Amostrada

#AlmaBiscate
Por Raquel Stanick

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Não sei desde quando sou biscate, mas lembro que aos dez anos, minha mãe foi advertida por uma amiga que a filha dela estava se “amostrando” demais, nas férias que passávamos em grupo num interior da Bahia. E que se eu continuasse “daquele jeito” iam acabar falando mal de mim. Para quem não sabe, em Recife, cidade onde nasci e morei um bom tempo, uma pessoa “amostrada” é alguém que se exibe, que se “acha”.

Mas vamos ao que interessa e tratemos logo dos assuntos que caracterizam e carimbam uma mulher como biscate. Sexo. E liberdade.

A primeira vez que fiz sexo foi com um cara que havia voltado há pouco dos States, usava brinco de caveira e calça rasgada. Tinha namorada “séria”. Me presenteou quando fiz quinze anos com um solo de bateria cercado de uns amassos leves. Algumas semanas depois perguntei se ele queria transar comigo. Com essas mesmas palavras. De forma direta, sem romantismo ou ilusões de manter algum relacionamento posterior com ele.

Querem algo mais biscate que isso? Pois tem.

Nunca namoramos, mas chegamos a morar juntos na casa da minha mãe, outra bisca de carteirinha, que sempre desejou, acima dos falsos moralismos, que eu fosse feliz. Eu tinha dezesseis anos.

Imaginem o escândalo.DIGITAL CAMERA

Desde então transei com eu queria, quando queria e onde queria. Simples assim. Para mim e pelo menos por um tempo. Algumas amigas passaram a ser aconselhadas por suas mães, mulheres mais “ajuizadas e sérias” que a minha, a não andarem comigo. Passei a ser má companhia. Muitas pessoas da minha família também criticavam abertamente meu estilo de vida, que incluía rock, cerveja, tatuagens e namorados demais, nas suas dogmáticas opiniões. É, os ônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade. Fazendo sexo. Se somos mulheres. E doem sim. Muito.

Falemos deles também.

Conheci o homem que se tornaria meu marido aos vinte anos. O traí. Ele ameaçou me matar. Me assustei mais do que quando era chamada de puta por alguém com quem tivesse compartilhado beijos e prazer no dia, no mês ou no ano anterior. Devia ter algo errado comigo, só podia ser isso- pensei. Tentei me “comportar”, pois. Casei. Vim morar na cidade desse homem. Muitas brigas, anos e violência depois, acabei me separando, quando um dia finalmente me convenci que eu acabaria morrendo se continuasse naquela relação. Nem que fosse de tristeza e murchando aos poucos. Não foi tão simples e quem acha que demorei demais para tomar a decisão não deve saber do que eu estou falando. Exigiu uma coragem que tinha se atrofiado com o tempo vivendo aquilo, que por mais que eu tentasse e diziam-me ser o certo, o que toda “boa” mulher almeja, o que tanta gente invejava, eu não conseguia mais desejar.

A terapia, a Arte e a escrita, essa última refúgio e fortaleza desde a infância, ajudaram-me a tomar essa e outras decisões e reafirmar-me como pessoa, e sim, sim, sim, biscate. Finalmente.

Foi como tal que escolhi largar uma profissão em que ganhava muito bem para tentar viver de cultura e arte. Voltei para a universidade. Mudei completamente de padrão de vida. Passei por algumas necessidades e sufocos financeiros, mas também a entender que o que eu tinha vivido não tinha sido culpa minha. Mas que sim, eu era e sou responsável pelas minhas escolhas e que mesmo errando, risco que corremos em maior grau quando livres de certezas absolutas, eu posso transformar esses erros em sentimentos e ações se não corretas no sentido literal da palavra, ao menos justas para comigo e com xs outrxs.

Também foi através da escrita, dessa vez em blogs, que conheci a Luciana. Estabelecemos uma amizade que só fez se fortalecer em vários encontros regados a cerveja, cidades variadas e compreensão e que rendeu o convite há alguns meses atrás (mentira, me ofereci mesmo. Sou dessas) de escrever por aqui.

Tenho assim, aprendido aos poucos, na prática e todos os dias, sozinha e acompanhada, lendo e escrevendo, pintando, bordando e fotografando o que é ter uma alma de biscate. Talvez eu nunca consiga entender completamente o que isso significa. Mas tenho tentado. Talvez daqui a alguns anos eu consiga. Talvez outras pessoas o façam por mim. Mas o que sei é que enquanto isso não acontece, já ajudei a organizar a primeira Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar também de minha, ministrei palestra sobre Beauvoir no interior do Estado, sobre a própria Marcha por aqui mesmo. Ganhei prêmio como artista, fiz várias exposições, escrevi e aprovei projetos. Minha arte cada vez mais tem se misturado com feminismo e literatura. E com meu próprio corpo. Viajei. Dancei. Usei muito decote, roupa curta e batom vermelho. Fiz outras tatuagens. Gargalhei muito também.DIGITAL CAMERA Alto.

E o Sexo?

Bom, ainda transo como eu quero, quando quero e onde quero. Simples assim. Para mim. Também ando na companhia de gente maravilhosa e que de um jeito lindo aconselham a outras pessoas, mulheres principalmente, a andarem, correrem, trotarem, se relacionarem com quem e como quiserem. É, os bônus sempre são muitos quando escolhemos viver com liberdade.

Tem como não ter um orgulho danado, desses que não podemos contar sem desnudar também um pouco de nossa história, em ter essa tal de alma biscate? Tem como não se “amostrar” em fazer parte desse club?

E como diz Piaf: “Avec mes souvenirs/ J’ai allumé le feu (…)”

Feliz ano novo, amores e amoras.

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