Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

carreira2

Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provalelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

o-pequeno-principe-raposa

Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

JaneEyre

Jane Eyre e o Sr.Rochester

Frio na barriga

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

JU_FrioNaBarriga_foto

Lembro da primeira viagem que fiz sozinha depois do fim do casamento de dez anos. Nas férias, peguei um avião pra Fernando de Noronha. Levava na mala uma dor de cotovelo tão grande que eu não conseguia nem sentir – e a vontade de grandes aventuras. O tempo fechou (literalmente), o avião não pôde descer e teve que voltar pro Recife. Eu e mais cem pessoas fomos levadas pro hotel onde passaríamos a noite pra embarcar no dia seguinte. Pense numa reversão de expectativa.

No saguão, a moça da recepção, atordoada, chamava cada um pra ir alojando nos quartos. Na minha vez gritou meu nome e, antes que eu conseguisse ultrapassar a montanha de gente amontoada no balcão, berrou ainda mais alto: É single, né? Eu demorei a entender a pergunta. Ela repetiu, com uma voz estridente: Tu é single, né? Só um? Tá sozinha? Todos os olhares se viraram pra mim. E eu, com um sorriso amarelo, confirmei as três coisas: single, só um, sozinha.

Ali caiu a ficha e de lá pra cá foi uma longa jornada. Daria um seriado, com temporadas e trilhas sonoras bem diferentes uma da outra.

Mas tem um sentimento que é constante de lá até aqui. Ser ou estar solteira é sentir um friozinho na barriga. Não é que a vida seja emocionante e esteja sempre acontecendo alguma coisa. Muitas vezes é como barriga de novela, não acontece porra nenhuma. Mas aí a gente liga o som, sozinha no carro, naquela altura que chega a vibrar no coração e canta aos berros a música do Arnaldo: “Socorro, eu não estou sentindo nada…”. E chora. E já fica melhor, sabendo que em algum momento algo vai acontecer, e que o frio na barriga vai voltar imediatamente.

Além das coisas que realmente acontecem, ou que quase acontecem, tem a cabeça que taí pra gente inventar coisa. E quem disse que coisa inventada não dá frio na barriga? O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba… peço licença pra mudar o resto da música… a gente guarda no caderninho de histórias que poderiam ter sido, mas não foram. Há que se ter histórias nessa vida, inventadas ou vividas. Cada uma ensina uma coisinha pra gente, ou várias. Histórias eu tenho. E tenho carinho por cada beijo na boca. Ah…. os beijos. A esta altura podia fazer um tratado sobre beijos (nota mental para um próximo post).

Além das coisas que a gente inventa de querer, assim, de uma hora pra outra e que podem crescer numa velocidade exponencial, tem o que os outros querem. Os outros às vezes inventam de querer a gente. Há muito desencontro nesse caminho, como já dizia o mano Vinicius: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mas nos desencontros também há poesia. Um ser humano olhar pra você e dizer que tá a fim não é pouca coisa não. Não dá pra desprezar um gostar. E ser gostada dá frio na barriga também, como não? Sabe-se lá se o gostar do outro vai acabar te conquistando? Como boa biscate, você vai lá e vê se rola da invenção da pessoa virar a sua invenção por algum tempo. Se não rolar, você sai fora. Tem gente que tem mais dificuldade de sair. Mas sair quando não interessa, acho que já aprendi. Meu método é meio abrupto. Não indico pra ninguém, mas funciona pra mim. O método é… sair sem explicar mesmo. Eu sumo. Com sorte, depois de algum tempo, passados os efeitos colaterais do desencontro, a gente pode virar (ou voltar a ser) amigo. Há quem diga que é falta de respeito tomar um doril. Talvez seja mesmo, mas é o que sei fazer. A minha desculpa é que não tenho uma explicação boa em palavras pra dizer que não tô a fim de alguém. Nada me parece bom, claro e respeitoso o bastante pra eu conseguir falar. Daí prefiro o não-dito. Meu não dizer já diz tudo – sem o constrangimento.

Mas além dos desencontros e das invenções, tem também aquele momento em que você percebe que determinado frio na barriga é recíproco. Que a sua vontade é a vontade do outro. E calhou de ser na mesma hora. Se, ainda por cima, vocês dois estiverem na pista e querendo sentir coisas… Bom, se isso tudo acontecer o frio na barriga é giga.

Aí, alminhas, é soltar o corpo, que não tem muito pra quê freio. Soltar o corpo sabendo que pode se estabacar ali na frente. Sabendo que pode não ser. Sabendo que o frio da barriga pode virar medo. E que o medo pode virar história.

A vida, feito novela, é uma obra em aberto.

Ju_foto

*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

inep_enem_redacao

Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

estacao-liberdade

Três historinhas, em um daqueles dias

Aí que hoje é daqueles dias. E, como não tem texto, vou resgatando fiapos de histórias. Todas de verdade. Quem sabe compõem algo.

Lembro daquela vez em que eu, com seis anos, fui chamada de “puta” porque tirava a roupa na frente dos meninos. Eu tomava banho com meus primos, meninas, meninos: não entendia porque teria algum problema em alguém me ver sem roupa. Os meninos do prédio pareciam achar isso legal. Eu tirava, ué, e achava engraçado. Era todo mundo da minha idade, será que eles não tinham primos?
Mas aí a amiga me disse que quem fazia isso era puta. Eu não sabia o que era puta, mas pela cara dela não devia ser nada bom.

Aí teve aquele  cara com quem eu fiquei, já adola: eu podia ter ficado com ele ou com outro, mas aí calhou que foi com ele. E eu contei pra ele. Vocês vão dizer que eu fui meio mané: mas sério, não achava que fosse demérito nenhum. Tava todo mundo ali, a gente tava de férias na praia, e experimentava. Ficava com um, com outro. Era pra fingir que tava apaixonada? Ninguém tinha me explicado isso. Tá, eu devia mesmo ser meio mané. Excesso de sinceridade. Mas, sinceramente, não tinha me ocorrido que o cara pudesse se incomodar. E, menos ainda, que alguém fosse achar que aquele comportamento não era adequado. Pô, a gente tava experimentando. Não é assim que se começa qualquer coisa?

Por fim, teve aquele outro: esse já era namorado. E achava um monte de coisas sobre mim. Eu não sabia que ele achava, ele achava só pra ele. Mas aí um dia a gente conversou. Sobre experiências pregressas. Sobre como, onde, o quê. E a pessoa ficou abalada. Abaladíssima. Tipo precisou se afastar. Refletir. Ficou mal. Eu tinha abalado a imagem que ele tinha de mim. Com a minha vida. A minha vida não cabia na imagem que ele tinha de mim. Dessa vez aí eu entendi melhor: entendi e fiquei furiosa. Ele não tinha o direito. A minha vida era minha. Eu tava só contando pra ele. Ficar abalado, sério? Se eu não cabia na imagem que ele tinha de mim, ele que fosse arranjar alguém que coubesse.
Oras.

Ciranda

Sexo é a dois

“Sexo é a dois” é um título de provocação. E, é claro, pode ser a mais que dois – ou a menos: masturbação também é sexo, afinal. E bem ajuda a se entender…..

Mas voltando: a questão aqui – e vou me ater a esse “a dois” mesmo, pra simplificar  – é que sexo é algo que se faz com outra pessoa. No sexo hétero, algo que uma mulher faz com um homem.

Aí que quando vejo uma listinha engraçadinha de “atitudes que as mulheres odeiam no sexo”  já me dá preguiça. Dá vontade de dizer, primeiro, que eu não sou “as mulheres”: não, amiga, não dá pra descrever assim direitinho “do que as mulheres gostam”, porque elas gostam de coisas diferentes…. e só fazendo sexo com cada uma delas é que dá pra saber do que, de fato, cada uma gosta. Não tem jeito, é tentativa e erro. Tentativa e às vezes acerto. Se possível, se divertindo muito no caminho.

Ia dizer que é bom que seja leve, mas o “leve” não se refere ao sexo em si: é sobre a forma de encarar. Quer dizer, ninguém nasce sabendo, não é mesmo? Não precisa ser incrível da primeira vez. Não precisa ter orgasmos múltiplos, ver estrelas, sentir a terra tremer, não importa o que digam todos os Sabrinas e Julias que você possa ter lido – sempre, sempre, nesses livretos, a primeira vez define tudo e leva a pessoa às nuvens: nada mais apropriado pra criar expectativas erradas sobre uma primeira vez.

E a “primeira vez” é a primeira vez com aquela pessoa. Cada pessoa é uma, cada caminho é um. Certo, pode ser sexo de uma vez só: não foi incrível? Não foi maravilhoso? Não rolou bem? Ué, acontece. Como dançar. Imagina dançar com alguém pela primeira vez uma música desconhecida: ninguém espera que o encaixe seja perfeito, que seja absolutamente harmonioso, que ninguém pise no pé de ninguém…  pode até acontecer, mas isso é fruto do acaso. Não é um dado da vida.

Já se houver a vontade de outras vezes, a gente vai aprendendo… a dois. Um aprende o corpo do outro. Interpreta, decifra, escuta. Vê como é. Acho que abertura e curiosidade, em termos de atitude. (Eita, já tô entrando na linha “manual”… )

É nisso que eu queria chegar, isso é o que me incomoda mais na ideia dos tipos-de-homem: afinal, você está participando do ato, ou está ali apenas observando a performance alheia para depois descrever a pessoa? Se o cara é apressado, diminui o ritmo; se não gosta de preliminares e você gosta, sugere, com a fala, com o corpo…. porque nessa dança não há música a seguir, vocês constroem a música juntos.

Ninguém sabe tudo de prima. Ainda mais nessa área aí. Esse negócio de “ser bom de cama” (ou boa de cama) obscurece o que devia ser o ponto: sexo é a dois, e se o sexo foi bom, as duas pessoas estão envolvidas nisso. A ideia do homem “bom de cama” sugere que é um atributo do cara, e não um resultado do encontro. Sexo com fulano, com beltrana, pode ser incrível. Pra mim. E pode não ser pra você. Se a primeira vez não foi incrível, a próxima pode ser melhor. E se foi tudo mais ou menos, ué: não precisa ser culpa de ninguém. Mais do que isso, um sexo mais ou menos pode até ser divertido. Se a pessoa é bacana, se você está ali de bobeira… ora, por que não?

Acho que é nesse sentido a leveza de que falava: não precisa ser ótimo, não precisa te tirar do chão. Mas é bacana, vai. E você tem parte nisso. Você. A outra pessoa. É a dois que se faz sexo. Tá todo mundo ali envolvido. Ralando. E rolando.

kamasutra_mehndi

Os idiotas e as famílias

VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100

Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Manda Nudes

Texto construído em conversas
com a deliciosa e sabida Patrícia Guedes

Como eu já disse por aqui, gosto muito de ficar nua. Acredito que somos nosso corpo e nosso corpo nos é. Estamos. Assim, conhecer, tocar, percorrer, gozar do próprio corpo me parece caminho interessante a ser percorrido no processo de minha diferenciação, autonomia e prazer de viver. Enfim, pele, suor, saliva, contornos, buracos, texturas, tudo isso me interessa. Não é apenas sobre me sentir ou não bonita, desejável, atraente, whatever, mas sobre sentir-me bem, sentir prazer no corpo, sentir a potência e os limites do meu corpo, ou seja, meus limites e minha potência (o que também inclui sentir-me bonita, desejável, atraente, porque não? Só não se reduz a isso).

Ser gente, hoje, em tempos de capitalismo flexível, é lidar diariamente com estruturas, cultura e discursos de controle do corpo. De forma agravada, quando se é mulher – o bonde do capitalismo segrega e machuca quando agrega machismo (e racismo, homofobia, bifobia, transfobia, capacitismo, gordofobia, etc).  O corpo de uma mulher (concreta, real) está sempre errado frente a uma mitificação do ideal de mulher (abstração branca, magra, cisgênero, sem deficiência, de classe média, etc). São corpos à margem.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. (Fragmento de Mulheres: Corpos Sempre Disponíveis, publicado no Blogueiras Feministas)

O corpo de uma mulher é território sobre o qual terceiros pretendem poder legislar, avaliar, rotular, categorizar e dispor. Não por acaso temos os altos índices de violência obstétrica, temos uma legislação punitivista e moralista sobre interrupção da gravidez, temos “argumentos e considerações” sobre o comportamento e roupas de mulheres vítimas de assédio e violência sexual, temos a mitificação da maternidade e o silêncio sobre a ausência de ações coletivas que resulta em culpabilização das mulheres no que se refere ao cuidado de crianças, temos o silêncio cúmplice e indiferente aos altos índices de violência doméstica, temos o assustador número de assassinatos ignorados de travestis e transsexuais. Poderia aumentar – e muito – essa lista, com elementos aparentemente díspares mas que se reúnem sob o selo de um poder externo sobre o corpo das mulheres.

Nesse sentido, uma relação íntima e prazerosa com o corpo me parece vital, provocadora, até revolucionária. Não em uma perspectiva individualista e essencializada, mas uma relação íntima e prazerosa com um corpo concreto, um corpo com contexto, um corpo localizável na geografia, um corpo com gênero, classe social e raça. Não uma relação onde se afirme um corpo e uma leitura do corpo próxima do aceitável, mas justamente uma relação “errante”, que se constitui no gozo de ir onde o corpo vai e não levar o corpo a algum lugar pré-determinado. De outro modo, uma relação íntima e prazerosa com o irrepetível do corpo, com a particularidade do nosso desejo, com o que escapa. Não é negar o que nos falta, mas acolher a ruptura, a ausência, festejar a diversidade, a alteridade de cada corpo (e, assim, de cada sujeito). Alteridade que só faz sentido, justamente, na localização além desse corpo único, na classe, raça, local, gênero que o compreende.

a10fig03

Esse preâmbulo todo é pra falar de nudes. Esses dias uma revista dessas famosas e tal convidou as mulheres a mandarem nudes sem identificação (sem rosto, mais exatamente) para serem publicados na próxima edição. Não se trata de julgar os nudes que serão feitos e enviados. As ações individuais das mulheres não serão, por mim, rotuladas, questionadas ou qualquer coisa nesse sentido. Mas isso não implica abdicar de tentar compreender e discutir como a convocação da revista é operada, a partir de que lugar discursivo e com que implicações. Euzinha considero essa convocação completamente irresponsável. Dependendo do momento, utilizo até adjetivos mais fortes. Sob o discurso de um suposto empoderamento, rasteja a mais completa falta de noção ou uma escrotidão quase indefinível. É inconsequente, para dizer o mínimo. Ficando só no óbvio, como a revista vai proteger mulheres de terem suas fotos nuas, feitas em momentos de intimidade e sem esse propósito, enviadas por terceiros? Como assegurar que apenas mulheres maiores de idade enviarão os registros fotográficos? Que critérios serão usados para selecionar as fotos? Os corpos “não-convencionais”, usualmente cosiderados abjetos, ignorados e silenciados, os corpos das mulheres gordas, negras, trans, esses corpos serão igualmente acolhidos?

E eu fiquei especialmente matutando o lance dos nudes serem solicitados “sem cabeça”. Na primeira leitura pode parecer que é para proteger a privacidade da mulher – e em parte opera assim, mas não garante, o cenário pode ser igualmente revelador, mas divago. Porém me parece que há algo que age para além da garantia de privacidade. Fiquei com perguntas. Se o objetivo alegado é o tal empoderamento, como acontece se a pessoa se apaga, se desindividualiza, se esconde? Não seria o caso de posar com nome, sobrenome e riso solto? Reconheço que minha reflexão parte de um lugar de privilégio, de poder mostrar o corpo se e quando eu quero sem (muitas) represálias. Mas não seria o caso de agir no sentido de construir uma sociedade em que esse privilégio não fosse o que é e não apagar o problema, descartando os rostos e identidades?

Não sou contra nudes (nem precisaria dizer, mas, né, só pra garantir). Não acho que fazer nudes é uma burrice inconsequente que só serve pros homens se excitarem – como vi repetido por algumas pessoas (o que, aliás, revela um pensamento bem heteronormativo, afinal apaga que há mulheres que se excitam com outras mulheres). Considero que o nude pode ser uma ferramenta útil nesse processo de construir uma relação íntima e prazerosa com nosso corpo. Assim como a masturbação, andar nua pela casa, olhar-se no espelho na hora do banho, ir a uma praia de nudismo, experiências várias que permitam uma aproximação da gente com a gente mesma. Mas como qualquer instrumento, o nude se localiza não no vácuo, mas em um processo sócio-cultural multideterminado. Como qualquer instrumento ou ferramenta, ele não é em si mesmo, mas opera ao ser operado.

Em uma conversa no FB, ainda hoje, aprendi um bocado sobre como o nude pode ser valioso para pessoas, para mulheres, que tem seu corpo vistos como abjetos, não-desejáveis nem desejantes. O nude permite, para além dos outros exemplos que dei, um certo controle do sujeito sobre o próprio corpo, um controle originado não do exterior como a maior parte dos controles a que nossos corpos são submetidos, mas uma determinação sobre como se vai ser visto. O que o sujeito deseja re-velar (mostrar para esconder, esse jogo de sombras e ausências que nos permite ser) é o que a fotografia oferece.  O nude convida o olhar do outro, entrega-se supostamente ao crivo alheio, mas, concomitantemente, seleciona o que vai ser visto, dando uma certa margem de conforto. Mesmo que o nude seja para ser visto pela própria pessoa (um self-nude?) o olhar que temos sobre nosso próprio corpo nu é um olhar Outro, mediato, um olhar no só-depois.  Afinal, o corpo registrado no nude não é mais o corpo, mas uma representação não só do corpo, mas de um discurso que o registro incorpora. Para as pessoas que tem seu corpo diariamente avaliado para além do seu desejo e controle, esse poder é, repito, valioso.

René Magritte La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe) (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929 Oil on canvas 23 3/4 x 31 15/16 x 1 in. (60.33 x 81.12 x 2.54 cm) Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, California, U.S.A. © Charly Herscovici -– ADAGP - ARS, 2013 Photograph: Digital Image © 2013 Museum Associates/LACMA,Licensed by Art Resource, NY

René Magritte – La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe)                                                         (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929

Então, eu podia terminar esse texto falando que existe um nude certo, um nude de raiz, um nude arte, um nude moleque. Mas não vou. Não vou dizer que o nude convocado pela revista será, necessariamente, alienante. Ué, para alguém (ou alguéns) pode ser um montão de coisa, divertido, empolgante, excitante e, até, elemento de autonomia e responsabilização pelo desejo. Não tem norma, não tem forma. O sentido da experiência quem vai dar é o próprio sujeito, cada mulher que enviar – ou não – sua fotografia. Cada qual no seu desnudar-se, cada corpo no seu revelar-se, cada desejante responsável pelo seu desejo. Mas o significado (beijos, Vigotsky) da convocação da revista e da publicação das fotos, esse tendo a considerar como mais do mesmo no que tange a corpos femininos anonimizados, descaso pelas implicações na vida das mulheres e tendência a uma certa mercantilização e domesticação dos corpos revertida em capital.

Meu desejo é que esse território explorado, que é o corpo feminino, se insurja cada vez mais. Em nudez, em riso, em gozo. Que opere a contradição e que subvertamos a ordem. Que os corpos errados não se tornem certos, mas que reconheçamos a beleza do inesperado. Que novos significados possam ser construídos, a partir de sentidos outros, diversos, indomáveis. Que a materialidade dos corpos, suas fomes, suores, fluidos, fragilidades e potência entrem na dança e na luta, corpos que existem, que demandam, que sofrem e sentem e gozam. Bora nessa, sem precisar de validação de revista, um dois, três: todo mundo nu! YAY!

Leia também: As Marcas e os Memes

Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

four-women

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

10-tecnologias-star-trek-teletransporte

Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

jornaldas moças

E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

terceira_idade_3

Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...