Uma biscate de fé

 

Fé.

Fé em qualquer coisa. Em si mesmo, no outro, na poesia, na tarde que cai em nuvens negras, na chuva, no dia que termina e nunca mais amanhece o mesmo, na continuidade, nos ciclos, nas incógnitas.

Fé na vida.

Essa vida que desponta nova com o novo ano. Fé nas tantas possibilidades de recomeços. Fé na gente que nunca amanhece o mesmo, nos mergulhos de quem vai até o fundo para nascer de novo. Fé nessa gente que ri e tem vontade de alegria, nos nossos olhos pequenos diante das perguntas sem resposta, nos seus olhos que me miram a alma e me inspiram ser quem eu ainda não sou.

Fé em qualquer coisa que não tem nome, em tudo aquilo que eu ainda não sei, em tantas verdades partilhadas. Fé em verdade nenhuma de coisa nenhuma. Fé até nos tantos erros cometidos, que fazem a gente ser humano e querer mais, e querer mais e melhor.

2013 é número novo e é preciso fé. Fé de que existe gozo no fim do túnel, de que existe felicidade no fim do gozo, de que existe algo além de nossas mãos dadas e de nossos corpos unidos, de que é possível renovar-se sempre a cada dia. Fé de que existe união, e de que a esperança é verde e está reluzindo no nosso jardim. Fé na próxima ninhada, nos pés descalços sentindo a grama molhada, no carinho impensado, nos beijos roubados, nos porres sem motivo, na gente embriagada de vontade de vida.

Que tudo que foi ruim fique lá atrás, e que o que for ruim venha para ser grandeza. Que as tempestades fortes deixem a terra úmida para próximas e profícuas colheitas. Maçãs vermelhas. Apetites fartos. Sexo aos galopes. Risos largos. Renovações.

Axé!

Ser Biscate? Aprendi na Igreja

#AlmaBiscate
Por Luciana Nepomuceno

borboleta_pretaborboleta_preta

ilustração_mariamadalena lendo e borboleteando

Ela trepa. Ou não. Só se quiser, com quem quiser, mas não sempre que quer, infelizmente. Essa biscate se debruça na janela, vê a vida passando e faz fiu-fiu pra ela, enxerida e animada. Essa biscate canta alto, lavando a louça, e baixinho, lavando a alma. Porque uma biscate faz essas coisas de quem vive: limpa a casa, cozinha e, vez ou outra, sente o oco no peito e lembra de chorar. Essa biscate troca o dia pela noite, manda mensagem de Natal atrasada e bebe sozinha que os amigos ficaram do outro lado do mar. Essa biscate toma dois banhos por dia e ri de si mesma, tremendo de frio na frente do espelho borrado de vapor. Uma biscate esquece futuros e vive as alegrias que se apresentam. Viaja muito, essa biscate e deixa o olhar se perder na estrada como se fosse em encontros. Dorme de conchinha, vez ou outra, mas não se importa de ficar sozinha. Se sabe ótima companhia e descobre a nova cidade, rindo alto nas esquinas e pedindo cerveja nas pequenas vendinhas escondidas nas ladeiras. Essa biscate paquera no metrô, só pra não esquecer como é. Essa biscate soletra saudade e escreve emails doloridos pro filho. Outros dias não liga pra casa nem pra dar bom dia. Essa biscate passa a noite acordada, consolando a amiga, mas trocou o telefone pelo skype. Essa biscate diz sim. E não. Diz quando, encolhida na cama. Biscate tem cerveja na geladeira e se dedica a aprender outros sabores tão longe dos seus. Tem camisinhas na gaveta ao lado da cama. E livros empilhados no travesseiro. Essa biscate gosta de massagem no pé, banho de mar e mordidinhas ao pé do ouvido. Essa biscate curte palavras de ordem, movimento na rua e de uma série de revoluções por minuto. Essa biscate se preocupa. E se esquece. Dança na rua. Pula de um pé só. Compra guarda-chuva lilás. Essa biscate paga suas contas, paga mico, pede passagem. Samba sozinha, na rua e na lua. Essa biscate é em fragmentos e se faz na beleza de se saber senhora desses pedacinhos todos que, juntos, soletra assim: eu.

Esse texto aí em cima foi inspirado no primeiro post que escrevi aqui pro Biscate. Um e outro dizem da minha alma biscate. Como, aliás, cada um dos que postei por aqui. Entre mulher incrível e biscate, não tive dúvida: biscate. Eu sou biscate. Eu sou o Biscate (e o Biscate é cada um de nós, cada escrevente, cada leitor, cada um que divulga…). Dizer como cheguei a isso é tarefa que não dou conta, se soubesse psicologia e sociologia estavam resolvidas. Sei que me vi em cada post de #AlmaBiscate aqui deslindada. Relutei muito em escrever o restinho que não apareceu ainda. Porque eu sei que é bem esquisito dizer que grande parte da minha biscatagem eu aprendi na Igreja. Aquela mesma, Católica Romana, com um pezinho no ziriguindum cearense.

Uma das coisas que lembro, preparação da 1ª Eucaristia e a Ir. Eneida dizendo: quando Deus quis que Maria ficasse grávida de um filho dele não perguntou pra o pai da Maria nem pro irmão nem pro noivo de Maria. Perguntou pra ela e foi ela quem disse sim… e houve grande regozijo. Aprendi: é a mulher que sabe do seu corpo, da sua vontade e dizer sim é bem gostosinho.

Lembro das aulas de interpretação de texto com as histórias de Rute, Ester e Judite. Foi lá que aprendi: não se deve temer a sexualidade. Nem seu uso nem seu usufruto. Outra coisa, essencial pra minha biscatagem: cada pessoa é única, insubstituível, importante na sua particularidade. Como  diria o Gonzaga: essa égua eu não vendo, não troco, nem dou.

Lembro dos meus pais participando do Encontro de Casais com Cristo, lembro da casa invadida por pessoas em festa, luzes apagadas, todo mundo cantando, o casal valsando e o clima de recordação, promessa e sexo quase palpável no “beija, beija, beija” do final. Aprendi: intimidade é essa beleza.

Lembro do meu padre querido dizendo que depois do primeiro milagre Jesus não podia ver um balde dágua…e se não foi ali que aprendi a rir, foi um dos espaços em que entendi que rir de si mesmo é uma libertação. Foi com a Teologia da Libertação que aprendi o que era uma vaga intuição: o conceito de classe. E que a corda sempre rompe do lado do mais pobre. E, mais ainda, da mulher mais pobre. Foi lá que aprendi que luta rima com prazer. E com corpo que dança.

Lembro das Romarias da Terra, mulheres fortes e sensuais puxando a fila. Lembro dos Encontros de Jovens, todo mundo dormindo nos mesmos quartos, sem diferença de gênero. Lembro de namorar todos os moços do mesmo grupo de jovens e nunca ser apontada, julgada, rotulada.

Nunca fui religiosa, nunca tive aquela centelha, nunca tive fé, a não ser na vida, no homem, no que virá. Hoje, ainda menos, não digo atéia porque nem nisso acredito. Mas lembro. Lembro das palavras que foram ganhando sentido feito desfiar um rosário: liberdade, respeito, diferença, tolerância, gozo. Foi na Igreja que aprendi: o corpo pode, o corpo quer, o corpo é. O meu. O do outro. O da outra. Depois veio Monsieur Freud e outros aprendizados mais, mas isso fica pra uma outra conversa. Bem biscate.

Quem tem fama…

#AlmaBiscate
Por Renata Lima

Não nasci biscate.

Me fiz biscate.

Nasci mineira, da tradicional família.

Mas sou ousada (palavras, em tom elogioso, de meu pai).

E por pensar diferente de alguns muitos e muitas, por agir diferente (nem sempre melhor, claro), muito nova, sem mesmo provar o gosto da fruta, já fui tachada de má-companhia.

Decorrente da língua de jovens homens que seguiram (seguem?) o roteiro, de falar mais do que realmente fizeram, de contar como vantagem, o que pra nós, mulheres, tem que ficar escondido.

E o primeiro namoradinho, tadinho, veio com tanta sede ao pote, achando que eu era… galinha, fácil, biscate…

Não era, ainda.

E ele se descobriu namorando uma jovem da TFM, com um pai zeloso e horários para chegar. Depois do primeiro “avanço” e do esclarecimento, o temor de se/me comprometer. E ele saia da minha casa, onde me deixava, virgem, pura, intacta, e ia se encontrar com uma ex (soube disso anos e anos depois, pela ex, imagine que mundo pequeno… realmente, Ovorizonte. )

O fato é que um dos primeiros caras que beijei, em uma festa, num canto, disse pra todo o colégio que me “comera”. E todos acreditaram… menos eu, que só fiquei sabendo mais de ano depois.

A verdade é que a fama não me fez deitar na cama. Pelo contrário. Por mais que eu quisesse, as vezes, temia o momento. Era romântica, jovenzinha, e queria toda a coisa de luz de velas, declarações de amor e um príncipe no cavalo branco.

Vieram príncipes. E sapos. E ogros. E dragões.

E demorei muito, muito tempo, para realmente descobrir o que eu desejava. Desejo: Amor. Respeito.

Sexo.

No fim das contas, com um ou com vários, o que define uma biscate, ao menos para os outros, é uma mulher admitir, em público, que gosta de sexo. E que faz.

Com amor, sem amor.

Mas sempre, com respeito. Respeito por si, respeito pelo parceiro.

Respeito pelos limites e pelos momentos uns dos outros.

Sempre questionei tantos duplos padrões, tantas coisas que meu irmão, mais novo, podia fazer, e eu não. Horários, locais. Mas admito que tive mais liberdade que a maioria das colegas da minha idade. Para as mães delas, eu era muito “solta”.

Hoje, me identifico cada vez mais com o texto da Márcia, biscate convidada, sobre ser Biscate Loser.

Sim, eu sou.

Ainda que não biscateie tanto quanto desejaria (ou quanto as vezes parece que biscateio), minha biscatagem é constante.

E é constante na busca da coerência de não julgar, de não medir outras mulheres (e até homens, claro!) pela mesma régua com a qual fui medida.

Nem sempre é fácil, e as vezes escorrego. Em pensamentos, e até em palavras. Mas me arrependo (sim, Jesus, vem e me chama de Madalena, seu lindo!) e logo volto a persistir no propósito:

Se não veio o anjo e me disse para ser biscate na vida, eu mesma decido e digo que sim, eu sou biscate, prá vida!!

E com a ajuda do super time de biscates super poderosas (e poderosos), sei que vencerei!

Uma Biscate De Família

#AlmaBiscate
Por Renata Lins

 

Pois é, gente. Sou biscate de família, confesso. Não tenho nem muito mérito nisso: a biscatagem corre solta há várias gerações. Da minha bisavó paterna Joana, dita Janinha, pouco sei: mas sei que ela causou escândalo em Areia, sua cidade natal, quando cortou os cabelos curtos, à la garçonne; quando andou a cavalo “como homem”, pernas abertas, e não de lado. É ou não é para ter orgulho?

Minha avó Maria, filha dela, parecia extremamente comportada. Silenciosa, ponderada, elegante. No entanto, botou os filhos – sob reprovação de boa parte da família católica – no Colégio Americano Batista do Recife: o motivo? Queria que seus filhos estudassem em colégio misto. Só tinha aquele. Minha avó não gostava desse negócio de homem prum lado, mulher pro outro. Quando resolveu deixar de pintar o cabelo e assumir o branco, foi no cabelereiro e pediu pro cara passar a máquina. A um. Essa eu me lembro. Tem foto linda da minha avó, toda sorridente, cabelinhos espetados. Minha avó só fazia o que lhe dava na telha.

De tia Sônia, irmã do meu pai, vou falar pouco aqui: dia desses faço um post só pra ela. Basta contar que ela foi presa e torturada pela ditadura. Guardou sequelas, mas não arrependimentos: nunca, nunca na vida vi minha tia dizer que deveria ter feito outra coisa. Tia Sônia, digna herdeira da linhagem Janinha-Maria. Dona do seu próprio nariz. Apesar do sofrimento.

Minha mãe? Biscate 100%. Das seis filhas do meu avô Pimentel,  a única que foi para a  faculdade: imagino que pra isso deva ter cantado meu avô, que esse era o jeito da minha mãe conseguir exatinho o que queria (e isso, eu, que bato de frente, nunca aprendi). Minha mãe que tinha sido proibida pelo meu avô de namorar tal ou qual sujeito, e combinou com a madre superiora da sua escola que iria ver o rapaz ali mesmo, na escola. Com o argumento razoável que ela iria vê-lo de qualquer jeito: será que a madre superiora não preferia que fosse sob as vistas dela? Minha mãe morena e seus microbiquínis, suas gargalhadas. Biscate toda vida. Casou com meu pai por procuração, porque ele já tinha saído do Recife após o golpe de 64 – e por isso não se formou, já que do casamento eles foram pra Paris e depois pra Argélia, onde eu quase nasci. Aliás, no dia em que saiu da maternidade, foi  a um churrasco… comigo. “Você tava bem, ia mamar, tinha um quartinho onde eu podia botar o moisés”, explicou.

Então, quando chegou a minha vez, acho que não tinha nem muito jeito, não levo nem muito crédito: não há saída senão fazer o próprio caminho, escolher as próprias dores, viver  as alegrias. Conquistar as gargalhadas, soltar o choro.

O que eu demorei a aprender, e que a coragem de vir fazer parte do time incrível do Biscate Social Club me ensinou, foi como é bom dizer-se. Contar-se. Deixar-se ver. Abrir esse espaço pra mais gente. Eu sou do tipo privado, introvertido. Por muito tempo eram vastas emoções e pensamentos imperfeitos guardados dentro. Ou escritos só pra mim, em cadernos trancados. Comecei a escrever “pra fora” porque ganhei um blog de presente no ano passado: obrigada, Cacá! E, pelas redes, conheci as super-fundadoras do Biscate, Niara e Luciana. Primeiro pelas redes, depois pelas ruas: amor eterno, encontro de almas. Mas mesmo assim foi devagar. Fui chegando de mansinho, olhando, visitando. Depois, como biscate convidada. E, finalmente, cheguei de verdade.
Ufa. Achei meu canto. Um canto de militância com muitas gargalhadas. Um canto de liberdade como poucos. Primeiro ano. Lindamente primeiro ano. Vamos mais!

Biscate de berço

#AlmaBiscate
Por Lis Lemos

Era mais ou menos assim que eu queria ser

Era mais ou menos assim que eu queria ser

“Menina não senta de perna aberta” “Menina não brinca de carrinho” “Você tem que se casar virgem” “Se você continuar assim nunca vai arrumar alguém que te queira” “Você pergunta demais, a vida é assim e pronto”.

Talvez eu sempre tenha sabido que nunca fui “moça pra casar”. Aliás, sempre achei meio tacanho essa história de separar as mulheres entre as boas e as más.

Talvez porque a minha linhagem seja de mulheres ditas perdidas, que se esforçaram pouco pra entrar na caixinha que lhe empurraram. Começou na minha bisavó (que até onde sei teve três maridos oficiais) e torço que não pare em mim. Talvez porque minha mãe não tinha marido e nem o meu avô era o marido da minha avó.

Talvez porque uma das imagens que eu guardo na lembrança é de uma propaganda do Domus (jabá, estamos aqui) em que aparecia uma mulher linda, sensual, num vestido vermelho jogando sinuca. Não lembro direito da propaganda, mas eu queria ser igual àquela mulher quando crescesse. (não, eu não achei esse vídeo). Ou talvez porque eu adorasse “Elvira, a Rainha das Trevas”, e queria maquiagem, roupa, e peitos iguais ao dela.

Daí que há um ano eu descobri o Biscate Social Clube e ele foi entrando bem devagarinho (ui, ui) na minha vida. Eu lia quase todos os dias e percebia que esse era (é) o lugar, o blog, o clube que mais bem me representava e onde eu me sentia acolhida. Toda vez que eu lia um texto pensava: “era isso o que eu queria dizer”. Mas, ao mesmo tempo em que adorava aquelas palavras todas, pensava de novo: “ah, eu não teria coragem nunca pra dizer das minhas biscatices por aí”. (Sou tímida e espalhafatosa)

E num lampejo, mandei um texto pra Luciana pra ela ler e ver se rolava de ser publicado aqui. Biscate é assim: se oferece toda! Talvez esse tenha sido meu primeiro ato biscate-consciente: quis me mostrar, me jogar e aceitar tudo o que viesse depois disso. E a Lu-bidinosa fez a proposta mais indecente que eu podia imaginar: “vem biscatear mais nóis!” E eu fui, cá estou. Desavergonhadamente feliz.

Cada post que escrevo e que leio aqui ajudam a forjar essa mulher-feminista-biscate que sou e que vou me tornando e da qual gosto cada dia mais. Que me dá mais prazer, mais alegria, mais tesão, mais força. Nessa troca toda aprendo mais sobre mim e sobre liberdade – palavra cara e apreciada por todxs do clube.

Sempre fui biscate, ainda que só conhecesse o lado pejorativo dessa palavra. E, como eu acredito na “dialética interna do signo” (Oi, Bakhtin) sei que é possível fazer de biscate algo do que se orgulhar. E eu tenho um orgulho despudorado de ser Biscate e de estar no Biscate Social Clube.

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