Homem à Delícia

(aviso aos navegantes mais apressados:a receita mesmo está no último parágrafo, tá)

homem a delícia

Pensando nesta receita, eu ia pegar a analogia e começar dizendo: para homem à delícia, não pode faltar a banana. E foi bem aí que eu entendi como é fácil ser cruel, sem saber, sem notar, até sem querer. Pela palavra. Porque acriticamente eu ia repetir um pressuposto naturalizado de que ser homem corresponde a ter um pênis. E eu fui, ao longo do tempo e das relações, aprendendo que não é uma relação direta, mas construída socialmente e que pode – e precisa – ser repensada. De forma que estou decidindo fazer um esforço intencional de escolher com cuidado não só os ingredientes da receita, mas as palavras para dizer. Porque, afinal, meu mundo ideal é o da gentileza. Ainda estou no processo, mas acho que não custa tentar dar um passinho de cada vez. Esqueçam, então, por agora, a banana.

Vamos aos ingredientes e procedimentos que realmente importam. Junte a fome com a vontade de comer. Aqueça. Esfrie. Roce. Amasse. Pegue e requebre. Torça, mas devagar. Prove. E, claro, não se deve esquecer: Homem à Delícia é o da hora. É uma receita sazonal.

Para mim, sempre cai bem um homem com olhar antigo, um sorriso meio de lado e mãos quentes. Quentinhas, as tais mãos devem ser usadas com frequência seja cozinhando, pescando, tocando, mexendo na terra, marcenaria ou só dedilhando meu corpo. Melhorando: um homem que se sinta à vontade em comer, andar, dançar, dormir, trepar. Opcionais: barba, cheirinho de cerveja e cigarro, dançar forró, gostar de Bergman e torcer Flamengo. No dizer dos cozinheiros, pra dar liga: sacar que sexo é divertido. Homem à delícia é aquele que tira meus pés do chão.

Assim:

É bom que ele seja inesquecível, tenha estilo único e me dê a sensação de estar sempre lá. A não ser quando não. Que antecipe meu passo, que me ponha tonta, que segure a minha mão. Um homem elegante, mas com um ar meio vagabundo. Que faça eu me sentir bonita como nunca e me revele uma alegre divorciada. Que sapateie na areia pra me fazer dormir*. Que me convide pra dançar um ritmo louco. Que, estando ao meu lado, me faça sentir como uma Cinderela em Paris vivendo núpcias reaisUm homem que me dê classe e que me faça graciosa. Um homem que seja insubstituível. Outro amor, sim, muitos. Outros. Mas nunca como ele. Nem melhor, nem pior. Diferente. Um homem é que ele me faça falta. Delícia mesmo é estar com ele em um rodopiante abraço, leve, terno, sensual.

Quer simplificar a receita? Vamos lá, Homem à Delícia demanda…

Que seja livre.

Que saiba gemer, pedir e chorar.

Que faça, do beijo, tempestade no corpo. (a incorporação não é permitida, mas o beijo está aqui)

Que…Dureza, né? São cenas demais, referências demais, esperanças demais, futuros demais. Mais simples é pegar uns filés de peixe e tentar um peixe à delícia versão biscate-borboleta. Quer saber como? Separe uns filés de um peixe que não seja muito seco… pode ser pargo, guaiúba, ariacó. Tempere com sal e pimenta do reino. Pode colocar um pouco de canela ou páprica doce. Eu coloco sempre. Deixe pegar gosto e vá fritar as bananas. Sim, aqui no peixe não tem problema. Corte em fatias não muito finas e frite na manteiga.  Reserve. Empane os peixes com farinha de trigo e frite-os em óleo quente. Reserve também. Corte cebola em quadradinhos miúdos. Ou rale, se preferir. Misture com requeijão. Em um refratário, vai montando: peixe, um pouco do requeijão com cebola, a banana e cobrindo tudo uma fatia de queijo prato ou mussarela. Leve ao forno até o queijo derreter.

Gosto do cheiro. Do sabor. Da textura. Pode ser peixe. Pode ser homem. No meu caso, até agora, com banana. Mas cada um@ com a fruta que lhe apetece.

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