Sem correntes

Eu sei, é um doce te amar

O amargo é querer-te pra mim

Do que eu preciso é lembrar, me ver

Antes de te ter e de ser teu, muito bem

Los Hermanos – Condicional

Demorei pra entender o que é amar, às vezes, acreditamos que amar é prender, isso é uma mentira! Nem sempre amar é compreender os atos dx outrx. As vezes, amar é dar espaço, mesmo quando dói se afastar. Amar é ser amiga quando se está apaixonada, pois sabe que carinho está além do tesão.

Amar é se encantar com as diferenças, é aprender com vivências diversas, é encontrar doçura no “dar espaço pra você respirar”. Muitas vezes, amar não significa lutar pra que dê certo, amar é deixar-se ir, é partir quando não se deseja, mas nos é pedido. É tomar a dolorosa decisão de não beijar quando seu maior desejo é beijar todo o tempo. Amor é respeito e compreensão, até quando respeitar x outrx dói no peito.

Em uma situação atual, estou aprendendo que deixar livre quem se ama é a maior prova de amor que poderia dar. Sei que não é um adeus, sei que, mesmo com essa vontade enorme de não dar espaço e tempo, a única atitude que posso tomar é dar espaço pra que se respire novos ares. Amar é não ter gaiolas, correntes, nada que nos prenda, pra que não fique a força, se me doer sua partida, problema é meu, você já tem os seus problemas, receios, questões, não terá que lidar com a minha dor.liberdade

Amar

Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente…
(Zé Ramalho)

A vida é curiosa, passo tanto tempo tentando entender como funcionam os sentimentos, quando na verdade, só preciso sentir. Eles não são para se racionalizar, pelo menos, não pra mim.

Estou em casa!

Estou em casa!

Essa sexta e esse sábado que passaram, me dei conta do que é ser puro sentimento, sem racionalidade, um simples passeio ao centro do Rio de Janeiro, encontrar pessoas que me marcaram num passado distante e voltar a um local que, até hoje, enxergo como minha casa. Esses momentos me fizeram ver que o tempo não apaga sentimentos, eles ficam latentes, esquecidos no cantinho do meu coração, até a pessoa ou um local reaparecer, aí tudo volta com força!

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

Amar é tão simples, é tão fácil e é tão surpreendente. Eu me surpreendo com os meus sentimentos todos os dias. Me surpreendo com como posso amar tanto, num tamanho sem fim, às vezes, um amor que dói, às vezes, um amor que cura. Dói quando vemos o sofrimento de quem amamos, sem poder fazer nada para ajudar. Cura minhas tristezas quando vejo minhxs amadxs felizes.

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Tem amor que me surpreende, recebo uma notícia, a pessoa cheia de dedos, achando que pode me magoar, me conta algo que só faz amar mais e se sentir orgulhosa por amar essa pessoa. Pessoas que nem esperava compreensão, me auxiliando quando mais preciso! Amigxs antigxs voltando para a minha vida com toda força e importância.

Sou feita desses sentimentos, amar é o que faz de mim tudo o que sou, da cabeça aos pés, sou puro amor.

How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
(Pink Floyd)

Biscate apaixonada e desaforada

Por Jeane Melo*, Biscate Convidada

O Biscate talvez não seja o lugar mais propício pra elucubrações amorosas. Ou questionamentos fúteis. Mas peço licença pra expor minhas angústias com amores e relacionamentos. Creio que o Biscate, com sua arejada política de temas e diversidade, abrigará minhas legítimas e idiossincráticas lamúrias. Aviso: o texto, é antes de tudo, muito sincero em sua catarse.

Bom, é bem verdade que biscate se apaixona. E que flertamos com a loucura nessas ocasiões. Que queremos dar uma de Adélia Prado e lavar, e secar, e beijar os pés da pessoa amada. No caso, meu amado. Homem mais velho, quase duas gerações após a minha. Mais amor e seríamos o novo casal Pablo Neruda e Matilde Urrutia. Entre contas a pagar, problemas pra resolver, pesquisa pra encaminhar, eu só queria pensar, sentir e estar com essa paixão que me tomou como um susto. E que anda mexendo com as coisas íntimas, essas as quais não permitimos que qualquer um tenha acesso. Porque bagunça com projetos de vida, com desejos guardados, com promessas escondidas, que às vezes a gente deixa de lado pra obedecer ao lado prático (e duro) da existência. A paixão amolece tudo isso. Despedaça essa seriedade tão forjada e necessária pra matar os leões do cotidiano (podia ser outra metáfora? Adoro felinos!). Já se sabe que mulher pra se fazer na vida, não pode ser mansa. E a minha língua sempre foi desaforada pro machismo. Mas sou bem calminha quando amo. Mais doce ainda. De provocar diabetes. E ele, sábio nas artes de se relacionar, tem tirado o melhor de mim. Isso que escamoteei pra um sem-número de gente, que tentava, sem muito sucesso, porque eu simplesmente não deixava, me ver entregue e sem máscara. Não tenho dúvida que ele quebrou minha resistência. Passou a perna no meu ceticismo afetivo. O resultado disso tudo é que eu amo tudo nele, sobretudo o contexto que o envolve: a filha adolescente, o seu time de futebol, o gosto duvidoso pra decoração, a barba que ele deixa crescer só porque eu peço, o café da manhã que faz pra mim, a voz calma, as mãos, o corpo… Ah, o corpo…

Ou não. Quanto tempo dura o encantamento de uma paixão? Estou apaixonada, mas estou lúcida. A balança desequilibrou e sinto um descompasso. Uma disritmia que não é aquela coisa linda do Martinho da Vila. E, independente do rumo desta carruagem, sempre optarei pela minha dignidade. Tenho gostado de dormir junto, mas, à parte do clichê, amo as noites que estou em casa, tomando meu vinho chileno, lendo um livro ou agarrada no meu notebook. Ou fazendo nadinha, só procrastinando mesmo. Adoro você, homem que tem me feito dobrar os sinos. Porém, há alguma coisa em mim, um divã interno, um cuidado instintivo, um senso de coragem que é algo que simplesmente impede de me tornar uma extensão de ti. Lavo, seco e beijo teus pés, mas não esqueço de cuidar também dos meus. Pra que eles possam estar bem pra caminhar depois dessa viagem. E caminhar pra bem longe, esse lugar de utopia que me recebe sempre de braços abertos e abriga os meus sonhos e desejos. Por isso, trate muito bem essa biscate aqui. Ela merece todo o amor do mundo. Ela tem o diálogo estreito com poderosas orixás mulheres, como Iansã e Iemanjá. É uma biscate do mar, coreira, com flor na cabeça, meio cigana, meio profana, meio sagrada, meio bruxa, meio louca. E que não hesita em abandonar barcas furadas pra girar, feliz, a saia de chita colorida em outras rodas incandescentes de tambor.

Pra completar o recado desaforado, nada melhor que um poema da biscate-mor portuguesa, Florbela Espanca, a nos ensinar que estamos nesse mundo pra amar muitas vezes:

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui… além…
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

.

* Jeane Melo é uma pernambucana torcedora do Sport morando no Maranhão. Adora cinema de arte, música, culinária, bons livros, amigos queridos, vinhos, praia, meditar, escrever, viajar, assistir MMA e dançar tambor de crioula.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...