Quatro

O Biscate fez aniversário. Quatro anos. Faz festa em um tempo difícil, resistimos com riso e tesão. Difícil em contexto, são temos sombrios, de moralismo,  backlash, genocídio, políticas públicas autoritárias e desvinculadas das demandas das minorias, repressão. Difícil no grão em grão, muitos biscas escreventes passando por situações complexas, ocupados, atarefados, cansados. E isso aparece nas linhas e entrelinhas. Difícil mas nos esmeramos na busca da gargalhada, da trepada, do desejo pra fazer frente. Pra ir em frente.

Uma vez escrevi, nesse nosso mesmo clube: somos o que fazemos, sabemos. E fazemos o que somos. O Biscate somos todos que o fazemos, que o lemos, divulgamos, comentamos. Somos todos que o escrevemos. O Biscate sou eu, parodiando o Rei Sol. E o Biscate me é. Tento, todo dia, ser mais e mais a biscate que esse clube me inspira a ser: liberdade, aceitação, prazer, entrega. Encontros.

O que eu faço no clube e o clube faz em mim é abrir. Portas, alma, peito, ideias, pernas. Um convite insistente de vida. Um convite insistente de luta. Um convite insistente de gozo. É pouquinho e é imenso, em um mundo onde as mulheres não podem usar a roupa que querem, sair e andar por onde querem, na hora que querem, ainda não podem decidir sobre quando e com quem trepar, se querem ou não ter filhos, um mundo em que nossos corpos são vistoriados, pesados e rotulados, nosso desejo é escamoteado e negado, nossa vida é menos. Menos importante. Menos gente.

Então, o Biscate resiste. Insiste. Faz aniversário, acende o neon, aumenta o decote, coloca o brega na vitrola, pega a taça maior e vai pra pista. Vamos pra pista. E aproveito o embalo pra fazer as declarações de amor. Porque sim. Porque sempre. O Biscate é quem o faz, repito.

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Augusto, um Biscate, meu Biscate, em frestas, picadas, trilhas. Um Biscate que caminha em risco e riso, a beira do abismo como companhia e incentivo. Um Biscate que desvela, que rasga o véu, que escracha. Que gargalha. Que aponta o plural do possível. Amar-te no Biscate é confiança, cumplicidade e conforto. Amar-te é amar em liberdade. Amar-te é amar a liberdade.

Bianca Cardoso, um biscate que chega, que dá, que (se) oferece. Um biscate de  letras precisas e leves. Amar-te no Biscate é um amor a mais, um amor de gratidão e aprendizado.

Fernando, um Biscate em rima. Poesia do corpo. Um biscate escrito em suor, saliva, semen. Um Biscate que vem da rua, meio tonto, meio vinho, meio vida. Esquinas. O avesso do avesso do avesso até ser o que ele mais é: idenfinível. Amar-te é te saber em mim, justinho no canto que deveria estar, como falta. Amar-te no Biscate é aceitação, descoberta, sufixo que faz de mim nova palavra.

Iara Ávila, um Biscate de humor acentuado, olhar crítico mas generoso. Um Biscate pop, antenado, televisivo. Um Biscate de luta e de afetos. Amar-te no Biscate é um amor de encontro, de distância diminuída com afeto, de acolhimento e cumplicidade.

Jeane Melo, um Biscate nordestino, de um nordeste colorido, quente, afetuoso. Um Biscate que é sobrevivência e noites de lua, o morno na pele, a vida afirmada nos encontros. Amar-te no Biscate é como um fetejo de São João, há ritmo, sabor, corpo e promessas de um sempre.

Klaus, um Biscate que é transformação. Que é busca, inquietação e sonho. Uma escrita que se reinventa, uma pessoa que se redescobre, um clube que não se limita. Amar-te no Biscate é deslumbre, abraço, horizonte. Amar-te é processo e belezas.

Lis Lemos, um Biscate que é tesão. A letra mais nua, mais quente, mais sexy. A coragem de escrever entre lençóis, de mergulhar de olhos abertos, de cozinhar em fogo alto. Amar-te é em saudades, em espera, em tempos e suspiros. Amar-te é uma alegria.

Raquel, um Biscate que era antes de ser. Um Biscate de letras intensas, de perguntas, de conversas, de convites. Uma escrita tão pessoal e única que nos recebe a todos, que indica anseios que nem suspeitávamos em nosso peito. Amar-te é reencontro, beira de praia, cerveja gelada, conversa solta, vento levantando as saias. Amar-te é.

Renata Lima, um Biscate em intervalos. Aquele que diz só e justamente o que tem pra dizer. Um Biscate de histórias. De vivências. De certeza que é possível ir sem deixar de estar. Amar-te no Biscate é sentir sua falta toda semana e celebrar cada encontro, cada vez que fomos, que seremos.

Renata Lins, um Biscate em delicadeza. Cada texto, porto, viagem e oceano. A escrita que é lâmina em seda enrolada, como a cantiga. Uma escrita que é, ao mesmo tempo, pra mim, reconhecimento e surpresa. Um Biscate que é afirmação dos caminhos. Amar-te no Biscate foi. Amar-te no Biscate é. E além.

Sara, um Biscate feito de coragem e superações. Um clube que é a cada dia, a cada texto, a cada tempo. O mesmo. Outro. Descobrindo percursos. Descobrindo-se no percurso. Amar-te no Biscate é certeza de futuros. De encontros. De abraços.

Sílvia, um Biscate feito de intensidade.  Os textos sem pele. A escrita e o viver com entrega, com beleza, com fé, com amor. Um clube que está. Como cristal, bate a luz e a beleza quase ofusca. Cores. Matizes. E aquela firmeza de pedra, núcleo, sustentação. Preciosa. Amar-te no Biscate é alento. É respiro. Suspiro e lembrança de que sim, em algum momento, o bom é.

Vanessa, um Biscate que é luta, gozo, transformação, riso, leveza, história. Um Biscate que é gente. A fala da gente. A vida da gente. Um Biscate que é diário. Que é concreto. Que tem cheiro, gosto, que se toca e que se sente. Amar-te no Biscate é espelho. Mais, é casa de espelhos, onde somos muitos, possíveis, outros e mesmos.

O Biscate que eu amo é cada um e é tanto amor que eu nem sei escrever. Que bom o tempo que passamos aqui. Que bom um tempo em que somos, juntos.

PS. O Biscate faz aniversário. Festejamos. Comemoramos. Escrevemos. Convidamos. Vem Biscatear, vem fazer, vem ser Biscate com a gente. Se quiser escrever um post convidado, manda no nosso mail biscatesocialclub@gmail.com

PS2. Que difícil resistir às piadinhas com ficar de quatro.

Sobre o desejo e o amor

Por Maria, Biscate Convidada

Sou monogâmica, tentei não ser e não funcionou comigo. Não sei o motivo de não ser poliamorista,  pode ser que tenha ainda muito que questionar a sensação de posse que relaciono com o amor, entendo que não são coisas que deveriam andar juntas. Na minha vida, consigo diferenciar liberdade dxs outrxs e minha vontade, mas quando é com minhx parceirx tudo muda, tudo dói.

Não sou hipócrita em dizer que não machuca pensar em ver quem eu amo com outra pessoa. Mas, ser monogâmica não faz de mim cega, e, ultimamente, ando mais sensível a essa temática. É muita amiga falando de forma ruim de amantes e pessoas que traem. Dói pra caramba e, todas as vezes que descobri traição, me senti morrendo por dentro. Por muitas vezes odiei x amante, x “traidorx”, ou só x “traidorx”. Hoje, não vejo mais desse jeito. Posso desistir do relacionamento se machucar demais, mas eu desisto porque me machuca, entendo que não há culpa e que o desejo é algo que nos faz tomar decisões que pode machucar x outrx.

Não estou aqui dizendo que a monogamia deve deixar de existir, estou falando que precisamos parar de culpar as pessoas. É difícil, eu faço um exercício diário pra não culpar ninguém, outro dia mesmo, culpei alguéns, primeiro me segurei e pensei “ela não tem culpa, não farei o que tanto digo que é errado”. Culpei a pessoa que estava comigo, perguntei “porque vir atrás de mim, dizer que me ama pra me machucar?”, voltei atrás, depois de pensar muito, não deixou de me amar, não deixou de ser quem eu amo, só fez algo momentaneo, por insegurança, por desejo ou sei lá o motivo. Quem sou eu pra julgar alguém.

Eu tomei a decisão de continuar, mesmo doendo, mesmo sentindo que iria lutar contra minha possessividade todos os dias. Eu decidi amar a pessoa, sem dizer “apesar do que aconteceu”, eu decidi amar e pronto, continuar monogâmica, conversar, querer a pessoa ao meu lado. Mas você pode decidir ir embora também, você pode sair, ou porque te magoa, ou porque você não consegue compreender o que aconteceu. São escolhas, mas não existem culpadxs, existem humanos, existem pessoas que seguiram suas vontades, de “trair”, de continuar após a “traição”, de partir após a “traição”, de conversar e talvez sair da monogamia. As pessoas decidem viver da forma que mais lhe apetecer, da forma que lhe faz mais feliz.

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Não posso e nem devo culpar amante, “traidorx”, não sei em qual posição estarei amanhã nessa equação. Quero ser sábia, quero não odiar, quero não xingar, quero tentar ser com as pessoas o que espero que sejam comigo, nessa e em outras ocasiões. E eu já estive em outro lado dessa equação, já “traí”, quis ser compreendida como uma pessoa boa, não quis ser limitada como a “traidora”, a “errada”. Porque sou mais que aquele momento em que “traí”, somos muito complexxs pra nos resumirem em apenas uma característica ou acontecimento.

Não é questão de perdão, é questão de amor e desejo, é questão de não culpar x outrx por nossas dores e seguir adiante como for melhor pra gente. Sem pesquisas de fidelidade, julgamentos, sem textos humilhando amantes ou quem “traiu”, sem ódio. Só seguir a vida e ser feliz sempre que possível.

Queima…

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Como me queima a alma….

Alguém desconfia o que é o desejo?
Torpor que invade, cega, denuncia…
Ardor, suor, dor, vontade
Não quero pensar, mas desejo
Quero afastar, mas quero inteiro.
Qual a diferença entre amor e desejo?
Isso que queima, lateja, arrepia… molha
Os olhos são como o sexo, o sexo é como ar

Alguém desconfia o que é o desejo?
Trêmula, trêmulas minhas mãos…
E a hipocrisia de negar é negada pelos meus seios
Sequiosos, arrepiados, arredondados, rasgam vestes
Estimulam olhares, estimulam olhares….

São sentimentos distintos, paixão e desejo?
São complementos vitais? Quero…
Vagas lembranças e sinto o cheiro…
súbito, direto, vício, vital, pulso e me queima
E o gosto. O sabor. Suor.

Alguém sabe a diferença entre desejo e viver?
Gritar. Arranhar. Verbalizar. Desejar. Desejo…
Me toco. Te toco. Toque. Retocar. O fogo.
Como me queima a alma….

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https://contosdealcovatenra.wordpress.com/2010/10/20/das-linguagens-do-corpo/

Professor não é sacerdote

Minha mãe é professora. Já não atua em sala de aula há algum tempo, mas ainda trabalha na biblioteca da mesma escola municipal onde começou sua carreira mais de 30 anos atrás. Minha mãe sofre do mal de muitos professores, que já foi até chamado de LER (Lesão por Esforço Repetitivo). Já há um tempo, não consegue mais levantar o braço pra alcançar o giz no alto no quadro. Passou por várias cirurgias e perícias médicas que a tiraram da sala, até que foi lotada na biblioteca pra poder se aposentar.

Os problemas mais comuns relacionados às doenças ocupacionais dos docentes estão ligados à voz e à audição, ao aparelho respiratório, ao sistema muscular e aos problemas psíquicos relacionados a estresses na sala da aula.

Minha mãe não foi poupada de alguns deles:  os musculares, como já disse, os de voz e os alérgicos. Lembro-me de vários episódios de rouquidão, por exemplo, e de rinites por respirar o pó de giz, ano após ano. Felizmente, não desenvolveu problemas psíquicos, também comuns numa categoria tão desvalorizada, na qual muitos profissionais começam sua carreira com tantas expectativas e vão observando e constatando uma trajetória de desrespeito e quase abandono pelo Poder Público. Incluindo também episódios de assédio moral por parte de alguns gestores ou pais de alunos. Sem falar de situações horríveis com os próprios alunos, em sala de aula.

Do que mais me lembro são dos planos de aula sobre a mesa e que tanto me ajudaram em minha própria alfabetização. Lembro também de um milhão de provas para corrigir e de ajudá-la nisso, com um gabarito do lado fornecido por ela mesma. E das noites viradas com boletins para atualizar, quase todos de capa azul.

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Minha mãe, essa linda do canto à direita, em sua formatura no magistério ou Escola Normal (foto do baú da família)

Mas, o mais emblemático pra mim foi o seu ativismo como presidente do sindicato dos professores em minha cidade, nos anos 80. Sindicato que ela ajudou a fundar, inclusive.

O que era ser professor nos anos 80? Quem beira a minha idade ou um pouco menos deve se lembrar. Vivíamos ainda os suspiros da ditadura, mas já com uma certa abertura, a categoria intensificava mais ainda sua luta pela defesa de uma educação pública de qualidade e de melhorias salariais. Muitas greves eram realizadas pelo país.

Minha mãe participou disso.

Ela saia de Pirapora, pegava um ônibus e andava uns 300 km até Belo Horizonte pra protestar na capital. O risco de apanhar da polícia era real. O medo disso também. E como não? Se o é até hoje?! O risco de ouvir que “professora não é mal paga, é mal casada” também era real. Não foi apenas Maluf quem disse isso. Lá pelas bandas de Minas, minha mãe e suas companheiras ouviram também

Pior é que, assim como acontece com a violência policial, uma frase dessas poderia tranquilamente ser repetida hoje em dia novamente. Vai me dizer que você não consegue enxergar certos políticos despejando uma provocação machista desse nível pra cima de professoras em protesto?!

Foi com ela, da voz dela, que aprendi que educação não é sacerdócio. Foi com ela que ouvi pela primeira vez que professor é profissional, que investe em sua formação e que merece e precisa ser bem remunerado, inclusive para manter-se atualizado. E que ele vive disso. Paga contas, cria filhos. Come.

E fazendo um recorte de gênero, ela sempre repetia que a maioria de suas colegas era as “chefes” de suas famílias. Numa das greves, quando o governo cortou o ponto, elas ficaram meses fazendo mutirão de comida, porque sem os salários de suas mães, crianças não tinham alimentos em casa. Já naquela época.

Aprendi com ela, lá pelos 80s. E sempre fico pasma quando, hoje, mais de 30 anos depois, ainda seja preciso reafirmar tudo isso. O tempo todo. Repetindo os argumentos, o discurso, as demandas.

Minha mãe sempre foi uma inspiração. Sua trajetória, sua paixão, seu comprometimento com a profissão me orgulham enormemente. De um jeito que nem sei se ela sabe tão bem assim. Como talvez ela nem saiba tão bem, embora sei que desconfia, o quanto ela foi fundamental em minha formação como mulher. Em minha identificação com o feminismo. Acho que já lhe disse. Sei que sim. Mas, por via das dúvidas, reafirmo aqui, publicamente.

E sei que ela foi uma inspiração para muitas alunas e alunos também. Volta e meia ela mesma me conta uma história de ex aluno confessando sua importância na vida dele. Ela se envaidece disso. Eu também.

Hoje, em seus perfis nas redes sociais ou posts em blogs, muita gente deve estar contando histórias de professores que fizeram diferença em sua vida. Pois minha mãe, Alice, que nem minha professora foi, fez na minha.

Uma Não-Carta de Amor

Por Cristina Charão*, Biscate Convidada

Papel+amassado

Pensei em te escrever uma carta de amor, mas não posso.

Não sei encontrar em mim as bonitezas que cabem em uma carta de amor. Não há em mim sutilezas capazes de criar boas metáforas, nem certezas que me permitam hipérboles.

O que eu sinto agora é mais um desejo de violência do que de zelo, e se eu disser eu te amo (mais uma vez), quero que seja como um tapa, não uma carícia.

Pensei, então, em registrar as mil quatrocentas e setenta e sete vezes que penso em ti ao longo de um dia em pequenas tiras de papel, amassá-las lentamente, reduzi-las a bolinhas infames e atirar cada uma delas em ti. De pirraça.

Passei na Rua Botafogo hoje.

Li o artigo do ex-presidente. Falou abobrinhas, mas não só, né?

Me explica quais foram as não-abobrinhas que ele disse.

Minha mãe fez pudim.

Nossa, tá frio.

Tive vontade de tomar café.

Sabe que eu não tinha vontade de tomar café antes de ti?

Acho que vou comprar aquele hidratante.

Vesti aquela calça florida.

Preciso entender o marxismo.

Devia ler mais.

Ele deve estar estudando.

House. Lupus de novo? Eu ri.

Cada coisa dessas, anotada com a minha letra ligeira e horrorosa em um pedacinho de papel, amassado.

Bolinhas de papel, atiradas como quem joga uma bolinha de gude, assim com o polegar dando um peteleco. Cada uma delas atingindo a tua orelha, uma atrás da outra.

Irritantemente. Despeitadamente. Inconveniente.

Não é assim o amor?

cris charão*Cristina Charão [@cris_charao] é uma jornalista que vive de biscates – ou uma biscate que vive de jornalismos. É mãe, mas não mãezinha. Às vezes mulherzinha, às vezes mulherão. Gaúcha. (Sim, eu sei fazer churrasco. E troco lâmpadas. E mato baratas. E faço ballet nas horas vagas.) Fala mais do que faz. Escreve menos do que pensa.

Celebremos!

“Nem de exatas, nem de humanas, sou de trouxas”;

Eu o/

Eu o/

Se ser trouxa é demonstrar o que sente, sim, sou trouxa. Convicta. Daquelas que posta letras de pagode ou de sertanejo dos anos 90 na TL dedicadas ao(s) seu(s) amor(es). E nem é porque eu acredito em romance, em fórmulas perfeitas de amar ou de ser feliz, como na já meio batida (mas que ainda está longe de falir) vibe hollywoodiana. É porque passei bastante tempo sem celebrar – ainda que nas pequenas cafonices – o fato do meu coração estar aquecido pela presença de outro, assim, mais de pertinho. Eu já fui do time que ficava de bode quando pipocavam imagens de casalzinho feliz e pans.

A real é que faz pouquíssimo tempo que percebi que não me considerava merecedora de amor. Que eu não tinha motivos para ficar contente com algo que não era pra mim, porque na listinha padronizada do que é ser amável, eu nunca tive nenhum dos itens. Ou tentava mimetizá-los.

Nem preciso dizer o quanto falhei miseravelmente, né?

Por que dar afeto é ser trouxa? Por que comemorar momentos felizes (ou até de grudezinho) com quem você ama é indesejável? Por que isso ainda é visto como fraqueza, como ser bobo ou inconveniente, quando todos os envolvidos estão ok com a situação? Ou então, porque externalizar de alguma maneira seus sentimentos, mesmo que não sejam correspondidos, é tão zoado?

Sei lá. Talvez, a gente tenha meio que desaprendido o bem que faz um ato de carinho, tanto para quem dá quanto para quem recebe. Vivemos num mundo em que manifestações de bem querer parecem perda de tempo ou coisa de quem não tem nada melhor para fazer. Os lances que “dão certo” são os que encontram dificuldades. São os cheios de joguinhos, de esperar o outro te procurar, de não escancarar muito o que você está sentindo, porque senão não dão valor.

Amor como moeda de troca. Amor mercadológico.

Se ser trouxa é transbordar de amor, a ponto de não caber no peito, olha eu aqui!

Só não rasguem minha carteirinha de biscate, tá? Vai ter biscatagi trouxa sim.

Vai ter biscate celebrando o amor sim!

Os idiotas e as famílias

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Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Ciranda

Há um mês perdi uma tia muito querida, de maneira inesperada. Embora até já tenha adquirido um pouco de casca, essa morte me pegou de um jeito muito profundo, me deixando essa tristeza que ainda não consegui elaborar. Aí, me lembrei deste texto, que escrevi um ano atrás e que ainda não tinha publicado. Publico hoje, porque quero deixar registrado o quanto cresci cercada de mulheres incríveis! <3

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Minha família materna é enorme. Entre dois casamentos, meu avô teve 30 filhos! E, desse total, mulheres, muitas, muitas mulheres. Lindas, valentes, amorosas, debochadas, desbocadas, contraditórias (ô), gentis e com muito senso de humor. Mais que tudo, humanas.

Sob muitos aspectos, mulheres muito inspiradoras para todas nós, filhas e sobrinhas. Ainda que a figura do meu avô-que-mais-parece-personagem-de-livro seja mitificada entre a gente, sempre penso na minha como uma família na qual as protagonistas são elas e, mesmo em suas próprias famílias, elas parecem ser o centro no qual todo o mundo orbita.

Nos fins de semanas, essas irmãs costumavam se juntar para um lanche, hábito que ainda persiste, embora já com alguns desfalques (mortes e mudanças…) e, agora, pode ser em qualquer dia. E na prosa iam coando café e cosendo comidas, confissões, bolos, queixas, beiju, mágoas, cuscuz, conquistas, belezas e um levar-não-levar muito a sério a vida toda. Das gostosuras, só podíamos lamber o cheiro, com permissão pra comer depois, no rescaldo do fim da tarde.

Aquele era o momento delas. Quando muito, um prato nos era passado pelo buraco da fechadura. Ficávamos pelo quintal, brincando e espichando a orelha, porque nossa fome mesmo era do confessado. A minha, pelo menos, que sempre fui criança de curiar conversa de adulto.

Não me aguentava de vontade de me esgueirar pela fresta da porta, mas só me cabia mesmo imaginar o que elas tanto falavam naquelas confabulações vespertinas. O que me era impossível, obviamente. O que eu sabia da vida naquele então pra imaginar algo mais além que os dramas de “Pollyana”?

O “lanche das tias” era misterioso e meio intangível…

Um dia sai de lá e o evento virou um folclore delicado em mim. Até que, anos depois, numas férias na casa da minha mãe, elas apareceram, se enfiaram na cozinha, me convidaram e fecharam a porta. E, entre um causo e outro, em algum momento me distanciei da situação.

Foi quando me veio aquela compreensão quase das veias.

As minhas tias e a minha mãe me estavam dando a credencial para o mundo delas! O mundo das mulheres adultas da família. Naquele instante, naquele lanche, virei uma delas. Claro que em minha lógica de mulher sabida e estudada, que se outorga emancipada e senhora de si, eu já me tinha feito há bem mais tempo. Mas, estar no “lanche das tias”, falando de assuntos de tantas de nós, sendo acolhida por elas como uma igual, me emocionou um bocado. Agigantou-me.

Foi um encontro com aquela parte de mim torneada pelas histórias de vida daquelas mulheres tão formidáveis. Seus anseios, frustrações, dúvidas, desejos, renúncias, conquistas, crenças também diziam respeito a mim. Porque de mim dizem.

Numa metáfora bem obvia e super clichê, mas tão precisa, foi como se elas estivessem me entregando um retalhinho pra que eu também fosse aumentando o quadrado da colcha que sempre as manteve unidas e fortalecidas ao largo das dificuldades, agruras, quebrantos e bem-aventuranças. Foi um momento de muita alegria!

Lá estava eu, naquela espécie de maçonaria às avessas, na qual somente mulheres são bem vindas, sem grandes segredos seculares para esconder, mas ao mesmo tempo, sim. Algo só delas. Algo só nosso.

Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

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Sônia e Pilar. Vida.

Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Um cipreste triste e dois amores de tia Agatha

Este texto contém spoiler, caso exista alguém no mundo que ainda não leu Agatha Christie.

Tia Agatha, como um socorro. Como uma pedra de fundação. Como um galho em que me seguro. Como uma rede, que sempre me embala.
Todo mundo acha que eu estou brincando, menos quem me conhece mais de perto: volto aos mesmos livros, sempre e toda vez. Comfort-livros. Durante muito tempo foi Monteiro Lobato. Depois, Agatha Christie e alguns outros.

O livro no formato “whodunit” (quem matou?) é redondo. Fechado. Acaba de volta no começo, quando a pergunta ganha uma resposta. Querem algo mais reconfortante? Quando a sensação é de caos e de angústia demais da conta, deito na rede da tia Agatha e embalo-me em suas certezas.

Vento que balança as palhas do coqueiro….

Balançando na rede, lembro de recente conversa sobre amor. Tia Agatha fala muito de amor. De um jeito bem peculiar, e não consigo não associar a forma como ela fala de amor à sua própria história: o primeiro casamento com  o belo Archibald Christie, a separação violenta, o segundo casamento com o arqueólogo Max Mallowan, bem mais jovem que ela.

Cipreste Triste é o livro em que tenho a sensação que ela fala desses dois maridos. Nunca vi isso escrito em lugar nenhum: é uma impressão apenas. A personagem principal de Cipreste Triste é Elinor Carlisle, apaixonada a vida toda pelo primo distante, Roddy. Estão noivos.

O sentimento que Elinor tem por Roddy é intenso, ardente. Mas ela disfarça. Sabe que ele não sente dessa forma: é mais contido, mais distante, todo postura ereta, fleuma e jogos de palavras. Extremamente britânico. E Elinor sabe que o assustaria, caso exibisse seus sentimentos reais: Roddy acharia indecente, e sem dúvida deselegante. Algo feito para o povo, não para um pretendente a aristocrata como ele.

Até que aparece Mary Gerrard, filha da caseira da mansão da tia, e Roddy se encanta por ela à primeira vista. Desfaz o noivado. Elinor o flagra olhando para a moça, e imediatamente percebe tudo. Tem vontade de matá-la, a tal ponto que quando ela de fato aparece morta, deixa-se acusar e levar a julgamento. Quem sabe a vontade, de tão forte, não matou Mary de verdade?

E aí é que entra em ação o outro personagem masculino do livro, antípoda de Roddy – e, na minha interpretação, a representação de Max Mallowan: o médico da tia, dr. Peter Lord. Jovem, ruivo, desajeitado. Grande. Reconfortante. Seguro. Confiável. É a ele que Elinor recorre. É ele que chama Poirot para ajudá-la a sair da confusão em que está metida. E, no final do livro, ela acaba dando a entender que o que sentia por Roddy era demais: intenso demais, sangrento demais, violento demais. Portador de sofrimento. E acrescenta que talvez com Peter Lord consiga encontrar alguma felicidade. Uma felicidade tranquila, feita de pequenas coisas, de miudezas do dia-a-dia. Mas nem por isso menos real, justamente porque sólida, porque estável. O contrário dos amores de romance, das paixões desbragadas. Do que sentia por Roddy Welman.

Max Mallowan era arqueólogo, e Agatha Christe não só o acompanhou, mas trabalhou como ajudante em diversas das escavações que ele coordenou. Existe uma frase atribuída a ela que diz que o bom de ser casada com um arqueólogo é que, quanto mais a pessoa envelhece, mas ele a acha interessante.

Tia Agatha tinha humor. E sabedoria tanta.

tia Agatha

Em Amarelo

A rua tem cheiro de flor. Aqui, café e cuscuz. Felicidade em amarelo. São as pequenas alegrias, sabe. Aquele jeito de franzir a testa. A mão que nem percebe brincar com o meu decote. A carinha piscando na mensagem. Os cds com sua letra, os livros sem dedicatória. A pergunta: e vamos beber o quê? Aquele dia na represa. A flor roubada. A lua, enorme, pela janela. Os fogos na varanda. Todas as noites em que acordo no seu abraço. Sorrisos sem motivo e as coisinhas miúdas estão ali, feito jarrinho de girassol na janela, lembrando pra que lado fica o morno.

Mesmo eu que sou um oco do mundo, negros abismos, dores que antecipo. Minha mala é pesada não de passado mas de antigos futuros. Como quem anda à beira do abismo, acostumada a vertigens. Mesmo eu, já fui, em dias, a menina com uma flor, nas vozes dos que já me amaram. E, aqui, outra vez.

girassol

Aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela aberta, nesse quarto que é sempre noite mesmo em tempo de sol. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto.

Gosto de girassóis. Eles têm a certeza dos dias, mas talvez não para eles. São demasiado. Demasiado exuberantes, demasiado coloridos, demasiado mortais. São estabanados demais para serem flores. Gosto desse sentir. Também, em meu peito, certezas de dias outros. Talvez não para nós, mas outros. Eu sou estabanada demais para o amor, mas insisto. Girassol que é, justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje.

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