Façamos as pazes

Olá, lindeza!

Depois de ANOS, tomando coragem de mostrar a minha própria barriga. Barriga que não precisa ser chapada ou "negativa" para ser linda.

Depois de ANOS, tomando coragem de mostrar a minha própria barriga. Barriga que não precisa ser chapada ou “negativa” para ser linda.

Faz um tempão que não paro uns minutinhos pra te dar atenção. E justo você, que me carrega pra lá e pra cá todos os dias, sem reclamar.

Ultimamente, tenho pensado bastante em quantas coisas boas você me proporciona. É com você que sinto novos sabores e vejo a grandeza ~ou a pequeneza~ de tudo que existe. É graças a você que sinto o frescor de uma tarde de outono através do vento tocando a minha pele. Com você me movimento e chego onde quero pelos meus próprios pés. Com você tenho prazer. E vem de você o que me mantém viva e forte

São tantas essas coisas boas que me dá, que não entendo por que comecei a ser hostil contigo. Por que por tanto tempo te odiei. Por que quis tanto que você fosse outro, muitas vezes irreal.
Não deixarei que Hollywood, que as capas de revista, que o instagram de fulanx, cicranx ou beltranx  digam que você é errado ou que você não é belo. Nunca mais vou permitir que o apontar de dedos e que as réguas alheias determinem o quanto você é digno de bem estar e de estar à mostra.

Que cada dobra, estria, celulite e pelo que você carrega sejam contemplados por mim como uma parte linda do que sou. Que eu possa te enfeitar como quero. Que eu deixe a minha criatividade para indumentárias fluir (porque pra mim, roupa binária e pré-determinada/determinante é uma coisa muito chata). Que eu te movimente, te sinta, te toque e te deixe ser tocado onde você pedir…

Não vai ser mais assim, corpo meu. Façamos as pazes. Porque hoje te vejo com o carinho e respeito que você(nós) merece(mos).

Me desculpa?

Sobre aceitação e generosidade – ou uma biscate gorda

Esta texto está sendo escrito e reescrito na minha cabeça, e na minha vida, há tempos.

E num sábado de sol a Renata Lins e a Luciana Nepomuceno colocaram na pauta esse texto-entrevista-bate-papo sobre corpo e seus padrões que, poxa, falaram tanto comigo.

E eu pensei que podia finalmente escrever sobre a minha experiência com o corpo e os padrões, e o que EU tenho tentado aprender com isso.
Você já olhou para trás e viu como você era linda na adolescência mas se achava feia/gorda/esquisita? Acho que muitas pessoas já fizeram isso.

Como disse a Renata Lins:

minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras.

Eu acredito que é um processo, um esforço, uma conquista mesmo.

A gente é bombardeado todo dia com fotos da Gisele e de outras. Na minha época, eram a Cindy Crawford, a Ana Paula Arosio e a Luana Piovani. Eram elas os “padrões”. O narizinho da Ana Paula fazia eu odiar cada dia meu nariz. E a Cindy, bem, ela ao menos eu admirava porque ela mesma era crítica quanto ao que era a persona “Cindy Crawford”, que ela chama(va) de “A Coisa”. Ela dizia que nem ela acordava sendo “A Coisa”. Como Rita e Gilda.Hoje EU acho que é mais fácil, para mim, porque tenho outros modelos, e nenhum deles é uma modelo ou atriz famosa.

Mas tem ainda regramentos sobre como temos que ser “sexy sem ser vulgar” e outras mais. Ou seja, não dá pra dizer que o mundo mudou.
Então, EU tenho tentado aprender que quem muda somos nós, em um processo que não é fácil.

Aos 15 anos, eu pesava 58 quilos, tinha 1,65m e me achava enorme. Meus parâmetros? Duas amigas, uma com 1,50m e outra com 1,55 m, biotipos totalmente diversos do meu, e uma paranóia com os corpos. (Uma delas era aquele tipo de amiga que gosta de fazer as outras se sentirem mal, e infelizmente, gente ruim ou “com problemas” existe e se reproduz, desculpa sororidade.)

Voltando ao tema, eu era gostosa pra caralho (olhando as poucas fotos que tenho da época, já que odiava fotos, quem nunca?) e me achava feia, gorda, bochechuda. Isso não impediu namorados, rolos, etc, mas sempre esteve no meu inconsciente.

Aos 18 anos, ganhei muito peso, e rápido, e fui parar no Vigilantes do Peso. Tenho as fichas até hoje, em uma pasta com todas as avaliações físicas que já fiz em academias nessa trajetória, as vezes eu acho que para provar que “já fui magra” ou que cumpro o papel da gorda que não se aceita e tenta a todo custo ficar no “peso ideal”. Perdi peso, ganhei peso, entrei na faculdade.

Os anos de faculdade foram de novamente me sentir enorme, mesmo não sendo tanto – as fotos estão em casa, para me mostrar. E na formatura, de novo, ganhei muito peso, muito rápido. Bochechuda.
Formatura, e a luta pelo concurso público, pela estabilidade, pela conquista da independência, e aí, tudo ia mudar, eu ia fazer plástica no nariz, aumentar o peito, etc e tal e achar alguma pessoa legal e ter o pacote Sex and The City em Ovorizonte (isso é assunto para outro post…)

Nos primeiros dois anos de formada, continuei engordando, até que um dia decidi mudar, perder peso, ficar magra. Consegui. Nesse meio tempo, concursos para cargos que exigiam provas físicas, aprendi a malhar, correr, comer bem, parei de fumar… por alguns meses, ao menos.

Fiquei magra. Pesava 57, menos que na adolescência. Passei no concurso. E não foi a felicidade instantânea. Ai a gente continua buscando, buscando, buscando.

Em oito anos, emagreci, engordei, tomei remédio para emagrecer, voltei a fumar, engordei tudo de novo.

Vivo de dieta, como mal, me prometo que na segunda-feira eu volto a correr e comer direito. Compro alface e semente de linhaça. O alface murcha, a linhaça mofa.

E quando me revelo “de regime” já me perguntaram se eu não li “O Mito da Beleza”. Cara, eu li. E me identifiquei total: já fui das convertidas que querem emagrecer todos ao seu redor.

A questão, pra mim, ao menos, não é saber que a ditadura da beleza/magreza é algo criado para gerar lucro e controlar as pessoas, especialmente as mulheres.

O buraco é mais embaixo: é que, mesmo sabendo disso, eu vivo nesse mundo. Eu compro roupas nesse mundo, eu vou ao salão de beleza, eu ouço as pessoas falando, os jornais, as revistas, minha mãe… as pessoas bem intencionadas, como eu já fui, e aquelas que gostam de alfinetar, as maldosas que gostam de simular que se importam mas querem é cutucar pra ver como você reage.

A sorte, nesses dias, é que hoje eu tenho uma rede de proteção. Eu tenho amigas incríveis, e tenho aprendido a exercitar o olhar generoso de que a Isa Cassaloti fala e a Luciana Nepomuceno cita. Eu tenho me permitido me olhar com generosidade, olhar as pessoas e o mundo com generosidade.

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. “

EU tenho preocupações: com a saúde, com a possibilidade de engravidar, com o peso que estou hoje, se seria ruim para mim e para o hipotético embrião-feto-bebê.

Este post depoimento, que não vai ter minhas fotos de antes-depois-agora porque não estou em casa enquanto traço essas linhas, é só para compartilhar que todas e todos temos nossos dias. Que todas somos lindas, inteligentes, gostosas, fantásticas, mas mesmo assim as vezes duvidamos. Como não duvidar? Tanta gente falando de dieta e envelhecimento, bate o medo, a ansiedade, a raiva mesmo as vezes.

Quando bater o medo, a raiva, a ansiedade, é bom respirar (aproveitar e olhar foto de gatinhos e filhotes em geral também ajuda) Se olhar no espelho e ver a beleza que há em casa um de nós, e escolher ser feliz do jeito que você é. Mesmo que te digam que você não pode, não deve, não entendam como. A gente pode, sim.como nos vemos laerte

Olhar(es)

Esse último mês num foi lá muito fácil para mim.

Foi tenso. Do nada ( ou nem tão do nada assim), minha auto-estima foi parar na lama. Olhar no espelho estava bastante desconfortável, porque tudo que via em mim mesma era defeito. Ora uma espinha, ora uma olheira. Ou o cabelo que estava pesado e sem brilho. Ou então eram as duas ou três dobrinhas a mais na barriga que me deixavam triste.

espelho-infiel1

Olhar

Parece frescura, né? Coisa de gente fútil e superficial, e tals. Só que não. Percebo que muitos de nós estamos bem insatisfeitos com a nossa imagem e por isso, acabamos sendo bem cruéis conosco e com os outros. Julgamos, medimos, comparamos. Gastamos uma puta grana com produtos “milagrosos” que nos prometem a aparência photoshopada das revistas.

Se você for mulher então, é bem pior. Não que isso não atinja aos homens, atinge sim. É que mulher tem a “obrigação” histórica de estar sempre bela. De ser perfeita. De caber perfeitamente nas roupas, nos adornos e nas caixinhas que alguém com bastante poder, determinou que eram as ideais para ela.

Acontece que a natureza não tem o menor compromisso com essa estética absurda e inatingível para a maioria de nós. O natural é a variedade. O que é natural, bonito e saudável não engloba apenas o magro, o loiro, o liso ou o jovem. Nela há espaço para muitas nuances, texturas e tamanhos.  E o nosso olhar, tão bombardeado por imagens  que fogem absolutamente dessa variedade,  não tá acostumado com isso.

Bora treinar esse nosso olhar viciado para uma beleza plural? Porque não são os nossos corpos que devem ser repudiados…

De você para você mesma

Nunca. Nunca mesmo vou me esquecer de um livro que li, com o seguinte título: A Moça e Seus Problemas. Não sei dizer com certeza em que ano ele foi escrito, mas tudo indica que tenha sido no início da década de 50, por um médico chamado Haroldo Shryock. Este livro aborda temáticas sobre  sexualidade e comportamento e fiz essa leitura quando tinha uns 15 anos de idade. Aquele momento decepcionante em que você passa por um sebo, julga o livro pela capa e pelo título, compra e… Enfim.

Como esperado, a obra reflete amplamente os valores morais extremamente conservadores da época. Fala sobre como uma moça virtuosa deveria se comportar, sobre namoro, sobre como a “imprudência” da juventude poderia ser um caminho sem volta para a “perdição”, sobre aspectos biológicos do corpo da mulher, de onde vem os bebês, sobre o que fazer com aquela “coisa nojenta” chamada menstruação e por aí vai. Mas o mais ah, digamos, assustador deste livro é a forma como a masturbação é abordada. Dentre outras questões, há menções de como esta pode prejudicar a saúde e levar uma pessoa – principalmente uma garota – à loucura irreversível.

Você aí, que tem plena consciência de que estamos no ano de 2012 e que agradece por estar livre desse tipo de pensamento acha mesmo que hoje está tudo 100% bem?

Não gente, não está. Conheço pessoas que jamais tiveram coragem de se tocar. Que acham isso feio. Que têm vergonha ou (!!!) nojo. Que pensam que esse tipo de estímulo é imoral e profano.  E penso que este é um resquício daquela época (somado a muitos valores religiosos). Ficariam surpres@s se eu lhes dissesse que essas pessoas que conheço são mulheres? Mulheres independentes financeiramente, inteligentes, queridas… Mas que não conseguem manifestar um amor genuíno pelo próprio corpo. Pessoas que não se sentem a vontade para descobrir a delícia que é dar carinho e prazer para elas mesmas.

Agora, como será a vida sexual de alguém que não conhece o próprio corpo?

Não, eu não sou extremamente experiente no assunto. Não sou médica, nem psicóloga e nem tive vários parceiros ao longo da minha vida. Só que é bem triste pensar que ainda há esse tipo de mentalidade circulando por aí. Que há inclusive quem pregue que é assim que tem de ser. Ainda existe uma permissividade em nossa educação que acha que o ato de marturbar-se é conveniente e saudável para os garotos. Já para as garotas, é sujo e inapropriado, devendo ser coibido.

Masturbar-se não é indecente. É normal, saudável, gostoso e importante. É algo da gente para a gente mesmo. Mulheres, é algo de vocês para vocês mesmas. Não há porque ter vergonha ou nojo. O corpo é de vocês e ele precisa – e merece – que vocês o conheçam melhor. Afinal, como querer dar prazer para alguém se não conseguimos fazer isso nem por nós?

Tive que amadurecer mais um pouquinho para entender que não é a moça que tem problemas… Mas sim aquele livro. E quem, nos dias de hoje, usa argumentos remanescentes dos anos 50 para profanar algo que é tão natural quanto comer, beber água ou dormir.

Como é o corpo de uma biscate?

Ela sai do banho e evita o espelho. A relação entre eles nunca foi das melhores porque ela não gosta do que ele lhe mostra. Minto. Ela não gosta do que enxergava através dele. Tudo isso sem  entender muito bem o  porquê. Ou entende, mas talvez só entender não seja o suficiente.

Clara está chegando aos 30. Sempre foi uma mulher muito inteligente, divertida e independente. É também muito bonita – dizem. Mas, aos olhos dela, nada disso importa – para ninguém! – por conta do seu peso. Ser gorda, para ela (e para muita gente que reproduz preconceitos, infelizmente) tira todo o brilho de suas virtudes. E como isso a faz infeliz…

A história de Clara não lhe é familiar? Não parece que você já ouviu isso antes?

Pois é. Essa coisa de padrão de beleza é mesmo de doer porque quase sempre, é inatingível para a maioria das pessoas. Justamente por ser um padrão, ele não permite diversidade. Ele diz que se você não tiver um cabelo “tipo x” ou uma bunda “tipo y”, você não será bem vista. Isso existe também para o homem? Certamente. Mas para a mulher, equivale a uma obrigação: ser bonita e jovem. Uma “beleza” que se encaixe no que a maioria acha que é belo.

É Clara a culpada pela sua não-aceitação? Ou o conjunto mídia + sociedade + moda + certos tipos de médicos desumanos + nós mesmos não contribuímos para isso?

Não é fácil mostrar para essa maioria o quanto a diversidade de corpos, de cabelos e de peles é linda. É algo que talvez leve muito tempo para que compreendam. Enquanto isso, torço para que Clara e tantas outras se sintam bem com elas mesmas, do jeitinho que são.

Afinal, como é o corpo de uma biscate? As respostas são muitas. Mas com certeza, não são e nem nunca serão iguais.

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