A barbárie e o que tem de nosso nela

Por Niara de Oliveira

"O Sacrifício de Abraão", Candido Portinari

Candido Portinari

 

Os últimos dias-meses-anos têm sido especialmente difíceis para qualquer ativista dos Direitos Humanos e para quem sofre algum tipo de opressão. Lembro de ter lido e ajudado a produzir muitas análises de conjuntura no final dos anos 80 e início dos 90 que apontavam para o que estamos vivendo hoje: a barbárie. E não sinto nenhum orgulho em estar(mos) certa(os).

Pensou em pessoas se matando por comida? Sabe de nada, inocente! Matar por comida é um instinto que considero até justo, é a lei da sobrevivência no mundo animal. Mas somos os únicos animais a matar por motivos outros — que não os justos — e a destruir o lugar onde vivemos, piorando dia a dia a nossa “qualidade de vida” (vai entre aspas a expressão, porque está prestes a se tornar piada).

Mulheres morrem por abortos mal feitos, assassinadas pelo machismo. Favelados morrem assassinados pela polícia. Ciclistas morrem por um… ops! era para ser só brincadeira encostar o carro e desequilibrá-lo(a). Pedestres morrem pela pressa dos carros. Operários ainda caem de andaimes em obras e outros acidentes de trabalho. Índios ainda são assassinados pela conquista da terra.

O que todos eles têm em comum? Afora ciclistas e pedestres no trânsito e os índios, a maioria das mortes dos outros casos são de negros(as) e pobres.

O que nós temos com isso? Tudo. “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”, dizia Martin Luther King. Somos uma imensa massa silenciosa que permite todas essas atrocidades.

Na semana passada mais um negro foi assassinado pela PM numa favela carioca. Nada de novo. Acostumamos, e acostumamos a silenciar diante dessas mortes. Foram 500 mil mortes violentas na última década, dez mil desaparecidos, só no Rio de Janeiro. Douglas Rafael da Silva Pereira poderia estar entre os dez mil, junto com Amarildo, não fosse ele dançarino de um programa de tevê na Rede Globo. No entanto, Regina Casé, a apresentadora desse programa não se sente co-autora de seu assassinato e diz sofrer pelo colega. Mas, há pouco mais de um ano, promoveu em seu programa um circo para exaltar a política governamental que vitimou DG. Até quando fingiremos que não temos nada com isso? No primeiro programa sem o dançarino, em sua memória, a palavra assassinato sequer foi mencionada e ficamos todos com a impressão de que ele morreu em virtude de um desastre natural, dada a quantidade de vezes que a palavra tragédia foi repetida.

Nesse mesmo dia um episódio já comum e corriqueiro nos campos de futebol: um jogador negro foi alvo da sanha racista de torcedores. A novidade esteve na reação, instintiva e até admirável (se analisada isoladamente) de Daniel Alves. Mas é fato que ele e os demais jogadores negros não poderão ficar comendo todas as bananas jogadas em campo; terão de engolir (?) o racismo ou precisarão pensar em outra(s) forma(s) de reagir (texto do Blogueiras Negras questionando a orquestração dessa reação). Da reação de Daniel Alves “surgiu” uma campanha de marketing capitaneada por um outro jogador brasileiro, Neymar, que não se assume como negro (e mesmo que tenhamos muita boa vontade em supor que ele mudou de opinião de 2010 — quando declarou não ser “preto” — para cá, o fato é que não há nenhuma declaração dele desdizendo àquela, e foram vários os momentos em que ele se debateu com a questão) dizendo que “todos somos macacos” (me nego a usar a hashtag). Todos quem, cara pálida?

Não vi, me corrijam se estiver errada, nenhum(a) negro(a) que seja ativista do antirracismo que a tenha usado ou repetido. A campanha foi assumida por brancxs (muitxs inclusive declaradamente contra a luta dxs negrxs por direitos) e por negrxs que não se assumem como tal e tampouco são reconhecidos como referência da luta antirracista. Isso se resume a dizer que a campanha foi assumida por quem reproduz o racismo. Resultado: uma campanha de marketng supostamente contra o racismo que reforça o racismo. E podem até forçar a barra comparando com o uso do termo vadia pelas feministas ou nós que ressignificamos o termo biscate. Fomos nós, oprimidas e ofendidas cotidianamente com esses termos que nos apropriamos deles. Uma campanha capitaneada por alguém que não se diz negro chamando negros de macacos nunca será a mesma coisa. (e a nota ‘esclarecedora’ da agência responsável pela campanha ilustra bem o que direi a seguir). Isso é o opressor — e quem se coloca a seu lado fingindo não ser oprimido, mas sendo — dizendo ao oprimido: “divirta-se aí com o termo que uso pra lhe colocar no seu lugar, assuma o seu lugar, esse lugar que eu lhe dou, que permito que ocupes”.

O que isso tem a ver com a barbárie? Ora, se a intolerância passa a ser nomeada e “identificada” na fala e na luta dos oprimidos por sua libertação, estamos ou não vivendo a barbárie? Nesse momento são xs negrxs, feministas e esquerdistas acusadxs de intolerantes, vândalxs, promotores da desordem, enquanto quem reproduz os preconceitos estruturais posa em seu bom-mocismo e lucra com suas boas intenções. Sim, se a ordem é além de oprimir manter os oprimidos calados, óbvio que seremos desordeirxs.

Quem quer manter a ordem? Eu, NÃO!

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