E os namoradinhos?

Por Henrique Marques Samyn, Biscate Convidado

Havendo uma reunião familiar, e havendo nela uma mulher solteira, é provável que surja a pergunta: e os namorados? O motivo da reunião é o menos importante, festejos natalinos, aniversários, bodas de qualquer coisa; fato é que, estando presente alguma mulher que possa ser submetida ao inquérito, em algum momento emergirá a indagação – “e os namorados?” (ou alguma de suas variantes) –, seguida de uma série de outras perguntas, com o propósito de perscrutar a vida íntima da interrogada.  De tão comum, parece normalizado. Questionemos, todavia, o que subjaz à perquirição: por que insistimos em submeter as mulheres solteiras a esse constrangimento?

namoradinhos

Porque a gente insiste que a mulher só pode estar realmente bem se tem um homem ao seu lado. Que mulher poderia ser feliz errando pelo mundo, solitária, sem um homem pra chamar de seu? Mulher – apenas por ser mulher – precisaria de um “dono”: aquele que cuidará dela, a figura protetora responsável por dar um sentido à sua vida (mulher respeitável é a “mulher de”). Na infância e na adolescência, incentiva-se a busca pelo “príncipe encantado”; se esse não aparecer, que haja um plebeu qualquer que possa ocupar o posto – o fundamental é que o homem exista para que a mulher possa ao menos exibir para a sociedade sua vitória na luta para evitar o risco do “encalhe”: nesta lógica, é impossível ser feliz sozinha(ou em algum outro arranjo afetivo-sexual).

Porque a gente insiste que a mulher precisa dar satisfação de sua vida pessoal pra todo mundo: todos parece ter o direito de saber (e o direito de opinar) sobre sua afetividade. É bom que a mulher esteja com alguém – e, se ela está com alguém (alvíssaras!), quem é esse? Como se chama, como a trata, que idade tem, em que trabalha? Fique desde logo estabelecido que, para qualquer dessas questões, não há uma resposta certa: tudo o que disser a mulher poderá ensejar julgamentos e críticas da parte daqueles que, afinal, só querem o seu bem (ainda que suas crenças e princípios possam nada ter a ver com os valores daquela que está sendo interrogada). De todo modo, a vida afetiva da mulher está sempre assim, aberta a escrutínio. Se não há esse alguém, surge outro problema: como se pressupõe que toda mulher está sempre em busca do “príncipe encantado” (ou do plebeu que possa chamar de seu), isso pode sugerir que ela está empenhada nessa busca – e, se de fato o faz, o que está fazendo de seu corpo?

Porque a gente insiste que a vida sexual da mulher não é um assunto que diz respeito somente a ela: ela precisa saber que está sendo vigiada o tempo todo (e que, portanto, qualquer desvio terá consequências). Mulher que é mulher, por esse padrão, tem que se dar ao respeito: nada de “galinhar”, nada de “piranhar”, nada de “biscatear”; seu corpo e sua sexualidade são assuntos coletivos, como sabemos, e portanto todos – especialmente aqueles que, lembremos, querem apenas o seu bem – devem ter pleno conhecimento sobre sua rotina sexual: importa saber com quem ela transa, quanto ela transa e quando ela transa, a fim de que se possa aferir a quantas anda sua respeitabilidade. Que pode esperar da vida uma mulher “rodada”, que ousa desfrutar de sua sexualidade com aquela liberdade que está reservada exclusivamente aos homens? Com certeza vai perdendo pontos na corrida pelo “parceiro da vida inteira”.

Porque a gente insiste que a mulher não pode ter autonomia, nem pleno direito sobre si mesma. O julgamento e a vigilância constante sobre as mulheres são mantidos conforme parâmetros patriarcais perpetuados geração após geração e eventualmente punindo aquelas que têm a audácia de desafiá-los. Não podemos negar: há, sim, as que têm essa coragem. E ainda bem que as há.

henriqueHenrique Marques Samyn: Preto, professor, pró-feminista. Empenhado em fazer do mundo um lugar cada vez pior para o “cidadão de bem”

Que Seja Leve

desejo

As coisas leves deveriam permanecer assim. Pairando sobre nossos olhos. Sem culpa. Sem porém. Apenas, sendo. As coisas boas deveriam flutuar sobre nossas almas, inundar os sentidos, passear pelo corpo, transbordar pelos poros. Assim, deveriam grudar nas nossas pernas, ajudar na caminhada, dar sentido aos dias cinzas e as noites sem lua. Assim, sem mais. Sem muitas palavras para não tentar dar nome para o que não se chama . Para o que não se reduz. Para o que não temos resposta.

Prazer. Lábios abertos. Seu corpo no meu. Nossos gozos, nossos desejos, vermelhos. Mergulhos, cachoeira, água farta, força da natureza. Desvio dos caminhos traçados, oceano de nadar de braços abertos sem porto de chegada. Sem começo nem fim. Latência, pulso que ilumina a escuridão dos olhos  fechados. Assim, deveria. Sem medo dos temporais, confiando na leveza que só o desejo degustado com atenção e cuidado pode nos trazer para os dias que vem.
Confio.

Nós, gatos

Captura de Tela 2017-12-20 às 17.51.53Com a chegada do jardineiro notamos a presença da gata. O moço veio orçar um trato no jardim do quintal da casa que nos mudamos poucos meses antes. O matagal alto, a dama da noite quase vergando de tão pesada indicavam a necessidade de uma intervenção profissional.

Mas ela estava lá, com três crias, muvucadas num buraco perto do coqueiro. Os bichinhos já caminhavam faceiros. Intuímos que não eram tão bebezinhos assim, ainda que estivessem mamando. Há quanto tempo eles estariam ali sem que percebêssemos, naquele quintal que obviamente precisava mesmo de um cuidado, já que, né?!

A gata pariu no nosso quintal e não notamos!

Fiquei meio assim, me sentindo culpada, sabe?

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Adiamos a poda.

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Teve uma vez que um gatinho apareceu na casa dos meus pais. Éramos pequenos. Meu irmão, apegado, logo adotou o bichinho. Meu pai não queria, por causa dos curiós. Meu irmão e eu perguntamos por que ele não soltava os pássaros. Ele respondeu que era porque eles não sobreviveriam, acostumados com o cativeiro. Fiquei calada.

Aí que com dezenas de crianças em casa, o gatinho no meio da folia, pisei na cabeça dele sem querer.

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Não costumo compartilhar memes de gatinhos nas redes sociais.

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Compramos comida pra gata, recomendada pelo povo do facebook, que é pra onde costumo correr quando coisas assim acontecem em minha vida: uma passagem curiosa na rua, um diálogo inusitado com meus filhos, uma gata parindo e morando no meu quintal…

E foi me sentindo meio São Francisco pagando um carma que fui levar comida e água pra gata. Arisca, arreganhou os dentes e se pôs em posição de ataque. Tive medo. Sai correndo, magoada.

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Dia após dia um corriqueiro alimentar-a-gata-fugir-da-gata, entre ridícula e ressentida.

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Tenho um filho caçula que volta e meia quer dar um tempo sozinho com o pai porque passa muitas horas comigo.

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A gata virou Gata. Pensei em dar um nome mas achei que seria muita prepotência sobre um ser que obviamente não queria intimidade.

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Gata subia no pé de dama da noite e só ouvíamos seus arrulhos, bravos e estressados. Chamo de arrulho porque é a primeira palavra que me vem. Não é um ronronar. É um som meio grrr (tem nome pra isso?).

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Nunca tinha ouvido falar de gato feral. Achei que fazia sentido. Gata de rua, selvagem, brava, nada condescendente com humanos, possessiva com os filhotes, afrontosa, que aceita minha comida e me enxota, impaciente e irritada.

***

Sábado de manhã, esse caçula que não vai muito com minha cara me chamou, preocupado. Gata não estava bem. Metade imóvel, outra metade muito agressiva. Levantava as patas dianteiras, “rosnando” pro nada, como se ainda estivesse trepada na dama da noite, enquanto as traseiras, inertes, permaneciam largadas na lajota do quintal.

Ligamos pro veterinário do Fidel, explicamos a situação, a braveza. Não tinha ninguém pra nos ajudar. Teríamos que leva-la por nossa conta.

Joguei uma canga sobre ela, contando que, sem me ver, relaxasse um pouco. Deu certo. A suspendi com as mãos em pá e a depositei numa caixa. Reagiu. Percebeu. Sobre a caixa joguei outra canga rosa com estampa de abacaxi e fomos de uber pro veterinário.

***

Gata morreu. Não aceitou nem receber o soro. Ao encostar a agulha em sua coluna, deu um salto nem sei como, convulsionou e caiu. Tenho pra mim que, naquele momento, o que a matou foi o susto.

De repente, a canga tropicalista não pareceu solene.

***

Demoramos uns três dias pra voltar a ver os gatinhos.

Jardineiro veio.

Não conseguimos nos aproximar dos gatinhos.

Quando ninguém está olhando, eles comem da comida do Fidel.

Fidel não está nem aí.

Não batizamos os gatinhos.

Não podemos domesticar os gatinhos.

Não capturamos os gatinhos.

Não vamos doar os gatinhos.

Precisamos castrar os gatinhos.

Alimentamos os gatinhos.

Diariamente.

Dois anos

Ainda não falei sobre esses últimos dois anos sem postar no Biscate Social Club, essa semana o Facebook me lembrou de coisas importantes nesses últimos dois anos, mudanças que fizeram de mim quem sou agora, em dezembro de 2017.

#poledancenation #polelover

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Em 2015, em novembro, decidi ir fazer uma aula experimental de pole dance, me apaixonei, mesmo com todas as dificuldades que passei e passo pra vencer minha ansiedade em aprender os movimentos, pra vencer minhas fraquezas físicas e encurtamentos musculares devido a uma péssima relação com a musculação e com o padrão de corpo feminino, o Pole Dance me fez uma mulher mais empoderada, mais apaixonada pelo meu corpo, mais ativa, menos preocupada em emagrecer e me adaptar ao padrão de beleza que me é imposto desde a adolescência.

#poledance #tbt #coreografia #dançasensual

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Conhecer o Pole Dance, o Chair Dance e toda a sensualidade desses estilos me mostraram que beleza e sensualidade existe em qualquer pessoa, não há padrão pra isso! E não, não estou interessada nas acrobacias, eu curto mesmo é dançar, sensualizar, desconstruir esse padrão de que belo no pole é fazer movimentos, bonito é se sentir sensual, gostosa, arrasante, não pra agradar alguém, apenas pra se agradar e se amar. Sem nenhuma pressão, apenas por amor próprio. Viver dentro de um estúdio de Pole me fez amar meu corpo e pensar em tentar ser modelo.

Muito amor próprio envolvido! #modeloeatriz #plussize #amorpróprio #tolinda

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Foi o próximo passo! O passo certo, existe um nicho (meio controverso e que eu critico muito quando noto certos preconceitos) no mundo da moda em que me encaixo, o Plus Size, me vi descoberta por uma agência, fiz alguns desfiles, fiquei em segundo lugar em um concurso Plus Size, acompanhei um processo lindo de uma coleção de roupa de praia feita apenas pra mulheres gordas e baseada nas Pinups, uma imagem muito pouco compreendida por muitas mulheres. A sensualidade das Pinups, a beleza nas dobrinhas, nas gordurinhas, as lingeries e a liberdade sexual delas se encaixa muito bem com minha nova fase… Pole Dance, assumir e amar meu próprio corpo, me conhecer além do que me dizem que devo ser.

De sábado #poledancer #polelover

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Fechei o ano de 2016 com um desfile onde usei dois modelos dessa coleção, no meio daquele ano fiz uma sessão de fotos com um dos primeiros modelos da coleção, tenho dois modelos até hoje, um deles usei numa coreografia de pole dance no final do ano de 2016. Me encontrei e comecei 2017 fazendo fotos sensuais, foram três sessões com duas fotógrafas diferentes e várias selfies minhas, me amando, amando meu corpo, amando a minha imagem, enfrentando o fato de que não ser padrão não me faz feia, que o que nos dizem é mentira. Somos todas lindas, cada uma com suas características!

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Também foi no início de 2017 que dei início ao fim de uma relação que me prendia, me segurava, me sufocava, um relacionamento conturbado e traumatizante, eu responsabilizo toda essa mudança na minha auto imagem e na minha auto estima, se não fosse tudo isso, talvez ainda fosse parte daquele relacionamento, que ouvi de tantas pessoas que era abusivo, que me fazia mal, que me machucava e me tirava todo o amor próprio. Em abril de 2018, faz um ano que saí por completo dessa relação. Agora estou aprendendo a me amar, a ser feliz, a me conhecer novamente, a me ver sem depender de uma muleta de um relacionamento falido.

#gordaegstosa #plussize #loveyoursalf #photoshoot

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Esse mês de dezembro veio com várias alegrias, me encontrar novamente em ativismos, militâncias, ser atuante em tudo que acredito, o ano de 2017 me fez ser eu, ser ativa, ter voz, ter fala, protagonizar minha própria vida, mas foi um processo de 2 anos de muitas mudanças. Espero ansiosamente pelo ano de 2018 e tudo de novo e incrível que ele possa me trazer.

#selflove #bald #plussize

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Bastiana e o novo clip da Anitta

Eu estava pensando em biscatear por outras paragens, mas ontem a Anita lançou música e clip – que eu não ouvi nem vi, não é esse o cerne do post – e rolaram comentários desde “puta” – como ofensa – até considerações sobre a presença de celulite da sua bunda. Já falei sobre usarmos puta como xingamento e deixei claro que considero como absurdo tosco. Mas repito.

Chamar uma mulher de puta como se fosse ofensivo faz parte de um comportamento generalizado de buscar ofender mulheres considerando seu comportamento sexual (tem até nome em inglês, slutshaming). A sociedade apresenta um padrão moral ao qual as mulheres devem se submeter e que abrange itens desde o tamanho do decote até a quantidade de bocas beijadas, fluidos trocados, bares frequentados… e por aí vai. O bom e velho “mulher tem que se dar ao respeito” ou a versão disfarçada “sexy sem ser vulgar”.

Policiar o corpo e a sexualidade feminina é uma forma de controle, ainda mais violenta porque internalizada e reproduzida, muitas vezes, pelas próprias mulheres. Esta condenação do comportamento da mulher induz, muitas vezes, à culpa, vergonha e sentimentos de inadequação. Nós, mulheres, não devemos, não podemos. É feio, é pecado, é perigoso (e aí quando alguém é assediada, abusada, estuprada, sempre perguntam: mas onde ela estava? O que estava vestindo?) ter prazer com o próprio corpo, seja a aceitação estética do mesmo e suas particularidades, seja o usufruto sexual. É como se a dignidade feminina dependesse do seu comportamento sexual.

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Muitas mulheres procuram se adequar ao esperado, reprimem sua sexualidade, justificam a violência contra outras mulheres que não acatam o modelo… mas isto não as protege. O ideal de comportamento feminino é sempre além do alcance: amamentou em público? despudorada, pode ser ofendida; saiu tarde da aula e estava sozinha na rua voltando pra casa? fácil, pode ser ofendida; conversou com o amigo do seu marido, sozinha, enquanto ele chegava do trabalho? oferecida, pode ser ofendida. Mais ainda: cometeu um equívoco no trânsito, discordou do colega de trabalho, questionou a atitude de um homem? Mesmo que não sejam comportamentos ligados à sexualidade, é este o tópico que virá a tona na ofensa consequente: puta, rameira, vadia.

É fácil identificar o machismo presente quando se busca ofender mulheres tendo como referência sua liberdade sexual: é só reparar na discrepância de parâmetros para meninos e meninas, rapazes e moças, homens e mulheres. Pra quem se diz “cuidado, não sente de perna aberta”? Quem é depreciado por ter muitos parceiros sexuais? Quem é condenado por não se vestir decentemente?

Vez ou outra eu vejo, mesmo em meios feministas, que a liberdade sexual das mulheres deve ser “com moderação” porque mulheres sexualmente livres agradam aos homens (oi, heteronormatividade, você é insistente e insidiosa, né). Digo eu: necasquipitibiriba (sim, eu sempre argumento com fluência). Não existe liberdade sexual demais. Existe liberdade e ausência de liberdade (e, claro, ninguém é livre, a gente está livre em alguns aspectos e em outros, não, dinamicamente) e regular o comportamento de uma mulher porque ele pode agradar ou desagradar um homem continua mantendo o homem no centro das decisões.

Não é da conta de ninguém se eu uso decote. Não é da conta de ninguém se eu rebolo. Não é da conta de ninguém se eu trepo. Se estou querendo, se estou gostando, se o outro ou outros estão querendo, estão gostando, é só o que deveria importar.

E a celulite na bunda? Tenho. Opa, não era isso. É que consideramos que o corpo de uma mulher é disponível para nosso julgamento e escrutínio. “Os corpos das mulheres são públicos para serem tocados, narrados, rotulados. Seja o corpo desprezado, ridicularizado, marginalizado, os corpos gordos, deficientes, velhos; seja o corpo-troféu, magros, malhados, cirurgicamente tratados, duramente conseguidos, incensados na mídia. Os corpos das mulheres estão aí para serem questionados. De uma forma ou de outra, essa mulher está sempre errada” (texto, completo, aqui).

 Então eu não tenho nada a dizer sobre o clip da Anita – porque não vi. E não tenho nada a dizer sobre o corpo da Anita e o comportamento sexual da Anita porque não é da minha conta. Não é da sua conta. Não é da conta de ninguém, senão da própria Anita. “Mas os homens vão bater punheta com a bunda dela”. “Mas ela favorece a objetificação da mulher”. Uma dica: lutar pela autonomia da mulher é lutar para que cada uma de nós seja responsável pela nossa vida, pelo nosso corpo, pelas nossas idéias, pelo nosso comportamento. Não pelo comportamento do outro. Deve ter estratégia melhor de transformação estrutural do comportamento dos homens que inibir alguma ação de uma mulher.

Por fim, certa estava a Bastiana que decidia sobre suas roupas, seu corpo, seu comportamento tendo como critério o que era melhor pra ela: se facilita, tá bom.

Mordi a língua [2]

Por Juliana Lins, Biscate Convidada

Há coisa de um ano, escrevi o texto-declaração “Mordi a Língua” aqui nesse Biscate. Falava desses pontos de virada no roteiro das nossas vidas que pegam a gente de surpresa, fazem uma confusão na cabeça, dão um medão de sentir, mas que são uma delícia de viver.

Há coisa de um ano, eu mordo a língua quase todos os dias.

É um sem fim de bom dias <3 e boas noites <3, um mundo de corações e um monte de descobertas. Que delícia, eu não lembrava, ocupar o mundo do outro e deixar-se ocupar por ele. Embaralhar as manias… Fazer planos juntos. Contar e trocar o dia a dia.

É de uma intensidade esse tal de bem-querer. Essa vontade que dá e não passa. Um tantão de sentimento que não cabia aqui dentro naquele momento, e que continua não cabendo agora. Às vezes transborda.

E é difícil também.

Primeiro eu achei que não ia dar conta (às vezes ainda acho). Eu dizia sem disfarçar que: olha, não sei namorar. Como quem pergunta: tem certeza? Uma frase estranha pra um começo né? Mas queria dizer também (e talvez eu não tenha dito) que eu quero descobrir junto. Me ensina? Vamos nessa? Eu topo o desafio!

E quando digo que “não sei” já é também um pedido de desculpas pelas tantas besteiras que direi ou farei nesse nosso caminhar de mãos dadas.

Caminhando se faz caminho. E achei por bem pedir também: chegue de mansinho, devagarinho, como diria Martinho. Mas quem disse que eu sei mergulhar de pouquinho? Foi só pedir e morder a língua de novo.

Coisas que aprendi juntinho avec toi e que, sei, ainda pode mudar.

Eu sou samba, ele é bossa.

Ele canta, eu danço até na fossa.

Ele é fogo, eu sou ar

Ele é ninja, eu sou devagar

Eu sou texto, ele é melodia

Eu sou Pernambuco, ele Bahia

Ele é par, eu sou impar.

Ele é piscina, eu sou mar.

E a gente é tanta coisa a dois….

A gente é festa, manif, carnaval

A gente é amigos, filhos e tal.

A gente é sempre muito.

A gente é um sem fim agora junto.

Um dia ele pediu: escreve a letra de uma música? Eu não sei fazer isso. Sabe sim. Daí que aquele texto virou melodia. Um samba bossanoveado que é também nossa cria.

P.S. Trilha original do post: “Como Diria Martinho”, de JL e FM

Ju_foto*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

 

Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

aborto principal

Sexo é a dois [2]

Já escrevi um sobre este temaMas dá sempre vontade de voltar a ele , tais são as demandas, as pressões, as exigências. Ser “bom de cama”, “satisfazer o outro”. Estar pronta para tudo, sentir um prazer intenso, ter múltiplos orgasmos coloridos, querer uma vez e outra e outra…. Tenso o negócio. Quem faz a contagem de pontos? Quantos quesitos serão avaliados? Evolução, enredo, harmonia? Comissão de frente, alegorias e adereços?

Acho que se fala muito de performance. Se fala pouco de escuta. Escuta do corpo, escuta do outro. Da dança que é o sexo a dois: ajeitos, encaixes, tentativa e erro. Acertos também, como não. Deixar-se ir sem pensar demais na chegada, aproveitando o processo. Exploração. Curiosidade. Abertura para o novo, para o outro: o outro que é outro e que é sempre diferente.

Adianta quase nada seguir regras estabelecidas, usar técnicas aprendidas: pra cada pessoa um ritmo, um gosto, um toque. Claro que a prática ajuda: mas com “prática” quero dizer experiência de escuta, de flexibilidade, de aceitação do que vier. Quanto mais prática, menos regras, entende? Mais possibilidade de perceber nuances e sutilezas. Murmúrios e delicadezas. A escuta do outro: não a mecânica – que é necessária, e seria até bom entender disso melhor -, mas aquela ali, do momento. A escuta sutil. A reação a cada ação.

E algo que acho que talvez seja o mais difícil de tudo: o soltar-se. “Solta o corpo e vai”, como no carnaval. Um desapego da pose, da máscara de todo dia, da compostura. Sexo é sem compostura. Deixar-se perceber assim não é evidente. Pode até dar um frio na barriga, uma sensação de desproteção. Sexo é mergulho também.

(Não, gente, não é amor: amor é outra coisa. Não precisa ter amor, sempre bom frisar. Mas respeito pelo outro, pelo desejo do outro, pelo corpo do outro. Confiança na entrega. Aquela, ali, daquele momento).

E assim dá pra vagar, sem muitas respostas, com vontades de saber mais. De conhecer mais. Aquela pessoa que está ali, naquela hora, com você. Aquele cabelo, aquele olho, aquela boca, aquela mão, aquele corpo inteiro que tem consistência e forma, que tem seu próprio jeito de ser-com-você. Na cama. Ou “na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê”.

Ah, só mais uma coisa, que já disse no outro texto, mas acho que vale repetir: leveza. A leveza de saber que não precisa ser incrível todas as vezes. Nem sempre o encaixe, o ritmo, o gosto vão ser aqueles que tirarão você do chão. E daí? Daí nada, ora. Pode ser apenas o.k, ou até não ser bom de fato; dessa vez não foi, quem sabe na próxima? Até mesmo com aquela pessoa, se houver interesse e vontade: de repente não foi da primeira, mas se conhecendo mais, dizendo dos gostos e vontades… sabe-se lá. Vai que.

Resultado de imagem para sexo simbólico

PS. Também no Biscate: Boa de Cama e Tem Sempre que Gozar?

Arruma um lugar para a gente!

É, definitivamente, um tempo de saudades. De pequenas nostalgias. De grandes nostalgias também. Porque o mundo virou – em fração de segundos, milésimos de segundos – um lugar absolutamente inóspito. Brotam como chuchu transgênico, numa cerca de dry-wall, notícias horrorosas e de todos os cantos do mundo: gente que acredita que o planeta é plano, logo ela, a Terra, tão linda e redonda e cheia de curvas, meneios, trópicos, calores equatoriais. Gente que se incomoda com cada coisa de alcova alheia, que benzamãe, benzapai. Gente, que no fundo, não parece gente, parece é um número, uma manivela, uma maçaneta, uma tecla de um tecladão.

Aí, a gente tem saudades. Saudades de tempos mais leves, menos enxofres, menos crucifixos, panelas, menos baba, menos fiscais de rola, cu, buceta, nariz, boca, ouvido. E tudo foi assim, de um dia pro outro. Até presidenta arrancaram para colocar um bando de gente cretina com cheiro de gomalina vencida. Até isso….

Mas a gente tem saudades e isso, muitas e muitas vezes, nubla a vista da gente. Porque nunca foi tão assim diferente, leve. Era que as cousas demoravam mais para nos atacar os fígados. Ou porque a gente estava mais junto, talvez. Porque se tem algo que mudou neste mundo redondo é isso da gente estar junto – maldita telinha de celular… E estamos todos nos falando, nos teclando, nos conectando, mas não estamos mais juntos. Falta, na verdade, o essencial.

Fico imaginando a Terra dançando para gente. Aquele Equador todo, separando quentes de frios, de frios e de quentes, naquele rodopio, dança, ao sol, à lua, ao ventre. Aqueles trópicos mudando horários, meridianos emprestando cores, localizando florestas, convidando a viajar, a flanar, a passear. Os dedos passeiam suas costas… sobem, descem… tua nuca é tão bonita, sabia? Já te disse? Florestas, parques, desertos, aquela cueca puída rasgada e beje, no chão. Beijo teu dorso, tua coxa, tem Vênus, abajur ligado, quero te ver. Esse pelo arrepiado parece mais uma onda. Chove lá fora ou aqui está tão molhado que a gente não sabe mais é de nada?

A Terra nunca poderia ser plana… esse gosto da tua boca.

A gente tem saudades. Mas é algo que a gente tá cuidando. O Biscate tá voltando…

Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Profana

Sempre ficava de butuca ligada quando ouvia falar sobre o tal sagrado feminino. Eu sei que tem gente que se liga nessa parada, mas sempre me pareceu mais do mesmo. Um convite a louvar e glorificar o que é “naturalmente” da mulher: a reprodução da força de trabalho. Essencialista (e, por tabela, transfóbico e homofóbico) e individualista (o “empoderamento” é pessoal e não relacionado a classes, raça ou outra variável construída sócio-historicamente). Conservador. Bom, né, alguém poderia argumentar que toda ação para “fazer” mulheres mais fortes, conscientes de si e se valorizando seria, nem que seja por isso, positivo. Aí eu digo duas palavrinhas só, só, só: Sagrado Masculino. Rá. A reboque: essência sexual, energias primais, ser primitivo e relação bondosa e consciente com as mulheres sagradas – achei paternalista, mas, né, quem sou eu no jogo do bicho – enfim e resumidamente: o homem potente, a mulher receptáculo-fértil. Achou familiar? (eu sei, eu sei, foram mais de duas palavrinhas).

Entretanto não tô na vibe de ficar aqui discutindo os equívocos de tentar relacionar o Sagrado Feminino com o Feminismo. Eu vim mesmo foi pôr meu carro alegórico na passarela e propor o Profano Feminino, Masculino, Andrógino, whatever. Uma vida e vínculos deliciosamente dessacralizados. Vamos desrespeitar normas e ritos. Vamos secularizar o corpo, o amor, os encontros. Vamos dessacralizar o respeito. Vamos construir valores éticos sustentados não por alguma coisa essencial e natural presente ou ausente no Outro, mas pela compreensão da alteridade, da humanidade do diverso, humanidade resultante de estruturas sócio-históricas e trajetórias individuais.

Do dicionário: o que é Profano? 1. Que não está de acordo com os preceitos religiosos. 2. Que desrespeita a santidade de coisas sagradas. 3. Que foge ao âmbito religioso; secular. 4. Que não tem a religião como propósito; mundano. 5. Que não faz parte de uma religião; fora do considerado sagrado. Sejamos mundanos, sejamos do mundo, das ruas, das esquinas, dos blocos. “Nós rimos alto, bebemos e falamos palavrão”. Sejamos sujeitos. Não porque alguma coisa essencial nos faz gente mas porque nos fazemos mais gente ao nos reconhecermos assim e assim reconhecermos o Outro.

Vamos nos permitir ser além de um modelo. Vamos nos inquirir. Vamos duvidar. “O corpo sou eu. Nem devia esclarecer, mas me antecipo: meu corpo sou eu, mas eu não sou meu corpo. Melhor: não sou só meu corpo. Mas ele me é”. Vamos acolher. Vamos nos acolher. Abrir mão de rótulos, caixas, designações e determinações que são necessárias para a demanda e afirmações de políticas públicas mas que podem ser despidas e esquecidas no riso, no abraço, no rala e rola, na cama, na festa, esquinas e caminhadas.

Viver corajosamente é profano. Viver livre é profano. Não aceitar a essência. Não aceitar o natural. Enfrentar, olho a olho, não a natureza humana, mas a condição humana. Aceitar a responsabilidade por nossas ações, escolhas, demandas. Não abrir mão do desejo, não projetá-lo, não nos submetermos a uma narrativa terceira do que somos e podemos ser.

Viva o feminino profano, sem culto, sem regra, sem norma, sem certo. Sem maiúsculo. Possível.

De Noite

Aquela pele clara, a respiração dele em seu pescoço, ela nem conseguia acreditar que estava sentindo o calor dele, o cheiro dele a deixava tonta. Ela se virou e olhou nos olhos dele, e viu aquele olhar de entrega. Ele falou “Me beija!”, ela beijou e com uma das mãos apertou a cintura dele pra perto dela. Ele apertava sua bunda enquanto ela colocava sua perna por cima da dele, a outra mão dele estava entrelaçada na dela, sim eles estavam de mãos dadas!

"Lick me alone!" #eroticdrawing #eroticart #erotic #petitesluxures

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Ela era apaixonada pela bunda dele, pelo peito, pela barriga, pelas coxas, eles se achava magro demais, ela o achava maravilhoso, ele se achava alto demais, ela só queria sumir naqueles quase 2m de altura e ficar lá sentindo o gosto, o cheiro, o toque dele. Ela falou no ouvido dele “Te amo!”, era amor, construído de forma linda e numa conexão que nunca sentiu antes. Ele sorriu, ele não gostava do próprio sorriso, ela amava o sorriso dele.

“You’re in my mind all of the time
I know that’s not enough
If the sky can crack
There must be someway back
For love and only love ” – U2, Electrical Storm

Ele disse “deita!”, ela deitou de barriga pra cima, ele se apoiou por cima dela, beijou sua boca, seus peitos, beijou e mordeu sua barriga, desceu até a virilha, beijando as coxas e a virilha, abriu suas coxas, beijou e mordeu enquanto ela segurava os ombros dele com ambas as mãos, ele olhava pra cima, parecia sorrir com os olhos e continuava, sugando e beijando.

Assim que ela gozou, ela pegou a camisinha na mesa de cabeceira – “vem cá”, ela disse, ele deitou e ela colocou a camisinha nele, ela deitou por cima dele, o encaixe era perfeito, ela sempre soube que seria. Ele apertava seu bumbum, ela segurava em seus ombros, ela adorava os ombros dele. A respiração ficou mais forte, os movimentos mais rápidos, ele estava com o rosto vermelho, estava lindo, ele subiu as mãos pelo corpo dela, passando pelo pescoço e chegando em sua cabeça, ele alisava a cabeça dela, ela descobriu que sente muito tesão na cabeça desde que começou a raspá-la.

Ela sentiu o corpo todo arrepiar, ela iria gozar, ele também iria, sentiu por sua respiração….

Nesse momento o despertador tocou e ela acordou, mais uma manhã comum. Abriu o zap e viu o boa noite dele, deu bom dia e foi pra sua rotina de todo dia. Sem ele.

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