Por que criminalizar o aborto e quem o auxilia?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

O Aborto é uma imbecilidade burocrático-patriarcal. E eu poderia passar a noite inteira em claro reconstruindo argumentos (porque eles já existem aos montes) pra justificar a liberação irrestrita da prática da interrupção da gravidez, poderia usar os mais secos e “capitalistas” de questão de saúde pública, diminuição da pressão carcerária, etc. Além disso, muitos dos bons argumentos a favor do aborto serão trazidos na nossa Quinzena #AbortoSemHipocrisia

10003601_731581413544313_6508586692480142502_o

Garota com um Feto (2005) by Paula Rego

Essa quinzena tomou fôlego com as notícias, recém divulgadas do crescente número de crimilização de pessoas que prestaram apoio a mulheres que buscaram o aborto (veja aqui). E é sobre isso que me debruço nesse post inicial. E não, não vou escrever um tratado jurídico pra explicar a situação. Basta saber que nossa legislação permite, sim, criminalizar quem presta qualquer auxílio à mulher que faz aborto – e, sim, é qualquer auxílio mesmo, desde indicar o remédio abortivo, comprá-lo, levar à clínica, pagar o médico clandestino, tudo isso é participação no crime.

Agora, sendo sensatos no assunto (ou tentando, pelo menos). A nossa sociedade é prolífica em demonstrar que historicamente nossa liberdade sobre o próprio corpo é quase nula. Quando se trata de mulheres (cis ou trans*) essa autonomia sobre o próprio corpo é menor ainda e isso não é uma mera questão legal… isso é cultural, algo incutido na nossa formação e que reprime qualquer atitude que tomamos em relação ao nosso corpo, desde a masturbação, exposição do corpo nu, passando pelo sexo, até o aborto.

O legado da nossa sociedade é de opressão ao corpo e de oprimir o corpo do outro. Agora, imagine o quão difícil não é tomar o ato de liberdade desse contexto cultural e decidir fazer o que é considerado “crime” por essa mesma sociedade. Agora, imagine fazer isso sozinho. É não só cruel, como irresponsável. A prática do aborto requer assistência! A mulher que, não importa o motivo, resolve dispor do próprio corpo e se submeter a esse procedimento médico precisa de auxílio: moral, financeiro, afetivo, profissional. E o que o nosso Direito Penal Arcaico faz? Isso mesmo, criminaliza que quer que esteja disposto a dar suporte a esse mulher, seja ela consciente-empoderada, inconsequente-vítima do contexto social, seja ela simplesmente o que tem que ser uma mulher que aborta: alguém que decidiu dispor do próprio corpo.

Hoje, nosso sistema político e jurídico transforma a questão do aborto em uma questão de coragem, de clandestinidade e de resistência. Mulheres Livres e seus “Camaradas”, seus auxiliadores, se põem no lugar de uma guerrilha a ser combatida de forma abrupta e truculenta. Se tornam, mais que criminosos por um sistema injusto e arcaico, vítimas de um estado que os deviam acolher e dar assistência. E é muita infelicidade para uma sociedade não conseguir entender e chegar a este estágio de civilidade, porque é isso… nos falta civilidade, compreender a dor e as questões do próximo e, sobretudo, apoiá-los nesses momentos. Contudo, nós e nosso Estado irascível preferimos criminalizar vítima e quem quer que a auxilie…

Não nos basta reconhecer que estamos passos atrás, nosso problema é, depois disso, pedir para sermos cimentados nesse lugar atrás.

************

Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Movimento e corpo em descompasso

Não, este post não é pra falar de safadagi, embora quando se trate de corpo, só o movimento sexy é o que importa, ou o vulgar sem ser sexy , ou o sexy sem ser vulgar… sei lá. Este post, na verdade, sem qualquer pretensão, é pra discutir os rumos de militância. Sim, rumos. E não é de nenhum movimento em específico, mas especificamente daqueles em que o corpo de seus membros é a reivindicação em si da liberdade! Daí que este post, quer entender e talvez queira mais perguntar que entender: em que medida a intervenção do movimento, da militância, no corpo do sujeito – ativo ou passivo na causa –  é legítima?

by Goya

by Goya

Isso é algo que me preocupa… Não é incomum ver movimentos ditando regras sobre as formas como o corpo de seus militantes devam ser. FEMMEN; outros grupos que se dizem feministas e que vinculam o feminismo a certos padrões de sexo feminino e não de gênero; grupos LGBT que direcionam campanhas apoiadas em exposição corporal estereotipada, ou que vinculam a homossexualidade a determinados padrões – ursos xiitas, por exemplo, ou barbies; grupos negros que rechaçam seguidores que não adotem traços físicos – principalmente cabelo – e culturais – religiões e cultos – que não sejam afro; grupos a favor e contra modificações corporais e sua luta incansável em dizer o que seus seguidores tem ou não podem fazer, como certos grupos punk que só identificam como membros pessoas com tatuagem, piercings e alterações corporais, ou grupos naturistas radicais que não permitem qualquer tipo de intervenção estética em seus membros…

by Paula Rego

by Paula Rego

A lista é imensa e, talvez, inesgotável, mas nem é o propósito expor toda ela. Me intriga o seguinte. Apenas fazendo uma pequena digressão histórica, dá pra chegar à época das reformas religiosas. Romper com a idade média e caminhar rumo à modernidade –  que deus ou o diabo ou Cher a tenha – teve muito, senão tudo, a ver com o corpo.

Sim, a modernidade foi o momento de rompimento. Foi no seu nascimento que, ora vejam só, por uma cisão religiosa – Beijo, Lutero – abandonou-se o modelo de domínio completo de corpo e alma pelo poder absoluto da igreja e se iniciou, de um ponto de vista ideal, a separação entre poder civil e poder divino. Assim, a Fé teria domínio exclusivo sob a alma-intelecto e o Estado passaria, então, a ter o domínio mediante a lei, do corpo.

Bom, ruim ou mais ou menos, ou mais pra mais, menos pra menos, nasce dessa divisão o ponto em que o ideário iluminista – que que não seja iluminista quem o queira, mas não negue que nossa sociedade o seja – nos permite a mobilização e a militância e, mesmo, a luta contra o Estado para garantir a nossa autonomia sob esse poder civil pelo próprio corpo! Ou seja, tão certo quanto dizer que o Estado passou a ter a gestão do nosso corpo de aí por diante, mais certo ainda é dizer que se fortaleceu a nossa luta pelo nosso próprio corpo até ela tomar a forma de movimentos organizados.

E é aí que mora o perigo. Não sei em que falha de entendimento da história, das questões sociais e da própria sociabilidade, se perde a noção de que a porra do corpo pertence apenas ao seu dono! Não sei se alguns movimentos não foram capazes se avançar ou se regrediram no debate e começaram a olhar com certa nostalgia pra era medieval e começaram a dogmatizar sua militância, começaram a transformá-la em fé e, agora, querem se firmar como seita, ocupando o papel perdido muito a contra gosto pela religião: o de domínio de corpo e alma-intelecto.

dali-egg

by Dali

E é isso, enquanto faltar entendimento de que A PORRA DO CORPO É MEU, vai sobrar espaço pra gente gritar pelo fim desse descompasso! Militância nenhuma é, de fato, libertária se ela não é capaz de reconhecer a autonomia indistinta de qualquer pessoa sobre o próprio corpo. E  isso não é uma mera questão retórica. Isso é, talvez, a maior conquista do que se possa chamar “humanidade”. E enquanto houver pudor, vergonha ou, mesmo, castração, ainda que auto-castração, da nossa autonomia corporal, estaremos aqui para lutar e lembrar que é essa a única liberdade que nos convém. É por essa liberdade que estamos aqui! Pois essa é a única liberdade que temos o direito e a capacidade indistintos de realizar, sem qualquer intervenção. A nossa existência depende só e somente da autonomia na gestão do próprio corpo. É livre o nosso corpo!

Sociedade de Exceção: Violência e Minorias

A idéia de excepcionalidade. A Exceção. Não no Estado, que é uma categoria jurídico-política específica, mas na sociedade. Ser uma excepcionalidade na sociedade, ser tratado como diferente, querer ser diferente, lutar pelo direito à diferença. Questões que se colocam e que perturbam justo quando ser essa diferença resulta em violência, marginalização, morte!

The Barn - Paula Rego, 1994. A normalidade e a Agressão

The Barn – Paula Rego, 1994.
A normalidade e a Agressão

Não é à toa que assistimos atônitos na última semana, o caso do jovem Kaíque (leia aqui), negro, homossexual, pobre, encontrado morto, com sinais de morte brutal e completa desfiguração. Ser diferente, em nossa sociedade resulta em ser exceção. Não apenas no sentido de ser excepcional, mas e principalmente no sentido de ser excluído e, por fim, eliminado.

A idéia de uma sociedade de exceção é justo essa que impede, mesmo que para isso seja necessário o extermínio, o diferente. Arraigada em preconceitos patriarcais, conservadores defensores de uma “normalidade” ou, no caso, uma heteronormalidade e heteronormatividade, essa sociedade nos apresenta quase que uma pulsão de morte, ou seja, para se integrar a ela, temos que excluir toda a individualidade e subjetividade do nosso ser, nos excluindo como pessoa. Participar de uma sociedade de exceção é minar a própria existência em prol de algo que sequer sabemos se valerá a pena!

É essa sociedade de exceção, também, que é capaz de classificar uma morte brutal como a do joven Kaique, que teve TODOS os dentes perdidos, traumatismo craniano e cerebral e fraturas expostas nas pernas como SUICÍDIO. E que não se alegue incompetência! A principal característica desse tipo de sociedade é a ocultação dos crimes de ódio, para que não se exponha a violência que sustenta sua normalidade.

longe_de_mim_ser_preconceituoso-laerte

by Laerte
“A Exceção: Anormais e Normalidade”

Essa sociedade, de uma forma perversa e deliberada, atua no combate ao diferente atuando, para além do seu extermínio, na sua ocultação. Essa decisão, para além de uma ação criminosa, é uma decisão política, certa e convalidada pelos membros dessa sociedade, que preferem, em seu estado de alienação ruminante, concordar com o dado produzido institucionalmente pela polícia de estado (ver sentido amplo de polícia como instâncias de controle da vida) a questionar quaisquer informações produzidas sobre o assunto.

E não sejamos ingênuos, uma sociedade de exceção não é formada por indivíduos pobres e analfabetos. A violência desta sociedade se encontra no fato de que seus membros têm a completa capacidade de entender a situação, porém, por alguma conveniência nefasta, escolhem acolher esse extermínio nem sempre velado em roca de seus privilégios. O Kaique, a juventude pobre e negra, homossexual ou não, os transexuais, as mulheres “não patriarcais”, os mentalmente incapacitados, os “diferentes” são todos vítimas dessa violência e essa violência é fruto dessa aparente normalidade instaurada e não combatida. Por enquanto.

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém*

Como um atento e externo observador da sociedade brasileira nos últimos meses, nada, mas nada mesmo tem me chocado tanto quanto os casos generalizados e espalhados por todo o Brasil de violência contra a mulher. Não, não vou reclamar que as brasileiras usam pouca roupa, não vou dizer que há um bando de piriguetes que provocam os homens e os fazem fazer besteira e não, não vou buscar qualquer relação agressor-vítima que justifique essa violência. Preocupa-me algo um pouco mais metafísico: o conflito entre liberdade e liberalidade sexual.
photo
Nossa “moderna” sociedade brasileira (apesar de estar longe, me considero parte e responsável por ela) teoricamente está calcada na liberdade, esse princípio que compõe a tríade iluminista juntamente com a igualdade e a fraternidade. Contudo, foi essa mesma sociedade “moderna” que foi profícua em apresentar todas as maiores violações a esses princípios. Não, ela não é de todo má. Ela superou a segregação, mas não enfrentou o racismo; ela avançou no combate à pobreza, mas não acabou com a desigualdade; ela garantiu direitos políticos, civis e coletivos, mas não criou cidadania; ou seja, ela não enfrentou a essência de cada um desses problemas, simplesmente mascarou aquilo que parecia coletivamente imoral.
É nesse contexto que se encontra pendente a questão da liberalidade sexual. Talvez, considerar mulheres como iguais perante a lei, tenha sido um grande passo. Algo que ainda está longe de acontecer com homossexuais, transexuais, bissexuais (mas esse não é ocaso neste post, que se destina a discutir com a Camilla Magalhães o horror dos últimos acontecimentos, na blogagem coletiva promovida pelo Blogueiras Feministas). O que preocupa é a profundidade do conflito e do entendimento do que seja liberalidade sexual e como ela justifica, nas bocas das conversas de bar dos extratos A, B, C, D, E e F da sociedade, a prática do estupro.
Com frequência inacreditável, ouve-se coisas como: “se ela não fosse tão vadia”, ou “se ela não ficasse galinhando e se alisando”, ou “com uma roupa daquelas com o cú de fora”, ou “tá na hora de pegar as bitchs”, ou “deu mole, eu pego mesmo”. Isso sai da boca de homens e mulheres e essas acrescentam: “porque se ela se desse ao respeito”, com a mão no coração e olhando o céu, como cantando um hino. O pior, o máximo de reação em qualquer dessas mesas de bar é uma risada coletiva, uma piadinha mais suja e um sorrisinho de constrangimento quando a “carapuça veste”. Raramente se vê uma cara de desgosto quando, de fato, todo esse contexto é entendido como parte de toda agressão sexual contra a mulher.
O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.
Por isso, da próxima vez em que você se vir em um círculo em que a liberalidade sexual de alguém seja utilizada para justificar um coito forçado, um beijo roubado, um embebedamento que facilite “pegar” a vítima, utilize sua liberdade para dizer que ISSO É ESTUPRO e que você NÃO COLABORA COM ISSO. Caso contrário, bem-vindo ao tribunal, você também é responsável por permitir que a nossa sociedade entenda que a vontade sexual de alguns pode se sobrepor a de outros. Mas não se preocupe, se a culpa é coletiva, ela não é de ninguém; você não será punido até virar vítima.
*Texto originalmente publicado em fevereiro de 2012 em Hipérbole Política

Abolição, ou pelos olhos do lobo*

Meu lugar em casa sempre foi a cozinha. O lugar onde sempre me identifiquei. Onde sempre brinquei com as panelas entre as pernas da minha mãe; onde sempre ajudei a tomar conta dos meus irmãos; onde sempre fiz todas as refeições, sem exceção para escapadelas na sala vendo televisão; onde sempre fiz meu dever de casa e estudei; onde sempre conversei sobre tudo e ainda converso. A cozinha é o meu lugar em casa.

Filho Bastardo - Adriana Varejão

Filho Bastardo – Adriana Varejão

Ainda que de família pobre, mas de imigrantes europeus e sírio-libaneses (com um passado caboclo e indígena tão no fundo que não é sequer possível identificar), a trajetória da minha família sempre esteve fadada a cumprir a “Boa Nova da América”. Crescer, multiplicar, vencer na vida e dar trabalho a quem precisa. E, nisso, se dar ao luxo de ter, ainda que passando de classe média-baixa, média-média e média-alta, conforme o tempo, empregadas pra a tranquilidade da família.

Não me lembro de ter ficado, durante minha vida, muito tempo sem empregadas. E, vivendo num estado esbranquiçado como o é o Espírito Santo, não raro elas foram de todos os tipos e lugares, mas principalmente mineiras e baianas, negras. Mulheres das mais diversas características. Mas a cor não era um senão, ou pelo menos a entendia como se não fosse.

Viver em áreas de transição, estudar em escola pública, brincar na rua sempre me possibilitou um contato muito grande com negros. Isso sempre me fez senti-los como próximos, mas sempre diferentes, por uma simples questão de status social, afinal, eu sempre era, na infância, da família de melhor condição de vida, o filho do funcionário público, aquele cuja família tinha empregada, lavadeira e que, claro, não tinha negros na família.

Em um tempo (isso remonta há pelo menos 25 anos atrás) em que a injúria não era velada, cresci ouvindo e utilizando os piores registros linguísticos para denominar um negro! Piadas de toda sorte, que meus colegas negros da rua também contavam e riam. E ainda hoje alguns são capazes de rir, dizendo que se não rirem da própria desgraça não podem rir de nada…

Mas foi principalmente na cozinha, onde sempre recebi o cuidado das empregadas, que conheci o que era, naquela época, ser negro. Conviver com mulheres que abdicam da própria família, dos próprios filhos, da própria personalidade para passar oito, nove, dez horas por dia, a semana inteira na sua casa é um aprendizado. Cruel, mas um aprendizado. Não entender como isso remonta a uma necessidade diariamente auto-afirmada de sobrevivência é criminoso.

Na cozinha da minha casa vi mulheres de todos os tipos, jeitos, caracteres, credos, estimas e estigmas. Conversei com todas, convivi com todas. Fui mimado, educado, aconselhado, recriminado por todas. Não que tivesse pais ausentes, pelo contrário, mas quando se passa muito tempo na cozinha de casa, é impossível não atrapalhar o serviço das empregadas com coisas de crianças!

Carpeaux  - "Pourquoi naitre esclave" - Abolição

Carpeaux – “Pourquoi naitre esclave” – Abolição

Essas mulheres nunca se mostraram a mim como vítimas e também nunca as vi assim. Quando já “grande” e nas melhores escolas e segundo grau, quase sem negros em volta, mas ainda com empregadas (e, agora, com todos ao meu redor na mesma situação), nunca consegui me curvar ao discurso da vitimização. As mulheres que, durante a minha infância, ajudaram a formar aquilo que sou, nunca me deram essa idéia, nunca se colocaram de um ponto de vista frágil. Pelo contrário, sempre me foram um modelo de que a vida se vence, pela luta e por todos os meios que a condição de inferioridade se nos colocam nessa luta.

O que eu entendi, depois com minhas aulas de história, geografia, sociologia, filosofia, direito, ética, é que essas mulheres são o exemplo velado de um falso modelo de sociedade. Essas mulheres, em sua abnegação ao próprio, em sua vulnerabilidade ao individual, em sua atenção (as vezes extremada, as vezes branda, as vezes negligente) àquilo que não lhes pertencia por ser seu, mas por buscarem nisso (a minha família) a própria sobrevivência, me deram uma dimensão de respeito ao outro que não tenho como recusar.

E essa consciência, tampouco, representa algo que me assumiu em uma epifania. Ninguém acorda no dia seguinte ao ler Casa Grande e Senzala e se dá conta disso. Ao contrário, muitos que leem Casa Grande e Senzala (e se regozijam com isso) apenas o reproduzem de forma mascarada. E é recorrente aquilo que vejo e aprendo na cozinha de casa.

Ao longo dos anos, foram essas mulheres que me trouxeram o cheiro da realidade que só me pintava às mãos pela tinta dos jornais, ou apenas me era aceso aos olhos pela luz da televisão. Foram essas mulheres que me trouxeram o outro lado da realidade, a que se vive e que, em certo sentido eu convivi na infância, mas que hoje não faria parte do que me é dado (ou do que procuro) conhecer do mundo.

É só por essa realidade que sou capaz de entender que, em 125 de abolição, o que a sociedade em que eu vivo representa é um recorrente choque de ordem. Choques de ordem que se empenham em conceder migalhas de direitos. Choques de ordem que buscam encobrir um estado social em que o trabalho e o esforço só são capazes de gerar a sobrevivência, mas nunca a vitória.

Choques de ordem que mantém pobres, os miseráveis; negros, os criminosos; e as mulheres que trabalharam ao longo dos anos na minha cozinha, as mesmas mulheres que, sem motivo nenhum para ter vergonha, continuarão lutando pela própria sobrevivência e abdicando das próprias vidas. E não se trata só de pensar em “o que é que eu posso fazer para mudar isso?”. Abolição não é algo que se faz, abolição não é algo que se entrega e se diz “vá, agora és livre, cuides da tua vida, deixes de ser aquilo tudo que sempre fostes e muda”.

Abolição é como a sociedade vive e se constrói e, perdoem-me, as mulheres que entram na minha cozinha todos os dias de manhã só são capazes de me mostrar, ainda, que essa abolição não é plena. Não é plena, porque mesmo com as subsequentes conquistas e dádivas de direitos, ainda não fomos capazes de reconhecer no outro aquilo que queremos como sociedade para nós. Ainda não somos capazes de aquiescer no outro a legitimidade na luta e a busca por oportunidades, por mais impossíveis que às vezes elas pareçam.

Estamos longe e considerar próprio que libertos tomem, quaisquer que sejam os meios legais ou legítimos que os levaram lá, lugares de destaque, sem ouvir, nos mais diferentes tons possíveis a reprovação acompanhada, não raro, da expressão (quando muito bem politicamente correta colocada) “aquele negro”.

Enquanto a cor, o sexo, ou condição continuarem a ser um parâmetro de identificação na nossa sociedade, não se enganem, a abolição ainda não terá chegado. Enquanto for necessário ver na ação e na conquista algo que tenha que ser tomado como igual ao invés de sê-lo, nossa realidade ainda estará fadada a criar meios de exclusão. Enquanto a cidadania tiver que ser celebrada como um meio de conquistas esparsas e não como um âmbito da satisfação de direitos, ainda estaremos apenas reproduzindo um vulto daquilo eu nos foi posto como liberdade.

E é isso. Em 125 anos de abolição, a noção de fraternidade foi a que menos se esboçou para nós. Aqui, vista pelos olhos do lobo e através dos exemplos diários que entram e saem da minha cozinha, parece que uma tensão cada vez maior se forma e que conquistas ou dádivas são capazes de criar celeumas impensáveis em nome do status vigente. A abolição da escravatura, jamais significou e ainda não significa a plenitude de direitos, ela sequer tergiversou sobre o reconhecimento do outro como igual em direitos.

É esse reconhecimento que, pela busca da própria sobrevivência, essas mulheres me trouxeram e ainda trazem. É esse reconhecimento que, hoje mais claro pra mim, me parece negligenciado por um discurso do que deveria ser próprio e meritório a cada um, quando na verdade não é. Abolição não se trata só de permitir, seja em que nível for, que os demais sejam livres, trata-se de viver isso!

*Post vinculado à Blogagem Coletiva pelos 125 anos de Abolição, convidado pelo Blogueiras Negras.

bc_blogueiras-negras

Institucionalidades

As músicas dizem muito sobre como pensamos a vida. As músicas expressam, às vezes, aquilo que estamos dispostos a dizer, mas não dispostos a tornar imperativo, aquilo que é necessário ficar no imaginário, sem ser objeto de intervenção. Não só a música, eu sei, é um propósito da arte, não toda, mas de alguma. A institucionalidade, ao contrário, nos obriga.

Paula Rego - O Regresso

Paula Rego – O Regresso

Exato, a institucionalidade, a esfera da exclusão do que é belo, por definição. Como boa Bisca que sou, tenho minhas teorias sobre a institucionalidade. A principal delas, é que as pessoas não só esperam por isso, como clamam, imploram e se submetem. A institucionalidade é, em si, a representação documentada da condição de ser… É a própria submissão à condição de estatística.

Mascarada como legitimidade, a institucionalidade é a forma como a nossa sociedade conseguiu, sem ao menos tentar, praticar a fraternidade. Sim, a fraternidade, aquela bela forma de reconhecer no outro os mesmos direitos, as mesmas liberdades, as mesmas possibilidade de dançar, à sua maneira, a mesma música que dançamos… A institucionalidade, em forma de lei, de decisão jurídica, de ordem de autoridade, é a nossa declaração de absoluta incompetência para viver com o outro, de conviver com o outro.

Sim, estou culpando o resultado por sua causa… Anarquia? Talvez… Por que não? A busca incessante que vivemos hoje pela satisfação de direitos através da lei é o resultado desse processo de institucionalização da vida… Bato nessa tecla, estamos passando da esfera do “livres para fazer o que não é proibido” (seria melhor livres para fazer o que não afete a liberdade alheia) para a do “livres para fazer o que a lei manda” (no melhor dos casos). Estamos invertendo tudo.

Desculpem a visão utópica. Do entender a marcha das minorias (e alguns excluídos nem minorias são) pela institucionalização de direitos, a concordar que isso é a única forma de se fazer respeitar as diversas condições, me falta a vontade. Me perco, às vezes… simplesmente não registro o quê de liberdade que há nisso. É como se a minha música tocasse não para ser ouvida, mas para ser registrada, não para ser dançada, mas para ser marchada, não para ser sublime, mas para ser verdade.

Sobre Institucionalidades - Laerte

Sobre Institucionalidades – Laerte

Assim, eu não queria… Mas, pelo jeito, por uma infortuna “formação cultural” o que tem pra hoje é um processo amplo, geral e restrito de institucionalização. No qual ao invés de se reivindicar direito, reivindica-se legalizações. Vivemos num país onde o se educar em conjunto, tornou-se um vamos fazer valer “isso” para que as pessoas, então, aprendam. Perdemos o bonde do processo de socialização… deixamos de significar as relações sociais para criar instituições, caixinhas mais confortáveis onde as pessoas possam dormir melhor…

Assim eu não queria… Mas se o jeito, hoje, é lutar para que as pessoas institucionalizem sua condição social, sua cor, sua sexualidade, sua identidade de gênero, não vou fechar os olhos e deixar acontecer, meu jeito é lutar junto. Lutar junto, contudo, para lutar mais. Lutar é a única forma de se posicionar pela igualdade, pela alteridade! Ser intransigente, se preciso, na minha opinião e combater o conformismo, sempre!  É assim, virarei estatística, se preciso, pra defender o direito ao reconhecimento, sobretudo pra defender minha utopia de não ter que institucionalizar o que sou, sou livre, sou música, sou dança, sou a arte de uma vida de histórias e sentimentos, não caibo em definições…

Biscarnaval

photo

É Carnaval! Hora de tomar conhaque com o ticket do leite. Isso mesmo, amiga-amigo, biscate. Caia na gandaia! Desça na boquinha da garrafa, segure o tchan, vá na dança da ondinha, chame Dalila, Pererê e quem quiser! #SiJoga

Beije um, beije dois, beije três e beija eu, seja eu! Porque se vamos comer Caetano ou Bethânia, tudo depende da madrugada com a vitrola rolando, nus, dançando de biquíni ou BB King sem parar! Pois já que em tempo de pega-pega-pega-pega-pega,  pega-pega, já peguei, nada mal, a gente curte o terra samba e tira essa loucura de dizer que não te quero, Conceição!

E, naquela hora, em que todo mundo é menino e vai gritar pra todo mundo ouvir: Olha a Mangueira aí, gente! Chama a Valesca e, #Mama, fia! Beija-flor, seja flor, dance no céu! #EuQueriaSerUmaAbelha #HajaAmor #AjaAmor

Depois, é felicidade que brilha no ar! É luar, estrela do mar e o que há de bom! Grita alalaôôôôô e vamos pra turma do funil!

É assim, bisca-amores, atrás da verde e rosa e na frente da Mangueira só não vai quem já morreu.  E como we are carnaval, we are folia, we are The world of carnaval, caia na folia!

A gente estancou de repente…

O dia depois, seguinte. Aquele dia em que o mundo cresce e enquanto tudo não parece parar, vem a dor. Aquela hora em que a vida derrama-se, esgota-se o peito, amargura e horror. Aquele instante mediato, midiatizado, o pavor.

alma-de-luto

Como erguer-se? Como sustentar-se? Como acreditar-se capaz de se manter, de não duvidar, de segurar forte, de não doer, de só amar e do amor recriar? Como velar?

Não tem razão. Não tem questão. Não tem senão. É a mácula. É a dúvida. É a miragem de uma alcunha devida, repetida, exigida, implorada e encarnada. Impregnada de vida, é o que queria. O mundo à frente, é o que teria. Um ser patente, é o que seria.

Uma flor que jamais desabrochará, Um sonho que jamais vingará. Uma folha que já, a mais, cairá. A falta da última desdita. A falta da última ferida. A falta da última despedida. Sem cor. Sem sorriso. Só lágrima. Dormindo na incômoda fileira. Sofrendo a interna trincheira. Provando da horrorosa maneira.

É a dor e não é assim. É a tragédia e não tem fim. É uma roda vida e não bonfim. Atitude? Consolo. Atitude? Decoro. Atitude? Atitude. Atitude… Não tem fim, sequer sim, dor assim, no dia seguinte.

#Luto #SantaMaria

 

Sobre a Liberdade

#Alma Biscate
Sobre a Liberdade, Augusto

“Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que não sei o nome”, pois é, não saber o significado talvez seja um começo… Prestar atenção, compreender, respeitar, um passo fundamental. Crítica, autocrítica, indispensável… Revelar uma alma biscate talvez seja equivalente a descobrir cores, talvez seja como invadir o desconhecido em si e desbravar, para si, os freios e os contrapesos da alma. É buscar a liberdade de conhecer e dar o nome que quiser às cores, ou simplesmente mantê-las anônimas, não ter que nominar tudo…

2012-06-01 21.20.40

Se libertar é um processo. É um exercício de autoconhecimento. Liberdade é o estado de espírito em que se permite estar em equilíbrio consigo mesmo, sem freios, sem medos, sem vergonhas, sem dores. E não é fácil, às vezes improvável, às vezes estanque, às vezes contínuo; nunca impossível. É navegar “louco, louco, louco, louco e sujo de sal”. Sal de suor, de lágrimas, de sangue ressequido, de feridas em cicatrização, de luta, de desejo, é o sal do outro. É também encontrar “luz em um caos de paixões”; é poder flanar sobre as “almas esticadas no curtume” da vida, nas exigências da família, da religião, da sociedade e se desapegar.

A liberdade é o exercício diário e pleno da própria vida, é o erro e o acerto em cada ação para consigo e para com o outro. Sim, pois para ser livre é necessário, fundamental, errar! E mais, é preciso ser capaz de assumir a responsabilidade pelo erro e transformá-la em aprendizagem ao invés de recalque, de autocastração.

Meu processo de aprender uma vida livre dói. Não me importa se mais ou menos do que dói nos outros…Dói de uma maneira que é só minha e que é assim para cada um, há que estar disposto! Meu primeiro passo foi o desapego, do qual abusei; depois a exposição, que reprimi; ainda as críticas, que descobri fundamentais em mim e desimportante nos outros; Agora estou em luta, que transformei em mantra, luta pela liberdade, mas inconstante.

Quere ser livre é, assim, ato diário, constante! Ser livre, talvez seja o seja menos. Por vezes nos perdemos em nossas próprias armadilhas, não é! Importante é saber sair delas. Mas liberdade é consciência de si e noção de coletivo. É entender que mais que levar a própria liberdade ao extremo e até o limite a liberdade do outro, liberdade é ser livre com o outro.

SER LIVRE COM O OUTRO, com todos os demais. Talvez seja isso que tenha aprendido com o Bisca: querer a liberdade; entender as limitações alheias, afinal, cada qual se prende em sua gaiola de ferro; e batalhar quando tentam me enfiar em uma dessas prisões. Aprendi que não posso, como gostaria, diariamente e constantemente empurrar todos para uma direção que sequer conheço, mas que posso tentar exercitar, com cada um que também esteja disposto, o traçado de um outro caminho e é isso que faço no Bisca, vou tocando em frente, de vagar, sorrindo…

Obrigado, biscas do meu coração! Biscatagi é isso… é ir junto!

Antibiscatista

Esse texto é biscasolidário a Karina Veiga e um recado às reações à situação.

Nada mais que um bosta, era seu prazer em ser. Regular a vida alheia, a opinião alheia, o gozo alheio. O que mais? Bem feitor. Adorava arrotar seus méritos em conseguir benesses para qualquer coisa, mesmo que ninguém precisasse delas. O importante era mostrar-se capaz de fazê-lo.

Abominava, verbo preferido em qualquer conjugação, tudo e todos. E quanto mais ojeriza lhe brotavam à boca, mais dedos se apontavam ao léu. Amor? Não era… não tinha… não podia… Se impedia.

20121201-114512.jpg

Apontava, recriminava, controlava, por puro desprazer, tudo o que se pudesse fazer sem se satisfazer e impunha suas premissas às hordas de submissão. Tinha o benefício da autoridade e se acreditava no dever de fazê-lo pelo bem da manutenção daquilo que era antes do passado.

Racista, machista, chauvinista, homofóbico, egocêntrico, pau pequeno, ou grande… mas não sabia usar, certeza! Ou, ainda, as vontades lhe coçavam em lugares, para si, impróprios… Paçoca, jamais!

RECALQUE… sua sina. Os outros o incomodavam, não entendia a diferença, o diferente. Não aceitava (-se)… tinha ojeriza. Viveu ~{[(“feliz”)]}~, por muito tempo, mais que a necessidade e convalescendo com a esperança. Seu nome? Ethero Normativo des Alteritário.

Cabras e suas Ambições

Você deve estar se perguntando: Por que as cabras, de repente, passaram a povoar as redes sociais? Que brincadeira é essa? Qual o porquê desse novo meme? Pois é, as cabritinhas que passaram a habitar suas redes de relacionamento são uma reação de sensatez, uma nova metáfora nas reivindicações de direitos de igualdade.

De onde surgiu essa reação? Bem, você leu a Veja dessa semana? Não leia, não vale a pena… Pois então, foi nessa revista, em um artigo sobre a questão da homossexualidade no Brasil em que uma comparação descarada entre o casamento igualitário e o casamento entre um homem e uma cabra foi feita, como forma de desclassificar o primeiro. É… leia por si próprio na imagem abaixo…

O problema não está na alusão ao sexo com animais… isso pouco importa… O problema está na comparação, na relação de direitos que isso significa. Reduzir a condição do casamento igualitário à vedação do casamento entre seres humanos e outros animais é igualar em direitos humanos e animais. Sim, animais têm direitos, mas não há sequer um pingo de possibilidade de se dimensionar os direitos dos animais aos Direitos Humanos, principalmente os relacionados à Liberdade e à Igualdade.

A questão não está na comparação esdrúxula, aliás, essa foi a primeira coisa a ser tomada como piada. O problema está no fato de tal comparação banalizar, em um texto repleto de preconceitos, uma causa que está em voga atualmente e que precisa de amplo suporte. A artimanha? Buscar nas origens do patriarcado e de um Estado de bases religiosas, porém laico, uma forma de justificar as opiniões pela vedação de direitos. O raciocínio é simples: o casamento, com base nas tradições (e a Constituição é um poço de normatização de tradições) é uma instituição destinada a criar uma família e só quem pode fazer isso de forma natural são um homem e uma mulher (Adão e Eva, lembra?); logo, homem com homem, mulher com mulher, gente com bicho, não pode.

O problema está justo aí, utilizar a estratégia de reafirmar um conceito formado através de uma tradição religiosa para impedir uma relação laica. Exato, o casamento previsto legalmente em nosso “Estado Laico”, é de origem religiosa. Para reafirmar esse estado como laico, é necessário que suas instituições também sejam laicas, assim temos que chegar à Família! Deixando de lado as cabras que não têm essa ambição – aliás, se alguma te procurar demonstrando interesse e você se afeiçoar à bichinha, vá fundo! Havendo consentimento, não há impeditivo – a busca pelo direito ao Casamento Igualitário é uma luta pelo reconhecimento de direitos, Direitos Humanos conquistados historicamente, mas plenamente desrespeitados institucionalmente e socialmente.

Aliás, a palavra Direito tem muito a dizer sobre isso tudo. Direito refere-se a conquista e, mais, à possibilidade de livre manifestação de vontade. Ou seja, que case quem quiser,  pode ser homem com homem, mulher com mulher, homem com mulher, etc. Se não tiver vontade não se case. A beleza do reconhecimento e um direito é a afirmação dessa liberdade em relação a ele, poder exercê-lo!

Entenda, ninguém está pedido que, de uma hora para outra, todo mundo passe a corroborar com a homossexualidade, pois preconceitos cada um guarda onde bem entender. O que se pede, é que o de cada preconceito um não impeça os demais de alcançar e garantir direitos. O que o texto da má-afamada revista faz, com a comparação ridícula com as pobres cabras – e poderia ser com qualquer outro animal, ninguém aqui é contra cabras – é reafirmar esse preconceito religioso, em um estado laico e, com isso, reduzir direitos e descaracterizar um debate que ganha força.

Mas onde está o preconceito se a liberdade religiosa deve ser preservada como direito humano? Bem, pra ficar simples de entender: a garantia do direito de liberdade religiosa SÓ existe em um Estado Laico. É justamente pelo fato de o estado estar se lixando para as crenças alheias e buscando garantir a liberdade e a igualdade de todos, que cada qual pode seguir a crença que quiser. Assim, como cada um crê no que quer, nenhuma crença pode, igualmente, ditar padrões de conduta e organização social sobre questão alguma, principalmente sobre a forma de constituição das famílias. Essa é a finalidade da interdependência dos direitos humanos: a medida de um deles vai até o ponto em que não interfere no outro.

Portanto, nesse e em outros aspectos, quando tentar exercer seu direito humano de expressão é de bom tom procurar compreender se ele contém um discurso de redução dos direitos alheios. Isso é muito comum na história contra negros, judeus, mulheres, homossexuais, populações nativas e se repete ainda hoje e, pior, se replica. E é por aí, da próxima vez que for comparar cabras com seres humanos, lembre-se que cabras não têm muitas ambições, seres humanos têm e muitas delas são legítimas e vêm sendo constantemente impedidas por uma sociedade que se acha no dever de impor uma moral que não é universal. É essa vontade de ser dominante que mantém as coisas da forma que estão…

Quando um coração biscate sofre…

Amar não é mérito pra ninguém… maior dos desassossegos, invade, infunde, aborrece… não é para principiantes. Causar amor, sim. Trabalho de qualquer um para um qualquer… não se vê, ou só vê quando quer, ignora, tripudia, samba de salto agulha na existência alheia…

Sim, amor, às vezes, não tem troca… A profundidade da existência de um é amargada pela liberdade e a negligência do outro. Se deprime? Quem sente? Amar sem ser correspondido é como ser uma Maya Desnuda eternamente deitada chamando “vem, neném”, Goya! Amar sendo correspondido é resguardar um malicioso sorriso e olhar para tudo sem ver nada, Da Vinci…

Amar e Correspondência… furos vitais na biscatagem… não que biscates não amem… Amamos, só não devemos nos apegar às correspondências… atrapalha o Carpe Diem, o amor… esse monumento de papel machê prestes a derreter na primeira chuva da infância. É aí que, pego pelo rabo, o coração biscate aprende a sofrer…

É, assim, morto na fraqueza de que tanto ri, que um coração biscate não correspondido padece de tudo… é enxaqueca, febres, tremores… doenças da cabeça que refletem na pureza da alma que não quer ser pura. Sim, porque se for pra ter tremores, que seja de desejo; febres, de êxtase; e dor de cabeça, de falta de cuidado com a cabeceira da cama… quando for convencional…

Querer e Sofrer não combinam, mas se completam… fundidos à biscatagem levam a coisas que fariam a Monalisa virar O Grito, Munch. Tudo forma de se expressar. Amar-Querer-Sofrer… tudo necessidade de expressão… tudo um fator de ubiquidade, de querer estar em tudo e em todos ao mesmo tempo… com o mesmo tesão. É assim, sofro, por você, mas enquanto não te tenho (mais?), vou fazendo como meu amigo José Augusto: “eu já tentei, fiz de tudo pra te esquecer, eu até encontrei o prazer”, sempre… Perdeu!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...