Relacionamentos normais

Casal normal que se vê todo dia. Casal normal que se vê só nas férias. Casal normal que se beija em público. Casal normal que não se beija em público. Nem se abraça. Nem anda de mãos dadas. Casal normal que se casa com uma semana de namoro. Casal normal que é casado, mas mora em casas separadas. Casal normal de mulheres. Casal normal de homens. Casal normal de mulher alta e homem baixo. Casal normal de homem gordo e mulher magra. Casal normal de velhinhos.

Casal normal que muda status de FB. Casal normal que nunca mudou. Casal normal que fica noivo em Paris. Casal normal que se casa no sítio. Casal normal que nunca vai casar. Casal normal que nunca transou. Casal normal que só vai transar depois do casamento. Casal normal que transou pra só depois namorar. Casal normal que está junto há 50 anos. Casal normal que foi casal por um carnaval apenas. Casal normal que faz tudo junto. Casal normal que não vai ao cinema juntos.

relacionamentos

Casal normal que adora reunião de família. Casal normal que odeia. Casal normal que tem filhxs. Casal normal que nunca quis ter. Casal normal anarquista. Casal normal ruralista. Casal normal que frequenta a igreja todo domingo. Casal normal que vai à casa de suingue todo sábado. Casal normal que tem relacionamento aberto. Casal normal monogâmico.

Casal normal que está junto por conveniência. Casal normal que faz juras de amor em público. Casal normal que só transa de luz apagada. Casal normal que não dança junto. Casal normal que bebe junto. Casal normal que discute política e futebol. Casal normal que reza pela mesma cartilha.

 Porque normal é o amor. Não importa a forma de sentir e viver. E estranho é apenas o nosso olhar sobre xs outrxs.

Das cartas

Porque é tão bom escrever cartas. E tão, tão bom recebe-las. Cartas para amigos, cartas para amores. Cartas. Escritas que vem de dentro contar-se para quem se gosta. Letras que chegam para contar de quem vem. Trocas, intercâmbios de palavras que sentem e expressam o que – até – algumas conversas não podem alcançar.

Temos tantos recursos hoje. Telefone sem custo de interurbano, internet, Skype, chats dos mais diversos. Corpo a corpo – ou quase – bom de se ter com quem os olhos não podem alcançar com frequência. Mas, confesso: eu gosto mesmo das cartas. Do espaço que hoje migrou para os e-mails, mas que eu já vivi com papel e selos e a alegria de receber pelo correio. Onde eu fechava o envelope com cola e olhos vibrantes, e pensava como chegaria do outro lado. O barulho do envelope sendo aberto, o cheiro do papel, as letras tortas escritas à mão. Inesquecíveis.

As cartas não economizam. Elas contam, encantam, choram junto quando a gente lê pelos olhos do outro. Contam-se sem receios de sentir o que se escreve. Poesias de amizades, de amores e de delícias de se ter um ao outro assim, também em palavras.

Literatura também se faz por cartas. Lembro quando li “Cartas a um Jovem Poeta”, do Rilke, livro que acompanhou todas as minhas cabeceiras nos últimos dez anos. Cartas que falavam comigo, em ecos lá no subterrâneo dos sentimentos. E as “Cartas perto do coração”, trocadas entre Clarice Lispector e Fernando Sabino, lindas de doer.  Tantas cartas. Tantas belezas partilhadas.

Aqui deixo um pouco das minhas cartas. Essas trocadas com a amiga-confidente- irmã, escritora e dançarina do inimaginável, Kiara Terra. Começo pelo fim, para fazer mágica e inverter um pouco a ordem da vida.

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(eu)

Amiga,

Suas letras me chegam em lágrimas nossas. Salgadas. Aqui onde eu cheguei ainda não sei ser eu. Tudo novo, novo espaço, nova pele, nova roupagem. Espaço redimensionado, tudo reduzido das minhas larguezas. Meus espalhamentos de tantos tempos chegaram aqui: na contenção de mim. Espaço pequeno. Tantas despedidas, tantos desapegos. Até de quem já fui. Nada mais serve. Tudo ajustando-se e eu disforme, sem contornos. Tudo em caixas espalhadas pelo chão, muita coisa jogada fora, muita coisa que já foi minha e não me pertence mais. Pouca bagagem, pouco lastro do passado a não ser no brilho que ficou nas retinas. Coração apertado, peito doendo de uma angústia sem rosto. Vento forte, que sopra aos meus ouvidos uma música desconhecida. Vento de mudanças estruturais.

Foi muita água, a gente nadou tanto, tanto, e depois de tanto não reconhecemos onde chegamos. Inexplorado de nós mesmas. Tudo novo. Medo, emoção. Orgulho de ter ido. Dor de ter sentido. Tristeza pelas perdas, e os anseios correndo sem endereço certo. Aqui estou minha querida, e não sei mais de nada. A última crise me conteve, prendeu o cavalo, amarrou meus pés no chão e disse: pare. É preciso pouso. Reconheça-se novamente. Prepare a nova casa. Ela vem amiga, o nosso novo vem.  Estamos perto de ter toalha felpuda. Mas não como a gente esperava. O braço é nosso com a gente mesma. O acalento somos nós assim, tão despidas e tão frágeis diante do susto. Somos nós embaladas por nós mesmas. Ainda tem muito chão e estamos exaustas. Vamos dormir um pouco, vamos nos cobrir desse cobertor rosa-iogurte que aquece e lembra amor. Vamos fazer um ninho provisório para poder continuar e receber o que vem. Estamos juntas, sempre. Para mais!

 (ela: Kiara Terra)

Querida Sil,

Por que tanto. Não desejamos menos do que tudo. Inteiro. Grande como fosse. E caminhamos, corremos, voamos em desarvoro o quanto podíamos, prometemos a nós que seria como andar de bicicleta…pedalar, pedalar ininterruptamente. Sem cair.

Estávamos cansadas e a ladeira era enorme ainda. Era nadar a vida a braçadas, mais e mais, e pedalávamos de olhos fechados. Vida abaixo, vida a cima. Viva vivida toda, como você gosta de dizer minha amiga.

E nos cansamos. Coração saia pela boca. palavra já não saia. O que saia era o coração mesmo, em veia e sangue. Paramos. Sem colo ainda. Nada do mar aberto, nem sinal de toalha felpuda. Ainda estávamos no descabimento. Depois de tudo ainda estávamos ali e nossa casa de agora não nos vestia. Ainda não.

Sonhei com você, te contei. Só não contei que chorávamos juntas. Depois das suas últimas notícias o sonho fez mais sentido. Chorávamos cansadas. Exaustas, tal qual criança de volta de viagem. Tantos dias fora de casa. Tanta gente. Pele alargada por tanto voo e músculos doloridos.

E paradas a gente não se sabe muito. Paradas é o desajeito diante do espelho desconhecido da casa de alguma visita. A visita somos nós em nossas casas novas. Aqui onde cheguei está tudo em ruínas. Do teto ao chão e o cheiro de cimento molhado me avisa que será preciso esperar um tanto antes de. Desvio dos restos da minha casa espalhados pelo chão.

Aqui só se pode andar devagar por que o pó fino das coisas desfeitas tomou tudo. Serão algumas dúzias de dias em bate estaca. Só bem depois no silêncio. Noite, escuridão translúcida, permear tudo. Só depois virá uma tarde calma quente e forte de corpo refeito, para um abraço demorado de encontrar um segredo no outro sem precisar de palavra, nem de coração que escape.

Só quando a maré encher. No ainda de agora acolhidas pelas águas fundas, sentido opaco e imóvel. Tudo tão longe. Rua de carnaval nenhum. Sem rastro anterior. Caminho novo só a gente outra vez. E a gente da gente, casas nossas habitadas inteiras e cheias de frestas transpassadas e acolhidas. Nós. Até desatar.

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