Ósculos desencontrados

Recebera o convite, mas não estava certo se iria comparecer àquele baile. Vagava perdido por aí, sem saber bem o que fazer da vida e foi gostoso descobrir que havia outros como ele. Pensou que podia ser meio looser ir a um encontro desses. Afinal, já haviam sido perdidos, de que adiantava o encontro dos desencontrados? Por outro lado, podia ser divertido ver aqueles beijos todos que ficaram no ar e nunca foram beijados.

Depois de muito balançar, decidiu: ia ao I Encontro dos Beijos Perdidos. No convite não dizia nada de traje nem se podia levar alguém. Rá. Como que um beijo perdido ia chegar lá de parzinho? Se o beijo já tinha companhia, não era mais perdido.

Ficou imaginando o salão cheio dos beijos que nunca aconteceram. Só pedia pelamordedeus que não fosse uma convenção a la “Qualquer coisa Anônimos”. Afinal, era um encontro de beijos. De beijos que nunca aconteceram, mas que estavam por aí cheios de vontade de beijar. Esperava que fosse uma festa com álcool e cigarros, como o gosto que levava na boca desde que beijou o ar enquanto esperava beijar o que estava à sua frente. Suspirou ao lembrar.

Chegou ao I Encontro dos Beijos Perdidos e viu tudo o que imaginara: música boa, risadas, fumaça de cigarro, bebidas de todos os tipos, aquele cheiro de inferninho no ar. Foi até o balcão, pediu uma dose dupla de whisky. Cowboy. Olhava aquela balbúrdia, feliz e ao mesmo tempo consternado por descobrir que havia tantos beijos que nunca existiram. Não queria fazer uma sessão de “Beijos perdidos anônimos”, mas estava curioso pra saber o que levara cada um deles até ali.

Ao seu lado, um grupo de três beijos conversavam. Contavam suas histórias e ele ali ouvindo e querendo também interagir, dividir o que lhe acontecera. Um beijo de voz grave contava que esperara anos para beijar a vizinha, passava em frente ao portão dela todos os dias, na esperança de encontrá-la e puxar assunto. Mas sempre que ela falava com ele, sua voz engasgava, a língua grudava no palato e não saía voz nenhuma, só grunhidos. Ensaiou o beijo no espelho por anos, até que um dia chegando em casa, viu o caminhão de mudança na porta dela. Correu, mas a vizinha já tinha ido embora antes. Nunca mais soube notícias.

Uma boca vermelha, de lábios bem volumosos e – muito, muito sexy – contava que passara a noite toda rindo, conversando, até dividiu um cigarro, conversavam pertinho, mas na hora de despedir o sujeito lhe deu um abraço e foi embora. Nem menção de beijinho no rosto fez. Um sacana. Agora ela estava ali, vagando, sem ter pra onde ir.

Ele foi se aproximando aos poucos do grupo, rindo, ansioso, tentando se enturmar. Até que alguém perguntou sua história. Contou então, que era um beijo que se perdera há muitos anos. Conheceu uma moça em um festival, assistiram dois dias de filmes sentados um ao lado do outro, e ele o tempo todo querendo acontecer, sentia o cheiro de verbena dos cabelos dela e só pensava em beijá-los, e quando viu a voltinha do seu pescoço, quase escapou por um triz. Um dia tomaram umas cervejas, riram, trocaram uns olhares longos, espetaram a mesma batatinha, riram de novo. Quando ele ia pular na boca dela, louco de vontade, apareceu um beijo barbudo que atravessou seu caminho. Foi tudo muito rápido e em dois minutos o beijo da moça se entregou ao beijo barbudo. Desde então, ele estava fadado a ser o beijo que não aconteceu.

Ao redor, as conversas aumentavam, a música estava muito alta e quase não se ouviam. Até que um par de beijos se beijando dançando na pista chamou a atenção. Rodopiavam, desciam e subiam, riam, estavam mesmo felizes com aquele encontro tão esperado. Eureka! Era pra isso que tinham ido até ali, óbvio! Como não pensou nisso antes? Estava tão acostumado a ser perdido que tinha esquecido como era bom ser beijo de novo? Se aproximou dos lábios vermelhos, falou alguma coisa baixinho e tascou-lhe um beijo demorado, profundo, cheio de querer. Então, uma profusão de beijos tomou conta da festa, que agora podia ser chamada de Encontro Anual dos Beijos Ávidos por Beijar.

bejo

Sobre Beijos e Línguas

Aviso aos Navegantes:a Renata Lins publicou este post (Meus 50 tons de…) que incendiou a imaginação d@s bisc@s deste nosso querido Club. Decidimos, pois, cada um@ tratar do erotismo como lhe apetece. Inclusos @s convidad@s. Tem sido uma quinzena caliente não lhes parece?

#Erotismo em Nós
Sobre Beijos e Línguas, Augusto

Beijo: lábios, línguas, encontros. Sim, o beijo. A mais erótica das artimanhas, tão carnal e tão banalizada e, ainda assim (ou por isso), o que mais causa tesão. É o beijo, o bom beijo, o caminho para um bom sexo, para uma boa relação, para a duração de um relacionamento. Acabou o gosto pelo beijo, pode fazer a fila andar…

É assim que eu gosto. O grau mais básico de conhecimento do outro, língua com língua. Mas não só isso, para a língua chegar à língua precisa do olhar, da cumplicidade, do suspiro profundo captar todos os cheiros e perfumes, precisa do abraço, da pegada. Encostou lábio com lábio e não tremeu, nem precisa botar a língua lá que só vai achar cuspe… Sim, beijo por beijar é só troca de cuspe…

É isso mesmo! O beijo é o meu ato da entrega. Encostar os lábios, abrir suavemente a boca, invadir e deixar-se invadir pelo outra língua, com carinho, ternura e, mesmo, violência… descobrir se aquela boca é a “conta melhor que tiraste em vida”… O jogo de línguas, a troca de paladares, as mordiscadas nos lábios, a barba no pescoço, o beijo no pescoço, a pontinha do nariz subindo pelo lado do rosto, o toque úmido da boca naquele pedaço desconhecido entre a parte de trás da orelha, a nuca e o cabelo, o segredo de liquidificador…

Beijar é se unir, é provar o gosto do outro passando a língua no próprio lábio, só para ter certeza do quanto é bom. É ter as mãos nos cabelos, nos ombros, nas costas, na cintura, na bunda, nas pernas e naquilo e ter aquilo na mão e ter a mão naquilo e aquilo na mão e a mão naquilo e aquilo na mão… PERA! Já deixou de ser beijo… é outro post…

Beijo é abraçar por trás, acariciar o pescoço com ou sem barba, com ou sem dentes, com ou sem língua, encoxar… é todo o jogo de pernas, por frente e por trás, lembra que não existe pecado do lado de baixo do equador e da linha da cintura… fundamental! E em meio à encoxada, retomar o beijo, mesmo que dê torcicolo…

Muitos tipos de beijo, tic tac, selinho, lábios sem língua, lábios com língua, só línguas… mas guardem os dentes, pelo amor de dada! Lábios… lábios tremendo, comprimidos… explorar lábios reprimidos! Finos, grossos, pequenos, grandes lábios… Muitos tipos de língua: pequenas e sapecas, grandes e complacentes; sufocantes, extenuantes, insaciáveis, incontroláveis, preguiçosas, apavoradas… muito grossas, muito finas, línguas…

Procurar línguas diferentes e descobrir outros beijos. Pegadas diferentes, entregas diferentes… Ficar só em línguas brasileiras não me bastou… a curiosidade pela língua mãe fez da portuguesa, gráfica e ritmada, uma experiência oposta à pura malemolência tropical. As raízes italianas…a língua quente e arfante, digna de arrebatamento! A inglesa… cuidadosa e educada, que pede licença para entrar e marcar um compasso inteligente, irônico e amável.

São línguas, jeitos diferentes… Humores distintos. Estadunidense… afoitas e eufóricas, loucas que uma vez controladas levam ao êxtase! Húngara, aff, as húngaras! Não é atoa que o diabo as respeita… Quer que façam miséria no seu coração? Beije línguas húngaras… Turcas! Línguas engraçadas, quase apavoradas, sempre à espreita e dispostas à plena carícia… Francesa!!!! Nem quero comentar… Doces-apimentadas, revolucionárias, porém metódicas… cartesianas, postas e dispostas à experiência. Vietnamita… um tanto oprimidas… singelas, porém potentes, basta mostrar o seu jeito e aguardar o resultado…

Sou desses, dado à experimentação… Indianas… picantes, mas inocentes… quase exotéricas. Lituanas, carentes e potentes… incrivelmente compenetradas! Bermudas… safadas, nem um pouco sérias e perigosamente luxuriosas! Neozelandesas, incontroláveis e potentes… essencialmente oferecidas! E, por fim, a Grega, o poço da civilização! Se há língua a ser provada para mostrar o porquê da existência humana, beije a grega! Há no beijo grego algo inexplicável, algo metafísico, da esfera do inaudito… o beijo grego é o ponto alto de toda a entrega, o berço de onde todas as línguas buscaram seu aprendizado! Um beijo grego pra todos vocês! Beije!

Outros textos da série #Erotismo Em Nós:

Façamos, Renata Lima

Trinta Anos Quase, Renata Lins

Orgia com Brando e Schneider, Lis Lemos

O triângulo aponta o caminho, Niara de Oliveira

Erótico Pornográfico, Bete Davis

Águas Feminnias, Sílvia

Espera, Raquel

Inverno, Perséfone

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