E de perto…?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

Outra vez, a estatística. De longe, é um número. O número de mortes no Brasil por causa de procedimentos clandestinos em razão do aborto. A quinta causa de morte materna no país. Morte. Mas… e de perto?

Quem é aquela moça? O risco dela morrer numa agulha de crochê é mesmo uma vingança por uma trepada descuidada? Até quando a gente vai considerar que o sexo é, basicamente, para procriação, um ato solene, um bater carimbo? Por que transformar o sexo nalgo sacro ou numa roleta russa, onde o pecado está ali ao lado e por isso você pode, inclusive, morrer?

Toda a questão filosófica sobre a existência, a vida, a perenidade, deus, deuses, deusas, mãe, mães. Toda a vida de debates, reflexões, camisinhas, pílulas, “responsabilidades” podem e devem estar nos cardápios, nas camas, nos dilemas, nas escolhas. Mas… e se?

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A pergunta não é – como querem muitos – a de ser a favor ou não. Esta pergunta mascara intenção, esconde o verbo, oculta. A questão é manter na clandestinidade, no obscuro, na vala suja, um procedimento que feito de forma segura pode impedir mortes, prisões, dores e pontos finais. O comércio clandestino de quem pode pagar.

Vamos continuar fingindo que ali na esquina não existe uma gravidez indesejada? E agora, nesta maluquice pós moderna, vamos mandar para a inquisição, para a chama das bruxas, aqueles e aquelas que “contribuem” para a realização do aborto? Vamos mandar mais gente para lotar e lotar prisões por causa de nossa incapacidade em entender desejos e não desejos, possibilidades e não possibilidades, maturidades e imaturidades, diferenças, sexos?

O pecado original, a salvação, a danação eterna. Mas ali, ali na esquina, tem uma gravidez indesejada. E se a gente não mudar a lei, não descriminalizar, não oferecer amparo e proteção, vai continuar a significar morte, dor, ponto final. E estatística, lá longe.

Até ser aqui perto… Então, perguntamos: “E de perto…?”.

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Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

Por que criminalizar o aborto e quem o auxilia?

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

O Aborto é uma imbecilidade burocrático-patriarcal. E eu poderia passar a noite inteira em claro reconstruindo argumentos (porque eles já existem aos montes) pra justificar a liberação irrestrita da prática da interrupção da gravidez, poderia usar os mais secos e “capitalistas” de questão de saúde pública, diminuição da pressão carcerária, etc. Além disso, muitos dos bons argumentos a favor do aborto serão trazidos na nossa Quinzena #AbortoSemHipocrisia

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Garota com um Feto (2005) by Paula Rego

Essa quinzena tomou fôlego com as notícias, recém divulgadas do crescente número de crimilização de pessoas que prestaram apoio a mulheres que buscaram o aborto (veja aqui). E é sobre isso que me debruço nesse post inicial. E não, não vou escrever um tratado jurídico pra explicar a situação. Basta saber que nossa legislação permite, sim, criminalizar quem presta qualquer auxílio à mulher que faz aborto – e, sim, é qualquer auxílio mesmo, desde indicar o remédio abortivo, comprá-lo, levar à clínica, pagar o médico clandestino, tudo isso é participação no crime.

Agora, sendo sensatos no assunto (ou tentando, pelo menos). A nossa sociedade é prolífica em demonstrar que historicamente nossa liberdade sobre o próprio corpo é quase nula. Quando se trata de mulheres (cis ou trans*) essa autonomia sobre o próprio corpo é menor ainda e isso não é uma mera questão legal… isso é cultural, algo incutido na nossa formação e que reprime qualquer atitude que tomamos em relação ao nosso corpo, desde a masturbação, exposição do corpo nu, passando pelo sexo, até o aborto.

O legado da nossa sociedade é de opressão ao corpo e de oprimir o corpo do outro. Agora, imagine o quão difícil não é tomar o ato de liberdade desse contexto cultural e decidir fazer o que é considerado “crime” por essa mesma sociedade. Agora, imagine fazer isso sozinho. É não só cruel, como irresponsável. A prática do aborto requer assistência! A mulher que, não importa o motivo, resolve dispor do próprio corpo e se submeter a esse procedimento médico precisa de auxílio: moral, financeiro, afetivo, profissional. E o que o nosso Direito Penal Arcaico faz? Isso mesmo, criminaliza que quer que esteja disposto a dar suporte a esse mulher, seja ela consciente-empoderada, inconsequente-vítima do contexto social, seja ela simplesmente o que tem que ser uma mulher que aborta: alguém que decidiu dispor do próprio corpo.

Hoje, nosso sistema político e jurídico transforma a questão do aborto em uma questão de coragem, de clandestinidade e de resistência. Mulheres Livres e seus “Camaradas”, seus auxiliadores, se põem no lugar de uma guerrilha a ser combatida de forma abrupta e truculenta. Se tornam, mais que criminosos por um sistema injusto e arcaico, vítimas de um estado que os deviam acolher e dar assistência. E é muita infelicidade para uma sociedade não conseguir entender e chegar a este estágio de civilidade, porque é isso… nos falta civilidade, compreender a dor e as questões do próximo e, sobretudo, apoiá-los nesses momentos. Contudo, nós e nosso Estado irascível preferimos criminalizar vítima e quem quer que a auxilie…

Não nos basta reconhecer que estamos passos atrás, nosso problema é, depois disso, pedir para sermos cimentados nesse lugar atrás.

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Participe, não se cale. Assine a petição para Regular a interrupção voluntária da gravidez, dentro das 12 primeiras semanas de gestação, pelo Sistema Único de Saúde.

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