Aprendiz de amor livre

Se a Cláudia de hoje pudesse trocar uma ideia com a Cláudia adolescente, ou mesmo com a Cláudia apática e rancorosa do ano passado, certamente ela diria:

“Você não faz ideia de quanta coisa seu coraçãozinho jovem vai viver em tão pouco tempo. Para de ser babaca e aproveita”.

ame

A sensação mais recorrente evah na vida desta que vos fala é a de aproveitar pouco o que sente. Sim, eu tenho um medo imenso de amar. Sim, sou uma bisca medrosa e já sofri demais. Vocês não fazem ideia de como fico absolutamente idiota quando me apaixono e acho que é por isso que evito envolvimentos mais profundos com as pessoas atualmente. Viro a pior companhia possível neste estado, perguntem a quem convive comigo.

Sambaram na minha cara tantas vezes por causa disso…

Eu acho que essa coisa toda vem da visão que construí do amor ao longo da minha existência. E ela é bem parecida com o que vendem pra gente como única forma de amor possível ou verdadeira. É a velha receita de bolo: você conhece alguém, se encanta e é recíproco. Aí vocês ficam, começam a namorar, tudo é lindo no começo e tals. Vem a rotina, tudo esfria e vira bosta. Termina. E lá vai você obrigatoriamente viver o luto e ficar na sofrência até que surja UM novo amor.

Por que tem que ser assim pra ser de verdade?

Nem todo mundo fica de luto quando um amor acaba (eu fiquei, mas isso é regra?). Tem amores que se transformam. Existem casais que ficam melhores depois que tudo acaba. E há pessoas que não encontram apenas um amor, inclusive, há quem encontre váaaaaaarios amores ao mesmo tempo.

Ficou confuso?

Bom, o que quis dizer com tudo isso é que enquanto o que vendem e ensinam como verdade única e possível são as relações monogâmicas – e quase sempre heteronormativas, diga-se de passagem – muita gente luta para desconstruir esse paradigma visando ter relações norteadas pela autonomia e pela liberdade.

Mas que liberdade é essa? É poder sair por ai pegando todo mundo, sem “compromisso”?

Olha, não necessariamente. Você pode sair por aí pegando todo mundo sem compromisso, não é crime. Mas relacionamentos envolvem uma série de outras questões, problemas e desafios. Numa relação não monogâmica, arrisco dizer que essas nuances todas podem ser multiplicadas pelo número de parceiros que se tem. São pessoas diferentes, com vivências diferentes. Cada uma com seu jeito de sentir. Complexo, né?

Para os homens, a não monogamia nunca foi exatamente uma novidade. A eles sempre foi permitido – e enaltecido – o direito ter muitas parceiras. Ainda hoje, a mulher que decide buscar uma relação livre não é vista com bons olhos pela nossa sociedade. Então, para uma mulher, a não monogamia pode significar e ao mesmo tempo exigir um nível de empoderamento e de autonomia muito grande. E ainda nem mencionei a pressuposição machista (especialmente nas relações heterossexuais) de que a moça que deseja se relacionar com várias pessoas está, na verdade, disponível. Como se ela não tivesse o direito de escolher com quem quer estar. Digo isso por experiência própria, mesmo que ela seja pouquinha.

Não acho que as pessoas não possam ser felizes inseridas nos modelo tradicional de relacionamento. No entanto, acredito que desconstruir o conceito do amor romântico pode sim fazer com que tenhamos vivências mais plenas em nossas relações. Tô aprendendo ainda. Tá difícil. Mas estou neste caminho pela minha própria vontade, porque não quero mais me destruir por conta de ideais que na maioria das vezes são inatingíveis.

Que o amor venha para me (nos) libertar.

*** Dois textos bem interessantes para quem deseja se aprofundar sobre o tema: aqui e aqui! 😉

Isso também é assunto meu

É. Eu tenho essa mania chatinha de trazer muita coisa do meu cotidiano pra cá. Mas é que vivencio tantas situações que ilustram o que penso e observo em nossa sociedade, que acabo não conseguindo evitar. Me julguem!!!

Dia desses, um conhecido me questionou sobre o porquê de uma das causas pelas quais milito ser a das bandeiras LGBT.

“Você tem certeza que não é lésbica? Porque não tem sentido defender tanto algo que não se pratica.”

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito...

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito…

Essas foram as palavras dele. Esse rapaz acredita que ser lésbica é praticar alguma coisa. Ou então, que para defendermos um grupo historicamente oprimido temos que, necessariamente, “ser parte” dele. E isso é recorrente no pensamento de muita gente, ainda. Não o culpo por reproduzir essas ideias, só queria mudar isso de alguma forma.

Reconhecer os próprios privilégios não é fácil. Nem acontece do dia para a noite. Faz parte de um processo contínuo, não linear e de constante aprendizado. Não pensem vocês que nós, militantes, nascemos sabendo fazer tudo isso. Tudo sempre tem um começo…

E aí, será que vocês topam começar também???

Eu, Cláudia, sou heterossexual, cis, branca, cursando minha segunda graduação e de classe média. Apesar de sofrer com machismos diversos pelo simples fato de ser mulher, eu nem de longe, sofro em intensidade equiparável a de uma garota lésbica ou bissexual que tenha essas mesmas “características”. Quando ando com meu namorado na rua, por exemplo, não percebo ninguém nos olhando torto por isso. Quando nos beijamos em público, ninguém acha isso exótico/estranho/disgusting. Se eu fosse fã de algumas religiões, provavelmente não teria problemas para assumir com tranquilidade a minha orientação sexual, já que esta condiz com o padrão heteronormativo supramencionado. Será que se ao invés de namorado, fosse uma namorada, seria assim? Evidentemente, sabemos a resposta.

Gosto de imaginar que algum dia, as pessoas poderão expressar seu amor e seu desejo de forma verdadeiramente livre. É por isso que falar sobre a visibilidade lésbica e bissexual é assunto meu sim. Poderia ser nosso, né? Porque reivindicar direitos não assegurados, respeito e tolerância é uma luta legítima que deveria ser abraçada com todas as forças pelo maior número possível de indivíduos. Aí, quem sabe essa ideia de privilégio se torne realmente uma bobagem?

Les-Bi-Biscatismos

Les-Bi-Biscatismos

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

 

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