Uma aliança

Dia desses, eu casei.

E dia desses, pra frente, casarei, de novo. E terei lua de mel e tudo. Menos festa chic e vestido de noiva, e padre na igreja. Mas terei papel passado, brinde, riso e amor. E tenho aliança.

Aliança, já usamos há meses. Depois que eu fiquei brincando (brincando?) em portas de joalherias, ele de fato propôs. E chamou para escolher. E pagou, como deve ser (deve?).

Lembro de quando era católica praticante, pela segunda vez, e em uma visita do amigo padre Elias em casa, falávamos sobre casamento, sacramento.

Eu, iconoclasta mas romântica, apontava que o sacramento devia ser um prêmio aos que provassem ser capazes de sobreviver amando ao convívio diário.

Minha mãe, roxa, sei que pensava em me beliscar.

E o padre, vejam só, concordou comigo – ainda que o Vaticano (ainda) não concorde conosco.

Vivemos “em pecado”, morando juntos há mais de ano, dividindo cama e chuveiro, tem dias que ele faz o café cedo, tem dias (poucos), que sou eu. Eu cozinho minhas invencionices metidas a besta (palavras dele) e ele come (ou não).

E a gente se pega (eu) pensando: qual o significado desse anel?

Bem, o que descobri, é que ele pode significar muita coisa, para muita gente, e que esse muita coisa pode ser nada diante do que significa para mim.

A gente usa o anel, e o anel nos usa. Ainda que eu só veja nele uma aliança entre eu e ele, para quem está de fora é as vezes diferente, divergente.

Eu vejo uma escolha entre nós dois. Alguns veem uma vitória (minha, claro) ou um selo de aprovação (dele pra mim, óbvio).

E enquanto eu transparentemente estou feliz em estar ao lado de alguém que amo, algo dessas visões de me perturba, pois é como se eu precisasse do selo de aprovação de um homem para ser feliz, ou como se só eu houvesse encontrado alguém, como se ele me fizesse um favor (ok, parte nóia, parte  não).

Já fui cumprimentada na fila do supermercado por uma conhecida, com um olhar meio aprovação, meio surpresa, ao vê-lo ao meu lado, e uma expressão que não sei definir, e que é um pouco lisonjeira e muito aterrorizante.

O que quero dizer é que me sinto casada, na medida em que amo, temos um compromisso, estou feliz, acredito que o faço feliz, e queremos continuar nos apaixonando, todos os dias.

E não acredito que estar casado é melhor que qualquer coisa. É a melhor enquanto estamos felizes.

Essa é uma declaração de amor, biscate, livre, feliz.

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