Ligações Invisíveis

Por Angela Scott Bueno*, Biscate Convidada

Existem ligações invisíveis entre pessoas que uma vez construídas não se desfazem, sempre lembraremos delas num momento importante, num turning point. Nem sempre tem a ver com laços de parentesco ou amizade, pode até ser que a pessoa que mudou seu rumo, você sequer conheça, oficialmente. Pode ser que sejam pessoas que se encontrem uma única vez, num acontecimento fortuito. Alguém que pediu um cigarro na rua e houve uma troca de olhares – você tem um cigarro? Eu não fumo. E entre estas duas frases, houve uma revelação. Alguém que sentou no mesmo banco de praia que você. Você e aquela pessoa desconhecida, ficaram um tempo olhando o mar, cada uma a seu modo e então ela abriu a bolsa e tirou um livro e era o mesmo livro que mudou sua vida, tempos atrás. Você vê o livro e lembra de ter decidido como queria viver. Ver o livro deu a dimensão do quão distante você foi parar desse desejo. E então, decide voltar. Alguém que olhou para a lua na mesma hora que você. Traçou o mesmo movimento no espaço e no tempo: olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava você. Que olhou para o céu e então para a lua, a enorme lua de morango e ato contínuo, olhou aleatoriamente para um lado e, ali estava o outro. Ali se construiu uma ponte entre lua e humanos e entre humanos e suas existências. Sua vida e a vida daquela pessoa foram transformadas por uma sutil sincronia. Um segundo e a vida te deu a dimensão exata do lugar que ocupa nela. Você afinal é essa pessoa e apenas o que é belo para você – e não importa mais se alguém entenderá, aceitará ou reconhecerá -, é que vai guiar a sua vida. Você não pode mais escapar da sua beleza, da sua lua no céu. Tenho essa fantasia de ter certeza – essa é a fantasia, a certeza, de que nós nunca saberemos quem é que realmente muda o nosso destino. Aparentemente pode ser um grande amor ou a maldade de uma mãe, uma viagem ou a doença de um filho mas aposto mais nesses momentos aonde um humano olha para outro humano, sem defesas, sem resistência, sem expectativas. Seremos apenas corpos de afetos, pegos desprevenidos, vivendo um momento grandioso, numa situação banal. A pessoa que me pediu um cigarro, ao nos olharmos, por imponderável, fez com que eu tivesse contato e afirmasse tudo o que é meu. Um livro MFK Fisher, a forma de ver o mundo de Wyslawa, a voz de Miles, os quadros de Ortner, o vento e as nuvens, não uma árvore mas as pedras, o licor e não o vinho, os pássaros, as baleias, os sonhos de madrepérola, a medida exata do meu desejo. Tudo isso me pertence e eu pertenço a eles e, ao virar à direita na esquina e não à esquerda e encontrar o homem que me pediu o cigarro, de quem eu jamais saberei dos afetos, tive os meus devolvidos quando, sem aviso, nós dois humanos nos reconhecemos claramente. A grande ilusão é achar que nós nos criamos sozinhos e somos independentes: a gente só se revela e só se conhece através do outro. E na mágica desse caldo de acasos que é a existência.

13618214_10206437356320753_420784083_n*Angela Scott Bueno é Floralista e de vez em quando gosta de descrever o que acontece com ela ou o que ela vê na vida, no mundo e nas coisas. Pisciana de raiz, o que a salva é o ascendente em Leão, senão já tinha virado geleia. Não curte discurso excludente, mas curte medicina, dança, música, comida e fotografia e sempre se sente mais em casa com quem é Biscate na vida.

Ao acaso e ao sabor do vento

“O acaso vai me proteger”, isso é certo. Mas tem uma condição para isso. É “enquanto eu andar distraído” que ele vai me proteger. Só distraído é que a gente encontra o que a gente não estava procurando. Distraidamente, passeando sem necessariamente prestar atenção em nada. Apenas percebendo. Deixando acontecer. Apenas sendo, se é que me permitem. Não? Só dessa vez, vai.

Deixar-se ir. Não ter certezas. Desconfiar das próprias certezas, mais bem. Há regras demais. exigências demais. Intensidade demais, pureza demais, segurança demais. Não é preciso nada disso. Só soltar. Soltar, respirar, e… (depois do e… ficam as reticências mesmo; a gente não sabe. Espaço vazio. Oco. Amplo de possibilidades e riscos.)

O pano de fundo disso tudo é a voz da minha tia-avó Nitinha, uma mulher que viveu a vida, uma presença quente, uma risada carinhosa: “Eu sempre disse que nunca namoraria paraibano, baixinho e careca. Conheci o Lima: careca, baixinho, paraibano. Me apaixonei.” Ah, o acaso. O acaso? O espaço também. Porque consigo vislumbrar uma história em que meu tio-avô Dadu (o Lima, aqui) chegasse e passasse, porque ela estaria tão presa às suas certezas, às suas intenções, que nem perceberia, nem daria chance. Era tudo o que ela não queria. Era tudo o que ela queria e nem sabia.

É esse o reconhecimento: a gente não sabe. Tantas vezes não sabe. A gente acha que quer, acha que gosta. Mas não, na verdade é outra coisa, ou pode vir a ser. Gosto se constrói também, gosto se adquire. Gosto se amplia, se apura. Deixando vir. Contaminando-se. Viralateando-se. Se embolando ladeira abaixo, já que a chuva ajuda a gente a se ver. E, já que a gente se viu, que tal? Um café, uma cerveja, uma passada na praia, uma caminhada pela cidade, um silêncio compartilhado, um banco de praça? Atender o telefone, aceitar o convite, suspender as certezas e as seguranças, ser frágil e ignorante como de verdade se é? Despossuir-se, meio que. (Tá muito? É que achei que cabia tão bem….)

Um dos sonhos mais incríveis: eu, na frente de uma vitrine de papelaria. Uma caixa de lápis de cor e de tintas, grande, luxuosa. Tudo o que eu queria. E era esse o sonho: eu olhando pela vitrine da loja, a caixa de lápis, e, na minha cabeça, todos os desenhos que eu faria com ela. Folha em branco: caminhos.

É claro que há arte no deixar-se levar: como numa dança a dois. Um dos parceiros – tradicionalmente a mulher, mas né – está ali, deixando o fluxo-que-é-o-outro levá-lo. Presença, leveza, um soltar-se que permite sentir o movimento antes mesmo que ele aconteça. Com isso aí que a gente chama de vida, de acaso, de caminho, também: deixar-se ir, descuidado, sentindo o movimento. Se não deu, não deu. Ora. Não é necessário o murro em ponta de faca. Aqui, da mesma maneira. Uma leveza. Um desprendimento que faz ver que a onda leva para outro caminho. Insistir só dói. Só. Não há grandeza, não há mérito. Só dói.

É exercício, é desprendimento. É de todo dia. Olhar o céu, olhar o sol, olhar o mar. Ser o céu e o sol e o mar. Rir e chorar, quando for. Estar. Deixar-se levar mesmo que o plano fosse outro, que o projeto fosse diverso, que houvesse tanta expectativa e – por que não? – tanta esperança. Entender que a esperança e a expectativa são pesos que são dos outros. Não seus. Seu é o caminho. Eventualmente caminhado com outro, com outra, com outros. Por um tempo. Durante um trecho. E, numa curva, de repente.

Nada dava a entender. Mas o acaso, que nos protege como o céu, também dá sinais. E aí. Fazer o quê. A gente segue, sem certezas. Certezas no las hay, lo siento. Porém já não as havia. A certeza era uma falta de capacidade de ver. Uma miopia. Esquece a certeza. Deixa. Larga. Solta.
Vai.

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