Não é sobre a mais recente treta da internet 2

As mulheres têm tido péssimos encontros. Elas dão todos os sinais não verbais de que os encontros estão sendo péssimos, mas os caras não notam. Os encontros não correm nadinha parecidos com o que elas esperam ou planejam e elas sinalizam – na opinião delas, nitidamente, embora não verbalmente – e os caras nem percebem. Eles estão demasiado interessados no fato de que os encontros estão acontecendo dentro das expectativas e referências deles. Elas não falam, não vão embora (embora claramente percebam que eles não impediriam e quando, efetivamente, elas manifestam sua vontade de ir, eles não fazem nada que dificulte isso), elas ficam lá, vivendo aquele pesadelo, sentindo-se mal em cada momento, sentindo-se ignoradas e até mesmo violadas pela forma como eles estragam cada expectativa, cada anseio, sendo meio toscos, alguns escrotos, indo rápido demais, direto demais, tocando-as de uma forma que não era a que elas esperavam, comportando-se completamente diferente das expectativas  delas.

E então, o que aconteceu aí? (um parêntese, qualquer coisa diferente do narrado, que inclua uso de força, poder ou influência que impeça a mulher de verbalizar a negativa não é o tema do post, é estupro e tal). Voltando: e então, o que tem acontecido?

O moço pode ter sido indiferente, negligente, autocentrado. O moço pode ter sido tosco. O moço pode ter sido escroto. Nada disso faz dele um abusador ou do encontro uma violência que ele lhe impingiu.

Isso não significa que, ok, tudo bem, sigamos, é assim mesmo. Nada precisa ser “assim mesmo”.

Não sei se precisava salientar, mas não se perde: não importa se foi o primeiro encontro e a mulher aceitou ir na casa do cara ou levou-o à sua, não importa se ela estava de roupa “provocante”, não importa se ela decidir parar no meio do rala e rola, não importa se ela tirou parte da roupa ou se deixou despir, não importa se o encontro ruim foi com um desconhecido ou com uma pessoa com quem ela se relacionava há mais tempo e de forma estável. Nada disso importa se uma mulher disser não.

E, claro, este é um dos pontos nevrálgicos desta conversa. Nossa capacidade de dizer “não”. Nós, mulheres, somos ensinadas a ser dóceis, cordatas, mansas. Assertividade não é coisa muito feminina. Firmeza não é coisa muito feminina. Acolher o próprio desejo acima dos desejos alheios, especialmente o desejo sexual, deusolivre, não é coisa lá muito feminina. Assim, forjamos mulheres que esperam que as outras pessoas leiam sinais não verbais, discretos, sutis, feitos para não ofender a vontade alheia. Por outro lado formamos homens feitos para agir antes de refletir, para tomar decisões rápidas, para ouvir seu desejo antes de qualquer outra consideração. Homens pouco afeitos à escuta, que dirá entenderem sinalizações confusas e silêncios que parecem consentimento – especialmente no que se refere ao sexo, onde ainda se tem um imaginário em que mulheres não se interessam tanto por, não se divertem tanto no, não se expressam muito durante o sexo. Não sei a quem me lê, mas isso me parece uma combinação desastrosa.

É na estrutura que se inscreve a expectativa do príncipe encantado, mesmo para o encontro casual e que inibe o nosso “não”, coerente com nosso mal-estar. Porque “vai que”. Vai que ele melhora. Vai que ele entende. Vai que ele está em um momento ruim mas minha presença vai fazê-lo ficar bem. Vai que o sapo vira o príncipe que a cultura me ensinou que está nele, bem reservado para quem souber ser perfeitamente feminina e encontrar a chave mágica. E, assim não dizemos o “não”, não caímos fora. É também na estrutura que estão os números dos feminicídios, dos estupros, dos espancamentos contra mulheres. Vai que se eu disser não ele passa do escroto pro violento? Vai que ele me bate? Vai que ele mata? Melhor ficar quieta e encarar o menos ruim, né. Já somos mesmo acostumadas a comer por último, sair da frente, pedir desculpas mesmo estando certas, ver homens aclamados por ideias que demos poucos minutos antes e foram completamente ignoradas, etc. Um silêncio a mais não vai fazer tão mal assim. E, assim, não dizemos o “não”, não caímos fora.

Poderia continuar falando da estrutura/cultura e como internalizamos estes padrões que favorecem que situações como a lá de cima se repitam na zona cinza entre a violência/abuso e um encontro, apenas pessoas conversando, se conhecendo, se apalpando, fazendo sexo, bom ou ruim. Acontece que a estrutura/cultura não é algo absoluto e independente das subjetividades. Não somos seres passivos, tábulas rasas onde toda sorte de inscrições e normativas externas são gravadas e repetidas. Somos seres ativos, seres de desejo, que nos fazemos ao mesmo tempo em que somos feitos.

Eu lembro de um texto do comecinho do blog, que surgiu de uma piada tipo “se sua namorada disser que não quer ovo de páscoa, dê mesmo assim ou ela ficará zangada”. Dizia eu, dizíamos nós: se ela disser que não quer, respeite o que ela disse que é o desejo dela e não o que você acha que ela deseja. E se ela queria mesmo o ovo, mas não disse por recato, por educação, por charme, whatever, azar, da próxima vez quem sabe ela verbaliza sua vontade. Lá no texto tem (e sustento): toda e qualquer insinuação de: “ela não sabe o que diz”, “ela não sabe o que quer”, “ela diz uma coisa, mas está querendo outra” deve acionar imediatamente nosso alerta vermelho. É perigoso – perigoso porque continua alicerçado na idéia de que a mulher não pode ser responsável pela sua vida, pela sua vontade, pelos seus interesses, pela sua ação.

Nós podemos, nós devemos. Uma mulher deve poder dizer sim e não. Seguir e parar.

Não é arrumando formas de acolher, proteger e garantir o silêncio das mulheres que avançaremos, penso eu. Não é culpando homens por não saberem traduzir nossos discretos sinais de negativas dúbias, divididas entre o desejo que ele pare e o desejo que ele mude durante um encontro, que avançaremos. Isso não significa que não vamos (vamos, nós-pessoas, não apenas nós-mulheres) trabalhar e insistir para que os homens escutem mais, entendam mais, acolham mais, cuidem mais. Sim, isso é necessário. E será a contrapartida, penso eu, do movimento das mulheres de falarem mais, (se) afirmarem mais, se posicionarem mais em relação às sua intenções, vontades, expectativas, planos.

Não vai ser no automático. Não vai ser de agora pra amanhã. Não vai ser nem mesmo se todas as mulheres lerem este texto (ahahah) e concordarem e decidirem dizer seu sim e seu não. Porque somos seres de inconsciente, somos seres de cultura, somos seres sociais, somos ambíguos, contraditórios, seres em processo. Será preciso tempo, muitos encontros ruins, muitos nãos gaguejados, muita melhora na escuta dos homens, muito avanço na verbalização, muita mudança econômica (porque sim, segurança econômica não define, mas interfere na autoestima e na segurança emocional), muito avanço no campo das relações de igualdade de raça, muito mais coisa precisa acontecer para que.

Mas não vai ser é nunca se resolvermos apenas mudar quem tutela o desejo e a voz das mulheres. Não vai ser é nunca, especialmente, se consideramos que estes desejos e vozes são uniformes ou poderão vir a ser. Não vai ser é nunca se elegemos vilões e projetamos neles os equívocos e mascaramos a nossa conivência. Não vai ser é nunca se cristalizarmos as mulheres no lugar de quem precisa ser sempre defendida e resguardada de tudo – inclusive de um péssimo encontro – seja por família, Estado ou movimento.

Não basta uma decisão individual de cada mulher. Mas não prescinde disso. Então é preciso, penso, acolher a voz das mulheres, sem lhes tirar a responsabilidade pelo que é dito.

radicalchic

PS. o texto tratou do tema focando na relação homem-mulher porque a maior parte das questões que têm surgido de denúncias de abuso é sobre este tipo de relacionamento (sejam relacionamentos entre pessoas heterossexuais ou bissexuais). Isso não significa, de forma alguma, que relacionamentos entre homens e/ou entre mulheres não tenham, também, vivências de abusos, etc.

PS2. Isso não significa que não existam ambiguidades. Que as mulheres não possam dizer “não” e depois dizer “sim”. Ou dizer “sim” e depois mudar para o “não”. Meu argumento é apenas que se respeite o que se disse no momento: não é porque ela mudou pro sim que quando ela disse o não, o não já era um sim disfarçado. É que como pessoa autônoma, consciente e reflexiva ela pode pensar, sentir, ponderar e transformar sua decisão.

Ó abelha rainha faz de mim um instrumento do teu prazer!

 Por Maycon Benedito*, Biscate Convidado

Quem me fez soube me fazer eu sou feita do fogo e do azeite de dendê
ponto de pomba-gira

Escrevo esse texto para dizer apenas uma coisa: adoro ser desejado. É isso. A mensagem é essa. Todo o restante do que irei escrever é um retorno a essa afirmação primeira. Gosto quando demonstram tesão por mim, quando querem me pegar, quando me olham com cara de safado, quando ando sem camisa na rua e me olham com aquele cara de quem quer me ver sem a bermuda.

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Lembro da primeira vez que eu fiquei com um cara que eu estava de olho fazia já um tempo, quando fiquei pelado ele me olhou e disse “nossa” e adorei.  Outro dia no aplicativo um cara escreveu “Perola negra. Nossa! Que rei!” e ri e fiquei todo aceso. Adoro quando sentem desejo por mim. Gosto quando chupo um cara e ele se contorce inteiro, quando geme puxando os lençóis louco de tesão. Quando pede mais: mais beijo, mais chupada, mais pau.  Me achar um gostoso, um negão de tirar o chapéu não me ofende, não me diminui. Sabe aquela frase do Paul Valéry “o mais profundo é a pele”? Então, para mim é bem isso. O que vem primeiro é a pele, o olhar, o cheiro, o corpo. Se vai ser só uma noite ou se vai dar  em namoro descubro mais tarde, depois. Primeiro vem o tesão, o prazer, o desejo. Vivo dizendo paras pessoas que sexo é diversão, é prazer, é encontro, é vida. Se não for, pode ser qualquer coisa, menos sexo.

Mais do que um narcisismo descarado o que quero dizer é que gosto de sexo, que ele não me ofende, que se aproximar de mim querendo só sexo – como se fosse necessariamente ruim – não me diminui, não me agride. Essa fala poderia cair facilmente na armadilha racista do negro hipersexualizado, mas não se trata disso. Essa questão não está comigo, está com o outro. Se o outro acha que eu sirvo apenas para sexo, ou pior, se o entendimento do outro é de que sexo é só “isso”, se me vê apenas como um fetiche vazio, se ele olha para o mundo e vê negros como seres que servem unicamente para esse sexo tão limitado, como algo descartável, é um problema sexual dele, não meu. É uma pena que por conta do racismo alguém encare as coisas dessa forma. É ele que reduz as possibilidades da vida. A moral sexual racista define que negros e negras servem apenas para sexo. Apenas para isso. E aí é que está o pulo do gato: essa moral reduz o sexo. Tira dele toda a potência, toda a força, toda a alegria, toda a proximidade, toda a abertura para a vida que o encontro sexual pode possibilitar. E aí sim, quando achatamos a vida, quando fechamos qualquer contato com a diferença, quando limitamos o que as pessoas podem criar, inventar, viver, aí é que elas são objetificadas, limitadas, separadas do que elas nem sabem que podem. E isso eu não quero, não aceito. Eu quero mais. Eu quero é mel.

maycon*Maycon Benedito é da “província litorânea” de Santos e diz que se mostra como é e vai sendo como pode. Atende no guichê tuíter pela arroba @MayconBenedito.

 

O Estado e a vida das mulheres

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Postei isso achando graça. Poliamor e sensualidade subversiva? Tá lindo! Anarcos de grande inteligência? Cheguem mais. Mas fiz a ressalva: não seguirei a recomendação sobre a descriminalização do aborto. Esta defendo todo dia. Com tristeza, com tenacidade. Há tanto tempo que a gente já poderia ter conseguido isso. Portugal, país católico, descriminalizou o aborto por referendo em 2007. Lá, a interrupção voluntária da gravidez é permitida até a décima semana, independente do motivo.  Desde então, os resultados são notáveis: de 2012 até 2016, nenhuma mulher morreu em decorrência de aborto. O número de abortos também caiu, como se pode ver neste texto aqui.

Portugal legalizou o aborto tarde – na França, a legalização ocorreu em 1975, há mais de 40 anos. Na Inglaterra, Escócia e País de Gales, antes ainda,  em 1967.

Mas o primeiro país em que se legalizou o aborto foi a União Soviética, em 1920. Segundo a wikipedia, “[p]ela lei soviética, os abortos seriam gratuitos e sem restrições para qualquer mulher que estivesse em seu primeiro trimestre de gravidez.”

Possibilidade de interrupção da gravidez. E, com isso, preservação da vida das mulheres. Da dignidade das mulheres. Dos direitos iguais das mulheres.

Parece evidente, para mim, como já disse em outro texto, que a outra ponta desta questão consiste no apoio do Estado à criação dos filhos, com creches e escolas gratuitas integrais e de qualidade, com saúde pública universal, com a possibilidade de flexibilização de horários no trabalho para mães e pais. Estas duas pontas não se opõem, mas se complementam no reforço aos direitos das mulheres. De ter filhos, quando querem tê-los; de não tê-los, quando não for o caso.

De novo, a URSS foi pioneira e implementou uma política de construção de creches públicas: “De 14 creches com número de vagas desconhecido, antes de 1917, a Rússia passou a ter mais de 365 mil vagas em 1932 nas cidades” (aqui). Com foco no direito das mulheres, aborto legalizado e creches públicas passavam a constituir partes integrantes da política de Estado para as mulheres.

Um século depois, o Brasil ainda patina e retrocede: a ofensiva religiosa e reacionária busca destruir até o direito já adquirido de abortar em caso de estupro, anencefalia do feto ou de risco de vida para a gestante. Todos os outros casos são considerados “crimes contra a vida”.

O que já era um direito limitadíssimo, que não atendia às mulheres, periga se transformar em direito nenhum, já que a PEC 181, que originalmente tratava da extensão do direito à licença-maternidade para mães de prematuros, foi alterada de forma a incluir no texto os termos “dignidade da pessoa humana desde a concepção” e “inviolabilidade do direito à vida desde a concepção“. Ou seja, como no famigerado “Estatuto do Nascituro”, busca-se, através de uma gambiarra, igualar os direitos de um feto em formação aos direitos da mulher viva que o carrega em seu ventre. Um escândalo, um absurdo, algo que faz da mulher grávida uma incubadora sem vida própria e autônoma.

Enquanto isso, as mulheres continuam morrendo.  

E os namoradinhos?

Por Henrique Marques Samyn, Biscate Convidado

Havendo uma reunião familiar, e havendo nela uma mulher solteira, é provável que surja a pergunta: e os namorados? O motivo da reunião é o menos importante, festejos natalinos, aniversários, bodas de qualquer coisa; fato é que, estando presente alguma mulher que possa ser submetida ao inquérito, em algum momento emergirá a indagação – “e os namorados?” (ou alguma de suas variantes) –, seguida de uma série de outras perguntas, com o propósito de perscrutar a vida íntima da interrogada.  De tão comum, parece normalizado. Questionemos, todavia, o que subjaz à perquirição: por que insistimos em submeter as mulheres solteiras a esse constrangimento?

namoradinhos

Porque a gente insiste que a mulher só pode estar realmente bem se tem um homem ao seu lado. Que mulher poderia ser feliz errando pelo mundo, solitária, sem um homem pra chamar de seu? Mulher – apenas por ser mulher – precisaria de um “dono”: aquele que cuidará dela, a figura protetora responsável por dar um sentido à sua vida (mulher respeitável é a “mulher de”). Na infância e na adolescência, incentiva-se a busca pelo “príncipe encantado”; se esse não aparecer, que haja um plebeu qualquer que possa ocupar o posto – o fundamental é que o homem exista para que a mulher possa ao menos exibir para a sociedade sua vitória na luta para evitar o risco do “encalhe”: nesta lógica, é impossível ser feliz sozinha(ou em algum outro arranjo afetivo-sexual).

Porque a gente insiste que a mulher precisa dar satisfação de sua vida pessoal pra todo mundo: todos parece ter o direito de saber (e o direito de opinar) sobre sua afetividade. É bom que a mulher esteja com alguém – e, se ela está com alguém (alvíssaras!), quem é esse? Como se chama, como a trata, que idade tem, em que trabalha? Fique desde logo estabelecido que, para qualquer dessas questões, não há uma resposta certa: tudo o que disser a mulher poderá ensejar julgamentos e críticas da parte daqueles que, afinal, só querem o seu bem (ainda que suas crenças e princípios possam nada ter a ver com os valores daquela que está sendo interrogada). De todo modo, a vida afetiva da mulher está sempre assim, aberta a escrutínio. Se não há esse alguém, surge outro problema: como se pressupõe que toda mulher está sempre em busca do “príncipe encantado” (ou do plebeu que possa chamar de seu), isso pode sugerir que ela está empenhada nessa busca – e, se de fato o faz, o que está fazendo de seu corpo?

Porque a gente insiste que a vida sexual da mulher não é um assunto que diz respeito somente a ela: ela precisa saber que está sendo vigiada o tempo todo (e que, portanto, qualquer desvio terá consequências). Mulher que é mulher, por esse padrão, tem que se dar ao respeito: nada de “galinhar”, nada de “piranhar”, nada de “biscatear”; seu corpo e sua sexualidade são assuntos coletivos, como sabemos, e portanto todos – especialmente aqueles que, lembremos, querem apenas o seu bem – devem ter pleno conhecimento sobre sua rotina sexual: importa saber com quem ela transa, quanto ela transa e quando ela transa, a fim de que se possa aferir a quantas anda sua respeitabilidade. Que pode esperar da vida uma mulher “rodada”, que ousa desfrutar de sua sexualidade com aquela liberdade que está reservada exclusivamente aos homens? Com certeza vai perdendo pontos na corrida pelo “parceiro da vida inteira”.

Porque a gente insiste que a mulher não pode ter autonomia, nem pleno direito sobre si mesma. O julgamento e a vigilância constante sobre as mulheres são mantidos conforme parâmetros patriarcais perpetuados geração após geração e eventualmente punindo aquelas que têm a audácia de desafiá-los. Não podemos negar: há, sim, as que têm essa coragem. E ainda bem que as há.

henriqueHenrique Marques Samyn: Preto, professor, pró-feminista. Empenhado em fazer do mundo um lugar cada vez pior para o “cidadão de bem”

Nós, gatos

Captura de Tela 2017-12-20 às 17.51.53Com a chegada do jardineiro notamos a presença da gata. O moço veio orçar um trato no jardim do quintal da casa que nos mudamos poucos meses antes. O matagal alto, a dama da noite quase vergando de tão pesada indicavam a necessidade de uma intervenção profissional.

Mas ela estava lá, com três crias, muvucadas num buraco perto do coqueiro. Os bichinhos já caminhavam faceiros. Intuímos que não eram tão bebezinhos assim, ainda que estivessem mamando. Há quanto tempo eles estariam ali sem que percebêssemos, naquele quintal que obviamente precisava mesmo de um cuidado, já que, né?!

A gata pariu no nosso quintal e não notamos!

Fiquei meio assim, me sentindo culpada, sabe?

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Adiamos a poda.

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Teve uma vez que um gatinho apareceu na casa dos meus pais. Éramos pequenos. Meu irmão, apegado, logo adotou o bichinho. Meu pai não queria, por causa dos curiós. Meu irmão e eu perguntamos por que ele não soltava os pássaros. Ele respondeu que era porque eles não sobreviveriam, acostumados com o cativeiro. Fiquei calada.

Aí que com dezenas de crianças em casa, o gatinho no meio da folia, pisei na cabeça dele sem querer.

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Não costumo compartilhar memes de gatinhos nas redes sociais.

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Compramos comida pra gata, recomendada pelo povo do facebook, que é pra onde costumo correr quando coisas assim acontecem em minha vida: uma passagem curiosa na rua, um diálogo inusitado com meus filhos, uma gata parindo e morando no meu quintal…

E foi me sentindo meio São Francisco pagando um carma que fui levar comida e água pra gata. Arisca, arreganhou os dentes e se pôs em posição de ataque. Tive medo. Sai correndo, magoada.

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Dia após dia um corriqueiro alimentar-a-gata-fugir-da-gata, entre ridícula e ressentida.

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Tenho um filho caçula que volta e meia quer dar um tempo sozinho com o pai porque passa muitas horas comigo.

***

A gata virou Gata. Pensei em dar um nome mas achei que seria muita prepotência sobre um ser que obviamente não queria intimidade.

***

Gata subia no pé de dama da noite e só ouvíamos seus arrulhos, bravos e estressados. Chamo de arrulho porque é a primeira palavra que me vem. Não é um ronronar. É um som meio grrr (tem nome pra isso?).

***

Nunca tinha ouvido falar de gato feral. Achei que fazia sentido. Gata de rua, selvagem, brava, nada condescendente com humanos, possessiva com os filhotes, afrontosa, que aceita minha comida e me enxota, impaciente e irritada.

***

Sábado de manhã, esse caçula que não vai muito com minha cara me chamou, preocupado. Gata não estava bem. Metade imóvel, outra metade muito agressiva. Levantava as patas dianteiras, “rosnando” pro nada, como se ainda estivesse trepada na dama da noite, enquanto as traseiras, inertes, permaneciam largadas na lajota do quintal.

Ligamos pro veterinário do Fidel, explicamos a situação, a braveza. Não tinha ninguém pra nos ajudar. Teríamos que leva-la por nossa conta.

Joguei uma canga sobre ela, contando que, sem me ver, relaxasse um pouco. Deu certo. A suspendi com as mãos em pá e a depositei numa caixa. Reagiu. Percebeu. Sobre a caixa joguei outra canga rosa com estampa de abacaxi e fomos de uber pro veterinário.

***

Gata morreu. Não aceitou nem receber o soro. Ao encostar a agulha em sua coluna, deu um salto nem sei como, convulsionou e caiu. Tenho pra mim que, naquele momento, o que a matou foi o susto.

De repente, a canga tropicalista não pareceu solene.

***

Demoramos uns três dias pra voltar a ver os gatinhos.

Jardineiro veio.

Não conseguimos nos aproximar dos gatinhos.

Quando ninguém está olhando, eles comem da comida do Fidel.

Fidel não está nem aí.

Não batizamos os gatinhos.

Não podemos domesticar os gatinhos.

Não capturamos os gatinhos.

Não vamos doar os gatinhos.

Precisamos castrar os gatinhos.

Alimentamos os gatinhos.

Diariamente.

Vamos falar a verdade: mulheres são mais importantes do que fetos

Texto de Rebeccca Traister
Tradução de Biscate Convidada
Leia o original aqui

Em uma segunda-feira de setembro, eu acordei e caí na real de que eu estava oficialmente fora do prazo para um aborto. Eu tinha entrado na minha vigésima quarta semana de gravidez, que é o ponto em que o aborto (exceto em raríssimas exceções médicas) deixa de ser uma opção legal no estado de Nova York.

Eu não desejo fazer um aborto. Estou gestando um bebê que meu marido e eu concebemos de propósito e que eu mal posso esperar para criar junto com nossa filha mais velha. Mesmo assim, naquela manhã, eu estava profundamente consciente de ter perdido um dos recursos mais importantes disponíveis para as mulheres: a capacidade de exercer controle sobre o que está acontecendo no meu útero.

Nas minhas duas gestações, monitorei as semanas disponíveis para o aborto legal com a mesma precisão que costumava acompanhar quando fazer a translucência nucal, a amniocentese e o teste de diabetes gestacional. Para mim, o aborto está na mesma categoria que a cesariana marcada que eu preciso fazer por causa das minhas cirurgias anteriores. Ou seja, é uma opção médica crucial, um pilar dos cuidados de saúde reprodutiva das mulheres. E durante a gravidez, se alguma circunstância médica, econômica ou emocional fizesse minha vida entrar na balança contra a do meu bebê, acredito que os meus direitos, minha saúde, minha consciência e minhas obrigações para com os outros — inclusive para com minha filha pequena — superam os direitos do ser humano não-nascido dentro de mim.

Falar de aborto desta maneira pode soar cruel e como um ódio a bebês — até mesmo, receio, aos ouvidos pró-escolha. Mas não porque é cruel ou odioso, e sim porque a conversa em torno do aborto tornou-se tão terrivelmente distorcida. A discussão pública sobre o aborto passou a inexoravelmente privilegiar a vida do feto sobre a vida da mulher. Os futuros imaginários — as “personalidades” — dos não-nascidos adquiriram precedência moral sobre as mulheres adultas em cujos corpos crescem.

É por isso que as histórias pessoais contadas publicamente sobre abortos são quase sempre acompanhadas de um monte de culpa e autoflagelação (“a decisão mais difícil da minha vida”, “algo sobre o que ainda penso”), para evitar que a mulher soe fria e imoral. Em seu novo livro, excelente, Pro: reclaiming abortion rights, um chamado urgente para recuperar o aborto como um bem moral, a escritora feminista Katha Pollitt se refere a isso como a “terribilização” do aborto. A maioria das pessoas, independentemente da sua inclinação política, absorveu algum aspecto da narrativa de direita de que os abortos são sempre angustiantes e traumáticos, quando, para muitas mulheres, são eventos breves que não deixam marca duradoura.

E, por isso, precisamos deixar claro que o aborto não trata de fetos ou embriões. Também não trata de bebês, exceto na medida em que permite que as mulheres tomem boas decisões sobre se ou quando tê-los. O aborto trata de mulheres: suas escolhas, sua saúde e seu próprio valor moral. Pode soar exagerado sugerir que o debate público sobre reprodução possa ser tão sensato. Mas houve momentos em nossa história em que isso aconteceu — mesmo quando (e às vezes por isso mesmo) as mulheres tinham muito menos direitos e liberdades que hoje.

Em 1914, Margaret Sanger lançou The Woman Rebel, o boletim no qual ela cunharia a revolucionária expressão “controle de natalidade”. Naquela época, bebês eram menos cultuados que agora. Eram muitos, e muitos morriam, e também morriam muitas das mães que os geravam num ritmo muitas vezes incessante. A mãe de Sanger teve onze crianças e sete abortos espontâneos antes de morrer de tuberculose e câncer cervical aos 50 anos de idade. Mas as leis proibiam a disseminação de informações sobre contracepção: como resultado, mulheres desesperadas usavam frequentemente o aborto como um último recurso de controle de natalidade. [N.T.: Soa familiar?]

A própria Sanger era contra o aborto, em parte porque naquela época era muito perigoso. Mas sua defesa da contracepção era uma defesa da segurança das mulheres (e de sua libertação sexual), e estava fundamentado na realidade de suas vidas. No novo livro The Birth of The Pill, o repórter Jonathan Eig cita a descrição de Sanger sobre mulheres “inserindo galhos de olmo, agulhas de tricô ou ganchos no útero”. Ela contou a história de uma mãe de três filhos que foi avisada de que outra gravidez a mataria. Não recebeu nenhuma informação sobre como evitar a gravidez, exceto dizer ao marido que ele dormisse no telhado. Morreu de um aborto autoinduzido.

Durante as seis décadas seguintes, a batalha de Sanger para aumentar o acesso à contracepção seria bem sucedida, mas o aborto permaneceu ilegal. É fácil esquecer que várias figuras políticas lutaram para mudar isso [N.T.: nos EUA], desde feministas até líderes religiosos e republicanos – incluindo Barry Goldwater e Ronald Reagan, que como governador assinou a lei de aborto da Califórnia de 1967, de cunho liberal. O foco da preocupação deles não eram crianças não-nascidas, e sim mulheres mutiladas ou mortas por procedimentos muitas vezes escabrosos. Naquela época, o debate era mais próximo da realidade de que o aborto sempre foi um fato cotidiano da vida.

Isso certamente é verdade dentro da minha própria família. Minha avó paterna fez um aborto quando ela e meu avô acidentalmente conceberam durante a Grande Depressão. “Ela achou que trazer um bebê àquele mundo simplesmente não era justo”, me disse recentemente sua filha, minha tia. “Então não o fez.” Em vez disso, esperou e teve dois filhos na década de 1940. Minha avó nunca se sentiu culpada pelo aborto, e levou sua filha e as amigas de sua filha à Clínica Margaret Sanger no início dos anos 60, além de pagar por seus diafragmas.

Minha tia engravidou mesmo assim e, sem conseguir fazer um aborto mesmo com a ajuda da mãe, teve um bebê aos 18 anos. Teve mais duas crianças e fez quatro abortos. Um deles foi realizado por Robert Spencer, o médico da Pensilvânia famoso por interromper gestações por quase 50 anos antes da prática se tornar legal; outro foi feito por alguém que “literalmente usou uma agulha de tricô”; um foi contratado com a ajuda do pastor que mais tarde celebrou seu casamento; e o último foi logo antes de Roe v. Wade. “Nunca me senti culpada ou envergonhada”, disse minha tia. “Eu fiz o que eu tinha que fazer por mim”.

Outra tia fez um aborto quando, com dois filhos pequenos e um novo emprego, engravidou acidentalmente. “Como criaríamos um terceiro filho em Nova York?”, ela se perguntou. “Então fiz um aborto”. Minha mãe também fez um aborto, devido a complicações médicas no início da gravidez, quando eu tinha um ano e meio e antes do nascimento do meu irmão. Não considero incomum o número de abortos na minha família. Afinal, cerca de metade das minhas quarenta amigas — que eu saiba — fizeram abortos. Conheço muitas mulheres que fizeram abortos simplesmente porque conheço muitas mulheres.

Depois da decisão Roe em 1973, as variadas experiências das mulheres, assim como as de suas mães, avós, tias, irmãs, amigas, pareciam subitamente esvaziadas de seu valor. Era como se, ao conquistar o direito, não só de abortar, mas também de ter maiores oportunidades profissionais, econômicas e sexuais, as mulheres perdessem qualquer direito à moral — uma moral que talvez tenha ficado exclusivamente ligada, no imaginário, à identidade reprodutiva delas.

O que surgiu em vez disso foi um novo personagem, menos ameaçador do que a mulher empoderada: o bebê que, em virtude de não existir como um ser humano formado, poderia ser investido de todas as qualidades — pureza, vulnerabilidade, dependência — que as mulheres costumavam possuir antes de se tornarem livres e perturbadoras.

Quarenta anos  de uso agressivo da linguagem da família, do amor e da moral para o embrião e o feto pelas forças anti-aborto -sem que esse uso se estendesse às que os carregam na barriga-  forçaram as mulheres a se encolherem na defensiva. Uma nova pesquisa de Sarah Cowan, socióloga da Universidade de Nova York, revela que, embora haja mais gestações clinicamente reconhecidas interrompidas por aborto intencional do que por aborto espontâneo, 79% dos americanos já ouviram dizer que uma amiga ou parente teve um aborto espontâneo, mas apenas 52% dizem que conhecem alguém que fez um aborto.

O fato é que quase todos provavelmente conhecem alguém que fez um aborto e precisamos conversar sobre isso de forma mais sincera. Isso se aplica, acima de tudo, a políticos que oficialmente apoiam os direitos reprodutivos e, ainda assim, os defendem em termos lentos e apáticos: pense na caracterização de Hillary Clinton do aborto como uma “escolha triste e até trágica”, ou o desejo de John Kerry de torná-lo “a coisa mais rara do mundo “. Essas duas observações cuidadosamente ponderadas foram feitas em 2005, e os democratas só ficaram ligeiramente menos tímidos nos anos que se seguiram.

Mas eles não deviam ter tanto medo. O feminismo está se tornando uma força cada vez mais vibrante na cultura dominante, e neste ano aconteceram algumas tentativas encorajadoras de quebrar a ansiedade em torno do aborto. Na comédia romântica “Entre Risos e Lágrimas”, de Gillian Robespierre, a decisão de uma jovem mulher de acabar com uma gravidez indesejada é tratada como completamente razoável e não trágica. (O filme foi um antídoto misericordioso para o “Ligeiramente Grávidos” de Judd Apatow, no qual os caras fazem referências vagas a “esmagabortos”.) Emily Letts, de 26 anos, publicou online um vídeo de seu aborto, para demonstrar que o procedimento não deveria ser assustador. E o Pro de Pollitt inspirou inúmeras mulheres a compartilhar histórias de interrupções sem remorso: “Eu não me sinto culpada e atormentada pelo meu aborto”, Laurie Abraham escreveu na Elle. “Ou melhor, meus abortos”.

Os políticos — especialmente políticos de partidos que dependem do apoio das mulheres para a sua existência — deveriam se orgulhar de fazer dessas mulheres o centro moral de seus argumentos. Eles deveriam defender o aborto como uma opção médica fundamental, segura e acessível. A imoralidade -e isso deveria ser deixado claro por esses políticos- não é o fim das gestações, mas o aprofundamento da desigualdade que acontece quando é negado às mulheres pobres o financiamento federal para o aborto legal através da Emenda Hyde.

E, sim, à medida que mais mulheres entram para o governo, deveriam ter menos medo de contar suas próprias histórias e as histórias das outras mulheres próximas — histórias que provavelmente incluem abortos. Podem seguir o exemplo da deputada de Nevada Lucy Flores, que em 2013 testemunhou a seus colegas que ela era a única das sete irmãs a não ter tido um bebê na adolescência. Por quê? “Porque aos dezesseis anos, consegui fazer um aborto”, disse Flores, acrescentando: “Não me arrependo, porque estou aqui fazendo a diferença”.

aborto principal

Carreira, sonhos, escolhas

Desde hoje de manhã, essa imagem está circulando pela minha TL no fêicebuque, postado por várias amigas, com comentários entre divertidos e irônicos:

carreira

Um texto, a meu ver, bem-intencionado, sem dúvida. Que prega a autonomia de “seguir seus sonhos”, ao invés da submissão de “seguir o homem”. E continua com a afirmação sobre a carreira.

Embora seja bem-intencionado, me parece que o textinho está cheio de armadilhas. A primeira sendo, sem dúvida, essa de “seguir homens” no lugar de “sonhos”. O que é seguir homem? Todo casal pode se deparar, em algum momento da vida, com essa questão: um dos dois tem uma oportunidade de trabalho bacana no exterior ou em outra cidade, e o outro tem que decidir se vai junto ou não. A primeira pessoa que me vem à mente, nesse sentido, é minha própria mãe. Ela tinha um trabalho que a fazia feliz e a preenchia. E, um dia, meu pai foi convidado para ir para Brasília. Longas conversas em casa a esse respeito: afinal, tinha gente que sugeria que dava para passar a semana em Brasília e voltar no final de semana. Mas esse não era o propósito ali, a ideia era ter uma casa, viver mesmo juntos, aqui ou em outra cidade. Fora que voltar toda semana ficava caro demais. Então ela foi. E, sem dúvida, foi doloroso deixar o trabalho que amava. Mas foi uma escolha: viver comporta riscos sempre.

Conheço também a versão masculina do dilema: me lembro de amigo cuja esposa teve uma oportunidade imperdível…. na Austrália. Ele me dava carona pra faculdade, então a gente conversava sobre isso todo dia. A insegurança, a incerteza. O filho pequeno. Ele foi, largou o trabalho, encarou o machismo todo (seguir mulher é muito mais malvisto na nossa sociedade) e fez uma nova história. Na Austrália.

Outro amigo, casado com uma pessoa que conseguiu trabalho em um organismo internacional desses de postos itinerantes, se reinventou como fotógrafo e cuidador dos filhos. Está bem feliz, parece.

Tudo isso pra dizer: escolhas. Perde-se algo, ganha-se algo. Uma relação é uma relação, não se trata de (apenas) “seguir” o homem ou a mulher. Nada está dado, tudo deve ser conversado. Escolhas conjuntas, enfrentamento de dificuldades. Ninguém disse que seria fácil (ah, disseram? te enrolaram, perdão). E se, de maneira geral, as oportunidades parecem aparecer mais pros homens,  isso não é decorrente das relações, mas da dinâmica da sociedade e do mercado de trabalho. Aí sim algo que a gente deve lutar pra mudar.

Acrescentaria que, no caso dos exemplos acima, de alguma forma, a escolha “deu certo”. Só que não há garantia: pode dar tudo errado, sempre. Você pode ir e descobrir que aquela história já era, ou se apaixonar por outra pessoa, ou … enfim. Viver é muito perigoso, já dizia Riobaldo. Não esquecer disso, nunca.
A segunda parte, do meu ponto de vista, é mais problemática ainda. Primeiro porque liga “sonho” e “carreira”: ora, quem pode dizer, em sã consciência, que faz a carreira dos sonhos? Chutaria que pouquíssima gente. A gente trabalha no que dá, não no que escolhe, porque assim é a sociedade capitalista. Se você não for uma herdeira cujo pai está disposto a bancar seu “sonho”, se você não tiver tido a oportunidade rara de estudar exatamente o que queria e conseguir um trabalho que a preencha, bem…. trabalhar é apenas uma necessidade. A gente encara, a gente vai levando, dias melhores, dias piores. A gente tenta fazer direito, quando é possível. Cumpre o necessário. O que pedem. O trabalho te remunera, às vezes até adequadamente. Mas “sonho”? Sonho pra mim é outra coisa. E é importante separar, senão a gente vai encarar uma vida inteira de frustrações.

preguica

E aí a gente chega ao final do texto, sobre a sua “carreira” que nunca vai dizer que não te ama. Bem, sim, vai. Até Roliúde tá cheio de filmes em que as pessoas dão tudo de si, emprestam a identidade à firma, se entregam, fazem o seu melhor e…. corte de pessoal. Redução, realocação, “racionalização”. Assim é o estranho e mau mundo em que a gente vive: os objetivos das empresas não têm absolutamente nada a ver com deixar você feliz. Pode, em algum momento, coincidir. Você pode dar a sorte (e é sorte, não se engane) de trabalhar num lugar acolhedor. Mas certamente não é a regra. E mesmo o lugar acolhedor, ora, tem que ter retorno compatível. Senão, babau. O dono ou o chefe pode até chorar com você: isso não vai impedi-lo de realizar as demissões que a empresa considera necessárias.

E quando, de uma hora para outra, as leis ou as técnicas mudam e seu trabalho da vida inteira passa a não ser mais demandado, passa a não ser mais necessário ou mesmo permitido? Me lembro de um documentário que mostrava pescadores de baleia, que precisavam ser realocados já que aquilo não era mais permitido. E aí? Me lembro também de tantos artistas gráficos maravilhosos que foram encostados por não saberem operar programas de design, das datilógrafas que, de uma hora para outra, deixaram de ser necessárias num mundo em que a maior parte das pessoas digita seus próprios textos….

Oh, baby, baby, it’s a wild world
It’s hard to get by
Just upon a smile…..

Enfim, acho que o textinho lá de cima tem um ponto: a questão da autonomia. Não “seguir” ninguém. Ir, se quiser. Se tiver ponderado e for melhor. Se você não sabe se é melhor ou não, mas é o que seu coração manda. Não há garantias, mas há responsabilidades. É você, é sua vida. Tome posse dela. Se for possível escolher (nem sempre é), decida por você. Não dá para cobrar do outro. E, sim, um dia ele pode acordar e dizer que não te ama mais. Ou você, vai que.

A parte ruim é que seu trabalho também pode te largar de uma hora pra outra. Aí também não há certezas.

carreira2

Eu queria, eu não posso: eu sou casado

A Helô compartilhou esse texto chamado “Eu queria, mas sou casado”, e me deu logo vontade de comentar. Porque né. Quem não conhece essa fala? Um chope depois do trabalho? Uma oportunidade inesperada de assistir àquele show de que tanto se falou? Um jantar com amigos de faculdade? Ah, queria muito. Mas sou casado.

Comassim, meu povo? 2016 e isso é algo que se diga? Me lembra aquela do meu livro de inglês que ensejou uma aula inteira de explicações: “não vou poder sair com você hoje, porque vou lavar o cabelo”. “Sou casado” é um “vou lavar o cabelo”. Quer dizer, vocês deviam ter vergonha de dizer um troço desses.

Digo isso e me lembro de uma historinha: de um amigo que não tinha podido ir ao meu aniversário, e queria compensar. Vamos, disse eu animadamente. Um chope depois do trabalho? Ele sugeriu que, em vez do chope, a gente fosse almoçar. Aceitei sem problemas e não pensei a respeito. No almoço é que ele me esclareceu que chope não podia. Podia, quer dizer: mas com amigos homens. Ou com turma. Comigo, uma mulher? Não podia. Afinal, ele era casado. É ainda, até onde sei. E nem comentei. Fiquei com pena… quer dizer que casamento é assim? Que tipo de aliança é essa que impede chope com amigas? Sério? Me lembra a camiseta do pessoal do Casseta e Planeta, sobre a bandeira de Minas: “Liberdade, ainda que à tardinha”.

Até porque todo mundo sabe: não adianta. Sabem as adolescentes cujos pais exigem que estejam em casa logo depois da aula: ora, e durante a aula? E durante o resto do dia? E na hora do curso de inglês? Basta alguma criatividade… se quando um não quer dois não brigam, quando os dois querem, jeitos se ajeitam. Se encontram. Se inventam. Imagina alguém casado. Se for pra querer, meu amigo, minha amiga: não adianta marcar hora. Vai ter hora, e vai ser outra. Proibir, trancar, fazer cara feia? Afeta o relacionamento em si. Não as supostas oportunidades de “traição” (aspas, aspas).

Por outro lado, também tem aquela outra história: a do cara casado que fica com uma moça. Se encanta, se apaixona, daria tudo por ela. Mas, infelizmente, é casado. Adoraria largar tudo e ir viver aquele grande amor, mas não vai largar assim a companheira de tantos anos, a mãe dos filhos, aquela que esteve ao seu lado nos tempos difíceis… se seguisse seu coração, não há dúvida: iria, largaria, faria. Tudo no futuro do pretérito. No presente cru, é casado.

Aí que me parece um reverso da mesma coisa, não? O uso do outro (da outra) para justificar suas próprias atitudes. Sua própria falta de atitude. Para fingir que sua escolha é uma não-escolha. Sério. É escolha. No caso do Mr. Rochester de Jane Eyre, a questão era que ele tinha uma mulher insana e dela não podia se separar. Certo, bom argumento. Para a época. O livro foi lançado, me informa a wiki, em 1847. Quase dois séculos atrás. Agora não tá valendo mais. Quem quer se separar, se separa. Quem não se separa, não quer. Certo, não é assim preto no branco e consigo conceber algumas situações em que isso não seja evidente. Em boa parte delas, porém, é isso mesmo. O cara tem filhos, tem mulher, tem casa montada, tem hábitos: isso vale também, como não? Não estou julgando ninguém. Nem os que são casados e ficam com outras pessoas, nem os que se separam, nem os que não. Apenas ressalto que tudo isso são decisões próprias. Ficar, não ficar, partir, voltar. A corda bamba existe, mas a gente é que está nela. Respeito tudo, mas há que se assumir responsabilidade pelas próprias decisões. O que não dá é ficar usando essa balela de “eu queria, mas sou casado”.

Fácil? Provavelmente não, mas quem disse que seria? Romper, quebrar, mudar, desfazer, recomeçar: tudo verbo de dificuldade, me parece. Permanecer, fortificar, manter, solidificar: mais dificuldade. Nada aí é fácil. Nem ir, nem ficar. A vida é cheia de encantos e, se a gente tá na vida, tende a se encantar. A partir daí, é decisão.

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Lembrei do Pequeno Príncipe e da sua fala sobre responsabilidade: sempre achei que era vilipendiada demais. Você pode não ter feito de propósito de encantar alguém; afinal o encantar-se ainda guarda boa parte de mistério. Mas depois que sabe que aconteceu, passa a ter alguma responsabilidade. Ao dizer “fica”. Ao dizer “não quero”. Ao silenciar. Ao fugir – que, em alguns casos, tá valendo. Ao alimentar, estimular, retribuir. É certo que a outra pessoa também. A cada passo tem que saber que a vida é dela, os passos são dela. O caminho, os abismos, os mergulhos, os volteios. A dor. Que, em algum momento, certamente virá. A pergunta de cada momento é: tá valendo? Tá valendo pra você?

(E, com o ponto de interrogação, fecham-se as cortinas. Entre parêntesis. Aplausos. Se couber.)

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Jane Eyre e o Sr.Rochester

Frio na barriga

Por Juliana Lins*, Biscate Convidada

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Lembro da primeira viagem que fiz sozinha depois do fim do casamento de dez anos. Nas férias, peguei um avião pra Fernando de Noronha. Levava na mala uma dor de cotovelo tão grande que eu não conseguia nem sentir – e a vontade de grandes aventuras. O tempo fechou (literalmente), o avião não pôde descer e teve que voltar pro Recife. Eu e mais cem pessoas fomos levadas pro hotel onde passaríamos a noite pra embarcar no dia seguinte. Pense numa reversão de expectativa.

No saguão, a moça da recepção, atordoada, chamava cada um pra ir alojando nos quartos. Na minha vez gritou meu nome e, antes que eu conseguisse ultrapassar a montanha de gente amontoada no balcão, berrou ainda mais alto: É single, né? Eu demorei a entender a pergunta. Ela repetiu, com uma voz estridente: Tu é single, né? Só um? Tá sozinha? Todos os olhares se viraram pra mim. E eu, com um sorriso amarelo, confirmei as três coisas: single, só um, sozinha.

Ali caiu a ficha e de lá pra cá foi uma longa jornada. Daria um seriado, com temporadas e trilhas sonoras bem diferentes uma da outra.

Mas tem um sentimento que é constante de lá até aqui. Ser ou estar solteira é sentir um friozinho na barriga. Não é que a vida seja emocionante e esteja sempre acontecendo alguma coisa. Muitas vezes é como barriga de novela, não acontece porra nenhuma. Mas aí a gente liga o som, sozinha no carro, naquela altura que chega a vibrar no coração e canta aos berros a música do Arnaldo: “Socorro, eu não estou sentindo nada…”. E chora. E já fica melhor, sabendo que em algum momento algo vai acontecer, e que o frio na barriga vai voltar imediatamente.

Além das coisas que realmente acontecem, ou que quase acontecem, tem a cabeça que taí pra gente inventar coisa. E quem disse que coisa inventada não dá frio na barriga? O nosso amor a gente inventa pra se distrair. E quando acaba… peço licença pra mudar o resto da música… a gente guarda no caderninho de histórias que poderiam ter sido, mas não foram. Há que se ter histórias nessa vida, inventadas ou vividas. Cada uma ensina uma coisinha pra gente, ou várias. Histórias eu tenho. E tenho carinho por cada beijo na boca. Ah…. os beijos. A esta altura podia fazer um tratado sobre beijos (nota mental para um próximo post).

Além das coisas que a gente inventa de querer, assim, de uma hora pra outra e que podem crescer numa velocidade exponencial, tem o que os outros querem. Os outros às vezes inventam de querer a gente. Há muito desencontro nesse caminho, como já dizia o mano Vinicius: A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mas nos desencontros também há poesia. Um ser humano olhar pra você e dizer que tá a fim não é pouca coisa não. Não dá pra desprezar um gostar. E ser gostada dá frio na barriga também, como não? Sabe-se lá se o gostar do outro vai acabar te conquistando? Como boa biscate, você vai lá e vê se rola da invenção da pessoa virar a sua invenção por algum tempo. Se não rolar, você sai fora. Tem gente que tem mais dificuldade de sair. Mas sair quando não interessa, acho que já aprendi. Meu método é meio abrupto. Não indico pra ninguém, mas funciona pra mim. O método é… sair sem explicar mesmo. Eu sumo. Com sorte, depois de algum tempo, passados os efeitos colaterais do desencontro, a gente pode virar (ou voltar a ser) amigo. Há quem diga que é falta de respeito tomar um doril. Talvez seja mesmo, mas é o que sei fazer. A minha desculpa é que não tenho uma explicação boa em palavras pra dizer que não tô a fim de alguém. Nada me parece bom, claro e respeitoso o bastante pra eu conseguir falar. Daí prefiro o não-dito. Meu não dizer já diz tudo – sem o constrangimento.

Mas além dos desencontros e das invenções, tem também aquele momento em que você percebe que determinado frio na barriga é recíproco. Que a sua vontade é a vontade do outro. E calhou de ser na mesma hora. Se, ainda por cima, vocês dois estiverem na pista e querendo sentir coisas… Bom, se isso tudo acontecer o frio na barriga é giga.

Aí, alminhas, é soltar o corpo, que não tem muito pra quê freio. Soltar o corpo sabendo que pode se estabacar ali na frente. Sabendo que pode não ser. Sabendo que o frio da barriga pode virar medo. E que o medo pode virar história.

A vida, feito novela, é uma obra em aberto.

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*Juliana é especialista em ouvir conversas alheias. A partir delas inventa histórias, cria personagens e escreve textos pra tv, cinema e livros. Tem dois filhos. Um dia ainda planta uma árvore.

Ele talvez possa estar a fim de você


Eu tenho uma amiga que é essa pessoa: a pessoa anti “Ele Apenas Não Está A Fim de Você”. Queria contar um pouquinho dela.

Mas antes era bom dar uma recapitulada: o livro, esse aí citado acima, é um livro de tese. A tese do livro é a seguinte: todo homem que está a fim de uma mulher vai fazer o possível para ir atrás dela. Vai matar trabalho, vai pegar ônibus de outro estado, vai conseguir telefone, endereço, vai mandar flores…. Enfim, vai fazê-la saber que está a fim. Caso você, mulher, saia com um cara e ele não faça nenhuma dessas coisas em um período curto de tempo, bem…. Ele apenas não está a fim de você. É isso. Simples assim. Não adianta insistir, ele apenas….

EleNãoEstáAFim

Assim é a tese. E nessa ordem: não é uma pessoa a fim de outra pessoa (essa tese, inclusive e evidentemente, não foi pensada nem funciona para relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero.) É um homem que está (ou não está) a fim de uma mulher. E isso se define em um encontro ou dois. À mulher resta, portanto, exibir seu desempenho máximo, mostrar todos os seus truques, encantá-lo da melhor forma possível, porque…. ali tudo se decidirá. Se você fisgar o rapaz (estou tentando não rir e não soar como uma tia Cornélia do começo do século, mas o tema não ajuda), ele vai dar sinal. Vai aparecer. Vai mandar uma mensagem, um torpedo, um uatzáp, um pombo-correio. Flores ou um presunto da Virginia. Você vai saber. Ele está a fim de você. Se não, amiga, recolha as armas, as purpurinas, os saltos-agulha, as cintas-ligas: não vai rolar. Ele não ficou a fim.

A antítese é essa minha amiga. Vamos chamá-la de Babi. Essa moça faz tudo ao contrário. Os escritores do livro iam balançar a cabeça, desanimados, caso a conhecessem. Imaginem vocês que ela é do tipo que vai atrás. Se interessou? Babi vai lá. Manda mensagem. Entabula uma conversa por inbox. Combina um chope, quem sabe um cinema. Ah, não vai dar? De repente outro dia. Quem sabe. Tá de bobeira? Por que não ligar pro Fulaninho, com quem saiu uma vez no ano passado? No ano passado não rolou. Mas e hoje? A vida anda, junto com a fila. Bora conferir.

Minha amiga nunca pensa que “ele apenas não”…. Ela na verdade paga pra ver. Vai lá saber. Abre espaço pro acaso. Tudo pode acontecer, inclusive nada, já dizia o ditado. Mas ela é da filosofia de que do chão não se passa, o “não” você já tem. Dói um pouquinho no ego, se o cara disser não? Ah, mas tão pouco. Afinal, a vida é essa, não é mesmo? Vida que segue. Pra gente, pra eles. E, com esse olhar, já ficou com muita gente que a dupla de escritores de “Ele apenas” teria descartado de cara. Gente que inclusive deu bolo no primeiro encontro, por motivos variados. Que disse que ia ligar e não ligou. Que ia passar no samba e acabou não indo. O caso é que, muitas vezes, há motivo de sobra pras coisas não terem acontecido como planejado. E outras, o cara é que tava inseguro. Ou com problemas. Ou enrolado com um rabo de história mal-resolvida. Quem decidiu mesmo que ao homem cabia fazer o movimento, e à mulher apenas esperar? A gente não tá no século XXI? Já na segunda década? Isso não era pra ter acabado em algum momento lá atrás? As mulheres não conquistaram tanta coisa, como é que ainda se deixam enredar nesses roteiros bestas, chapados, antigos?

Babi hoje tá namorando um cara que conheceu há tempos. Não sabia dele, mandou mensagem inbox. Acabou chamando prum chope. Deu liga, rolou e estão eles juntinhos. Mas podia também não ter rolado, com já aconteceu muitas vezes. Ou podia ter sido apenas uma saída e nada mais. Quem se importa? A questão é que ela vai lá. Faz o movimento. Cutuca pra ver. Pode ser, pode não ser. Mas quem saberá?

Ah, sim, contrapõe você, tem caras que se incomodam com isso. Que acham que a mulher tem mesmo que esperar que o movimento parta deles. Mas tem certeza que é com esses caras que você quer ter alguma coisa?

Bilhete Único

Estava outro dia mesmo no metropolitano de São Paulo. Linha Vermelha. Nem cheia, nem vazia. Em pé. Nas proximidades da Santa Cecília, indo para a República. Tudo em São Paulo, capital, isso aí de grande cidade e tal. A gente tenta, mas muitas e muitas vezes impossível não prestar atenção na conversa alheia. Sei que este hábito é condenável, beira ao deplorável. Mas, confesso, pecados e defeitos me moldam… Pecava.

A conversa seguia aquele tom bom, de amigos. Boa entonação, boa calibragem, sem ânimos exaltados. Até um leve frescor. Até que ela, menor que ele, contava sobre a prova do ENEM. “Você sabe, né, tá todo mundo falando nisso. O tema da redação foi violência contra a mulher. Eu achei ótimo, sabia.”. Ele, bem mais quieto que ela, trajeto todo, respondeu: “Li, sim.”. E houve um estranhamento. Silêncio.

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Torci para o metropolitano se atrasar um cadinho mais, se atrasa sempre…

“Sabe, minha mãe… sofreu com meu pai. Muito.”. Ela se espantou, visivelmente emocionada com o relato do amigo – parecia bem surpresa também. Sim, e teve um abraço, longo, desses que se notam com carinho. Portas se abriram, me fui, tive que ir, a gente sempre tem que ir a algum lugar…. Eles? Não sei se desceram. Ao olhar para trás, vi só a multidão. Muitas mulheres, muitas meninas, muitas e muitos devem ter feito o tal do ENEM. E fico imaginando o quanto de abraços não devem ter resultados daquele tema de redação…

Os cretinos que me desculpem. Mas é neste abraço que devemos nos encontrar, militar, querer, ouvir. Gosto de imaginar que baldearam na Sé, e ouviram a voz da mulher que informa e encanta o metropolitano: “Próxima estação, Liberdade.”.

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Três historinhas, em um daqueles dias

Aí que hoje é daqueles dias. E, como não tem texto, vou resgatando fiapos de histórias. Todas de verdade. Quem sabe compõem algo.

Lembro daquela vez em que eu, com seis anos, fui chamada de “puta” porque tirava a roupa na frente dos meninos. Eu tomava banho com meus primos, meninas, meninos: não entendia porque teria algum problema em alguém me ver sem roupa. Os meninos do prédio pareciam achar isso legal. Eu tirava, ué, e achava engraçado. Era todo mundo da minha idade, será que eles não tinham primos?
Mas aí a amiga me disse que quem fazia isso era puta. Eu não sabia o que era puta, mas pela cara dela não devia ser nada bom.

Aí teve aquele  cara com quem eu fiquei, já adola: eu podia ter ficado com ele ou com outro, mas aí calhou que foi com ele. E eu contei pra ele. Vocês vão dizer que eu fui meio mané: mas sério, não achava que fosse demérito nenhum. Tava todo mundo ali, a gente tava de férias na praia, e experimentava. Ficava com um, com outro. Era pra fingir que tava apaixonada? Ninguém tinha me explicado isso. Tá, eu devia mesmo ser meio mané. Excesso de sinceridade. Mas, sinceramente, não tinha me ocorrido que o cara pudesse se incomodar. E, menos ainda, que alguém fosse achar que aquele comportamento não era adequado. Pô, a gente tava experimentando. Não é assim que se começa qualquer coisa?

Por fim, teve aquele outro: esse já era namorado. E achava um monte de coisas sobre mim. Eu não sabia que ele achava, ele achava só pra ele. Mas aí um dia a gente conversou. Sobre experiências pregressas. Sobre como, onde, o quê. E a pessoa ficou abalada. Abaladíssima. Tipo precisou se afastar. Refletir. Ficou mal. Eu tinha abalado a imagem que ele tinha de mim. Com a minha vida. A minha vida não cabia na imagem que ele tinha de mim. Dessa vez aí eu entendi melhor: entendi e fiquei furiosa. Ele não tinha o direito. A minha vida era minha. Eu tava só contando pra ele. Ficar abalado, sério? Se eu não cabia na imagem que ele tinha de mim, ele que fosse arranjar alguém que coubesse.
Oras.

Ciranda

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