Além da piscadela…

Tem uma música do Caetano que diz em um de seus versos algo como “eu retribuo a piscadela do garoto de frete do Trianon, eu sei o que é bom.”. Durante os anos de colégio, colégio classe média mas bem na média de São Paulo, era comum os meninos caçoarem Caetano: “é gay.” Aliás, a ofensa comum era a associada ao gostar de alguém do mesmo sexo: gay, sapata, bichona, marica. Demorou muitos anos para que eu entendesse o “eu sei o que é bom” e que retribuir a piscadela do garoto do frete pode ter pouca cousa, mas bem pouca mesmo, a dizer sobre gostar de transar com homens ou mulheres. Tem a ver é com prazer, com empatia, com desejo e do reconhecer que o sexo deve ser gostoso, ainda que a gente não tenha a experiência ali na hora, no instante, no momento seguinte ou que nunca venha a ter, ou querer, nada além da piscadela.

Menino aprende desde cedinho a reprimir. Menino não acha menino bonito. Homem não acha homem bonito. Homem não beija homem. Retribuir a piscadela do garoto de frete, então, é atestado.  É um mundo obviamente equivocado aquele que consegue admitir que uma criança possa jogar um jogo eletrônico com o objetivo final de cortar a garganta do “inimigo”, com o sangue jorrando pela tela, mas não possa olhar outro menino e achá-lo… bonito.

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Este tipo perverso de repressão é que todo olhar passa a ser expressão da libido, de um desejo sexual. Um beijo nunca mais será só um beijo, uma expressão de se gostar, de prazer, de carinho. Perdemos a capacidade de sentir prazer, de gostar, e do carinho pelo que os outros sentem – o que importa é nossa percepção e só ela. Ali na piscadela, sabemos, há um convite, mas há sobretudo a possibilidade de prazer do outro. Um prazer que sabemos que deve ser bom, mesmo que não seja a expressão do meu desejo, do meu querer, do meu tesão.

Toda a repressão, desconfio, tem uma intenção egoísta, que nos afasta do coletivo. Tenho uma triste intuição que estamos naufragando numa sociedade onde o coletivo está sendo é formado por egoístas, um medonho paradoxo que resulta nisso que vemos todos os dias: o bullying sistemático com quem está fora da ordem.

Devíamos ouvir mais Caetano. Como cesta básica.

NOTA DA GERÊNCIA: E ler este texto de outra biscate que tá por aí, por aqui, falando de cuidar de meninos.

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Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

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Vem com a gente, vem.

A gente aqui do Biscate

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Biscates. Foto de Toni Miotto

É isso, a gente aqui do Biscate. Eu de vez em quando faço essas paradas, pra comentar e pra me alegrar. O Biscate surgiu assim, quase como uma brincadeira, uma resposta da Niara e da Luciana a uma frase da Martha Medeiros que dizia “mais vale uma mulher incrível do que uma coleção de biscates”. Causou revolta essa afirmação, como pode se ver aqui. Como assim, uma coleção? Como assim, separar as mulheres desse jeito, com uma frase que até minha avó acharia antiquada? Como assim, biscates não podem ser mulheres incríveis? Pois é. O Biscate Social Club é uma resposta, um grito de revolta.

E o tempo passou, as biscates foram se chegando, se agregando, se aproximando. Se identificando. Dizendo “eu também sou”. “Eu também faço parte”. Que mané mulher incrível X biscate. Lavou tá novo, dou pra quem quiser, não dou quando não quiser, e isso não diz nada de mim como mulher. Não dou régua a homem nenhum para me medir.

Aliás, os homens. Porque tem as biscas e os biscos, né. Tem homem também nesse nosso clube, permanente ou convidado, sambando com a gente, dando seu ponto de vista, fazendo contrapontos. Biscateando junto. Sem se preocupar com réguas ou preconceitos antiquados.

O Biscate balança, o Biscate já sobreviveu a chuvas e temporais, a Niara entendeu que era hora de partir para novos caminhos, a gente já pensou até em fechar a bagaça, mas… tamos aqui. Biscateando todo dia. Encontrando leitores, trocando ideias, fazendo caminho. Aprendendo, se misturando, fazendo festa e virando pelo avesso. Viralateando.

Esse texto é isso, uma vontade de comemorar a existência desse espaço de acolhimento e de luta, de reafirmar pertencimento, de contar que a gente ainda tem tanta história pela frente. Que a gente já tem alguma história pra trás. Que esse bloguinho transformou a gente, com essa identidade-biscate que diz tanta coisa.

O que me leva a pensar que vale um agradecimento à Martha Medeiros: obrigada, Martha, pois sem sua frase nonsense talvez o Biscate Social Club nunca tivesse existido. E a gente é que ia perder com isso.
Valeu, Martha!

Música de molhar a calcinha

Ensaio "Beleza Real". Foto de Bárbara Heckler.

Ensaio “Beleza Real”. Foto de Bárbara Heckler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E nessa polêmica toda de “50 Tons de Cinza” estava era me lembrando que os livros têm trilha sonora. Se não me engano, fãs compilaram tudo, numa seleção clichê que inclui até “I’m on fire”, do Bruce Springsteen. Claro!

Mas, ó, nem critico, não. Provavelmente, é a menor das questões da trilogia. Sem falar que, né, este texto aqui também está beeem provido de lugar-comum. Inclusive, minha dúvida no momento é: tem como música de molhar a calcinha fugir tanto assim do obvio? Mesmo que você me apresente aquela canção delicinha de uma banda indie norueguesa, pode mesmo ser melhor que “Lets get it on”?

Ouquei. Admito que estou falando de trilha sonora de motel, que já provoca formigamentos pelas obvias ilações que sugere. Bota aí as de Sade, Nina Simone, Marvin Gaye, Al Jarreau, Billy Paul, que molho a calcinha com todas as versões algo meio cafonas de “Your song“. E seguindo o fluxo, há quem molhe com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan e outros com Bryan Ferry, por quê, não?

E há quem alucine com “Besame Mucho“. Adoro demais “Samba para ti“, do Santana, mas, piro mesmo é com “Fogueira“, de Rô Rô. E o que dizer de “Tatuagem“, especificamente com Elis? Ou “Ne me quitte pas“, com Maysa, que é de fossa, mas pra mim de sexo?

Cartas de amor são ridículas. Será o tesão igual?

Eu tinha muito siricutico sublimado quando dançava música lenta nos bailinhos da turma do colégio. E aquele negócio de o menino passar a mão nas costas, a dança inteira, só no alise, e a gente ir se chegando, esbarrando os quadris e a parte de baixo de quando em quando?

E quando a dança deixava de ser dança e virava mesmo um abraço e uma carícia entre o cabelo e o pescoço, ainda mais com salão escuro, segundos antes do beijo, que nem sempre vinha, as vezes era só o sarrinho acanhando e um cheiro no cangote? E era bom. Bom mesmo.

Duvidar, sou capaz de sorrir safada até hoje se ouvir “We’ve got tonight“, que fez parte da trilha sonora da novela mais bafo do meu comecinho de adolescência. E a vozinha atrevida que soltava aos 11, 12 anos, quando cantarolava, me fazendo de distraída, sussurrando no ouvido do coleguinha “wo-ho, let me see…”, que só anos mais tarde descobri que era mesmo “from all that we see”?

Porque, né. A gente entende o que dá conta de entender. E fala o que convém na ocasião, fazendo o maior virundum malicioso dentro daquela ingenuidade toda. Eu nem sabia direito o que queria “see”, mas o “let me” saia assim, com sorrisinho nervoso de canto de boca, num pedido espertinho escondido no verso equivocado da música. Sim, amigues, sou das antigas. Já molhava a calcinha antes mesmo de vocês terem nascido.

Enfim, a maioria disso tem um cenário, uma lembrança, uma pessoa no meio ou várias. Mas, também tem aquela música que a gente se arrepia só de ouvir, do nada, não porque lembre alguém ou alguma situação, mas pela canção em si. Não tem?

Tem uma que me enlouquece, pela música mesmo, por essa interpretação maravilhosa. Tesão absoluto. Nem tenho memória específica de nada com ela, de primeiro namorado ou transa épica. É que acho a música fodástica (ui!) de verdade. Bom, se bem que tem esses dois juntos, lindos, tesudos, cúmplices, se querendo. É. Tem isso.

Como não gosto de complicar e posso ser bem evidente nas historias, e esse texto aqui é sobre obviedades, afinal de contas, minha melhor música de molhar a calcinha é esta! A de sempre. A de muitxs. Porque nessa vida, minha gente, tudo o que é gostoso começa mesmo é com Chico Buarque de Hollanda.

Segura essa, Christian Grey!

De carnaval, de verdades e dores de cada um

“Fácil, não é? Você me conta tudo e assim se livra da culpa.  Isso é egoísta, eu ficaria muito melhor se você ficasse calado e guardasse a culpa para você. Mas tem essa história de verdade. A verdade é superestimada”.

(Norma, em “Felizes para sempre?”)

Achei espetacular essa fala aí, da personagem interpretada pela Selma Egrei, que é uma grande atriz, dita com um misto de raiva e desprezo pro marido. Porque toca em um ponto essencial: tem quem conta, tem quem ouve. O que a gente conta não tem a ver com o que o outro ouve, necessariamente. 

Me lembrou da primeira vez que eu tive contato com essa questão e seus meandros. Eu tinha 17 anos e um namorado que não gostava de carnaval. Fui pra Olinda e ele ficou aqui. Tomei duas doses de pau do índio (favor não fazerem isso) e fiquei com outro cara o carnaval inteiro.
Fiquei, e era carnaval.
Quando voltei pro Rio, a primeira coisa que fiz foi contar pro meu namorado. De supetão. Era uma história de carnaval, pra mim tava claro. Não era nada sério. Só brincadeira.
Aí eu vi que  a discussão da “verdade”, nessa história aí, não fazia sentido nenhum. Que o que eu tinha vivido não era o que ele escutava ou sentia, e que nada, nada justificava a dor que eu causava a ele, com a desculpa de “ser sincera”. Na minha percepção, eram várias dores, inclusive, em camadas: uma era o fato concreto, eu com outro cara, que ele ficava revivendo e com o qual se torturava. A outra era a dor dele ver que eu não estava penitente como ele esperava. Não era que eu não sofria: não queria estar causando aquela dor a uma pessoa de quem eu gostava, claro que não. Mas era isso, eu tinha ficado com um cara no carnaval. Não considerava aquilo tão grave, não me sentia tão culpada assim, sentia o abismo que havia entre a minha percepção e a dele, e que só aumentava a cada conversa.
E foi isso, um desentendimento só. Uma conversa e uma verdade que não existiam, verdades que se esbarravam e que se machucavam uma à outra.
Esse texto não pretende dar lições de moral a ninguém, claro. Cada um sabe dos seus acordos e das suas possibilidades. A intenção aqui é só pensar um pouquinho mais sobre esse assunto fugidio, a “verdade”, o que se diz, o que se cala, como um sente, como o outro recebe. O que é possível partilhar, compartilhar, viver junto. O que não é. O risco permanente que é viver no mundo, se expor no mundo, aparecer. As escolhas que se faz, as consequências dessas escolhas.
Não sei, de verdade, nem quero discutir, se se deve ou não contar, o que se deve ou não contar (porque, é claro, o buraco é muito mais embaixo, e a gente pode se encantar de forma plena por outra pessoa sem nunca ultrapassar os limites impostos pela moral vigente. Isso pode. Ninguém discute.). Acho mesmo que cada um sabe de si. Do que sente, do que faz. De como lida com isso. Mas estou convencida de que certas sinceridades servem apenas para tirar o fardo da culpa da pessoa que resolve ser sincera, e jogá-lo em cima da outra pessoa. E vale a pena pensar um pouco sobre isso. Tudo são escolhas, sempre. Narrativas, cada um tem a sua. É tão mais fácil classificar e categorizar. Fica parecendo tudo tão arrumadinho. Só que não.
Carnaval

Para tudo e um jeito

Estou aqui a matutar trepadas…

corpo

Jeitos e jeitos de encontrar um jeito de te pegar de jeito. Na verdade, nos pegarmos. Pegarmos, de jeito, no jeito, leito, sem pudores, com suores, gozos, labaredas e dedos. E línguas. E falo e vulva, e pau e buceta, e caralho e xoxota e qualquer canção que trate de dois – ou mais, por que não? – corpos se fodendo. Estou aqui a imaginar que quando abres estas páginas de blogue não pensas o mesmo e já tira minha roupa, já chupa meu talo, já pensa barbaridades que só quem trepa é capaz de pensar. De cu, de lambida, de salto alto, de chicote, serpentina, de quatro, de papai e de mamãe, de sabão, de vaselina, de sessenta e noves vezes dez e que mais de cálculo e meto, enfio, tiro, ponho, retiro, recebo, levo, passo o cheque e bota e camisola de oncinha e sei lá mais qual linha… que eu tô mesmo é tarado e pensando num jeito. Num jeito… que jeito?

Mas aí a gente se encontra no mundo, de roupa, de tecidos, de teias emaranhadas, de vizinhos, de opiniões alheias, de o que vão pensar de mim, e tem que fingir que não estamos pensando num jeito – e é assim que eu percebo: Gabo tinha razão e cada um vem ao mundo com suas trepadas contadas e a gente perde um montão delas pelas simples razão que insistimos nesse negócio de sexo sagrado, é amor, é sei lá namoro, casamento, teto, afeto. É jeito, desconfio. E volto aqui a matutar trepadas, inventar argumentos para um filme de foda, sonhando com um enredo que ao cabo acabe com uma transa, um nexo, um amplexo, um ósculo sem fim de boca a boca, de lábio a lábios, de fio a pavio terra e tudo.

Então, imagino é um jeito de um jeito que quando acabares este texto tu esteja – no mínimo – molhada e dê…

Um jeito… um jeitinho… um tesão.

Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

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Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

Muchacha en la ventana: un culo. Una inspiración

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Tenho uma reprodução bastante digna desse quadro em casa. Tão boa que a emolduramos de um jeito lindo, dando a chiqueza que ela merece. Quem olha de longe (e não conhece a origem, obviamente) pensa até que é original. Rá!

“Muchacha en la ventana” (ou “Figura en una finestra” ou “Figura en una ventana”) é uma famosa pintura de Salvador Dalí, de 1925, e retrata Anna María, sua irmã e principal modelo por anos (até que ele conhecesse Gala, sua mulher e musa até a morte).

Eu gosto muito mesmo desse quadro (aí pelo texto botei uns links para algumas rápidas e boas análises artísticas da pintura). Mas, passei a ter um xodó maior ainda quando, uns 2 anos atrás, Lucas, meu filho caçula, afirmou, perguntando:

– Mamãe, é você?!

Na verdade, outras pessoas já me tinham dito isso antes e outras disseram depois: que acreditavam que a retratada fosse eu. Mas, vindo dele, me fez dar mais atenção.

Preciso nem dizer que fico mega envaidecida, ne? “Quem me dera” é o que costumo responder pra quem ainda faz esse comentário. Principalmente depois do comentário do Lucas, acabei indo atrás pra ver se encontrava mais informações sobre a modelo de “Muchacha en la ventana” e qual não foi meu prazer ao descobrir em Anna María uma mulher realmente interessantíssima, interlocutora sagaz e inteligente, de despertar paixões.

Em minhas andanças rápidas pelo Google, encontrei este post, que achei pura delícia, no qual o autor comenta o seguinte sobre “Muchacha en la ventana”:

“El culo es la parte más daliniana del cuerpo. Y este es el mejor culo pintado por Dalí, el de su hermana, en una mezcla misteriosa de belleza comestible y voluptuosidad incestuosa.”

E vai mais além, porque não foi apenas o irmão que Anna María teria encantado. Em umas férias, ela teria conhecido o poeta García Lorca e a partir daí iniciado uma intensa troca de cartas com ele:

“El epistolario Lorca-Ana María es de una ternura deliciosa, con arrebatos atormentados de Lorca. ¿Hubo algo entre ellos? Yo apuesto a que sí. La admiración de Salvador por su hermana sólo fue superada por la del poeta granadino, que la tuvo como diosa de una nueva religión y musa de sus desvelos artísticos.”

Quando ela morreu, em 1989, o jornal “El País” publicou:

“Anna María compartió desde la infancia el universo de su hermano. Entendía sus gestos y excentricidades, e interpretaba su fantasía y tomaba parte en las bromas y juegos, a veces impenetrables, de Salvador. Fue compañera ideal, por su inteligencia aguda y penetrante, y su carácter alegre y divertido. Cuando la conoció Federico García Lorca, en la primavera de 1925, aquella camaradería fue una realidad insólita. En tiempos en que la mujer permanecía, social y culturalmente, marginada del mundo de los hombres, Anna María formaba parte del grupo de amigos y compañeros de su hermano. Fue atentísima testigo de la obra de Salvador y su más asidua modelo de la etapa plástica esencial del pintor de los años diez.”

Pode até parecer que ela ficava ali, orbitando ao redor de gênios, no único espaço que lhe era concedido e que, num primeiro olhar, não era o de protagonista. Mas, considerando o contexto da época e a intensidade de sentimentos e inspirações que essa mulher parece ter provocado, só consigo vê-la absolutamente fascinante – senhora de situações, com esse espírito biscate, moleque, de raiz, que a gente adora! E, finalmente, sendo eternizada por quadros como “Muchacha en la ventana”.

A pintura original está exposta no museu “La Reina Sofía”, em Madri.

PS: Se alguém quiser complementar esse texto, dando mais informações, vou adorar!

Reticências, cachecol e morte

Está lá, na marca dos dentes. Uma marca funda, um roxo. Um chupão. Meu pescoço. Tive que usar cachecol. Não devia. Não só pelo calor. A gente não devia esconder essas marcas… Lá naquela mordida fomos, estivemos, nascemos. E morremos. A gente anda com receio deste ser, estar, nascer… morrer.

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Sempre tem um texto que compara o orgasmo a uma “pequena morte”. Naqueles doze segundos, ou treze, catorze ou onze, que antecedem tua morte eu gosto de notar aquele ar rarefeito, aquele instante onde pelos improváveis se eriçam. Aliás, gosto dos sinônimos de eriçar… arrepiar, hirto. Ereto, como as pontas hirtas dos sexos, meu e teu. Gosto de notar teu bigode suado, buço. Me lembram hormônios, calores, sabores. Não deviam deixar que os amantes tivessem que correr, nunca. Aquele abraço com cheiro de sexo e a eternidade combinam tão bem, como engate, encaixe, língua, toque, dedo, falo, vulva, cu e heresias múltiplas.

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Tem isso, também, que acho próprio. Estas heresias nos deixam humanos, com fome, sede e saudades. E não é que são os hereges que são mortais, queimam em fogueiras e em desejos, que tem começo, meio e fim? Os deuses e os perfeitos é que são eternos, missas, notícias no caderno fúnebre com epopeias para narrar em condolências. Outros serão lembrados por mais um trago, por mais um gosto, por mais uma foda. Morrer é deixar de foder…

Não devia ter usado o cachecol, definitivamente. Ou devia ter ficado nu o dia todo. O vizinho ia estranhar, o porteiro ia ouvir reclamação e esculhambação, o chefe ia estranhar e o  fiscal da vida, lá no coletivo, ia cochichar que impurezas assim degastam o mundo. Até porque, hoje de manhã, você foi embora. Deixou só um perfume diferente no sabonete. Morreu, também.

Talvez haja outro recomeço, outro nascimento, outro chupão, outra pequena morte. Mas hoje, hoje, eu não devia ter disfarçado nada. Esse maldito cachecol……..

E uns infinitos de reticências.

Pequenos Prazeres: Delicatessens

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates

#PequenosPrazeres

viva-a-intimidade

Então….

Poucas, mas poucas, poucas mesmo, cousas na via são tão boas como o cheiro dum refogar. A panela quente, o azeite. Aquele barulho. O barulho… Nem sei qual onomatopeia usar: zizzzzuuuuszizzzzz. A cebola, picada. Mais barulho. O alho…. E aquele cheiro que toma conta da cozinha, da casa, da alma. O que vai ser depois? Pouca importa, se tomate, se espinafre, se outro cozido qualquer. Aquele cheiro pela casa perfuma toda a vida….

Acordar. E encontrar lá aquele pó de café. Sim, nem máquina, nem mesquinharia em sachê, nem solúvel. O pó. Com cuidado no coador. A água quente, mas nem tanto borbulhar, esparramando-se pelo pó. Ouçam o cheiro… pergunto se pode existir cousa tão ébria quanto este primeiro cheiro de café. Não há, certamente. Não há.

Teus pés, descalços. Tua sola do pé brincando com as minhas. Teus pés me tocando. Tocam e retocam, panturilha, joelho, coxa, pau. Brincando. Teus pés, sem roupa. Aquele formato de pé, da parte alta. Sem salto, sobressalto. Sei lá, teria mil dias para me perder por ali.

Puxa, aquele filme comédia romance final feliz bobinho. Delícia, Demi Moore, Rob Lowe, ela não me aparece de madrugada para dar uma trepada com ele, benzadeusas! Filme bom… Como bolo de fubá com café. Como refogado de bife acebolado. Como pé com pé. Deita aqui, deita. Me faz um cafuné. Tem cheiro melhor que este do teu pescoço? Me faz um dengo, beijo. Aumenta o som. Abaixa o som. Ajusta a imagem, vai….

“Neguinho, tem um texto tão gostosinho no blogue de vocês… me deu um tesão, sabia….”.

Na vitrola, tocava Marvin Gaye, antes da ciumeira dos cabides….

Desavergonhas em girassol

De manhã, manhãzinha, a gente trocou beijos. Beijos mais longos que os habituais matinais, que a gente corre sempre e desespera sempre com a correria deste mundo todo. E foi que a gente se tocou ali, aqui, e aquela cousa toda e molha, acorda, geme e vai e foi. Acaba que atrasou um pouco o dia e animou a vida, como tem que ser.

Mas devia ter dito mais… Devia, naquele trajeto de casa para o ônibus, ter mandado mensagem, flor, dito cousas de ouvido, feito milongas. No trajeto. Devia ter mandado mensagem dizendo que ali naquela esquina tem um desses motéis de rua, sem estacionamento, desses que a gente vê as desenvergonhas todas caminhando  e fica sempre invejoso das coragens e molhações alheias. Que o período é de tantos reais e que ninguém ia sentir falta da gente se a gente ficasse lá durante uma horinha inha que fosse. Se melecando. E que viesse sem roupa debaixo, que é para modo de ver poesia mesmo, toda a poesia.

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição "Câmaras de Descompressão", http://vitreoformas.tumblr.com/post/83468983639/eduardo-marin-camara-de-descompressao-2013

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição “Câmaras de Descompressão”,

Não disse. A gente quase nunca diz. E a vida segue no extrato bancário, no almoço em pé, naquele contrato que a gente tem que fechar para poder pagar aluguel, prestação, saúde, escola, escola de língua, mestrado, doutorado, pós. Pra poder viajar sei lá para onde naquela semaninha que deu para tirar. Mais prestação, mais caminhão, mais cartão, o de crédito, não o das flores.

Aliás, faz um tempo também que não levo flores. Laranjas, pretas, rosas, azuis. Lantejoulas. Porque o problema da gente não é o falta de gostar, de abraçar, de enamorar. O nosso maior problema é esquecer da gente para ser outra cousa, que a rotina esta mágoa vai desencantando. E nem falo de amores fiéis, que esses podem ser os mais chatos ou os mais lindos também. Falo de gente, flor, girassol, amor. De texto biscate, essas manias que a gente tem de querer o molhado. De regar, sempre.

girassol-6012

Eu queria ser florista. Diria no bilhete. A cada girassol, e sabedor do sorriso que nasce quando a gente ganha um girassol, ia ser um cadinho voyer daquele remexo todo, daqueles enlaces, encaixes, madeixas, deixa que eu te mordo morde também.

É preciso um pouco de girassol na vida de toda a gente, desconfio.

Vivendo e crescendo

Vejo muitos posts de amigos e amigas explicando suas origens e como isso se relaciona com suas escolhas atuais e quem são hoje em dia e toda vez penso em falar um pouco de mim e de onde vim mas sempre me breco num ponto confuso que é quem sou eu hoje.

crescendo

Sou filha de pais ateus, de esquerda e de classe média plano piloto brasiliense. Estudei nas melhores escolas que eles puderam pagar (meu pai nunca teve carro zero, mas sempre tivemos boas escolas e muitos livros) e frequentei  um clube de elite (clube é a praia de Brasília). Escolhi meu curso – Direito – pra fazer o que todo brasiliense faz: concurso público e ter uma vida estável.

Eu malhava, me bronzeava, comprava ( muito) as roupas das marcas certas, já fui loira e queria ser procuradora. Mas aí veio uma gravidez e tudo mudou. Não fiz a pós e o mestrado que sonhava fazer, não fiz concurso para procurador, mas tenho dois filhos bacanas e lindos. Fui trabalhar em um lugar com muita gente legal e com origens diferente da minha – a maioria trabalhou para pagar a faculdade e não ganhou o primeiro carro de papai e mamãe, como eu ganhei. Gostavam de coisas que eu não conhecia e aprendi a curtir. Aprendi demais lá.

Sempre me defini como feminista, influência do Malu Mulher (juro) e de Simone de Beauvoir e Rose Marie Muraro, que li aos 20 anos. Mas conheci o ativismo feminista na internet e nossa… como mudei!  Menos fútil, menos materialista, menos preocupada com o que pensam de mim, menos insegura. E mais cheia de amigas e amigos que nunca.

Mas parte de mim ainda é a menina dondoca e patricinha que só queria ter sucesso profissional, ser loira e linda e comprar coisas bonitas. Aí me pego pensando em comprar e gastar e ser algo para alguém admirar e o meu outro eu diz: ACORDA! Você quer ser isso por você mesma ou pelo olhar dos outros? E sempre é a tal da aprovação. Aí eu acordo do sonho-pesadelo e dou a volta por cima de mim mesma me relembrando que hoje o ser importa mais que o ter, que me sinto mais completa assim, que quem me ama me ama como sou. Claro que isso tudo a base de muito diálogo interno e muita terapia (recomendo terapia, terapia salva) e quase aos 43 tenho que vir me reformulando e reconhecendo a mim mesma permanentemente. Nunca pensei que chegaria aos 40 e poucos ainda insegura, mas de outras formas, acho que esse negócio de crescer não para nunca né?

 

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