Que Horas ela Volta? pelo olhar da classe média nas redes sociais

Segunda-feira, o programa Tela Quente que tradicionalmente exibe algum blockbuster do cinema norteamericano com muito tempo de atraso ou no máximo uma comédia brasileira, passou o recém lançado e premiado “Que Horas Ela Volta?”, filme brasileiro de Anna Muylaert, com Regina Casé e Camila Márdila nos papeis principais. Não vou me demorar explicando do que se trata, porque a essa altura vocês já devem saber. Por via das dúvidas, pros desavisados, vejam mais aqui .

Quando o filme chegou aos cinemas provocou uma enxurrada de textões, textinhos e bastante dissenso, aqui no blog também teve texto. ( aqui e aqui)  A luta de classes estava passando também nas nossa redes sociais. Cada um fazia sua leitura. É inegável que o filme toca num pilar não muito analisado e bem pouco admitido da nossa sociedade: a exploração do trabalho doméstico, quase sempre exercido por mulheres, em geral de baixa escolaridade, quase todas negras, muitas delas nordestina. Uma herança escravagista.

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Na exibição da Globo, na segunda-feira, dia 11,  o ibope foi excelente e o filme bombou nas redes sociais, como se fosse estreia, e mexeu com estruturas, de novo. Para mim, foi um experimento e tanto assistir o filme (no meu caso pela quarta vez), dessa vez com os comentários do twitter. Por óbvio que minha TL é minha bolha particular.  Ali estava gente de classe média como eu: ou éramos Fabinhos ou Bárbaras ou José Carlos ou todos eles ou no mínimo os convidados da festa de aniversário da Bárbara, que nem se dignaram a olhar para Val enquanto ela lhes servia.

Sim, estou colocando eu e vocês no mesmo patamar daquela família por vezes odienta, por vezes desprezível, mas tão como nós, porque a gente explora nossa empregadas, pede pra pegar uma água ao invés de levantar e ir lá buscar,  elas deixam de cuidar de seus filhos pra cuidar dos nossos, e no final o máximo que a gente faz é olhar pra elas e a vida delas com uma certa condescendência, porque a gente diz que é da família mas elas nunca partilharão da herança.

Enfim, são pequenas coisas que a gente já fez sem querer ou perceber ou já viu fazerem e se acostumou, simplesmente porque é assim. E em parte é isso que o filme é: um grande tapa na cara. Porque a gente precisa se reconhecer nas nossa falhas, nos nossos privilégios para poder melhorar. Ficar varrendo isso para debaixo do tapete e se achando muito legal só porque é de esquerda não resolve nada, não muda nada. A mudança começa dentro da sua casa mesmo. Tratando as pessoas com dignidade, respeito e profissionalismo.

E aí tem a Jéssica. Nossa, como amo a Jéssica! não é a toa que a frase que mais adoro no filme é da Jéssica: “Eu não me acho melhor do que ninguém. Eu só não me acho pior.” A Jéssica é essa nova geração que está aí no Movimento Passe Livre, na Ocupação das Escolas ou que passou na UNB – Universidade de Brasília-  sendo aluna de colégio público. E a classe média não perdoa isso. Olha com preconceito, desdém e .. raiva.

Óbvio que também teve muita gente que refletiu com o filme, analisou as relações de mães e filhos estabelecidas nele, mas a enxurrada de reclamações , principalmente sobre a Jéssica, não pude deixar de notar. Quantos tuítes eu vi reclamando da folga da Jéssica porque abriu a geladeira, porque tomou sorvete, afinal era visita?! Ué, mas não disseram pra ela se sentir em casa? Ao menos aqui em casa quando vem visita eu deixo à vontade. Mas é que Jéssica não era visita, né? Era a filha da empregada, e aí não merece ser tratada como “visita de verdade”. Não merece o quarto de visitas, merece um colchão novo, olha que bondade, no chão. Já tá até demais, né?

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E assim é. Sempre que se debate sobre o filme, ele toma essa proporção imensa, desse fosso social gigantesco que temos, dessa exploração e divisão de classes no Brasil que nunca é falada com clareza e, assim como o racismo, varrida para debaixo do tapete. O brasileiro é avesso a determinados conflitos, aos que mexem com as estruturas que lhe favorecem.  Mas é preciso, sim, falar disso, cada vez mais e esse é o maior mérito do filme. 

Uma sociedade mais igualitária passa pelo reconhecimento de privilégios e pelo abandono desses para uma diminuição do fosso social, sem isso não há como ter um país melhor em futuro algum. 

Fim de temporada. Repensando questões.

Foi um ano difícil, e esse final de temporada, no Brasil e no mundo, está mais agitado que os 3 seriados da Shonda juntos. E não há nenhum spoiler do final, infelizmente. Adoro a segurança dos spoilers, cresci lendo no jornal da tv o resumo da semana da novela. E apesar dos pesares, dos retrocessos e tudo, foi um grande ano pro feminismo. As campanhas #primeiroassédio, #meuamigosecreto e #AgoraÉQueSãoElas trouxeram o feminismo e a luta das mulheres para a pauta do dia a dia, o feminismo está pop. As meninas liderando o #OcupaEscola (beijo, Marcela, musa) e a Marcha das Mulheres Negras também. O balanço é positivo, mas estou aqui a repensar alguns pontos que a gente anda a debater aí pelas internetz.

A sororidade. Já me posicionei contra ela, não acho que deva ocorrer de forma irrestrita, com passar a mão na cabeça quando se fala ou se comete bobagens. Mas ando pensando que sim, a gente precisa se unir mais pra buscarmos nossas conquistas, focarmos no que concordamos e temos de semelhante do que debatermos infinitamente as divergências. Isso não quer dizer varrer divergências pra debaixo do tapete e não falar sobre elas, mas sim mantermos o foco no que buscamos, nos direitos essenciais que ainda nos faltam. Não acho possível um feminismo interseccional sem …sororidade, ou na verdade, proteção e companhia de umas para com as outras.

Não acredito em vitimização de mulheres, mas como mulher bem sei que somos bem pouco ouvidas, sei que a vida todo dia esfrega o sistema patriarcal nas nossas caras, umas ainda mais que outras pois cor da pele, status social e orientação sexual pesam ainda mais. Mas acredito que a gente precisa de acolhimento e precisa acreditar que nenhuma escolha é feita no vácuo, que há aquele troço chamado caldo de cultura  dentro e misturado. Que nenhuma agência, nem masculina, nem feminina,  por mais madura que pareça é feita no vácuo, há o mundo em que crescemos e vivemos ao redor. A gente precisa uma das outras. Precisa ouvir o que a outra diz, precisa abraçar, botar no colo se precisar, mas também precisa dizer a verdade. Dizer: sai daí, amiga, você não precisa desse homem nem de homem nenhum, nem de ninguém. Não, não dê mais uma chance  a esse cretino. Não, esse ciúme, possessividade, controle, etc. não quer dizer que ele te ama etc e tal.

Não, sua mãe/pai/madrasta/vó/o escambau não estava certo, você é fera. É que a gente foi ensinada a ver o mundo com olhos de contos de fada onde precisamos de um homem do lado, do contrário não seremos ninguém, e eles nos salvarão do sono/tédio eterno e solteiras são pessoas não desejáveis. A gente tem que dizer pras amigas sempre e todo dia pra seguirem seus instintos primitivos, porque se tem algo que te faz sentir desconfortável, tenha certeza, vai piorar, não é para dar uma chance (cada vez mais acho isso mais provável que o oposto), que o cara só é bacana se te faz feliz , se não te diminuiu, se te faz ser melhor, assim como você faz a ele. E , principalmente, que se você está sozinha isso legal, há montes de amigos bacanas por aí, há livros, trabalhos, filmes, tanta coisa pra fazer. Sexo é ótimo mas não é tudo. Amor também, mas também não é tudo.

Sobre os feministos ou esquerdomachos ou uzómi ou, enfim, os homens. Olha, to pensando. Muito. A gente curte falar com eles, debater, curte tomar um suco ou uma cerveja, curte. Mas diante de uma maioria que prima pela falta de bons modos e de compreensão … realmente, caras, o protagonismo é nosso. Beijos.

Por fim, fico sempre pensando nessa cultura, que é do patriarcado, que fica constantemente acirrando os ânimos entre as mulheres, divindindo, opondo solteiras x casadas, gordas x magras, bonitas x feias, libertinas x pudicas e por aí vai, sempre numa dicotomia de santa ou puta. Todas somos santas e putas. Todas somos um monte de coisas várias vezes por dia, amiga, vó, tia, mãe, estudante, namorada, esposa, amante, funcionária… mas o mais importante é que somos mulheres, estamos cansadas e devíamos estar unidas. A união nos fortalece, a divisão dissipa nossa força como conjunto.

E era só isso que eu estava pensando pro ano que vem, que a gente se atacasse menos e se ajudasse mais, fosse mais às ruas porque acho mesmo que o caminho está aberto.

Feliz ano novo e feliz nova vida, mulheres, suas lindas.

 

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ps: a foto do post foi escolhida por mim como uma homenagem do coração a  Marcela, mulher, estudante, negra e minha musa absoluta de 2015. que seu 2016 seja foda como você, garota.

 

Ocupem as escolas, ocupem tudo

Final de ano, me sinto mais ainda cansada que o normal e, convenhamos, 2015 não foi fácil. Cada dia uma porrada diferente, cada dia um 7 x 1 diferente na gente. Nem vou tentar começar a desfiar o festival de desgraças e tristezas pra não correr o risco de fazer competição de catástrofe. Não aguento mais nem me atualizar com as notícias. Tenho vontade de me refugiar só no quentinho das boas lembranças de um passado remoto quando ainda estava tudo mais ou menos bem.

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Mas, pra viver a gente precisa de ajuda para respirar esse ar pesado, para botar a cabeça fora d’água e puxar o ar de novo. E o que tem me animado a não desistir de olhar pra frente são os jovens. Pois é, 43 e já me considero velha. É que gente da minha geração já tem ou casa ou carro ou filhos ou um monte de contas a pagar por causa de algumas dessas coisas ou todas elas juntas e, aí, desiste de sonhar, de tentar mudar a si e ao mundo e aceita as coisas como estão e nos tornamos mais que realistas, nos tornamos pragmáticos, desiludidos e amargos.

Mas quem é que ajuda a impulsionar as mudanças de comportamento aqui e mundo a fora? Quem esteve em Paris 68? Quem foram os jovens que resistiram à Ditadura? Tem um chavão por aí que diz “não confie em ninguém com mais de 30 anos”. Trinta talvez não pra todas as pessoas, mas quarenta… com certeza.

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E hoje chego em casa e me deparo com essas meninas e meninos ocupando as escolas no estado de São Paulo. Nem terminaram o que na minha época a gente chamava de colegial e estão lá, lutando bravamente pelo direito de estudar contra uma reorganização sem objetivos claros, empurrada goela abaixo da comunidade escolar.

Sabem se organizar horizontalmente, distribuir tarefas. Estão arrumando as escolas, ao contrário do que a mídia, fazendo o papel de assessoria de imprensa do Estado e do governador, divulgou e… estão apanhando e sendo presos. Apanhando como se adultos fossem. Apanhando como se não existisse a proteção do ECA ou se como o Judiciário paulista não tivesse impedido a PM de forçar a invasão das escolas.

Dá raiva, nojo, quando ouvimos os áudios ( aqui e aqui )  de gente ligada à Secretaria de Educação e ao governo do Estado chamando para ir para a guerra contra essa molecada. É uma guerra desigual e desonesta da PM invadindo com cassetetes, balas de borracha, gás lacrimogênio e bombas de efeito moral versus estudantes de camiseta de escola armados de palavras de ordem.

A grande justificativa é o tal do impedimento da via pública. Juro que queria entender qual o amor do paulistano ou do brasileiro em geral ao carro e ao trânsito acima das pessoas. Mas é um amor seletivo pois gente do MBL impediu o trânsito ontem na Av. Paulista e a polícia nem deu o ar da graça para tirar um selfies.

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“Tempos difíceis estão por vir…” , diria Dumbledore. E é por isso que tenho tentando manter nesse espaço o otimismo. E apesar do horror que a violência dos vídeos e fotos me causam, a esperança no futuro que outros vídeos, fotos e relatos de uma gente linda, inclusiva, honesta, elegante e sincera me causam com seus cantos e gritos de guerra.

E porque ninguém velho e amargo como nós é que iria vestir com tanta galhardia uma camiseta escrita à mão: “tenho em mim todos os sonhos do mundo”. Sigam em frente, a luta é de vocês, e é também nossa, estamos juntos por um mundo melhor. Obrigada por não nos deixarem esquecer que tudo ainda é possível. Força.

Para mais informações sobre o #OcupaEscola clique aqui:

https://www.facebook.com/naofechemminhaescola/?fref=photo

https://www.facebook.com/Ocupa-E-E-Diadema-1505790296409080/?fref=ts 

https://www.facebook.com/ocupacaosalvadorallende/?ref=ts&fref=ts

https://www.facebook.com/brasildefato/posts/998486000199364

https://www.facebook.com/jornalistaslivres/?fref=ts

Alguns dos dias lindos da luta

E num ano que andava tão ruim que eu acordava e vi as notícias e pensava: “Céus, só queria estar morta!”, tivemos dias lindos, da mais louca alegria, dias cor de rosa, púrpura, arco-íris de lindos. As mulheres voltaram às ruas contra aquele PL pavoroso do Cunha. O triste assédio sexual sofrido por uma garota de 12 na TV  mas que resultou numa explosão de 100 mil compartilhamentos de histórias tão ou mais escabrosas sobre assédio na infância e adolescência (não que isso seja bom, mas precisamos mesmo falar sobre isso para que tenha fim, nada que é velado acaba) com a tag #primeiroassédio.

E ainda tivemos o apelidado “Enem Feminista”, com citação de Simone de Beauvoir, tema da redação “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, poesia sobre resistência negra e feminista queer mexicana Gloria Evangelina Anzaldúa. Para finalizar, a imprensa escrita tradicional publicando matérias sobre grupos feministas comandados por garotas adolescentes dentro de suas escola, tanto na periferia quanto nas escolas particulares (sobre isso tem um texto fantástico da Vanessa Rodrigues) .

Tá, eu sei que não tá tudo perfeito, sei que a luta é árdua e longa, sei que várias partes do feminismo interseccional a gente ainda mal alcança (feminismo negro, feminismo trans, feminismo na periferia, e tem gente tentando, sério), mas eu chego a chorar escrevendo isso porque me lembro que até uns 5 anos atrás a palavra feminista mal era ouvida por aí, ainda mais na boca de adolescentes ou era ouvida mal mesmo. As pessoas achavam o feminismo um horror, tendo idéias bem absurdas sobre o que ele significa (tal como supremacia da mulher, sendo pois, o exato oposto do machismo, o que sabemos não ser verdade, feminismo é luta por igualdade de direitos).

E, sim, tem o mainstream se apoderando da palavra pra vender, como faz com tudo no mundo. Mas, sabe, isso não é ruim de todo, pois foi pelo mainstream que eu conheci o feminismo nos anos 80, pirralha, com uns 10 anos, vendo TV Mulher e Malu Mulher, principalmente Malu Mulher. E olha que a palavra mal era usada, nem sei mesmo se era, mas ali aprendi a ser livre e independente, aprendi sobre igualdade de direitos. Óbvio que depois busquei mais, achei a Beauvoir e Rose Marie Muraro lá pelos 15 e 18 anos. Mas tudo começou ali, na TV, na Globo, pasmem.

Essas garotas jovens lutando por nós todas, mulheres, com tanta força e tanta consciência, fazendo o feminismo retornar às pautas e às ruas me dá esperança que um dia a gente seja a Finlândia e façamos nossas greve geral. Que gente como o Cunha e asseclas não permaneçam pra sempre na política.

Vamos nos unir e ir à luta com essa juventude linda que tá pintando aí. A gente tem tanto pra aprender com elas  quanto elas conosco, porque se a gente ficar buscando um purismo que não existe, se concentrando nas mil pequenas dissidências ( não estou falando de passar por cima do que é importante), toda iniciativa que seja bacana vai parecer em vão. O mundo não é perfeito. A militância, consequentemente, também não é.  Criticar é preciso, debater também mas precisa mais. Precisa achar um ponto de união e comemorar as vitórias, mesmo as pequenas.

Porque a direita sempre joga fora divergências e se une por dinheiro e poder, facinho, facinho. E em geral leva o caneco para casa, enquanto a gente fica se debatendo anos pra uma vitória sequer e desdenha depois, porque a vitória não tá boa, ideologicamente pura o suficiente. Vamos aproveitar a alegria desses dias, como bem disse a Bia Cardoso nesse texto lindo e vamos permanecer na luta, nas ruas.

Fora Cunha.

Fora Machistas.

Não Passarão.

 

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Como nota triste a toda alegria provocada por tudo que aconteceu e foi relatado nesse texto, infelizmente vem a revanche e o backlash , e a vítima da vez foi a Lola Aronovich, feminista batalhadora e conhecida que muito acrescenta à nossa luta e que vem sofrendo uma série de ataques, inclusive de celebridades. Manifesto meu apoio a Lola. Machistas, seu medo e sua inveja bate na nossa pomba e gira. Tamo junta, Lola.

 

 

Verdades Secretas e o papel da mulher na moderna novela brasileira

Faz tempo que a Globo não via um sucesso tão retumbante como Verdades Secretas, mesmo passando na faixa das 23 horas e afrontando todos os valores da moral e dos bons costumes, muito mais que Babilônia. Revela assim a dupla moral que o brasileiro sempre teve. Aquele retrato da família perfeita que por trás tem outra família ou amantes várias e tudo aceito de bom grado, desde que devidamente discreto.

A novela é bem produzida, bem dirigida, fotografia de comercial, de cinema, linda ( me lembrou muito Adryan Line), trilha sonora excelente. Ótima direção de atores. Tudo muito moderno. Tudo de excelente qualidade como raramente se vê.

Verdades Secretas teve de tudo: prostituição, drogas, menores abusados com professores e matando aula, pais sem saber o que fazer com os filhos, mulher mais velha com michê que a engana e nada, nada disso abalou a família brasileira. Ao contrário. Foi um sucesso. Mas vamos ver o que isso revela.

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As drogas. Grazi Massafera foi por unanimidade o grande destaque da novela, brilhou no papel da modelo viciada em crack que vai parar nas ruas. Não foi só a ajuda da boa maquiagem, mas cresceu como atriz e interpretou todas as dores de estar desiludida, se drogar e ser estuprada. Mas é aí que a coisa pega. Walcyr Carrasco parece ter com suas personagens femininas que saem do estereótipo de mãe dedicada e batalhadora uma vibe sempre corretiva. Em algum momento da história elas são corrigidas pelo “destino” sem dó nem piedade e finalmente se redimem. É o arquétipo da Maria Madelena, do pecado cristão, da surra corretiva (aqui me parece do estupro corretivo) seguido finalmente pela redenção. Fica muito claro isso após uma moça ser estuprada por vários homens e não ser levada a um hospital, tomar um banho que fosse. Vai direto pro culto.

Já para o filho do empresário rico, que usa droga de rico, cocaína, o ambiente da overdose é quase asséptico de tão limpo. O rapaz vai pra uma clínica e toma um banho. Ele não se envolve com a sujeira das ruas. Vai ver por isso o Ministro Barroso sugeriu descriminalizar só o uso da maconha, né? Crack é coisa de gente suja, pobre e quase sempre preta (como mostravam as cenas da novela, exceto pelo belo casal branco) e envolvida com o crime.

A culpabilização do desejo e do sexo. Em nenhum momento na trama foi mostrada alguma relação sexual ou amorosa saudável. Sexo era sempre moeda de troca de algo. Jamais de desejo por si só. Sempre uma forma de ganhar dinheiro e poder. Angel e Gui vivem num vai e vem e ela não parece mesmo gostar dele, parece fuga. Mesmo Giovanna e Antony, que parecem ter um sentimento genuíno um pelo outro, estão mais preocupados com dinheiro e fama do que com o que sentem um pelo outro. Fanny é culpada por desejar um homem mais novo a qualquer custo e assim perde sua noite de glória, mas acha um novo rapaz jovem. Lyris é assassinada pelo namorado, a quem se referem como: “perdeu a cabeça”, vejam bem. Perdeu a cabeça por ciúmes, amor. A culpa é dela, portanto. O de sempre. Pia, como resultado de sua relação com um cara mais jovem, engravida, faz um aborto e é por este condenada, sendo que ele a engravidou só pra casar com uma mulher rica: só que na cena ele sai todo dono da razão. Mas finalmente reata o namoro e se redime.

E nada para mim foi mais emblemático, justo na quinta feira em que o Congresso aprovou o horrendo Estatuto da Família, do que a cena em que a família formada por Alex, Carolina e Angel (homem, mulher e filha) está sentada à mesa, como boa família, mas mal se falam. Destroçada que é. Problemática e falsa que é a família rica e feliz.

Por último, Angel fica na última cena do casamento me parecendo demonizada quando na verdade, para mim, finalmente cresce, rompe o ciclo de abuso e entende o quanto era manipulada por Alex, se vinga e toma as rédeas de sua vida nas suas próprias mãos, o que fica muito claro no olhar de desprezo que dá para Fanny. Mas nas redes sociais era chamada de prostituta e capeta pra baixo ( e aqui nesse blog prostituta não é xingamento; pensando bem, nem capeta) quando o maior vilão da novela, Alex, mal era citado.

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E é essa a novela que afinal temos: moderna, ágil, fotograficamente bela por fora, mas que por dentro reforça uma moral dos anos 50, em que mulheres são forçadas a se prostituírem, tem culpa e morrem para se redimir ou são salvas pela religião ou pelo casamento: ninguém vai ser feliz sendo independente. Onde a escolha pelo aborto é reforçada como culpa, onde a relação abusiva de um homem com uma jovem é romanceada e ganha até torcida. Onde qualquer mulher que saia do estereótipo da Virgem Maria, a mãe devotada do lar (Carolina não era porque não foi vigilante com a filha) será punida ou vista como uma mulher pérfida e fria (olhar de Angel, no final). Nada de novo sob o sol da teledramaturgia. É só mais um Direito de Nascer com nova roupagem. Prendeu a atenção brilhantemente, mas não muda em nada o papel imaginário da mulher na teledramaturgia brasileira.

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Por último, como noveleira que sou, quero deixar meus parabéns , além de pra Grazi que esteve fantástica, pro Mauro Mendonça Filho pela direção,  pra Marieta Severo e Eva Wilma que estiveram maravilhosas e m especial para Drica Moares que merecia um caminhão de Oscar, Emmy, Kikito, APCA, etc etc: foi foda, mulher.

Século XXI e as Fiscais de Foda Alheia

Estamos no século XXI, ano de 2015, jazin 2016. A essa altura do campeonato, a gente devia ter carros voadores, skate voador, disco voador e quiçá, teletransporte. Cura do câncer devia ser feita tipo vacina do zé gotinha. Mas, a vida  é uma caixinha de surpresas e resolveu mesmo é fazer máquina do tempo. A gente abre a internet e, paf!, o século XXI te diz na cara: “te cuida, querida! Aqui é o século XX, anos 50.”

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Aí que as pessoas arranjaram novos jeitos de achar parceiros, não importa se pra sempre ou se pra uma rapidinha (beijo, Tinder), mas a vida vem e taca na nossa cara os anos 50 e os fiscais de foda alheia . Minha filha, o que você tem a ver com o fato de a pessoa trair o marido? Vai lá saber se é um relacionamento aberto. “Ah, mas é contra a minha religião e os meus preceitos morais.” Pois é, querida, os seus. O mundo não gira em torno do seu umbigo, né? E se for um relacionamento aberto, lésbico, gay, poliamor,  etc.  Conceito de família é só homem e mulher e por aí vai. “Nossa, que horror, Deus castiga!” O seu Deus, né, fofo? A nossa Deusa tá de boas, abençoando, porque toda forma de amar vale a pena.

“E essas roupas? Isso é coisa de vadia, de puta.” Minha senhora, meu senhor, que vida feliz os senhores devem ter, né? Já que maior preocupação de vocês é o tamanho do meu decote ou da minha saia. Ademais, se o Congresso Nacional é a casa do povo, aqui deveria ser permitida a entrada de gente de bermuda, chinelos, etc. Não é a roupa que faz o homem ou a mulher. É a atitude perante as outras pessoas, porque é mais fácil ser temente a Deus do que ser verdadeiramente irmão e solidário com o próximo, seja quem esse próximo for.

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E nessa toada tenho medo de um dia abrir o computador ou tablet e, ao clicar em qualquer coisa, só abrir o link do finado Jornal das Moças. A única reação possível é: bora se amar e botar minissaia, gente, enquanto o disco voador ou o meteoro da paixão não vêm.

Alex, Angel e Complexo de Cinderela

Verdades Secretas tem feito muito sucesso desde a estreia e vem mantendo bons índices de audiência. A novela é bem produzida, a edição e a cenografia são de primeira. As cenas de nudez e sexo em vários momentos me remeteram aos filmes-clipes de Adrian Lyne nos anos 80/90 , como “9 e ½ semanas de amor” (saudades de Mickey Rourke gato). Mas novela é folhetim, é romance e daí que Angel é a nova Cinderela.

A nossa heroína, como toda boa heroína de novela, é linda, jovem, boa alma, bondosa (talvez daí o nome virtuoso Angel), carinhosa, estudiosa etcetera e tal, porém pobre e qual seu grande sonho (dela e de 99% das garotas da idade dela)? Isso mesmo, ser modelo. E aí, ao invés de ir limpar a casa e se recolher ao borralho, o que ela faz para salvar a família? “Book rosa”, e se prostitui por meio da agência de modelos (vamos frisar de novo que eu nada tenho contra prostituição, inclusive apoio a regulamentação da profissão e a mobilização da categoria, mas isso é assunto pra outro post).

E aí chega o príncipe que irá salvar a princesa do borralho, ops não é o príncipe é o Cristhian Gray… não pera… Enfim, chega o salvador-macho-dominador que irá tirar a Cinderela-modelete da prostituição. Aliás, não entendo a faceta hipócrita do público brasileiro. Duas senhoras casadas na novela das 9 é: ai-que-nojo-vamo-orar-e-desligar-a-tv-que-isso-não-é-de-deus. Um homem manipulador e castrador assediando uma jovem na novela das 10 tá de boas, porque ser prostituta de um homem só, rico e lindo a sociedade aprova, ele pode te comprar (ele falou isso), que tá tudo lindo, que você é como um bibelô. A sociedade não vê no cara bonito e rico, autoritário, estúpido, dominador etc. etc. uma má pessoa. ELE TÁ SÓ MUITO APAIXONADO. É O AMOR. Ah tá, que bom, ufa, pensei que era uma violência e relação doentia.

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E aí a Camila Queiroz (Angel),vai ao Faustão e diz que as mulheres a param na rua e dizem que torcem pelo amor de Alex e Angel. Migas, isso não é amor. É abuso. Favor assistir o vídeo da Jout-Jout umas 15 vezes seguidas e repitam comigo: ciúmes não é demonstração de amor é só machismo e sentimento de posse mesmo. É algo da estrutura do patriarcado (me deixa que sou de humanas) reforçar esse sentimento de posse, principalmente do homem com relação à mulher, essa valorização do ciúmes como um sentimento que denota grandeza quando na verdade é um sentimento de insegurança, mesquinhez e pequeneza. O ciúmes te mantém quieta e cordata, o que é o oposto de você dona de si mesma.

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Mas e aí, por que mulheres adultas, bem informadas, em pleno 2015, continuam achando que o príncipe encantado virá num cavalo branco ou numa ferrari vermelha,ou sei lá,  sendo ele um Alex ou um Christian Gray, homens dominadores e violentos, que só olham pros seus umbigos, e as salvará de tudo? Síndrome de Cinderela. Reparem bem nos dois personagens: ambos ricos, de sucesso e bonitos. Ambos se apaixonam pela Cinderela-mocinha, mas ela só terá o amor dele, príncipe, se o entender e ceder aos seus caprichos. Em troca, ele lhe dará milhões de presentes e serão muitos felizes até o novo lançamento de iphone (ou, seja, uns 6 meses). Ou então a Cinderela poderá persistir e resistir e mudar o amado, ma non tropo) e também viverão felizes até o novo Macbook ( 1 ano).

O Complexo de Cinderela foi primeiramente descrito por Colette Dowling, no livro de mesmo título, e é apresentado como o medo que algumas mulheres têm da independência, quando elas têm um desejo inconsciente de serem cuidadas por outros. O complexo é dito para se tornar mais evidentes à medida que uma pessoa envelhece. Recebeu o nome de Cinderela porque é baseado na ideia de feminilidade retratada no conto, onde uma mulher é bonita, graciosa, educada, apoiadora, trabalhadora, independente e difamada e invejada pelas outras mulheres (suas rivais), mas não é capaz de mudar sua situação com suas próprias ações: para isso, precisa ser ajudada por uma força externa, geralmente um homem, o príncipe.

E Colette Dowling continua: “Complexo de Cinderela”, que ocorre quando há um sistema de desejos reprimidos, memórias e atitudes distorcidas que se iniciaram na infância, na crença da menina de que sempre haverá alguém para sustentá-la e protegê-la. Independentemente do vigor investido na tentativa dessas mulheres viverem como adultas, a menininha dentro de cada uma sobrevive assombrando seus ouvidos com murmúrios assustados. Essa crença se solidifica na medida em que vai sendo alimentada com o tempo, mantendo na mulher um enorme sentimento de inferioridade, causando insegurança com amplos efeitos, que resultam em todas as espécies de medos interiores e descontentamentos, onde as mulheres tendem em geral a funcionar muito abaixo do nível de suas habilidades básicas. 

Me digam se o que está escrito acima não é a cara da Angel, da Carolina (mãe da Angel) e até da Fanny, que é a personagem melhor construída da novela (Marieta divando lindamente)? São todas mulheres esperando serem salvas pelo mito do amor romântico de um homem-provedor-castrador e para isso deixam de ver em si mesmas o que têm de melhor e serem simplesmente livres. Claro que as mulheres não desenvolvem esse Complexo do nada, porque são fracas, etc. É o que a sociedade nos incute, ensina, legitima e reforça (por meio, inclusive, de novelas assim). E, se a gente aplaude isso como amor, o que será que a gente faz com a gente mesmo? O que você entrega para manter o parceiro está dentro do seu limite? O que ele retribui? Você está feliz? O quanto você ainda é você dentro dessa relação? Essas são as perguntas a serem feitas, depois pergunte a si o que Jout-jout pergunta no vídeo e descubra se é amor ou abuso: afinal, Rodrigo Lombardi te salvando só existe na tv. O resto, se for daquele jeito, é um caminhão de cilada. Foge, Bino, você pode ser uma Cinderela de olho roxo, na melhor das hipóteses das estatísticas da violência doméstica.

Sete Vidas, uma novela de gente madura e analisada

Cresci sendo noveleira. Madrinha assistia a todas as novelas do dia, e eu junto. A TV formou parte do meu ser, e digo que foi mais para o bem que para o mal. Lembro até hoje de Gabriela catando aquela pipa trepada no telhado: eu devia ter uns 6 anos.

Amo quando tem novela boa pra ver. Mas tudo ok quando uma novela é ruim, porque continua tendo outras em algum lugar. A novela ruim da vez, e olha que prometia ser ótima, é Babilônia. A novela delícia é Sete Vidas. No meio, de recheio a conferir, temos I Love Paraisópolis (Isso ficando só nas da Globo. Porque tem as da Record também).

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Mas queria falar é da minha paixão: Sete Vidas, aka Sete Filhos de Amyr Klink. Ao assistir a novela, me lembrei primeiramente de uma fala de Nora Ephron nos extras do DVD de Harry & Sally. Era mais ou menos isso: a comédia romântica cristã tem o conflito baseado no externo – alguém ou algo que impede o casal de ficar junto. Já na comédia romântica judaica, o que impede o casal de ficar junto são as neuroses de cada um deles. Daí que não temos mais vilões bolando mirabolantes planos do Cebolinha para sabotar o amor dos pombinhos. Basta uma palavra errada, um atraso, um esquecimento, enfim, a vida como ela é, e está estabelecido o conflito, os rompimentos, o vai e vem. E é disso que é feita Sete Vidas.

Aliás, Sete Vidas me lembra mesmo Harry & Sally, um dos meus filmes favoritos. É uma novela de muitos diálogos, não longos e intermináveis, mas dinâmicos e variados. No twitter é chamada de “novela da DR”. Mas, novamente, a novela usa a matéria-prima da vida: conversas. Conversa sobre nós mesmos, dúvidas, medos, possibilidades. O que fazemos todo dia no bar, no inbox, no whatsapp.

Sete Vidas é uma novela de gente analisada. Não basta uma das mais encantadoras personagens ser uma terapeuta em conflito: as boas pessoas dali, aquelas com quem a gente se identifica, são capazes de analisarem si mesmas, seus sentimentos, os dos outros, voltarem atrás, se perdoarem, perdoarem o outro, mudarem, terem empatia. Não é isso que faz de uma pessoa uma pessoa boa? Um ser bacana? Ser alguém sempre em reconstrução?

Uma das pessoas mais bacanas é a Esther, personagem da Regina Duarte, lésbica, viúva e mãe dos gêmeos gerados pela doação de Miguel.  A capacidade de analisar a si mesmo nos faz sermos pessoas maduras e capazes de rir de nós mesmos, e isso é algo que Esther faz com maestria e leveza.

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A novela tem  quase que só personagens brancas e de classe média ou alta, na sua maioria, coisa que incomodou bastante no início da novela: mas a falta de diversidade racial e social foi amenizada com a chegada da Esther e sua amizade com a empregada da filho, Graça, e o filho desta, Carlito. O núcleo gerou cenas de ótimo conteúdo sobre discriminação social e racial, sem a cara de textão ou propaganda do MEC – ao contrário do que acontece frequentemente com a personagem de Fernanda Montenegro em Babilônia.

Por último, acho que a novela coloca como mocinha, não Júlia, nos seus 20 e poucos anos e seu amor por Pedro (larga dele fica com o Felipe!), e sim uma personagem que é mais próxima da telespectadora:  Lígia  e seus quarenta e algo e seu amor pelo arredio Miguel, aquele que foge até do laço do cadarço do sapato, ao que parece.  Lígia é uma mulher madura, que ama com todo o coração, mas tem carreira, filho, mãe chata, irmã, amiga que pisa na bola mas que é gente e ama e por aí vai.  É classe média, tá fechando as conta no final do mês, de boas. Mas, novela tem que sonhar ao menos um pouco, né?

E é assim que me dou conta que que ao menos que a trama seja muito dinâmica, bem dirigida, os atores bem escalados, estejam bem no papel, a trama bem amarrada, como Cheias de Charme e Avenida Brasil, não tenho mais saco praquela coisa muito fantasia de vilão maluco sabotando tudo com planos mirabolantes. Torço por mais novelas humanas com pés no chão e que, na próxima incluam mais negros, negras e suburbanos, enfim, diversidade.

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(todo mundo madurinho e analisado agora?)

O feminismo fulanizado

O feminismo de internet se fulanizou. É um feminismo que está sempre com o fígado em revolução. A bile nas alturas. Uma adolescente enraivecida com os pais. Por isso, quando jornalistas nos perguntam quais são nossa lutas, as lutas são difusas. Não me identifico com esse feminismo e não consigo me declarar feminista nesse meio.

Sim, tem gente chata na nossa vida, gente machista, misógina, preconceituosa de vários tipos e níveis. Escolhi não me aborrecer o dia todo ou nem emprego consigo ter, passaria o dia brigando e discutindo. O que posso fazer nessa horas varia do pito, quando conveniente e possível, ao escracho, da ignorância ao fazendo a egípcia, e nas redes sociais dando um unfollow aqui ou um mute ali, dependendo do grau de amizade. Mas olha, isso pouco muda o cenário machista do país, viu?

Quando li O Segundo Sexo, eu tinha uns 19/20 anos: o que mais me chamou a atenção foi a insistência que Simone de Beauvoir dava para que as mulheres fossem independentes financeiramente. Vejam bem, se temos nosso dinheiro, podemos sair de nossos casamentos, de relações, da casa  dos pais, podemos mudar de emprego se temos qualificação profissional (oi PRONATEC rs) e se também dispomos de creches públicas ou acessíveis quando temos filhos. Sendo assim, não estamos à mercê de ciclos de abusos: seria bem mais fácil. Não é só isso que pesa, eu sei, mas pesa bastante.

frases-e-pelo-trabalho-que-a-mulher-vem-diminuindo-a-dis-simone-de-beauvoir-1423Parece simples, mas não é. E não é  principalmente porque nossos salários ainda são mais baixos e não dispomos de creches, as mulheres de classe média dependem de tirar outras mães de casa – elas deixam os filhos não sabemos como, e ainda reclamamos delas.  Não dividimos o trabalho doméstico e de cuidados com a família por igual. Sequer controlamos, financeiramente e moralmente falando, nossos direitos sexuais e reprodutivos, porque neles o Estado e religião se intrometem. E controlar nossas vida sexual e consequentemente o número de filhos é essencial para nossa liberdade de ir e vir e, novamente, fugir de ciclos de abusos, também.

Nesse contexto, ver a pauta feminista tomada por birras me entristece. Mas é mais fácil ganhar likes e RTs nessas questões tão pequenas que geram celeuma do que nessas grandes pautas em que há um grande consenso, eu sei. No entanto, precisamos fazer as grandes pautas circularem, ou nossos direitos morrem. Taí o grande desgovernador de SP questionando a licença maternidade de 6 meses para funcionárias públicas estaduais. Não vamos deixar mais essa, espero que o movimento feminista pressione e se una. É urgente.

img_0803Agora imagina um país que dê, de verdade, iguais condições salariais às mulheres, creches para todas as crianças que precisem, proteção no emprego, na gravidez,  acesso pleno ao planejamento familiar, num Estado laico, para que possamos exercer nossos direitos sexuais e reprodutivos, para casadas e solteiras. Aí sim teremos mulher empoderada. Aí sim, a gente não precisa ficar vivendo de picuinha besta.

Um Feliz Natal Animal pra você

Era uma vez o membro mais famoso de uma família de 5 pessoas ( eu, irmã, mamãe, papai e madrinha) que vivia num apartamento em Brasília. O famoso Tupi. Um vira lata, mistura de pinscher com bassethound.

Papai escolheu Tupi a dedo para nos dar, a nós, filhas, e segundo ele era o mais animadinho e espertinho da ninhada. Logo soubemos que na verdade hoje em dia seria chamado de cão hiperativo. Era da cor do bassethound, mais alto e ligeiramente mais gordinho que os pinschers mas o humor era de pinscher mesmo: nervosinho, esquentadinho e latia até pra mosca voando. Um ótimo guardião de um apartamento que vivia com a porta destrancada.

Depois que eu e irmã crescemos, a gente não mais corria pro Tupi correr atrás, ele amava isso, mas sem problemas, as crianças do prédio se incumbiam disso. Gostavam tanto que se papai demorava a descer com ele elas tocavam o interfone e perguntavam que hora que o Tio ia descer com o Tupi.

Uma vez uma amiga da minha irmã chegou na portaria do prédio mas tinha esquecido o apartamento e disse: ah vou na casa da Taicy,  e nada, o porteiro era novo e não conhecia todos pelo nome. Tentou meu nome, do meu pai, da minha mãe e da madrinha. Nada. Aí lembrou. TUPI. O porteiro; AH! No 503! Pois é, famoso mesmo na família era ele. E olha que papai volta e meia dava entrevista pra tv.

Dez anos depois, irmã já casada e morando a muitos km do plano piloto parou no seu bairro para abastecer o carro. O frentista: ahhhh eu lembro da senhora! Oi? Seu pai descia com um cachorrinho ( meu pai comprava cigarros no posto da frente de casa e sempre ia com o Tupi, que latia pra todo mundo, obviamente) . E tascou: como está o cachorrinho? Minha irmã riu e informou que infelizmente ficou velho e faleceu.

A primeira vez que o Tupi, cachorro de apartamento, viu um gato, que tivemos por pouco tempo, ele estranhou. O gato ganhou o nome de UFO (unknow flying object) diante da estranheza que o Tupi sentai por aquele animalzinho, mas isso não durou muito. Logo o Tupi resolveu adotar o gatinho, uma mãe, e protegia o bichinho e o carregava na boca, como os animais fazem com filhotes.

Tupi não comia ração, comia tudo o que a gente comia: chocolate, biscoito recheado, doce de leite (amava)  e principalmente queijo. Uma vez madrinha esqueceu um ovo de páscoa  meio aberto na mesa de centro. Tupi comeu tudo, passou mal e ficou umas semanas nem querendo ver chocolate. A gente chegava um pedaço no focinho dele e ele virava  a  cara.

Mas a melhor foi no tempo da inflação altíssima quando mamãe compro filé mignon que estava na oferta. Papai que colocava a comida do Tupi a antes de ir almoçar (se a gente colocasse ele não comia) e foi partir um pedaço do filé pro cachorro. Mamãe quase teve um treco e meu pai respondeu: o meu cachorro come o que eu como.

De outra  vez a gente viajou de férias para acampar e deixamos Tupi na casa dos meus avós em Goiânia. Ele ficou triste e não quis comer, minha avó preocupada mandou meu avô comprar um frango bem tenrinho para fazer canja pra ele, talvez estivesse doentinho. Nem preciso dizer que ele comeu até lamber os beiços. Isso, entre outras coisas,  fazia uma amiga da família dizer que na próxima encarnação queria nascer Tupi.

Quando papai foi pro hospital e veio a falecer depois a gente achava que o Tupi, já velhinho, uns 15 anos, ia morrer junto. Ele ficou uns dias esperando sentado na poltrona como sempre fazia. Mas depois acho que se deu conta que seu dono preferido não ia voltar e foi viver a vida. Mas nunca mais foi tão alegrinho.

E nesse Natal estou aqui pra lembrar que cachorros são assim: leais, divertidos e amáveis acima de tudo, e amáveis porque são muito amados.  E se existiu um deus menino ele só queria que a gente fosse assim bacanas como os cachorros. Então desejo a todos no Natal muito amor e muitas lambidas, literais, dos nossos bichinhos, e figurativas daqueles que nos amam e acarinham. Um feliz natal cheio de amigos como o Tupi ou esse cachorro aqui me me inspirou a escrever para  vocês.

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Eu e irmã com o Tupi <3

( esse post  também é dedicado a Deborah, Ricardo, Vinícius e claro, a Phoebe)

Vivendo e crescendo

Vejo muitos posts de amigos e amigas explicando suas origens e como isso se relaciona com suas escolhas atuais e quem são hoje em dia e toda vez penso em falar um pouco de mim e de onde vim mas sempre me breco num ponto confuso que é quem sou eu hoje.

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Sou filha de pais ateus, de esquerda e de classe média plano piloto brasiliense. Estudei nas melhores escolas que eles puderam pagar (meu pai nunca teve carro zero, mas sempre tivemos boas escolas e muitos livros) e frequentei  um clube de elite (clube é a praia de Brasília). Escolhi meu curso – Direito – pra fazer o que todo brasiliense faz: concurso público e ter uma vida estável.

Eu malhava, me bronzeava, comprava ( muito) as roupas das marcas certas, já fui loira e queria ser procuradora. Mas aí veio uma gravidez e tudo mudou. Não fiz a pós e o mestrado que sonhava fazer, não fiz concurso para procurador, mas tenho dois filhos bacanas e lindos. Fui trabalhar em um lugar com muita gente legal e com origens diferente da minha – a maioria trabalhou para pagar a faculdade e não ganhou o primeiro carro de papai e mamãe, como eu ganhei. Gostavam de coisas que eu não conhecia e aprendi a curtir. Aprendi demais lá.

Sempre me defini como feminista, influência do Malu Mulher (juro) e de Simone de Beauvoir e Rose Marie Muraro, que li aos 20 anos. Mas conheci o ativismo feminista na internet e nossa… como mudei!  Menos fútil, menos materialista, menos preocupada com o que pensam de mim, menos insegura. E mais cheia de amigas e amigos que nunca.

Mas parte de mim ainda é a menina dondoca e patricinha que só queria ter sucesso profissional, ser loira e linda e comprar coisas bonitas. Aí me pego pensando em comprar e gastar e ser algo para alguém admirar e o meu outro eu diz: ACORDA! Você quer ser isso por você mesma ou pelo olhar dos outros? E sempre é a tal da aprovação. Aí eu acordo do sonho-pesadelo e dou a volta por cima de mim mesma me relembrando que hoje o ser importa mais que o ter, que me sinto mais completa assim, que quem me ama me ama como sou. Claro que isso tudo a base de muito diálogo interno e muita terapia (recomendo terapia, terapia salva) e quase aos 43 tenho que vir me reformulando e reconhecendo a mim mesma permanentemente. Nunca pensei que chegaria aos 40 e poucos ainda insegura, mas de outras formas, acho que esse negócio de crescer não para nunca né?

 

Como comprar seu vibrador ou divertindo-se num sábado à noite

Você já tem um vibrador? Já pensou em ter? Se não pensou, deveria. Garanto que é um brinquedo muito útil, melhor ainda que seu celular. Juro. E até mais barato.

Primeiramente precisamos deixar claro dois pontos: o vibrador não é competidor ou  substituto de um homem, é só uma outra forma de ter prazer, junto com a masturbação. Se você não se masturba, deveria, porque quem não se toca não conhece seu próprio prazer e não saberá também guiar o parceiro até lá. Os rapazes não nascem com mapas sobre nosso prazer, nem nós sobre os deles, aprendemos mutuamente a cada relação, pois as pessoas são diferentes, reagem de formas diferentes a toques, beijos, palavras.

Mas voltemos ao vibrador. Ele é uma forma deliciosa de você tanto se conhecer como se divertir sozinha ou  com o parceiro, sim, muitos caras gostam de observar ou usar o vibrador com você e até existem modelos de vibrador feitos pra serem usados em conjunto. Vem comigo nessa viagem. Cada tremida é um flash! As dicas são baseadas na minha experiência pessoal, ok?

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1 – Em primeiro lugar ao comprar não indico os feitos de vinil, fuja deles! são os mais baratos, mas duros de doer, literalmente doer. foi o meu primeiro, logo parti pro segundo. prefira os de gel ou de silicone (o melhor, mais higiênico e fácil de limpar), tem uns coloridos bem legais…

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2 – Muito grande? muito grosso? No artificial pode doer ou no mínimo incomodar. O velho e bom tamanho comercial acho mais indicado(15 cm) pois vibradores, por mais macios que sejam (soft skin), são mais duros que pênis e muito grandes ou grossos incomodam. É claro que tudo depende do uso, se será só estimulação do clitóris, penetração anal ou vaginal. Mas nesse tamanho permite usos mais versáteis. O grande é difícil para penetração, principalmente anal.

3 – Para as mais avançadinhas para penetração anal indico os mais largos na base. existem inclusive modelos específicos para a prática, os pra homens são curvadinhos pra alcançar a próstata e os de iniciantes são mais finos.

4 – Vai um gelzinho aí? Pessoalmente nada melhor que o KY da Jhonsons mesmo, sou afeita a alergias e nunca tive problemas com ele, mas já usei o Olla também. Vibradores repito, não são pele, então se for pra penetração, principalmente anal ( tem quem curte, e isso não é crítica só um comentário), use o gel. Para vaginal vai depender do seu grau de lubrificação, bem como para o estímulo do clitóris.

5 – Indico usar camisinha no vibrador para penetração. torna mais fácil, mais confortável, evita possíveis alergias (sim acontece viu? já que é borracha mais dura), melhor de limpar e principalmente com isso aumenta a vida útil do brinquedinho. Tive um que estragou de tanto lavar (ops), entrou água na bateria. Enfim, camisinha sempre. Até no vibrador.

6 – Os  vibradores com estímulo clitoriano são os melhores! Como o rabbit igual ao do Charlotte no Sex & The City (lembram que ela quase viciou??) mas não precisa começar com eles porque são bem caros. Se puder comprar lá fora , acho uma boa , porque é a metade do preço. Uma amiga me trouxe um rabbit na mala morrendo de vergonha de ser pega na alfândega.

7 – Há vibradores feitos pra usar mesmo a dois: o We-vibe (maravilhoso, mas também dá pra usar sozinha, mas ó… melhores orgasmos da vida!), o anel peniano vibratório ( achei chato de limpar, gruda nos pêlos e estragou rápido, mas não é muito caro)  e o pênis duplos para as meninas <3.

8 – Por último: você tem vergonha de ir a sex shop do bairro? Dá pra comprar pela internet em um monte de sites e eles entregam em pacote fechado, papel pardo e tal e não dá pro porteiro saber o que é #dica. Mas também pode ir à loja tranquila com as amigas, em geral ao pessoal é bem treinado para deixar a cliente bem a vontade, falam de vibrador como se fosse de pizza, novela, etc. E as lojas costumam ter promoções bacanas cursos de pompoar (indico muito), de strip tease e outros.

Essa coisas não são para você agradar o parceiro que isso aqui não é a dicas de nuóva. Essas dicas são pra você agradar a si mesma e gozar muito porque gozar é tudo de bom na vida. Sozinha ou acompanhada.

E pra quem não se animou a se tocar com esse post, a Rosana deixa um recado…

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