Hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

cartazaborto

Há alguns anos eu engravidei. Decidi ter a criança. Os dois pequenos fragmentos abaixo foram escritos no meu blog, em dias diferentes na época em questão, e contam um pouco do que aconteceu.

“Eu estava grávida. Até hoje. Perdi meu filho e minha confiança no serviço público de saúde e na empatia que acreditava natural entre os seres humanos. Comecei a sentir dor, um dia depois de passado o medo, finalmente ter me rendido à alegria e sair espalhando a notícia para todos os amigos. Rindo. Hoje fui para o hospital com J. Uma amiga não achou normal o sangramento. Nem a dor. (…) Esperas. E esperas. Mais. Até que uma mulher que não sabia meu nome, nem nenhum outro, nem minha história nem nenhuma outra, disse-me que não havia mais nada. Nem nome, nem história, nem espera. Friamente. Cruelmente. E resultado nenhum vale mais que seu diploma. Amém, amém… deuses todos eles. A atendente que queria saber minha profissão, o médico que viu a dilatação, o enfermeiro que mediu minha pressão. Deuses de pedra. E eu carne e sangue. E nada.”

“Terça-feira passada a dor me fez voltar ao hospital. Outro ultrassom, outros médicos impessoais. Fui internada. No quarto coletivo, mulheres e seus sofrimentos. Havia uma menina de dezesseis anos, uma mulher de quarenta e um. Outras. Mais. Todas perderam ou estavam perdendo seus filhos como eu. Sentiam dor como eu. Como eu, ficaram vinte horas sem comer até aparecer um anestesista que nos dopasse para arrancarem os últimos resquícios de uma maternidade que não aconteceu. O nome disso é curetagem. Quando acordei estava numa enfermaria com outras mulheres e seus recém-nascidos filhos. Entrei em choque. Quis ir embora, mas tive que assinar um termo de responsabilidade e passar os últimos cinco dias em casa, quase sem me mexer. Dor. Dor. Dor. Ainda. Acho que para sempre.”

Hipocrisia.

A hipocrisia não permitiu que eu tivesse um atendimento rápido, me mandou para casa sem nenhuma medicação para sofrer uma hemorragia. A hipocrisia matou meu filho. E me fez voltar para o mesmo hospital para ser tratada como uma pária dias depois. Achando pouco, a hipocrisia me acordou num quarto com recém-nascidos.

Hipocrisia. A única explicação que encontro e que fui obrigada a engolir junto com minha dignidade foi a de que me trataram no hospital “assim”, porque claro que eu, fêmea traiçoeira, filha de Eva, tinha “propositadamente” abortado.

Espera de horas, ironia, secura.

E se fosse? E se é? Porque não tive o direito de ser tratada com dignidade e respeito como qualquer pessoa que fez uma escolha?

Hipocrisia!

Aquela que só de substituir a palavra “pessoa” por “mulher” faz quase todo mundo mergulhar em relativismos. Que diz que, se como “mulher” não cumpro com minha obrigação maior que é parir, seja lá por que motivos, minha vida não vale nada mesmo.

É disso que trata discutir sobre aborto.

Da vida de pessoas. Que querem ter filhos. Que não querem ter filhos.

Da minha vida.

Da nossa vida.

Eu poderia ter morrido. Tive sorte. Mas até quando é apenas com a sorte que poderemos contar?

Aborto: vamos parar com a hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. 

#AbortoSemHipocrisia

 

 Eu não sei nem o que dizer. Sério. Não sei nem o que dizer, porque a cada dois dias morre uma mulher no Brasil por conta da criminalização do aborto. É isso. Morre uma mulher a cada dois dias.
Uma mulher com nome, com idade, com história, com família. Com filhos.

Jandira, 27 anos.
Elizângela, 32 anos.
Elenilza, 18 anos.
Josélia, 23 anos.
Josicleide, 37 anos.

E tantas, tantas outras.

Morrem mulheres. Temos uma mulher na presidência, e a morte das mulheres continua sendo uma realidade. Mulheres morrem. Todo dia. E o assunto não pode nem começar a ser discutido.

É muita hipocrisia. Abortos são feitos. Por qualquer motivo, são feitos. Não queria entrar na discussão dos motivos: não há “aborto bom” e “aborto ruim”. Há mulheres que estão grávidas e não querem mais estar. Há mulheres que se arriscam para não estar mais grávidas. Se arriscam a morrer. Se arriscam a ser presas. Por não querer estar grávidas.

Não quero também falar dos homens: claro que ter apoio nessas horas é bom, é importante, se for possível. Mas nem sempre é possível. E não é porque os homens sejam necessariamente canalhas ou irresponsáveis: muitas mulheres não sabem de quem engravidaram, não têm certeza, não querem contar. Os homens não chegam nem a saber. Gravidez é, essencialmente, um assunto de mulheres. É no útero delas. É no corpo delas. É a vida delas. É a morte delas.

E nem venham me dizer que é “porque a mulher não se precaveu”, que “hoje em dia só engravida quem quer”. Façam-me o favor. Mulheres engravidam porque fazem sexo. E não existe nenhum método anticoncepcional infalível: só a abstinência.

Por outro lado, há tanto tempo que existem procedimentos seguros. Interromper uma gravidez indesejada pode ser um procedimento simples. Mas vira tragédia tão facilmente, quando a lei proíbe.

Fora, é claro, a hipocrisia do dinheiro. Haverá sempre um aborto seguro para quem tem dinheiro suficiente. As mais violentadas, sempre, são as mulheres pobres. As mulheres fazem aborto, e as que têm dinheiro suficiente fazem abortos seguros. Sempre foi assim.

Quando se abandona a hipocrisia, há esperança: mulheres religiosas a favor da despenalização do aborto; freiras a favor da descriminalização; médicos a favor da legalização do aborto. Unidos na luta pela vida das mulheres. Que fazem sexo. Que não precisam estar grávidas, se não quiserem. Que não precisam morrer por não querer estar grávidas.

Está mais do que na hora de acabar com essa hipocrisia que mata mulheres todos os dias. Está mais do que na hora de tirar esse assunto da gaveta do esquecimento onde ele fica relegado. De trazê-lo para a luz. De parar de ser conivente com as mortes de todos os dias. Vamos parar de ser coniventes. Vamos parar de matar gente, por ação ou por omissão. Vamos parar de julgar e condenar mulheres que fazem sexo.

***********

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

 

 

 

A mulher negra, o aborto e a solidão

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. Grande parte dessas mulheres são negras. Por isso, convidamos a ouvi-las. Por isso a convidamos a falar.

#AbortoSemHipocrisia

Por Nathalia, BiscateConvidada

“Aí ele disse “aqui, eu trouxe, quero ver se você vai tomar”, e pegou a pistola “se você tomar, eu dou um tiro em você”. Aí eu disse “você não dá não, porque se você quisesse que eu não tirasse esse menino, você não tinha trazido, você não quer criar o menino”. (Nega, 26 anos, negra e pobre).

Nega é uma das jovens que participaram da minha pesquisa de mestrado. Entrevistei 10 jovens, cinco brancas e cinco negras, sobre suas experiências com o processo de aborto. Não pretendo aqui expor cientificamente a questão. Quero apenas demarcar a violência, a dor e os silêncios vivenciados pelas mulheres negras no aborto. Eu poderia dizer simplesmente que as mulheres negras, jovens e pobres são as que mais morrem devido ao aborto clandestino. O que é uma verdade irrefutável. Entretanto, parece que esse dado não é suficiente para sensibilizar as pessoas acerca da necessidade de legalizarmos o aborto no Brasil. Por isso destaco um trecho da entrevista de Nega, para mostrar que antes de morrerem e/ou adoecerem, as mulheres negras, na maior parte dos casos, passam por uma tortura psicológica bastante específica. Elas precisam enfrentar a violência e o abandono do parceiro.

O retrato das condições de vida das mulheres negras é bastante cruel. Basicamente, nós mulheres negras, estamos locadas nas posições mais vulneráveis e representamos os piores indicadores sociais do país. O racismo e machismo relegam as mulheres negras a enfrentarem maiores dificuldades no momento de realizar o aborto. Além da dor, do medo e do estigma, Nega precisou enfrentar uma arma apontada na sua cabeça pelo seu próprio parceiro no dia em que realizou o aborto.

Na minha pesquisa de mestrado a maior diferença que identifiquei entre mulheres brancas e negras no processo do aborto é o apoio do parceiro. As mulheres brancas relatam mais a presença deste do que as mulheres negras. Estas últimas narram processos de abortamento solitários, longos e dolorosos. A violência é uma constante. Desde a descoberta da gravidez até os cuidados pós-aborto. Ressalto também que as mulheres negras são as que mais recorrem aos serviços de saúde para finalizar o procedimento. Sofrem sozinhas as violências cometidas também pelos profissionais da saúde.  As mulheres negras têm o tempo médio de espera para serem atendidas nas unidades de saúde maior que o das mulheres brancas e também são elas as que mais precisam retornar ao serviço de saúde para refazer a curetagem[1].

Em 2011, trabalhei em três maternidades do Recife e pude acompanhar um caso muito doloroso de uma jovem, chamada Amanda. Ela recorreu ao serviço de saúde devido a um aborto retido[2]. Era uma jovem negra da periferia e chegou sozinha e sangrando na maternidade. No Centro Obstétrico pudemos conversar. Eu perguntava se ela sentia dor. Mas Amanda me respondia que só sentia frio e medo. Antes de entrar na sala de cirurgia para fazer o procedimento de curetagem, Amanda me olhou e disse: “você entra comigo, por favor? Eu não quero mais ficar sozinha”. Ela desenvolveu uma infecção e precisou passar mais de uma semana no hospital. Depois de cinco dias internada apareceu uma amiga e vizinha para trazer roupas e objetos pessoais. Durante os mais de sete dias que acompanhei Amanda, em nenhum momento ela comentou sobre o parceiro. Era como se ele não existisse. Oras, mas todas nós sabemos que uma mulher não engravida sozinha. Um homem se livrou de toda a sua responsabilidade. E também se livrou de toda a criminalização e dor que envolve esse processo.

A criminalização do aborto aumenta o abismo social entre as mulheres; mata e tortura as mulheres negras. Funciona como uma poderosa estratégia de perpetuação do racismo, espoliando os direitos humanos das mulheres negras. O Estado Brasileiro segue mantendo uma legislação classista, machista e racista. A sociedade legitima essa violência, o parceiro continua na sua zona de conforto inocentado. E as mulheres negras continuam cravadas pelo sangue da hemorragia, da hipocrisia e da solidão.

 [1] Procedimento de esvaziamento da cavidade uterina muito utilizado para finalizar o procedimento do aborto.

[2] Aborto retido é aquele em que o corpo não consegue expulsar o tecido fetal, causando infecção para a mulher.

imageNathalia é assistente social, mestra em psicologia, feminista negra e integrante da Marcha Mundial de mulheres.

Aborto: Ouvindo as Mulheres Negras

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. Grande parte dessas mulheres são negras. Por isso, hoje, no Dia da Consciência Negra, convidamos a ouvi-las: suas lutas, dores, projetos. Convidamos pra saber sua força e as apoiarmos em suas bandeiras. Convidamos a ler o Blogueiras Negras.

#AbortoSemHipocrisia

logo-small

“O aborto no brasil precisa ser legal e seguro, é questão de saúde pública. E que ele seja legal não apenas nos casos previstos, mas que possa ser sim uma escolha da mulher, não somos propriedade nem particular, nem do estado e precisamos de cada vez mais acesso a informação sobre a interrupção da gravidez, precisamos estar todas atentas para que nossos direitos não sejam usurpados.” (leia mais em Mãe e Clandestina – A Favor da Legalização do Aborto de Maria Rita Casagrande)

“Não raro penso no aborto como uma medida genocida contra todas as mulheres: o controle é ineficaz, as mulheres não deixam de fazer um aborto por ele ser proibido. Manter essa medida criminalizadora só atesta o fato de que o Estado quer as mulheres (todas, sem exceção) pagando com sangue seus atos. Até a última gota.” (leia mais em O aborto das escravas – Um ato de resistência de Jéssica Ipólito)

Ato Pela Legalização do Aborto em São Paulo (leia mais em 28 de Setembro – Cortejo da Mulher Negra Morta em Aborto Clandestino por Blogueiras Negras)

“Não obstante do que acontece com a política proibicionista, o Estado brasileiro assume seu caráter genocida ao manter o aborto na ilegalidade, pois deixa mulheres pobres e negras em situação de vulnerabilidade, uma vez que quem tem uma boa condição financeira paga, e muito caro, pelo aborto em clínicas clandestinas.” (lei mais em Sobre o proibicionismo e a ilegalidade do aborto: o que essas políticas tem em comum? por Rafaela Giffone)

“É responsabilidade portanto, do Estado, garantir que todas as mulheres tenham o direito a exercer livremente sua sexualidade e de ser assistida nesse livre exercício. Sendo assim, quando o Estado brasileiro mantém o aborto na ilegalidade, está fugindo de suas funções cometendo assim uma violência que é sexista e assume um caráter genocida quando se trata daquela que é mais atingida e mais vulnerável nesses casos, que é a mulher negra”. (leia mais em Aborto e Ilegalidade: a violência do Estado contra as mulheres negras, por  Luana Soares)

“”A OMS afirma: uma mulher morre a cada dois dias no Brasil. Todos os brasileiros e brasileiras precisam se responsabilizar por isso e unir forças em busca de uma alternativa para salvar a vida de nossas mulheres.” (leia mais em Legalizar o aborto no Brasil: pelo combate ao genocídio da população negra, por Bruna Rocha)

“Não temos tempo. Mais que pra ontem enegrecer as questões “clássicas” de gênero, mostrar seu rosto negro; que a luta contra o racismo é feminismo, que precisa ser agenda e não apenas um recurso de argumentação ou uma pauta a ser apenas publicizada.” (leia mais em Um dia pra lembrar que lutar contra o racismo também é feminismo,  por Charô Nunes)

E de perto…?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Outra vez, a estatística. De longe, é um número. O número de mortes no Brasil por causa de procedimentos clandestinos em razão do aborto. A quinta causa de morte materna no país. Morte. Mas… e de perto?

Quem é aquela moça? O risco dela morrer numa agulha de crochê é mesmo uma vingança por uma trepada descuidada? Até quando a gente vai considerar que o sexo é, basicamente, para procriação, um ato solene, um bater carimbo? Por que transformar o sexo nalgo sacro ou numa roleta russa, onde o pecado está ali ao lado e por isso você pode, inclusive, morrer?

Toda a questão filosófica sobre a existência, a vida, a perenidade, deus, deuses, deusas, mãe, mães. Toda a vida de debates, reflexões, camisinhas, pílulas, “responsabilidades” podem e devem estar nos cardápios, nas camas, nos dilemas, nas escolhas. Mas… e se?

aborto_site_28

A pergunta não é – como querem muitos – a de ser a favor ou não. Esta pergunta mascara intenção, esconde o verbo, oculta. A questão é manter na clandestinidade, no obscuro, na vala suja, um procedimento que feito de forma segura pode impedir mortes, prisões, dores e pontos finais. O comércio clandestino de quem pode pagar.

Vamos continuar fingindo que ali na esquina não existe uma gravidez indesejada? E agora, nesta maluquice pós moderna, vamos mandar para a inquisição, para a chama das bruxas, aqueles e aquelas que “contribuem” para a realização do aborto? Vamos mandar mais gente para lotar e lotar prisões por causa de nossa incapacidade em entender desejos e não desejos, possibilidades e não possibilidades, maturidades e imaturidades, diferenças, sexos?

O pecado original, a salvação, a danação eterna. Mas ali, ali na esquina, tem uma gravidez indesejada. E se a gente não mudar a lei, não descriminalizar, não oferecer amparo e proteção, vai continuar a significar morte, dor, ponto final. E estatística, lá longe.

Até ser aqui perto… Então, perguntamos: “E de perto…?”.

***********

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Por que criminalizar o aborto e quem o auxilia?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

O Aborto é uma imbecilidade burocrático-patriarcal. E eu poderia passar a noite inteira em claro reconstruindo argumentos (porque eles já existem aos montes) pra justificar a liberação irrestrita da prática da interrupção da gravidez, poderia usar os mais secos e “capitalistas” de questão de saúde pública, diminuição da pressão carcerária, etc. Além disso, muitos dos bons argumentos a favor do aborto serão trazidos na nossa Quinzena #AbortoSemHipocrisia

10003601_731581413544313_6508586692480142502_o

Garota com um Feto (2005) by Paula Rego

Essa quinzena tomou fôlego com as notícias, recém divulgadas do crescente número de crimilização de pessoas que prestaram apoio a mulheres que buscaram o aborto (veja aqui). E é sobre isso que me debruço nesse post inicial. E não, não vou escrever um tratado jurídico pra explicar a situação. Basta saber que nossa legislação permite, sim, criminalizar quem presta qualquer auxílio à mulher que faz aborto – e, sim, é qualquer auxílio mesmo, desde indicar o remédio abortivo, comprá-lo, levar à clínica, pagar o médico clandestino, tudo isso é participação no crime.

Agora, sendo sensatos no assunto (ou tentando, pelo menos). A nossa sociedade é prolífica em demonstrar que historicamente nossa liberdade sobre o próprio corpo é quase nula. Quando se trata de mulheres (cis ou trans*) essa autonomia sobre o próprio corpo é menor ainda e isso não é uma mera questão legal… isso é cultural, algo incutido na nossa formação e que reprime qualquer atitude que tomamos em relação ao nosso corpo, desde a masturbação, exposição do corpo nu, passando pelo sexo, até o aborto.

O legado da nossa sociedade é de opressão ao corpo e de oprimir o corpo do outro. Agora, imagine o quão difícil não é tomar o ato de liberdade desse contexto cultural e decidir fazer o que é considerado “crime” por essa mesma sociedade. Agora, imagine fazer isso sozinho. É não só cruel, como irresponsável. A prática do aborto requer assistência! A mulher que, não importa o motivo, resolve dispor do próprio corpo e se submeter a esse procedimento médico precisa de auxílio: moral, financeiro, afetivo, profissional. E o que o nosso Direito Penal Arcaico faz? Isso mesmo, criminaliza que quer que esteja disposto a dar suporte a esse mulher, seja ela consciente-empoderada, inconsequente-vítima do contexto social, seja ela simplesmente o que tem que ser uma mulher que aborta: alguém que decidiu dispor do próprio corpo.

Hoje, nosso sistema político e jurídico transforma a questão do aborto em uma questão de coragem, de clandestinidade e de resistência. Mulheres Livres e seus “Camaradas”, seus auxiliadores, se põem no lugar de uma guerrilha a ser combatida de forma abrupta e truculenta. Se tornam, mais que criminosos por um sistema injusto e arcaico, vítimas de um estado que os deviam acolher e dar assistência. E é muita infelicidade para uma sociedade não conseguir entender e chegar a este estágio de civilidade, porque é isso… nos falta civilidade, compreender a dor e as questões do próximo e, sobretudo, apoiá-los nesses momentos. Contudo, nós e nosso Estado irascível preferimos criminalizar vítima e quem quer que a auxilie…

Não nos basta reconhecer que estamos passos atrás, nosso problema é, depois disso, pedir para sermos cimentados nesse lugar atrás.

************

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Aborto. Qual é o crime?

E neste final de semana teremos eleições. E mais uma vez o tema do aborto foi tratado de forma clandestina pela maioria das campanhas. Isso é inadmissível. O aborto continua sendo… crime.

No último dia 28 de setembro foi o dia de luta latino americano e caribenho pela legalização do aborto. Todo dia, entretanto, é dia de lembrar que milhares de mulheres morrem no continente por causa de procedimentos absolutamente precários e inseguros de interrupção da gravidez. Morrem. Acabou, ponto final.

A questão principal não é – nem sei se algum dia foi – ser favorável ou não ao aborto. Para esta decisão o importante são as informações, os valores, a cultura de cada mulher. A questão é se a prática do aborto deve ser um crime, punindo com cadeia quem faz e quem realiza ou ajuda a realizá-lo. E é este o ponto que revela toda nossa hipocrisia. Porque todo mundo conhece uma história. Todo mundo conhece uma mulher que fez. Todo mundo conhece. E a pergunta é: esta mulher deveria ser presa?

1606921_842009922499794_318466483375386735_n

Não estou pedindo para que aceitem o aborto. Estamos pedindo para que este deixe de ser crime. Para que seja o serviço de saúde equipado para realizar procedimentos seguros, diminuindo a mortalidade de mulheres por todo o continente. No Brasil. No mundo. Porque a morte destas mulheres resulta no fim de várias histórias, das mulheres, de suas famílias, de suas crianças, de seus pais e mães, dos amigos e amigas, dos sonhos. Porque quando não resultam em mortes podem existir sequelas graves, muito graves.

O sonho da maternidade é um sonho bonito, sem dúvida. Mas não é para todas. E todos. Mas mais do que isso: quando o aborto é ilegal, todo e qualquer procedimento que não o parto passa a ser clandestino ou feio ou inóspito ou triste. Quantas e quantas grávidas não tem o processo de gestação interrompidos naturalmente, por algum problema no feto ou no organismo da própria mulher, alguma incompatibilidade? Quantas e quantos episódios não conhecemos de gravidez interrompida?

E como no serviço de saúde, o público e o privado,  o aborto é pecado, sabe o que acontece nestes casos onde naturalmente houve a interrupção da gravidez? As mulheres são tratadas como “gestantes”. As mulheres são encaminhadas para exames, que vão detectar que o feto não tem mais pulsação, que a gravidez é tubária ou qualquer outro tipo de problema, junto com mulheres que estão indo bem em seus sonhos, com a gestação seguindo firme. E para se fazer uma curetagem, porque é preciso em determinados casos realizar um procedimento invasivo para se limpar o útero, encaminhamos estas mulheres para maternidades, para onde são realizados partos. A crueldade deste tipo de situação é enorme. É triste demais. Na mesma sala de espera… Por causa de um tabu, de um crime.

Aborto seguro. O sistema de saúde, público e privado, preparado para ofertar procedimentos com começo, meio e fim. Com tratamento específico, diferenciado, educado. Com acompanhamento, acolhimento, humanidade. Com informações para se decidir, cada mulher, o mais adequado proceder. A questão do aborto não pode ser vista como um crime.

O crime, sinceramente, é outro. É o da hipocrisia. Lenta e sempre, que mata: vidas e sonhos. Só que este não leva ninguém à cadeia.

 + Sobre o assunto:

[+] O que é aborto

[+] Documentário Clandestinas

[+] 28 dias pela vida das mulheres

[+] 5 Mitos Sobre o Aborto

[+] Aborto é coisa de mulher

Eu Fiz Um Aborto

direito_ao_aborto

Eu fiz um aborto. E, não, não foi porque me deu na telha e eu estava sem nada pra fazer e fui lá e fiz. Fiz um aborto no início do ano quando me deparei com uma gravidez indesejada, depois de fazer um segundo exame de gravidez. O primeiro deu um falso negativo. Coisas da ciência, vai entender. Eu poderia citar uns cem motivos para ter feito, mas o que mais importa é esse: eu não queria um filho agora. Simples assim. Ou nem tanto. Muito provavelmente não terei filhos porque não os desejo. Pelo menos, não biológicos. Não passa pela minha cabeça a ideia de gravidez.

Quando eu fiz o segundo exame e, finalmente, deu positivo, eu já sabia o que fazer. Em nenhum momento a minha criação católica bateu forte e eu balancei. Eu estava bem certa do que queria só não sabia, ainda, que essa seria uma das experiências mais marcantes da minha vida. E até hoje não sei precisar se foi boa ou ruim. Sei apenas que marcou a minha história, o meu corpo, e o meu olhar sobre o mundo.

Claro que por ser uma mulher de classe média pude desembolsar mil reais numa tarde. Simples. Fui lá e saquei no banco. Mas em nenhum momento, deixava de pensar naquelas mulheres que não têm o privilégio que eu tive. Quando entrei na clínica, me sentia uma criminosa. Ficava olhando para todos os lados, vendo se não tinha câmeras me filmando. Enquanto conversava com o médico, vivia num mundo paralelo em que a qualquer momento um grupo de pró-vidas junto com a polícia ia entrar pra me prender. Dei meu endereço errado e meu telefone também, por precaução. Sei lá se isso adiantaria de alguma coisa, mas era o máximo de controle que eu podia ter naquele momento.

O médico colocou quatro comprimidos de misoprostol no fundo da minha vagina. Não me deu nenhuma orientação. Eu, que sou feminista, que pesquiso sobre aborto, que participo de debates, escrevo, discuto sobre isso me sentia a mais ignorante das pessoas na frente daquele homem. Uma amiga, que também fez um aborto com ele, foi quem me disse o que eu sentiria. Os efeitos colaterais: a febre, a dor de barriga, o sangramento. Me lembrou de comprar absorventes noturnos.

Eu tive a sorte de estar com meu então companheiro. Ele segurou a onda, me ajudou a pagar o procedimento, comprou absorvente, segurou minha mão e velou meu sono agitado. Sonhei o tempo todo que a polícia invadia o quarto que eu estava e me levava presa. A noite toda. A noite toda.

Só fui sangrar 12 horas depois. Parecia uma menstruação forte, mas nada que assustasse. O pior só foi ocorrer quatro dias depois, quando estava numa cidade de interior com meu companheiro. Tive uma hemorragia no meio do nada e estávamos a uns 200 km da capital. Bom, não morri de hemorragia como vocês podem perceber, mas o médico queria me cobrar mais R$ 3000,00 pra fazer uma curetagem. Eu não tinha o dinheiro e achei um absurdo ele me cobrar isso. Fui para casa sangrando e assim fiquei por uns dois meses. Bom, eu sobrevivi.

Eu sobrevivi. E quando pensamos numa legislação punitiva como a brasileira, eu sei que isso é muito. Jandira e Elizângela não sobreviveram. Elas também pagaram para fazer um aborto clandestino como o meu. A diferença entre mim e elas, aquela que separa a vida da morte, é que eu fiz um aborto em um hospital particular, que oferecia minimamente condições sanitárias. A diferença entre mim, Jandira e Elizângela é que a hipocrisia da classe média me salvou. Eu fiz um aborto onde todas as mulheres de classe média, brancas e escolarizadas fazem. Todo mundo sabe que ali funciona uma clínica de aborto clandestino, mas seus donos são influentes o suficiente para manter-se a salvo da polícia.

Ainda hoje me pego pensando nas possibilidades. E se eu não tivesse dinheiro, e se eu não tivesse descoberto no início, e se eu não tivesse feito numa clínica, e se eu tivesse ido pra um hospital com hemorragia, e se eu tivesse sido presa. Fazer o aborto foi algo que mudou tanta coisa em mim que ainda não sei precisar. Dessa experiência que ainda está sendo significada dentro de mim, eu tenho duas certezas: eu sou uma privilegiada e eu merecia ter feito um aborto seguro e legal.

Apesar de todo o medo que me acompanhou – o de ser presa e o medo da morte, que parecia muito perto em alguns momentos – me sinto uma privilegiada, pois dentro da criminalidade com que o Estado brasileiro joga as mulheres, eu ainda pude escolher. Eu ainda pude pagar por um serviço em uma clínica particular, eu ainda pude contar com uma rede de acolhimento de amigos e meu companheiro na época. Eu pude ir a uma médica particular para tratar do sangramento que durou meses. À Jandira e Elizângela, que já tinham outros filhos para criar, o Estado brasileiro só reservou a morte.

Ainda que me sabendo privilegiada numa sociedade sexista que pune mais as mulheres que os homens, que se recusa a discutir o aborto abertamente como política pública, eu me senti lesada ao fim desse processo. No mundo em que eu quero viver e que eu luto para construir, eu e todas as mulheres que fizeram aborto nesse país, não seríamos criminosas. Eu não teria sangrado durante dois meses e nem elas morreriam de hemorragia e teriam seus corpos queimados. Eu não teria tido tanto medo de morrer, não teria chorado tanto, elas não seriam maltratadas por profissionais de saúde, nós não teríamos medo de ser presas anos depois desse episódio, como as mulheres de Campo Grande. No mundo que eu pretendo habitar, aborto será uma escolha das mulheres. O Estado vai garantir e a sociedade vai respeitar.

cartazaborto

Mais sobre o assunto: Jandira, a vítima já condenada

O Caso da Elisângela Barbosa

Tem uma categoria inteira no Blogueiras feministas pra você se informar: Aborto

Jandira, a vítima já condenada

Por Niara de Oliveira  

jandira

Jandira Magdalena dos Santos, 27 anos, está desaparecida desde o dia 26 de agosto. A polícia e o Ministério Público do Rio de Janeiro investigam. O desaparecimento? Também, mas antes e sobretudo investigam o crime de Jandira, abortar. E a quadrilha que possivelmente está envolvida no desaparecimento de Jandira.

Na imprensa, desde que o caso veio a público, nunca — NUNCA — o “crime” de Jandira deixou de ser mencionado junto com as informações sobre o seu desaparecimento. O tempo de gravidez, as condições, as motivações de Jandira para recorrer a medida extrema de confiar em estranhos e ainda gastar uma pequena fortuna com isso vi em apenas uma das reportagens, mas naquilo que chamamos no jornalismo de detalhes do caso, “encheção de linguiça”, o que vai no último parágrafo das notícias escritas e que quase ninguém lê, e poderia ser dispensável, não é crucial para a informação. Apenas para registrar, não tenho dúvidas, que a mãe e o ex-marido de Jandira sabiam que ela cometeria um “crime”, e que podem ser enquadrados como cúmplices.

Captura de tela de 2014-09-08 13:42:34 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:09 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:25 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:40 Captura de tela de 2014-09-08 13:43:58 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:13 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:28 Captura de tela de 2014-09-08 13:44:59Captura de tela de 2014-09-08 14:34:15

Mas que joça de jornalismo é esse onde a motivação do “crime” é dispensável? Oras, porque a hipocrisia reina e porque o dispensável no caso de Jandira é o que a transforma em vítima de um sistema que criminaliza a mulher por não ter direito ao seu corpo. E os direitos humanos, o direito inalienável à vida, de Jandira vai pelo ralo na tal cobertura jornalística, junto com a obrigação ética do jornalismo de defender os direitos humanos.

A mãe de Jandira informou que a filha pagou R$ 4,5 mil para fazer o procedimento. Segundo umas das muitas matérias, Maria Ângela Magdalena dos Santos afirmou que a filha trabalhava numa concessionária no Recreio dos Bandeirantes e havia juntado todas as economias para conseguir realizar o aborto porque tinha medo de perder o emprego se mantivesse a gravidez. “Eu não achei caro porque dizem que essas pessoas cobram mil reais por mês (de gestação) e ela já estava na 14 semana (quarto mês). Eu não queria que ela fizesse, mas a gente não manda nos nossos filhos. Estou desesperada porque eu não tenho notícia boa nem ruim. Ela estava com medo de perder o emprego e o pai dessa criança foi uma coisa passageira, eles não estavam juntos“, disse a mãe.

Jandira, grávida de uma relação eventual, desesperada, já tinha ultrapassado o tempo limite para a realização de um aborto. Mas, como o assunto é tabu não há sites com informações seguras a respeito, não há matérias no “Fantástico”, no “Bem Estar” ou nos “Repórter” de cada emissora indicando as melhores condições, critérios e cuidados a serem tomados ao abortar.

O que ninguém diz é que ao engravidar por acidente a mulher está condenada, ou a ter o filho que não quer — com todos os riscos que envolvem a gravidez e o parto — ou a virar criminosa caso decida abortar clandestinamente — com todos os riscos que envolve um aborto –. A probabilidade de Jandira ser encontrada viva se torna mais remota a cada dia que passa (últimas informações aqui). O que não é remoto é o seu julgamento. Ela já é culpada. E seus dois filhos agora estão órfãos.

Se Jandira tivesse uma condição social melhor, teria feito seu procedimento normalmente, teria voltado para a sua casa, filhos e emprego sem se tornar notícia. Aborto é uma realidade no Brasil. As mulheres ricas pagam e estão seguras; as trabalhadoras juntam as economias da vida para abortar e correm riscos para tentar a segurança de que dispõe as mulheres ricas; e as pobres (e negras) recorrem a métodos insalubres e correm maior risco de morte. O que leva as mulheres a abortarem é a tentativa desesperada de serem donas de seus corpos e poderem decidir seu futuro.

10592898_683448598414790_42447282285971436_n

As mulheres abortam. A sociedade aborta. O que mata muitas das mulheres que abortam é a hipocrisia de colocar apenas em suas contas e costas os abortos feitos. Até quando vamos fingir que não é conosco?

************************************

Leia também Se minha mãe tivesse me abortado, de Laryssa Carvalho no Blogueiras Feministas.

************************************

Campanha 28 Dias Pela Vida das Mulheres

28 diasDia 28 de setembro é Dia de Luta pela Descriminalização e Legalização do Aborto. Diversas ações serão realizadas. Entre elas está o site: 28 Dias Pela Vida das Mulheres.

Participe desse movimento escrevendo textos, publicando imagens ou mensagens com as #hashtags: #28set #LegalizarOAborto.

Aborto Legal essa Luta Biscate

O aborto no Brasil ainda é criminalizado e ilegal, causando morte e sofrimento para as mulheres. Poucos são os casos em que ele é permitido: risco de vida da mãe, fetos anencéfalos e quando a mulher foi vítima de estupro. Nesses casos o aborto já é permitido por lei. Entretanto as políticas públicas existentes não garantem, satisfatoriamente, que o procedimento ocorra (leia aqui: dor em dobro)

Dia 22 de maio de 2014 o aborto entrou na lista de procedimentos realizados pelo SUS. Enfim. A portaria 415/2014, complementar à Lei 12.845/2013 (que versa sobre o atendimento obrigatório de vítimas de violência sexual) demorou mas foi comemorada como um passo facilitador para o processo já doloroso e demorado que as mulheres se submetem (pra entender melhor a portaria leia aqui: Aborto legal: qual a situação atual? e Aborto não é palavrão: Entenda a portaria 415/2014)

De forma reduzida, a portaria 415 regulamenta o procedimento junto ao SUS, permite que o atendimento seja realizado em todas as unidades de saúde com competência pra realizá-lo, padroniza normas de autorização, define custos, indica as fontes pra cobrir os custos. A portaria 415 viabiliza o procedimento do aborto legal e garante que os hospitais não se neguem a realizar um procedimento previsto em Lei.

Entretanto, hoje, a portaria foi revogada pelo Ministério da Saúde. Isso mesmo. Uma portaria que faz o mínimo, que apenas facilita a realização de direitos garantidos em lei, foi revogada por causa da pressão da bancada parlamentar evangélica. É uma vergonha. Uma tristeza. Uma indignidade.

 A revogação dessa portaria demonstra o desprezo com que os direitos da mulher tem sido tratados. A revogação dessa portaria aponta para o enorme retrocesso que vivemos no que tange às questões de gênero e políticas públicas. A revogação dessa portaria revela descompromisso com as conquistas feministas e desrespeito com as demandas das mulheres. A revogação dessa portaria indica que a luta feminista pelo reconhecimento da mulher como um ser de direito está, ainda, longe de ser desnecessária como alguns apontam.

A revogação dessa portaria me inquietou, me enraiveceu, me indignou, me entristeceu. Mas não me abateu nem desanimou. A luta pelo aborto legal e seguro é uma luta biscate. Vamos a ela. Com sangue nos olhos.

(pesquei da Niara)

(pesquei da Niara)

Aborto

Por Marjorie Rodrigues*, Biscate Convidada

aborto

Uma das coisas que mais me envergonham no Brasil é a questão dos direitos reprodutivos. Tenho vontade de cavar um buraco e me esconder para sempre a cada vez que vejo em uma discussão sobre a legalização do aborto — algo que já foi conquistado há tempos em uma série de países (lembremos que o procedimento é legalizado em mais de 70% do mundo), mas que no Brasil ainda é um tabu gigante. O que me envergonha especificamente é que o debate não pode bem ser chamado de debate, dado que a discussão está tomada por uma desinformação generalizada. Muitas pessoas não sabem como é o procedimento, como funciona, o que aconteceu nos países em que o aborto foi legalizado; não sabem sequer a diferença entre um embrião, um feto e uma criança. Falam como se os três fossem a mesma coisa. Essa desinformação é alimentada pela igreja, pela mídia e pelo próprio Estado, dominado por grupos conservadores. E isso não é por acaso: um debate em que as pessoas não sabem do que estão falando não pode ser outra coisa além de raso e circular. Entre na caixa de comentários de qualquer notícia relacionada a aborto e repare que a maioria das postagens não estará discutindo a questão em termos de fatos, dados, estatísticas, problemas e soluções, enfim, argumentos concretos. Pelo contrário: a coisa fica no plano raso da fofoquinha di cumadi, da pedra na Geni. Em vez de reconhecer que o aborto é amplamente praticado de forma ilegal no país (resultando na morte de mulheres ou sequelas seríssimas) e que portanto temos uma lei que não reflete a realidade e gera um problema de saúde pública, as pessoas preferem apenas dizer “não pode porque é errado” e ponto final. Assim, defendem que a lei fique como está. Mas se a lei como está não impede o aborto de ser uma prática amplamente disseminada, e todo mundo sabe disso (senão sequer estaríamos tendo tal discussão), apenas dizer “não pode, tá errado” é como fechar os olhos, tapar os ouvidos e cantar “lalalalá”. E o aborto é “errado” por quê? Aí vem a conversa de comadre. Começa-se um julgamento (ou linchamento mesmo) de uma mulher imaginária que engravidou de forma indesejada. “Por que não se protegeu?”, “Abre as pernas sem responsabilidade e depois quer sair matando?”, “Se não quer, dá pra adoção” ou o que eu acho o pior de todos: “mas maternidade é uma coisa linda, eu sou mãe e super feliz, toda mulher ama ser mãe no fim das contas, como essa monstra pode não querer algo tão belo?”. Repare que não tem nada de racional nesse tipo de argumento. Todos eles são passionais, baseados no julgamento da moral ou índole da mulher que engravidou, e consideram forçá-la a levar a gravidez adiante como uma espécie de punição pela sua suposta falta de responsabilidade.

A pessoa que comenta essas coisas no fundo quer pagar de santo ou a santa, de bonzão ou fodona que sempre faz tudo com responsabilidade, que nunca deu uma escorregada, nunca deu uma trepadinha sem preservativo. Aham, Claudia, senta lá. A discussão sobre o aborto quase sempre descamba para uma sessão coletiva de masturbação de egos: “EU nunca tive uma gravidez indesejada”, “EU nunca faria”, “EU não sou assassino de criancinhas” – portanto, “EU sou melhor do que essas biscates”. Aí é que está: a biscatagem, minha gente, é o cerne da questão. Nego tenta disfarçar dizendo que é preocupação com a vida, com a criança, com deus, quando na verdade o buraco é mais embaixo. Aliás, o problema é o buraco que está lá embaixo: a sexualidade feminina deve ser restringida, reprimida, e se essa repressão falha, a mulher tem de ser punida. Quando a biscate (sempre lembrando que biscates somos todas, afinal o que é promiscuidade? Quem define o que é sexo de menos ou demais?) engravida, o conservador se regozija, porque a gravidez e o bebê restringirão a biscatice dela, que deverá então se ocupar da criança. Como assim essa biscate transa livremente, e depois aborta e pode viver sua vida como se nada tivesse acontecido? Nãããão, ela precisa ser punida por ser uma vadia! (Nevermind que ninguém faz filho sozinho, e o homem quase nunca é mencionado nesse papinho de responsabilidade…)

Recentemente, o horrendo estatuto do nascituro levantou a bola do aborto em caso de estupro. Observar as discussões nos portais de notícias sobre esse tema (sim, eu tenho um bom estômago) é a maior indicação de como a biscatagem é o cerne da questão do aborto. De modo geral, as pessoas são contra o estatuto e sua tentativa de restringir o já adquirido direito de abortar em caso de estupro. A maioria dos comentários acha absurdo uma mulher ser forçada a manter a gravidez nesse caso. Afinal, ela não escolheu isso, foi uma violência. Mas veja só: no caso da mulher que engravida em uma relação consensual, o argumento é “mas é uma vida, é errado matar criancinha, a criança não tem ‘culpa’ da irresponsabilidade de quem a gerou”. Ué, um embrião gerado por estupro também não é uma vida? Também não seria errado matá-la? O embrião fruto de estupro também não tem ‘culpa’ do estupro. Por que o fetinho de estupro pode matar e o de relação consensual não pode? BUSTED: o problema não é a vida em potencial do fetinho, mas se a mulher quis ou não quis transar. Em português claro: se ela é ou não biscate.

Somos um povo que acha que transar é errado, sujo, pecaminoso — e mais errado ainda para a mulher. Em pleno 2013, sexo é tabu no Brasil, por mais que falemos dele o tempo todo na mídia, tenhamos carnaval, funk, piada de duplo sentido no Zorra Total e dança na boquinha da garrafa. Aliás, todas essas coisas que eu mencionei são sintomáticas: somos um povo “hipersexualizado” porque o sexo em si é um fetiche. Não o encaramos como algo natural da vida. Sexo é um incômodo, é o elefante branco no meio da sala – aí, ou você tenta escondê-lo ou aponta o dedo na cara de quem faz, ou faz referência a ele o tempo todo. Só nunca fica de boa com a existência do elefante. Não é à toa que todos os nossos palavrões são de cunho sexual. Pode reparar. Enquanto outros povos se ofendem de diversas outras maneiras, a gente quando quer ofender de verdade diz que o outro ou a mãe do outro faz sexo. Porque, secretamente, a gente ainda acha que sexo é algo que prejudica, é reprovável.

Transar é tão errado que nego não tá nem aí se a gravidez indesejada veio porque o método contraceptivo falhou. Não tá nem aí se a mulher não tem condições psicológicas, financeiras, emocionais de criar filho naquele momento. Não tá nem aí se ela for casada e se descuidou um tiquim do contraceptivo porque, né, é casada (situação da maioria dos abortos clandestinos no Brasil). Nada disso importa. Não se pode recusar a “punição” que deus mandou pela fornicação. Tem gente que chega ao cúmulo de dizer “se não quer, dá pra adoção”. Como se isso fosse uma coisa muito fácil de fazer, nada traumatizante. Como se orfanatos fossem lugares super bacanas e todo mundo fosse adotado rapidinho. Mesmo quando a criança não é dada pra adoção, nego que se diz “pró-vida” não tá nem aí se ela vai crescer em um lar disfuncional ou passando necessidade. De novo: o problema não é a criança, é a consensualidade do sexo que a gera.

direito ao aborto

Como promover um debate saudável sobre aborto, então? Acredito que o primeiro e mais importante passo é eliminar o tabu do sexo. Sem isso, não tem como sequer começar a ter um debate legítimo. Enquanto sexo for considerado algo errado, tudo que for relacionado a ele terá esse clima de inquisição. Abracemos, portanto, a nossa biscatice. A importância da Marcha das Vadias, por exemplo, é salutar. Desculpa, mas se você é do tipo que diz “concordo com a causa, mas me choca esse termo vadia, é desrespeitoso, não quero usá-lo”, só lamento, você não entendeu nada. Abrace o elefante, conviva com o elefante. Até que ele seja reconhecido como parte da sala. Enquanto as pessoas estiverem preocupadas demais com o “pecado da carne”, preocupadas demais com o elefante, não conseguirão olhar para os demais móveis. Não conseguirão olhar para os fatos concretos a ser debatidos.

.

marjorie*Marjorie Rodrigues é biscate, jornalista e mestre em estudos de gênero pela Central European University e pela Utrecht University.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...