Em Amarelo

A rua tem cheiro de flor. Aqui, café e cuscuz. Felicidade em amarelo. São as pequenas alegrias, sabe. Aquele jeito de franzir a testa. A mão que nem percebe brincar com o meu decote. A carinha piscando na mensagem. Os cds com sua letra, os livros sem dedicatória. A pergunta: e vamos beber o quê? Aquele dia na represa. A flor roubada. A lua, enorme, pela janela. Os fogos na varanda. Todas as noites em que acordo no seu abraço. Sorrisos sem motivo e as coisinhas miúdas estão ali, feito jarrinho de girassol na janela, lembrando pra que lado fica o morno.

Mesmo eu que sou um oco do mundo, negros abismos, dores que antecipo. Minha mala é pesada não de passado mas de antigos futuros. Como quem anda à beira do abismo, acostumada a vertigens. Mesmo eu, já fui, em dias, a menina com uma flor, nas vozes dos que já me amaram. E, aqui, outra vez.

girassol

Aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela aberta, nesse quarto que é sempre noite mesmo em tempo de sol. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto.

Gosto de girassóis. Eles têm a certeza dos dias, mas talvez não para eles. São demasiado. Demasiado exuberantes, demasiado coloridos, demasiado mortais. São estabanados demais para serem flores. Gosto desse sentir. Também, em meu peito, certezas de dias outros. Talvez não para nós, mas outros. Eu sou estabanada demais para o amor, mas insisto. Girassol que é, justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje.

Aquele Abraço

Para Raquel e Sílvia,
sabendo que todos nós podemos nos chamar
Raquel e Sílvia
qualquer hora dessas.

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Eu queria saber fazer, desse texto, um abraço. E deixar aqui, no blog, pra quando as coisas pesarem demais, estiverem difíceis demais, doídas demais.

Sim, nós somos do riso, nós somos do gozo, nós somos do bom. Somos do samba, da festa, das palmas. Somos das gargalhadas, das noites se fazendo dia, dos grupos. Sim, nós somos do sim.

Mas tem dia que o que a vida nos pede mais um tanto. Coragem e riso não bastam. Tem dia que dói. Tem dia de sofrer. De temer. De fraquejar. Tem dia que somos pranto, canto do quarto, medo, insegurança. Tem dia que o dia nos tolda os olhos.

Tem dia que a vida apaga a luz. Desmancha o riso. Anuvia o céu. Tem dia que todos os afetos não bastam. Que nenhuma coberta aquece. Que nenhuma comida sacia. Tem dia que não sabemos vivê-lo. Dias em que a paleta oferecida é solidão, angústia, receio.

Para esses dias, eu não trago nenhuma certeza. Eu não trago nenhum consolo. Eu desconheço como serão, como podem ser. Eu simplesmente fico aqui, disponível. Eu sou apenas o que for preciso ser. Um grande ombro ambulante. Um peito pra descansar a cabeça. Mãos em cafuné. Um sussurro feito cantiga de ninar.

Gosto muito quando Kundera fala de compaixão e nos conta da diferença quando a palavra é formada ora com o radical sofrimento ora com o substantivo sentimento. Compaixão pode ser “sentir com”. Compaixão é uma imaginação afetiva, é sentir com o outro o que ele sente, alegria, raiva, solidão, dor, medo, angústia.

É essa compaixão que deixo aqui, entre as letrinhas desse post. Uma disponibilidade para estar com. Pra sentir com. Pra doer com. Pra lutar com. Pra chorar com. Pra perder com. Pra sobreviver com.

Eu queria saber fazer deste post um abraço. Um abraço biscate, onde houvesse, potencial, o riso, o gozo, o bom. Um abraço biscate que nutrisse, acolhesse, aconchegasse, desse força, apoio, sustentação. Eu queria saber fazer desse post um descanso. E um mergulho. Vida, que seja do jeito que for, a gente junto, mar, amar, amor, dor, um peito repleto.

Do respiro preciso

Tem sido mesmo dias difíceis pra gente. Notícias arrasadoras, desassossegos, essa sensação que a gente anda mais retrocedendo que avançando. E amigues se estapeando nas redes sociais. E amigo que apela pra agressão pra te calar.  E debates arrogantes, fulanizadores, sem empatia.

E fica todo o mundo contando com o meteoro pra acabar com a bagaça e ver se a gente ressurge melhor. Ou nem ressurge. Que venham outros nós, outros eus, outros eles e elas. Conversa vai, conversa vem, a vontade é de pegar ali o bonde da Mafalda e descer do mundo. Fui.

Mas, aí. Na última terça (9), num colégio particular, de origem bem conservadora e ainda com proposta pedagógica bem convencional, estava eu. Com mais duas companheiras e amigas da Casa de Lua pra realizar uma roda de conversa sobre gênero com alunos do fundamental.

No começo, foi estranho. Calado. Até levamos uns vídeos de youtube, meio que pra animar, mas ninguém fazia perguntas. Ai, as perguntas! Pressão de professor. Nervoso de aluno. E a gente, nem uma coisa nem outra, ficava ali esperando… o meteoro, talvez?

E, de repente, ela levanta a mão e chama atenção pro tratamento que certas mídias estão dando pra Caitlyn Jenner. E foi um comentário tão acurado, sensível, com tantos cuidados no uso dos pronomes e dos artigos, tantos cuidados em não apelar pro fácil e transfóbico “era homem e virou mulher”, que já me empertiguei na cadeira.

Opa! Pensei. Vem lindeza por aí. E veio mesmo.

De onde veio essa vieram outras. Colocações interessadas, pertinentes e, principalmente, empáticas sobre pessoas trans. Sobre a equivocada e desonesta expressão “feminazi”. Sobre assedio. E o menino que quis entender por que mais pessoas não se assumem feministas. E se mudássemos o sufixo? Propôs. Sim, o sufixo. Ismo. Não o prefixo. Achei fofo. Não entendi nadinha, verdade. Mas, achei interessado. De quem anda pensando no assunto.

E saí da escola mais felizinha. Menos desalentada. Fiquei pensando em projetos e conversas que podemos desenvolver nas salas, nos pátios, parques e pistas de skates. Ainda que tenha gente que não queira deixar. Porque coisas boas vão acontecer, e já acontecem, a despeito das almas sebosas. Eu vi. Que tem gente linda e interessada. Que quero ser amiga deles.

cabelonomundo

E tem a Diane Lima (que conheci no TEDx Women) e a avó dela, que respondia pra mãe de Diane quando esta queria usar o cabelo solto, “se a menina quer usar o cabelo solto, deixa o cabelo da menina no mundo!”

Ô gente. Tem coisa mais sabida que isso? Avós. As amo.

#deixaocabelodameninanomundo

E, de repente, descubro que Elza Soares quer retocar a fênix que tatuou na batata da perna “porque sou uma delas, estou sempre renascendo de alguma coisa.” Ela simplesmente vai lançar um disco (justo com este nome!): “A Mulher do Fim do Mundo”, com músicas sobre sexo, morte e negritude.

Essa mulher, gente.

Essa mulher que decidiu que seu momento é se resolver com ela mesma. “Estava no quarto, sozinha, escutando Chet Baker, e falei: ‘Elza, quer casar comigo?’ A Soares disse: ‘Por enquanto, não.’”

Desculpa. Permaneço por aqui até saber de cor todas as músicas do novo CD. É que Diane, a avó de Diane, as meninas e os meninos do colégio ainda fazem essa bagaça valer a pena. Sei que a vida real anda ingrata. Mas, fico me apegando ao fato de que essas pequenas histórias também são vida real.

E ainda tem Elza. Elza existe. Elza renasce. Elza está aqui. Estou com ela.

 

Do que precisa ser dito. E do quanto doi.

Imagem da campanha "Jovem Negro Vivo", da Anistia Internacional

Imagem da campanha “Jovem Negro Vivo”, da Anistia Internacional

Acho que o fato mais inusitado que me aconteceu essa semana foi falar num TEDx. De repente, depois de um convite nos últimos minutos do segundo tempo, me vi em cima do palco desse evento badalado, que corre o mundo, no qual você tem que mandar sua mensagem em alguns minutos, agradecer e implorar internamente para que sua fala tenha sido suficientemente inspiradora pra receber alguns aplausos e, quem sabe, até tocar as pessoas.

Dessa experiência, poderia discorrer sobre vários aspectos. Sobre o que é falar num TEDx, ainda mais nesse, com recorte de gênero: TEDxSãoPaulo Women, que acontece no mesmo dia em vários países. Poderia falar do que é palestrar no auditório lotado do Masp (Museu de São Paulo), onde você põe aí umas 500 pessoas sentadas.

Poderia falar do quanto foi emocionante ouvir e conhecer mulheres tão bacanas, generosas, engraçadas… Poderia até contar do conteúdo da minha palestra.

E até vai ser um pouco isso. Mas, também é outra coisa. Mais particular. Em resumo, o meu relato foi assim: contei da minha autoidentificação étnica, da epifania que representou uma experiência específica de racismo que vivi com o meu filho mais velho e finalizei falando do genocídio de nossos jovens negros.

Segundo dados da Anistia Internacional, todos os anos morrem 30 mil jovens no Brasil. Desses, 77% são negros. O que dá mais de 23 mil jovens negros assassinados anualmente.

São 64 por dia. Mais de dois por hora.

Por que permanecemos em silêncio diante desse genocídio? Por que não estamos protestando, nas ruas, com indignação? Como podemos deixar de ser cúmplices desse extermínio? O que podemos fazer pra criar uma sociedade mais acolhedora, amorosa e livre de preconceitos para nossos jovens negros?

E aí, na noite de quarta-feira (27), véspera do TEDx, fui conversar com o meu filho mais velho sobre o evento, o que ia falar, etc e tal. Afinal, ele tem sido minha inspiração quando abordo esse tema.

Pois durante a conversa, me dei conta que falar essas coisas pra 500 pessoas (além daquelas que acompanham na transmissão online) é até fácil. Difícil mesmo é falar com o meu filho.

Como dizer a um adolescente que, todos os dias, ao sair de casa, ele está vulnerável e exposto a diversas formas de violência, incluindo o risco de morte, já que a despeito de sua condição social, o racismo não poupa ninguém?!

Quando vi, estava minimizando meu conteúdo ou usando mil eufemismos pra narrá-lo. Parecia que eu estava guardando minha assertividade apenas pra plateia do TEDx. Com ele, falei tranquilamente da primeira parte até o episódio de racismo que vivemos juntos (quando o segurança de uma doceria famosa aqui em São Paulo o retirou pelo braço do local), mas, fui ficando mais genérica, sem entrar em muitos detalhes sobre o extermínio.

É muito, muito duro mesmo dizer isso. Terminei a conversa reiterando o quanto adoro e tenho orgulho de seu cabelo black e que ele é lindo. Porque, de fato, é. Mas, naquele momento, talvez pelas emoções já afloradas pela tensão da palestra, não consegui ser mais específica. Não é fácil.

Perguntei se estava tudo bem pra ele que eu contasse a história da doceria publicamente, nesse contexto. Ele me devolveu um sorriso orgulhoso e cúmplice, respondendo:

“Só não divulga a minha foto!” Vontade, bem que eu tive. 😉

Aproveita e acesse a campanha da Anistia Internacional “Jovem Negro Vivo”. Assine o manifesto!

A música é porque ele pediu!

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

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Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

É Dia de Renata Lins

Hoje é aniversário da nossa bisca Renata Lins e eu vim escrever um post fora do calendário. Extraordinário. Gosto dele ser assim, porque assim combina com ela, que é uma pessoa fora do comum, fora da norma, fora da curva, fora da risca.

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Poderia dizer que a Renata é como o futebol: uma caixinha de surpresas. E a piada seria boa, mas não seria tudo. Como uma taurina da gema ela é segurança, conforto, estabilidade. A gente sabe que pode chegar que vai ter: colo, afeto, calor.

Sabe aqueles bordados que a gente vê e parecem simples? Elegante, bem desenhado, cores definidas, poucos elementos e tal? Aí você chega perto e descobre que arranjo daqueles tem um incrível trabalho por trás, tudo muito sofisticado, intrincado, complexo e diversificado? É ela.

Quando penso em Renata, penso primeiro em corpo: a Renata é em unhas coloridas, em lábios que riem, em mãos que tocam, em cabelos que esvoaçam, em colo que acolhe cores e colares. Em voz. Quando leio a Renata, é como se a escutasse. Sempre foi assim, antes mesmo de nos encontrarmos e eu saber sua voz. Suas letras são concretas, materiais, se fazem próximas. E é engraçado, porque corpo é um lance tão transitório, né, ele muda. Ele está sempre mudando, até que deixa de ser. Deixa de ser um corpo e tudo e tal. E a segunda coisa que penso, quando penso na Renata, é permanência. Ela tem um jeitinho de chegar que parece que sempre esteve. E um jeitinho de ficar que faz sentir que sempre estará. Mesmo no depois de tudo. De qualquer coisa.

É engraçado fuçar os arquivos do blog pra encontrar o dia exato em que ela caiu na rede. Veio com o Wando, foi ficando, a gente enlinhando, ficou. Está. É. O BiscateSC é quem é, do jeito que é, também pela sua constância. Pela sua presença. A gente pode contar. E pela sua imprevisibilidade e sacadas geniais.

Se eu fosse resumir, diria assim: Renata não deixa a peteca cair. E com que graciosidade a mantém em movimento!

Procuro as coisas mais gostosas pra lhe desejar nesse dia e penso em coisas gostosas e lembro dela mesma. Então, que seja: querida, que seu dia seja em renatas. Um aniversário feliz e biscate. Biscatemente feliz.

PS. Essa musiquinha sempre me faz bem. É que nem você na minha vida <3

Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

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Vem com a gente, vem.

O amor

O amor que me alcança tem o cheiro dos meus cuidados em ti. Te amo, me preocupo, sou teu escudo, quero que nenhum mal chegue enquanto estiver perto. Te pego, te apanho, te desconstruo. Te costuro, emendo, cuspo e mordo. Te arrebato. Me arrebatas. Nas palavras, na cama, na nossa cama, no nosso encontro. Te sinto todo, inteiro, teso, durmo junto contigo e faço teu café. Te amo por nadinha, por coisa nenhuma. O meu amor é uma velha e boa conversa fiada de porta de esquina. Mas é verdadeiro, viu? Porque não valemos nada juntos, a não ser essa matéria feita à base de ilhas e mares que construímos tortamente. Te dou tudo que tenho, possuo só o coração, esse gerente do mal que me incita a viver beijando o chão que pisas. Pra ti, te trago flores, te acordo com beijos e carícias danadas, daquelas que você gosta e calado, se permite e se entrega as minhas mãos cheias de coragem, finitude e gozo. Pra ti, Exu meu, eu cozinho, rebolo, amasso pães, invento histórias e faço cafunés matadores na tua cabeça. Mesmo que de ti se façam dois, sou eu, pequenininha, que te ponho no teu melhor lugar (dentro de mim). Só queria dizer que habitas por entre a sombra e o destino. Não sei de onde vens. Te observo furtivamente (ou não), pois não sei quem és. Porque secretamente, me enganas e finges (e sim, eu sei da presença invisível dessas coisas doloridas). Mas olha, se te dou amor, é porque em mim tem forças que vem de dentro do rio e do mar. E gente do meu trato, feita de barro pelo amor, sempre sobrevive. Dá o que tem, ama no possível e segue em frente. Acende o cigarro, toma um gole, vira o copo e respira fundo. Porque sabe que o amor, esse território imenso, nasce e morre um sem-número de vezes dentro do peito. E gosta.

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

Construir mosaicos

One chance
To keep it together when
Things fall apart
One sign
To make us believe it’s true
What do you see,
Where do we go?
One sign: How do we grow?
By letting your lifelines show
What if we do, what now?
What do you say?
How do I know?
Don’t let your lifeline go

Lifelines – A-Ha

Sempre fui do tipo que vivia remoendo o passado, as mágoas, as culpas. Não sou muito acostumada a me perdoar ou a esquecer. Quando erro, fico remoendo a culpa por dias, meses e anos, as vezes, a pessoa com quem errei já cansou de me perdoar e eu continuo me martirizando. E “se elx perdeu a confiança em mim?”, “será que eu mereço sua/seu amizade/amor depois do que fiz?!”. Essa é a Sara, aquela que perdoa qualquer pessoa, mas não se perdoa!Mosaico-de-Azulejos-Passo-a-Passo-3

Essa Sara está tentando mudar, parar de me responsabilizar por tudo que acontece, não entender fins de relacionamentos e de amizades, me sentir destruída e culpada por qualquer erro que cometo. Passei muito tempo catando cacos quebrados e tentando reconstruir exatamente o que existia antes, sem compreender que nada se mantém intacto. As coisas são mutáveis, os cacos de um relacionamento pode virar lixo ou pode virar um mosaico. Posso, sozinha ou acompanhada da pessoa do relacionamento, catar meus (ou nossos) cacos e tentar construir algo novo, tão bonito quanto, ou mais bonito ainda.

Sou apaixonada por mosaicos, acho lindo como restos de azulejos poderiam virar algo tão belo, eram restos, rebarbas, quebras que viravam pedaços de cor, uma nova forma colorida e desenhada. Quero levar isso para a minha vida, transformar a dor e os finais em novos risos, começos, choros de emoção e, porque não, continuações.untitled

Quero ser menos rígida comigo mesma, quero me perdoar do mesmo jeito que perdoo amigxs, familiares e companheirxs. Não quero viver carregando peso demais em minhas costas, faz mal a coluna. Quero poder ficar em paz, compreender que, mesmo quando algo não dá certo ou quando eu faço algo que magoa alguém, eu posso ver que eu fiz o possível e me perdoar. Não porque estou certa, mas porque errar faz parte e meus erros também constroem a mulher que sou e que, pra ser feliz, não preciso ser infalível, só preciso viver.

Viver é sofrer, chorar, quebrar amizades e reconstruí-las novamente, jogar amores no chão e montar mosaicos com seus cacos, é rir, é me permitir e permitir axs outrxs o erro e compreender que o erro, muitas vezes é o melhor dos acertos!

Talvez se nunca mais tentar

Viver o cara da TV

Que vence a briga sem suar

E ganha aplausos sem querer

Faz parte desse jogo

Dizer ao mundo todo

Que só conhece o seu quinhão ruim

É simples desse jeito

Quando se encolhe o peito

E finge não haver competição

É a solução de quem não quer

Perder aquilo que já tem

E fecha a mão pro que há de vir

Desavergonhas em girassol

De manhã, manhãzinha, a gente trocou beijos. Beijos mais longos que os habituais matinais, que a gente corre sempre e desespera sempre com a correria deste mundo todo. E foi que a gente se tocou ali, aqui, e aquela cousa toda e molha, acorda, geme e vai e foi. Acaba que atrasou um pouco o dia e animou a vida, como tem que ser.

Mas devia ter dito mais… Devia, naquele trajeto de casa para o ônibus, ter mandado mensagem, flor, dito cousas de ouvido, feito milongas. No trajeto. Devia ter mandado mensagem dizendo que ali naquela esquina tem um desses motéis de rua, sem estacionamento, desses que a gente vê as desenvergonhas todas caminhando  e fica sempre invejoso das coragens e molhações alheias. Que o período é de tantos reais e que ninguém ia sentir falta da gente se a gente ficasse lá durante uma horinha inha que fosse. Se melecando. E que viesse sem roupa debaixo, que é para modo de ver poesia mesmo, toda a poesia.

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição "Câmaras de Descompressão", http://vitreoformas.tumblr.com/post/83468983639/eduardo-marin-camara-de-descompressao-2013

Do fotógrafo Eduardo Marin, de sua exposição “Câmaras de Descompressão”,

Não disse. A gente quase nunca diz. E a vida segue no extrato bancário, no almoço em pé, naquele contrato que a gente tem que fechar para poder pagar aluguel, prestação, saúde, escola, escola de língua, mestrado, doutorado, pós. Pra poder viajar sei lá para onde naquela semaninha que deu para tirar. Mais prestação, mais caminhão, mais cartão, o de crédito, não o das flores.

Aliás, faz um tempo também que não levo flores. Laranjas, pretas, rosas, azuis. Lantejoulas. Porque o problema da gente não é o falta de gostar, de abraçar, de enamorar. O nosso maior problema é esquecer da gente para ser outra cousa, que a rotina esta mágoa vai desencantando. E nem falo de amores fiéis, que esses podem ser os mais chatos ou os mais lindos também. Falo de gente, flor, girassol, amor. De texto biscate, essas manias que a gente tem de querer o molhado. De regar, sempre.

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Eu queria ser florista. Diria no bilhete. A cada girassol, e sabedor do sorriso que nasce quando a gente ganha um girassol, ia ser um cadinho voyer daquele remexo todo, daqueles enlaces, encaixes, madeixas, deixa que eu te mordo morde também.

É preciso um pouco de girassol na vida de toda a gente, desconfio.

Metamorfoses

Lembra daquele professor de física lá do ensino médio que dizia que alguém muito importante um dia disse que “nada se perde, tudo se transforma?”. Bom, o alguém importante era Lavoisier e o tal professor (ou professora, no meu caso tive uma professora linda, que tinha sido modelo e tal) só queria começar um conteúdo sobre a bendita Lei de Lavoisier.

Bom, claro que o moço francês estava falando sobre a conservação das massas e anyway, mas penso eu que podemos trazer isso para os nossos sentimentos e as relações atravessadas por eles. O Amor, assim com letra maiúscula, quase uma entidade em si mesma, é um tanto estático conforme os contos de fada querem nos fazer acreditar. O amor (esse com letra minúscula, construído todo dia, com seus laços renovados ou, por vezes, esgarçados) muda. O tempo todo. Não amamos as pessoas do mesmo jeito ao longo do tempo. O amor que sentimos pela mãe, os avós, irmãos e irmãs não é o mesmo desde que nascemos e nem poderia ser. O amor muda porque nós mudamos, os outros mudam e o mundo que nos rodeia, idem.

Imagem de Mariana Palova

Imagem de Mariana Palova

Assim também são as relações que construímos ao longo da vida. Gosto sempre de pensar naqueles amigos de infância, da época da escola ou do time de vôlei da rua, ou aqueles primos e primas que te fizeram tão feliz (quando você nem sabia disso), que não encontramos mais. É claro que recordamos com muto carinho deles quando lembramos da nossa infância querida que os anos não trazem mais. (Oi, Casimiro!). E, possivelmente, também temos espaço na memória afetiva dessas pessoas. Mas fico me perguntando se ainda nos amaríamos se convivêssemos hoje. Todos mudamos, e ao longo dos anos, isso é ainda mais perceptível.

Às vezes, penso que prefiro amar essas pessoas com o amor que já está reservado para elas. O amor da saudade, do tempo que faz tudo ficar tão bom, da distância que seleciona as boas lembranças e dá uma mascarada nas partes ruins. Por isso, sempre fujo dos encontros do tipo “turma do pré-alfabetização do Colégio Bosque Encantado”. Muito provavelmente, se nos víssemos com mais frequência, o amor ia mudar e eu prefiro manter as boas memórias.

E aí, me pego pensando nos amores (aqueles mais carnais mesmo) que se transformam em outras tantas coisas. Não acho que quando um relacionamento acaba é porque o amor acabou, necessariamente. Acho que Lavoisier diria assim: “o amor não se perde, se transforma”. Tem amor que vira amizade, tem amor que resta só (?) tesão, tem amor que vira memória. Penso que o amor (ainda o minúsculo) muda o jeito de gostar, mas não perde sua essência quando uma relação se esgota. (Claro que há os que se transformam em ressentimentos, mas isso é assunto pra outro texto)

O amor deixa de ser o amor da paixão, da carne, para ser o do companheirismo, do pega na minha mão e vamos resolver isso. O amor vira bem-querer, muda para aquele sentimento de felicidade pelo outro, de saber que o outro está feliz. O casamento, o namoro, o noivado acaba, mas ainda fica aquela ternura no peito de reconhecer que existe um certo tipo de amor ali pelo que foi, pelo que representou e que, paciência, não é mais.

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