempre sentimos que quase acredito que estar é verbo a ser conjugado no presente. Fico e trepamos. Fico e rimos. Fico e gozamos. Entrelaçamos dedos, acarinhamos rostos, roçamos corpos, prolongamos beijos, como se fosse possível.

 

Fico até que você durma e a dor amanse como bicho selvagem domado. Um equívoco necessário. Fico até conseguir soltar a mão que você segura entre a sua sem que isso cause mais que um gemido desgostoso. Fico até o silêncio passear nos ambientes da casa e entorpecer temporariamente a saudade. Fico até roçar os lábios em seu rosto, inspirar próximo ao seu cabelo, engolir a despedida, pegar a mochila próxima à porta de saída, trancar a porta e passar aquela chave que você nem pestanejou pra me entregar por baixo da porta.

 

Aí, vou. Vôo.

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Elevador, de novo

Leia o post Elevador da Lis Lemos, aqui

Reparou no moço sentado esperando o elevador. Era o mesmo. Era o mesmo? Olhou primeiro no espelho do hall, as mesmas havaianas indignas, uma saia indiana mais sambada que a Sapucaí, camisetinha branca e os grampos de sempre. Seis. Tirou o olho do arrependimento no espelho e confirmou: era ele. Bonito, barba, bronzeado, cabelo grande. Talvez um pouco mais curto que no encontro passado. Talvez. De novo ao telefone, de novo um recado ambíguo: estou chegando. Em casa? Uma visita? Não, não era vizinho, quase um ano lá, muita falta de sorte se não cruzasse mais vezes com ele – cruzasse, rá, pensa bobagem, ri alto, ele levanta a cabeça, atento, ela queria desviar o olhar, acaba mergulhando no dele, que bonitos que são, escuros, sombrados por olheiras.

Oi. Pra ele sai tão fácil. Porque ela foi rir? E agora, o que responder. Repetir o oi? Comentar o tempo? Que droga de cidade na linha do Equador onde o tempo nem serve de conversa fiada. Ele insiste: já nos vimos no elevador, não? É preciso desengasgar a timidez ou serão 21 andares de mico. Levanta a cabeça, acena, sorri, sim, nos conhecemos aqui. Ele estende a mão. Aquela mão enorme que notou desde a primeira vez. O elevador chega. E agora? Elevador, mão, elevador, mão, isso, aperta, morna, gostosa, áspera, o elevador fecha a porta, sobe, ele ri: perdemos. Não solta a mão. Opa. Faz um carinho na palma, como era mesmo que sua avó dizia? Pedindo um beijo. Bonita, sua mão. A voz faz cócegas no ouvido. Gostosa. Sente a pele arrepiando e o mamilo enrijecendo. Camiseta branca sem sutiã. Que idéia, que idéia. Obrigada e levanta os olhos que não encontram os dele, dessa vez, atentos que estão aos mamilos enrijecidos. Ela esquenta mais, aperta a mão dele sem notar. Nota. Puxa a mão, baixa a vista e encontra a calça de moletom dele, marcada.

Respira fundo, impressão, impressão. Ele ainda está falando mas ela não escuta, ocupada com o sangue quente, a palma suada, a perna mole, o tesão. O elevador que chega, vazio. Ele faz um gesto, ela entra na frente, ele encosta a mão nas suas costas, gentil, ela lembra: a câmera está quebrada, porque ela está pensando nisso agora, para de repente no meio do elevador, ele esbarra, as portas se fecham, nenhum dos dois se afasta. Ela sente a respiração morna dele em seu pescoço, sente o roçar do pênis pressionando a calça de moletom e sua surrada saia indiana. Tenho que fazer alguma coisa, tenho que fazer alguma coisa. Um andar, outro.

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Estende a mão pra trás. Aperta o botão do seu andar. Meio de costas, volta a mão no pescoço dele. Deixa escorregar, peito, barriga, pau. Afaga. Puxa enquanto dá dois passos em direção ao fundo do elevador. Ele segue, as mãos já embaixo da camiseta branca sem sutiã. Ele beija o pescoço, o ombro, a barba macia acentuando a carícia. Puxa os bicos dos peitos, dá um peteleco. Ela espalma as mãos na parede do elevador e esfrega a bunda com força no quadril dele que já deixou uma das mãos encontrar o caminho e passar fácil pela saia e pelo elástico frouxo da calcinha. Sente o dedo, firme, roçando o clitóris. Quarto, quinto, se o elevador parar em algum andar? Respira, respira, ela tenta lembrar mas arfa enquanto ele continua, ritmado, a massagear e estimular. Ela sente a calcinha encharcando, a outra mão dele deixou os seios e aperta a sua bunda, os dedos firmes marcando seu rabo, explorando a fenda, insistindo, empurrando, ela se empina mais, ele mergulha o indicador na buceta encharcada e começa a enfiar, gentil e firme, no cu. Que andar, que andar, ela não sabe, ela sente os dedos na buceta, no cu, no clitóris, por todo lado, quantas mãos enormes ele tem? O pênis se esfregando no lado da coxa, a boca aberta sugando o ombro, ela arfa, ela goza, ela goza, ela goza. Ela geme, as pernas trêmulas. Ela sente o vazio. Os dedos se afastando lentamente. A porta do elevador abrindo. Ele se encosta em um dos lados, mantendo o elevador no seu andar enquanto ela arruma as roupas e tenta se segurar em pé sem o apoio das paredes do elevador. Olha pra ele que chupa, com ar satisfeito, os dedos.

Da próxima vez me dá um beijo? Ele diz. Ela sorri, marota, e pensa, zoando a si mesma: não ando dando essas liberdades pra qualquer um. Ele pisca, desconcertado com a gargalhada livre que ela dá. Ela fica na ponta do pé, morde a orelha onde balança o brinco e sussurra. Da próxima vez eu dou… o beijo. Sai sem esquecer de rebolar e sem olhar pra trás enquanto o elevador fecha, suave, a porta. Vermelha, satisfeita, vê confirmada sua hipótese: sua cidade não precisa de mais prédios, precisa é de mais sexo.

Sonhos sonhos são

Desde o 11 de maio eu não durmo. Perco o sono. Viro, me reviro pensando no caos do meu país. E em você. Você é água mansa por onde meu pensamento desliza quando se esquece do que nos fizeram: a mim, a você e a toda as pessoas. As pessoas que lutam, trabalham, constroem esse país de que tanto me orgulhava de ir me tornando adulta nele. Com todos os problemas, sem reforma agrária, política ou fim do monopólio dos meios de comunicação. Ainda assim era possível ver um horizonte, havia brechas, lutávamos e acreditávamos mais na vitória do que na derrota.

Penso nas mulheres desempregadas com que conversei durante aquela semana. Uma me disse: “vi um trabalho que parecia muito esquisito. Não queriam pagar nem o salário mínimo. Eu tô precisando, mas não tô passando fome, né?”. Fiquei tão feliz de ouvi-la dizer isso, que não precisava se submeter a um trabalho degradante e mostrei a elas porque muitas não precisavam mais. Aí penso que esse pouco que conquistamos pode se acabar. Meu peito se enche de raiva. Balanço a cabeça pra sumir essa angústia e vir só você à mente.

Em meio a esse temor que se abateu sobre nós, pensar em você é o que me aquece o peito. O que me conforta nessas noites insones. Mas penso que o MinC acabou, golpearam também o presidente da EBC, acham que temos direitos demais. Lembro quem é Mendoncinha e o seu DEM-Elite que odeia pobre, negro, trabalhador sem-terra. E lembro que você, assim como eu e o restante estamos em perigo.

Penso nos adolescentes de São Paulo agredidos pelo Estado por quererem saber onde foi parar a comida a que eles têm direito. COMIDA. Aquele item básico da sobrevivência. O que nos bota de pé, firmes pra luta, que nos sustenta, que nos faz fortes. COMIDA. E esse pensamento puxa outro da tramitação do projeto de redução da maioridade penal e tudo se encaixa. Criminalizar nossos jovens cada vez mais cedo. Enjaulá-los, contê-los, lucrar com o fim de suas vidas. E me lembro da Bolsa-Estupro, da Cura Gay, da CPI da UNE. Claro. Foi pra isso – também – que eles nos golpearam.

O dia já está quase amanhecendo e continuo pensando nisso tudo. É hora de me acalmar e tentar dormir. Mudo a lógica das coisas e me lembro de que em breve você estará aqui. Que talvez eu siga em noites insones, mas porque faremos samba e amor até mais tarde. Ou finalmente poderei dormir aninhada no seu corpo que me traz uma paz do tamanho do mundo. O mundo precisa de mais encontros como os nossos, ele não sabe o quanto perde quando não estamos juntos.

sonho

Durmo e sonho agonias. Uma praça escura, muita lama e você que está para chegar, mas não chega nunca. A plenária vai começar, querem sentar no lugar que reservei pra ti. Você não chega. Um homem engravatado dá entrevista ao meu lado e quando tento xingá-lo perco a voz. Consigo falar, mas na hora de gritar a voz desaparece. Você não veio. Tento gritar pra outro engravatado, mas a voz falha de novo. Acordo ofegante, é dia, e falta pouco pra você passar o inverno comigo.

Balé

“Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A primeira vez que ouviu isso foi em uma série de tv, há tanto tempo que nem podia garantir que a ela que escutou era a mesma ela de hoje. E riu, no dia, claro. Pimenta nos olhos dos outros. “Não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A segunda vez que ouviu essa frase foi no dia anterior e o som era da sua própria voz, com um acento ácido e cruel. Ela não sabia direito porque sua voz soava assim quando estava machucada ou confusa.

Ela não precisava se ver para saber que era um clichê perambulante, na praia. Calça encarapitada no meio do tornozelo, pés descalços, sandálias balançando na mão e aquela desolação no rosto. Peixe fora dágua. Lembra a primeira vez que se encontraram, lados opostos da mesa do bar, aniversário de uma amiga em comum, ex-namorada das duas. Mundinho pequeno, comentaram, ela e a menina das pernas esguias e mãos bailarinas.

Era tão bonita que dava vontade de pegar no colo. E pegou. No colo, na bunda, nos peitos. E os beijos? Ah, os beijos. As línguas alternando escrita no céu da boca. Mal conseguiam respirar, mas a menina das mãos bailarinas ainda encontrou fôlego pra dizer: acho que vamos dar certo. Isso lhe tirou um pouco o chão, mas ela descontou no tesão e ignorou.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia de não fazer nada: não depilar perna, não chegar na hora, não comprar os ingressos. Ontem foi o dia de falhar. E depois, cruel, dizer: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Dois meses só? Um pouco menos. Mas tão pesados que ela não contava em dias, mas em quilos.

Podia ser fácil. Os mesmos filmes, trajetórias parecidas, algumas dores, amores aqui e ali, bairros vizinhos.  E vazios que queriam se encaixar. Ela acreditava no tempo, no desejo, no movimento. Mas a menina das mãos bailarinas preferia o esforço. A disciplina do amor, a menina brincava, com aquele jeito desastrado que a gente usa quando tenta disfarçar uma verdade.

A menina das mãos bailarinas tinha um plano. Ensaiava a felicidade. Fazia marcações. Repetia os passos. Perfeição: a vela, a colcha, a viagem no fim de semana, o bilhete na geladeira, o presente certo, a hora certa, a palavra certa. E ela: desastrada. E preguiçosa. “Porque você não”. Ela detestava as frases que começavam assim. E eram muitas. Porque ela não, realmente.

Havia a conversa – e era boa. A cama preguiçosa aos domingos – e era bom. A parceria na cozinha, os filmes no sofá, o conforto em meio às tristezas do cotidiano. Bom. Mas as conversas, o domingo, a cozinha, os filmes, o conforto da menina precisavam de uma forma. Um fórmula. O correto. Precisa se dedicar, a menina pedia. Tem que dar certo. E ela carregava o peso de não saber a hora adequada para o abraço, de não escolher o filme iraniano, de não cortar a cebola em julienne, de deixar farelo na cama, de não saber ficar calada.

Sentia nos ombros, mas esquecia quando se perdiam uma na outra. O tesão. O telefonema picante do meio do dia, os dedos curiosos no meio das pernas, o suor e cheiro de gozo nos lençóis. Tinha seios grandes e de aureóla escura, a menina das mãos bailarinas, seios que ela chupava até a menina arquear e perder o equilíbrio. Tinha um cabelo crespo e macio no qual ela enfiava nariz e língua, descendo pela testa, rosto, até a curva atrás da orelha e deixava a língua alternar com os dentes enquanto as mãos apertavam a bunda. E que bunda. Grande, espaçosa, macia. Era macia, a menina das mãos bailarinas e quente. Nas axilas, entre as coxas, na curva do pescoço, embaixo dos seios, sua temperatura era sempre um grau acima. Ela se acendia só de lembrar do morno da menina.

Parece que foi ontem. Mas não, ontem foi o dia do desacerto, do descontrole, do fim do peso. O dia da gota d’água em forma de frase: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. Não foi ontem. Uma pergunta ali, aqui, antes, depois: foi bom? Faço assim? Eu li na revista que as pessoas gostam mais de. Eu vi no filme que é melhor se . Peguei um livro que manda. Vamos nos esforçar. A gente tem que: depilar, alternar, apalpar, demorar, usar. Listas: de preliminares, de posições, de objetos. Ordem. Para fazer dar certo. Para dar certo. Que trocadilho infame.

Parece que foi ontem. E foi. Aniversário de relacionamento. Vamos comemorar antes, porque o dia melhor é sábado. A mensagem que já estava no celular ao acordar: não esquece de depilar as pernas. O telefonema no meio da manhã: não esquece de buscar os ingressos. O whatsapp no fim da tarde: não vai se atrasar pro jantar hoje, não é? O dia como chumbo, arrastado em correntes. Não depilou as pernas. Não pegou os ingressos, não chegou na hora. Poucas reclamações. Não é certo brigar no dia do aniversário. O jantar gostoso, a salada cortada de forma impecável. Tão melhor o corte julienne, não acha? O brinde depois, as carícias certas, na ordem certa, na hora certa. Preliminares. Posições. Gemidos. Prazer ou esforço? E a frase, sua, na voz quase irreconhecível, o acento ácido de quando ela está dolorida: “não é porque você consegue fazer isso com as pernas que você precisa fazer”. A menina de mãos bailarinas nem mudou a respiração antes de começar a chorar. E baixar as pernas. E se encolher na cama. Ela não pediu desculpas, não fez nenhum gesto de alento, recolheu as roupas, vestiu-se no banheiro, saiu em silêncio. Certos abismos são intransponíveis. Lembra da Marquesa: quando eu machuco o coração de uma mulher, é definitivo. Ou algo parecido.

Parece que foi ontem. E foi. Agora ela caminha na praia, enfiando o pé na areia para não sair flutuando, perdida, sem peso que a mantenha. O vazio que ela sente vai ser dor. Agora é só clichê e um pensamento aleatório. Associava as mãos bailarinas à graça e leveza, quando eram treino e joanetes inflamados.

Debochado, o mar lambeu seus pés.

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Novelo

Início: 06/05

Para Ângela e Duda.

Meu pai está morrendo.

O facebook e suas lembranças. Lunna me escrevendo há alguns anos dizia-me...

“Somos diferentes, não é mesmo? Talvez por isso você tenha disparado aquela pergunta em nosso último diálogo. Você se lembra? “por que?” – indagou você. Eu não sei o seu tom de voz. Nunca nos falamos se não por palavras escritas. Então imagino um tom acima, animado que vai se silenciando enquanto o discurso é feito. Não teve pausa o seu questionamento, mas eu a inseri aqui para dar o peso necessário a esse discurso que chegou a mim assim “eu me pergunto porquê eu insisto em conversar com você”…”

Meu pai está morrendo.

Lunna. Ah, Lunna…

“Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira”. – Carlos Drummond de Andrade.

Meu pai está morrendo.

Falamos de amizades, sororidade e rupturas.

Penso cinematograficamente. O que é complicado, tendo em vista as inúmeras possibilidades dessa forma de fazer e viver arte. Sem roteiro fica complicado. Do que eu ia falar mesmo?

Meu pai está morrendo.

As personagens aqui: Mãe, Beth, fogo, menstruação

As personagens fora: Leide Jane, Raísa, Camila, HipHop, Feminino Sagrado

Bijoux. Paciência. Bela, recatada e do lar. Bruxas.

Meu pai está morrendo.

Novelo Prateado. Fotos Performance LuzdelLuna

Cabelo Branco. Gatos. Fonte. As coisas que aconteceram.

Lu, Cláudio, visitas. Lunna reaparecendo. O texto de Lunna.

Filiação ao Psol.

Meu pai está morrendo.

Novelo do Mundo

Pensei em não pintar mais os cabelos, criar muitos gatos, banhar-me no chafariz Felliniano que ia instalar em sonhos no jardim. Pensei em consolar-me ranzizamente em ervas, cristais, esconjuros, benzeduras, divinações e na paz de andar nua e descalça na grama. Mas é que tem maldade andando nas ruas e “pessoas assim” podem morrer assassinadas a qualquer momento.

Meu pai está morrendo.

Enfim… muito tempo sem escrever. Acho que perdi o jeito. O prumo. As rédeas. As palavras. Elas tomaram conta do ambiente e se esparramaram sem controle.

Meu pai está morrendo.

A sensação de não caber no que esperam. Do que falo eu que possa interessar? – questionei durante o todo tempo em que a pesquisa e as palavras ficaram em pause. Organizando o caos no Word. Peço ajuda porque sim. Dependo dessa (re)construção coletiva do que tenho apreendido de mim e nos outros.

Das certezas: grande parte das minhas crises existenciais rolam quando eu estou com fome ou com sono. As maiores quando estou com fome E com sono. Mas sou teimosa demais para me admitir tão óbvia assim. Dramas de uma taurina.Parte superior do formulário

Meu pai está morrendo.

Hoje é o primeiro dia de Lua Nova. Em algum momento vai fazer sentido, sussurra-me o homem com a voz do deus. “Invento o amor e sei a dor de me lançar”. Repito baixinho e timidamente antes de prender a respiração para esquecer os medos todos. Bobos.

Mergulho.

Meu pai está morrendo.

Super Sincera?

Patati, patatá, rala e rola, rola e rala e pá: gosto de tudo contigo. Huumm, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, sim, sim, sim. Gostas de tudo comigo? chupchup, sleptslept, nhaminhami, uma reflexão breve: até agora, ventos a favor. Pode até acontecer um: aí não, ainda não, agora não, assim não. Pode. Mas não aconteceu ainda e tá tão bom… sim, sim, sim, gosto de tudo contigo. E mais vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora, aaaiiii, seriãoquenegózibom, sou todo teu. Ops. Todo? Meu? Possessivos sendo empregados assim tão a sangue-frio? Ui. Mas, né, seriãoquenegózibom, quegostoso, quedelícia, seriãoquenegózibom, é dele ele dá pra quem quiser: ok. Meu, meu, meu, mais, mais, mais, hhhuuuummm, isso é até legal. Estou gostando. És toda minha? uóoonnn, uóoooonnn, alerta vermelho, alerta vermelho, todos os sistemas são suspensos automaticamente. És toda minha, querida? [pausa] [silêncio] [e agora: dizer que sim só pra não bagunçar a brincadeira que está tão boa? abraçar a causa da liberdade e reafirmar posição dizendo não, sou toda minha, quem você pensa que é? propor um meio termo razoável: escolha aí duas ou três partes pro seu usufruto exclusivo e o resto eu uso como me aprouver?] suspira, geme, geme, enche a boca pra disfarçar, fim da pausa, reinício do patati, patatá, rala e rola, rola e rala, lambelambe, cheiracheira, esfregaesfrega, vuco-vuco, mãonaquilo, bocanaquilo, aquilonaquilo, tudonaquiloaomesmotempoagora… é tudo meu, mas você pode gozar do que conseguir agarrar agora.

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Para Dançar o Tango

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São precisos dois para o tango. E mais. Entrega. Antecipação. Esse enlace de corpos que se adivinham, um instante antes de ser. Um jogo de quase. Deixar o corpo um pouquinho mais, pra roçar. Tirar o corpo um pouquinho antes, para não esbarrar. Quase encostar. Perto. Mais perto. Sai. Volta. Esfrega. Desejo. Distância. Olhar além. E reconhecer que mesmo ali, o agora da sedução abriga a melancolia de uma solidão, no depois. Talvez, por isso, se tenha dito que “dançar tango é algo grave e profundo, quando se dança não se ri”.  São necessários dois, suspeito, para marcar o vazio, a distância, a geografia da ausência. Dois para dividir o peso da impossibilidade do encontro. E para vislumbrar o encanto, claro, dos momentos em que a gente acredita que sim. Quase.

Como aquele dia. Aquele moço. Errado, claro. Também ela. Sozinhos. Não sempre. Naquela noite. Encontros. Não. Colisões. Dois desejos. Duas fomes. Dois pra lá, dois pra cá. Expedições ao corpo do outro. Mãos que se roçam. Dedos que se entrelaçam. Um pé desnudo que esbarra na perna alheia. Salivas que se misturam no mesmo copo. Desbravadores inexperientes nesse território, precipitam-sem em beijos. Um pra lá, vem mais para cá. Errados. Confusos. Descompasso. Sem salão de baile, um tango interrompido.

O que ela sabe, é preciso deixar as portas abertas. E as janelas. E as pernas, opa, o peito. Os poros. Os olhos. As mãos. Oferece. Recebe. Permite. Acolhe. Dá. Vive. Não negar. Não esperar. Sem receita. Sem modelo. Sem tipo, apesar do Ney. Ela sabe, ela se despe. De receios. De reservas. Ensaia uns passos. Não será tango, que venha a alegria do samba, o suor, a cerveja e que dure enquanto for festa no corpo. Carnaval.

Morrer é Foda

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro. Repetia para si as palavras da amiga. Era isso. Havia matado a relação e se matado também. Sentia falta dele, mas percebia que sentia, sobretudo, falta de quem era naquela relação com ele. Sua amiga condensou sua dor em duas frases banais trocadas por whatsapp: “morrer é foda. Morrer é difícil pra burro”.

Morria lentamente de saudade do homem com quem trepava divinamente. Morria de saudade das conversas, da voz, do cheiro. Do olhar. Aquele olhar derramado sobre ela, morno, mas que incendiava tudo por dentro. Um olhar terno, acolhedor e revelador. Ria de como ele não conseguia ler a embalagem do requeijão e achava seus óculos horrorosos. “Vou comprar óculos redondos, ter cavanhaque e camisa xadrez só porque você gosta”, ele prometia irônico.

Ele morreu para ela. Nunca mais a facilidade de gozar naquelas mãos, nem a cerveja comprada no mercado da esquina. Quando foi que ele deixou de ser mais um e se transformou naquele em que pensava com constância, de quem sentia falta? Lembrou-se do dia – o mesmo do requeijão, será? – ele na sua cozinha, abrindo seu armário, pegando a faca e cortando o pão. Naquele dia de intimidade besta, ele fez morada. Ela soube, então, que a partir daí não tinha mais como continuar. Era preciso morrer.

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Doía não só a ausência dele. Quinze dias sem notícias se arrastaram como uma quarentena no deserto. Justo ela tão comedida nas palavras e no sentir. Faltava o ar. O peito esmagado e a certeza de que o único lugar em que cabia era o abraço dele. Doía a ausência dele dentro dela. Doía a falta do corpo dele entre as suas pernas, da boca dele nos seus seios e daqueles dedos longos que a preenchiam por completo.

Morrer é foda. Quando leu a mensagem da sua amiga, riu. Pensou: “bem, não morri. Quem morreu foi ele”. Morrer é difícil pra burro. Aquilo lhe marcou. Pensava sempre nessas duas frases. Sua amiga sabia do que falava. Ela ainda não tinha visto as coisas daquele jeito. Passou dias remoendo o quanto era foda a morte e o quanto era difícil morrer. Até que percebeu que ela também morrera. Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro

Morrera aquela que passava as tardes transando com ele. Aquela mulher corajosa de quem ele tanto falava. Morrera a mulher cheia de doçura. Morrera aquela que era vista por aquele olhar carinhoso. Morrera a que ia passar o dia na praia com ele, mas nunca sentiram o mar juntos. Morreu aquela mulher que contava histórias da sua vida e se sentia livre para contar seus devaneios mais íntimos. Morreu aquela que não teve pudor de declarar sua paixão.

Morrer é foda. Morrer é difícil pra burro.

Música de Bar

Por Karla Avanço*, Biscate Convidada

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Pode ser só aquele som ao fundo da conversa com os amigos. Às vezes embala, às vezes é barulho. Mas outras vezes leva longe, para outras bandas. Noutro dia fui a um bar, eu quero uma cerveja, por favor, e tinha um grupo de forró. “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim tão só. Eu só quero…” Você.  Eu pensei em você. Foi a música. (Como se eu precisasse de desculpa pra pensar em você…) Ah, você. Você que eu não consigo esquecer. Acho que é porque com você eu vivi a história que não aconteceu. Ficou no ar, como um balão, subindo, subindo. Ainda acho que uma hora o balão vai descer e eu vou poder pegá-lo. Ficou só o gosto na boca. De vinho, de suor, de saudade.

Aqui tá bom só falta você, aqui tá bom só falta você.” Só falta você. Será que você pensa nisso também? Quero dizer, em mim? Em me ver de novo? Acho que não. Traz outra cerveja, por favor. Você não é do tipo que corre atrás de balões que já saíram voando. Já eu sou do tipo que atravessa oceanos, que percorre cordilheiras. Eu me lembro de você batendo a mão no meu ombro. Sabe que eu nunca entendi aquilo. O que era? Um toque de carinho? Você dizendo que eu era seu buddy? Nunca soube. Mas deveria significar alguma coisa? Ah, quem eu quero enganar? Pra mim tudo significa alguma coisa. Mesmo que essa coisa seja nada. No nosso caso foi.

Hoje fui um a bar e tinha uma banda tocando pop rock. Uma cerveja, por favor. Escuto uma música e penso em você. “Será que todo dia vai ser sempre assim?” Você está solteiro ainda, não está? Acho que sim. “Se não eu, quem vai fazer você feliz?” Ai que pretensão, eu sei que quem vai fazer você feliz é você mesmo, mas me deixa pensar que sou eu, vai? E volta na boca o gosto de vinho, suor e saudade.

“Será que é amor, será que é paixão?” Pra falar a verdade acho que é obsessão. Só pode ser! Você. Olha você aí na minha mente de novo. Você está lá do outro lado e talvez nem imagine que esteja aqui pensado em você. Ainda. Sempre que você curte uma foto minha no facebook eu fico com o coração na boca, sabia?. “Explicação não tem explicação explicação, não não tem explicação explicação, não tem não tem, não tem explicação explicação não tem explicação não tem, não tem…” Não, não fui eu que pedi o pastel. “E doeu sim. Foi a saudade que bateu. E tenha dó de mim e vem ficar mais eu.” Será que você me tiraria pra dançar? Como você está aqui na minha mente, e não lá do outro lado das montanhas, eu prefiro acreditar que sim. Tem um casal dançando agora. Ela está descalça.

Acho que já está tarde. “Eu vou embora mas eu sempre volto atrás porque as noites são todas iguais”. Traz a maquininha de cartão, por favor. Jogo um pedaço de pizza pro cachorro de olhar pidão embaixo da mesa. Melhor ir dormir. E olha, você, “não se admire se um dia, um beija-flor invadir a porta da sua casa lhe der um beijo e partir. Fui eu que mandei o beijo, que é pra matar meu desejo…”

 

61389_4353466788388_1099890327_n*Karla Avanço é feminista. Adora cachorros, livros e café. Está sempre pensando sobre linguagem. De resto, apenas está. Indo ao sabor do vento.

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