O que espero para os próximos 8 de março?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Ontem, domingo, 8 de março. Dia internacional da mulher.

Moro nesta cidade grande que é São Paulo, com 3256326 de atos, eventos, debates acontecendo por todos os lados, para que a gente lembre (se bem que quem milita não se esquece) da importância desta data para as nossas lutas. Fiquei em casa, com o coração partido por não poder estar na rua, que era o que eu gostaria de fazer. Mas moro na periferia, longe do centro, longe de todo esse fervor. E meu pai doente e demandando cuidados me levou a passar boa parte da minha tarde ocupada com curativos e medicação.

Eis que depois vim pra internet, esse céu e inferno onde algumas pessoas sentem essa necessidade cabal de manifestar sua opinião sobre qualquer coisa. E por qualquer coisa, entendam aquilo que essas mesmas pessoas nunca viveram, nunca vão viver ou conhecer o bastante para dar pitacos, que às vezes elas defendem sem parar um minutinho sequer para refletir. Longe de mim, acreditar que só quem viveu determinada experiência pode opinar sobre ela.  Só que eu tenho essa coisa forte de respeitar as vivências dos outros. Certas vivências trazem delícias – e agruras – que só quem as teve sabe. E ser mulher numa sociedade machista como a nossa é para a maioria de nós, é uma luta quase diária.

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais...

Essa sou eu quando alguém diz que as mulheres reclamam demais, sendo que já têm “tudo”.

Pois bem. Nessa minha passada pela internet, vi um dos meus contatos do saite feice dizer que todas as chefes que ele teve na vida foram mulheres. E que a maior parte das colegas dele em Paris (sim, o moço estuda em Paris) eram mulheres. Até aí, legal né? Fiquei até feliz por isso. Aí, ele termina a fala dele com isso:

“Então parem de mimimi com o dia da mulher, nada tá tão difícil assim pra vcs. Comentários raivosos em 3,2,1…”

Ai, meu fiofó de asas.

Gente, por quê?

Queria pensar que foi ingenuidade do moço e que ele realmente não sabe quão discrepantes ainda são as condições de trabalho de homens e de mulheres. Ou que foi molecagem, sabe? O mocinho tá lá, no meio do inverno dos arredores da Sorbonne num dia de muito ócio, e aí ele queria atenção, esperando pelo menos uns comentários raivosos das feministas choronas e mimizentas que ele conhece…

Só que não.

Definitivamente não.

Quando se está bem do alto de uma posição privilegiada, é bem difícil desconstruir certas visões. O que o moço em questão expôs diz muito sobre ele, mas também muito sobre o quanto falta para que a gente realmente possa falar que existe igualdade efetiva entre homens e mulheres. Falta bastante. Tanto que as vezes o desânimo é inevitável.

Fiquei com vontade de ir lá registrar meu comentário raivoso. Porque a na verdade, para muitas de nós, o simples fato de sobreviver é um ato de resistência. Porque ao contrário do que algumas pessoas pensam e aí incluo o rapaz  branco, cis, hétero, de classe média e que pode estudar na França, tudo ainda é mais difícil pra gente. Ainda ganhamos menos. Ainda não temos pleno direito ao nosso próprio corpo. Ainda não temos representatividade forte na política, mesmo que sejamos a maioria da população de nosso país.

Diria a ele que ainda sofremos violência, discriminação e negligência pelo simples fato de sermos mulheres. Ainda exigem que estejamos sempre correspondendo a padrões estéticos que muitas vezes não se aplicam a boa parte de nós. Ainda somos julgadas como “essa é pra casar” e “essa é pra trepar”. Ainda dizem que não somos capazes de realizar certas tarefas porque somos “frágeis e pouco práticas”.

Bônus: ainda dizem que não podemos ser amigas umas das outras, porque somos traiçoeiras e não merecemos confiança. E ainda não podemos ocupar os espaços públicos na hora que quisermos, tendo companhia ou não, porque ainda existe a ideia de que mulher sozinha está disponível/pedindo para ser estuprada ou intimidada.

Eu poderia ir lá e enumerar muitas outras coisas que lembram o quão importante é a data de hoje, para todas nós. Mas adiantaria de quê? É só ele, o pobre moço que não entende por que as mulheres reclamam tanto (porque talvez pense que o mundo inteirinho é igual a Sorbonne e que todas as moças são exatamente iguais e têm as mesmas oportunidades do que as colegas dele de lá), que pensa assim? É claro que não. O mundo aqui fora não se resume às decepções (às vezes bem presumíveis) que tenho com as TLs alheias. Deletei o rapaz, problema resolvido. Mas e aí? O que muda pra mim e para as tantas outras companheiras que sofrem diariamente com a privação de tantos direitos?

Isto posto, fica aqui a minha esperança de que cada vez menos, o 8 de março seja entendido como um dia para dar rosas ou para fazer promoção de maquiagem ou de utensílios domésticos. Ou que seja um dia para que especialmente nós, mulheres militantes, sejamos julgadas e taxadas de choronas, mal amadas ou chatas pelo simples fato de não querermos ser tratadas como uma maçaroca homogênea, que basta ser um pouquinho paparicada (ou “homenageada”, a palavra fica a gosto do freguês) para que nos esqueçamos de todos os leões que matamos durante os outros 364 dias do ano…

Mulheres (In) Visíveis

#LuzNasMulheres

Na ordem patriarcal, não existe um jeito certo de ser mulher. Não existe uma forma fácil. “É como o pecado original, você nasceu e isso já te condena. Variam as punições, não o veredito.”* Sofrimento não tem trena nem balança. Não é pesável, medível ou comparável. Ainda assim, para além das vivências individuais, sabemos que há grupos que, estruturalmente, arcam com ônus maiores por vivermos em uma sociedade machista, sexista, classista, racista, homofóbica e transfóbica.

Dia 08 de Março vem aí e é o Dia Internacional da Mulher. Entre as feministas – e nós com elas – é claro que é um dia de luta. Luta contra a opressão, a violência, a discriminação. E luta contra a invisibilidade. Todos os dias quando dizemos: “as mulheres” estamos encobrindo a diversidade de relações e experiências desse “ser mulher”. Porque há mulheres negras, mulheres índias, mulheres trans, mulheres lésbicas, mulheres em situação de rua, (entre outros grupos marginalizados) e cada uma nestes grupos sofre de forma estruturalmente mais violenta todos os preconceitos. Mulheres que por sua etnia, orientação sexual, poder aquisitivo ou por se inserirem de forma contestatória à lógica machista são invisibilizadas e têm minimizadas ou mesmo negadas sua condição humana e de identidade.

O BiscateSC tem como lema: biscate é uma mulher livre pra fazer o que bem entender, com quem escolher, e onde bem quiser. Mas sabemos que essa liberdade é um vir a ser, é processo, é conquista, é luta individual que se enraíza e se concretiza nas lutas mais amplas, coletivas, interrelacionadas. É por isso que, essa semana, escolhemos calar e ouvir, com mais atenção, mulheres que são, usualmente, silenciadas. Porque não precisamos nem devemos falar por elas. Elas têm voz, desejos e muito a dizer. Biscate, aqui, reconhece e aprende.

mulher invisível

*frase da Bárbara Lopes

Um olhar a partir do portal das mulheres

 

portal

Há muito tempo que falo disso assim: a gente vive em portais. Realidades quase que paralelas: é tão forte o lugar de onde a gente olha o mundo. O que dele recebe. É tão grande a tentação de olhar do nosso portal e dizer “todo mundo”. Não é “todo mundo”: sou eu, de onde olho, com minha experiência, minha história. De dentro do meu portal.

Do meu portal de mulher, tenho vontade de falar de pequenas violências. Cotidianas, culturais. Que os homens muitas vezes nem percebem, lá do seu portal. Tão pequeno. Tão pouco. Pra que tanto barulho. “Vocês não têm senso de humor”. Homens de todo tipo acham isso: esclarecidos, estudados, viajados, cosmopolitas, elegantes, bem educados. Às vezes, calam: melhor deixá-las falar. Até cansar. Não ouvem de verdade. Esperam acabar o “surto” para chegar no que realmente importa. O que quer que seja isso.

A violência estética: o padrão que nos é impingido, que nos é enfiado goela abaixo, todo dia, toda hora. Dessa já falei aqui, num post-galeria de fotos de bancas de jornais. E tudo o que ela comporta. É como se uma mulher que não corresponda ao rígido padrão estético vigente não fosse uma pessoa de direitos plenos: a qualquer momento, pode lhe ser lembrado (numa crítica, num xingamento, como uma forma de desestabilizá-la) que ela é “gorda”, é “feia”, é… de alguma forma, errada. Se não tem a barriga chapada, o peito empinado, as coxas torneadas, o nariz afilado, o cabelo liso, como se atreve? Como se permite? Como? Se já é uma incrível prova de tolerância que ela possa estar ali, simplesmente estar. Não ser expulsa, incômoda na sua forma destoante dos cânones.

E tome infelicidade. Remédios. Esforços fracassados. E tome tristeza, auto-rejeição, sentimento de abandono. Por uma coisa tão pequena. Pequena?

Claro, há as que se libertam. Que vão por conta própria. Que dão de ombros. E que descobrem que há muitos outros espaços, há outras possibilidades. Mas isso é caminho consciente: é caminho contra a corrente. Dá pra ir, e, acho eu, é o único jeito: sair fora. O que não dá é pra deixar passar. Pra fazer de conta que é normal. Que não é violência.

Desse portal se avista, em pleno século XXI, a sutil desvalorização de mulheres que – por escolha ou por circunstâncias – não casaram, que não tiveram filhos. Essas também. O tempo todo. Se explicando, se justificando. Como se casar, ter filhos, fosse o mínimo. Como se fosse necessário “cumprir tabela”, marcar esses pontos, para só então poder ser. Poder viver, após ter realizado sua função social. Pressão cotidiana. Olhares piedosos. Perguntas sutis ou menos sutis. Murmúrios. Um “coitada” espreitando por trás das palavras amigas. Nada exuberante, nada escandaloso: fica difícil até reclamar. Sem ser tachada de “mal humorada”.

Vai ver é por isso que não casou: por conta do mau humor.

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“Mau humor” dá o gancho. Essa é a última de que eu queria falar: a violência que é a exigência de que a expressão feminina seja… bom, “feminina”. Assim: pode falar. Mas tem que ser doce, tem que ser suave, tem que ser baixo, tem que ser… muita coisa tem que ser. A Sara Joker se insurgiu aqui contra as flores no Dia Internacional da Mulher. E, certamente, não é porque ela não gosta de flores… dia 8 de março é dia de luta. É disso que se trata. Não de homenagear a suavidade das rainhas do lar com lindas flores. E mulher que discute, que fala alto, que briga, tantas vezes é desconsiderada. Tantas vezes deixa de ser escutada. “Tadinha, tá histérica“. Deixa-se de lado o conteúdo. Revolta, indignação? Ah, sinto muito. Não é bonito, não é delicado, não é “feminino”. Essa caixinha estreita e pequena onde cabe o que decidiram que era “ser feminino”.

E no entanto.  Se vocês pararem com isso, se olharem com cuidado, abrindo o olhar… se escutarem de verdade, sem desconsiderar, sem deixar de lado… tanta coisa pode… outras histórias, outras imagens, outras aventuras. O começo: mudar o olhar. Tentar perceber que existe o portal. Apenas considerar. E aí…

LeilaPasquim

Na corda bamba!

O post de hoje fala sobre minha vida de Biscate-equilibrista. Ando na corda bamba desde que o assunto em meus planejamentos se transformaram em Dia 8 de março. Como explicar que não quero fazer flores de artesanato para presentear as mulheres? Então estou tentando ser o máximo política, pode poesia, pode flor, mas a poesia passa pelo meu crivo e a flor vem com uma mensagem de luta colada em seu caule.

Sou chata? De acordo com meus alunos adolescentes eu sou! De acordo com minhas alunas adolescentes eu sou justa e correta! É incrível ver como ainda vemos educadores resistentes. Enquanto as educadoras dão ideias para mostrar que a luta vale a pena, os educadores falam de florzinha e bombom. Enquanto minhas alunas falam de divisão de tarefas, meus alunos falam que mulher só serve pra cozinhar!

Porque é tão difícil sair do lugar confortável de homem machista para alguns homens? Seria tão melhor e mais simples a vida se todxs lutassem pela liberdade… Como abrir a mente de pessoas conformadas? Preciso de muita força de vontade e amor a minha profissão para continuar tentando modificá-los.

Sei que ser educadora e feminista é ser a Biscate da corda bamba, como na música do Bêbado e o Equilibrista, o show tem que continuar, eu não posso nem pensar em parar. E assim continuo o meu caminho na corda bamba, equilibrando as obrigações do serviço de lembrancinhas com as mensagens que falam de nunca deixar delutar, de manifestação pacífica (afinal, sou pacifista) e conhecimento de como se defender e ser independente!

corda-bamba

Biscate de Luta

 Por Niara de Oliveira

Não sou uma biscate qualquer.

A biscate que sou só eu poderia ser. Ou, a mulher que sou só eu poderia ser. Ou ainda, a pessoa que sou só eu poderia ser. Somos todos assim, construídos de pequenos detalhes, grandes diferenças, caminhos trilhados com dificuldade ou não, escolhas, dores, alegrias… Vida vivida.

Entre as minhas escolhas estão ser comunista — reconheço a que classe pertenço neste mundo capitalista, reconheço a opressão sofrida por esta classe, me rebelo, quero e luto para construir outro mundo, com outro sistema, sem classes e baseado na cooperação mútua tendo o ser humano como parâmetro — e feminista — reconheço meu gênero e todas suas implicações e opressão sofrida, e luto por um mundo antimachista, construído na parceria entre gêneros.

Para além de ser feminista, percebi que a opressão de gênero é um dos pilares de sustentação da opressão de classe e que essas duas opressões estão intimamente ligadas (a opressão de gênero e a normatização da sexualidade da mulher surge na História junto com a propriedade privada), uma não sobrevive sem a outra e talvez por isso seja tão difícil romper com as duas.

Nesse período do início de março é comum recebermos homenagens e flores e vermos a feminilidade ressaltada. Pois reafirmo, engrossando o coro de milhares de mulheres que lutam ao meu lado, o 8 de Março (leia aqui sobre a origem da data) é um dia de luta, de protesto e de reflexão. Dia de recusarmos as flores e falsas/frágeis homenagens e dizermos em alto e bom som: QUEREMOS É RESPEITO E UMA VIDA SEM VIOLÊNCIA!

Juntemo-nos às Marchas das Vadias e atos públicos desse 8 de Março nas cidades Brasil afora. Vamos às ruas fazer valer nossa autonomia e liberdade. Não há outro jeito. Nesse mundo, machista e capitalista, a biscate que eu sou é essa: rebelde, de luta!

MEU CORPO É MEU TERRITÓRIO

Silêncio enquanto dou voz a este corpo!
Nasci nua, mas logo que perceberam uma pequena abertura entre minhas pernas vestiram-me de opressões e perseguições, me modelaram conforme o ritual, a moral e a economia exigiam: submissa, proibida, inferior, culpada… culpada… culpada…
Assim batizaram minha vagina e a extensão deste corpo.
Assim educaram este corpo para servir e reproduzir a educação do servir.
Assim esqueceram este corpo na construção das leis.
Assim desenharam este corpo sempre em pedaços de acordo com os objetivos da propaganda: princesa, bruxa, puta, esposa, mãe, criminosa.
Assim a expressão do que este corpo deseja e rejeita realizou-se clandestinamente durante muito tempo… clandestinamente… clandestinamente…
Foi assim, arrancando da pele marcas de injustiças, violências e castrações, caminhando capenga com o peso do mundo dos homens em minhas costas, ventre, mente, passos… que então me rebelei arrombando a porta de um destino mal fabricado, queimando as folhas dos contos dos fodas.
Experimentei o conhecimento, o prazer da luta.
Criei novas palavras para nomear o que quero e do que sou capaz e hoje grito:
Meu corpo é meu território!

(texto construído coletivamente e interpretado na abertura da vigília organizada pelo Fórum Cearense de Mulheres, no Dia Internacional de Luta Pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres [25/11/2009] em Fortaleza.)

Atos referentes ao 8 de Março de 2012:

Brasília: 6 a 31/março — Diversas atividades do Fórum de Mulheres do DF.
Belém: 8/março — Caminhada, concentração em frente ao Tribunal de Contas às 9h.
São Paulo: 8/março — Ato e Passeata, concentração na Praça da Sé às 14h.
Recife: 8/março — Manifestação na Praça do Diário, às 15h.
Fortaleza: 8/março — Caminhada das Mulheres, concentração no Parque do Cocó às 16h.
Rio de Janeiro: 8/março — Manifestação, concentração no Largo da Carioca às 12h.
Belo Horizonte: 8/março — Ato e Passeata, concentração na Praça da Estação às 15h.
Pelotas: 10/março — Marcha das Vadias, concentração no Chafariz do Calçadão às 11h.
Natal: 10/março — Marcha das Vadias, concentração Ponte Negra atrás do Vilarte às 14h.
Vitória: 10/março — Ato das centrais sindicais na Assembleia Legislativa às 19h.
Campo Grande: 10/março — Marcha das Vadias, concentração Pça Rádio Clube às 8h30.

(divulgue aqui o ato da sua cidade)

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