Final Feliz

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo

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Na véspera do aniversário ela se pegou pensando em mais um ciclo que se fecha. Enquanto pedalava os pensamentos dançavam na sua cabeça. Pensamentos voam e ela não tinha ideia da quantidade de textos que já havia perdido em cima da bike, correndo ou nadando. Pra evitar que isso se repetisse, de vez em quando parava no meio-fio pra fazer uma ou outra anotação.

E nesse momento de começo de uma nova história, ela pensava nos finais que já tinha vivido. Eram muitos. Impossíveis de classificar em alguma ordem. Mesmo a cronológica é meio dúbia, já que algumas histórias só acabam mesmo muito depois de um final. E outras acabam bem antes do fim oficial. O que ela já aprendeu em 44 anos de finais e começos é que cada final acaba fazendo sentido em algum momento, ainda que pareça na hora do vivido a coisa mais sem sentido do mundo.

Algumas pessoas sonham com a dobradinha clássica: “casar e ser feliz para sempre”. Ela lembrava da discussão histórica que tinha com uma amiga nas noites intermináveis dos seus 20 e poucos anos…  A amiga acalentava o sonho do “pra sempre”. E ela, já naquela época, tinha convicção de que o pra sempre não era coisa pra ela.

Assim, a cada relação que tinha, sonhava em ser feliz por um tempo. E, no único casamento que teve digno deste nome, sonhou muito com uma separação feliz. Não no momento do fim, claro. O fim é sempre triste. Mas tristezas passam, dores prescrevem e ela achava possível manter ou resgatar uma relação de amizade e companheirismo depois do fim. Agora parecia que estava próxima do sonho. Não foi um caminho fácil. Foram necessários vários finais infelizes, estranhos, dramáticos, patéticos pra chegar neste momento. A cada fim aprendeu um pouquinho ou um muitão.

O primeiro final merecedor de nota foi internacional. Neste época ela vivia um tumultuado namoro-de-vai-e-volta que de tantos finais, parecia não ter mais fim. Em um dos intervalos, decidiu ir pra longe, ver as coisas a partir de outra perspectiva, ou fugir mesmo e ser outra pessoa por um tempo. Foi morar um ano na Inglaterra e, logo na chegada, arrumou um namorado inglês, que em seguida se mudou pro quarto que ela ocupava na república de amigos ingleses. Passaram o ano todo ano juntos.

Foi um fim com data marcada, ela tinha dia pra voltar e nenhum dos dois pretendia alongar o romance à distância. Fizeram uma linda viagem de despedida, uma lua de mel ao contrário, logo antes da separação, uma das coisas mais felizes e tristes que ela já viveu.  Tudo isso podia ter funcionado como um belo final e uma transição pacífica pra uma saudável amizade. O problema é que eles combinaram que ele viria pro Brasil visitá-la um ano depois do fim. E um ano depois, aos 20 anos, é tempo suficiente pra ela já estar enganchada em várias outras histórias e não dar a atenção que ele merecia. E quebrar todas as expectativas dele. Sem cuidar muito daquele final, ela fez uma lambança. O cara ficou muito puto da vida (com razão) a ponto de não querer mais falar com ela ou ouvir falar dela. Nunca mais. Ainda hoje ela tenta encontrar essa criatura nas redes pra dar um alô, saber da vida dele, contar da dela.  Mas ele tal qual Arlindo Orlando, o caminhoneiro conhecido da pequena e pacata cidade de Miracema do Norte, sumiu, desapareceu, escafedeu-se.  Triste fim. O aprendizado: não prolongue um fim.

Outro final importante foi o da já citada relação, que durou uns 10 anos entre idas e vindas. O último fim desse relacionamento fechava um ciclo que havia começado com 16 anos e acabava aos 20 e tal. E o  fim da história mais importante da sua juventude foi um pé na bunda clássico, um sustão, um “pula direto pra fossa” bem radical. Tudo agravado pelo fato dela ter acabado com um namorado gente fina pra ficar de novo com o este ex. Quando eles voltaram, parecia último capítulo de novela em que os protagonistas, depois de muitos obstáculos, se rendem ao verdadeiro amor e terminam juntos e felizes. Na vida real, ela ter ido morar com ele aceitando o “pedido de casamento” foi um trampolim para o fim. Menos de um ano depois, ele chegou em casa contando que estava apaixonado por outra pessoa. Eles tinham muitos amigos em comum e, mesmo sofrendo, ela pretendia preservar a amizade. Logo viu que não havia espaço pra isso pelo simples fato de que ele não tinha o mesmo interesse no assunto. Fosse hoje, ela o chamaria de golpista. O resumo da ópera é que os dois passaram de um suposto casamento pra mera formalidade. Uma formalidade afetiva, mas que não passa do “E aí, tudo bem? Como vai a família?”. Aprendizado 2: Quando um não quer, não rola de ficar amigo.

Havia outros finais antes, depois e no meio desses. Nenhum deles era motivo de orgulho na sua biografia. Independente de quem terminava, a intenção de manter uma relação de amizade com os ex sempre tinha sido um retumbante fracasso.

Aí veio um casamento de verdade (por casamento de verdade, leia-se um projeto de vida comum por um tempo razoável e que neste caso incluía filhos). O primeiro fim deste foi só um ensaio lá pela metade do caminho e não deu certo. Depois de quase um ano separados, eles voltaram pra viver juntos as coisas que ainda precisavam ser vividas. Tiveram mais um desejado filho, mais uns anos de rotina, mais uns carnavais e mais algumas boas dose de felicidade. Até que as coisas degringolaram de vez. E foi aí que ela tremeu. Sabia que o fim definitivo estava chegando. Sofria mais com “o que será de nós daqui pra frente?” do que com o fim em si. Porque o fim, ela já tinha aprendido com tantos outros, supera-se. Mas o estranhamento, esse pode ficar pra sempre. E morria de medo que depois de tanta parceria, de livros escritos juntos e de dois filhos ele virasse aquele humano com quem ela só ia falar sobre as crias em telefonemas ou mensagens vazias e sem beijo no final. Ela tinha pavor deles virarem só um: “Então tá, tchau.”. Mas e aí, como faz? Ela também não sabia.

O começo do fim foi meio atribulado. Ele apareceu com uma namorada pouco depois da separação. E a cada vez que surgia uma nova pessoa, a dinâmica dos dois sofria alguma alteração. Mas o tempo foi passando, as feridas foram cicatrizando e ela foi vendo que era possível continuar gostando dele, manter o carinho e a admiração. E sentia que era recíproco. Que ele também queria que aquela separação desse certo, que isso era importante. Quando estavam solteiros saíam juntos, bebiam chope com ou sem as crias. Depois de alguns anos, ele começou a namorar uma pessoa legal. Que os amigos em comum achavam legal. De quem os filhos gostavam e falavam bem. A filha um dia, falando sobre a namorada do pai palpitou: “Acho que você vai gostar dela”. Tinha razão, simpatizou de cara. E ficou imensamente feliz de ver que era possível. Uma tarde foram à praia juntos. Todos. Ela, o ex, as crias, a namorada e o filho da namorada. Depois de muito papo, mergulhos e cervejas, ela achou o pôr do sol incrível daquele novo ponto de vista.

Agora, ali, enquanto pedalava, se dava conta de que, pra uma separação “dar certo”, todo mundo tinha que querer. E querer significa também respeitar o tempo. O seu tempo. O tempo do outro. O tempo das crias. O tempo.

E com o tempo, na medida em que passavam de fase, ela sentia que eles botavam mais um tijolinho na história que construíram e que continuavam a construir juntos. E ela, que não sonhava com um “feliz pra sempre”, começava a acreditar que uma ex-relação pode ser feliz.
Talvez até pra sempre.

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Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

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Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

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E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

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Biscatear. É errado. É pecado. É crime.

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Eu não sou muito de me pronunciar a respeito de situações que envolvem crime, por vários motivos, a vida é complexa, a imprensa é tendenciosa e eu sou uma crítica do sistema penal. Mas não deu pra ficar quieta, vou abrir uma exceção pra esse caso.

Uma mulher foi presa, em Santos, por fazer sexo com dois homens. Não, ela não estava trepando com dois homens em um ambiente público e por isso foi presa – com eles – por atentado ao pudor. Nada assim. Ela foi presa por se relacionar com dois homens e um deles ter matado o outro. Ela não foi cúmplice. Ela não combinou o crime. Não há prova nenhuma que a implique com a morte do rapaz, mas ela foi presa quarta-feira pela manhã. A razão da prisão? Ela foi considerada pivô do crime apenas por se relacionar com os dois ao mesmo tempo.

Não tá dando pra entender? É porque não faz nenhum sentido mesmo. Vamos mais devagar. Ela trepava com um. Ela trepava com outro. E, quando estava com um deles se sentia à vontade para comentar o outro relacionamento que tinha. Pois para o juiz, isso é criminoso. Para o juiz, o fato dela comentar sua própria vida, sua satisfação ou insatisfação “causaram séria perturbação, trazendo reforço à sensação pública de que se vive em uma sociedade impune e eticamente apodrecida em seus valores morais como: família, fidelidade, liberdade e responsabilidade”.

Ou seja, é criminoso a gente exercitar nossa sexualidade se não for dentro de um padrão que o juiz reconheça como válido, com valores tradicionais. E o juiz não está sozinho, ah, não. Na imprensa ela já está condenada. Culpada pelo crime que outra pessoa cometeu porque, né, quem manda se dar ao desfrute? Afinal, olha que criminoso, ela procurava causar ciúmes nos caras! Ela comprava os desempenhos! Cadeia nela! Porque, claro, fetiche é coisa de homem, mulher não tem nem que pensar nessa pouca vergonha.

Não podemos trepar. Mas se a gente for trepar que seja no “santo matrimônio”. Se não for casada, pelo menos dê só pra um. Se, em último caso, for pra mais de um, seja escondido, seja em silêncio. Não deseje. Não goze. Não fale. Se cale. Se apague.

Por isso todas as vezes que eu leio textos cheios de boas intenções dizendo que ai-ai-ai-trepar-não-é-nada-demais-não-é-feminista-não-empodera-sei-que-lá-sei-que-lá eu tenho vontade de mandar catar coquinho. Trepar com desejo. Com tesão, com vontade, fazer o que quiser, se quiser, quando quiser, pôr (s)eu corpo na roda, passar o rodo é tão, tão, tão libertador e revolucionário que a sociedade esbraveja. E um juiz criminaliza.

 

“Eu tenho direito de não gostar de criança” é a fralda cagada do meu filho na sua cara

Por Tâmara Freire, Biscate Convidada

Já começo pedindo desculpas pela exaltação.

Ontem, antes de dormir eu tinha planejado começar esse texto comentando que já xinguei muito no Twitter, já tretei muito no Facebook, portanto, no blog, eu seria polida.

Mas não vai estar sendo possível.

Então antes de mais nada, aí vão os trigger warnings:

  • ESSE TEXTO FALA SOBRE CRIANÇAS
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE MÃES
  • ESSE TEXTO FALA SOBRE UMA MÃE MUITO ESPECÍFICA E MUITO EMPUTECIDA COM AS MERDAS QUE VOCÊS ANDAM FALANDO SOBRE CRIANÇAS E MÃES

Achei conveniente alertar porque essas três coisas andam ofendendo muitíssimo as pessoas esclarecidas da internet ultimamente. Se você é uma delas, fique à vontade para se retirar, ou continue conforme suas próprias intenções. Eu não sou do tipo que bota plaquinhas com proibições por aí. Sigamos.

Desde que a treta sobre o restaurante proibindo a entrada de crianças explodiu há alguns dias, eu já li todo tipo de argumento em defesa da iniciativa: “os estabelecimentos têm direito de definir seu nicho de mercado”, “muitos pais não sabem educar seus filhos”, “há lugares apropriados para as crianças frequentarem”, “as pessoas têm direito de pagar para ter tranquilidade”, “ninguém é obrigado a aturar a birra do filho alheio”. E hoje eu descobri que quero ter a liberdade de escolher onde vou com meu filho porque não transo, e quero deixar o mundo todo enervado com a bagunça dele, por inveja, para que as outras pessoas não transem também. Puxado, né?

Me parece que todos giram ao redor de três pontos: 1) a responsabilidade exclusiva dos pais pelo que acontece a seus filhos 2) o direito de se isolar de grupos sociais que causem incômodo 3) o direito de pagar – e consequentemente de oferecer – por qualquer serviço demandado por alguém.

Então, eu vou propor que a gente extraia os conceitos que sustentam esses argumentos para saber se vocês continuam achando que eles são tão válidos assim.

1. Uma criança é responsabilidade exclusiva de seus pais.

É isso que você está dizendo quando defende que não é obrigada a aturar choro de uma criança que não é sua. É esse também o pensamento que sustenta a ideia de que os pais devem ficar em casa, para evitar que outros “sofram” com o comportamento de seus filhos, ou devem se limitar a lugares frequentados por outros pais ou outras crianças. Afinal de contas, apenas quem escolheu ter filhos deve lidar com as consequências absolutamente normais de existir uma criança em um espaço. Você está dizendo que só precisa conviver, se sensibilizar ou se responsabilizar pelas vulnerabilidades ou necessidades de outros seres humanos que tenham uma relação direta inalienável com você. Você está dizendo que só precisa suportar ou respeitar as reações normais de um outro ser humano se ele estiver sob sua responsabilidade legal. Você está dizendo que só é capaz de ter empatia em uma situação de conflito caso as pessoas envolvidas sejam semelhantes a você. É isso que você está dizendo?

2. As pessoas têm direito de se isolarem em locais onde não há crianças, porque se sentem incomodadas por elas

Quando alguém reivindica o direito de ter um jantar romântico, ou uma temporada tranquila em estabelecimentos que proíbam a entrada de crianças, essa pessoa está dizendo que tem o direito de se isolar em um local, onde todo um grupo social não é aceito. E não porque esse local é inadequado, ofensivo ou perigoso para crianças, mas para garantir o seu próprio conforto, já que o barulho ou a atividade de crianças podem incomodá-la em seu programa. Defende, portanto, que grupos sociais possam ser impedidos de frequentar e se comportar naturalmente em lugares, para preservar os outros frequentadores do que eles são e como agem. Normalmente, usa-se o argumento dos excessos, como se não fosse possível admoestá-los sem restringir a circulação de todo o grupo. Parece familiar? Você realmente acredita que pessoas de um determinado grupo devem ser banidas de espaços abertos ao público, só pela potencialidade que têm – construída em cima de generalizações e estereótipos – de incomodar outras pessoas?

3. As pessoas têm o direito de oferecer serviços discriminatórios e têm o direito de adquiri-los desde que possam pagar por isso

Restaurantes e hotéis não são serviços públicos, mas negócios privados. Quem oferece cobra para que os interessados tenham acesso. São, portanto, regidos pela lei do mercado, pelo lucro, e como qualquer empreendimento, têm seu público alvo e suas maneiras de atraí-lo. Você pode criar um menu exclusivo para casais românticos. Você pode estender seu horário de funcionamento e recomendar às pessoas que querem maior tranquilidade, quais os melhores horários pra isso. Você pode criar um ambiente mais intimista, que vai naturalmente repelir pessoas que precisem de espaço e luminosidade. Mas você não pode simplesmente proibir as crianças de frequentá-lo. Parece muito claro para mim quem faz segmentação e quem faz discriminação. Sejam honestos: quantas vezes vocês foram a um restaurante chique, à noite, e o encontraram abarrotado de crianças barulhentas impedindo os clientes de terem seus momentos de intimidade? Agora a pergunta é para quem se considera de esquerda: vocês realmente acham válido esse argumento de que todo e qualquer serviço pode ser oferecido desde que exista alguém disposto a pagar por ele? De que os prestadores de serviço devem ter todo o poder de definir onde cada grupo pode transitar? De que a sociedade ideal se define pelo máximo possível de exclusividades relacionadas a desejos e repulsas particulares pelas quais se possa pagar?

O pior desses conceitos é que eles estão contribuindo para construir um mundo segmentado, cheio de pessoas ignorantes sobre o básico da interação social: todos nós dividimos um mundo com outras pessoas, que possuem suas próprias maneiras de viver, e elas algumas vezes são incômodas. É absurdo que estejamos discutindo a sério como se isolar ou restringir a circulação de todo um grupo social, por características perfeitamente naturais que ele manifesta, especialmente quando esse grupo é o que tem menor capacidade de mobilidade e poder de mobilização, e maior potencialidade de ser vítima de uma série de opressões e violências.

Sem contar o efeito nefasto que a construção social sobre as crianças, como seres eminentemente incômodos, chatos, carentes e ignorantes tem sobre as cuidadoras dessas crianças, condenadas a uma vida social restrita ou a serem julgadas publicamente por se insurgir

Eu sou avessa a carteiradas, mas vou abrir uma exceção porque o assunto merece: eu falo desta questão com bastante emotividade e interesse porque eu sou uma mãe solo. Que vive sozinha com seu filho, distante a muitos quilômetros do pai desta criança e de qualquer outro familiar. Eu faço compras com o meu filho, eu vou a museus com o meu filho, eu vou a restaurantes e a bares com o meu filho, e tento me restringir apenas pelas limitações impostas por ele mesmo e pelo meu julgamento a respeito do seu bem estar. Porque na maior parte do tempo, eu não posso fazer nenhuma dessas coisas, se ele não puder estar presente. Mas principalmente porque eu e o meu filho somos cidadãos dessa cidade e temos todo o direito de desfrutá-la.

No mais:

É SÓ A PORRA DE UM JANTAR NUM RESTAURANTE.

Se o grande problema da sua vida é não ter tido todo o silêncio desejado na sua tão sonhada estadia com o mozão em Jericoacoara, talvez eu deveria estar fazendo um texto sobre o conceito de “problema”.

13962812_1120499764660558_7647358285928296000_oTâmara Freire é blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

A voz solta no papel

Penetra surdamente no reino das palavras
Lá estão os poemas que esperam ser escritos
C.D.A.

Desde que me entendo por gente, sempre gostei de cantar. Cantar é parte da vida, é trilha dos momentos, é forma de contar a história. Em outro canto, já contei como decorava discos de Chico Buarque e ensinava à família, para fazer parte do nosso repertório de viagens: cantar é também político.
A voz foi algo que fui aprendendo que era um “a mais”: algo de que os outros gostavam, algo que dava pra modular e usar a favor – para seduzir, claro, como não, mas também para (me) acalmar. Como comecei a dar aula muito cedo e era extremamente tímida: usava a técnica de prestar atenção na minha própria voz, que me tranquilizava. Voz-companheira e amiga, a minha.

Mas sempre tive problemas de rouquidão. Ao primeiro excesso de praia, ao menor sereno, à mais branda noitada em boteco… pronto, ficava rouca por dias. Quando não afônica de vez.

A voz: minha fortaleza, minha fragilidade.
Outra dor de garganta também sempre me acompanhou: a dor das palavras não-ditas. Que sempre foram muitas. Como se, ao prender na garganta, eu inconscientemente me machucasse.

Aí que me dei conta de uma coisa curiosa: desde que comecei a escrever regularmente, no Chopinho (que aliás foi presente por uma querida fonoaudióloga, gracias Cacá!), nas redes sociais, aqui mesmo neste Biscate, e agora mais recentemente no Primeira Fonte da Esther e da Fal, minha rouquidão quase sumiu. Como se, ao escrever as palavras que me entalavam, eu tirasse o peso da garganta e a liberasse. Libertar as palavras, libertar a garganta.

Escrever, para aliviar a dor.

Cantar, para deixar a alma mais leve.

E, justamente esta semana, a Luciana-Borboleta me lembrou um livro que foi tão eu, durante tanto tempo: “Les Mots Pour Le Dire”, da Marie Cardinal (o nome em português é: “Palavras Por Dizer”. Minha tradução seria: “Palavras para dizê-lo”. Ou, vá lá, “Palavras para dizer”).

O livro conta a história de uma análise. A análise da autora. Os anos em que ela foi ao consultório de um psicanalista, deitou-se no divã, e desfiou sua história. E como isso fez diferença em sua vida. Mas também em seu corpo. De novo, como se, ao lançar as palavras ao mundo naquele consultório, ela aliviasse seu corpo da própria dor de existir.
Palavras. Como mágica. Como encantamento. Palavras que curam, apenas por serem ditas.

 

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Meio Dia

Por Xênia Melo, Biscate Convidado

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Muitas coisas me passam pela cabeça. Volta e meia durante o dia me pego refletindo, quando estou a fazer algo do cotidiano, sei lá, escovando os dentes ou respondendo um email, penso quem serão as pessoas a fazer sexo naquele momento? A contingência da vida nos leva a crer que os casais transam à noite. Antes de deitar, depois que os filhos dormem, depois da janta, quando os corpos já cansados da jornada diária resolvem se aproximar, o pé gelado que teima em não aquecer nesses dias de frio. Juntam os casais os corpos à noite. Qual idade tem esses corpos? Gosto de pensar sobre repartir o ordinário da vida, e isso inclui o sexo, inclusive aquele sem muito movimento e emoção, mas que encaixa, até quando a paixão já não é mais tão combustível e dá espaço aos lençóis que há um tempo não aquecem mais. Tem os casais as mais variadas idades, os que acabaram se de conhecer e aqueles que dividem décadas juntos. Quem serão as pessoas que trepam nesse exato momento em que escrevo, em que você lê, será hoje dia de semana?

Tenho pra mim que os amantes se encontram ao meio dia, não sei se li isso em algum lugar, ou se é habitado pela ideia de que os encontros acontecem nos intervalos possíveis do dia, sem mudar a rotina da vida própria. Quantos amantes haveriam hoje na cidade? Onde e como fazem pra se ver? Há quanto tempo desfrutam dessa relação? Me interessa o corpo das outras pessoas, me interessa o que fazem deles. Se estão a se permitir violar costumes, se apenas vivem platonicamente suas paixões, se empurram esse desejo para algo distante.

Era meio dia, e você me esperava fumando um cigarro, eu estava sem comer, mas minha fome era de você, eu sinto o gosto salgado do seu corpo já cansado na minha boca, era disso que tinha fome, de um corpo sem banho que já fez muita coisa pela manhã. Era assim que você aparecia, já sem graça, pedindo desculpas por estar suado. Eu queria na verdade era que você me comesse em público ali mesmo, havia perto uma praça. O dia estava lindo, fazia sol, sua jaqueta era suficiente a evitar que as formigas da grama nos atingissem, não era necessário tirar toda nossa roupa, abaixamos as calças, e você metia em mim sem esperar muito qualquer umidade dos nossos corpos, foi na pressa e seco, ardia, mas havia urgência e receio de que fossemos pegos, debaixo das árvores e do dia que insistia em brilhar. Você gozou, eu não, às vezes me assustava e me excitava a forma bruta que me tratava em alguns momentos. Rapidamente levantou e fechou as calças, me alcançou a mão para levantar. Eu ainda processava a rapidez daquela transa e o ardor do meu corpo. Mas não, isso tudo foi na minha cabeça enquanto esperava você terminar o cigarro e subirmos. Não estamos dispostos a arriscar e perder nossos segredos. De toda forma não tínhamos muito tempo, decidi abrir mão do almoço para que você me comesse, nossa fome era outra.

Na porta você já tirava a minha roupa, mal consegui trancá-la, sequer chegamos no quarto, eu nua, você ainda não, me coloca na mesa e metia ali mesmo, com urgência, sem um único beijo. Eu me assusto com sua pressa, sequer perguntou se eu estava bem, você tinha fome e desejo por mim. Isso me excitava. Minhas pernas doem e amortecem por conta da pressão contra a mesa. Peço para irmos para cama, você me carrega montada no seu pau, me aperta com força contra a parede e continua a meter em pé, profundamente. Me sinto pequena e impotente perto de você, parece contraditório mas eu gosto, gosto de estar à deriva,  gosto que você saiba que sou vulnerável quando estou contigo. Gosto que você decida sobre o sexo, que me surpreenda. Você não precisa de muito, sua presença é o suficiente para que me deixe molhada e excitada, ainda que eu consiga ter atenção a uma infinidade de coisas outras. Quando estamos perto o tesão é sempre presente, e isso é bom. A parede está gelada, e seu corpo ainda vestido é incapaz de me aquecer. Digo que tenho frio e você me carrega para o quarto, me joga na cama sem muito cuidado, e me chupa com a habilidade de quem há muito faz isso. Meu corpo já não mais sente frio, está consumido pelo tesão que de certa forma não sei traduzir. Você não parece nem um pouco interessado em tirar sua roupa, fico pensando se esconde alguma cicatriz, se será só pressa ou distração por estar tão concentrado no meu corpo. Volta a me comer e ergue minhas pernas contra meu peito, vai tão profundamente que sequer consigo gemer, você me ocupa de tal forma que mal consigo respirar. Olha pro seu pau entrando em mim, seu quadril se movimenta com tanta destreza que me chama atenção. Me pergunto como você me sente, se a mim você parece tão grande e delicioso, qual sentimento te ocorre? qual o desejo que minha vagina te provoca? E o meu corpo? Só agora você faz contato visual comigo, já muito suado, sinto seu rosto pingar sobre o meu, sorri, de certa forma envergonhado. Acho excitante isso, o quanto consegue ter consciência corporal mas ao mesmo tempo carregar uma timidez singular. Toca o despertador, parece que o tempo está a nos dar uma rasteira, há ainda muito desejo pra um tempo que já se exauriu. Você apenas fecha seu zíper, me beija o rosto, se despede. Pergunto se não me acompanha num cigarro, pega o que havia acabado de acender, dá um trago, diz que está atrasado para um compromisso. Me beija a boca, diz tchau e deseja uma boa tarde, eu sorrio.  Levanto, como a comida requentada da geladeira, tomo um banho, canto sozinha uma musica desafinada no chuveiro. Penso na cidade e nos amantes que habitam sobre ela.

xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

O tchauzinho de Mariana

Por Stela Guedes Caputo, Biscate Convidada

Quem viu o debate na terça-feira (18), entre os candidatos à prefeitura do Rio, Freixo e Crivella, teve a oportunidade de presenciar um protesto brilhante. Bem no finzinho, a jornalista Mariana Godoy reage ao comentário do bispo com um simples gesto: fez um “tchau de miss”.

tchau

O protesto de Mariana aconteceu quando, ao se despedir, a apresentadora disse que a transmissão ao vivo do debate era a mais vista no Facebook. “Eu quero agradecer a você, Mariana, Ana, e dizer que esse sucesso todo é por causa de vocês. Com certeza, a beleza de vocês encantou os telespectadores e a todos”, disse Crivella, refereindo-se às duas apresentadoras.

Por que o gesto, visível para milhões de pessoas na TV, nas redes sociais e multiplicado em memes, gifs e todo tipo de sátira é tão importante? Todas nós mulheres já vivemos essa situação. Preparamos uma aula, uma palestra, um texto, fizemos um cálculo, fabricamos um motor, desenvolvemos uma fórmula, varremos uma rua, lavamos e passamos, tocamos piano, falamos idiomas, publicamos livros, legislamos, ensinamos, aprendemos em aulas. Ao fim, somos vistas por nossos olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos. A depender de como os padrões dessa sociedade machista definem olhos, cabelos, pernas, bundas e peitos, somos qualificadas e classificadas. Quantas vezes sufocamos diante de uma atitude machista (de todo tipo) quando gostaríamos de devolver a agressão? Quanto mais a relação de poder é apertada, mais sentimos a forca em nosso pescoço e bebemos internas lágrimas, silenciosos desesperos submetidas pelo assédio moral e sexual.

O gesto de Crivella foi bizarro, como foram e são bizarras as condições colonizadoras e patriarcais de nosso país. O colonizador primeiro escravizou mulheres, usando seus corpos, muitas vezes até a morte. O colonizador queria a buceta da mulher e seu útero. A primeira para o gozo sexual. O segundo para o gozo do capital já que era do útero da mulher negra que nascia mais mão de obra escrava para o colonizador branco crescer e multiplicar dinheiro e fúria. Em função desse mesmo patriarcado, as mulheres não podiam ser alfabetizadas, depois não podiam trabalhar, andar na rua sem estar acompanhada, votar, ocupar posições socialmente desenhadas para homens, receber salário igual. A luta para fazer o patriarcado colonial recuar foi imensa e custou a vida de muitas mulheres, sobretudo, a vida de mulheres negras.

Ao ironizar a fala machista de Crivella, Mariana, do seu modo, dentro de gigantescos limites, devolveu, com um gesto, o que todas nós, mulheres, devolvemos com luta na rua, com protestos, com internos prantos, com prantos expostos, com tapas, com processos judiciais, com ampliação de conquistas, direitos. E ainda mandou um “porra”, diante de milhões de pessoas. Sim, nós mulheres podemos dizer palavrões. Mariana rompeu um aprisionamento midiático. Com seu “tchauzinho de miss” mostrou que o projeto colonizador não conseguiu e não conseguirá domesticar nossos corpos. Mariana, do seu modo, se arriscou e, como dizem as novas linguagens facebookeanas: Mariana “mitou”.

Nos chamam feminazis toda vez que enfrentamos homens como Crivella. Não importa. Lutamos porque ainda estão de pé as estruturas patriarcais que sustentam o mundo em que vivemos. E até que essas estruturas sejam demolidas, continuaremos lutando, cada uma de nós a seu modo.

Crivella podia ter agradecido a inteligência e competência das duas apresentadoras. Não fez. Não faria. Um machista não vai além de si mesmo e de seu machismo. Nós, mulheres, vamos além das amarras, da submissão e da misoginia. Não se trata “apenas” de uma eleição municipal. Há MUITO em jogo. #ForaCrivella #ForaMachista#FreixoeLuciana50

14519817_1216963518376464_3496738441427865901_nStela Guedes Caputo é jornalista e professora da UERJ.

Uma Mensagem de Whatsapp

Por Renata Corrêa, Biscate Convidada

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Ao meu lado no metrô uma moça loura com blusa azul marinho estampada de gatinhos siameses. Ela segura o celular naquela hesitação típica. No whatsapp apenas um “Oi, tudo bem?” E o nome do homem reinando na parte superior da tela, denunciando o futuro receptor da mensagem.

Ela, polegares para o alto, só senta o dedo para fazer tentativas desajeitadas e para apagar tudo depois. Eu tô com tanta pena, afinal eu já estive ali naquele lugar. Tantas vezes. Essa sensação de tudo ou nada, como se uma mensagem de whatsapp fosse sugar a distância fundamental que existe entre duas pessoas.

Você tem medo da mensagem, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses. Seu cabelo está molhado na nuca, esse ar condicionado vai te piorar a garganta, o mundo está tão triste, o Rio de Janeiro começou a sua descida inevitável ao inferno, mas você usa palavras como “ontem” “eu & você”, “amor”, “importante”, “minha” de forma séria, real e urgente, como se não existissem gatos siameses, garganta inflamada, mundo ou Rio de Janeiro.

Mas talvez a romântica seja eu e a mensagem seja apenas um prêmio de consolação, um fora, uma gentileza ou uma administração. E do outro lado o homem com nome no topo da tela sorria ao receber o fio que irá puxar até trazer a moça loura para si. O fio que deve ser puxado com a medida certa. Se puxarmos com muita delicadeza não se desfazem os nós. E com muita força se destroi a trama construída até aqui. Há de se aprender essa habilidade antes que.

Eu só queria dizer, moça, antes que você desça na Cinelândia, que a paixão só tem lugar para um. Certifique-se moça, tenha certeza, moça loura de blusa estampada de gatinhos siameses, que será você a sentar nesse trono.

renata-corrc3aaa1* Renata Corrêa é tijucana, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Uma rosa flutuante


“Dou muito” é percebido como “isso é muito importante pra mim”, quando a questão é apenas “tenho facilidade de dar muito”.

Essa fala aí, desse jeito mesmo, faz parte de conversa com amiga. E eu nem tava falando de mim. Nem tava falando de dar, assim, fisicamente. Era uma conversa sobre outra pessoa – vamos chamá-la de Rosa: uma pessoa querida, generosa, afetiva. Naturalmente assim. Aí ela se apaixona e – aparentemente – entrega tudo: coração, corpo, cabeça. Faz poesia, declaração pública, leva pro parque de diversão, pra passear em Paris ou em Bangu, tanto faz, tudo é uma festa mesmo. Ela é a festa. E enche os olhos de quem vê.

De quem recebe, por suposto. A pessoa fica se sentindo a pessoa mais maravilhosa do universo. A mais querida, a mais amada. A mais.

Aí um dia,  Rosa acorda e pensa “tá meio tédio por aqui”. Pouco movimento, tudo em volta com certo ar de déjà-vu. Poucos terrenos inexplorados. Ou peles. Gemidos já conhecidos.

Levanta, vai tomar banho, faz a mochila e vai. Sem olhar pra trás. Explorar novos universos, viver novas aventuras. Porque dessa matéria-vida ela é feita: intensa, generosa, amorosa e… leve. Escorregadia. Flutuante. Bolha de sabão. Arco-íris. Riacho cristalino.

E a pessoa que se imaginava amada, querida para-todo-o-sempre, cai de alto, em geral. Não entende nada. Terá sido algo que fez? Algo que deixou de fazer? O que terá acontecido? Por que uma mudança tão brusca, se ontem mesmo….?

Pois é. Só que não há explicação. Não há o que entender. Apenas acabou. Porque o que encantava Rosa não era você, ou sequer o relacionamento. Era o novo, a novidade, a aventura, as surpresas, a exploração. Acabou isso? Acabou. Rosa vai. Você fica.

Reescrevendo a história, catando cacos, colando pedaços. Se desfazendo em lágrimas, se enfurecendo. Não há nada a fazer, Rosa foi. Pode até ficar com pena, ela não é insensível: mas aquilo não a toca mais, já está olhando ao longe, na direção do horizonte. Tanto a andar ainda. Tantos caminhos, tantas peles macias, cachos de cabelo, tantas bocas úmidas. Tantos sexos. A vida chama. Ela vai.

Mochila nas costas, vai.

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Um Amor, Desses de Cinema

Eu não tenho um rosto devastado. Nunca tive um amante chinês. Não tive que proteger meu irmãozinho do ódio do outro irmão – a não ser que se conte uma ou outra birra minha mesmo. Não tinha, adolescente, um chapéu de homem. Mas, tal como a jovem de vestido de seda natural e sapatos de lamê dourado na travessia do Mékong, “muito cedo na minha vida era tarde demais”.

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E é por isso que, mesmo quando desenho corações no guardanapo, nunca esqueço que são de inverídica anatomia em transitório material.

Podia fazer promessas e acalentar esperanças. Podia construir castelos em nuvens. Podia falar finais e felizes e sempres. Podia dizer: fico. Seria sincero, mas não verdadeiro.

Faço as vezes de menina, mas serei sempre a velha que se balança na calçada a contar memórias de uma trapezista que voava sem rede, falando de lonas de circo que se abriam em céus e luas e estrelas, sem saber se as memórias são minhas ou do velho vinil de capa azul.

Ignoro os tempos verbais, os avisos, os abismos. Já esqueci como será te amar, repito, madrugada adentro, enquanto o oco se agiganta. E congelo sorrisos, caso sejam necessários para pôr sob o chapéu masculino, em um rosto, enfim, devastado.

PEC 241: O buraco é mais fundo

Por Luiz Antonio Simas*, Biscate Convidado

O buraco é mais fundo e exige análises não apenas conjunturais (essas são importantes, mas aqui vou me ater a outros aspectos). Baterei de novo numa tecla que me parece uma das chaves do problema brasileiro: a exclusão social no Brasil é um projeto de estado inscrito na nossa História como o mais consistente. A afirmação simples apenas constata que, com momentos raros de relativização deste processo, nós temos um Brasil que articulou estratégias em relação à pobreza fundadas na experiência que é o maior marco da nossa formação: a escravidão.

O fim da escravidão exigiu redefinições nas estratégias de controle dos corpos e coincidiu com os projetos modernizadores que buscaram estabelecer, a partir da segunda metade do século XIX, caminhos de inserção do Brasil entre os povos ditos civilizados.

Essa prevenção contra a pobreza articulou-se também no campo do discurso em que atua a História como espaço de produção de conhecimento. Apenas elementos externos aos pretos, índios e pobres em geral – a ciência, o cristianismo, a democracia representativa, a economia de mercado, a inclusão pelo consumo de bens, a escola ocidental, etc. – poderiam inseri-los, ainda que precariamente e como subalternos, naquilo que imaginamos ser a história da humanidade. É assim que o racismo opera no campo simbólico.

O problema brasileiro passa, em larga medida, pela manutenção do traço mais profundo da nossa formação, aquele que se revela ou se esconde em inúmeras variantes que, todavia, obedecem ao mesmo mote desde o século XVI: confinar, afastar, normatizar, negar, domar, usar, punir e descartar as sobras viventes, todas e todos que ameaçam o projeto predador e civilizatório das elites do Brasil, continua sendo a pedra de toque da ordem e do progresso nesse canto do mundo.

Nós somos um país que não conseguiu, como contraponto a isso, universalizar os direitos à educação e saúde públicas como princípios inegociáveis. Conseguimos apenas avançar circunstancialmente – e pouco – em um ponto ou outro.

O que a PEC 241 faz não é apenas desmontar o estado social brasileiro (ele mal foi montado, afinal). O que ela faz é consolidar o projeto que identifiquei no primeiro parágrafo deste texto e inviabilizar o Brasil como uma possibilidade de país que não seja o fundamentado na lógica acumulativa mais tacanha, na manutenção de privilégios, na domesticação dos corpos para o trabalho subalternizado e no descarte genocida destes corpos tão logo eles não sejam mais viáveis para a engrenagem do imenso engenho colonial do qual nunca saímos de fato.

O Brasil não tem exatamente deputados: tem, com exceções que confirmam a regra, senhores de engenho, bandeirantes apresadores, capatazes e capitães do mato que nunca saíram do século XVI e acabam de dizer o que seremos no século XXI.

fotosimas*Luiz Antonio Simas é historiador de formação, macumbeiro por vocação e contador de causos por ofício.

 

Passado, Futuro e Um Pássaro no Peito

“O amor é um pássaro rebelde”

francesca-woodman

E tem aqueles abismos no peito. Eu não tenho ciúmes das histórias passadas, mas tenho um tanto de inveja dos romances futuros. As histórias antigas estão nesse você que desejo, que admiro, esse você de quem gosto. Tanto. Mais além: as histórias passadas são esse você. Seus anseios, medos, amores, o tesão que sentiu e saciou, as noites em claro, os sonos e os sonhos compartilhados. Todas as palavras de afeto que ouviu, todos os gestos de carinho que realizou, os amores que sentiu e os que provocou, estão e são, você. Você que eu gosto tanto, que me põe em febre e riso. Daí que não só não tenho ciúmes das histórias que você viveu como tenho um certo chamego por elas. São as suas histórias e as minhas histórias, são seus amores passados e os meus amores passados, que, presentes, possibilitam que esse amor seja.

“(…) eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão, de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfeitando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor”. (Vinícius de Moraes)

Porém. Pois é. Ali, escondidinha e meio embaraçada por existir, a inveja de quem virá. Porque eu sei a voz rouca de desejo, a mão carinhosa entre os fios do cabelo, conheço a perna que descansará, pesada, entre as que não serão minhas, o conforto do abraço e a fome que há no beijo. Tenho inveja das tardes que passarão ouvindo música, da intimidade na cozinha, dos pequenos acordos verbais que se transformam em brincadeira. Inveja dos momentos em que verão seu franzir da testa e estreitar dos olhos, seu acordar preguiçoso, sua concentração cozinhando. Sinto inveja dos abraços. Das conversas arrastadas. Das mensagens trocadas à distância. Dos pequenos mimos. Tenho inveja das coisas que nosso relacionamento deixou em você. O olhar mais terno. O silêncio mais cúmplice. As manhãs preguiçosas de pernas enroscadas. Os filmes na cama.

Sinto inveja da alegria que se sente quando a gente percebe o gostoso de ser gostada por você. Inveja, digo eu, podia dizer saudade.

“Há um pássaro azul no meu coração que quer sair mas eu sou demasiado esperto, só o deixo sair à noite por vezes quando todos estão a dormir. Digo-lhe, eu sei que estás aí, por isso não estejas triste. Depois, coloco-o de volta, mas ele canta um pouco lá dentro, não o deixei morrer de todo e dormimos juntos assim, com o nosso pacto secreto e é bom o suficiente para fazer um homem chorar, mas eu não choro, e tu?” (Bukowski)

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