Envolvimento não se mede com fita métrica… e outras pautas

Por Mayara Melo*, Biscate Convidada

Mesa de bar em noites aleatórias. Sorrisos. Cerveja. Corações expostos. Amigas. Ocasionalmente, pode até rolar uma lágrima. Depois – quem sabe – gargalhadas. Coisa que esta bisca curte é o aconchego de uma mesa de bar rodeada de ouvidos atentos e braços abertos. A noite avança e os causos também. Desce mais uma cerveja e conta mais uma história. E a gente vai se reconhecendo. Vamos juntando pedaços, a história de uma termina na história da outra. A gente concorda. Depois a gente discorda. E a noite avança. Quem nunca rabiscou projetos num guardanapo? Sonhos, desejos, medos e planos são compartilhados. Conquistas merecem brindes. Perdas são acolhidas. Carinho muito. E cerveja também. Sempre chega a hora da música, caso o bar não tenha música ao vivo, ou os músicos já tenham largado o posto. Procura no youtube aquela do Chico! Mesa de biscas tem milhões de assuntos e eles se sucedem numa velocidade vertiginosa. Estávamos falando de sexo, como foi mesmo que chegamos à pauta da falência da democracia representativa? A gente ri. Entre os vários temas, aparecem aqueles do coração (bisca tem coração, aliás…tem é muito). Alguém dá uma googleada pra encontrar um trechinho do Manoel de Barros que cabe: “E, aquele que não morou nunca em seus próprios abismos, nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas, não foi marcado. Não será exposto às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema”.

E continua…

– Que tristeza não se expor!
– Eu gosto do movimento de abertura para a vida, para o inesperado, e até para os abismos.
– Tá, a gente se joga e depois se lasca todinha.
– Talvez. E daí? Podemos ganhar arranhões, mas podemos ganhar também riso frouxo, cafuné, café amargo numa manhã chuvosa, cumplicidade, reciprocidade. Quem sabe?
– Ah, mas vai que eu me apaixono!
– O pior é que tem gente que já chega pra dizer que não vem, não quer se envolver -_-
– Pois é, mas eu pergunto logo: você está aqui, amigo? Está aqui agora? Sinto informar: já era!
– Bem, e se ficamos juntos apenas por um fim de semana?
– Foi bom? Foi divertido? Ótimo!
– “A alegria é a prova dos nove”, acho que estava escrito no manifesto antropofágico!

Se envolver ou não vira a pauta da rodada… e vamos pensando…

Se envolver não é planejar futuros, não necessariamente. Há envolvimento numa conversa gostosa, em filmes assistidos nas tardes preguiçosas, em pernas que se enroscam, no sono compartilhado, na troca de suor e de saliva, nas respirações descompassadas, no riso comum. E pode ser tudo assim de graça, sem plano algum. Ah, mas existem intensidades distintas de envolvimento, certo? Claro, mas intensidade não se mensura pela continuidade, nem pelo tempo, nem mesmo pelo rótulo da relação. E aí chamamos Manoel novamente pra nos lembrar “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.

Mas parece que às vezes queremos nos proteger até dos encantamentos. Quem sabe por isso compartilhamos tantas histórias que começam com “estamos ficando, mas fulanx disse que não quer se envolver”. Não gosto de avisos prévios, e torço o nariz para o sentido de envolvimento que vem embutido nesse tipo de “aviso”. Não estou dizendo que as pessoas não devem ser sinceras sobre a disponibilidade sentimental delas, nada disso. Só não entendo a necessidade de negar o que ali já está estabelecido. Essas posturas me irritam ainda mais quando vem de um homem para uma mulher. E, na maioria das vezes, é bem isso que acontece (nem todo homem! Alguém gritou?). Parece que muitos partem do princípio de que a gente não tem nada melhor pra fazer na vida do que procurar construir relacionamentos que vão terminar no altar. Não seria mais simples acreditar que às vezes a gente só quer compartilhar algumas coisas como a cama, o sofá ou mesmo o chão da cozinha? Não seria mais simples aceitar que a gente pode querer “só” sexo, mas que isso não invalida que possamos querer saber da outra pessoa na semana seguinte? Parece que não e, de repente, a pessoa te encontra na rua e você percebe que ela não sabe se fala contigo ou se muda de calçada. De repente, ela te deixa no vácuo. Não sei exatamente onde está escrito que relações livres ou casuais não podem ser sucedidas de qualquer manifestação de afeto. É claro que não estou falando de encontros que foram desastrosos, eu sei que eles existem e que depois, talvez, nenhum dos envolvidos queira topar com o outro por aí. Estou falando de encontros bons que podem amargar, simplesmente, porque “a gente não tem uma relação, lembra?”. Esbarra aí. Acho meio triste quando alguém tem que fazer de conta que não está pensando na outra pessoa e se furta de mandar aquela mensagem no meio da tarde, afinal, o outro pode pensar que “nossa, ela quer um relacionamento”. Imagina! A pessoa não pode demonstrar afeto pra não correr o risco de ver o outro fugindo. Eu acho que isso empobrece as experiências da gente. Não é todo dia que queremos a companhia do outro, o carinho, os beijos – e tudo bem. Sem crise! Eu posso acolher o seu desejo hoje, ou não. Eu falo, eu digo. Você responde: vamos ou não vamos. De boa! A gente se encontra quando os desejos baterem. E só. Ninguém deveria precisar sair correndo da expressão do desejo do outro, ou precisar esconder o seu próprio, só pra evitar a tal da relação. Até porque…insisto…relação, num sentido amplo, já existe. Não precisa considerar relação só aquelas tipicamente caracterizadas na cartilha do amor romântico. Se relacionar, eu penso, é se permitir tocar e se deixar tocar pelo outro. Não importa se será só por hoje. Não importa! Se permita, sinta. A relação pode ser indeterminada. Qual o problema? A indeterminação faz parte da vida. A negação dessa relação – e com isso a negação do outro que se envolveu com você – é apenas desnecessária.

P.S. (in)conclusões biscas, depois de papos etílicos, mas tudo está em aberto nas mesas dos bares e na vida. Que bom! Que bom também que o Biscate voltou! Esse espaço não deixa de ser também uma grande mesa de bar onde podemos contar e ouvir história, inventar e se reinventar. Vida longa ao BSC!

mayaraMayara Melo é uma cearense apaixonante e apaixonada pela vida e pelo sol, atualmente morando em outro lugar ensolarado. Feminista, de esquerda, ativista dos Direitos Humanos, ambientais e indígenas. Você pode acompanhá-la em seu blog ou pelo tuíter @Mayrores.

Olhar(es)

Esse último mês num foi lá muito fácil para mim.

Foi tenso. Do nada ( ou nem tão do nada assim), minha auto-estima foi parar na lama. Olhar no espelho estava bastante desconfortável, porque tudo que via em mim mesma era defeito. Ora uma espinha, ora uma olheira. Ou o cabelo que estava pesado e sem brilho. Ou então eram as duas ou três dobrinhas a mais na barriga que me deixavam triste.

espelho-infiel1

Olhar

Parece frescura, né? Coisa de gente fútil e superficial, e tals. Só que não. Percebo que muitos de nós estamos bem insatisfeitos com a nossa imagem e por isso, acabamos sendo bem cruéis conosco e com os outros. Julgamos, medimos, comparamos. Gastamos uma puta grana com produtos “milagrosos” que nos prometem a aparência photoshopada das revistas.

Se você for mulher então, é bem pior. Não que isso não atinja aos homens, atinge sim. É que mulher tem a “obrigação” histórica de estar sempre bela. De ser perfeita. De caber perfeitamente nas roupas, nos adornos e nas caixinhas que alguém com bastante poder, determinou que eram as ideais para ela.

Acontece que a natureza não tem o menor compromisso com essa estética absurda e inatingível para a maioria de nós. O natural é a variedade. O que é natural, bonito e saudável não engloba apenas o magro, o loiro, o liso ou o jovem. Nela há espaço para muitas nuances, texturas e tamanhos.  E o nosso olhar, tão bombardeado por imagens  que fogem absolutamente dessa variedade,  não tá acostumado com isso.

Bora treinar esse nosso olhar viciado para uma beleza plural? Porque não são os nossos corpos que devem ser repudiados…

Sobre a Liberdade

#Alma Biscate
Sobre a Liberdade, Augusto

“Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome”, pois é, não saber o significado talvez seja um começo… Prestar atenção, compreender, respeitar, um passo fundamental. Crítica, autocrítica, indispensável… Revelar uma alma biscate talvez seja equivalente a descobrir cores, talvez seja como invadir o desconhecido em si e desbravar, para si, os freios e os contrapesos da alma. É buscar a liberdade de conhecer e dar o nome que quiser às cores, ou simplesmente mantê-las anônimas, não ter que nominar tudo…

2012-06-01 21.20.40

Se libertar é um processo. É um exercício de autoconhecimento. Liberdade é o estado de espírito em que se permite estar em equilíbrio consigo mesmo, sem freios, sem medos, sem vergonhas, sem dores. E não é fácil, às vezes improvável, às vezes estanque, às vezes contínuo; nunca impossível. É navegar “louco, louco, louco, louco e sujo de sal”. Sal de suor, de lágrimas, de sangue ressequido, de feridas em cicatrização, de luta, de desejo, é o sal do outro. É também encontrar “luz em um caos de paixões”; é poder flanar sobre as “almas esticadas no curtume” da vida, nas exigências da família, da religião, da sociedade e se desapegar.

A liberdade é o exercício diário e pleno da própria vida, é o erro e o acerto em cada ação para consigo e para com o outro. Sim, pois para ser livre é necessário, fundamental, errar! E mais, é preciso ser capaz de assumir a responsabilidade pelo erro e transformá-la em aprendizagem ao invés de recalque, de autocastração.

Meu processo de aprender uma vida livre dói. Não me importa se mais ou menos do que dói nos outros…Dói de uma maneira que é só minha e que é assim para cada um, há que estar disposto! Meu primeiro passo foi o desapego, do qual abusei; depois a exposição, que reprimi; ainda as críticas, que descobri fundamentais em mim e desimportante nos outros; Agora estou em luta, que transformei em mantra, luta pela liberdade, mas inconstante.

Quere ser livre é, assim, ato diário, constante! Ser livre, talvez seja o seja menos. Por vezes nos perdemos em nossas próprias armadilhas, não é! Importante é saber sair delas. Mas liberdade é consciência de si e noção de coletivo. É entender que mais que levar a própria liberdade ao extremo e até o limite a liberdade do outro, liberdade é ser livre com o outro.

SER LIVRE COM O OUTRO, com todos os demais. Talvez seja isso que tenha aprendido com o Bisca: querer a liberdade; entender as limitações alheias, afinal, cada qual se prende em sua gaiola de ferro; e batalhar quando tentam me enfiar em uma dessas prisões. Aprendi que não posso, como gostaria, diariamente e constantemente empurrar todos para uma direção que sequer conheço, mas que posso tentar exercitar, com cada um que também esteja disposto, o traçado de um outro caminho e é isso que faço no Bisca, vou tocando em frente, de vagar, sorrindo…

Obrigado, biscas do meu coração! Biscatagi é isso… é ir junto!

Viver: nossa maior oportunidade

Rua  Augusta, São Paulo, quase 20h. Um monte de gente aglomerada em volta de um carro parado e, ao lado do carro, uma garota caída. Inerte. Parecia ser bem jovem.

Ver aquela cena mexeu bastante comigo , sabe?  Mesmo sabendo que atropelamentos  acontecem todos os dias, sobretudo em uma cidade imensa como São Paulo. Cidade onde a maioria das pessoas (sobre)vive com pressa e estressada.  Cidade onde dá para perceber de forma bem acentuada quanta gente está insatisfeita. E onde a vida parece ser mais breve do que em qualquer outro lugar…

O cotidiano às vezes nos torna cegos para essa brevidade que envolve a nossa existência.  Já repararam como a gente perde um tempo precioso remoendo as nossas frustrações ou reclamando daquilo que, por um motivo qualquer, não deu certo? Ou então julgando as escolhas dos outros pelo fato delas serem diferentes das nossas?

Pode parecer simplista o que vou dizer, mas acho que a gente poderia aprender a enxergar cada dia como uma chance. Chance para errar, para acertar, para começar ou recomeçar.  Viver é uma grande oportunidade que nem sempre valorizamos.  Há tantos caminhos a serem percorridos, tantas ideias ou experiências enriquecedoras para trocar. Por que não começar a exercitar isso desde já?

Não quero me tornar uma escrava dos meus dissabores. Não quero deixar para o futuro as coisas que eu poderia fazer hoje, só porque eu tenho medo de falhar. Quero aproveitar direitinho todas as minhas chances . O mundo pode estar bem ingrato, mas reclamação sem atitude certamente não ajudará em nada para que ele mude.

Não sei se a garota que mencionei no começo do texto sobreviveu. Ou se ela se tornou mais um dígito nas estatísticas paulistanas de mortes no trânsito. Mas eu fiquei imaginando que talvez, ela tivesse muitos sonhos. Ou que ela gostaria de fazer muitas coisas ainda. Pode ser que a última chance dela tenha sido até as 20h de ontem, e nem ela nem ninguém tinha como saber disso…

Bonança

Juro que hoje eu queria escrever um daqueles posts cheios de cor, de calor e de alegria. Mas biscate também fica triste. Biscates, apesar de fortes, também podem acabar quase sucumbindo diante de questões sem uma solução possível a curto prazo, dependendo do tempo e de fatores externos para deixar de causar aflição.

Tá aí uma coisa que não desejo a ninguém: a aflição.

Todos temos problemas. Uns mais, outros menos. Mas todos temos. E nem sempre conseguimos lidar com eles com a serenidade necessária. E eu estou assim nos últimos dias, por um conjunto de fatores: uns são minha culpa, admito. Outros foram ocasionados por um sistema que funciona de forma bem precária e independe da minha vontade ou de minha atitude que algo mude nele. E, quando um pequeno avanço acontece, o dobro de retrocessos chega para “compensar”. Isso cansa bastante.

Ainda não tenho meios de provocar uma ruptura radical e definitiva com essa questão que tanto me aflige. Contudo, imaginem como é você ter que fazer todo dia algo sem a menor paixão. Sair da sua casa todos os dias  “se arrastando” para fazer determinadas obrigações que são apenas isso: obrigações. E o pior: você se sentir egoísta por reclamar tanto daquilo que te acontece enquanto tem gente vivendo de um jeito muito mais sofrido do que o seu, com menos amargura.

Vocês já pensaram que esse negócio de ser “bem sucedido” e “estabilidade” podem ser uma imensa furada?

Depois que “me descobri” biscate, aprendi a olhar muito mais para mim mesma e para os outros.  Como nunca tinha feito antes. Tenho quase certeza de que essa fase meio zicada faz parte deste processo. E que de alguma forma, irei crescer com isso. Só que paciência num é muito o meu forte e nas minhas veias, corre pressa ao invés de sangue. E entender aquilo que não serve para você quase sempre dói.

Desculpem se o texto de hoje fugiu da temática do blog. É que este é um dos poucos espaços que me representam ultimamente. Entendam este desabafo como uma forma que encontrei para exteriorizar o que sinto e ao mesmo tempo, compartilhar uma experiência que pode vir a acrescentar algo na vida de alguém.

Dizem que depois da tempestade, vem a bonança. Quando a minha tempestade acabar, espero poder voltar aqui para dizer que foi apenas uma chuva de verão que veio para me refrescar e fazer com que a minha visão fique menos turva para encontrar de verdade o meu caminho.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...