Não é sobre a mais recente treta da internet 2

As mulheres têm tido péssimos encontros. Elas dão todos os sinais não verbais de que os encontros estão sendo péssimos, mas os caras não notam. Os encontros não correm nadinha parecidos com o que elas esperam ou planejam e elas sinalizam – na opinião delas, nitidamente, embora não verbalmente – e os caras nem percebem. Eles estão demasiado interessados no fato de que os encontros estão acontecendo dentro das expectativas e referências deles. Elas não falam, não vão embora (embora claramente percebam que eles não impediriam e quando, efetivamente, elas manifestam sua vontade de ir, eles não fazem nada que dificulte isso), elas ficam lá, vivendo aquele pesadelo, sentindo-se mal em cada momento, sentindo-se ignoradas e até mesmo violadas pela forma como eles estragam cada expectativa, cada anseio, sendo meio toscos, alguns escrotos, indo rápido demais, direto demais, tocando-as de uma forma que não era a que elas esperavam, comportando-se completamente diferente das expectativas  delas.

E então, o que aconteceu aí? (um parêntese, qualquer coisa diferente do narrado, que inclua uso de força, poder ou influência que impeça a mulher de verbalizar a negativa não é o tema do post, é estupro e tal). Voltando: e então, o que tem acontecido?

O moço pode ter sido indiferente, negligente, autocentrado. O moço pode ter sido tosco. O moço pode ter sido escroto. Nada disso faz dele um abusador ou do encontro uma violência que ele lhe impingiu.

Isso não significa que, ok, tudo bem, sigamos, é assim mesmo. Nada precisa ser “assim mesmo”.

Não sei se precisava salientar, mas não se perde: não importa se foi o primeiro encontro e a mulher aceitou ir na casa do cara ou levou-o à sua, não importa se ela estava de roupa “provocante”, não importa se ela decidir parar no meio do rala e rola, não importa se ela tirou parte da roupa ou se deixou despir, não importa se o encontro ruim foi com um desconhecido ou com uma pessoa com quem ela se relacionava há mais tempo e de forma estável. Nada disso importa se uma mulher disser não.

E, claro, este é um dos pontos nevrálgicos desta conversa. Nossa capacidade de dizer “não”. Nós, mulheres, somos ensinadas a ser dóceis, cordatas, mansas. Assertividade não é coisa muito feminina. Firmeza não é coisa muito feminina. Acolher o próprio desejo acima dos desejos alheios, especialmente o desejo sexual, deusolivre, não é coisa lá muito feminina. Assim, forjamos mulheres que esperam que as outras pessoas leiam sinais não verbais, discretos, sutis, feitos para não ofender a vontade alheia. Por outro lado formamos homens feitos para agir antes de refletir, para tomar decisões rápidas, para ouvir seu desejo antes de qualquer outra consideração. Homens pouco afeitos à escuta, que dirá entenderem sinalizações confusas e silêncios que parecem consentimento – especialmente no que se refere ao sexo, onde ainda se tem um imaginário em que mulheres não se interessam tanto por, não se divertem tanto no, não se expressam muito durante o sexo. Não sei a quem me lê, mas isso me parece uma combinação desastrosa.

É na estrutura que se inscreve a expectativa do príncipe encantado, mesmo para o encontro casual e que inibe o nosso “não”, coerente com nosso mal-estar. Porque “vai que”. Vai que ele melhora. Vai que ele entende. Vai que ele está em um momento ruim mas minha presença vai fazê-lo ficar bem. Vai que o sapo vira o príncipe que a cultura me ensinou que está nele, bem reservado para quem souber ser perfeitamente feminina e encontrar a chave mágica. E, assim não dizemos o “não”, não caímos fora. É também na estrutura que estão os números dos feminicídios, dos estupros, dos espancamentos contra mulheres. Vai que se eu disser não ele passa do escroto pro violento? Vai que ele me bate? Vai que ele mata? Melhor ficar quieta e encarar o menos ruim, né. Já somos mesmo acostumadas a comer por último, sair da frente, pedir desculpas mesmo estando certas, ver homens aclamados por ideias que demos poucos minutos antes e foram completamente ignoradas, etc. Um silêncio a mais não vai fazer tão mal assim. E, assim, não dizemos o “não”, não caímos fora.

Poderia continuar falando da estrutura/cultura e como internalizamos estes padrões que favorecem que situações como a lá de cima se repitam na zona cinza entre a violência/abuso e um encontro, apenas pessoas conversando, se conhecendo, se apalpando, fazendo sexo, bom ou ruim. Acontece que a estrutura/cultura não é algo absoluto e independente das subjetividades. Não somos seres passivos, tábulas rasas onde toda sorte de inscrições e normativas externas são gravadas e repetidas. Somos seres ativos, seres de desejo, que nos fazemos ao mesmo tempo em que somos feitos.

Eu lembro de um texto do comecinho do blog, que surgiu de uma piada tipo “se sua namorada disser que não quer ovo de páscoa, dê mesmo assim ou ela ficará zangada”. Dizia eu, dizíamos nós: se ela disser que não quer, respeite o que ela disse que é o desejo dela e não o que você acha que ela deseja. E se ela queria mesmo o ovo, mas não disse por recato, por educação, por charme, whatever, azar, da próxima vez quem sabe ela verbaliza sua vontade. Lá no texto tem (e sustento): toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso – perigoso porque continua alicerçado na idéia de que a mulher não pode ser responsável pela sua vida, pela sua vontade, pelos seus interesses, pela sua ação.

Nós podemos, nós devemos. Uma mulher deve poder dizer sim e não. Seguir e parar.

Não é arrumando formas de acolher, proteger e garantir o silêncio das mulheres que avançaremos, penso eu. Não é culpando homens por não saberem traduzir nossos discretos sinais de negativas dúbias, divididas entre o desejo que ele pare e o desejo que ele mude durante um encontro, que avançaremos. Isso não significa que não vamos (vamos, nós-pessoas, não apenas nós-mulheres) trabalhar e insistir para que os homens escutem mais, entendam mais, acolham mais, cuidem mais. Sim, isso é necessário. E será a contrapartida, penso eu, do movimento das mulheres de falarem mais, (se) afirmarem mais, se posicionarem mais em relação às sua intenções, vontades, expectativas, planos.

Não vai ser no automático. Não vai ser de agora pra amanhã. Não vai ser nem mesmo se todas as mulheres lerem este texto (ahahah) e concordarem e decidirem dizer seu sim e seu não. Porque somos seres de inconsciente, somos seres de cultura, somos seres sociais, somos ambíguos, contraditórios, seres em processo. Será preciso tempo, muitos encontros ruins, muitos nãos gaguejados, muita melhora na escuta dos homens, muito avanço na verbalização, muita mudança econômica (porque sim, segurança econômica não define, mas interfere na autoestima e na segurança emocional), muito avanço no campo das relações de igualdade de raça, muito mais coisa precisa acontecer para que.

Mas não vai ser é nunca se resolvermos apenas mudar quem tutela o desejo e a voz das mulheres. Não vai ser é nunca, especialmente, se consideramos que estes desejos e vozes são uniformes ou poderão vir a ser. Não vai ser é nunca se elegemos vilões e projetamos neles os equívocos e mascaramos a nossa conivência. Não vai ser é nunca se cristalizarmos as mulheres no lugar de quem precisa ser sempre defendida e resguardada de tudo – inclusive de um péssimo encontro – seja por família, Estado ou movimento.

Não basta uma decisão individual de cada mulher. Mas não prescinde disso. Então é preciso, penso, acolher a voz das mulheres, sem lhes tirar a responsabilidade pelo que é dito.

radicalchic

PS. o texto tratou do tema focando na relação homem-mulher porque a maior parte das questões que têm surgido de denúncias de abuso é sobre este tipo de relacionamento (sejam relacionamentos entre pessoas heterossexuais ou bissexuais). Isso não significa, de forma alguma, que relacionamentos entre homens e/ou entre mulheres não tenham, também, vivências de abusos, etc.

PS2. Isso não significa que não existam ambiguidades. Que as mulheres não possam dizer “não” e depois dizer “sim”. Ou dizer “sim” e depois mudar para o “não”. Meu argumento é apenas que se respeite o que se disse no momento: não é porque ela mudou pro sim que quando ela disse o não, o não já era um sim disfarçado. É que como pessoa autônoma, consciente e reflexiva ela pode pensar, sentir, ponderar e transformar sua decisão.

Não é sobre a mais recente treta da internet

“…e eu não tinha, a exemplo dos hipócritas, uma cara autêntica e outras falsas.
Tinha muitas caras porque era moço e porque eu mesmo não sabia
quem era e quem queria ser “.
(Milan Kundera, em A brincadeira)

É muito complicado definir o que o feminismo é ou não é. Como movimento social. Como significado individual. Como luta política. Como marco cultural. Nem vou tentar. Eu me disse feminista em 2010. De lá pra cá vi o alcance deste termo chegando em lugares e pessoas que eu não via antes (podia estar lá e ser cegueira minha, claro). E isso, penso, veio com (e trouxe) vários avanços. Um sensor mais atilado para as manifestações do machismo no nível macro e micro, por exemplo. A compreensão de que o individual é político.

Porém, ah, porém, essa última assertiva parece-me que vem sendo um tanto mal interpretada. Muita gente tem se dado o direito de se imiscuir na vida privada de outrens e, bem abancados ali, fazer julgamentos de base moral como se fossem crítica social. Criticar um moço porque ele é galinha é apenas moralista. Criticar um moço porque come mulheres e não dá notícia é apenas moralista. Criticar um moço porque parece legal, fala coisas afins com o feminismo e come muitas mulheres e some depois é apenas moralista.

Eu não estou querendo dizer que há pautas mais importantes. Estou dizendo que responsabilidade afetiva ou sei lá qual é o nome que chamam não deveria ser pauta. Somos seres de cultura. Somos seres de desejo. Somos sujeitos do inconsciente. E somos, homens e mulheres adultos, adultos. Ativos. Autônomos. Não se apoia, não se sustenta, não se valida a emancipação de uma mulher insistindo em uma infantilização afetiva. O desejo tem caráter social, mas não voluntário. Entender esta nuance é importante:

O desejo é subversivo. O desejo escapa. O desejo irrompe. A ideia de que se possa definir, a priori, que relações devem existir, como o desejo deve operar, é ingênua. Ou moralista, caso se aceite que o desejo exista mas que se deve reprimi-lo. Devemos ser responsáveis pelo nosso desejo. Essa frase é de uma ambiguidade linda: indica que respondemos por ele mas também implica que é de nossa alçada e de mais ninguém cuidar desse desejo. Inclusive de suas parciais satisfações. (texto, todo, aqui)

Um relacionamento não é abusivo porque outra pessoa nos passou um queixo fingindo (ou sentindo) interesse, trepou e depois se desinteressou. Um relacionamento é abusivo quando se usa um poder socialmente legitimado (seja ele financeiro, de gênero, de classe) para limitar a existência, a experiência e a possibilidade de outra pessoa. Eita, mas se a pesosa for escrota no relacionamento? Foi escrota. A gente se magoa e/ou fica puta e/ou ignora mas a gente sentir tudo isso ou uma dessas coisas não faz da outra pessoa um abusador nem do relacionamento um relacionamento abusivo. Do cara mentir pra trepar a mudar de idéia em relação ao que queria do vínculo há um mundão de coisas e nenhuma delas é abuso.

Mulheres e homens somos seres de falta e vamos nos foder nos relacionamentos. Isso não significa que está ok a pessoa mentir. Que está ok a pessoa sair correndo depois da trepada porque “acha que a outra pessoa vai se apegar”. Não está ok atropelar os sentimentos alheios. Vamos ser pessoas melhores, desenhar relacionamentos melhores, criar pessoas melhores, fazer filmes e canções com narrativas melhores sobre vínculos, etc. Vamos fazer do mundo um lugar melhor. Não porque seja machismo magoar a outra pessoa. Porque é legal, gostoso, sensual, delícia, confortável. E, mesmo assim, mesmo no mundo de pessoas gente fina, vai ter gente querendo, gente magoada, gente sozinha, gente ansiando, gente ignorando. Enquanto formos seres de desejo inconsciente, vai ser sempre foda.

Alguém vai ler e achar que estou dando biscoito, passando pano, etc. Ignoro, feliz, especialmente porque aposto que vão usar o termo “macho” na lacração – coisa que me faz desistir, de princípio, da interlocução. Eu vou continuar aqui, com bandeiras antigas,  incluindo aquela de que mulheres são gente, também. Para o bem, para o mal e para a dor de cotovelo.

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