Pelo direito ao aborto sem drama

O colunista americano Dan Savage é famoso por falar sobre sexo e relacionamentos sem papas na língua. Ele também fala de taras, de política, de humor, de direitos LGBT, de tevê. Gosto demais dele.

Outro dia ele recebeu a carta de uma leitora contando que tinha ficado noiva do cara com quem se relacionava há três anos. Ficou noiva em maio, marcou o casamento pra setembro, decidiram ter um bebê e ela ficou grávida rápido. Só que, papo vai, papo vem, o noivo em julho decide que não quer mais ficar com ela, prefere esperar pra encontrar alguém melhor (oi?) e que ela tem que fazer um aborto. Ela escreve ao Dan e pergunta: isso é normal?

Ele responde que puta-que-o-pariu, não é normal, normal é ter medinho de casar e conversar sobre isso ANTES de engravidar. E segue dizendo que, apesar de ela não ter perguntado a ele sobre o aborto, e apesar de ele não ter um útero e nem um namorado filho da puta, acha que ela deve interromper a gravidez. Porque, mesmo que isso signifique dar ao cara o que ele pediu, ela pelo menos não vai ter que se relacionar com o cara pelos próximos 18 anos.

Aí uns dias depois alguém escreve pra dizer um troço que me chamou a atenção:

Pode dizer a ela que, se ela está na dúvida, a narrativa negativa ganha um peso desmedido. Eu estava com um parceiro que amava e com quem pensei que queria filhos, mas ficar grávida acidentalmente colocou as coisas em perspectiva sobre aquele relacionamento e eu soube que precisava sair, fazer um corte definitivo. Minha preocupação era se, mesmo sabendo que era a coisa certa pra mim, eu seria atacada com “e-se” para o resto da vida. Faz cinco anos e meu aborto foi sem dúvida nenhuma a melhor escolha que eu fiz para a minha vida e eu nunca me arrependi—só sinto alegria e orgulho de ter cuidado de mim quando eu não sabia como aquilo ia funcionar. Eu gostaria que o aborto não fosse tão politizado neste país a ponto de fazer com que seja quase impossível compartilhar uma perspectiva positiva da experiência.

Cara, é tão, tão isso. Claro que tem o sofrer. Tem o estupro, tem as histórias de terror, tem as impossibilidades afetivas e financeiras, tem as ausências masculinas, tem fatalidades biológicas (zika, alguém?). Mas também tem o sim-mas-não-agora, o já-tenho-dois, o quero-viajar, o putz-meu-mestrado, o me-deu-na-telha. Porque as mulheres são pessoas que deveriam poder decidir se e quando devem ter filhos, sem penitência, sem ter que obrigatoriamente contar uma história muito triste para aplacar a culpa judaico-cristã.

A carta dessa segunda leitora tocou tão fundo em mim que me vi compelida a escrever para o Dan Savage contando a minha história. Eu estava em uma terra muito muito distante, em um relacionamento longo e estável mas que obedecia a várias dessas listinhas que se distribuem agora sobre abuso psicológico e verbal, e engravidei sem querer – demos bobeira, com a pílula (eu) e com o coito interrompido (ele). Nesse reino distante o aborto é legal. Fui lá, paguei um preço não-exorbitante numa clínica limpa, com apoio psicológico e todos os exames e medicamentos. Me separei uma semana depois. Faz uma década. No dia mesmo eu pensava: isso é a decisão mais acertada que já tomei na vida. Ele? Chorou, se descabelou, tirou todo o dinheiro da nossa conta, me chantageou dizendo que ia contar tudo aos meus pais, me stalkeou pela cidade onde morávamos e nunca assinou os papeis de que eu precisava. Quando leio no jornal sobre disputas internacionais de guarda, até me arrepio pensando que poderia estar hoje enviando um ser humano de cá pra lá, como uma encomenda, para uma pessoa assim.
 
Vamos prestar atenção ao discurso para não glorificar o sofrimento. Tenhamos a malícia e a esperteza de não validar o discurso de quem quer fazer um bicho de sete cabeças  disso: há um potencial bebê, não um bebê; é um potencial filho, não filho; homens não “abortam”, homens abandonam mulheres. Separar de uma vez por todas o que é luta por direitos, o que é estatística, o que é pressão social e todos os valores religiosos que povoam a conversa. Vamos não ter vergonha de falar que um aborto pode resultar, sim, em felicidade e alívio, e ser vivido como uma experiência relativamente tranquila – dadas as condições ideais para tal. 
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O papa, o aborto e a decisão das mulheres

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Semana passada o mundo observou atento a decisão do Papa Francisco de conceder o perdão a católicas que se arrependessem de ter feito um aborto. Imagino o alívio de milhares de mulheres ao poder se perceber não mais como uma excomungada. Trata-se, certamente, de um bálsamo para a saúde psicológica de mulheres que se sentiam culpadas por terem abortado. E estar em situação de menor tormenta emocional claro que é melhor que viver atormentada pela culpa.

Agora, a questão é: de onde vem toda essa culpa? No meu entendimento vem de uma teologia que não aborda a questão do aborto como tema passível de uma decisão pautada em uma reflexão ética. A culpa é alimentada por uma teologia que não ouve, ainda, as mulheres. Uma teologia feita por homens e a partir (ainda) dos privilégios deles.

Uma outra teologia já existe e está, por exemplo, nas publicações de pensadoras teólogas feministas como as “Católicas pelo Direito de Decidir” que já tem laudas e laudas de reflexão sobre aborto e religião. Mas a teologia dessas mulheres não é ouvida, é deslegitimizada e marginalizada.

Já existe reflexão católica sobre a possibilidade de abortar sem culpa. Um dia essa reflexão será acessível a todas as mulheres católicas para que elas não precisem mais de um homem lhes concedendo o perdão. Poque um homem CONCEDENDO perdão a uma mulher, ainda que seja um Papa amoroso em tantos aspectos como parece ser o Papa Francisco, ainda soa para mim como a princesa Isabel “libertando” os/ negros/as.

Sonho com o dia em que as mulheres se libertem da culpa pelas suas próprias consciências, que a decisão de ser ou não ser mãe para uma católica seja válida pelo simples fato de que foi a decisão que sua consciência melhor construiu a partir de uma reflexão tranquila e serena e em nada incompatível com sua fé, coisa que é impossível de ser obtida numa situação de clandestinidade.

Que um dia uma mulher possa também ser, caso ela queira, a líder da Igreja Católica e que essa mulher abrace todas as que decidiram abortar e lhes diga: confio e apoio a decisão de vocês porque sei que todas vocês tem elementos teológicos para decidir da melhor forma possível. Porque, como Maria, vocês tem o direito a serem consultadas. Porque sou mulher como vocês e sei o que é estar diante de uma decisão tão difícil. E acima de tudo porque, como mulher, feminista e militante, eu sei como é pesado o jugo do machismo. Coisa que nenhum homem sabe realmente… Nem o Papa Francisco, nem nenhum outro.

Sonho que uma mulher, que todas as mulheres, possamos reconhecer que a Igreja é uma instituição que, com sua doutrina, força e influência, ajuda a manter o status quo, invisibiliza o nosso sofrimento e favorece a reprodução de discursos de opressão e exclusão. Que chegue o dia em que as mulheres não sejam perdoadas pela Igreja, mas que a Igreja peça perdão às mulheres.

Até que chegue esse dia vamos vivendo de vitórias parciais, de possibilidades históricas que não vieram simplesmente da generosidade individual de ninguém mas de toda uma luta encampada pelas mulheres, com destaque para as feministas, que plantaram e plantam sementes as quais as vezes germinam de formas ainda insuficientes mas que geram alguma saciedade de nossa fome de liberdade, saúde e felicidade.

Que nossas decisões um dia sejam realmente nossas!

Leia Mais: A Igreja já tolerou o aborto

Coalizão Nacional de Freiras Norte-Americanas responde ao Papa


10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro
se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

 

 

 

 

Uma situação intolerável

Eu odiava esse corpo que procurava me ditar sua vontade, que não era a minha. Era igualmente deprimente ter que agir sem nenhuma informação, sem auxílio médico, reduzida às receitas de bruxas, aos remédios das comadres, alguns dos quais datando da Antiguidade: o aborto era o ato mais secreto, porém o mais disseminado da história das mulheres.
(Benoîte Groult, Minha Fuga)

O relato de Benoîte Groult se passa na França do pós-guerra, quando o aborto ainda era proibido por lá. Mas bem poderia ser no Brasil de hoje. Na França, comemoram-se este ano 40 anos de aborto legal, como conta esse texto da professora Lena Lavinas:

Dentre as maiores conquistas do pós-68 na França, sem dúvida o direito ao aborto livre e seguro foi das mais extraordinárias e incontestes. Contemplou a todas as mulheres que puderam, assim, romper a solidão e a clandestinidade, o medo e a vergonha, para expressar seu direito individual e inalienável de escolha.

As duas citações deixam claro o componente de direito envolvido na questão: como dizer, de verdade, que as mulheres são iguais aos homens, sem anticoncepcionais, sem a possibilidade de interrupção voluntária da gravidez e sem estruturas de apoio à criação das crianças (creches e escolas integrais e públicas)? Direito ao aborto seguro, direito a creches e escolas públicas para as crianças: parecem antitéticos, e no entanto são duas pontas do mesmo quadro. Duas pontas fundamentais para garantir às mulheres o mesmo direito que têm os homens. E, portanto, fundamentais para a estruturação de uma democracia substantiva.

Enquanto na França se comemoram os 40 anos da Lei Veil, no Brasil, a situação é cada vez mais grave: mulheres continuam morrendo todo dia por abortos malfeitos. E, se sobreviverem, são criminalizadas. Não há números confiáveis, mas uma certeza: são muitas. São demais. Mortes desnecessárias. Mortes por descaso. Por indiferença. Pela hipocrisia que salva supostas “vidas” abstratas e, concretamente, mata gente. Porque o Estado supostamente laico não leva sua laicidade até a defesa da vida das mulheres. Porque a presidenta, a nossa primeira presidenta mulher, recuou o quanto pôde na pauta “sensível”. Porque existe (ainda) uma Secretaria de Políticas para a Mulher cuja titular defendia, como cidadã, o direito das mulheres ao aborto , mas não consegue fazê-lo como representante do governo.

Esse estado das coisas mantém a mulher no Brasil como cidadã de segunda categoria, não importa o que digam. E, evidentemente, a mulher pobre é a que sofre mais com essa situação, já que para quem tem dinheiro acaba sempre existindo algum “jeitinho”. É lamentável que, tanto tempo depois do final da ditadura, a gente continue vivendo a situação que tão bem descreve Benôite Groult: a das mulheres aprisionadas em seus próprios corpos. Reféns dos corpos e dos desejos. Correndo risco, todo dia.

Precisamos Falar de Aborto

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada

Eu preciso falar…
(de aborto, de machismo, de médicos, da Elis)

Com 42 anos de idade, eu achava que já tinha passado pelas minhas maiores batalhas na vida. Mas nada dessa minha vida louca vida me preparou para os primeiros meses desse maldito ano de 2015.

Pela primeira vez desde os meus quase esquecidos sete anos, quando sonhava em ser veterinária, eu confesso: não faço ideia do que quero ser agora que já cresci. E só não quero deixar de ser (ou estar, sei lá) por essa teimosia infinita de virginiana com ascendente em touro que acha que pode fazer alguma diferença nessa mundo insano.

Eu preciso falar de aborto.

Foram seis meses planejando minha segunda gestação. Inicialmente com medo, por conta da minha idade, medo que se dissipou com o novo ginecologista referenciado pelo movimento do parto humanizado, com a conversa com a enfermeira obstétrica sobre o possível parto domiciliar que me resgataria do nascimento do leãozinho, parto esse que me foi roubado nos últimos minutos do segundo tempo, que me sangrou a alma e me fez conhecer o estranho mundo da violência obstétrica.

Eu sabia que engravidaria. Eu já conhecia minha pequena Elis e seu desejo de vir. Ela me aparecia nos sonhos, com seus cabelos cacheados e dourados, suas bochechas rosadas e o riso fácil.

Investi no sonho, melhorando minha alimentação que é usualmente bem ogra, investindo no inhame duas vezes por semana, na vitamina B diária, nas castanhas, no abacaxi, até na beterraba com couve (que honestamente, eu detesto).

No dia que viria minha menstruação fiz o teste e a segunda linha rosa, ainda fraquinha, me encheu de amor e alegria. Tudo estava acontecendo como planejado.

Na mesma semana meu cão sênior piorou muito de saúde e a veterinária me pediu que eu o libertasse da dor. Já não andava direito, não se alimentava e mal conseguia beber água. Foi com o coração partido que dei meu adeus, abraçada ao seu frágil corpo após quase 17 anos de amizade. Entre a dor de perdê-lo e a alegria da confirmação da gravidez, oscilei meus dias entre lágrimas e sorrisos.

Primeiro ultrassom agendado, Cheguei na clínica já antecipando a emoção de ouvir o coração do meu feijãozinho. Uma hora e meia de exame, com direito a consulta a outra especialista da clínica e o veredicto que me tirou o chão: a gestação não tinha evoluído como esperado, o saco gestacional estava correspondente a sete semanas, via-se a vesícula mas não o feijão e muito menos se ouvia o coração. Pior: uma suspeita forte de uma segunda gestação na trompa, caracterizando um possível caso (raríssimo em uma gestação natural) de gestação heterotópica, uma dentro e outra fora do útero.

Passei dias me sentindo no inferno. Foram cinco exames de beta quantitativo dia sim, dia não, para acompanhar sua involução e, em cada ida ao laboratório eu parecia que ia morrer de tanta dor. Mais dois ultrassons para tentar confirmar ou não a suspeita da heterotópica, descartada no último quando o sangramento já dava sinais.

Final de semana marcado pelas pequenas cólicas e um sangramento leve. Eu só pensava nas palavras da terapeuta: “Quem ama de verdade deixa ir”.

Na segunda-feira, às 14h00, saiu um coágulo grande, assustador. E, de repente, a cada 10, 20 minutos saia um coágulo ainda maior. As cólicas não paravam, cada vez que saia um a dor voltava e eu já sabia que outro sairia. Em cada coágulo eu o investigava para averiguar se o saco gestacional tinha saído, mesmo sem entender bem do assunto. Por volta das 18h00 eu já não conseguia sequer me levantar sozinha e pedi arrego.

Com a ajuda do marido fui para o hospital, receosa de uma curetagem indevida e ciente que, caso não houvesse a expulsão total a indicação correta seria a AMIU (Aspiração Manual Intra Uterina).

Escolhi um hospital público, pois no privado dificilmente eu teria escolha ou seria ouvida. O que eu não sabia é que, mesmo em um hospital público, existem profissionais cansados, abitolados e que não seguem a ideologia da direção, essa, reconhecidamente adepta do atendimento humanizado. E, principalmente, que mesmo em uma condição clínica crítica, o aborto está no fim da fila de prioridades. Pode não ser o protocolo, mas é a realidade.

Eu não vou dar detalhes do horror que passei desde que a triagem me mandou com uma bela bolinha laranja no prontuário para a sala do plantonista. Foram 12 horas de espera e de luta, resistindo contra a curetagem, alternando o choro com a raiva da situação, deitada no mesmo quarto junto a duas mulheres em trabalho de parto e onde, a cada meia hora uma enfermeira entrava para auscultar o coraçãozinho dos que estavam para chegar ao mundo. Não dá pra descrever como aquela ausculta me rasgava inteira.

(Pausa pra respirar e chorar.)

Uma amiga virtual se materializou no hospital como um anjo guerreiro e passou a noite comigo, já que o marido precisava ficar com o filho em casa. E foi ela quem viu as enfermeiras chorando nos cantos, penalizadas com a situação absurda que assistiam.

Num relance, entendi o que estava acontecendo. Eu fui deixada lá de castigo. Porque eu quis “impor” a minha vontade. Me senti humilhada. Por mim, pelas profissionais que lá estavam e que não tinham autonomia alguma. Apenas no dia seguinte, quando um novo plantonista apareceu, fui atendida e liberada. Ele, ciente dos protocolos atuais, fez pessoalmente um ultrassom e me levou para a sala de cirurgia para realizar a AMIU.

Já faz mais de três meses que isso aconteceu. Coincidência ou não, a AMIU foi realizada no dia do aniversário de setenta anos de Elis Regina, a homenageada pela gravidez que não foi.

Meu corpo, minhas regras? Não no Brasil, onde o aborto é criminalizado, afetando todas que abortaram. Quase um quinto das gestações termina em um aborto espontâneo. Uma em cada cinco mulheres já interromperam voluntariamente a gravidez. Como não falar de aborto?

Eu preciso falar do machismo.

Dizem que o diabo mora nos detalhes. Eu percebo que o machismo mora nos detalhes. No hospital-referência, as mulheres eram as operárias e os homens os comandantes (grande novidade…). E, nesse ponto, vamos concordar: Nós que parimos. Nós que abortamos. Nós que sabemos a dor que sentimos. Não eles!

Eu não me arrependo de ter ido a um hospital público, pelo contrário, agradeço por ter ido lá, pois caso tivesse escolhido um privado sequer teria conseguido ser escutada. Mas o machismo daquele momento não será esquecido nem perdoado. Não pode ser. Nesse momento, só o que desejo é que mulheres estejam no comando. Porque enquanto o homem estiver não conseguiremos ter nossos desejos e necessidades respeitados.

Precisamos de mais mulheres no comando, seja no hospital, na política, na indústria, na mídia. De preferência mulheres feministas, empoderadas, de sangue nozóio e que saibam que sim, o aborto é assunto de Estado, muito mais do que a mandioca.

Mas eu também preciso falar de discurso e da empáfia da classe médica.

Precisamos de médicos que estejam abertos às novas evidências científicas. Que reaprendam os conceitos de humanidade e humildade. Que saibam que não são deuses e que o parto é da mulher, o  corpo é da mulher e o aborto também é da mulher. Sua função é basicamente se fazer presente para que tudo saia como o planejado ou, para que o que já saiu fora do planejado tenha os riscos minimizados e a paciente acolhida.

Eu preciso falar. Não me importa se vocês não estão me ouvindo. Eu realmente preciso falar. =/

 

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* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la no Twitter @Adriana_Torres.

Aborto e arrependimento

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esta semana, foi divulgada uma pesquisa norte-americana mostrando que 95% das mulheres que fizeram um aborto acreditam que essa foi a melhor decisão, sem arrependimentos.

Do total de pessoas avaliadas, 40% justificaram a decisão com base em aspectos financeiros; 36% das mulheres disseram que “não era o momento certo”; 26% recordam que a escolha foi tomada facilmente ou muito facilmente; e 53% dizem que a decisão foi difícil ou muito difícil.

Os pesquisadores destacam que a amostra foi diversificada no que diz respeito a métricas como cor de pele, educação e emprego. Eles também procuraram mulheres com diferentes contextos de gestação. Segundo os autores, a grande maioria das mulheres que participaram do estudo sentiram que o aborto foi a decisão certa “tanto no curto prazo, como ao longo de três anos”.

Para mais detalhes, divulgo aqui a tradução que fiz do texto ‘Study finds 95 percent of women who had an abortion say it was the right decision’ de Maya Dusenbery, publicado no site Feministing.com em 14/07/2015.

O mito de que o aborto provoca problemas de saúde mental nas mulheres é usado há muito tempo e agora pode ser colocado de lado. Porém, no caso de você precisar de mais evidências para responder aqueles cartazes contrários ao aborto que insistem em dizer “as mulheres sempre se arrependem de um aborto”, há inúmeras fontes, aqui estão algumas.

De acordo com este novo estudo que acompanhou centenas de mulheres que realizaram abortos, mais de 95% das participantes relataram que a interrupção da gravidez foi a decisão certa para elas. Sentimentos de alívio ultrapassam quaisquer emoções negativas, mesmo três anos após o procedimento.

Os pesquisadores investigaram tanto mulheres que realizaram abortos no primeiro trimestre da gestação, como mulheres que realizaram o procedimento após esse período (casos que muitas vezes são classificados como “abortos tardios”). Quando o assunto são as emoções das mulheres após o aborto, ou suas opiniões sobre se era ou não a escolha certa, eles não encontraram nenhuma diferença significativa entre os dois grupos.

A pesquisa, que é a mais recente fora o Turnaway Study, encontrou alguns fatores que levam as mulheres a terem sentimentos negativos. Como você pode imaginar, um aborto que pôs fim a um gravidez planejada ou uma pessoa em conflito com a decisão tomada relataram mais emoções negativas e menos confiança de que essa foi a escolha certa. Além disso, aquelas que precisam desafiar as regras de seus grupos sociais para realizar o procedimento tendem a ter menos apoio social e sentem mais o estigma do aborto.

Em outras palavras, a esmagadora maioria das pessoas não se arrepende de seus abortos, e para a minoria que se sente mal sobre sua escolha, isso acontece, pelo menos em parte, graças ao empenho e esforço do movimento anti-escolha para que elas se sintam mal. E mesmo assim, eles não parecem estar fazendo um trabalho muito bom nesse campo.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Por que o aborto deve ser um direito?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Porque não engravidamos sozinhas e não merecemos o apedrejamento alheio por uma gravidez indesejada.

Porque não deveríamos ouvir coisas horrendas do tipo: “na hora de abrir as pernas, não pensou em usar camisinha, né?”

Porque não queremos ficar à mercê de açougues humanos que são grande parte das clínicas clandestinas de abortos deste país.

Porque tortura é obrigar uma mulher a levar adiante uma gravidez que ela não queira.

Porque não desejamos ser assassinadas caso o procedimento abortivo dê errado. Porque também não somos assassinas e nem criminosas.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

O aborto seguro é um direito das mulheres e dever do Estado.

Porque vivemos em uma cultura masculinista que favorece a omissão do homem que nos engravidou.

Porque quase sempre estamos sozinhas e desamparadas nisso. No antes, durante e depois. E isso é doloroso pra caramba.

Porque o aborto é uma questão de classe sim. Pergunte isso a uma mulher pobre que quis abortar.

Porque não suportamos mais depender de redes clandestinas de venda de medicamentos abortivos, quase sempre falsificados.

Porque o nosso ventre não é um espaço para o seu moralismo religioso e seus discursos autoritários.

Porque os corpos são nossos e nossas vidas devem ter prioridade acima de qualquer coisa.

Porque não somos incubadoras ambulantes e nem depósitos sem valor que só servem para despejar crianças.

Porque não precisamos justificar para ninguém as nossas escolhas, a não ser para nós mesmas.

Porque, basicamente, filhos têm que ser frutos do desejo e não de uma imposição. Apenas isso.

Porque, mesmo que você não queira, sim, NÓS ABORTAMOS! Aborto legal assegurado pelo Estado já!

É assim tão difícil de entender? Ou precisamos desenhar?

Aviso: o moralismo mata

Aviso: o moralismo mata

Aborto – História de uma (Quase) Gravidez

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

postSara

Acho que toda mulher que faz sexo tem uma(s) história(s) de camisinha estourada ou de menstruação atrasada que assusta a ponto de pensar: “o que farei da minha vida? Não era pra acontecer agora/com ele/desse jeito. A minha história mais recente foi no final de setembro, minha menstruação atrasou por uns 20 dias, desde que comecei a tomar Mirena, a menstruação tem ensaiado acabar e, de setembro pra outubro, ela acabou de vez.

Explicar pra vocês como foi meu fim de mês de setembro: minha família toda por conta de uma cirurgia que minha mãe fez, tensão e muito cuidado. Então, estava eu por conta da minha mãe no hospital, num estresse danado e preocupada se podia ou não estar grávida. Foi por isso que demorei tanto pra fazer o exame de sangue.

Durante esse tempo, passei pelo ódio, pelo medo, pela culpa. Queria entender porque uma coisa dessas poderia acontecer comigo, uma mulher tão cautelosa com contracepção. Sei muito bem que uma mulher cis, hétero e fértil só tem 0% de chances de não engravidar se não fizer sexo. E eu não sou dessas que não faz sexo!

Senti muita vontade de, como tantas outras mulheres, abortar. Seria difícil e ilegal, fiquei em pânico. Pensei muito mesmo em como minha vida mudaria pra pior se engravidasse naquele momento. Foram muitos choros e muita vontade de sumir. Tive apoio do meu namorado, dxs familiares e amigxs que sabiam. Todxs me falaram que estariam comigo seja qual fosse a minha decisão.

É difícil julgar uma pessoa que apóia quem ama numa decisão tão delicada como essa. Apoiar é amar, cuidar e se preocupar, querer segurar na mão. Eu, se estivesse grávida, teria apoio pra qualquer decisão que tomasse, abortar ou manter a gravidez.

Foi faltando pouco tempo pra saber o resultado que eu decidi manter a gravidez, por medo, unica e exclusivamente da ilegalidade do aborto. Medo de passar a gravidez na cadeia, sujar minha ficha criminal. Se o aborto fosse legal no Brasil, nem pensaria duas vezes em abortar. Afinal, quero filhx(s), num futuro mais distante, adotivx(s), e eu quero poder ser a mãe que eu sempre sonhei. Quero uma maternidade tranquila, sem passar perrengue. Quero dar a elx(s) tudo que eu tive e muito mais.

Quando o resultado saiu foi um alívio, pra mim e meu namorado, ninguém deveria ser pai ou mãe sem planejamento prévio, sem querer. Gravidez deveria ser um momento de alegria e não de choro!

Aborto: substantivo feminino

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Nessa semana entramos na campanha dos “16 dias pelo fim da violência contra as mulheres” e aqui no Biscate seguimos falando sobre aborto. E aí que as pessoas podem pensar que aborto e violência não têm nada a ver. Pois pra mim, a criminalização do aborto é uma forma de violência contra as mulheres, perpetrada pelo Estado e com consentimento de toda a sociedade. E das mais brutais, pois é totalmente institucionalizada e amparada por uma legislação bastante punitiva.

Quando a Constituição brasileira de 1988 lá no inciso I do art. 5º diz que, “homens e mulheres são iguais, nos termos desta Constituição”, ela está sendo desrespeitada. Está sendo desrespeitada pois ainda temos uma lei que pune apenas e somente as mulheres, esses seres que engravidam. Negar o direito ao aborto seguro e legal é uma forma de afirmação do Estado brasileiro de que a vida das mulheres tem menos valor do que a dos homens e que seu corpo pode ser instrumentalizado por outros agentes – como a Igreja.

Ao criminalizar o aborto e penalizar aquelas que o praticam, o Estado brasileiro descumpre seu artigo 5º, que, teoricamente, prima pelo tratamento igualitário de todos os brasileiros e brasileiras. Se, o aborto acontece nos corpos das mulheres, e se caso elas decidam não levar essa gravidez adiante, quem responderá pelo crime de aborto, com pena de 1 a 3 anos de prisão, são exatamente as mulheres. Ou seja, os homens, que são tão parte do processo reprodutivo quanto as mulheres, estão “isentos” pelo Código Penal brasileiro.

O Estado brasileiro, e aí entra também os meios de comunicação, ao tratar o aborto apenas como crime contra a vida, retira dessa prática milenar o que ela realmente é: parte da vida sexual e reprodutiva das mulheres. É isso. Aborto não é tema tabu ou assunto polêmico. Aborto é aquilo que sua avó fazia quando bebia chá pra “menstruação descer”. Aborto é aquilo que é feito por milhões de mulheres ao longo de suas vidas. Engravidar quando não se quer ter um filho é algo corriqueiro na vida daquelas que têm uma vida sexual e que possuem útero.

Lembro sempre da história de uma amiga que dizia que não sabia que aborto era crime, até se mudar para a capital. Ela, que passou parte da infância numa cidade no sertão pernambucano, via com naturalidade as mulheres de sua família e comunidade beberem chás quando a menstruação atrasava ou quando pressentiam que “vinha menino por aí”. A sua avó, que teve 13 filhos, tomou alguns chás desses e não há qualquer sombra de culpa ou ideia de que tivesse feito algo errado quando fala sobre o assunto. Era muito tranquilo decidir quando ter ou não mais uma boca pra sustentar ali naquela cidade do sertão e naquele tempo em que não havia nenhum método contraceptivo.

E sempre que ouço as falas de Vó e de minha amiga, fico impressionada de como tratamos como ruptura aquilo que, nada mais é, do que parte de um processo. O aborto é encarado pelos pró-vida como a não-concretização da maternidade, ou seja, as mulheres rompem com aquilo que a sociedade misógina acredita ser seu papel fundamental: ser mãe. E por isso, investem tanto para eleger seus representantes mais conservadores, mais contrários ao poder de decisão das mulheres e que cumprem papel importante na manutenção das leis que regulamentam o aborto. Na manutenção e no retrocesso das leis.

O que as mulheres fazem historicamente é controlar o seu próprio corpo, antes mesmo do aporto do feminismo. E para isso lançavam mão do conhecimento das ervas naturais que a auxilavam no exercício da autonomia reprodutiva. Esta prática confronta todo o sistema jurídico e moral erigido pelo machismo, por isso derrubar uma legislação punitiva a este exercício deve ser tarefa urgente para qualquer sociedade pretensamente democrática.​

E, as mulheres, mesmo correndo risco de ser presas ou de morrer, ainda assim, decidem por interromper aquela gravidez indesejada. Por mil motivos. Sendo o principal deles, o seu desejo. Ainda que dentro de um sistema opressor, que as joga para os piores tratamentos clínicos, para as situações mais clandestinas, ainda assim, milhares de mulheres só no Brasil optam pelo aborto. O recado que essas mulheres estão dando para uma sociedade e um estado que se fingem de surdos é que: “vamos continuar abortando. Podem tentar nos prender, nos humilhar, nos subalternizar e até nos matar. Mas estamos, aqui, exercendo nossas autonomias, lutando para decidir, quando, quantos e se queremos ter ou não filhos”. 

 

Sobre o aborto – precisamos, muito

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Precisamos muito conversar sobre aborto. Este é o tema lançado pela revista Trip – TPM, na matéria publicada no dia 13 de novembro de 2014. Aqui no Biscate a gente tem falado muito sobre o assunto, antes mesmo da campanha desse veículo com maior visibilidade.

É quase impossível falar sobre aborto sem que alguém solte algo como “assassinato de seres humanos inocentes” se referindo, sempre, ao embrião em gestação, com a clara intenção de silenciar quem se manifesta a favor da regulamentação e descriminalização da interrupção voluntária da gravidez – que no Brasil só é não é punido criminalmente em três casos: gravidez decorrente de estupro, risco de morte para a mulher e depois do STF assim decidir, quando se trata de feto anencéfalo. E se mesmo os três casos em que não há que se falar em CRIME, ainda não há a regulamentação sobre como a MULHER vai proceder para se submeter à intervenção, pelo sistema de saúde público ou particular, e ainda há o estigma e ainda há a violência moral e até física contra a MULHER que escolhe não levar a termo uma gravidez fruto de estupro ou de um feto anencéfalo ou mesmo se houver risco de morte para a gestante, o que dizer sobre o debate amplo e consciente, transparente, claro, pacífico, sobre o abortamento voluntário?

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Me recordo a primeira vez em que pude ouvir e falar sobre aborto, na Faculdade de Direito da PUC MG, em 1997.

Aulas de Língua Portuguesa. Professora Jane.  “Júri simulado”. O tema: aborto. Ao meu grupo coube defender a legalização. Tantos anos depois, e me lembro que foi uma das poucas vezes na vida acadêmica em que pudemos discutir sobre o tema. Obviamente meu grupo “perdeu”, no júri, mas foi por pouco. E foi a primeira vez em que, sem internet ainda, pesquisei a fundo um tema. Maternidade Hilda Brandão, Secretaria de Segurança Pública, Biblioteca Luiz Bessa.

Enquanto escrevo, tento me lembrar dos números, dos dados. Eram parcas as informações, mas conversei com médicos, e havia mortes decorrentes. Muitas. E mortes invisíveis. Na SESP- antiga Secretaria de Segurança Pública, quase nenhuma informação. Nada que eu me recorde hoje.  E quase nada nos jornais. Poucas publicações disponíveis para uma jovem graduanda inexperiente. Algumas publicações em revistas impressas – talvez mais do que hoje!

Mas dos argumentos contra, eu me lembro. Um dos debatedores contrários era de uma religião que não aceita o aborto devido à crença na reencarnação. Outra era evangélica e outros, católicos. Mesmo no meu grupo, que devia “defender” o direito ao aborto não havia consenso, pois alguns eram pessoalmente, contrários (pausa para mencionar: que professora brilhante, Jane Quintiliano. Como trabalhou com aquele pequeno grupo de calouros em Direito as questões do discurso! Somente hoje eu consigo elaborar o quanto foram importantes aqueles seis meses de aulas para a minha formação.) Fim da pausa.

Os discursos contrários não se alteraram. Os argumentos são geralmente os mesmos, como se pode ver nessa pequena pesquisa “google” com o critério “precisamos falar sobre aborto”.

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Eu trabalho com a lei. Com o Direito. E o Direito, bem, ele é essa coisa que admite tanta interpretação, não é mesmo? Um delegado incluiu o ex-marido e a amiga de Jandira como partícipes do crime de “provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem o provoque”. Ah, a letra fria da lei… Ele está errado? Tecnicamente, não. Sim, é possível juridicamente defender essa tese, assim como tantas outras teses aberrantes, de um Direito focado em si mesmo, não visto como um instrumento. A LEI, essa coisa imutável, escrita na pedra – não, esperem… A LEI não é imutável, ainda bem. Ou seríamos ainda, mulheres e negros, objeto e não sujeitos de Direitos – coisas, bens, algo a ser comprado e vendido. Não faz tanto tempo assim que a LEI mudou. E além da lei, há a política criminal. As opções do “aplicador da lei”, seja ele o delegado, o promotor ou o juiz.

É preciso olhar além e adiante da lei, e por baixo da letra da lei, o que há, subjacente. Uma cultura que ainda vê a mulher como coisa, como incubadeira. Uma cultura que ainda vê a mulher que faz sexo como alguém que “merece apanhar”. Não faz tanto tempo assim também que a LEI, essa coisa imutável, extinguiu com uma norma que diferenciava o tratamento dado a um crime diante do fato da mulher ser “honesta” ou não, sendo que o “honesta” entre aspas mesmo já era questionado há quinze anos, quando meu professor de Penal, juiz e conservador, disse em sala de aula que nenhuma de nós ali, em uma faculdade  noturna de Direito, em 1997,  era uma mulher honesta, para os critérios do legislador e do julgador de 1940.

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Vejo que hoje, em 2014, estamos tentando discutir, debater, há pessoas sérias e honestas se dispondo a sair de dentro dos muros da hipocrisia para falar sobre o aborto como questão de saúde pública, e com questão de dignidade da MULHER, mas infelizmente, em uma pequena googlada é possível encontrar dezenas, se não centenas, de textos e vídeos escritos e produzidos por pessoas que usam com tanta futilidade do argumento da defesa da “vida” quanto se lixam para a vida e a saúde das MULHERES. Com argumentos geralmente religiosos e emocionais, muitas vezes agressivos e violentos. 🙁

Não desistiremos.

Nenhuma mulher tem que morrer por culpa da SUA convicção pessoal.

O direito ao aborto seguro é direito das mulheres!

Aborto e Solidariedade

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

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Imagine um país onde nós, mulheres, fôssemos proibidas de parir. Agora imagine um onde nos obrigam a fazê-lo.

Quando eu tinha uns 21 anos uma grande amiga da época engravidou de um rolo e decidiu abortar, me pediu apoio e…refuguei. Eu era espírita e espíritas, como vocês sabem, não apoiam o aborto, pedi desculpas a ela, disse que entendia, mas não poderia ajudá-la porque não podia compactuar com aquela atitude. Depois soube por outra amiga que tudo correu bem. Até hoje me recrimino pela minha covardia. Tive medo do fogo do inferno, na verdade. Ok, para espírita não há fogo no inferno, mas nas minhas centenas de leituras espíritas pessoas que abortavam ou mesmo apoiavam eram perseguidas espiritualmente, obsidiadas. Pois é, tive medo de encosto, como se diz no popular.

A decisão do delegado responsável pelo inquérito sobre a morte de Jandira Magdalena dos Santos Cruz, de indiciar por “apoio moral” o ex-marido e uma amiga de Jandira tem por efeito sobre a já escassa rede de apoio das mulheres que decidem abortar o mesmo, ou pior, que os livros espíritas tiveram sobre mim: o fogo do inferno. Na verdade pior: a cadeia.

Já conversamos centenas de vezes que nenhuma mulher decide facilmente sobre o aborto, que essa decisão só a ela pertence. Mas raramente falamos como é importante o acolhimento para a mulher que decide abortar. E é esse o golpe mais baixo sobre as mulheres que se deu agora, sobre a sua rede de apoio, sobre o acolhimento, o amor que ela precisa num momento tão difícil.

Nós, feministas, estamos a duras penas tentando livrar as mulheres que decidem abortar de julgamentos morais e religiosos duros externos já que muitas vezes elas mesmas afligem a si mesmas esses julgamentos por terem sido criadas nessa cultura. É muito cruel e desumano na hora do desespero julgar alguém, como amigas e irmãs, podemos somente acolher (e é por isso que não me esqueço da minha atitude mesquinha). Mas aí vem um delegado e aflige toda a cadeia de apoio das mulheres com o medo. Isso é cruel, mesquinho, desumano, hipócrita. E pior, é querer tomar para si o papel de julgador supremo.

O aborto não legalizado no Brasil já é uma legislação anacrônica, uma vez que em vários países ele  já é permitido faz tempo e condenar as pessoas que acolhem a mulher é mais anacrônico ainda. Mesmo a denúncia não tendo sido acatada pelo Ministério Público, quantos aos amigos e familiares, o mal já está lançado pois a propaganda está feita e nos sabemos o quanto nos custa todo dia desfazer coisas do senso comum tais como: “só engravida quem quer”… mas nós, rede de apoio, não podemos esmorecer ao medo, temos é que nos unir e nos ajudar.

E por fim, se a sua questão com o aborto é religiosa ela é exatamente isso: sua questão e você decide. No entanto suas crenças religiosas, por mais que te façam bem, não podem ser estendidas por decreto a outras pessoas que delas não compartilham sob pena de um pretenso ato de amor e proteção ao próximo ser exatamente o que é: arrogância e prepotência. Ao passo que religiosidade é amor, tolerância e paciência. Não julgue, não condene, ao contrário, ame e acolha, cada qual como é.

PS: não responderei comentários do tipo ahhhhh é a minha/ família/namorada/esposa/cachorro/gato/periquito/papagaio etcetc e eu/ela/ele faço/faz como eu quiser/Deus quiser porque estaremos voltando ao terreno do EuEuEu e aí você faz o que quiser e puder, colega. O que se propõe no texto – mais uma vez- é não a subjugação do outro pelo seu eu, mas a solidariedade, o acolhimento do próximo, no caso a mulher. Abraços.

Aborto e retrocesso social: não!

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

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O aborto clandestino mata mulheres. Essa é uma realidade incontestável. Uma realidade triste, diante da qual a sociedade brasileira se cala. Sem luto. Aceitando o destino de milhares de mulheres que, diariamente, submetem-se às mais diversas situações para poderem dispor sobre seu corpo. A média anual estimada pelo Ministério da Saúde é que cerca de um milhão de mulheres (sim, UM MILHÃO!) submetam-se a esse procedimento no Brasil, isso o Brasil registra, ao ano, 250 mil internações de mulheres por complicações decorrentes de abortos ilegais.

É muito, não? É muita condenação às mulheres, mulheres que não engravidam sozinhas mas que sofrem sozinhas, jogadas à sua própria sorte. E, claro, quanto menos dinheiro a mulher tem, menos chances ela tem que ter um procedimento seguro. Sim, porque o aborto também é uma questão de desigualdade social. Não são só mulheres pobres que abortam. Mas são mulheres pobres e negras que sofrem as piores consequências do aborto. E também é sempre bom lembrar a Pesquisa Nacional sobre Aborto feita por Débora Diniz e Marcelo Medeiros: as mulheres católicas e evangélicas abortam, e as mulheres casadas, com outros filhos, também. São o maior número, inclusive, de mulheres que se submetem ao aborto no Brasil. Todas as mulheres abortam. Eu, você, sua amiga, sua avó, quem você nunca pensou que tivesse. Clandestinas, somos todas nós.

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Claro, queremos a legalização do aborto. Queremos que qualquer mulher, enquadrada em diretrizes legais e em procedimentos determinados e regulados pelo Ministério da Saúde, possa se submeter, se assim for da sua vontade, a um aborto seguro e legal.

Hoje, no Brasil, existem possibilidades de aborto legal. Pelo artigo 128 do Código Penal, as mulheres podem se submeter ao aborto de forma segura e legal nos casos de: risco à vida da mulher e violência sexual. A ADPF 54 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamenta), julgada pelo Supremo Tribunal Federal em 2012, determina que nos casos de anencefalia as mulheres que gestam um feto anencéfalo também tem esse direito, caso optem pela interrupção da gravidez. Isso porque considera inconstitucional qualquer interpretação que enquadre uma mulher que se submeta ao aborto nos crimes de aborto tipificados no código penal (artigos 124 e seguintes). Um avanço na nossa legislação retrógrada e retalhadora de mulheres.

Os casos mais controversos continuam sendo, claro, os casos de violência sexual. Porque né? Na hipocrisia social em que vivemos, a mulher é sempre culpada pela violência que sofre. “Ela provocou”, “ela quis”, e por aí vai. Sem contar que a maior incidência de crimes sexuais contra mulheres acontece dentro de suas próprias casas, ou no âmbito familiar. Como provar os casos de violência sexual numa sociedade que condena mulheres pelo simples fato delas serem…mulheres? Não é tarefa fácil, não.

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Hoje para uma mulher se submeter ao procedimento de abortamento legal, nos casos previstos em Lei, ela deve apenas procurar um serviço de saúde. Existem Centros de Referência e serviços especializados para garantir esse direito das mulheres. Mas, já sabem né? É muito difícil chegar neles: são apenas 65 Centros de Referência em todo país.

E, no caso de mulheres vítimas de violência sexual, NÃO é preciso que a mulher se submeta a exames de corpo delito nem de queixa numa delegacia de polícia para ter acesso ao procedimento. Não. Chega de duvidar da vítima. Chega de obstar seu acesso à saúde!

A Portaria PRT GM n. 485 de 1º de abril de 2014, que redefine o funcionamento do Serviço de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que determina, dentre outras questões, como deve ser realizado o abortamento nos casos previtos em lei. O artigo 6º desta Portaria dispõe que o serviço de Referência para Interrupção de Gravidez nos Casos Previstos em Lei terá suas ações desenvolvidas em conformidade com a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento do Ministério da Saúde, realizando: I – atendimento clínico, ginecológico, cirúrgico e psicossocial, contando com serviço de apoio laboratorial; II – apoio diagnóstico e assistência farmacêutica; e III – coleta e guarda de material genético.

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Bom, se avançamos um pouquinho nessa Portaria e nessas possibilidades de aborto legal, não podemos relaxar, porque a bancada conservadora do Congresso Nacional, que continua querendo culpabilizar e colocar mulheres em destinos de morte por aborto (e que, infelizmente, aumentou nessa última eleição), não está parada. São diversos projetos de Lei destinados a retroceder o direito ao aborto nos casos legais, e a agravar ainda mais a situação que temos hoje, em relação à punição ao aborto. Como o malfadado e tão comentado estatuto do nascituro (PL 478/2007). Vamos ver alguns que, numa pesquisa rápida, encontrei tramitando na Câmara dos Deputados?

– PL 6115/2013 (Apensado ao PL 1545/2011), de autoria de Salvador Zimbaldi – PDT/SP ,  Alberto Filho – PMDB/MA  – Quer acrescentar um parágrafo único ao art. 128, do Código Penal, para exigir o exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico e o Sistema de Saúde possam realizar o abortamento. E, olhem a justificativa dos ditos doutores deputados!!! “O abuso foi o de dar a gestante o suposto “direito” de abortar sem qualquer prova de que houve estupro, bastando a simples alegação de que foi estuprada”.

– PL 5069/2013, de autoria de Eduardo Cunha – PMDB/RJ, Isaias Silvestre – PSB/MG, João Dado – PDT/SP – Quer acrescentar o art. 127-A ao Código Penal, para tipificar como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto. A justificativa, para chorarmos mais um pouco: “o sistema jurídico brasileiro encontra-se mal aparelhado para enfrentar semelhante ofensiva internacional, contrária aos desejos da maioria esmagadora do povo brasileiro, que repudia a prática do aborto (oi?). A legislação vigente considera o anúncio de meio abortivo como simples contravenção, o que leva a não ser priorizada a atuação a respeito por parte dos órgãos policiais. Por outro lado, a lei não prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática do aborto, mesmo quando se trata de menor”.

– PL 3207/2008 Apensado ao PL 4703/1998, de autoria de Miguel Martini – PHS/MG – Quer acrescentar os incisos VIII, IX e X ao art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 para incluir induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (eutanásia) e o aborto provocado nos crimes considerados hediondos! (olha o medo!). Querem ler a justificativa ainda? Lá vai: “Por atentarem gravemente contra a inviolabilidade do direito à vida, tais crimes monstruosos e hediondos estão, por sua vez, a merecer um tratamento penal mais severo a fim de se sancionar de modo mais adequado os infratores e desestimular a sua prática”.

Vale a pena nos cadastrarmos no site da Câmara para acompanharmos o andamento desses projetos, além de tantos outros que existem nesse sentido mórbido e avesso aos nossos direitos ao próprio corpo. É preciso fazermos barulho contra o retrocesso. Infelizmente não basta lutarmos pela legalização do aborto, temos que lutar pelo não retrocesso social a nossas possibilidades de aborto legal, e ao não agravamento da situação já injusta e severa que temos contra as mulheres!

Pela legalização do aborto, pelo direito à vida das mulheres!

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Hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

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Há alguns anos eu engravidei. Decidi ter a criança. Os dois pequenos fragmentos abaixo foram escritos no meu blog, em dias diferentes na época em questão, e contam um pouco do que aconteceu.

“Eu estava grávida. Até hoje. Perdi meu filho e minha confiança no serviço público de saúde e na empatia que acreditava natural entre os seres humanos. Comecei a sentir dor, um dia depois de passado o medo, finalmente ter me rendido à alegria e sair espalhando a notícia para todos os amigos. Rindo. Hoje fui para o hospital com J. Uma amiga não achou normal o sangramento. Nem a dor. (…) Esperas. E esperas. Mais. Até que uma mulher que não sabia meu nome, nem nenhum outro, nem minha história nem nenhuma outra, disse-me que não havia mais nada. Nem nome, nem história, nem espera. Friamente. Cruelmente. E resultado nenhum vale mais que seu diploma. Amém, amém… deuses todos eles. A atendente que queria saber minha profissão, o médico que viu a dilatação, o enfermeiro que mediu minha pressão. Deuses de pedra. E eu carne e sangue. E nada.”

“Terça-feira passada a dor me fez voltar ao hospital. Outro ultrassom, outros médicos impessoais. Fui internada. No quarto coletivo, mulheres e seus sofrimentos. Havia uma menina de dezesseis anos, uma mulher de quarenta e um. Outras. Mais. Todas perderam ou estavam perdendo seus filhos como eu. Sentiam dor como eu. Como eu, ficaram vinte horas sem comer até aparecer um anestesista que nos dopasse para arrancarem os últimos resquícios de uma maternidade que não aconteceu. O nome disso é curetagem. Quando acordei estava numa enfermaria com outras mulheres e seus recém-nascidos filhos. Entrei em choque. Quis ir embora, mas tive que assinar um termo de responsabilidade e passar os últimos cinco dias em casa, quase sem me mexer. Dor. Dor. Dor. Ainda. Acho que para sempre.”

Hipocrisia.

A hipocrisia não permitiu que eu tivesse um atendimento rápido, me mandou para casa sem nenhuma medicação para sofrer uma hemorragia. A hipocrisia matou meu filho. E me fez voltar para o mesmo hospital para ser tratada como uma pária dias depois. Achando pouco, a hipocrisia me acordou num quarto com recém-nascidos.

Hipocrisia. A única explicação que encontro e que fui obrigada a engolir junto com minha dignidade foi a de que me trataram no hospital “assim”, porque claro que eu, fêmea traiçoeira, filha de Eva, tinha “propositadamente” abortado.

Espera de horas, ironia, secura.

E se fosse? E se é? Porque não tive o direito de ser tratada com dignidade e respeito como qualquer pessoa que fez uma escolha?

Hipocrisia!

Aquela que só de substituir a palavra “pessoa” por “mulher” faz quase todo mundo mergulhar em relativismos. Que diz que, se como “mulher” não cumpro com minha obrigação maior que é parir, seja lá por que motivos, minha vida não vale nada mesmo.

É disso que trata discutir sobre aborto.

Da vida de pessoas. Que querem ter filhos. Que não querem ter filhos.

Da minha vida.

Da nossa vida.

Eu poderia ter morrido. Tive sorte. Mas até quando é apenas com a sorte que poderemos contar?

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