Sexo é a dois

“Sexo é a dois” é um título de provocação. E, é claro, pode ser a mais que dois – ou a menos: masturbação também é sexo, afinal. E bem ajuda a se entender…..

Mas voltando: a questão aqui – e vou me ater a esse “a dois” mesmo, pra simplificar  – é que sexo é algo que se faz com outra pessoa. No sexo hétero, algo que uma mulher faz com um homem.

Aí que quando vejo uma listinha engraçadinha de “atitudes que as mulheres odeiam no sexo”  já me dá preguiça. Dá vontade de dizer, primeiro, que eu não sou “as mulheres”: não, amiga, não dá pra descrever assim direitinho “do que as mulheres gostam”, porque elas gostam de coisas diferentes…. e só fazendo sexo com cada uma delas é que dá pra saber do que, de fato, cada uma gosta. Não tem jeito, é tentativa e erro. Tentativa e às vezes acerto. Se possível, se divertindo muito no caminho.

Ia dizer que é bom que seja leve, mas o “leve” não se refere ao sexo em si: é sobre a forma de encarar. Quer dizer, ninguém nasce sabendo, não é mesmo? Não precisa ser incrível da primeira vez. Não precisa ter orgasmos múltiplos, ver estrelas, sentir a terra tremer, não importa o que digam todos os Sabrinas e Julias que você possa ter lido – sempre, sempre, nesses livretos, a primeira vez define tudo e leva a pessoa às nuvens: nada mais apropriado pra criar expectativas erradas sobre uma primeira vez.

E a “primeira vez” é a primeira vez com aquela pessoa. Cada pessoa é uma, cada caminho é um. Certo, pode ser sexo de uma vez só: não foi incrível? Não foi maravilhoso? Não rolou bem? Ué, acontece. Como dançar. Imagina dançar com alguém pela primeira vez uma música desconhecida: ninguém espera que o encaixe seja perfeito, que seja absolutamente harmonioso, que ninguém pise no pé de ninguém…  pode até acontecer, mas isso é fruto do acaso. Não é um dado da vida.

Já se houver a vontade de outras vezes, a gente vai aprendendo… a dois. Um aprende o corpo do outro. Interpreta, decifra, escuta. Vê como é. Acho que abertura e curiosidade, em termos de atitude. (Eita, já tô entrando na linha “manual”… )

É nisso que eu queria chegar, isso é o que me incomoda mais na ideia dos tipos-de-homem: afinal, você está participando do ato, ou está ali apenas observando a performance alheia para depois descrever a pessoa? Se o cara é apressado, diminui o ritmo; se não gosta de preliminares e você gosta, sugere, com a fala, com o corpo…. porque nessa dança não há música a seguir, vocês constroem a música juntos.

Ninguém sabe tudo de prima. Ainda mais nessa área aí. Esse negócio de “ser bom de cama” (ou boa de cama) obscurece o que devia ser o ponto: sexo é a dois, e se o sexo foi bom, as duas pessoas estão envolvidas nisso. A ideia do homem “bom de cama” sugere que é um atributo do cara, e não um resultado do encontro. Sexo com fulano, com beltrana, pode ser incrível. Pra mim. E pode não ser pra você. Se a primeira vez não foi incrível, a próxima pode ser melhor. E se foi tudo mais ou menos, ué: não precisa ser culpa de ninguém. Mais do que isso, um sexo mais ou menos pode até ser divertido. Se a pessoa é bacana, se você está ali de bobeira… ora, por que não?

Acho que é nesse sentido a leveza de que falava: não precisa ser ótimo, não precisa te tirar do chão. Mas é bacana, vai. E você tem parte nisso. Você. A outra pessoa. É a dois que se faz sexo. Tá todo mundo ali envolvido. Ralando. E rolando.

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Os idiotas e as famílias

VLUU L100, M100  / Samsung L100, M100

Ontem, ontem mesmo, ontem… século vinte e um , um grupelho de deputados resolveu por bem aprovar um parecer, numa comissão especial, favorável a um tal “Estatuto da Família”. Em breve resumo, a ideia dos parlamentares é estabelecer um regime jurídico de proteção à família, entendida como a união do homem e mulher: papai, mamãe e filhinhos.

Até os paralelepípedos mais imberbes sabem que esta ideia é estúpida, reluz ignorância e preconceito. Porque absolutamente irrelevante no campo prático, vai criar uma série de entraves, empecilhos, dificuldades, bazófias, discussões inúteis e cocô a esmo. É daquela ideias de jerico fundamental, porque afastada completamente do dia a dia das pessoas comuns. Todos sabem que família é a união de neurônios em busca da sobrevivência comum, de garantir o dia a dia, o prato, a cama, o banho, o remédio. Pode ser pai e mãe, pode ser vó e neto, pode ser um solitário e um cachorro, um gato, um sapato. Pode ser irmão e irmão, irmã e primo, pode ser uma confraria hippie, um bando de estudantes em uma república, um divorciado e seu filho, uma divorciada e seu enteado, uma mãe e outra mãe, um time de futebol. A ideia de “família” como algo sacro, como um fundamento estanque, como um princípio em si mesmo, é de uma tosquice vulgar e obsoleta.

Sim, até acho mesmo mesmíssimo que tem gente que quer uma família no conceito tradicional e tal e lousa, mariposa e é bonito. Em comercial de margarina arranca lágrimas. Mas é o calor da vida que ensina que as cousas não são assim operação matemática simples, de soma ou subtração. Tem vida, tem morte, tem afeto, tem amor, tem rusgas, tem andor, tem sabor, tem falta de grana, tem fila de posto de saúde, tem seguro fiança, tem pão na padaria e tem sexo, muito sexo para além do ato divino da criação – e, neste ponto, ainda bem… já pensou se no mundo fosse a cada enxadada uma minhoca? A população global seria na faixa dos quinquilhões.

Não se trata, portanto, da defesa de um modelo que deus criou de sociedade. E também não é a denúncia desta blasfêmia legislativa somente uma bandeira de uma causa arco-íris. Este absurdo legislativo afetará a vida das pessoas comuns, em todos os cantos, de uma maneira completamente idiota,  e para nada. Porque as pessoas vão continuar a se agrupar para viver  – ou viverem sozinhos – e estes agrupamentos são famílias, mesmo de uma só pessoa.

Aos que acham que a ideia é boa e é a defesa do modelo de deus, seja lá o que isso for, indico a notável experiência de precisar de algum documento formal para ter acesso a um direito ou benefício. Da vó que cria o neto e tem que colocar ele como dependente no plano de saúde. Da viúva que tem como herdeiro o enteado. Das irmãs solteiras na hora do benefício previdenciário. Na partilha de bens daqueles dois homens que moram juntos no apartamento do sexto andar.

Mais uma grande cagada deste fundamentalismo hostil, que confunde alhos com bugalhos, que acham mais importante fiscalizar buracos do que legislar para o bem comum. Idiotas repletos, o que são.

Manda Nudes

Texto construído em conversas
com a deliciosa e sabida Patrícia Guedes

Como eu já disse por aqui, gosto muito de ficar nua. Acredito que somos nosso corpo e nosso corpo nos é. Estamos. Assim, conhecer, tocar, percorrer, gozar do próprio corpo me parece caminho interessante a ser percorrido no processo de minha diferenciação, autonomia e prazer de viver. Enfim, pele, suor, saliva, contornos, buracos, texturas, tudo isso me interessa. Não é apenas sobre me sentir ou não bonita, desejável, atraente, whatever, mas sobre sentir-me bem, sentir prazer no corpo, sentir a potência e os limites do meu corpo, ou seja, meus limites e minha potência (o que também inclui sentir-me bonita, desejável, atraente, porque não? Só não se reduz a isso).

Ser gente, hoje, em tempos de capitalismo flexível, é lidar diariamente com estruturas, cultura e discursos de controle do corpo. De forma agravada, quando se é mulher – o bonde do capitalismo segrega e machuca quando agrega machismo (e racismo, homofobia, bifobia, transfobia, capacitismo, gordofobia, etc).  O corpo de uma mulher (concreta, real) está sempre errado frente a uma mitificação do ideal de mulher (abstração branca, magra, cisgênero, sem deficiência, de classe média, etc). São corpos à margem.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. (Fragmento de Mulheres: Corpos Sempre Disponíveis, publicado no Blogueiras Feministas)

O corpo de uma mulher é território sobre o qual terceiros pretendem poder legislar, avaliar, rotular, categorizar e dispor. Não por acaso temos os altos índices de violência obstétrica, temos uma legislação punitivista e moralista sobre interrupção da gravidez, temos “argumentos e considerações” sobre o comportamento e roupas de mulheres vítimas de assédio e violência sexual, temos a mitificação da maternidade e o silêncio sobre a ausência de ações coletivas que resulta em culpabilização das mulheres no que se refere ao cuidado de crianças, temos o silêncio cúmplice e indiferente aos altos índices de violência doméstica, temos o assustador número de assassinatos ignorados de travestis e transsexuais. Poderia aumentar – e muito – essa lista, com elementos aparentemente díspares mas que se reúnem sob o selo de um poder externo sobre o corpo das mulheres.

Nesse sentido, uma relação íntima e prazerosa com o corpo me parece vital, provocadora, até revolucionária. Não em uma perspectiva individualista e essencializada, mas uma relação íntima e prazerosa com um corpo concreto, um corpo com contexto, um corpo localizável na geografia, um corpo com gênero, classe social e raça. Não uma relação onde se afirme um corpo e uma leitura do corpo próxima do aceitável, mas justamente uma relação “errante”, que se constitui no gozo de ir onde o corpo vai e não levar o corpo a algum lugar pré-determinado. De outro modo, uma relação íntima e prazerosa com o irrepetível do corpo, com a particularidade do nosso desejo, com o que escapa. Não é negar o que nos falta, mas acolher a ruptura, a ausência, festejar a diversidade, a alteridade de cada corpo (e, assim, de cada sujeito). Alteridade que só faz sentido, justamente, na localização além desse corpo único, na classe, raça, local, gênero que o compreende.

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Esse preâmbulo todo é pra falar de nudes. Esses dias uma revista dessas famosas e tal convidou as mulheres a mandarem nudes sem identificação (sem rosto, mais exatamente) para serem publicados na próxima edição. Não se trata de julgar os nudes que serão feitos e enviados. As ações individuais das mulheres não serão, por mim, rotuladas, questionadas ou qualquer coisa nesse sentido. Mas isso não implica abdicar de tentar compreender e discutir como a convocação da revista é operada, a partir de que lugar discursivo e com que implicações. Euzinha considero essa convocação completamente irresponsável. Dependendo do momento, utilizo até adjetivos mais fortes. Sob o discurso de um suposto empoderamento, rasteja a mais completa falta de noção ou uma escrotidão quase indefinível. É inconsequente, para dizer o mínimo. Ficando só no óbvio, como a revista vai proteger mulheres de terem suas fotos nuas, feitas em momentos de intimidade e sem esse propósito, enviadas por terceiros? Como assegurar que apenas mulheres maiores de idade enviarão os registros fotográficos? Que critérios serão usados para selecionar as fotos? Os corpos “não-convencionais”, usualmente cosiderados abjetos, ignorados e silenciados, os corpos das mulheres gordas, negras, trans, esses corpos serão igualmente acolhidos?

E eu fiquei especialmente matutando o lance dos nudes serem solicitados “sem cabeça”. Na primeira leitura pode parecer que é para proteger a privacidade da mulher – e em parte opera assim, mas não garante, o cenário pode ser igualmente revelador, mas divago. Porém me parece que há algo que age para além da garantia de privacidade. Fiquei com perguntas. Se o objetivo alegado é o tal empoderamento, como acontece se a pessoa se apaga, se desindividualiza, se esconde? Não seria o caso de posar com nome, sobrenome e riso solto? Reconheço que minha reflexão parte de um lugar de privilégio, de poder mostrar o corpo se e quando eu quero sem (muitas) represálias. Mas não seria o caso de agir no sentido de construir uma sociedade em que esse privilégio não fosse o que é e não apagar o problema, descartando os rostos e identidades?

Não sou contra nudes (nem precisaria dizer, mas, né, só pra garantir). Não acho que fazer nudes é uma burrice inconsequente que só serve pros homens se excitarem – como vi repetido por algumas pessoas (o que, aliás, revela um pensamento bem heteronormativo, afinal apaga que há mulheres que se excitam com outras mulheres). Considero que o nude pode ser uma ferramenta útil nesse processo de construir uma relação íntima e prazerosa com nosso corpo. Assim como a masturbação, andar nua pela casa, olhar-se no espelho na hora do banho, ir a uma praia de nudismo, experiências várias que permitam uma aproximação da gente com a gente mesma. Mas como qualquer instrumento, o nude se localiza não no vácuo, mas em um processo sócio-cultural multideterminado. Como qualquer instrumento ou ferramenta, ele não é em si mesmo, mas opera ao ser operado.

Em uma conversa no FB, ainda hoje, aprendi um bocado sobre como o nude pode ser valioso para pessoas, para mulheres, que tem seu corpo vistos como abjetos, não-desejáveis nem desejantes. O nude permite, para além dos outros exemplos que dei, um certo controle do sujeito sobre o próprio corpo, um controle originado não do exterior como a maior parte dos controles a que nossos corpos são submetidos, mas uma determinação sobre como se vai ser visto. O que o sujeito deseja re-velar (mostrar para esconder, esse jogo de sombras e ausências que nos permite ser) é o que a fotografia oferece.  O nude convida o olhar do outro, entrega-se supostamente ao crivo alheio, mas, concomitantemente, seleciona o que vai ser visto, dando uma certa margem de conforto. Mesmo que o nude seja para ser visto pela própria pessoa (um self-nude?) o olhar que temos sobre nosso próprio corpo nu é um olhar Outro, mediato, um olhar no só-depois.  Afinal, o corpo registrado no nude não é mais o corpo, mas uma representação não só do corpo, mas de um discurso que o registro incorpora. Para as pessoas que tem seu corpo diariamente avaliado para além do seu desejo e controle, esse poder é, repito, valioso.

René Magritte La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe) (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929 Oil on canvas 23 3/4 x 31 15/16 x 1 in. (60.33 x 81.12 x 2.54 cm) Los Angeles County Museum of Art, Los Angeles, California, U.S.A. © Charly Herscovici -– ADAGP - ARS, 2013 Photograph: Digital Image © 2013 Museum Associates/LACMA,Licensed by Art Resource, NY

René Magritte – La trahison des images (Ceci n’est pas une pipe)                                                         (The Treachery of Images [This is Not a Pipe]), 1929

Então, eu podia terminar esse texto falando que existe um nude certo, um nude de raiz, um nude arte, um nude moleque. Mas não vou. Não vou dizer que o nude convocado pela revista será, necessariamente, alienante. Ué, para alguém (ou alguéns) pode ser um montão de coisa, divertido, empolgante, excitante e, até, elemento de autonomia e responsabilização pelo desejo. Não tem norma, não tem forma. O sentido da experiência quem vai dar é o próprio sujeito, cada mulher que enviar – ou não – sua fotografia. Cada qual no seu desnudar-se, cada corpo no seu revelar-se, cada desejante responsável pelo seu desejo. Mas o significado (beijos, Vigotsky) da convocação da revista e da publicação das fotos, esse tendo a considerar como mais do mesmo no que tange a corpos femininos anonimizados, descaso pelas implicações na vida das mulheres e tendência a uma certa mercantilização e domesticação dos corpos revertida em capital.

Meu desejo é que esse território explorado, que é o corpo feminino, se insurja cada vez mais. Em nudez, em riso, em gozo. Que opere a contradição e que subvertamos a ordem. Que os corpos errados não se tornem certos, mas que reconheçamos a beleza do inesperado. Que novos significados possam ser construídos, a partir de sentidos outros, diversos, indomáveis. Que a materialidade dos corpos, suas fomes, suores, fluidos, fragilidades e potência entrem na dança e na luta, corpos que existem, que demandam, que sofrem e sentem e gozam. Bora nessa, sem precisar de validação de revista, um dois, três: todo mundo nu! YAY!

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Vamos deixar as pessoas em paz

Texto de Iara Paiva
com participação da bisca Luciana

Hoje na hora do almoço tava pensando em como alimentação é algo que rende assunto. Porque a gente pode pensar do ponto de vista da cultura, da história, da nutrição, da política de comércio internacional, da economia. É fascinante. Mas tem um ponto em que eu me recuso a entrar na conversa: quando passamos pra gordofobia.

Gordofobia, de forma simples, é o preconceito contra pessoas gordas. É julgar e rotular personalidade, comportamentos, valores a partir de um aspecto físico: ser gorda. Assim, nossa sociedade gordofóbica costuma relacionar às pessoas gordas coisas como preguiça, desleixo, má saúde, etc. A gordofobia faz com que as pessoas gordas sejam representadas, de maneira geral, como desagradáveis, repulsivas ou inconvenientes. A pressão que fazemos sobre as pessoas gordas, como sociedade, geralmente promove perda de autoestima, ódio internalizado, sofrimento psíquico, desconforto, inadequação social, etc. Gordofobia é a naturalização discursiva e material (porque tanto acontece quando dizemos que pessoas magras são mais bonitas como quando produzimos meios de transporte cujas poltronas não acolhem todo tipo de corpo com conforto) de um “modelo cultural que privilegia pessoas magras e marginaliza gordas”.

Podemos pegar o exemplo dos fumantes… por mais que ninguém seja obrigado a fumar – como é obrigado a se alimentar – por mais que fumar possa causar diversas doenças, por mais que deixar de fumar seja socialmente mais simples do que fazer regime, o fumante não é assediado como a pessoa gorda. Ainda bem, nem tem que ser! A gente discute propaganda, indústria do tabaco. Discute os limites alheios por conta da fumaça e tal. Mas eu não vejo ninguém ridicularizando fumante, sabe? Tratando como alguém inferior ou digno de pena.

Mas, ain, é por causa da saúde, sei que lá a saúde da pessoa gorda, muitos anos de vida”… Mas saúde não é nem precisa ser um referência individual universal. Nem o desejo de viver muito tempo. Tem gente que quer e se preocupa, tem gente que não, ué. Ser saudável (o que quer que isso seja, porque é outra discussão bem longa) é um valor e uma referência individual que não podemos imputar ao outro e quando o fazemos é sempre uma violência.  Como disse a Jarid: “ é também papel do feminismo combater esse discurso de ódio e má fé disfarçado de preocupação com o bem estar; é necessário lutar contra a imposição de padrões, seja de aparência, roupas ou comportamentos. Cuidar de si mesma e amar outras pessoas significa não constrangê-las e envergonhá-las. Ninguém jamais deveria impoôr aà outra pessoa, não importa quem seja, nenhum tipo de roupa, alimentação ou comportamento.”

Então me irrita essa desculpa cínica do “é pela saúde!”. Não é, nunca foi. Vamos assumir que a gente não gosta de gordo? Que foi ensinado socialmente, mesmo que não tenha sido dito explicitamente, que gordo é inferior? Que mesmo pessoas gordas sofrem com gordofobia internalizada? Que eu tô escrevendo textão, mas olho no espelho e acho meu bracinho de biscoitera roliço? Que até pessoas magras podem sofrer por se acharem “gordas demais” para uma sociedade cujos padrões são cada vez mais magros e se afastam cada vez mais de uma suposta “busca de saúde”?

Bora ser honesto. Depois a gente foca o debate na indústria alimentícia, na propaganda, na política, no discurso médico, na educação, no caralho a quatro. Mas primeiro vamos deixar as pessoas em paz.

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Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

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Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

A quem pertence a história

Aí o moço olhou pra mim meio de lado e disse: “eu estou me sentindo responsável por você ter terminado com ele”.

Eu tomei um susto. Como assim “responsável”?

Amigo, isso não tá na sua conta. Isso não tem nada a ver com você. Você, por acaso, passou por ali na hora em que isso estava acontecendo. “Isso”: aquela história, minha e do outro cara, estar acabando. A história era minha e do cara, não sua. Onde é que você podia ter alguma responsabilidade nela?

Ah, porque eu olhei pra você, porque me interessei por você? Mas isso é outra história, não vê? Essa é – ou seria – a minha com você. Que nem é história, vai: é um encanto. Como é que algo assim tão aleatório poderia me fazer terminar uma relação de anos? Claro que não. Sinto informar, seu ego talvez sofra um baque: você não é tão importante assim.

Ninguém é tão importante assim. As histórias acabam porque acabam, e às vezes a gente acha mais confortável responsabilizar um terceiro pelo fim delas. Mas nunca é verdade: no máximo, é coincidência.

As histórias pertencem única e exclusivamente aos envolvidos na história: e se há histórias com mais de duas pessoas, é que há relações que envolvem mais de duas pessoas. Caso contrário, ora, não. A história é das duas pessoas que nela estão. E, se acabar, é por motivos que dizem respeito exclusivamente a elas.

Ou você acha mesmo que foi a sua aparição loira-de-olhos-azuis que virou minha vida pelo avesso? Isso aí se chama catalisador, não vê? Apenas algo que acelera a velocidade de uma reação. A reação, ela, já iria acontecer de qualquer forma. Tava previsto. Tava contado. Tava escrito na própria história. E nem é que “não tenha dado certo” a história: deu, ué. Deu certo pelo tempo que deu. Esse era o tempinho dela. Encontro-coreografia-afastamento: no compasso. Ao som da cuíca.

Você? Ah, gostei de te encontrar também. Até porque me ajudou a ver algumas coisas mais claro. Até porque me mostrou que eu já devia ter pegado a mochila e seguido caminho. Mas “responsável”? Sinceramente, não mesmo. Pode ficar tranquilo. Relaxado. Aliviado. Não teve nada a ver com você. Era minha a história. Minha e do cara lá. Era e continua sendo, até seu final.

Mesmo que pra alguém seja mais confortável acreditar que tudo teve a ver com uma aparição loira e um encantamento.

 FimdeCaso

Gênero, Prisão e Potência

Por Pedro Moraes*, Biscate Convidado

A invenção do sujeito
Um homem é uma invenção de si mesmo. Uma narrativa, uma personagem construída pra se comunicar com o mundo e lidar filosoficamente com a própria existência, com a vida nua. Essa construção é tanto menos livre quanto mais nos são impostas amarras sociais, e parte importante da luta por direitos humanos consiste em deslegitimar algumas dessas amarras, em afirmar que é possível e razoável ser outras coisas, sem prejuízo de direitos. Vou falar, no entanto, do mundo dos privilegiados: o que é que somos quando podemos ser tudo? Se tais barreiras normativas são brandas ou ausentes, o que é que resta por querer, o que é que se escolhe? Pretendo demonstrar que esse dever-ser majoritário, hegemônico, não é o melhor que a vida tem a oferecer, e é, também, uma prisão. Não me interessa se auto-imposta ou não: elencar culpados e beneficiários parece, nesse caso, uma operação ociosa e essencialista, que desastradamente anula a historicidade, a culturalidade e a chance de criticar no plano ideológico esse estado de coisas (se se tratasse mesmo da essência de alguém, combater o fenômeno seria uma operação fascista; pelo contrário, é pura ideologia e desconstruí-la é um gesto libertário). Isto não é um ato cínico, indiferente à dor de quem tem sua igualdade negada – pelo contrário: o que proponho é que é vantajoso libertar-se dessa prisão e que por efeito esse gesto será também, necessariamente, pela liberdade alheia.

Interlúdio
Se tratamos de fronteiras complexas como poder e potência, diferença e igualdade, é bom esclarecer de onde se parte: como bom comunista comedor de criancinhas, acredito na igualdade como um positivo. Ela não é, porém, um fim em si, um absoluto: ela é a condição em que as potências humanas podem melhor se realizar. Tratamos da horizontalidade da estrutura social. Tratamos, noutras palavras, da igualdade política, que já se pode inferir, em verdade, nas ideias de república ou democracia (para mim, dizer-se comunista é levar às últimas consequências – comme il faut – essas ideias clássicas, que de outro modo seriam apenas cavalos de troia). É a diferença (ou a diversidade de modos de vida, de fenômenos e experiências) que eu assumo como um fim em si, um bem em si. Do surgimento da vida e multiplicação das espécies à criação acelerada de sentido pela arte, o que acontece de extraordinário no mundo é produção de diferença. O avesso é o deserto, a repetição, a estéril paisagem lunar, a morte. Então, tomemos a distinção entre poder e potência em Deleuze e a valorização da diferença e (não paradoxalmente) da igualdade política como parâmetros.

Liberdade
O princípio da liberdade está na negação, na recusa, na revolta, e sua melhor antítese não está na prisão, no cárcere, mas na obediência. Constituir-se sujeito é tomar para si as rédeas da vida, assumir o próprio desejo, os riscos e as escolhas, em oposição ao que se possa esperar de cada um, em oposição ao poder e à alienação. E é assim que opera a heteronormatividade: ela não diz que não podemos ser alguma coisa (ela é mesmo muito anterior às identidades sexodivergentes que hoje reclamam aceitação – de modo que sequer poderia ser definida por sua recusa), o que ela diz é o que devemos ser. Não é só quem se desvia que está sob os efeitos, portanto, desse regime: quem não está sendo punido pelo desvio está também em sujeição, em obediência. As figuras prescritas num regime normativo não são opressor e oprimido mas, mais propriamente, desviante – quem se deve punir ou eliminar – e obediente – quem está ocupado em seguir as normas, e portanto deve ser aceito. E nem mesmo os papéis do fiscal e do fiscalizado são fixos: o desvio ou o cumprimento das regras são usados nas constantes disputas por superioridade moral e poder, e todos se fiscalizam mutuamente e esperam benefícios quando obedecem e prejuízo para seus competidores pegos em falta. (Obviamente, contudo, a vantagem é de quem já está em posição de ascendência social – este estará menos sujeito ao escrutínio e a punições, e poderá mais facilmente se aproveitar do desvio de um subalterno para reforçar sua inferioridade, sua submissão).

Insuficiência
Somos todos, em última instância, desviantes. Mesmo os mais obedientes ou mais adaptados a essa prisão ainda viverão sob o signo da falta, da insuficiência, sob o fantasma do deslize. Os papéis de gênero consagrados pela heteronormatividade estabelecem alguma interface com o natural, mas numa leitura engessada, simplista e caricata, enquanto esse natural é fluido e instável; refletem ainda uma divisão social do trabalho já há muito anacrônica e a ordem patriarcal da tradição judaico-cristã, com profunda assimetria entre o homem, concentrador de todo o poder, sóbrio e infalivelmente forte, e uma mulher pura, submissa e cuidadora. Esses não são apenas papéis inaceitáveis moralmente – são papéis impossíveis de desempenhar, e a malograda tentativa que todos levamos até algum ponto é um processo violento e trágico. Sempre falharemos: nunca machos o suficiente, nunca santas e maternais o suficiente; e sabemos o que acontece a quem é posto nessa situação: uma vez em dívida, estamos coagidos a obedecer mais ainda, a ceder mais terreno, mais liberdade, e propensos a cometer violências covardes em nome da ordem que é nossa credora.

Recusa e escolha
A recusa desses papéis, portanto, deve ser uma operação libertadora mesmo para quem não foi condenado, de saída, à subalternidade (como o são as mulheres), nem teve sua expressão sexual ou de gênero reprimida e sufocada. Falamos da renúncia a um poder triste, limitador da experiência, e da busca de potências em liberdade. Entre as expressões que costumamos atribuir à masculinidade existem potências que estimo e de que não me sinto ou sentiria constrangido a abdicar (a própria busca da autonomia, injustamente, é uma delas), entre outras manifestações que são pura barbárie e boçalidade, das quais busco me libertar – num processo que teve início tardio, o que lamento, mas que tem sido invariavelmente recompensador. De forma análoga, há expressões de um feminino arquetípico que me seriam negadas e de que eu busco, com grande prazer, me apropriar, tanto quanto me convenha. Se o machismo não é outra coisa, em sua operação mais fundamental, senão a hierarquização do masculino sobre o feminino, não acredito num antimachismo que não passe pela valorização do feminino – e isso num processo de deixar-se afetar, deixar-se envolver. Se sou capaz de postular que o Outro me é igual em valor, seria difícil explicar que não quisesse para mim nada, absolutamente, daquilo que o constitui. Como disse meu ídolo Gil: “Todo artista tem de aprender uma certa viadagem…” Ele o diz, ouso elaborar, porque muitas das potências que deve buscar um artista – citaria a abertura para a alteridade, a sutileza, a comunicação empática – estão, em nossa cultura, atribuídas a um feminino.

Contradição e coragem
Não raro, penso em quantos dos meus amigos mais próximos, pessoas muito inteligentes, são aberta e veementemente favoráveis à igualdade de gênero, ao reconhecimento e defesa dos transgêneros e das orientações sexuais divergentes e, no entanto, ainda constituem sua própria subjetividade num clichê conformista e não conseguem abandonar expressões anacrônicas do machismo – entre chavões, renúncias e piadas tacanhas. Não se deve cair no protesto banal que sugere que essas contradições anulam a opção política acertada, é importante dizer. No mínimo, essa opção tem resultado presumível na conquista de direitos para as minorias e serve para colocar quem quer que seja em xeque quanto a suas posturas: um machista convicto sendo machista não poderia sequer ser dito incoerente. Ou será que os movimentos identitários, tão afeitos a coerências, preferem um machista coerente a alguém trilhando um caminho cheio de contradições mas na direção certa? A escolha, me parece, deveria ser óbvia e não é – mas, assim caminha a humanidade. De todo modo, o que me interessa é provocar esses amigos, que tanto estimo: a fragilidade que demonstramos nessas expressões, nessas sobrevivências do machismo chega a ser melancólica. O medo de ser “visto como veado”, o medo de não dar conta da masculinidade que devemos ao mundo salta à vista, e é risível. Por isso os provoco, os chamo a exercer uma potência tida, nessa tradição anacrônica, como masculina: a coragem. Tenhamos a coragem de recusar esse papel e esse medo.

Liberdade e potência do não
Por fim, e numa tentativa de sintetizar minha proposta e expandir seu alcance, eu trato aqui de que o gesto radicalmente livre está na recusa peremptória das identidades – que são, impreterivelmente, um dever ser, um regime normativo. O espírito comunitário, destruído pela colonização ocidental/cristã/capitalista do mundo para que esta se afirmasse como poder único, precisa ser reconstruído sob um novo tipo de identificação, um encontro na diferença, e não na homogeneidade fascista. Reconheço ainda, é claro, que os oprimidos se orientam e se reúnem em vínculos identitários como forma de reagir a opressões sistêmicas e conquistar direitos. Isto tudo é, sim, legítimo, provou-se eficaz até certo ponto, e deve ser apoiado, em suas demandas legítimas, por quem quer que se pretenda libertário. Esses vínculos não podem ser, no entanto, o modelo final da ação política, pois, primeiro, não oferecem um caminho para a libertação de seu próprio conteúdo normativo: a tentativa de dar conta deste efeito colateral tem sido – o que é um evidente fracasso – a fragmentação sucessiva em novos agrupamentos identitários, numa espiral sectária que já beira a esquizofrenia; e então, sobretudo, porque não oferecem um caminho para o encontro entre os diferentes devires minoritários com que precisamos – e esse é o grande desafio da política contemporânea – constituir uma maioria política diversa, igualitária, libertária e antifascista.

Para além do fenômeno dessas identidades reativas, é certo que existe um encantamento, uma tentação em servir, obedecer, conformar-se: ser livre tem um custo terrível, não é nunca um processo indolor, nunca um processo de que saímos impunes, ao menos sem conhecer a solidão – o maior dos terrores, talvez, da condição humana. O pertencimento traz algum tipo de recompensa psíquica primordial e o buscamos mesmo nas mais estúpidas fontes, como atestam torcidas organizadas e outras seitas fascistóides que escancaradamente só existem para e pela nivelação e identidade de seus membros, sem nenhum conteúdo positivo, sem nenhuma intenção perceptível senão o estabelecimento de uma fronteira Nós/Outros e a consequente tentativa de destruição do Outro.

A liberdade não é panaceia ou éden, mas o inferno da alteridade, da experiência, do risco e do desconhecido; não o fim das dificuldades, mas seu começo – é sempre mais fácil obedecer. A liberdade é a dor inenarrável da recusa, o terror do enfrentamento que é dizer: Não. E o único terreno em que a vida pode verdadeira e radicalmente florescer.

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*Pedro Moraes, o moço à esquerda, é programador e editor da Revista Baderna. Os gritos de ódio devem ser encaminhados à seção de reclamações do site naofo.de

Uma palavrinha, cara ditadora

Por Deborah Sá*, Biscate Convidada

Cara ditadora que mora em mim,

Sei que tentei fazer vista grossa para suas exigências por muitos anos, talvez décadas, é, mais provavelmente décadas. Agradeço de antemão o cuidado extremo que sempre tem tido em projetar expectativas tão altas somente em si mesma. Quer dizer, você sabe que é injusta consigo mesma, às vezes pesa a mão demais, mas é a medida de segurança que você aprendeu, não jogar a dor que já jogaram em você em quem está do lado, poupar os outros, só que nem sempre me poupa dessa energia desgastante. Você é perita em implosão. Então, respeitando a sua autoridade (porque sei que é você que põe certas coisas nos eixos, bloqueia eu ir muito fundo em certas memórias, etc), é preciso respirar mais um pouquinho. Isso mesmo, a dura crítica a “procrastinação de pessoa preguiçosa, uau, por isso não vai pra frente”, na boa, não precisa ser tão severa. Sei que é por causa de você que os prazos (geralmente) estão prontos bem antes do previsto, com sua revisão em cores vermelhas e berrantes de “Opa, advinha quem mandou o anexo e esqueceu de arrumar aquele apud, hehehe”, “Não acredito que você ainda está errando isso”. Você usa palavras realmente horríveis como motivação, quer dizer, como culpabilização, como se realmente o universo fosse entrar em colapso porque não se pode controlar tudo o tempo todo. Você faz meu processo de aprendizagem sempre viciante mas um tanto dolorido, quer dizer, posso ter o caminho mais fácil, ou posso ir para o caminho novo, pouco explorado e um caminhão de termos difíceis e desafiadores. É claro que eu pulo no escuro um tanto de vezes. Mas esse pulo no escuro pode significar levantar da cama e chegar no encontro em tempo, sem auto-sabotagens, você tem que parar de me aterrorizar tanto. Cara ditadora, são três horas da manhã e já escrevi dezessete páginas hoje, dezessete, ontem, vou parar sim senhora, que esse braço não é feito de pedra. E vou celebrar com comidinhas e dancinhas e amorzinhos, eu sei que você só me deixa descansar se eu tenho a sensação de ter dado o máximo antes. Porque, você, Ditadora interior, parece uma propaganda tucana: “Trabalho, compromisso, responsabilidade”. Porém, também tem seus momentos de glória.

Por exemplo, aquele seu lado mais divertido e soltinho, arisco, sarcástico, desbocado, eu acho que é parte sua esse carão que eu adoro, uma certa petulância com gente desrespeitosa, essa vontade de querer o mundo no talo. E os desejos praticamente megalomaníacos, espontâneos? Eu adoro. E por não suportar a tirania de ninguém (nem de  si), vive reinventando as próprias regras e burlando as tuas leis. Talvez, você seja parte de uma força motriz que sempre me guiou, em todos os lugares, mas agora, estou respeitando e considerando sua devida importância, sem contar, gozando (em todos os sentidos) de sua vibrante companhia. Fica que a gente se ajeita, fica, que a gente reveza, fica que a gente se prosa.

11351327_1457045754607564_5642394097373800822_n* Deborah Sá é uma biscate delicinha que só sabe querer de tudo, com todas as coberturas, com todas as sensações e com todos os sabores.

Qual república vai cair?

república

Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!

A Dor é Minha e Ninguém Tasca

Por Katiuscia Pinheiro, Biscate Convidada

Nesses tempos de árdua luta por tantos Direitos Humanos me coloco na empreitada da defesa de um dos mais antigos deles: o direito à dor. Quero falar da humanidade de tod*as nós, do direito inalienável à dor e à tristeza. Daquela reserva de enfraquecimento à qual tod*s temos um quinhão e que tant*s julgam ser quase uma ofensa.

A passagem por um mundo racista, classista, misógino e homofóbico não é brincadeira. Onde falta afeto, sobra dor e quem nunca teve que lidar com isso não sei como conseguem, racionalizando ou evitando sentir). Eu não, não vegetei, nem racionalizei. Sofri e sofro mesmo, sempre que posso, sempre que a vida me “permite” ainda que contra a minha vontade. Mas vontade da gente é coisa que esse mundo menos respeita…

Me recuso a me sentir culpada por me desequilibrar, não vou rastejar o perdão de quem queria que eu fosse forte porque tem a ilusão de que seja. Não sou forte sempre…Mas sempre é daquelas palavras de gente que pra mim soa como mentir pra mim mesma. Não minto pra mim mesma, só quando eu digo que não faço isso…

Sim, é contraditório, e também complexo. Porque ao mesmo tempo você é a sofredora e sua própria redentora. Não, o príncipe não virá te redimir. É sozinha mesmo. Porque o príncipe não redime nem a ele próprio. Já caiu faz tempo do cavalo branco.

Sem príncipe e sem cavalo branco seguimos em frente na nossa dor que essa sim, é só nossa. Como o imposto de renda, que odiamos, mas é de nossa responsabilidade e fugir dele pode trazer tantos prejuízos futuros que é melhor enfrentar. Pagar logo essa merda, ainda que parcelada. E a merda fede. Fede muito.

Fede tanto que exala e incomoda quem está ao redor. Mas, quem não puder cheirar um pouquinho a merda do outro ai nunca amou, né? Porque se a gente fosse só Chanel nº 05 intoxicaríamos antes dos 30 anos. E eu quero chegar ao menos nos setenta, cheirando e fe(u)dendo, como todo ser que transpira em cima dessa terra. O problema é que alguns pensam que vivem em outro lugar. Talvez no paraíso, ao lado de Descartes. Anjos serenos e fortes que não sofrem e nem se desequilibram.

Eu, que às vezes me descabelo e choro, não me sinto à altura dessas pessoas. Tenho medo de altura. Tenho náuseas. E de náuseas, já basta a do ansiolítico. Prefiro mesmo sofrer de vez em quando e depois melhorar, depois levantar, depois seguir em frente. Mas nunca mais a mesma, nunca mais como antes. As sequelas são como as rugas: estão lá, e você escolhe(?) ligar ou não pra elas. Só isso.

Não vim pra cá pra repousar. Não ando com os dois pés no chão. Quem vive assim é estátua. Vivo mesmo como o Saci-pererê. Já não tenho as duas pernas.Não opero com 100% de mim mesma, parte ficou pelo caminho, parte trago comigo.Não sou fênix, não renasci das cinzas, trago-as comigo, sombreando um colorido inicial que só resiste por completo na tela de quem se blinda.

Não uso colete à prova de balas nem curto Romero Brito.Vou de peito aberto, tentando me esquivar. Sou uma tela toda manchada de cinza cor de sangue. Mas gozo, gozo muito em cima de uma perna só.

10481940_846432465423526_6050972462899631474_nKatiuscia Pinheiro se diz assim: leonina transfeminista, professora e tia. Ando com somente um pé no chão, de noite e de dia. Curto dançar, sexo e coisa e tal, mas ficar triste também é normal. Na alma tenho muitos defeitos, no corpo, dois peitos. E se a mídia não atrapalhar, vou envelhecer sem me estressar.

 

O outro sapatinho de cristal

As afirmações são três, assim na sequência. Leiam devagar pra não tomar um susto.

Eu adoro desenhos da Disney;
Eu adoro desenhos “de princesa” da Disney;
Dentre esses, meu favorito é, sem nenhuma dúvida, Cinderela.

Aliás, vi outro dia o filme “Cinderela” do Kenneth Branagh, e fiquei triste por não poder dizer “adorei” – só que não pude. O filme é uma refilmagem que cola no desenho, e, no pouco que difere, o desenho (de 1950!) é melhor. Vamos a ele e a alguns dos motivos pelos quais gosto tanto dele.

Cinderela é dona do próprio nariz. A gente chama de filme “de princesa”, mas na verdade Cinderela é filha de um senhor que casa em segundas núpcias com a malvada madrasta e, quando ele morre, ela fica à mercê da madrasta e de suas filhas. Dorme num quartinho isolado, é obrigada a cuidar da casa inteira, das roupas das três, da comida. Ela é a única “empregada” da casa. Uma vida horrível, parece. No entanto, as cenas com Cinderela não são cenas tristes, muito pelo contrário: ela aparece cantando e conversando com os passarinhos, com o cachorro Bruno, com o gato Lúcifer (o gato da madrasta, preguiçoso e cruel, de pequenos olhos amarelos), com os ratinhos. Uma pessoa solar, alegre, que leva a vida da melhor maneira possível. Que não é submissa à madrasta, que acha as duas irmãs Anastácia e Drizela o fim da feira, fica evidente. Ela tem que obedecer, é certo, mas seu espírito permanece intocado. Não é humilde, não pede nada, reclama baixinho “já vou, já vou”, quando toca o sininho do café da manhã das três.

Cinderela é desenrolada. Quando ouve o anúncio do baile no palácio, para todas as moças solteiras do reino, enfia na cabeça que vai. A madrasta, em vez de proibir, dá-lhe todo tipo de tarefa antes do baile: limpar a casa, lavar as cortinas, ajudar as irmãs. Se ela conseguir fazer aquilo tudo, diz, ela poderá ir ao baile. Cinderela bota a mão na massa, mas não descuida do vestido de baile: um vestido que foi da mãe, que ela pretende usar, embora esteja meio antiguinho. Nessa hora, seus amigos bichinhos – os ratinhos, os passarinhos – resolvem ajudar e reformam o vestido usando uma fita desprezada por uma das irmãs, cortando e costurando em conjunto, e completam o traje com um colar jogado fora pela outra. Ela tem ajuda, sim, mas quem começa esse processo é ela, mostrando o vestido para os animaizinhos e contando como gostaria de ir ao baile. E a madrasta, que tinha dito que “se” ela fizesse tudo poderia ir, quase cede: até que vê os adereços que eram das suas filhas em Cinderela, e sutilmente chama a atenção delas para isso. Com o resultado imaginado: as duas destroem a roupa da moça, rasgando e arrancando pedaços. Cinderela é vencida, mas é pela traição da madrasta.

ratinhos

A fada madrinha dá um apoio. A fada madrinha, que ela até então não conhecia, aparece para remediar a situação, depois que tudo parece perdido. Dá vestido, carruagem, equipagem: mas não garante mais nada. Ela é que tem que ir, que tem que conquistar o príncipe, e à meia-noite tudo acaba. A magia só vai até certo ponto, e muito ainda há por fazer. É Cinderela mesma que dança e que passeia com o príncipe, e quase esquece das badaladas da meia-noite. Quanto ao príncipe, ele fica, bem, encantado. Ela foge e deixa o sapatinho de cristal para trás.

O sapatinho e seu par. Na última parte da história, o príncipe manda fazer uma busca no reino todo pela dona do sapatinho. Cinderela suspira pela casa, e a madrinha começa a intuir o que foi que aconteceu, embora não saiba como. E trama para prendê-la no quartinho lá em cima, quando o grão-duque chega com a missão de experimentar o sapatinho no pé das moças solteiras. Mais uma vez, os bichinhos amigos são providenciais: roubam a chave do quartinho do bolso da madrasta e, com muito custo, carregam-na escada acima até conseguir passá-la para Cinderela. Esta corre e chega bem a tempo: a madrasta má tenta convencer o grão-duque que ela não é ninguém, mas como ele parece decidido a deixá-la experimentar o sapatinho, põe uma bengala traiçoeira no seu caminho. Ele cai e espatifa o sapatinho de cristal. De novo, Cinderela tem a solução: ela tira do bolso o outro sapatinho. Esse é o que ela experimenta, cabe perfeitamente, e, bom, o final da história vocês sabem.

Agora me digam: Cinderela teve ou não teve um papel ativo na história toda?

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