Racismo

Por Niara de Oliveira

Não posso falar da condição de opressão imposta pelo racismo. Sou antirracista e me policio para não cometer racismo em minhas atitudes e falas há um bom tempo. Mas, independente do quanto me doa e indigne atitudes racistas, nunca saberei de verdade o quanto doi, humilha e destroi. O meu lugar de fala é do lugar que oprime. Gostando disso ou não, detenho privilégios raciais. Reconheço isso com tranquilidade e com a disposição de não piorar ainda mais a situação.

Negras e negros não precisam das minhas considerações, opiniões, autorização ou conhecimento sobre a realidade deles e nem mesmo que eu fale em seu nome. A realidade é deles, quem sabe são eles e quem fala em seu nome são eles mesmos. Tudo o que posso fazer é tentar não atrapalhar e principalmente recusar, não dispor dos privilégios que minha condição de branca me dão. De sua libertação cuidam eles.

A solidariedade necessária e urgente que negros e negras precisam é serem ouvidos quando dizem e apontam que estão sendo ofendidos e violentados. Basta não duvidar da palavra e da condição de vítima da opressão racial.

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Aranha (foto: Santos FC/ divulgação)

Jogo Grêmio x Santos em Porto Alegre em jogo válido pela Copa do Brasil. O goleiro santista Aranha é xingado de “macaco” por centenas de torcedores na Arena do Grêmio. Apenas uma torcedora foi identificada e está sendo responsabilizada, embora fosse possível identificar e responsabilizar outros individualmente além da torcida da qual a moça faz parte, e que costumeiramene entoa cânticos racistas dirigidos a torcida rival.

Ok, a moça foi hostilizada de forma machista e misógina, o que não cabia e nem é resposta ou justiça ao seu ato racista, mas ela em nenhum momento reconheceu o erro, apenas tentou desesperadamente se justificar. Aranha não se comoveu e manteve a denúncia. O Grêmio foi condenado com a desclassificação da Copa do Brasil. A torcida gremista aos poucos foi se revoltando contra Aranha, a vítima, insuflada pela imprensa que teve suas intenções de armar a reconciliação entre vítima e agressora diante das câmeras (e faturar com isso) frustradas com a recusa de Aranha em participar do circo.

Dias antes de um novo confronto Grêmio x Santos em Porto Alegre agora pelo Brasileirão, o técnico gremista Luiz Felipe Scolari acusou Aranha de ter sido o “responsável pela confusão no jogo da Copa do Brasil, ao provocar a torcida gremista”. Sim, em uma semana Aranha foi de vítima a vilão por 1) não ter aceitado o papel de vítima, 2) por não ter aceito participar do circo proposto pela imprensa, 3) porque é consciente de sua condição e continua exigindo respeito e que a justiça seja feita no caso. Detalhe: não precisava. A postura de Aranha não atenua a violência que sofreu e nada, nada, nadinha do que ele venha a fazer ou dizer desfaz o crime cometido pela torcida gremista naquela noite.

Depois de passar a semana desfilando em programas de tevê e sites de notícias tentando justificar/negar seu ato racista, Patricia Moreira, a torcedora gremista flagrada xingando Aranha de macaco teve sua casa queimada em Porto Alegre e disse querer “ser um símbolo nacional contra o racismo”. Hã? E veio o anúncio de que foi contratada pela Ong CUFA (Central Única das Favelas) para contar sua experiência com o racismo. E ela ainda contou na entrevista já ter ficado com negros, o que — claro!!! — atesta que ela não é racista. HÃ??????????

Até eu que sou branca consigo ver que tem algo de muito errado nessa história…

Veio o novo jogo na Arena do Grêmio e a torcida gremista, toda ela, vaiou Aranha quando ele entrou em campo e toda vez que ele pegou na bola, confirmando que o ato racista contra ele não era um caso isolado mas uma prática cotidiana da torcida gremista. Dessa vez não o chamaram de macaco, mas o chamaram de “viado” e de mais uma dúzia de outros insultos. E as vaias tinham outro sentido além de apenas desconcentrar o goleiro adversário. E como já estava pouco de racismo, tinha que ter homofobia também. A imprensa? Na transmissão pelo no Sport TV (Globo) disse o repórter: “tá bonito o duelo atrás do gol entre o Aranha e os gremistas”. O bonito para o repórter era Aranha sendo vaiado e insultado. O mesmo repórter tentou colocá-lo em várias saias justas na entrevista após o jogo. Aranha tirou de letra, embora não precisasse, é um show de consciência e respeito próprio. Uma verdadeira aula de dignidade. Assistam aqui a entrevista de Aranha após o jogo de ontem (18) em Porto Alegre.

E só para mostrar que não é um caso isolado, vou compartilhar as notícias e discussões sobre racismo que me chegaram nos últimos dias. Nenhum é ameno.

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

Danièle Watts detida, algemada pela polícia (foto: reprodução/facebook)

A atriz americana Danièle Watts foi algemada pela polícia na rua, sob suspeita de prostituição. Segundo a polícia, lhe foi pedido que apresentasse identidade após “demonstração de afeto”. Ela e o marido branco estavam se beijando. Clique aqui para saber mais detalhes.

R10 macaco_carlos trevino

Ronaldinho Gaúcho se apresentou ao seu novo clube, o Querétaro da cidade de Querétaro, no México (segunda cidade mexicana mais rica) na última sexta-feira (12). A apresentação foi feita diante de 35 mil pessoas no Estádio La Corregidora no intervalo da partida válida pela séire do Mexicano, e trancou o trânsito da cidade. E foi por causa do engarrafamento que o político Carlos Trevino xingou R10 de macaco no facebook e disse não gostar de futebol. Trevino pediu desculpas, mas pelo twitter e já cancelou seus perfis em ambas as redes.

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta servindo, como Sebastiana em Boogie Oogie (foto: GShow)

Zezé Motta, atriz e cantora brasileira que dispensa apresentações, completará 70 anos de vida e 50 anos de carreira interpretando Sebastiana, empregada doméstica do elenco de apoio na novela das 18h da Rede Globo, Boogie Oogie. (*)

Estreou na Rede Globo “O Sexo e as Nega”, série que segue a linha de Sex And The City, só que com um narrador branco, uma protagonista branca, hipersexualização da mulher negra, o reforço do racismo e machismo quando as personagens negras em situações de discriminação e violência não reagem de forma positiva. Isso sem falar no título… A Charô Nunes e a Bia Cardoso escreveram muitíssimo bem a respeito e ainda virão outras análises bem apropriadas pelo seu lugar de fala e contestação.

A modelo Mahaneela Choudhury-Reid foi agredida fisicamente e xingada com insultos racistas no metrô de Londres. Mahaneela denunciou a violência sofrida pelo twitter e o diretor do metrô londrino diz que os 700 funcionários do metrô estão instruídos a orientarem as vítimas de casos parecidos a denunciarem na Polícia de Transporte Britânica (PTB), o que a modelo já anunciou que fará.

Cleide Donária, candidata ao governo de Minas Gerais pelo Partido da Causa Operária (PCO) relatou ter sido agredida, cuspida e ter ouvido insultos racistas e misóginos por defender a desmilitarização da Polícia Militar. O agressor deixou claro em meio aos insultos o motivo da agressão.

Presidenta Dilma Rousseff em campanha pela reeleição disse ‘ter muitos negros no segundo escalão’. Dilma encontrou com integrantes de movimentos negros e grupos de congado em Minas Gerais e durante entrevista sobre propostas de combate à desigualdade entre negros e brancos disse: “Eu tenho muitos negros no segundo escalão. E acho que isso reflete também o fato, por isso é muito importante a lei de cotas nas universidades. Nós temos de formar pessoas negras para ocuparem os postos mais altos desse país. Temos de fazer isso”, declarou. Juro que prefiro não comentar.

E essas foram as percepções de apenas UMA semana…

Racismo não se tolera, não se empurra pra debaixo do tapete nem se justifica. Racismo se combate. A começar ficando alerta com nossas próprias atitudes.

(*) percepção do Gilson que compartilhou em casa comigo e eu chupei pro meu texto.

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