Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Prazer. Sou biscateira, com orgulho!

Por Adriana Torres*, nossa Biscate Convidada

Minha mãe sempre debochou de mim dizendo que desde que nasci preferi colo de homem do que de mulher.

Continuei assim durante anos, tendo mais amigos homens que mulheres, até porque trabalhei em empresas onde 90% dos funcionários eram do sexo masculino (ok, deletei da memória a terrível época que estudei no IEMG e só tive mulheres como colegas de sala…)

Nunca entendi de moda, mas sempre me vesti razoavelmente bem (clássica, usualmente. Não sou de arriscar).

Não ia ao salão com frequência fazer as unhas (e não sei fazer em casa), mas meus cabelos sempre foram motivo de gastar tubos e tubos de dinheiro para, a cada ano, estar com um look diferente.

Comecei a beber com onze anos de idade. Coisa de quem frequentava cidade de seis mil habitantes e que não tinha nada mais pra fazer além disso. E comprei meu primeiro maço inteiro de cigarros com treze.

Nessa idade, saia com minhas irmãs e ficava até cinco horas da manhã na rua. Minha mãe nunca ligou para horários, pois dizia que “quando se aperta demais, escorrega entre os dedos”.

Por outro lado, não tirei um único sarro antes dos meus dezoito anos. Apenas beijos na boca (e tapas nas mãos, eita, falta de paciência). Virginiana, com ascendente em touro e fã de histórias de amor, para mim sexo era algo muito valioso para ser feito com qualquer um que aparecesse. Todas as minhas amigas já tinham transado e eu “na amarração”, como elas diziam.

Pois é, quem mandou nascer do contra nessa vida?

E mesmo depois do meu primeiro amor, continuei fiel a ideia de que sexo era como um champagne francês – para ser apreciado de forma única, estupenda, sem pudor, mas na hora que eu achasse conveniente, com quem eu quisesse.

E dá-lhe controle de qualidade, para desespero de algumas queridas amigas feministas que me julgavam a “carola”!

Mas, afinal, porque estou aqui escrevendo esse monte de coisa sem pé nem cabeça?

Eu sou uma biscate qualquer. E uma santa. E uma louca. Eu sou uma colcha de retalhos, maluca, certinha, safada, fiel, amiga, amante. Eu sou uma porção de Adrianas dentro de um corpinho até bem pequeno pra tanta personalidade diferente.

Gargalho alto (muito alto, vocês não tem noção. Fui contralto em coral, tão ligados?) ; adoro decotes e fendas;

Não sei conversar sobre moda, cosméticos ou maquiagens. Mas acho lindo quem sabe.

Tenho uma fé gigante. Amo minha religião, não com fanatismo, mas com aquele amor puro de quem se sente realizada em sua crença. E choro quase toda vez que canto canto Ave Maria (mesmo não sendo católica).

Adoro meu trabalho. Ah, atuo com movimento social. Discuto política, gestão pública, qualidade de vida, justiça social e otras cositas más diariamente no mundo off e online.

Amo ficar em casa quieta, fazendo um comida gostosa pros amigos ou pro maridão, curtindo um estar contente, sem grandes pretensões do amanhã.

Enfim, quero dizer que eu não me encaixo na “mulher incrível”. E não sou biscate por completo, não na definição dos últimos posts que vi por aqui no Club. E é aí que eu queria chegar!

Nem toda mulher quer ser amada. E tá certa.

Nem toda mulher quer dar só pra um. E tá mais certa ainda.

Algumas não querem nem dar. Estão erradas?

Não somos um modelo de nada. E não somos homogêneas. A cada dia estamos de um jeito, todas sabem disso e todas comemoram!

O importante dessa bagaça toda é que eu sou o que eu sempre achei que devia ser. E ninguém tem nada com isso.

Essa, pra mim, é a essência da biscate.  Ser perua, santinha, doce ou maligna, de esquerda, de direita, do centro e o escambau. Hoje de um jeito, amanhã de outro.

Sem fórmulas, sem certo, sem errado. Solteira, casada, divorciada, viúva… tudo biscate! E não mais biscate ou menos biscate.

Apenas assim, cada uma na sua individualidade. No ser única.

Sendo, acima de tudo, o que quer ser.

Jamais, never, apenas o que querem que ela seja. E isso significa também que, se ela quer ser o que o outro quer que ela seja, bom também.

Porque é o direito de escolha dela, saca?

Prazer. Sou biscateira. Com orgulho!

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* Adriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

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