Separação e Sofrimento

Por esses dias vi, na TL de uma pessoa querida, esse link que rendeu uma boa conversa. Uma fotógrafa registrou mulheres depois do fim de um relacionamento. E é tão bonito na imensa tristeza e melancolia que transmitem. Esteticamente encantador.

Dá pra lembrar tanta coisa bonita assim, nesse mote, né? Elis Regina cantando Atrás da Porta, o livro A Dama das Camélias, o filme sobre Camille Claudell, Fafá de Belém batendo a real em Abandonada. Sem falar na loucura de Ofélia. Pra completar temos as incontáveis matérias em revistas femininas tratando do tema: como a mulher pode abandonar a tristeza do fim de um relacionamento, como superar, dar a volta por cima, etc, etc, etc. Se você colocar no google: “mulher fim relacionamento” vai ver a profusão de resultados.

sofrer

Daí que me bate a inquietação. Essa narrativa única que relaciona mulheres e sofrimento no término das relações. Onde estão os outros sentimentos? E não digo só o riso, embora ele também. Onde a raiva? Porque tão poucas Medéias? Onde o prazer da liberdade? Onde o alívio? Onde o medo do futuro? E, claro, a fotógrafa não tem obrigação de dar conta de todos os registros, já não estou conversando sobre este trabalho especificamente. Mas entender que este trabalho se inscreve em uma tendência majoritária de tratamento do tema. O discurso geral, homogeneizante, uniforme e autorreferente é: as mulheres sofrem no fim dos relacionamentos. Parece que esse é o único caminho, o único sentimento possível para a mulher: lamentar o fim do relacionamento. E, aparentemente, como passiva. Porque tanta tristeza só faz pensar que ela não decidiu. Foi decidido por ela. Objeto da solidão e não sujeito dela.

Não é que eu esteja negando o sofrer. Eu também sofro, às vezes. Eu escuto Maysa, eu canto Dolores Duran. Eu assisto Casablanca e Suplício de uma Saudade com o propósito específico de reviver a solidão e dar sentido à ausência.  Não sou nada contra a estética da dor. Nem questiono a identificação. Mas eu acho cruel que seja a narrativa não só principal como única que se possa ter de um momento do relacionamento. E acho que é o ampliar das possibilidades de sentir que enriquece a vida. Porque o registro: mulher que sofre por ser deixada sozinha é, não só o registro mais escolhido para ser feito mas também o mais divulgado. Não precisamos reivindicar espaço para a tristeza, ela já é a norma.

Eu estou pra ver o foco de fim de relacionamento pra mulher no cinema, na música, nas fotografias que não seja essa ideia aí de solidão e dor e sofrimento, E, olha, digo por experiência própria que nem sempre é tristeza. Mesmo quando o relacionamento era bom. Especialmente quando era. Pode ser riso, inclusive conjunto. Mas não achamos que seja porque não aprendemos que pode ser assim. Não há, significativamente, fotos, relatos, músicas nem filmes que desvelem outras possibilidades. A narrativa única é que me irrita. Porque molda. Porque faz com que as mulheres acreditem que TEM que ser triste primeiro pra depois ser riso. Não tem não. Pode ser alívio, pode ser reencontro, pode ser qualquer coisa. E mesmo quando é tristeza tem intervalos. Mesmo na dor e na angústia tem o abraço do amigo, as compras de calcinhas novas com a amiga, tem a trepada casual do fim de semana, tem aquele riso leve diante da salada de frutas com sorvete, tem sair pra cortar o cabelo. Tem vida. Tem respiros e não só o encarar o vazio e chorar na cama. Como a gente pode aprender outro lugar se só nos oferecem esse?

Claro que ninguém chega pra uma menina e diz que romper dói e ensina: olha, menina, você vai ser mulher e vai sofrer sozinha sempre que acabar um relacionamento. Mas ninguém chega e diz pra gente que tem que ser magra, alta, branca, jovem e de cabelo liso pra ser bonita e desejável, assim como ninguém chega e diz que mulher direita não goza – e mesmo assim a gente aprende isso. Porque é o que está por aí, no senso comum e representado esteticamente. Porque eu acredito que a gente vai dizendo o que aprendemos a dizer e a sentir, né? Pelo menos a maior parte das experiências não é de admoestação direta. É de construção simbólica. Então o “nosso sentir” não é um dado de essência imutável. É uma construção subjetiva a partir de narrativas sociais e vivências.

Não estou dizendo que sofrer não tem espaço e razão de ser. Claro que sim. Doer faz parte de ser humano. A falta é estruturante da nossa subjetividade. Sermos incompletos é, justamente, o que nos faz ser – e as experiências de separação são o reviver dessa angústia. Mas o sofrimento não é o único sentir proveniente dessas experiências – mas muitas vezes é o único que aprendemos a nomear e a dar concretude. E aquela borboleta na barriga? Alívio? Excitação? Curiosidade? Alegria? E tanto espaço, tanta vida pra viver, que outros sentimentos nos podem acompanhar? O que podemos escolher, para além do que já escolheram pra nós?

Pra mim é como o lance da beleza. Tem que ter opção. Tem que ter todo tipo de corpo nas capas de revistas, tem que ter todo tipo de rosto nas telas, tem que ter todo tipo de gente pra gente poder sentir, verdadeiramente, que nosso corpo é válido. Tem que ter pintura, filme, fotografia, música, cartaz com mulher vivendo as separações de várias formas para além do sofrimento pra gente poder aprender que nosso sentir é verdadeiramente válido e aceitável.

Reinventar a narrativa. Ser protagonista. Escolher o riso e o bom. Minha bandeira.

Antropofagia – ou: “Tudo anda tão diferente por aqui…”

Por aqui, por ali e por todos os lugares que passo e passei desde quando me tornei Biscate! Ultimamente vejo o mundo com novo olhar, olhar amplo e passível de mudança. Algo que meu Eu-não-Biscate nunca tinha feito, mudar e questionar suas visões de mundo.

Houve uma época em que, na faculdadeo, tinha total ódio ao senso comum, tão falado na academia como algo 100% nocivo ao pensador que deve questioná-lo sempre. Nessa época eu era cabeça dura demais para ver defeitos para o pensamento “acadêmico”. Mas quem questiona o acadêmico que também é criador de preconceitos e clichês?

Abaporu de Tarsila Amaral - Trecho do Manifesto Antropófago – Oswald de Andrade “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.”

Abaporu de Tarsila Amaral – Trecho do Manifesto Antropófago – Oswald de Andrade “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de senador do Império. Ou figurando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.”

Foi quando conheci pessoas plurais ao meu mundinho superior de pessoa que não assiste novela e reality show; que não ouve música do gosto popular, que não pula atrás do trio eléctrico; que ignora a própria saúde e não pratica exercícios físicos pois o intelecto é a única coisa que importa; e que ignora culturas religiosas de seus ancestrais. Nesse momento entendi como era preconceituosa e cheia de certezas vazias. Entendi que não só poderia como deveria absorver conhecimentos de todas as pessoas a minha volta sem julgá-las, assim como pessoas que eram doutoras e mestras se interessavam por minhas opiniões, sem me julgar inferior.

Me dei conta do quanto eu precisava aprender e esses aprendizados não estavam apenas em livros, monografias, teses e artigos científicos. Eu precisava aprender sobre gente com quem é gente também! Gente que tem doutorado. Gente que não sabe escrever seu próprio nome mas conhece contos e histórias do folclore, que tem receita do melhor xarope pra dor de garganta que eu já tomei, ou que conhece tão bem de cultura negra, capoeira e da vida de heróis que começaram a luta por igualdade entre brancxs e negrxs que coloca muito historiadorx no chinelo.

E com isso aprendi que achamos racismo, machismo e homofobia dentro do ambiente acadêmico, da mesma forma que cantoras de funk podem ser feministas e que numa família quem vai receber com mais carinho e respeito x seu (sua) parceirx homossexual é o seu avô de 80 anos de idade.

É vivendo e convivendo com a diferença que aprendo, aprender não é absorver tudo como esponja. Devemos engolir e digerir tudo a nossa volta, o que servir fica na gente, o que não servir a gente joga fora!

Bisca Millet

Há alguns anos atrás, quando li “A vida sexual de Catherine M” (“La vie sexuelle de Catherine M.”, no original), autobiografia erótica da crítica de arte francesa Catherine Millet, confesso que fiquei chocado e excitado. Não precisa nem dizer que a publicação do livro foi um escândalo no meio artístico e intelectual francês, pois, imagine, a renomada figura de um dos círculos mais odiados do mundo das artes (a crítica) estava ali, em seu oitavo livro, abrindo o ventre para quem quisesse ver. Best seller imediato, lógico!

Eu fico só imaginando a cara de todos aqueles artistas novinhos, alvos da caneta ferina de Catherine Millet que, talvez tarde demais, descobriram que todos aqueles “va te faire foutre” e “va te faire encouler” dispensados à nossa biscatona foram, na verdade, muito bem recebidos… elogiosos, inclusive. O “mon cul” coletivo deve ter sido impagável! O ahazo daquelas poucas páginas, pelo que li das resenhas à época, serviram para mostrar que o ambiente moderninho da arte francesa do início do novo milênio não era capaz de digerir uma respeitável profissional de meia idade expondo aventuras sexuais que iam da suruba a escatologias ao ar livre em ambientes parnasianos.

É bem possível que essa diva não tenha sido a primeira, mas certamente há um quê de pioneirismo na sua narração. Começando pela completa fusão entre autor e eu-lírico, em uma narrativa em primeira pessoa e sem voltas. Aquele distanciamento que, por vezes, aparece em livros de memórias, aquele sentimento de “não fui eu, foi o meu eu-lírico” não aparece nesse livro. O “La vie” (para os íntimos) é uma prosa sincera, direta, divertida e do tipo do “graças a deus que existe pecado do lado de cima do equador só pra gente fazer mais um”.

Pra mim, o que faz o “La vie” tão incrível e arrrojado é o fato de que, como em toda boa obra literária, o estilo de Catherine nos insere na história e nos induz a compartilhar do ambiente de liberdade e liberalidade sexual que ela experimentou. A ânsia de conhecimento do corpo, da sexualidade e do prazer se transpõe da autora para o livro para o leitor como uma paixão em cadeia e fulminante, que vem da constatação de um pequeno detalhe da relação: que o se percebe em si e no outro é aquilo o que transforma uma relação sexual em algo a mais.

Catherine Millet não parou por aí, recentemente publicou um novo livro de memórias “A outra vida de Catherine M.” (“L’autre vie de Catherine M.”, no original), no qual aborda as contradições da liberação sexual a dois, em particular o ciúme (veja entrevista no vídeo abaixo). Eu ainda não li, mas já tá na pilha de livros que se amontoa na minha cabeceira. Afinal, não é todo dia em que alguém está disposto a pegar esse conjuntinho de preceitozinhos sociais (conservadores e libertários, sim, ambos com seus pré-conceitozinhos) e praticar a modalidade olímpica de arremesso de merda no ventilador, escancarando pra quem quiser a receita do desejeXse liberteXgoze… Dá-lhe, Bisca Millet!

Ou mama, ou volta pra caverna…

Me irrita! Profundamente… Odeio preconceito musical! E não é uma coisa de memes de redes sociais. Me irrita mais porque já tive e agradeço a Jisuis por ter me salvado, mas me perturba o fato de que esse tipo de coisa prejudica a biscatagi. Como? Simplesmente pelo fato de que a música talvez seja o maior motor de difusão cultural de massa e é ela que ajuda, e muito, na liberação sexual, sem a qual nós biscates não teríamos nem o que fazer…

Vou me restringir aos últimos 50 anos e não vou sair do Pop. A primeira regra pra não cair no preconceito musical é lembrar que a nossa querida Transviada, Violetta, e a baluarte do passarinho rebelde, Carmen, infelizmente têm pouca influência nesse processo recente e, em suas épocas (me refiro às estreias), foram vistas como jogos retóricos ou óperas bufas. Eu prefiro falar de algo mais próximo. Eu quero Freddie, eu quero MDNA, eu quero Gaga, eu quero VLSK. Sim, porque é a BCTA deles que tem o poder!

Como já disse, sem jogos retóricos e sem erudições. Essas quatro figuras são arte, são de massa e são responsáveis por uma trajetória de liberalização sexual que está impregnada em suas músicas. E, melhor, incomoda! E, desculpe, só é arte de vanguarda porque incomoda, senão era outra coisa, talvez ainda arte, mas não contribuiria para nenhuma frente biscateira.

A escolha dos quatro também não é por acaso e nem são todas as músicas que me interessam. Pela proximidade dos eventos, eu tinha pensado em escrever algo específico sobre as Prides que estão bombando esse mês, mas ficaria chato e, mesmo, restrito, não pensar das queridas Vadias, no pessoal peladão de bicicleta. Afinal, liberação sexual é algo que atinge as hetero, as guei, as bi, as trans, os homi e as racha, indistintamente. Pode até atingir de forma diferente, mas atinge a todos.

É sim, pois o próprio Freddie diz isso naquela entrevista-maior-vergonha-alheia-do-braseu à Glória Maria que “I Want to Break Free” é uma ode a quem está cansado da rotinha, da repressão da vida cotidiana e que é necessário muitos mais que uma blusinha rosa, uma saia de couro, bigodes e um aspirador de pó para se libertar. God knows! Tem que colocar um colã de fauno depois do meio dia (né não, Nijinsky?) e nadar por cima de pessoas rolando no chão. Não que isso seja algo que você só utilize para dizer à sua Mama que você acaba de matar um homem, mas que o show só continua se você tiver motivos para manter o sorriso no rosto!

E, porque não, dar uma incrementada na entrega ao outro? Sentir-se virgem é sempre uma opção. Claro que sim! E engana-se quem pensa que isso signifique uma ideia de repressão feminina. Nossa Senhora do Like a Virgin, em suas preces, está apenas nos dizendo que, no mistério a vida erótica, cada nova experiência deve ser única. Cada nova entrega, por amor, desejo ou seja lá o que for pode ser uma ótima experiência e, já que resolvemos nos libertar, nós temos a chave, ao tocar de parceiros sexuais com a próxima roupa, vamos esquecer as más experiência, aprender com as boas e transformar as novas em únicas!

Esses dois grandes ícones vêm acompanhados de perto por um pessoal que tá dando o que falar. E é nessa polêmica, nessa confusão que Gaga e Valesca colocam suas Mamas para funcionar. Mama-Monster foi diretíssima, mudou o Pop ao resolver escrever o seu mau romance. Disse o que todos sempre quisemos dizer: “eu quero tudo o que vier de ti, contanto que seja livre”, sim, livre, “gratuito” não funciona nessa tradução! Desculpa quem não gosta, ou quem já cansou, ou sei lá, mas à beira da glória, ela veio pra mostrar que nós podemos nascer e ser como somos, não importa o tamanho da poker face da sociedade. Depois dela, filhos, todas tá procurando um Alejandro ou Alejandra, ou até um Judas para chamar de seu criminoso!

E a nossa Popozuda? O muito amor <3 <3 que a liberação sexual que te dar, que te dar, quer te dar dar-dar-dar-dar-dar-dar? Ao contrário dos outros, ela não nasce no Pop, mas é a coragem que desce o morro pra mostrar que a nossa buceta tem poder. No sentido real e no figurado. Por quê? Porque quanto mais sexualmente repressiva a sociedade, mais alto devemos que “Pega no meu grêlo e mama”, pois enquanto isso chocar os ouvintes é necessário que seja dito! Da mesma forma como não se nega um copo d’água. Sim, já fazia anos que alguém não cantava e difundia tão lindamente os sentimentos e reações somáticas de um encontro de paixão à primeira vista, encharca daqui, pisca de lá, lateja dali…

Eu não sei porque isso causa horror e todos eles, de alguma forma, causaram. Simplesmente por descreverem em sua arte o que nós sentimos e não expomos nesse ambiente de repressão sexual quotidiana. Mas também causaram grandes influências que se espalharam por aí, como os vídeos mostram! Por isso, então, mama, ou volta pra caverna! Porque somos biscates, dependemos e defendemos essa liberdade sexual e vamos continuar exaltando tudo o que nos ajude a difundi-la! Queremos isso e, assim, quem sabe, um dia possamos continuar mais essa conversa com Bizet, com Verdi, com Piaf e massificar todas as formas de biscatagi por aí!

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