Biscate de Luxo

Nova semana,  novo calendário, nova forma biscate  do nosso club.    Aos domingos, além das  – por assim dizer – “tradicionais” receitas, o Biscate Social Club também  trará, de forma alternada,  a biscatagem na cultura. Novas surpresas ao longo da semana. o/

Por Liliane Gusmão*

Breakfast at Tiffany’s é um filme biscate. Desculpem, mas o titulo em português foi, a meu ver, muito equivocado. Holly Golightlly é qualquer coisa menos uma bonequinha. Ela também não é de luxo. Mas ela é sofisticada e elegantemente biscate.

O filme está cheio de mulheres biscate, que bebem, que fumam, que tem casos extraconjugais, que sustentam seus amantes. Mulheres que não se encaixam no padrão ‘boa moça’, ou ‘mulher de respeito’ de 2012 quem dirá dos anos 60.

Essas mulheres estão protagonizando suas vidas e suas escolhas. Buscando a satisfação sexual que a vida dentro dos padrões não lhes proporcionou. O que pode ser mais biscate do que o inconformismo, do que a busca, do que o questionamento, do que a incerteza?

O filme conta a história dessa mulher que não sabe bem o que quer, mas sabe onde não cabe, o que não é suficiente para ela, onde não quer continuar. O filme conta a história do encontro de dois biscates que se conhecem e se apaixonam por essa sede de aventura ou seria pelo descaso com as convenções, com que vivem suas vidas?

Embora meu coração romanticamente biscate se delicie com o final feliz do filme sei que o personagem de Holly não aceitaria esse final para si, como sabia também o autor da história.

No começo, Audrey ficou insegura se deveria ou não aceitar o papel, ela não era a atriz que o autor da história imaginou para interpretar Holly na adaptação para o cinema. A personagem que ela interpretou não se parecia em nada com ela e o roteiro inicial foi modificado para que ela aceitasse estrelar do filme.

Muito impetuosa, a personagem assustou a atriz tímida e reservada A personagem no livro era uma garota de programa bissexual. A bissexualidade da personagem foi completamente omitida do filme e a prostituição da personagem ficou implícita em apenas uma fala da personagem.

O final feliz do filme também foi à revelia do autor que sabia que a personagem original do livro não sossegaria e continuaria de amor verdadeiro, em amor verdadeiro sem jamais deixar de ser seduzida por outras possibilidades de felicidade reais ou imaginárias.

Apesar de não ser biscate por inteiro em Bonequinha de Luxo, Audrey imortalizou Holly e emprestou seu rosto a uma biscate contida pelo moralismo da época em que o filme foi realizado.

Curiosidade: Breakfast at Tiffany’s é um livro de contos de Truman Capote, um dos maiores escritores americanos, pioneiro no jornalismo literário. Capote também virou filme em 2006, com interpretação brilhante e Oscarizada de Philip Seymour Hoffman.

Liliane Gusmão é brasileira residente no exterior. É feminista, arquiteta, estudante, imigrante, mãe, filha, irmã e mulher. Tem 38 anos, mas, confessa, às vezes parece ter 13 ou 130. Exagerada, rebelde, cansada, impaciente, indecisa. E, acrescentamos, inteligente e terna. É autora do Ponto de Fuga.

Biscate Casada

Por Paula Bruk, Biscate Convidada*

Não, ela não está num casamento falido. @ parceir@ também não é um troglodita ou workaholic que não lhe dá mais nenhuma atenção. Ela não se submeteria a um macho dominador e também são aceitaria viver em um casamento morno. Não estou dizendo que todas as biscates casadas são assim, até porque elas odeiam formatos pré estabelecidos.

Ah, então pode ser sua vida sexual, né? Pode estar meio sem graça…

Na verdade a vida sexual dela vai muito bem, obrigada!

Mas com tudo isso ela ainda sai sozinha pro boteco? E chega bêbada de madrugada? Que piranha!!!

Prefiro chamar de biscate, mas cada um dá o nome que quiser. Ela não é apegada a rótulos.

E @ parceir@ não reclama? Deve ser um trouxa!!

É, não reclama mesmo. E está longe de ser trouxa. Nem poderia, trouxas dificilmente conseguem suportar viver ao lado de uma biscate. Mas é que essa biscatagem é mesmo apaixonante. É esse modo livre de levar a vida que fascina tanto. Para desfrutar a vida ao lado de uma mulher tão intrigante é preciso não privá-la da sua essência. Caso contrário, não será ela.

E não pense que nossa colega é uma obra do demônio e está sempre maltratando o marido, ou a mulher. Biscate casada também sabe dar mimos. Ela pode fazer um jantar requintado para agradar ao paladar de seu amor. Pode também mandar bem num miojo, ou simplesmente pedir uma pizza, se nenhum dos dois lados está afim ou não sabe cozinhar.

Não é nada fácil ser biscate casada. Ela vive seus conflitos internos e, é claro, externos. Biscate também tem família, e nem sempre mãe de biscate é biscate. Sempre tem as tias carolas, pais conservadores, um parente religioso que vai estar pronto para apontar o dedo indicador ou lançar aquele olhar de condenação. Mas a biscate vive além de todos esses julgamentos, porque ela já decidiu quem manda na sua vida: ela mesma.

O fato é que há algo revolucionário dentro dessa biscate. Algo que a impede de seguir padrões, de fazer o papel da boa moça só para agradar. Ela até poderia interpretá-lo muito bem e enganar muita gente, mas estaria também enganando a si mesma.

Todo mundo tem algo que aprisiona dentro de si e, o que aprisiona a biscate casada é certamente esse desejo de liberdade. Essa vontade de mandar a porra do falso moralismo que todo mundo tem pro meio do inferno e se lixar para as opiniões.

É claro que as vozes da hipocrisia ficam cochichando dentro dela a todo minuto. Mas a vontade de viver por viver, de guardar lembranças de boas companhias e dias amanhecendo regados a cerveja quente e risadas não dão espaço a esses burburinhos mentais.

Se ela se sente culpada? Pode ser. Nem sempre, mas às vezes é provável que bata uma vontade de ser uma pessoa melhor. Mas o que é ser melhor? É não sair de casa sem o marido? Não percorrer bares bebendo com uma aliança no dedo e um desejo contraditório consumindo o que resta de juízo depois de tantas doses de vodka? Ser uma pessoa melhor é ser a esposinha perfeita, que nunca fala de sexo no meio de outros homens? Que cuida da casa e esconde a bagunça do coração embaixo do tapete? Então ela quer ser uma pessoa pior. Ela quer ser muito pior.

A natureza da biscate casada às vezes pode ser assim mesmo. Boemia acelerada, em alta voltagem. Desejo e riso intensos. Essa biscate não gosta de dizer não a tudo o que tem vontade só por medo do que vão pensar dela.

E isso não significa que não exista amor pel@ parceir@. Pelo contrário, seu amor é incendiário, é furacão. Seu jeito de amar é terremoto do maior grau. É por isso que @ apaixonad@ pela biscate não ousa proibir-lhe. Porque ela se joga nas ondas desse tsunami sem medo e ainda consegue deixar o outro exatamente como ele é. Talvez um pouco despenteado, sem fôlego, confuso, mas inteiro. Inteiro pra ser também livre. Para ir aos botecos e amanhecer por aí se assim desejar. E se apaixonar também, por outra biscate, quem sabe.

É claro que nesse jogo de liberdade da nossa biscate amiga existem perigos em todas as mesas de bar. A paixão não escolhe suas vítimas. Mas a biscate sabe que não precisa se entregar a qualquer capricho. Ela até pode, afinal, cultiva sua própria liberdade. Mas às vezes é melhor se esconder das garoas e se molhar apenas nas maiores tempestades. Aquelas de pingos grossos e doloridos, que encharcam a roupa e a alma em poucos minutos e quando vão embora deixam o corpo cansado e febril por algum tempo, às vezes podem causar algum delírio. Delírio de remorso, talvez, ou de uma insanidade apaixonada. Mas isso passa. Passa como toda a tempestade passa.

E não ouse julgar essa biscate casada. Ela não promete nada e também não deixa de amar @ parceir@. Ela não é santa, está longe disso. Mas também não é puta (só quando lhe convém ser). Ela quer apenas beber os sabores da vida. Experimentar o doce e o amargo e poder escolher os dois.

Rótulos e julgamentos não se encaixam nela. Ninguém vai ser capaz de o coração de outra pessoa batendo no próprio peito, e eu tô falando do coração poético, esse que se mete em roubadas e sofre e ri. Ninguém jamais poderá sentir o sangue de outro queimando nas próprias veias. E se você não conhece a sua alma, não pode dizer porque ela escolhe caminhos tão sinuosos.

Apenas ame-a ou beba do seu riso fácil o quanto puder.

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*Paula Bruk é jornalista, professora, curiosa e mulher de militar. Um tempo em cada canto conhecendo e questionando gente e lugares diferentes. Pra seguir no twitter: @PaulaBruk

Tatazão

Por Érika Meneses*

Começo esse post pedindo desculpas pela incompletude das informações que vou oferecer. Quando a Luciana Nepomuceno me fez o convite – que muito me honrou – para dar uma contribuição ao Biscate Social Club, apresentando alguma personagem de que eu gostasse, eu só consegui pensar NELE: o Zé Tatá. O pedido de desculpas tem a ver com o fato de que, mesmo sendo esta uma figura histórica, que permanece no imaginário de nossa cidade, inexistem registros oficiais e pesquisas sobre sua história de vida. Para escrever esse texto, me baseio em crônicas de Blanchard Girão e Zenilo Almada, memorialistas cearenses, e nas narrativas de mulheres que foram prostitutas nas décadas de 1960 e 1970, na cidade de Fortaleza. As mulheres às quais me refiro foram personagens da minha dissertação de mestrado, sobre histórias de vida de ex-prostitutas idosas. E todas se recordam do (grande) Zé Tatá.

Esse personagem, mais que digno de figurar na quinta cultural do Biscate Social Clube, foi um proprietário de cabarés que se tornou famoso na noite fortalezense, lá pelos idos de 1960. José Vicente de Carvalho, vulgo Zé Tatá, foi o primeiro homem de Fortaleza a assumir sua homossexualidade, anunciando a quem quisesse ouvir que gostava, sim, de homem. Era conhecido por exigir respeito e não tolerar desrespeitos à sua pessoa. Zé Tatá garantia, por meio da fama de valente, a liberdade de circular pelas ruas do Centro da cidade sem ser importunado pela molecagem cearense. A força física era seu salvo-conduto para ir e vir livre das zombarias contra sua homossexualidade assumida.

Em suas crônicas sobre o meretrício em Fortaleza, Zenilo Almada dá destaque à figura de Zé Tatá, e o descreve como um homem alto e corpulento – aproximadamente dois metros de altura, pesando quase 120 quilos, “sempre bem trajado, sem muita afetação, com sandálias quase femininas, mas com roupas adequadas”. O cronista relata que Tatá participava do carnaval da cidade, no conhecido bloco das Baianas, fantasiado de Carmen Miranda – sempre sob aplausos.

Almada enumera, entre as casas de prostituição que foram de propriedade de Zé Tatá, a Pensão Ubirajara, na rua Major Facundo, no quarteirão entre as ruas Senador Alencar e São Paulo; a Boate Tabariz, que ficava no número 120 da rua Pessoa Anta, e a Pensão Hollywood, na Barão do Rio Branco.

Em uma escala de “elegância” no meretrício, as casas de prostituição de Zé Tatá são descritas, pelas próprias prostitutas que viveram o período, como um ponto intermediário entre o glamour das pensões galantes – casas de prostituição com orquestras e bailes, no Centro da cidade – e os prostíbulos menos sofisticados, localizados na antiga zona conhecida como “o Curral das Éguas” (sim, Fortaleza já teve uma zona de meretrício com esse nome infame. Passou a existir na década de quarenta, após uma ordem do prefeito que resultou na expulsão das prostitutas das ruas centrais da cidade para casas em um local mais discreto, na descida da rua General Sampaio, por trás da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe. Décadas depois, no final dos anos 60, as casas de prostitutas do Curral das Éguas foram removidas pelo governo estadual, para construção da avenida Leste-Oeste. Mas essa é outra história). Nas palavras das minhas entrevistadas, as mulheres do Zé Tatá não eram consideradas as prostitutas mais chiques da cidade, nem as mais bem remuneradas. Elas eram submetidas à vigilância constante do dono da casa, que cuidava para que os clientes fossem bem tratados e não tolerava confusões em seus estabelecimentos. A figura de Zé Tatá é erigida, nos discursos das mulheres da época, como um mito, a tal ponto que primeira referência que ouvi sobre ele foi: “nessa sua pesquisa você já falou de Zé Tatá? Porque se tu falar de prostituição em Fortaleza, e não falar em Zé Tatá, tu não falou foi nada!”.

A última casa de prostituição que Zé Tatá possuiu ficava próxima ao atual Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na avenida Alberto Nepomuceno. Pouco tempo depois da morte de Zé Tatá, a cidade de Fortaleza via desaparecer a era das pensões de meretrício, com seus salões apinhados de prostitutas excessivamente arrumadas, ostentando maquiagens marcadas e vestidos longos de veludo ou lamê em cores berrantes. A velha molecagem cearense deu um jeito de “mangar” – ou prestar sua última homenagem? – e apelidou de Tatazão o primeiro viaduto da cidade, construído nas proximidades da antiga casa de prostituição.

A história dele me impressiona demais. Já procurei registros em jornais antigos, em fontes variadas, com pouco sucesso nas buscas. O “Tatazão” resiste como um mito e como uma existência contada em poucas linhas – afinal, não é o tipo de história que interessa do ponto de vista oficial. Sabe-se que existiu, que foi biscate – ele mesmo – que foi chefe de um tanto delas –  e que prezava sua liberdade.

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*Érika Meneses é cearense arretada, bem-humorada e aquele ar de quem, distraída, vai aprendendo o mundo. Tem 28 e almeja se tornar uma verdadeira biscate – uma mulher que não quer abafar ninguém, mas faz o que quer, sem sofrer, sem se preocupar com o moralismo alheio. É jornalista, mestra em sociologia e está convencida de que não existem vidas comuns. Toda existência é extraordinária.

Noite Porreta

Eu adoro viajar. Digo sempre, meio chiste, meio sério, que tenho uma mala permanente no juízo. Eu gosto tudo nas viagens, gosto da sensação de ser cada vez mais eu, sendo cada vez menos o que sei que sou. Em viagem os olhares novos me dizem de uma forma que eu nem sabia. A viagem me desenraiza de mim, permite-me o inesperado.

Como, por exemplo, viajar quase 4.000 km do Ceará a Santa Catarina para ter a noite temática mais divertida de que me lembro: que tal uma noitada nordestina, hein, hein, hein?

Interessantíssimo me reconhecer e desconhecer nos delicados estereótipos, rir dos pequenos equívocos, espantar-me com a abordagem pertinente e precisa. Estar tão longe de casa e sentir, na ponta da língua, o gostinho do sempre: escondidinho de carne de sol, baião, rapadura, farofa, tantos sabores íntimos. E os sons? a sanfona caprichada de Dominguinhos, a saudade de uma eu que nem fui ao ouvir Gonzaga, o sertão se fazendo perto em cada arrastado de sandália. É um lembrar-me: coxa com coxa e o cheirinho no cangote.

noite porreta

E, claro, porque há beleza na nossa sombra, descobri um Nordeste que não é o meu. Você já comeu Bolo Baeta? Pois eu nem sabia que existia. É dali, pertinho, vizinho, sabor Paraíba. Minha querida anfitriã, procurando uma receita pra partilhar na festa, tratou de ligar pra prima e pedir: passa aí a receita. Eu, na espreita. Biscate que é biscate não perde uma boa oportunidade, não acham?

Pois o bolo é fácil que nem eu. Sem surpresas e sem segredos no chegar, agrada quando já é. Tem um truque, claro. Mas é só um e, depois de desvendado, é só correr para o abraço. Tem um liquidificador? Então coloca lá, com jeitinho: três ovos, 3 colheres de sopa de manteiga, 3 xícaras de farinha de trigo sem fermento, 2 xícaras e meia de açúcar e (prestenção no pulo do gato) 3 xícaras de leite quente. É isso: o leite tem que estar quente. Daí passa tudo no liquidificador, derrama da forma untada, coloca no fogo médio por 50 minutos e tchanrã, molinho, saboroso, gostoso: bolo baeta.

Bom com café. Muito. Pra quando o travo da vida se chega, querendo ficar. Pra quando há amargos de saudade. Pra quando o sal dos olhos escorre, implacável. Porque é preciso uma certa doçura pra seguir biscate, sabe. Fica a dica.

Boletim Biscate

Quedê biscate?

Biscateando.

Quede convidados das biscas?

Na mesma (espera-se).

Segunda de Carnaval e estamos mesmo é sassaricando. Na rua, entre livros, no escurinho do cinema, de cama em cama, sozinhas na nossa, aqui e ali, em algum ou nenhum lugar.

Mas nem se preocupem, “No palco, na praça, no circo, num banco de jardim, correndo no escuro, pichado no muro, você vai saber de mim…”

M.I.A e o dedo do meio guerrilheiro

Por Fabiana Nascimento*, nossa Biscate Convidada

Live fast, die Young/ 
Bad girls do it well
(Viva rapidamente, morra jovem
/As garotas más fazem direito)

Olá, Status Quo, aqui pra você!

No dia 05 de fevereiro de 2012, no intervalo do evento esportivo mais assistido dos Estados Unidos, o Superbowl (ironicamente chamado de campeonato mundial de futebol, o americano, um esporte idolatrado em massa apenas por uma nação do mundo) no show da Madonna, um ícone da música pop estadunidense, da liberdade e da biscatinagem feminina,  M.I.A (lê-se eme ai ei) rouba a cena apontando o dedo do meio para a câmera e falando um palavrão “I don´t give a shit”, algo como, eu não ligo a mínima, com o palavrão shit, merda soa ofensivo para os padrões da TV aberta americana. A mensagem foi clara: toda essa parafernália, toda essa infra estrutura estrambótica não valem mais nada. O mundo se sentiu representado por ela, porque uma grande parcela do planeta está andando e cagando pro que pensam ou fazem os estadounidenses.

Não se trata aqui de antiamericanismo besta, infantil, de ser contra por birra – afinal M.I.A aceitou o convite de ser cheerleader da Madonna – e qual biscate do mundo não aceitaria? Não é um desprezo à cultura que nos deu o pop e outras manifestações que fornecem meios e armas de expressão artística para os jovens, não tem como negar que hoje o hip-hop é uma arma política de ação efetiva, assim como foi, e ainda é, o punk. Ambas criações anglo-saxãs que se tornaram expressões mundiais.

Estamos falando de um ato de guerrilha, pontual, de se infiltrar no território e agir de forma a implodir com os pilares do conformismo. Duvida que o dedo do meio tenha provocado um falatório, ao menos no mundo restrito da internet? É só dar uma volta pelos comentários dos vídeos da M.I.A no youtube e ler o tamanho da indignação dos americanos com tal gesto e quanto os comentaristas do resto do mundo falam que ela foi certeira. Um artigo do Guardian, fala mais ou menos o que penso, os fãs dela não se espantaram com o gesto, mas com o fato de ela estar nessa apresentação (clique aqui e leia mais).

M.I.A caminha pra ser um ícone da música pop, por usar a sua música como manifestação política de denúncia, por trazer visibilidade para as populações esquecidas do mundo, refugiados, guerrilheiros.  Você que leu até aqui deve estar se perguntando: o que isso tem a ver com biscatagem? Tudo, quem disse que biscatear não é um ato político? M.I.A leva isso as últimas consequências, botando todo mundo pra rebolar. Porque a revolução virá, também, do rebolado.

Essas idéias combativas surgiram de uma história de vida digna de um roteiro de um filme de Hollywood, cheio de reviravoltas e superação. Nascida na Inglaterra, Mathangi Arulpragasam, chamada de “Maya” em 1975, filha de um engenheiro ativista cingalês da etnia tâmil, que brigava pela independência no Sirilanka e de uma costureira.  Quando Maya tinha 6 meses,  sua família voltou para o Siri Lanka, e seu pai tornou-se um guerrilheiro, eles se tornaram refugiados. E, de acampamento em acampamento, a mãe de Maya conseguiu levar a família novamente para Londres. Crescendo assim em meio a uma guerra civil, sob os escombros das injustiças, criança no meio de bombas, desenvolveu uma sensibilidade artística que capta sempre a visão do oprimido em seus trabalhos.

Entrou na escola de  Cinema do famoso Central Saint Martins College of Art and Design, em Londres, transformou-se numa conceituada artista plástica tendo por companheira Justine Fishman  (ícone feminino Brith Pop, isso é tema para um outro texto), que incentivou Maya a entrar no mundo da música.

capa do single The Bitch Dont Work, concebido por M.I.A

Adotou o codinome artístico de M.I.A, uma sigla que significa  Missing in Action, desaparecida em combate, acentuando as características combativas de sua obra. Seu primeiro trabalho buscou na cultura de rua dos imigrantes de Londres inspiração para fazer uma música dançante e de conteúdo social para o mundo contemporâneo. Antes mesmo do lançamento do primeiro álbum trouxe novas perspectivas para a dance music londrina. Seu primeiro álbum, Arular (nomeado em homenagem ao pai guerrilheiro) de 2004, traz referência às batidas do funk carioca.

(Bucky Done Gun, M.I.A descendo até o chão na batida do funk carioca)

No álbum posterior, Kala (o nome de sua mãe), M.I.A recolheu histórias de conflitos ao redor do mundo e falou de maneira crua do terrorismo, por isso o álbum foi censurado nos EUA. E como o álbum anterior, foi mundialmente reconhecido pelo público e pela crítica especializada.  Ganhando indicações para o Grammy com a música Paper Planes, um libelo de denúncia ao tratamento dado aos imigrantes ilegais. E para o Oscar com “O. .. Saya” uma canção composta para o filme Quem quer ser um milhonário?

(Na música Boyz de 2007 M.I.A requebra com a dança do kuduro de Angola)

No álbum ///Y/  de 2009, continuou combativa falando de sexo, e bombas, Lovealot. No entanto foi criticada por banalizar a violência e o terrorismo e por supostamente ser ingênua e politicamente vazia. Comprou briga com uma jornalista do NY Times, que em um perfil retratou a cantora como uma rica fútil, que só fala de política para aparecer nos meios de comunicação. Nessa briga M.I.A conseguiu que o jornal publicasse uma retratação, pois o texto da entrevista descontextualizava suas declarações, invertendo a ordem de suas falas, construindo uma imagem imprecisa da cantora.

Desse álbum M.I.A lançou um dos mais impressionantes videoclipes de todos os tempos – isso não é apenas opinião de uma fã, heim. O vídeo para o single Born Free traz uma mensagem simples; o fascismo ainda existe, a repressão a grupos dissidentes, de qualquer parte do mundo, é violenta e sangrenta.

(Born Free, nascer livre, uma verdade esquecida no mundo contemporâneo.)

Esperamos mais ataques à caretice do mundo, que os combates dessa biscate ganhem cada vez mais as mentes das multidões de conformados. Porque, como ela diz no último lançamento, mais uma vez com um vídeo de perder o fôlego, filmado nas areias do Marrocos: Live fast, die Young/  Bad girls do it well (Viva rapidamente, morra jovem /As garotas más fazem direito).

Bad Girl das causas certas.

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* Fabiana Nascimento é nossa convidada que confirma a diversidade: biscate-tímida. Historiadora, feminista, indignada e preocupada com o mundo, ativa militante virtual. Inteligente e articulada, vai com a gente, sambando na cara da sociedade que anseia pela padronização.

Quando Uma Biscate Sofre…Maysa

E a vida de biscate é só de risos e prazer e se dar bem com seu corpo? E nunca o vazio, uma lágrima, um querer que não cabe em si? Uma biscate sofre. E quando se dói, é coisa bonita de se ver. Ou de ouvir. Uma biscate se entrega, se mostra, se rasga. Uma biscate pulsa. Canta. A biscate de hoje é puro encanto em uma voz que ainda lateja em mim. Em dores de um amor que nunca éPolêmica. Bonita. Bêbada. Solitária. Desejada. Talentosa. Desnuda. Emocional. Atrevida. Dionisíaca. Avançada. Forte. Agressiva. Indescritível. Incontornável. Insaciável. Uma biscate com olhos de abismo. Maysa cantou o que é, na minha opinião, a maior música-tema da biscatagem, Resposta:

Ninguém pode calar dentro em mim
Esta chama que não vai passar
É mais forte que eu
E não quero dela me afastar

Eu não posso explicar quando foi
E nem quando ela veio
E só digo o que penso, só faço o que gosto
E aquilo que creio

Se alguém não quiser entender
E falar, pois que fale
Eu não vou me importar com a maldade
De quem nada sabe
E se alguém interessa saber
Sou bem feliz assim
Muito mais do que quem já falou
Ou vai falar de mim

“Tenho medo apenas do que não depende de mim: amar e não ser amada, por exemplo.”

Eu cresci sabendo Maysa. Lembro do brilho no olho do meu pai quando ele falava dela. Ele era um apaixonado. Ele é. Não sozinho, claro. Manuel Bandeira escreveu: “Os olhos de Maysa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos”. São muitos os fãs de Maysa, sempre foram. Em 1958, por exemplo, não houve um só dia do ano em que pelo menos um órgão de imprensa do Rio de Janeiro ou São Paulo não trouxessem uma notícia sobre ela e, quando a televisão quase nem era ainda, ela comandava 2 programas semanais: um no Rio, outro em São Paulo (e não sou eu que digo, mas Lira Neto na espetacular biografia “Maysa – só numa multidão de amores”).

“Eu era uma assanhadinha dessas que não tem explicação”

Mas amor e devoção não era tudo que Maysa provocava. Porque ela não era bem comportada. Na verdade, sequer comportada, quanto mais bem. Menina, organizava e apostava em corridas de porcos, segundo ela, os únicos que não precisavam ser bem-comportados no internato religioso que frequentava – e do qual logo pediu aos pais pra ser retirada. Jogava futebol na rua com os meninos, neles batia e deles apanhava. Muito jovem, insistia pra aprender violão quando o instrumento ainda era relacionado com marginalidade, vagabundagem. Fumava e usava calças, sem pudor, desde a adolescência, em uma época que até mulheres adultas temiam o severo julgamento social sobre este assunto.  Nas férias escolares viajava pra casa dos tios em Vitória. Pelo seu comportamento considerado ousado- tocar violão nas festas, tomar banho de mar sozinha e namorar todos e qualquer um que lhe interessasse – era considerada “má companhia” e sua prima era proibida de sair com ela. Fora de todos os tipos de padrão, com 14 anos media 1,60 e pesava 66 quilos. Era considerada gorda – ou “cheinha”, como diziam os mais delicados – mas isso não a impedia de conquistar quem lhe interessava. Casou-se com um homem acintosamente mais velho e, quando quis, desquitou-se (sim, não era divórcio e sim desquite nessa época). Divorciou-se do cara “bom partido” pra dedicar-se ao que gostava de fazer: cantar. E ganhar dinheiro com isso.  Rompeu com os padrões e foi mal vista, mal interpretada, mal falada em uma rica sociedade que só acolhe transgressões fora das vistas do público. Trepava. Muito e com quem lhe apetecia. Colecionava frases ferinas. No meio do show de Eliseth Cardoso, sua amiga e namorada de um dos homens com quem Maysa se relacionou também (e, dizem, concomitantemente), Maysa levanta e diz: “meu maior desejo era ser homem, negro, pianista e bêbado. Como vocês sabem, não consegui ser homem nem negro nem pianista. Agora pretendo ser a Eliseth Cardoso”.

“Não gosto de nada pela metade, nada que é pouco me satisfaz.”

 Esse comportamento próximo ao seu desejo, a honestidade de reconhecer-se frágil, aberta, perdida, rendeu comentários desfavoráveis e manchetes escandalosas. Investia intuitivamente contra os preconceitos: tomava banho nua em cachoeiras, brigava na rua com os homens com que se relacionava (as disputas com Bôscoli são famosas), bebia. Era depreciada pelos cabelos despenteados. Forte, ignorava displicentemente as críticas e continuava linda com seus cabelos contestadores já que na época as mulheres gastavam muito com perucas e laquês que limitavam suas atuações. Maysa era absolutamente contra as amarras. Maysa arriscava-se, entregava-se, intensamente fazia suas escolhas para a seguir repudiá-las.

“Nasci com essa marca. De não ser convencional. De quebrar as regras. De não seguir as leis”

Eu cresci sabendo Maysa. Sabendo que era possível ser forte e admirável mesmo quando se é incompleta. Cresci sabendo Maysa, sabendo sua falta. Sabendo seus misteriosos e doloridos olhos. Sabendo que ela amara demais e que morrera na pressa de se alcançar. Sabendo sua melancolia, seu timbre particular, sua vida peculiar. Cresci hipnotizada pelo risco. Pela velocidade que quase nos deixa na esquina de nossa própria vida. Cresci sabendo Maysa: sabendo que somos responsáveis pelas escolhas e que elas nos determinam tanto quanto nós a elas. Sabendo a coragem. A ousadia. Cresci sabendo que se podia deixar os cabelos despenteados e viver sem prestar contas aos padrões alheios. Cresci sabendo que dizer: “é porque meu amor por você é enorme demais” não impede de seguir adiante. Cresci sabendo que é preciso fazer o que se gosta e que mesmo isso não é o suficiente. Cresci sabendo Maysa: sua beleza, sua voz, suas músicas, mas, principalmente, sua liberdade. E sua dor. Porque não é fácil ser.

Eu cresci sabendo Maysa e, embora desconhecesse o termo, cresci sabendo-a biscate. Biscate! Dizia o jornal ao divulgar sua intensa vida amorosa. Biscate! Sussurravam quando deixou o filho aos cuidados do ex-marido. Biscate! Alardeavam noticiando com ênfase as bebedeiras, situações extremas e problemas pessoais. Biscate! Debochando do cabelo. Biscate, biscate, biscate por amar quem queria, por ficar sozinha, por beber muito em público, por dirigir sua própria carreira. Brilhantemente Biscate, digo eu, lendo sua auto-entrevista na Revista Manchete(1961):

“Mas você não bebe somente antes de entrar em cena, não é? Por que você bebe de modo geral?”

“Primeiro porque quero. Depois porque trabalho para pagar o que eu bebo. Finalmente, porque tenho senso de autocrítica. Muitas vezes reconheço-me insuportável e eu só suporto os insuportáveis bebendo.”

Uma Biscate sabe onde guarda sua dor…

Sexta-Feira 13, dia oficial da Biscate

Elvira, a biscate-sexta-13 (imagem de jlobo.com)

Primeiro porque é Sexta. Sexta é dia de folia. Sexta é a baladinha, o happy hour, a libertação do trabalho e tem muita biscate  bem vagabunda. Depois porque é 13. Só sexta, sem 13, é dia de uma porção de biscate. Mas Sexta-Feira 13 é Dia Oficial da Biscate. Claro.

Sexta-Feira 13 é bruxaria.

É queima na fogueira lenta. É punição por desacato. É atentado ao pudor. Ser quem não devia. Fazer o que não se fazia. Biscate é mesmo mal comportada, notaram?

Sexta-Feira 13 é GildaJosephineBeauvoir no Cross Fox a toda velocidade; É trepada das boas. Autêntica.

Revolta. Sexta 13 é recusar o padrão. Chupar as coxas do peru. É trepar. Nesse dia somos (ainda mais) fáceis. Facinhas. Todinhas nossas, somos corpo e alma.

Sexta-Feira 13 é dia de rolê. Dia de olhar. De comer. De orgulhar-se, Biscate. Você é incrível. Mesmo loser.

Hoje é dia de ervas-daninhas, biscates nascendoDando. Amando. Casando.
Emperuando se quiserem – por que não?
E se emperua pode galinhar, que a canja é das boas.

Biscate não procura. Oferece. Assim, “for free”.

PS.: Eu, se fosse você, dava uma passeada nos links, aposto que vai gostar.

Um "rolê" de biscate

Quem mora em Sampa usa muito essa palavra, “rolê”. Rolê não se refere apenas ao bife (aquele de panela, enrolado e recheado de mil coisas, diliiiiça). Rolê significa sair, ir para algum lugar, divertir-se. E boas opções por aqui pela selva de pedra não faltam…

Era um sábado. Começo de primavera, o tempo bem fresco. Estava uma noite linda, como há muito não era notado. Noite daquelas que pedem para ser bem aproveitadas e que causariam muito arrependimento se não fosse assim. E que bom que assim foi.

Lá foram as amigas, em busca de agito e diversão. Ao contrário do que muita gente pensa – apesar de não haver problema nenhum se fosse isso mesmo – elas não saíram de casa com a intenção de arranjar alguém. De “pegar geral”. Elas queriam curtir um som, tomar uns aperitivos, dançar.

Chegaram ao destino, um bar bastante alternativo e aconchegante. Era tudo tão legal que as amigas, num primeiro momento, acharam que destoavam totalmente daquele ambiente: ambas de jeans e allstar, quando a maioria das garotas usava vestidinho e salto alto. Ambas sem grana para tomar um daqueles bons drinks coloridos que as pessoas de lá tomavam. Mas quem se importava com isso, já que tudo que elas queriam eram curtir? Curtir do jeito delas, que sempre foi bom. E dançar de allstar é conforto garantido!

Sentaram-se e ficaram por lá um tempo. Até que, num certo momento, elas notam dois garotos. Usavam jeans e allstar, como elas. Destoavam do lugar, assim como elas. Talvez, por isso, chamaram a atenção. Ou porquê, eram, assim, desejáveis e atraentes aos olhos das amigas. Trocaram olhares e sorrisos. E, naturalmente, houve uma aproximação. Aproximação consentida e espontânea, como deveria ser sempre!

Muitas risadas, boa conversa, música rolando solta. Afagos, abraços, carinhos. Beijos gostosos. Empatia, ainda que por uma noite só. Desejo, ainda que por uma noite só. Noite que durou tão pouco, sempre parece pouco quando se é feliz. Amanhece e chega o momento da despedida. Taí um momento delicado: trocar telefones e, ao mesmo tempo, abrir mão das expectativas. Desejar o contato no dia seguinte, mas saber que ambos seguirão bem se o chamado não acontecer. Saber-se livre e sentir que o outro é livre. Permitir-se ficar mesmo com a lembrança e a sensação bacana que a gente geralmente tem quando conhece alguém interessante.

As amigas então voltam para casa. Cantando juntas e bem alto as músicas que embalaram o fim de semana. Livres, vivendo o presente. Esperando ansiosas pelo próximo rolê.

Esse é um rolê bem biscate: cantar junto, saber-se livre, deixar o corpo entender-se com outro corpo, aceitar-se diferente, permitir-se curtir do seu próprio jeito, sem formato e sem padrão. Rolê de biscate, que faz da vida um lance bem mais divertido.

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