Entre soslaios e mais

Há sempre um desejo. Ali a espreita, observando. Podem ser pedaços de axila a mostra, com ou sem pelos. Um sorriso maroto, um sorriso farto, ou, ainda, um sorriso farto e maroto. Uma roupa vermelha, uma boca vermelha, uma unha vermelha. Pé descalço, pé sujo, dorso do pé. O desejo está – talvez – nas pequenas cousas que nos saltam às sinapses, aos olhos, ao olfato, ao sexo. Molha, incandesce, ruboresce. Um cheiro, de perfume a suor, quem sabe?

Transavam, sabiam caminhos já. Apesar de tudo, de todas as conquistas deste amor livre, do dar e receber quando as telhas – duas ou mais – resolvem se encaixar em vontades e libido, era bonito e obscenamente interessante aquela insistência. Da segunda vez já descobriram que existia uma pinta, sim, uma pinta, que quando tocada ligava um circuito todo de pele, falo, grelo, grelos, falos, peles. Usaram a língua e foi como se a linguística sempre estivesse a serviço dos corpos, para instinto e fome. Ou de saciar ou de crescer. Cacete, vulva, xoxota, pau, buceta, bigulinho. Já na terceira vez tinham ruelas com esses nomes em plena planície do umbigo. Ah… os umbigos…..

E o desejo, ali. Na espreita. Espreitando. Se esfregando. Se tocando. Se fodendo, todo. Teve um comentário sobre filme do Scola, despretensioso, nus, num intervalo qualquer, que entre a ternura e a delicadeza, deu ao desejo mais tempero, mais esfrega, mais toque, mais foda. Uma mão na bunda, um dedo no cu, uma saudade aqui e alhures, uma louca febre de andar pelados pela sala. Os sexos ali, esfolados, salgados, lúbricos e com gosto de hálito quente umedecido por lábios tenros.

O desejo ali, a espreita. Uma hora ele se levanta e vai embora, sabemos. Mas naqueles átimos universais, fragmentos da história, de civilizações, de escambos necessários: Gozo.

Feliz 2016. Este desejo também.

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Por duas: sobre mulheres e nós

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Dia dessas ela me ligou. E como sempre faz quando nos falamos ao telefone, me disse que me ama muito e que eu sou ela amanhã, multiplicada por duas ou três. Ser como ela, em dobro ainda por cima, significa mais que tudo “sacanagem”.

Ela tem esse dom delicioso de colocar duplo sentido nas coisas. E demonstrar desejo. Que eu imito, como não?! Ela abaixa até o chão na boquinha da garrafa. Já eu, nunca. Mas, ela. Ah, ela consegue. Ela canta em qualquer idioma, porque é boa de prosódia, mesmo que tenha que inventar palavras pra caber na métrica. E quem se importa com a letra quando se sabe o ritmo?! E compõe proibidões, que, olha. Ela compõe proibidões, até em cima de proibidões já feitos.

E cantou no rádio, quase foi famosa, quando preferiu casar. Foi até mesmo pressionada. Que saída tinha ela na época?

E vejo que se posso ser ela multiplicada por duas é porque posso ir mais além, quando ela não pôde. Porque não tive que escolher entre cantar e casar. Nem canto. Mas, se me fosse possível, não haveria escolha. Haveria soma. E, se houvesse, casar não seria a alternativa correta default.

E me conta de dores da vida em comum. E sei que somente sou eu ela em dobro porque calhei de nascer uns anos depois. Quando permanecer não é sempre uma obrigação. Aguentar não é imperioso. Que sair não é desamparo. Não sempre. Não o tempo todo.

E come pimenta malagueta pura enquanto passa roupa e toma cerveja. E dança, riscando o salão. Vai de bolero, vai de forró, a hora que for.

Ah, quem me dera ser nisso como ela. Ainda mais em dobro!

Mas, se ela diz, vou seguindo uma parte dos seus passos. Pensando que essa alegria e gulodice não são ingênuas. Têm amarguras também. E sublimação. E vontades e também frustração. E o que nos parece apenas uma história curiosa das reminiscências da tia divertida, tem tantos sonhos interrompidos pelo meio.

E desejos de voltar atrás, num tempo que a alegria era por si. Ao mesmo tempo, de seguir em frente, quando cantar, casar e dançar até o chão são coisas que mulher pode fazer, afinal.

E ela enche os encontros de humor e riso. E invejas e ciúmes quando diz que eu, euzinha aqui, sou como ela em dobro. E um pouco de aflição também. E no churrasco de família ensina a irmã mais nova a “chupar um pau”.  Diz que é pra agradar o homem. Mas, ela se agrada também. Ela tem isso. O riso que contradiz o discurso. Ela gosta de ensinar. E gosta do resto todo. Porque ela gosta disso tudo. Me disse. “Eu gosto!”

E vou me lembrando que eu sou ela. Em progressão geométrica. E gosto também.

Mas, ela também anda triste. E, às vezes, o riso vacila. Também me disse ao telefone “que levaram a outra banda do colchete”. A banda que a completava. Que se encaixava. Com quem ela formava um todo de amor e cumplicidade e festa. E choro.

De longe, fico pensando se ela se recupera mais dessa. E são tantas. Têm sido tantas! Aquele momento na existência quando passamos a contabilizar perdas e esperar a próxima. De amores. De parentes. De irmãs. O encaixe do colchete, o amor da sua vida, a companheira, a irmã.

Ela repete que me ama ao telefone. Que somos iguais. E, fico ali, pensando se teremos a mesma intensidade no sentir. Assim, em dobro.

Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

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Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

Toca Sebastiana!

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Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Três historinhas, em um daqueles dias

Aí que hoje é daqueles dias. E, como não tem texto, vou resgatando fiapos de histórias. Todas de verdade. Quem sabe compõem algo.

Lembro daquela vez em que eu, com seis anos, fui chamada de “puta” porque tirava a roupa na frente dos meninos. Eu tomava banho com meus primos, meninas, meninos: não entendia porque teria algum problema em alguém me ver sem roupa. Os meninos do prédio pareciam achar isso legal. Eu tirava, ué, e achava engraçado. Era todo mundo da minha idade, será que eles não tinham primos?
Mas aí a amiga me disse que quem fazia isso era puta. Eu não sabia o que era puta, mas pela cara dela não devia ser nada bom.

Aí teve aquele  cara com quem eu fiquei, já adola: eu podia ter ficado com ele ou com outro, mas aí calhou que foi com ele. E eu contei pra ele. Vocês vão dizer que eu fui meio mané: mas sério, não achava que fosse demérito nenhum. Tava todo mundo ali, a gente tava de férias na praia, e experimentava. Ficava com um, com outro. Era pra fingir que tava apaixonada? Ninguém tinha me explicado isso. Tá, eu devia mesmo ser meio mané. Excesso de sinceridade. Mas, sinceramente, não tinha me ocorrido que o cara pudesse se incomodar. E, menos ainda, que alguém fosse achar que aquele comportamento não era adequado. Pô, a gente tava experimentando. Não é assim que se começa qualquer coisa?

Por fim, teve aquele outro: esse já era namorado. E achava um monte de coisas sobre mim. Eu não sabia que ele achava, ele achava só pra ele. Mas aí um dia a gente conversou. Sobre experiências pregressas. Sobre como, onde, o quê. E a pessoa ficou abalada. Abaladíssima. Tipo precisou se afastar. Refletir. Ficou mal. Eu tinha abalado a imagem que ele tinha de mim. Com a minha vida. A minha vida não cabia na imagem que ele tinha de mim. Dessa vez aí eu entendi melhor: entendi e fiquei furiosa. Ele não tinha o direito. A minha vida era minha. Eu tava só contando pra ele. Ficar abalado, sério? Se eu não cabia na imagem que ele tinha de mim, ele que fosse arranjar alguém que coubesse.
Oras.

Ciranda

Dá cá um abraço, amasso!

Abraço.

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E calor. De corpos. De pele. Peles. Já pensou, imaginou, masturbou, tocou, gemeu sobre este instigante tema da humanidade, o abraço? Porque o que é um pau numa buceta senão um abraço. Ele rijo, ela molhada. Ele lá, ela lá, pinto, vulva, cacete, xoxota, molhado, molhada, entumescidos, clitóris, babas, gozos, abraço. Não é um tipão de abraço, este aí?

Sem contar que num tem analogia mais brincante que o cu abraçando o pau, apertando, doendo de amor, tem? Pode ter malabarismo, gel, suores, odores, mas tem lá um quê de abração, gostoso, forte, imantado. A cabeça da gente funciona aos abraços, imagino.

E tem abraço que é capô com  capô. Aquele encontro de formas, exuberares, toques, avessos, esfrega, fricciona, ama, clama, vexama, denguinho, abraço, abraço, abraço.

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Esse mundão todo devia era abraçar mais e falar menos. Porque a gente quando fala esquece de ouvir. E quando abraça, o abraço, o abraço, só tem calor se for entrega, sem protocolo, aperto, saudade, vontade. Desejo do calor do afago, do carinho recíproco, do amor que nasce de corpos que se aquecem. Abraço não tem gênero: no futebol, na cama, no boteco, na rua, na varanda, na esquina, no meio, no fim, no começo, no fim do entrevero, no começo da paz, nas intermináveis dessolidões tão importantes. Me abraça, abraço, abarco. Abarcar. Acalento, acalanto, acalentar, abraçar, canto.

Sem contar que o beijo, a língua na língua, a língua no falo, a língua no grelo, a língua no ânus, a língua no amor, a língua a milanesa num balcão de bar: quem é que não tem, na ponta das línguas, um abraço?

É isso, biscate é abraço.

Tem dia que é pra assim…

Ok. Dispara o despertador. E tem dia que a gente quer pensar na vida, escrever, tecer. Refletir. Mudar de opinião. Olhar, perceber, escutar. E tristeza, alegria, dúvida, incerteza, amor, dor, calcanhar, joanete ou cefaleia e colesterol. Ou música, fossa, cinema, filme, bêbado, novela, livro, cabelo, rede, internetes e isso aí tudo que tudo é.

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Mas tem dia… ô se tem… que a gente só quer é sorrir.

Não queria ficar aqui com mais delongas. Mas o fato é que tua língua nos meus seios me leva longe, numa trilha fantástica que vai acabar explodindo o pinto, naquele jorrar porra – e a deselegância discreta ou não da ejaculação fora de hora. Sim, seios. Homem tem seios.

E não é só o pinto que fica duro. Tem o grelo também, aquela cousa que decifrada com a língua desmancha você toda, em uma pele arrepiada, um cheiro de sexo que tem um quê de suor, mas tem perfume outro que exala e aumenta volumes, eretos. Mulheres tem sexo ereto.

E tem a bunda ou o cu. Que sabemos, molha, umedece, enriquece e aquiesce. E agora, o que é que vamos fazer com todos esses conceitos caixinhas e tal e qual de seios, peitos, duro, molhado, papai mamãe? Não queria ficar aqui com mais delongas, mesmo. Vamos?

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Estopim. Estupor. Entro. Saio. Entras, sai. Coloca, enfoca, maneja, mistura, chupa, engole, gole, matreira, eira, beira, sacode. Entende. Estoura. Espoca. Enforca, descabela. Ejacula, ejaculas, ejaculo. Sorri.

Sorri… “ser feliz é bem possível“.

O sorriso é gozo, desconfio.

Roteiros Biscates: “Play it again, Sam!”

Sempre divago, devaneio, sonho. E é naquele boteco da distante Tatooine, quando Luke e Obi-Wan buscam uma nave espacial para seguir viagem e dar origem à saga “Guerra nas Estrelas”. No meu sonho o boteco é do Rick Blaine e ele ajuda Obi-Wan, mesmo fingindo indiferença, a encontrar Hans Solo – que conversava com Ugarte. E que dias depois, longe das telas, alguma cantora de cabaré de três cabeças cantará algo parecido com a “Marseillaise” enquanto o bar é invadido por clones vestidos de branco e senhores representantes do Império. A cena toda já fiz e repeti, gravei, filmei, escrevi.

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Mas não só. Quando li – e, depois, assisti – Harry Potter nunca as cousas se esgotam ali no triângulo Harry, Rony, Hermione. Sempre imagino os corredores de Hogwarts e as conversas sobre “você sabe quem” longe do menino eleito, dos olhares de Dumbledore. Das conversas na sala comunal da Sonserina entre aqueles que não seguem Voldemort e por isso são perseguidos, calados, ofendidos. E de como estes ajudam – anônimos – na batalha final. E segue a cabeça girando a imaginar enredos, numa gostosa promiscuidade de ideias, de versões, de desvios dos textos originais. Ah…. aquele duelo final de Três homens e um conflito”….

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Quando me perguntam por que escrevo aqui ou do como me descobri biscate, gosto de imaginar ainda mais assim e assim. Porque aqui estamos buscando construir novas histórias, novos paradigmas, sair das caixinhas, mudar roteiros prontos e desvirtuando o que se considera dogma, regra, padrão. Sim, aqui cabe o Marrocos em Guerra nas Estrelas – até porque as imagens do filme foram filmadas na África Mediterrânea, Cabe, porque temos sonhos de outros mundos, outras possibilidades, outros roteiros. Na neblina, na tabacaria, na “Internacional” que toca na torre. Neste mundo cada vez mais árido é cada vez mais amplamente necessário um afago.

Sim, óbvio solar, nesses nossos roteiros teriam muito mais beijos, sexo, sacanagens. E como seria lindo o filme do dia em que o Batman sai do armário. Ele conta para a Mulher Maravilha e os dois saem para um mambo numa rua de Havana Velha.

E a gente sorri gargalhadas.

Do respiro preciso

Tem sido mesmo dias difíceis pra gente. Notícias arrasadoras, desassossegos, essa sensação que a gente anda mais retrocedendo que avançando. E amigues se estapeando nas redes sociais. E amigo que apela pra agressão pra te calar.  E debates arrogantes, fulanizadores, sem empatia.

E fica todo o mundo contando com o meteoro pra acabar com a bagaça e ver se a gente ressurge melhor. Ou nem ressurge. Que venham outros nós, outros eus, outros eles e elas. Conversa vai, conversa vem, a vontade é de pegar ali o bonde da Mafalda e descer do mundo. Fui.

Mas, aí. Na última terça (9), num colégio particular, de origem bem conservadora e ainda com proposta pedagógica bem convencional, estava eu. Com mais duas companheiras e amigas da Casa de Lua pra realizar uma roda de conversa sobre gênero com alunos do fundamental.

No começo, foi estranho. Calado. Até levamos uns vídeos de youtube, meio que pra animar, mas ninguém fazia perguntas. Ai, as perguntas! Pressão de professor. Nervoso de aluno. E a gente, nem uma coisa nem outra, ficava ali esperando… o meteoro, talvez?

E, de repente, ela levanta a mão e chama atenção pro tratamento que certas mídias estão dando pra Caitlyn Jenner. E foi um comentário tão acurado, sensível, com tantos cuidados no uso dos pronomes e dos artigos, tantos cuidados em não apelar pro fácil e transfóbico “era homem e virou mulher”, que já me empertiguei na cadeira.

Opa! Pensei. Vem lindeza por aí. E veio mesmo.

De onde veio essa vieram outras. Colocações interessadas, pertinentes e, principalmente, empáticas sobre pessoas trans. Sobre a equivocada e desonesta expressão “feminazi”. Sobre assedio. E o menino que quis entender por que mais pessoas não se assumem feministas. E se mudássemos o sufixo? Propôs. Sim, o sufixo. Ismo. Não o prefixo. Achei fofo. Não entendi nadinha, verdade. Mas, achei interessado. De quem anda pensando no assunto.

E saí da escola mais felizinha. Menos desalentada. Fiquei pensando em projetos e conversas que podemos desenvolver nas salas, nos pátios, parques e pistas de skates. Ainda que tenha gente que não queira deixar. Porque coisas boas vão acontecer, e já acontecem, a despeito das almas sebosas. Eu vi. Que tem gente linda e interessada. Que quero ser amiga deles.

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E tem a Diane Lima (que conheci no TEDx Women) e a avó dela, que respondia pra mãe de Diane quando esta queria usar o cabelo solto, “se a menina quer usar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo!”

Ô gente. Tem coisa mais sabida que isso? Avós. As amo.

#deixaocabelodameninanomundo

E, de repente, descubro que Elza Soares quer retocar a fênix que tatuou na batata da perna “porque sou uma delas, estou sempre renascendo de alguma coisa.” Ela simplesmente vai lançar um disco (justo com este nome!): “A Mulher do Fim do Mundo”, com músicas sobre sexo, morte e negritude.

Essa mulher, gente.

Essa mulher que decidiu que seu momento é se resolver com ela mesma. “Estava no quarto, sozinha, escutando Chet Baker, e falei: ‘Elza, quer casar comigo?’ A Soares disse: ‘Por enquanto, não.’”

Desculpa. Permaneço por aqui até saber de cor todas as músicas do novo CD. É que Diane, a avó de Diane, as meninas e os meninos do colégio ainda fazem essa bagaça valer a pena. Sei que a vida real anda ingrata. Mas, fico me apegando ao fato de que essas pequenas histórias também são vida real.

E ainda tem Elza. Elza existe. Elza renasce. Elza está aqui. Estou com ela.

 

Começar de Novo….

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Tive aos menos 4 momentos de viradas na minha vida. Momentos em que fui forçada a me reinventar pra sobreviver aos acontecimentos externos: gravidezes, separações, mortes.

Mas, também, finalmente superei a morte de um sonho: a carreira. Como milhares de brasilienses, sonhava em fazer carreira em um órgão público. Poderia se dizer que logrei êxito: passei num concurso e tomei posse, mas em 9 meses meu sonho se tornou pesadelo. Sofri assédio moral com gritos e berros, e eu, que sempre me achei inteligente, sempre fui reconhecida assim pelas pessoas, que no emprego anterior era reconhecidamente competente, fui chamada de burra, incompetente e, pior, preguiçosa. Autoestima virou pó.

Somado a outros fatores da minha vida naquele momento, esse contribuiu para uma depressão profunda da qual só vislumbro sair agora, mais de 2 anos depois. E na terapia tive de rever o tal sonho  de carreira. Terapia é vida.

Pois bem, é preciso muita força para admitir que não tenho mais esse sonho, que não ligo mais pra isso, que quero fazer outras coisas e achar outros caminhos na minha vida. É preciso também força interior para lidar quando te olham com desdém porque você não é nada, e não é mesmo, mas tá tudo ok, porque não é isso que importa. Vou lá, trabalho bem minhas horas diárias contratadas, e tchau. Não quero mais fazer do emprego que paga minhas contas o centro da minha existência. E isso está bom para mim. Quero descobrir outras coisa fora de lá.

Isso foi difícil decidir,  porque na vida moderna é o cartão de visitas do seu trabalho, o seu crachá, o seu currículo ou o seu lattes que definem grande parte do que o mundo externo vê e respeita em você. Aí é preciso desapego desse respeito, dessas convenções, desse desejo de reconhecimento externo para ser só você de novo em busca de você. De se sentir bem com você mesma e fazer algo que dê a você sentido e retorno. Seja lá o que for esse retorno. E porque o que importa menos é dinheiro e posição e mais paz de espírito e tempo pra se fazer o que gosta e estar com quem se ama.

É difícil fazer tudo isso quando você achava que aos 40 e poucos estaria tudo definido. Mas, olha que legal, aos 40 e poucos você sabe mais quem é você e as possibilidades estão todas abertas de novo.

É isso. Tudo pode ser recomeçado de novo.

Talvez um sorvete…

Queria nada, não. Outro dia mesmo, numa dessas megas torres blaster última geração que rasgam os céus da cidadona, mal consegui usar um elevador. Sim, um mero equipamento moderno. Sem botões, não sabia como subir, indicar andar, descer, parar. Bastava entrar e a máquina lá: prum. Minha cara de idiota e espanto.

Nem o celular sei usar. As “mileduas” pastas de arquivo, página de downloads, reconhecimento de voz,  aquele escarcéu todo de possibilidades. Queria era só fazer uma ligação, talvez: “cheguei.” “tudo bem.””como vai.”. Talvez usar a internete. Talvez um sorvete.

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A televisão? Ela grava, assovia, filma. Tem mais recursos que meu cérebro inútil, parado no tempo, perguntando a hora do jogo e preocupado porque vai perder o horário do filme. Queria nada, não. Ou talvez queira, porque nesse mundo tem sido assim o querer sem saber porquê. Nem a maldita regra do “por que porque porquê”…

Queria era um sorriso, talvez. Daqueles repletos, mesmo quando repete piada. Queria era um pau calibroso, durão, bonito, sempre a postos, sem que a porcaria do cartão de crédito ou a flacidez de ânimo estivessem ali, na espreita, na companhia, querendo algo que não sabe o quê. Queria era só um sorvete, de suco com água ou leite, congelado – sem gourmet, mesmo que feito daquela groselha antiquada.  Queria ler livro de papel, jornal de papel, mimeógrafo e colar cartaz de campanha política em poste, com soda cáustica e um cadinho daquela farinha de milho da embalagem amarela na calada do noite. Queria beber sem pressa mas no bar de sempre, sem deixar as calças numa cerveja super gostosa com preço de champanhe e retrogosto de alguma obra do romero brito.

Enfim, ando desconfiado que não caibo mais, não visto mais, não sonho mais, não quero mais…

Nessas horas, confesso, o único remédio possível é recordar, mastigar, saborear memórias, afetos, dengos e de sexos – molhado, amplo, geral, irrestrito, com sabor de quem chupa e se lambuza numa manga amarela doce, veludo, fiapo. No fundo, a tabacaria deveria ter o cigarro, a cerveja e uns libretos de foda.

A caretice é a última carta da tal mão invisível do mercado. Uma mão que não te masturba, mas só nos fode trazendo o prospecto das últimas novidades super lindas das torres de elevador inteligente internetes de oito mil gês e cacetes infláveis com pílulinhas azuis de um matrix sem fim….

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Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

 caetanoveloso

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