Beleza é subjetivo?

Semana passada, me senti muito mal com um comentário que me contaram sobre mim. Me contaram sobre um papo que rolou sobre mim, que eu tinha o rosto feio, que a única parte bonita do meu corpo é a minha bunda. Me senti um lixo, ouvi muito isso na adolescência, que era feia de rosto e tinha a bunda bonita. Adolescentes sofrem muito com a opinião dxs outrxs, eu me lembrei muito daquele momento quando ouvi o comentário.

Machucou demais, mas parei pra enxergar o que aquele comentário queria dizer. Padrões de beleza racistas e gordofóbicos, que dizem que negras são feias, gordas são feias, se for as duas coisas, mais feias ainda. Dizem que beleza é subjetivo, mas é, na verdade, uma construção social, você se interessa pelo que sempre lhe foi mostrado como belo. Através da história das artes visuais, notamos o quanto essa “subjetividade” se adapta aos padrões da sociedade e seus preconceitos.

E, sim, o tesão também é uma construção social, então, se excitar com mulheres loiras, brancas e magras vem sim de como você foi criadx em uma sociedade racista e gordofóbica, você aprendeu a desejar a loira magra e enxergar a negra e gorda como uma mulher “com qualidades, mas não tão bonita” ou “com um rosto tão lindo, mas não se cuida” ou ainda assim “tão bonita, mas o cabelo não combina com ela”.

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Eu me desconstruo todos os dias pra me enxergar bonita e desejável aos meus próprios olhos, pois também sou fruto da sociedade, é difícil, luto contra tudo que absorvi por 30 anos vivendo em contato com o mundo. É esquecer o preconceito, o bullying e tudo que já ouvi de preconceituoso e seguir adiante, me transformando e transformando quem passa por mim. Afetando as pessoas e fazendo–as compreender que a beleza precisa ser desconstruída, no dia a dia. Calma e pacientemente.

Gorda

Everyday I fight a war against the mirror
I can’t take the person starin’ back at me
I’m a hazard to myself

Don’t let me get me
I’m my own worst enemy
Its bad when you annoy yourself
So irritating
Don’t wanna be my friend no more
I wanna be somebody else

Pink – Don’t Let Me Get Me

Me sinto incomodada com o meu corpo, estou passando por uma transição de mentalidade, preciso compreender porque não aceito meu peso, sou obcecada por emagrecer. Esse sentimento estranho, antes eu utilizava a desculpa de “fui magra a adolescência toda, esse não é o meu corpo natural”. Mas, se eu fui magra 17 anos da minha vida, sendo nesses 17 anos, apenas em 4 deles meu corpo já era adulto, como poderia assumir meu corpo de infância como o corpo real? Sim, meu corpo da maior parte da minha vida adulta é um corpo em sobrepeso. Não sei se sou gorda de verdade ou se apenas não sou do manequim 40. Mas, vestir 48 foi um problema dos meus 18 até hoje, são quase 12 anos nessa tortura de “emagrecer por saúde”. O que me incomoda não são os olhares de outras pessoas, é o meu próprio olhar, é o incomodo ao enxergar as dobras, a barriga, o rosto redondo.

Na infância, ainda era magra

Na infância

Ser saudável eu já sou, de acordo com uma cardiologista que ia quando tinha uns 90 e tantos quilos, meus exames são de dar inveja em muitx esportista, então qual é a minha doença? Probabilidade de infarto? Problemas de coluna? Acho que minha doença é um preconceito que tenho sobre o meu corpo. Minha felicidade depende de eu vestir 40? Serei mais realizada se isso acontecer? Realmente, entre meus planos de futuro, sempre esteve o manequim 40, o mestrado e o doutorado, a casa própria. Coisas de uma menina de classe média, que, sem querer, aprendeu que ser feliz é poder usar biquini sem gorduras pulando por cima da calcinha do biquini.

Final da adolescência, 17 ou 16 anos, ainda era magra

Final da adolescência, 17 ou 16 anos

Estou começando a me aceitar, afinal, é doentio eu olhar mulheres e homens gordxs a minha volta, considerar todxs lindxs, mas não me aceitar linda. O que falta para que eu seja linda? Falta autoestima, falta empoderamento? Talvez seja só isso, o manequim 48 seja parte de mim, uma parte que eu TENHO  que amar também. Não por conformismo, mas por liberdade! Me libertei de tantos preconceitos, mas esse é o mais difícil de todos de libertar, talvez por aprender a vida toda que gordura é sinonimo doença, falta de saúde, preguiça, baixa auto estima.

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Uma das últimas fotos que tirei antes de perder 15kg

Eu nunca enxerguei pessoas gordas como muitxs enxergam, pessoas solitárias, infelizes, sem companheirxs, sem vida sexual. Até porque eu sempre tive vida sexual ativa, estando gorda ou magra. Não tenho e nunca alimentei o preconceito que mulheres gordas não arrumam alguém, nunca foi minha preocupação. Não só por não viver pra ter um marido/namoradx/esposa, mas por ser educada pra viver por mim apenas. Entendam, não tenho medo de ser solitária, na verdade, ser solitária às vezes pode ser libertador. Meu medo é diferente do medo de não ter ninguém que me deseje ou me ame.

Auge do meu emagrecimento, menos 15 kg

Auge do meu emagrecimento, menos 10 kg

Meu drama com o peso e com o manequim sempre foi muito “classe média”, eu queria comprar roupas pra mim e, ao invés de lutar pra que as roupas se adaptassem a meu tamanho, eu lutava pra me adaptar a ditadura magra e alta que sempre fui imposta. E, quando aprendemos que saúde é diretamente relacionada com esporte e alimentação, você se acostuma a achar que todx gordx é doente, não faz esporte e não controla a boca. Eu era a primeira a me cobrar.

Foto de quando estacionei meu emagrecimento

Houve uma época em que malhava todos os dias, contava calorias das refeições, fazia capoeira,hap ki do. Estava chegando aos 70kg, esses 70kg foi o menor peso que tive de forma “saudável”, menos que isso só quando tomei inibidor de apetite e ansiolítico. Depois desses 70kg, só emagreci passando fome. Comecei a enlouquecer comigo mesma, eu estava fazendo algo errado, tinha que ter algo errado. Entrei em depressão, engordei um bocado de novo, troca de hormônios, tudo misturado.

Foto atual

Foto atual

Não sei se voltarei aos 70kg, não acredito que isso seja importante, preciso trabalhar outra área da minha saúde, a psicológica, a aceitação do meu peso. Pois, agora, acordei para um medo muito maior que ser gorda, que é ter um distúrbio alimentar por acreditar que “preciso emagrecer”. Essa luta é muito mais importante, já que sei que meus exames estão todos em taxas super saudáveis, o peso não interfere em minha saúde. Estou começando a me aceitar, usar roupas curtas e justas, sem raiva do espelho, mas tem dias que não consigo me sentir feliz com o que enxergo.

Now and then, I get insecure
From all the pain, I’m so ashamed

I am beautiful no matter what they say
Words can’t bring me down
I am beautiful in every single way
Yes, words can’t bring me down
So don’t you bring me down today

Christina Aguilera – Beautiful

Ainda corpo: a necessária desnaturalização de padrões estéticos

Renoir. Outros padrões.

Escrevi, junto com a Lu Nepomuceno, um post-entrevista conjunta sobre corpo, sobre percepções e padrões, que tá aqui. E a repercussão deste, junto com minhas próprias inquietações, me fazem voltar ao tema hoje – acho, aliás, que esse tema merecia uma série dele, a galera toda do Biscate escrevendo sobre corpo, contando histórias, desmontando preconceitos. Seria lindo, acho que dava muito pé. Mão. Peito. Bunda. Enfim. Dava. A gente já é dada mesmo…

Voltando: o que mais me impressiona, e isso não é de hoje, é a naturalização dos padrões. A substituição do “eu acho bonito” por “é bonito”. Me lembro de uma conversa muito antiga, de quando eu era adolescente, em que eu dizia que achava determinado cantor negro bonito. E minha interlocutora dizia “você não pode achar isso, ele tem nariz chato, ele tem cabelo pixaim…”

Cabelo pixaim. Nariz chato. Pronto. A pessoa não pode mais ser bonita, com essas características. Como se houvesse alguma ordem prévia que ditasse as regras de beleza, em que entrariam “nariz afilado” (que é um pernambuquês para “nariz fino”) e “cabelos lisos”. Agora, mais recentemente, alguns episódios me trouxeram essa conversa à memória.

O primeiro foi o da jornalista que disse que as médicas cubanas tinham “cara de empregada doméstica”. Como se as pessoas nascessem com “cara de médica” ou “cara de empregada doméstica”. Certamente ela não foi a única a pensar isso: afinal, no Brasil das desigualdades enormes e  persistentes, a incidência de gente loira (não é “branca”, atenção: é loira mesmo) entre os médicos que protestavam contra a vinda dos médicos cubanos (aqui, um exemplo) deveria causar vergonha a todos os brasileiros, pelo que isso demonstra sobre o fracasso do país que dizia que ia pra frente (uôuôuôuôuô). Isso, é claro, cria naturalizações. Mas essa jornalista não só pensou: ela pensou e escreveu em rede social, como se fosse uma “gracinha”. O que assusta tanto.

Uma vez, uma amiga querida – negra – me disse: “Renata, o racismo é sempre estético em primeiro lugar”. Nunca esqueci. Porque é mesmo, né. Não é sobre “alma”: é sobre pele. Sobre nariz. Sobre cabelos. Sobre corpo. Sobre o que se chama de belo, o que se chama de feio. E aí, puxando o fio da meada, a gente chega no outro episódio que eu queria destacar aqui: a eleição de Lupita Nyong’o pela revista americana People como a mulher mais bonita do mundo.

(pausa para Lupita. respiro.)

Pareceu-me uma eleição absolutamente razoável,  por qualquer critério que se use (isso, evidentemente, aceitando que eleger “a mulher mais bonita do mundo” seja razoável; mas aí já é outro assunto.). Jogando com “as peças do inimigo”, ela foi escolhida, no começo do ano. E foi um frisson no mundo. Por aqui, ouviram-se muitas vozes protestando. Não vou reproduzir essas falas, mas o tom era basicamente o mesmo do da jornalista. Como pode uma pessoa com “cara de empregada” (racismo e classismo andam juntos como gêmeos univitelinos) ser a mulher mais bonita do mundo? Para uma revista americana, ainda mais? Por trás disso, tem, certamente, a idéia de que cabelo liso, loiro, olhos azuis, são, por necessidade, “mais bonitos.” Naturalmente. Por desígnio divino. “É” assim.

Nada melhor para esse tipo de idéia do que viajar. Não precisa nem ser pra outro país: a gente tem vários num só, aqui. Amazônia. Sul. Nordeste. Tantas caras. Tantas misturas. Altos e baixos. Cores variadas. Rostos árabes, rostos negros, rostos rosas, rostos morenos. Traços indígenas. Asiáticos. Temos gentes de todos os jeitos. Alargar o olhar. Aprender e apreender belezas, como diz a Lu na nossa conversa já mencionada, assim:

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas.”

Dar-se conta de que o que você chama de bonito (você, eu, qualquer um) tem a ver com o que disseram a você na infância que era bonito. E seu reverso: o que disseram que era feio. Explicitamente ou insidiosamente, sub-repticiamente. Jeitos de olhar, de tratar, de falar a respeito. Isso deixa marcas de que a gente nem se dá conta. Até ser jogado em lugares onde os padrões são diversos. Aí é jogo de rebobinar a fita (ok, não se rebobina mais fita, mas cês entenderam), começar de novo, do zero. Começar de novo? Olhar de novo, procurando belezuras. Que las hay. Sempre. Entender as belezuras que os outros acham. E quanto mais a gente andar nesse caminho, que é um caminho que se escolhe andar, mais a gente vai se dar conta de que “beleza” é algo que se cultiva no olhar. No perceber. “Beleza” é desconstrução de padrões. É desmonte de regras. Beleza pode deixar de ser prisão. Se a gente deixar acontecer. Se a gente escolher.

Receita para guardar um leão numa caixa de sapatos

Texto escrito a quatro mãos e dois corações com minha amiga, irmã, escritora e contadora de histórias, Kiara Terra. 

Algumas coisas não decantam. Não adianta pressa porque algumas coisas não vão, ou levam muito mais tempo para chegar ali, no fundão. Um tempo sem tempo que não passa pelos ponteiros do relógio, um tempo porvir que nunca vem. Algumas coisas não chegam lá naquele fundo de coisa esquecida, de lembrança misturada ao chão, de casca roída pelos anos.

As coisas leves não decantam, precipitam. As pedras, sim, essas vão para o fundo. Os medos e suas partículas cinzentas que turvam tudo, sim, podem ser decantados se carregados com cuidado e alimentados com o mar. Os medos misturados ao vento bom dos dias vividos em folia ficam menorzinhos, pequenos lamentos perdidos que afundam no solo de nunca mais.

Mas as belezas são teimosas. São levezas que escapam pelos dedos, escorregam fluídas colorindo o espaço vazio. O pensamento pode dobrar com esmero as belezas partilhadas, passar a ferro, guardar a vácuo, mas as belezas são indobráveis, não guardáveis, risonhas e rebeldes. Desarrumam tudo. Uma por uma sorriem livres de qualquer pacote com laço e fita, qualquer molde com tampa, qualquer ferro bem passado. A beleza assusta, porque não cabe.

E depois de tudo, de quase toda poeira das palavras não ditas, das ditas demais, depois da poeira densa dos “nãos” sobram as belezas. Nunca conheci ninguém capaz que guardar um leão em uma caixa de sapatos.

E então o que fazer com a sua presença, que entra pelas narinas e faz a embriaguez tornar-se rotina? Como andar sem as belezas que ainda estão na minha asa, no perfume das roupas limpas? No frescor do dia novo que ainda não veio?

As belezas flutuam. Flor na água. Folha leve na ventania. Poeira de cavalgada em terra seca. Depois da nuvem passar fica um gosto bom na boca, um pouco de terra nos olhos e as palmas das mãos tingidas de vermelho. E as mãos vermelhas colorem a paisagem, mostram cenas escondidas, distorcem sentidos e seguem sua rota invisível de poesia.

Perfume que não se dissipa antes de ventar outra vez. Dança não vivida. Chopp não tomado. Os tickets de viagens que não foram emitidos. Avião que partirá com as nossas poltronas vazias. Cachoeira do nosso banho juntos, cachoeira que não espera e desce água gelada pelo rio. Corpo na correnteza. Tudo que não veio, voa.

A presença do outro que repousa entre os ombros e desce pela nuca quando a gente dança. Que faz cócegas nos ouvidos quando a gente respira leve advinha o que diz o vento. Que é segredo dissipado e sorridente por entre as árvores do caminho.

As belezas precipitam, aparecem em forma de chuva quando o trovão brinca de ser leão com fome. Flutuam na superfície e só terminam quando o sol esturrica as pétalas e a flor vira outra coisa. Flor beijada por pássaros de cores vivas, que nos enfeita os cabelos. A gente a protege, guarda no casaco com cuidado. Mas uma hora é preciso largar a flor no caminho dos ventos. Ou das águas. Do fluxo. E a gente larga com uma fé teimosa, sim, a gente acredita. Nossa única fé está na natureza de deixar ir. Que na travessia toda desses anos nos levou ao encontro do nosso desejo. Caminho de quem nunca mais volta o mesmo. De quem segue com a chuva, com a corredeira. Com o mar que ainda não veio.

Ainda de manhã, o mar chega. E nós estamos ali de corpo leve, molhado, sentindo de perto o perfume da maresia. Céu azul risonho de noite bem dormida. Onde a gente entra na água sem roupa, porque não tem mais roupa que caiba. O corpo nu, os pelos arrepiados e as ondas. O que vem para lavar as belezas de antes que ainda estiverem no corpo. Deixarei todas, entregues na espuma branca que lambem os pés. Porque o mar tem sal e leva embora tudo que foi deixado antes de ser. Se eu chorar, as lágrimas salgadas voltam para o lugar de onde vieram. Chorar no mar é enxurrada na chuva, segredo de vida líquida. É que a gente também tem um mar por dentro.

Depois. Há de ser doce, há de ter sombra de chapéu de sol. Toalha felpuda a minha espera. Um abraço quente. Um outro bonito, errado, faltante, inteiro, forte e frágil. Que ria de mim e das minhas falas demoradas. E que acolha, sobretudo, a intensidade e o amor. E a coragem.

Alguém para rir até doer a barriga. Para subir em árvores. Para dormir abraçado na rede se houver rede, para segurar junto os pesos quando eles vierem. Um par para voos de dois. E depois para os meus voos sozinha.

Um ter pra quem voltar. Um ter de belezas.

Olhar(es)

Esse último mês num foi lá muito fácil para mim.

Foi tenso. Do nada ( ou nem tão do nada assim), minha auto-estima foi parar na lama. Olhar no espelho estava bastante desconfortável, porque tudo que via em mim mesma era defeito. Ora uma espinha, ora uma olheira. Ou o cabelo que estava pesado e sem brilho. Ou então eram as duas ou três dobrinhas a mais na barriga que me deixavam triste.

espelho-infiel1

Olhar

Parece frescura, né? Coisa de gente fútil e superficial, e tals. Só que não. Percebo que muitos de nós estamos bem insatisfeitos com a nossa imagem e por isso, acabamos sendo bem cruéis conosco e com os outros. Julgamos, medimos, comparamos. Gastamos uma puta grana com produtos “milagrosos” que nos prometem a aparência photoshopada das revistas.

Se você for mulher então, é bem pior. Não que isso não atinja aos homens, atinge sim. É que mulher tem a “obrigação” histórica de estar sempre bela. De ser perfeita. De caber perfeitamente nas roupas, nos adornos e nas caixinhas que alguém com bastante poder, determinou que eram as ideais para ela.

Acontece que a natureza não tem o menor compromisso com essa estética absurda e inatingível para a maioria de nós. O natural é a variedade. O que é natural, bonito e saudável não engloba apenas o magro, o loiro, o liso ou o jovem. Nela há espaço para muitas nuances, texturas e tamanhos.  E o nosso olhar, tão bombardeado por imagens  que fogem absolutamente dessa variedade,  não tá acostumado com isso.

Bora treinar esse nosso olhar viciado para uma beleza plural? Porque não são os nossos corpos que devem ser repudiados…

Cabelo natural – Uma biscate quer abandonar o alisamento

Por Charô Nunes*, Biscate Convidada.

Toda vez que vou ao salão de beleza acontece algo mais ou menos assim.

Dessa vez estava de cabelo preso, num coque discreto. Esperando a minha vez, aproveitei pra ler uma entrevista de Marco Feliciano para um famosa publicaçãozinha que vocês conhecem. E assim nem percebi que havia chegado a minha vez de ir ao lavatório e depois à estação de trabalho do cabeleireiro.

Agora um pequeno adendo. Sou uma mulher negra que detesta ser chamada de morena. E o que o cabeleireiro faz para demonstrar intimidade? Pois é. Nem deu tempo de fazer muita coisa ante a um sonoro “oooooooi morenaaaaaaaaaaaa” . Respira, respira, diz que está tudo bem e faça o que você veio fazer aqui, pensei. E lá fomos nozes, eu e os cabelos, cortar dois centímetrozinhos.

Agora a parte que sempre acontece – meu black vira o assunto da rodada. Formam-se alguns times, mas falarei apenas das mulheres negras que cogitam ou já cogitaram abandonar o alisamento. Algumas costumam dizer que esse tipo de de cabelo é para gente descolada (leia-se quem não precisa passar um ar de seriedade), outras que tentaram e não conseguiram deixar o alisamento de lado.

Pois bem querida, esse post é pra você – uma biscate quer deixar de alisar o cabelo. Quando, como, onde, por quê?

QUANDO

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Quem não se lembra da Maternidade Santa Joana validando o alisamento na infância?

Por muito tempo tratei quimicamente meu cabelo. Foram longos 28 anos, começando aos 4. E olha que até comecei tarde. Não se espantem, é corriqueiro passarmos uma vida alisando, sem conhecer a textura do próprio cabelo, sem imaginar que existe vida fora do tubo ou pote de química. No meu caso o danadinho custava 21 reais (em 2005) e era eu mesma quem aplicava todos os produtos.

Foi por acaso que descobri a possibilidade do cabelo natural. Vendo as fotos da gravidez de uma prima, reparei que o cabelo dela estava com uma textura diferente (nunca havia pensado que o cabelo dela era crespo). Aparentemente, alguns alisamentos são incompatíveis com a gestação de uma criança. Como pensava em engravidar também, decidi experimentar como seria a vida sem alisar.

A primeira tarefa é escolher o quando. Aconselho que seja numa época mais tranquila, de paz interior. Pra mim foi assim, sem grande estresse (coisa rara de acontecer). A raiz foi crescendo e surgiu a vontade de voltar a alisar (o que tinha na cabeça mesmo hein, é claro que alisar parece o mais adequado a ser feito, não há motivos para não ser assim, pensei na época). Mas resisti.

BIG CHOP – MAS PARA QUÊ DEIXAR DE ALISAR MESMO?

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Ifeyinwa foi pra internet mostrar seu Big Chop

Sempre fui conhecida por ter um cabelo bonito e comprido (para uma negra). Mesmo assim enfrentei o (então) temível big chop, como as americanas chamam o ato de cortar todo o alisado e deixar o cabelo bem curtinho. Imagina o desafio – além de deixar o cabelo natural, ficar com ele curtinho quando o mundo diz que o correto e bonito é o cabelo grande e alisado!

Não consegui assumir totalmente o grande corte, deixando o cabelo com uns 8 a 10 centímetros. Mas existem outras estratégias como usar tranças, muito práticas e bonitas. Só desaconselho com veemência seu uso prolongado. O perigo é ficar careca igual à Naomi Campbell que literalmente teve seus fios arrancados pela contínua tração a que os submeteu.

Fica a pergunta – o que aconteceria se gente como uma grande modelo internacional ou a grande primeira dama dos EUA assumisse o cabelo natural? Minha birra contra o alisamento é o fato de algumas de nós simplesmente não termos o privilégio da escolha sob pena de sermos chamadas de sujas, de termos uma imagem pouco profissional ou sermos simplesmente chamada de feias.

ONDE – PRECISO IR A UM SALÃO DE BELEZA ESPECIALIZADO?

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, que foi convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Uma das pioneiras no aconselhamento de mulheres que decidiram deixar de alisar é a Naptural 85, convencida a deixar de alisar pelo namorado brasileiro.

Você pode fazer a transição com a ajuda de um cabeleireiro. Mas fuja desses que dizem adorar o nosso cabelo mas nunca fizeram nenhum curso especializado sobre. Em toda São Paulo há apenas uma profissional branca em quem realmente confio quando o assunto é cabelo natural. Veja, cabelo natural. Pois já aconteceu de ela destruir meu black com progressiva uma vez.

A verdade é que após a decisão de não mais alisar, caí no conto do “seu cabelo não ficará liso, ficará igual ao da Taís”. O black que estava loiro e gigante do jeito que eu sempre quis, simplesmente parou de encaracolar (coisa que foi geneticamente programado para fazer). Foi preciso recomeçar tudo do zero, desde o grande corte. Dessa vez não tive problemas em cortar bem curto, foi um big chop de responsa.

Então decidi fazer tudo sozinha, em casa. Como sou bem relax, fiz o que meu companheiro fazia – lavar, secar e pentear. Fim. Mas há inúmeras fontes mais indicadas quando o assunto é going natural. Há diversas blogueiras e vlogueiras (internacionais e brasileiras) falando sobre o assunto e você certamente saberá quem é entendida no babado e quem não.

PORQUE – É MAIS FÁCIL, SAUDÁVEL E BONITO

O alisamento constante dos cabelos é caro e danifica sua estrutura.

O alisamento constante é bom para todo mundo, menos pra você – é caro e danifica sua estrutura.

As razões para deixar de alisar são muitas.

Comigo foi a necessidade de ter uma gravidez mais segura. O que não esperava foi todo o resto que veio depois. Finalmente percebi que meu cabelo era do jeito que sempre sonhei (e se quiser que a textura fique parecida com a da Taís, é simples) basta saber como cuidar. Junto com a alegria da descoberta a tristeza em perceber que passei uma vida pagando por algo que a natureza havia me dado.

Outro bônus foi a liberdade. Muitas negras são levadas a crer que cuidar do cabelo natural é complicado, ninguém ensina como cuidar do cabelo natural. Pois saibam que o trabalho envolvido é muito menor que fugir da chuva, retocar a química, camuflar a diferença entre a raiz e o comprimento, usar cremes para ativar os cachos (imagine, chegamos ao ponto de alisar para depois comprar um creme que encaracole os cabelos novamente), etc.

Finalmente o mais importante – me sinto linda. Meu cabelo sempre foi fonte de constante frustração e medo. Tudo implantado em mim nos primeiros anos da escola, quando era perseguida se alisava e se não alisava o cabelo. Quando deixei de colocar química na cabeça,  a relação com meu corpo mudou e terminou a infrutífera busca por soluções que dessem jeito em quem sou .

SE VOCÊ É UMA BISCATE QUE QUER

Deixar de alisar o cabelo, meu conselho é se joga. É uma trajetória de crescimento pessoal muito bonita e única. A minha foi e continua sendo. Ontem no cabeleireiro, quando as pessoas diziam que amam meu cabelo como ele é, uma delas disse baixinho que o achava feio sem perceber que eu escutava tudo. A minha reação? Nenhuma, isso simplesmente não me diz mais respeito.

Porém me perguntei quantas dessas pessoas falavam a verdade sobre gostar tanto assim de um black. Todo mundo diz que adora mas não vejo meu cabelo representado na capa da revista. Felizmente, não sei como e nem porquê, aconteceu algo dentro de mim – não preciso da banca da revista para gostar de mim. E quando me faltam mulheres negras com cabelo natural, é só correr pros lugares certos.

Há gente falando sobre isso na internet, como muitos vídeos e imagens a respeito, redes sociais especializadas. No gueto as mulheres negras usam cada vez mais o cabelo ao natural. Algumas celebridades também deixando de alisar como a Solange Knowles. Cabeça a cabeça, a ditadura do alisamento vai sendo desconstruída.

E olha, me sinto muito feliz em participar dessa revolução.

Fica o convite para que você venha pro nosso time.

charÕ*Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

As mais belas das belas

Oi eu sou feminista. É, as vezes eu sou chata, todo mundo ás vezes é chato (ok, tem gente que quase sempre é chata) e nem sou chata porque sou mulher ou sou feminista. Mas tenho certeza que fico mais chata na TPM – sim ela existe, alguns cientistas estão tentando dizer que é mito e tal, mas acho melhor eles perguntarem aos meus hormônios e família.  Mas minha chatice vem do fato de existir e da vida ser às vezes chata, normal. Quem nunca?

Mas a despeito da chatice tive um final de semana tão lindo com gente maravilhosa – as amigas feministas – algumas biscateiras, outras não, mas todas vadias, que bem nos entendam. Daí que de repente me peguei olhando para aquela sala cheia de mulheres com ideais semelhantes, de luta, de igualdade, de amizade e de um mundo melhor para todos . Um mundo onde as pessoas são respeitadas , independente de cor,  classe social, gênero, raça e religião, é um mundo melhor (bj João Lennon) e vi tantas pessoas lindas ali.

A capa da Nova não estava ali,  nenhuma modelo de revista – de acordo com as revistas, claro – mas todas mulheres lindas. Ninguém reproduzia um padrão como vejo em outros ambientes que frequento, onde às vezes me sinto vendo as pessoas naquela cena do The Wall e a fábrica de salsichas – tudo igual.

REBORDOSA 2

Cada uma ali estava confortável no seu jeito de ser, com ou sem maquiagem, com ou sem unhas feitas, e se feitas de várias cores e jeitos. Com e sem cabelos pintados- tinha até um roxinho fofo (ai que vontade…).  Roupas mais confortáveis ou bolsas peruas de oncinha. Cada uma era cada uma, confortável em ser quem era.

Depois que conheci essa mulheres maravilhosas além de dar mais risadas e também debater mais sobre assuntos que gosto, com política, sexo e cinema, também passei mais a poder ser eu mesma, usando meu jeans, meu cabelo curto, minhas camisetas. Ter menos preocupação com a imagem com que passo. Pude ser cada vez mais eu. Isso é um processo, mas devo admitir que ter amigas tão diversas e diferentes foi gratificante e fortalecedor nesse processo.

Esse post é para dizer que todas vocês, mulheres, são lindas e admiráveis, do jeitinho que são e nunca deixem ninguém dizer que não são.

 

 

O que é uma coisa bela?

A beleza, como todas as categorias explicativas do real ou de suas frações, não é um conceito “natural”, “pronto”, determinado por fatores alheios ao mundo humano. Assim como as tradições, a beleza é um elemento inventado e que é alterado através dos tempos com variações de acordo com contextos, classe, etnias,etc.

O dito popular “quem ama o feio, bonito lhe parece”, sabiamente já indica que a variação do belo é dependente do observador, que é quem a partir de seu juízo determina o que é belo, ou não, para ele. Este observador no entanto não é isolado e nem imune às influencias do grupo social do qual faz parte e mais ainda, da sociedade como um todo e suas relações de tensão entre classe, gênero, fenótipo, regionalidade,etc.

Em resumo podemos entender a beleza como mais um dos inúmeros eixos de categorização da realidade, grosso modo de rotulação do real, que é construído socialmente de acordo com as interações entre indivíduo e grupo, grupo e sociedade, sociedades e classes, sociedades e contexto histórico e entre sociedades e culturas.

O “Belo”, portanto, não é apenas um, nem é universal, tampouco natural. O “Belo” em 1600 definitivamente não era o “Belo” em 1800, como não o foi em 1940 e nem é em 2012. Cada época tem sua beleza e essa beleza é determinada socialmente e não está nada imune às tensões políticas intestinas a cada época e sociedade.

A beleza, assim, é uma questão histórica que se altera a cada contexto histórico. A estética pode ser entendida como um elemento presente em todas as sociedades, no sentido do julgamento do que é ou não belo, mas o resultado da construção do belo para cada sociedade não pode ser entendido como uno, ou seja, cada momento, cultura e lugar possuem sua beleza, a estética só pode ser entendida como um valor universal se entendida como a construção do belo de acordo com as especificidades do contexto. Como valor universal é redutora, como valor universal no sentido da estética construir só um parâmetro de beleza é redutor e também é uma questão de classe.

Como tudo na vida em sociedade não há um só determinante na construção do que é belo, mas não se pode ignorar a influência das divisões de classe na busca de um conceito hegemônico de beleza que instaure um formato que reflita a noção da classe dominante do que é belo. É a partir deste processo que o conceito de belo nas sociedades ocidentais seja, o da pessoa branca, com o corpo “sarado”, cabelos lisos, de preferências com traços nórdicos. O inverso disso é considerado feio, não-belo.

É neste sentido que o pobre, o negro, o índio, são feios no contexto social como um todo. É a partir deste entendimento que podemos apreender a dominância de um tipo de bombardeio cognitivo de um tipo de beleza que exclui a maior parte da população.

Não é uma teoria do “Quarto escuro”, não existe um planejamento que define uma estratégia de conquista de hegemonia sobre o que é belo, é um entendimento da percepção do belo como um valor sólido e universal a partir da ponta da pirâmide social e que é bombardeado aos demais ao ponto do outro se desconhecer como passível de ser belo. A beleza enxergada por uma classe é passada como beleza universal porque é assim que se entende por beleza entre a elite que detém os mecanismos de reprodução de ideologia. Além disso, é uma busca de beleza asséptica, “racional”, construída pelo esforço, que é quase uma defesa de tese do “Espírito do Capitalismo”, segundo Weber, aplicado à beleza.

Esse entendimento da beleza atinge a todos, mas especificamente às mulheres e ai fica até mais claro a divisão de classes do belo. Para a mulher ser bela para a sociedade, conforme o padrão estabelecido de beleza, ela tem de seguir conjunto de determinações, regras e práticas que possuem preços simbólicos e materiais nada brincalhões. Estes preços vão desde uma jornada extra de trabalho nas academias, que além de não ser remunerado ainda tem um curso financeiro alto, até transformações físicas por vezes radicais, fora a aquisição de produtos e mais produtos “de beleza”.

Este corte já reduz o acesso ao belo para milhões de pessoas, em especial mulheres, que não tem como doar mais um pedaço de seu tempo dividido entre casa, trabalho e por vezes estudo, deslocamento em cidades com péssimo transporte público e que toma grande parte do dia, com academia e exercícios que permitam a construção do corpo determinado pelas cartilhas publicitárias e nem meios financeiros de adquirir todos os produtos de primeira linha que são “obrigatórios”, conforme a Ana Maria Braga, na penteadeira de toda mulher.

A própria figurada beleza já corta outros tantos milhões, com seus cabelos lisos, pele alva, ou queimada de praia, boa alimentação, corridinhas matinais,etc.

E é neste sentido que a beleza torna-se política, pois ela é uma forma de aprisionamento seja da mulher em um papel que entre outras coisas é de acessório estético, seja dos não brancos como sub-classificados também como valor estético. A própria vinculação entre saúde e beleza, saúde e atividades físicas regulares, conceitos recentes e formados a partir do fim do século XIX e início do XX, obedece a uma lógica política a uma estrutura que exige além do trabalho e tempo um comportamento de manutenção do corpo físico com o fim de alongar a “vida útil” da mão de obra é uma arma política.

A beleza também é um campo de batalha anti-hegemônico, o belo também é um campo de disputa. Assim como parte dos movimentos negros utilizam a luta contra o padrão de beleza claramente definido como um padrão “branco” como um corte político que envolve a luta pela auto-estima e entendimento de sua beleza como existente, num berro que acaba por caminhar para o enfrentamento a estes padrões de beleza que reduzem a sociedade à imagem de sua classe dominante, precisamos avançar para a discussão do belo para além dos grilhões das propagandas de cerveja.

Porque a beleza é rica? Porque a beleza é branca? Porque a beleza é magra? Porque a mulher pobre automaticamente “se enfeia” e acaba se destruindo, se negra ou afro-descendente, mulata, e tiver o cabelo diferente do liso “obrigatório” em sessões de tortura semanais ou mensais para “esticar” os cabelos , e que acabam por destruí-los?

Porque a mulher pobre, que sofre mais o impacto de trocentas jornadas de trabalho, falta de um atendimento médico de qualidade, alimentação, é “enfeiada’? É tratada como refugo, como não-bela por um padrão que ela nunca alcançará diante das condições em que vive?

O padrão de beleza é também uma arma de destruição da auto-estima das pessoas pobres, o padrão de beleza é a negação da diversidade humana, da diversidade social e uma imposição de uma lógica de “se ver” onde o espelho só mostra o que não é o humano perfeito.

É preciso entendermos que a luta por qualquer tipo de mudança radical na sociedade e que inclua as pessoas em sua diversidade passa automaticamente pela luta contra a hegemonia cultural que atribui como sagrada a propriedade, a divisão de classes e uma beleza que exclui.

É aí que o belo exclui qualquer rompimento com o padrão estabelecido,que pune o não branco de olhos azuis às continuas exclusões que vão desde a recusa de negros como “anjinhos” de procissão até à negação de empregos por ausência de “Boa aparência”, leia-se identificação de um não-branco e não magro.

É preciso que nos perguntemos o que é uma coisa bela, e que essa resposta nos olhe nos olhos e nos identifique como somos, como amamos, como enxergamos o belo e não como nos dizem para enxergar e que o resultado da pergunta seja uma to político de negação à força da opressão, que também se ergue e destrói coisas belas.

Das Musas Improváveis ou Gracyanne Rules!

Por Charô Nunes*, nossa Biscate Convidada na Quinta Cultural

Num mundo onde as mulheres são todas loiras e devassas, no máximo variações do mesmo tema, mulheres e homens transitam entre o lá e o cá desse caldo cultural que alguns chamam de gênero, enterram clichês normativos e se libertam do sexo que por acaso carregam entre as pernas. Esse post fala sobre essas pessoas que destroem as barreiras entre os sexos e difundem a ideia radical de que nós mulheres somos gente.

Enjoy.

Oi, quem tem medo de Gracyanne Barbosa?

Ao olhar para o corpo milimetricamente desenhado de Gracyanne Barbosa alguns sentem que algo está fora de lugar. Um dos blogues mais influentes do país chegou a afirmar categórica e irresponsavelmente que em seu corpo há menos Gracyanne e mais Barbosa. Infelizmente, o twitter também serve de termômetro nesse caso. Porém, ao contrário do que muitos gostariam de admitir, Gracyanne é mulher e aquele corpo também é o de uma mulher.

E aí que enrolam e assam o pepino.

Se ela é mulher e eu sou homem hetero, existe a possibilidade de eu vir a gostar de uma mulher fisiculturista. Mas não existem (ou não deveriam existir) mulheres praticanto fisiculturismo, esse esporte de homem. Logo Gracyanne é traveco ou não é uma pessoa, mas sim uma coisa, “um troço”. E se eu achá-la bonita mesmo assim, eu tenho de “trocar de time” e me assumir como gay.

Se ela é mulher e eu sou mulher, então eu tenho de questionar as possibilidades de meu próprio corpo. Melhor afirmar que ela é homem do que encarar a ideia de que meu corpo, se malhado, possa vir a ser como o dela. Mas existe um cenário ainda mais assustador: se ela é mulher então pode ser considerada mais bonita que eu. Como rainha de bateria, ela o é. Logo deve ser rotulada a qualquer custo como um homem.

As combinações são infinitas.

Mas existe uma constante: homens e mulheres competem continuamente para saber quem é mais viril (como se a virilidade tivesse sexo) e quem é a mais bonita. Gracyanne ameaça a todos, nas duas modalidades. Assim a primeira coisa que as pessoas fazem é negar sua humanidade e sua capacidade de ser amada. Por causa disso é nossa primeira (e maior?) musa improvável desse carnaval. Gracyanne Rules!

Laerte, a loira morena do banheiro

A Cultura gravou um Roda-Viva de carnaval com ninguém menos que Laerte Coutinho, a morena do banheiro. Tinha tudo para dar certo mas… Brochamos todos que vimos o programa: o entrevistado era muita areia para o caminhãozinho dos entrevistadores. Bloco após bloco a entrevista se arrastava. Parecia que faltava oxigênio no recinto.

A perplexidade diante de um homem trajando o vestido era tamanha que chegaram a perguntar porque ele/ela (ao gosto do freguês, segundo o próprio Laerte) não se veste de acordo com sua classe social. Afinal, se é pra ser mulher, que seja ricka. E quando perderam os pudores, queriam saber se mijava em pé ou sentado, se ainda poderia jogar futebol (esse esporte de macho, né Marta?). Veja bem, pode até se vestir de mulher, desde que continue homem.

E com todo esse furdunço Laerte continuou absolutamente serena. Se veste como bem entender e reivindica o direito de ir ao banheiro sem que ninguém (e todo mundo) tenha a ver com isso.

Mas nem tudo foi tempo perdido. Angeli estava preocupado em saber se é possível fazer humor respeitando direitos humanos. Très legal. E no meio da barbárie, Laerte insinuou o poliamor. Diz, quase sem dizer é verdade, que a monogamia não lhe serve. E conceitua a não monogamia como prática anticapitalista.

Claro, foi tudo en passant.

Ainda assim, foi mais que suficiente para tornar a morena do banheiro ainda mais atraente. É musa improvável e inconteste.

Vânia Flor: gorda, porém casada

Ter samba no pé. Esse deveria ser o único quesito para ser musa de carnaval. Mas na prática a teoria é outra. As rainhas e madrinhas de bateria são todas brancas, magérrimas. No carnaval, as gordas desaparecem e as negras são descaracterizadas (lentes de contato azuis, apliques, descoloração dos fios). Ainda assim, Vânia Flor foi o nome do carnaval 2012. Ainda que negra e gorda. E justamente por isso.

E como era de se esperar, falou-se em dieta, quantidade de quilos (104, para ser mais exata). E uma enxurrada de elogios. Daqueles elogios que na verdade dizem que Vânia deveria se odiar, fazer dieta e ficar escondida em casa. Porque, com esse tamanho, tem de se amar muito e se assumir antes de sair de casa, e coisas do tipo.

Até que (nada é tão ruim que não possa piorar) uma comentarista da Rede Bobo (não lembro o nome) disse algo mais ou menos assim: “Ela é gorda, porém casada. E o marido é magro”.

Nesse momento desceu a Teodora em mim.

Say no more.

E pra concluir…

Obrigada pela paciência de ler um post assim enorme, um postão.

Com direito a dedicatória e o escambau: beijo para todas as mulheres que mijam em pé, que não gastam horas a fio com manicure. Que sujas, não depilam as axilas e virilhas. Para as que adoram puxar um ferro. Para aquelas que dão a mínima para a ideia de se vestir bem. Beijo para negras e gordas. Especialmente negras gordas. Sobretudo aquelas que ousaram se casar e ainda acharam escolheram um magro (só pode ser louco) para chamar de seu.

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Charô Nunes é divertida, criativa e produtiva. Como eu sei? Basta lê-la. É artista orgânica e arquiteta plástica. Fala sobre arte no Oneirophanta, anticonsumo e desopinião livre no Contravento  e Poliamor no Pratique Poliamor Brasil.

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