Eu decido

Por Niara de Oliveira

escolha

eu + Calvin

Na ressaca do Dia das Mães, comercial e excludente, sou obrigada a reconhecer que a cada passo que damos, individual ou em pequenos grupos, no coletivo maior da sociedade estamos caminhando de costas. Na esteira do desabafo que fiz do meu desconforto com a data, veio uma enxurrada de manifestações, quase todas legais, quase todas afagos, conforto, o que faz um bem danado. Mas — sempre ele –, vieram, no privado, inbox, perguntas, curiosidades de quem não conhece meu histórico de maternidade ou o conhece apenas parcial ou superficialmente.

Nas curiosidades estava implícito a cobrança do meu ativismo na área do autismo. Tipo, como assim eu ativista-comunista-feminista não sou um expoente da luta pelos direitos dos autistas no Brasil? Oras, porque não. Porque decidi não expor o Calvin e nem nossa condição socioeconômica para que tenhamos garantidos direitos que deveriam ser universais. Simples assim.

A cobrança não fica só aí, vai ao limite da sordidez. Como assim eu me dou o direito de viver (incluindo biscatear) e não vivo apenas para o meu filho? Porque somos duas pessoas, oras, e não é justo que vivamos apenas uma vida. Cada um tem a sua vida e a vive como é possível, como faz ser possível. O Calvin depende de mim para várias coisas — quase tudo, é verdade –, e eu tento suprir suas necessidades na medida do possível. Do possível. Sim, porque não sou obrigada a me tornar heroína e ir além da minha condição humana só por que tive um filho específico.

Como seria possível ser feminista e não lutar pelo meu direito à vida, mesmo que em condições tão adversas? Como ser ativista dos Direitos Humanos e não lutar pela minha própria condição, pelo meu direito à humanidade? Como ser comunista e não lutar para ter o melhor do mundo também para mim? Está parecendo egoísta, né? É, estou falando de mim, do meu umbigo, porque foi a minha existência plena, a minha vida que foi questionada nas entrelinhas da curiosidade.

Não quero, e não vou, me tornar a madre-teresa-de-calcutá dos Lennox-Gastaut (síndrome do Calvin). Poderia justificar com um zilhão de motivos, mas vou fazê-lo com apenas um: essa escolha é apenas minha. Lidem com isso.

Leia também:
Maternidade “especial” – o que o feminismo tem a ver com isso? — Cyntia Beltrão

Histórias de horror: pergunte a uma mulher

violence-against-women-facebookDomingo, mais ou menos umas 17h. Estava voltando do mercado quando um vizinho e grande amigo me chama para alertar a respeito de uma cena que ele viu, ao ir para o trabalho, na madrugada daquele mesmo dia: uma moça semi-nua, em desespero, cercada por policiais e moradores do entorno. Ela tinha acabado de sofrer um assalto, seguido de estupro.

Moro na periferia da zona norte de São Paulo e este é o terceiro caso que soubemos, num período de 10 dias. Sim, DEZ dias. Três garotas foram violentadas praticamente no “quintal” da minha casa. Poderia ter sido eu. Ou minha mãe. Ou uma amiga querida. E mesmo que não tenha sido com uma conhecida, foi como se eu tivesse sentido a dor dela em mim.  E sou capaz de apostar com vocês que toda mulher já pensou duas vezes antes de sair sozinha ou de confiar em alguém, temendo pela própria integridade.

16dias20081Situações como a que descrevi acima estão longe de serem restritas às periferias das grandes cidades. Acontecem todos os dias, no país inteiro. Basta ser mulher para ser uma vítima em potencial e para ter medo. Isso quando o estuprador não é alguém da própria família ou do convívio da mulher, característica da maior parte das ocorrências.

Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.

Estupro não é sexo. É uma das mais cruéis formas de violência contra a mulher, que pode vir a destruir a sua vida e auto estima de um jeito muito difícil de ser superado. Estupro é tentar destruir alguém para mostrar poder. Todo ativismo contra ele é absolutamente necessário e nunca é demais. E se você ouvir falar de alguém que sofreu esse abuso, não pergunte que roupa ela estava vestindo, se ela “provocou” ou o porquê dela andar sozinha à noite. A culpa não foi dela.

Queria muito viver para ver o dia em que nenhuma mulher precise sentir medo.

Para saber mais: Número de estupros supera o de homicícios dolosos no país, diz estudo. (G1)

Um basta ao mito da “heroína incomodada”¹

Por Mabelle Bandoli*, Biscate Convidada

Algumas notícias veiculadas nos últimos dias em blogs feministas e afins, me colocaram o desafio de digerir um tema meio controverso e que vem me incomodando há algum tempo: a maneira como algumas militantes têm se proposto a repensar a menstruação e seus significados.

As disputas discursivas e simbólicas se manifestam em meios muito comuns aos nossos movimentos e vêm se apresentando em toadas que vão desde uma tentativa de resgate da “Deusa Mãe Fundamental” a fóruns da Marcha das Vadias, passando por artistas – ativistas que chegam a propor que o sangue menstrual pode ser matéria-prima para pinturas corporais.

Acredito firmemente na validade da desconstrução dos mitos em torno da menstruação e do corpo feminino e seus fenômenos, em geral. Presencio, como toda mulher, a guerra travada contra nossa sexualidade e as insistentes tentativas de transformá-la em algo sujo, pecaminoso, repulsivo. A era da assepsia extremada não nos poupa de antigos tabus, os reinventando de formas a cada vez mais rebuscadas e cruéis. “Ciclos”, “fluxos” e “incômodos” “daqueles dias” precisam ser combatidos como inimigos vorazes e contínuos, à espreita todo mês, prontos para nos transmutar em criaturas asquerosas e um tanto obscuras – já que o sangue que nos “jorra aos borbotões pernas abaixo” não é o suficiente para ameaçar nossa existência, como as hemorragias que acometem os “corpos humanos perfeitos e integrais” masculinos.

THERE WILL BE BLOOD, ensaio fotográfico de Emma Arvida Bystom 2

Mas a verdade é que eu não entendo muito essa reivindicação da “celebração da menstruação” proposta por algumas feministas. Essencialmente, porque acho que esse não é o melhor caminho para que as meninas e mulheres lidem de uma forma legal com o próprio corpo. No fundo, acho essa onda meio fetichista. Se é um acontecimento natural, essencial para os nossos corpos, acho que o melhor é que seja tratado exatamente assim, concordam? Sinto uma pegada meio estranha nisso tudo, uma reminiscência de como as mulheres de outras gerações celebravam o fato de as meninas “virarem mocinhas” e acabavam criando uma enorme pressão sobre a vida delas, com uma sobreposição imediata de um papel social de procriadora com um fato natural da vida.

Acho que a criação de expectativas é algo muito ruim quando tratamos de corpo humano – ainda mais de corpos femininos, historicamente tão vigiados, afastados da noção de humanidade, “sacralizados” quando inseridos na lógica da “Santa Mãe” e repudiados quando atuantes como seres complexos e autodeterminados. A ritualização da menstruação, a meu ver, é a outra face da lógica aristotélica que reafirma que a mulher é o outro do homem, o corpo imperfeito e faltante, “frio e seco”. Para o filósofo grego, a menstruação era prova cabal de nossa natureza imperfeita, de nossa incapacidade de aquecer o sangue e transformá-lo em substância mais nobre, o sêmen – semente da vida. Algo parecido só poderia mesmo acontecer com o empréstimo de calor gentilmente feito pelos homens durante o coito, o que nos permitiria gerar leite² para as crias.

sueca Emma Arvida Bystom

Não acho que esse processo se reverta com uma despropositada glorificação de algo que devia ser encarado com leveza, naturalidade, espontaneidade. Como no caso dos movimentos feministas ligados ao resgate do “Sagrado Feminino”, acho que isso tudo tem, na verdade, um potencial muito opressor, porque nos retira de nossas condições concretas, de nossa “natureza” que é cultural e biológica, intrinsecamente. Acho que as meninas que têm a chance de viver essa transformação em seus corpos de uma forma menos fetichizada têm mais chance de levar a vida de uma forma mais autônoma. Além disso, essa essencialização ancorada no corpo biológico nega às mulheres trans sua necessidade de autoafirmação e o reconhecimento dos seus direitos à livre experimentação dos seus gêneros – que, nos lembremos, é algo construído social, cultural e emocionalmente. Por acaso as mulheres que não menstruam, não engravidam, são menos mulheres? Insistiremos na perspectiva do silenciamento de suas vozes?

Enfim, acho que o caminho que segue pela ritualização de tudo não desemboca em outro alternativo ao que transforma a menstruação em tabu. Aliás, acho que é exatamente a mesma coisa, com vernizes diferentes. “Agora você entrou pro clube das mulheres e deixou a condição de menina”. Sente o drama? É uma conseqüência muito possível e usual dessa abordagem. Essencializar nossos corpos e gêneros me parece seguir na contramão de tudo o que os estudos e movimentos feministas produziram de mais libertário e fértil.

O vídeo de uma propaganda de absorventes íntimos me parece positivo quando dá os verdadeiros nomes e cores às coisas, mas embarca nessa maré que afirma que “você é uma super heroína”, “você é capaz de superar a dor”. Quem disse que precisa ser doloroso? Quem disse que é um obstáculo hercúleo algo tão corriqueiro? Quem disse que atravessar os famosos “aqueles dias” é uma saga heróica? Como dizer para uma menina que se contorce de cólicas se conformar – “cause this it’s your life now” – pode ser algo libertador? Não, gente. Tá errado. Menstruar é pra ser algo tranqüilo e corriqueiro, indolor e não traumático. Se é sofrido, tá errado. Se é glorificado pela “superação do sacrifício”, também. Se é transformado em ritual de passagem, vira fonte de ansiedade, inquietação e alienação do corpo, a cada santo mês da sua vida.

Tudo isso me lembra um pouco um simulacro de resgate de rituais tribais³ nos quais as meninas mudam imediatamente de papel nas suas sociedades com o primeiro sangramento, ficando impedidas de viver sua infância – que não acaba imediatamente com a puberdade. Acredito que esses grandes rituais femininos não são diferentes, mas incorporam a parte que nos cabe na reafirmação de sistemas patriarcais, na garantia de seu funcionamento integral. São a celebração de nossa condição de outro, de menos humanas, menos “gente”, menos sujeito. Não tem nada a ver com aceitação e “pacificação” das nossas especificidades. Tem a ver com transformá-las em tabu.

THERE WILL BE BLOOD, ensaio fotográfico de Emma Arvida Bystom 3

Não seria mais legal e estratégico se as mulheres que infelizmente mantêm uma relação ruim com o seu corpo pudessem dizer “ya basta!” olhando para suas experiências com mais naturalidade? Felizmente, minha vivência se transformou, ao longo do processo de construção da minha identidade, em uma relação potencialmente muito parceira e solidária com meu corpo e seus ciclos, embora já tenha tido meus percalços com cólicas homéricas e constrangimentos socialmente impostos. Elas mesmas foram resolvidas com uma boa dose de autoafirmação e desejo de estar bem comigo, a despeito de conselhos médicos que me induziam a encará-las como uma experiência essencial do “ser mulher”. Reconciliar-me com a menstruação só foi possível quando recusei todo e qualquer simbolismo aprisionador que me retirava o direito de desencanar com meu corpo, o vendo como “coisa” minha, viva, como instrumento e aparato que tende a funcionar a meu favor.

Não é mérito menstruar. É mérito lutarmos por nosso direito às possibilidades de uma vida humana, plena. Menstruação não é jornada épica. É só o nosso corpo, sendo vivo.

¹ Este texto foi escrito a partir de debates enriquecedores com as militantes Xênia Mello e Luciana Nepomuceno. Além delas, preciso ressaltar a parceria sempre presente na elaboração das minhas inquietações, construída com a minha irmã Alexandra Bandoli e minha mãe Margot Bandoli.
² A memória me trai e me faz perder informações essenciais obtidas lá nos idos da graduação. Fico devendo, envergonhada, a referência adequada do texto. Mas acredito que este seja uma produção de Françoise Héritièr, antropóloga estruturalista e feminista francesa. Se alguém se lembrar da referência, é de imensa gentileza compartilhá-la aqui.
³ O uso deste termo não é exatamente consensual nas Ciências Sociais, em especial na Antropologia. A alternativa encontrada seria o uso do termo “sociedades tradicionais”, mas talvez ele perca um pouco do potencial de comunicação para pessoas de outras formações e saberes, bem co mo implique em determinadas conseqüências políticas – como é intrínseco à produção científica em geral – que opto por não assumir, no momento.
Imagens do ensaio fotográfico THERE WILL BE BLOOD de Emma Arvida Bystom, que retrata mulheres menstruadas em situações cotidianas.
mabele*Mabelle Bandoli é cientista política, formada pela Universidade Federal do Paraná. Carioca radicada em Curitiba, acha o “Rio de Janeiro uma beleza” e “ora sim, ora não” crê que “dor não é amargura”. Feminista com raízes que vão desde sua “mil- avó”, “carrega bandeiras”, hoje, no cotidiano não institucionalizado de movimentos sociais e partidos políticos, sabendo-se profundamente devedora deles para sua (trans) formação como ser humano. Na batalha pra ser uma “mulher desdobrável”, vai levando a vida e pelejando pra “cumprir a sina”, escrevendo, falando e vivendo o que sente.

Vou vadiar, eu vou

“Fui feita pra vadiar, eu vou…”

marcha das vadias sp 2013

A concentração e os preparativos na Praça do Ciclista [Av. Paulista esquina com Rua da Consolação], antes da Marcha das Vadias de São Paulo 2013 em 25 de maio.

marcha das vadias sp 2013

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Mulheres e homens participaram da Marcha das Vadias em São Paulo, percorrendo a Avenida Paulista, Rua Augusta e terminando na Praça Roosevelt – zona central.

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clique nas imagens

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“A Marcha das Vadias de São Paulo, assim como a Marchas das Vadias no mundo, marcha para que a sociedade entenda que as mulheres não são responsáveis pela violência que sofrem. A sobrevivente NUNCA é culpada. Culpado é o agressor.”

Ouça também Não Vadeia – Clementina de Jesus.

Somos muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Roubei esse título descaradamente da Bisca-Borboleta Luciana, porque condiz lindamente com o que irei escrever hoje.

O último sábado foi marcado pela realização da Marcha das Vadias em várias cidades do Brasil. Eu, como biscate e vadia paulistana de nascença e por opção, estive na 3ª edição da Marcha, em Sampa. E foi tudo muito lindo, como eu nunca tinha visto (ao vivo) antes.

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP - 2013

Manifestantes reunidxs na Nova Praça Roosvelt, no encerramento da Marcha das vadias SP – 2013

Tinha muita gente. Muita mesmo. A imprensa e a PM contabilizaram cerca de 1500 pessoas, mas acho que tinha muito mais gente. A Rua Augusta ( já consagrada como uma das mais boêmias da cidade) estava forrada de vadias. Vadias sim. Vadias com orgulho, de todas as idades, gêneros, cores e crenças. Vadias que empunhavam mensagens de liberdade e de empoderamento sobre seus próprios corpos.

Namorado e eu, vadiando juntos!

Namorado e eu, vadiando juntos!

Com o tema “Quebre o Silêncio”, a Marcha das Vadias de São Paulo chamou a atenção para a importância de denunciarmos  agressores e estupradores, que agem covardemente porque acreditam na impunidade e porque o machismo arraigado em nossa cultura faz com que eles acreditem que brutalidade, principalmente contra um grupo historicamente oprimido, seja um pré-requisito fundamental para provarem a sua “masculinidade”.

O que eu achei mais legal nesta edição? A pluralidade. Vi muita gente jovem, muitos idosos e crianças e muitos homens, bradando frases como “Cuidado, cuidado, cuidado seu machista. A América Latina vai ser toda feminista!”; “Vem, vem, vem pra rua vem, contra o machismo!”; “Eu amo homem, amo mulher, tenho o direito de amar quem eu quiser!”. Me enche de orgulho e de esperança saber que tantas pessoas acreditam e defendam a ideia que o mundo seria um lugar muito melhor sem o machismo.

Se ser livre e se lutar por isso é ser vadia, somos TODXS vadias. Muito vadias. Quanto mais vadiagem, melhor!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

Bisca-Vadia, feminista e livre!

 

 

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