Amores muito possíveis

As personagens masculinas e femininas não fogem muito dos conflitos básicos de desenvolvimento da trama: amor/paixão, família, dinheiro/ambição. Se o gênero do personagem for masculino ou feminino isso terá diferença fundamental nos principais conflitos a serem desenvolvidos isso porque em geral se o personagem for homem o principal problema será dinheiro/poder, depois virá o conflito  amoroso e talvez junto o conflito familiar. Se for mulher o principal conflito passa a se dar no campo amoroso, podendo ser no amor familiar ou no amor com o parceiro, depois poderá haver, ou não um conflito envolvendo poder (no trabalho, empresas da família, etc). Afinal os grandes dramas da humanidade são mesmo amor, família e dinheiro, né?

E daí temos uma personagem feminina com um drama amoroso e familiar sendo muito bem defendida pela Suzy Rêgo (que a internet toda já brincou que pode fazer um filme sobre a vida da Dilma). Acontece que acham inverossímil a forma como a personagem defende o marido e aceita o relacionamento extraconjugal dele e consequentemente a sua bissexualidade. O texto, e a interwebs, só faltou chamá-la de corna mansa.

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Eu noto uma tremenda confusão sobre bissexualidade e homossexualidade e relações não monogâmicas. Mas boa parte da culpa disso é do texto que não deixa claro o tipo de relação que Claudio e Beatriz tem e a falta de um núcleo próprio para Beatriz que seja extra-família. Um núcleo com trabalho, amigas, algo para que ela pudesse viver que não orbitando em torno do problema, mas… Beatriz trabalha com Cláudio… puxado.

Ademais o texto da novela  trata a bissexualidade como se fosse o casso de um homossexual enrustido, como se fala lá, quando na verdade o bissexual sente desejo e amor pelos dois sexos. Ademais não é impossível que alguém ame duas pessoas ao mesmo tempo. Isso acontece milhares de vezes todo dia por aí mas ninguém comenta nem o Tio Mark deixa postar esse status de relacionamento do feissy, e isso não tem nada a ver com baixa auto estima, são só as diferentes possibilidades de amar.  A repressão social não deixa que se comente os diferentes tipos de relacionamentos abertos (cada um tem o seu ponto de equilíbrio) mas isso não quer dizer que eles não existem e que as pessoas não são felizes, tem libido e auto estima elevadas.

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Sendo assim reduzir a personagem da Suzy Rêgo de uma mulher que ama o seu marido, vive feliz com ele, é equilibrada (e por isso passou a ser chamada de chata, notem que todas as pessoas equilibradas são chatas) a uma dona de casa desesperada para manter o marido e sem amor próprio é muito pouco. Torço pelo triângulo amoroso e espero conferir mais na novela, mas novelista é igual juiz, nunca saberemos o que  virá.

Depressão, gênios e demônios

Foi com espanto que o mundo recebeu a notícia da morte do ator Robin Williams na segunda-feira, dia 11, e com mais espanto ainda o fato da causa da morte: suicídio.

Segundo os vorazes sites de fofocas, Robin lutava contra as drogas, álcool e depressão há mais de 20 anos e teve uma forte recaída. Nas redes sociais tivemos de lamentos a condenações. O de sempre quando se trata de depressão e sua pior consequência, o suicídio, mas tivemos bem pouca compreensão.

A depressão não é, como se diz, uma doença moderna, ou mal moderno. Andrew Solomon, jornalista e escritor do já célebre – O demônio do meio dia – que eu li, amei e recomendo, trata de desmistificar a falácia:

“Esse é um mito que tenho interesse em destruir. Comecei pesquisando conceitos históricos de depressão. Hipócrates, há 2,5 mil anos, descrevia a depressão nos mesmos termos com que a descrevemos hoje. Além disso, dizia que era uma disfunção orgânica do cérebro, melhor disparada por fatores externos. Já Platão afirmava que era um problema filosófico, melhor resolvido por meio de conversas. Então, a distinção entre os modelos médicos e psicodinâmicos da depressão já existe há cerca de 25 séculos. Com intuito de observar melhor se era um fenômeno ocidental, me aventurei a estar em uma grande variedade de sociedades. Observei a depressão entre os sobreviventes do Khmer Vermelho do Camboja, entre esquimós inuítes, e fui até o Senegal, onde participei de sessões do tratamento ritual da doença, bastante populares lá. Constatei que a linguagem usada para descrever a depressão varia um pouco, mas a ideia de que algumas pessoas às vezes se sentiam inexplicavelmente divorciadas de todas as oportunidades e de tudo o que dava sentido para suas vidas existia em qualquer sociedade que pude encontrar.”
(Andrew Solomon: “O oposto da depressão não é felicidade, mas vitalidade”)

Enfim, esse trecho foi só pra dizer que tudo que o senso comum sabe sobre a depressão, sobre dizer que a falta de força de vontade, falta de Deus, e o escambau está errado. E sobre isso acho que vocês  já leram vários textos. Mas esse texto aqui é pra dizer que eu tive e tenho depressão e sobrevivi e chorei muito vendo Sociedade dos Poetas Mortos pela milionésima vez, um dos meus filmes favoritos, e uma grande performance do Robin Williams, com outros olhos.

Aquela cena em que ele vê o personagem do Robert Sean Leonard, o Neil Perry, saindo da peça arrastado pelo pai e sendo forçado a entrar no carro…Naquela cena, ainda sob o impacto da notícia de sua morte, vi nos olhos dele uma compreensão que ia além dos olhos do personagem, vi um brilho de tristeza, ele pressentia que ali podia ser o fim.

A depressão é uma força que draga todas as suas demais forças, de se levantar da cama, de comer, de sorrir, de viver. Não adianta ninguém te mostrar que há sol nas árvores, você simplesmente não vê. Ou vê, se procurar ajuda, o tratamento certo que inclui terapia e remédios sim, mas acima de tudo, nada disso funciona se fora não houver amor, se não houver carinho, amigos, família, amores. E a essas pessoas, meu muito obrigado.

Se você tem perto de você alguém em depressão profunda saiba que a morte é sim uma possibilidade real e que mais que tratamento é necessário ter paciência, um pouco de abnegação, sim, mas principalmente carinho compreensão e amor porque com amor tudo passa. Leiam, se informem e ajudem ao próximo.  Nunca pense que é só uma chantagem emocional, é um pedido de socorro. E fique em paz, Robin, obrigado por tudo. É tarde para você agora, espero que o apoio chegue antes pra tantas outras pessoas, assim como mais amor e menos julgamento.

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O rebuceteio exala sexo

E O Rebu começou quente, edição cinematográfica, cortes rápidos, fotografia caprichada (cargo de Walter Carvalho, responsável por Madame Satã e Lavoura Arcaica, entre outros).  É remake de uma novela de Bráulio Pedroso, considerada inovadora em sua época pela narrativa em três tempos já que tudo se passa numa noite, o crime acontecido numa festa, no dia seguinte a esse crime e na sua investigação, o que leva a fatos passados.

O título é uma referência à expressão criada por Ibrahim Sued, famoso colunista social, para “rebuceteio”, que significa aglomerado de mulheres bonitas ou confusão.  Por exemplo, esse blog é um rebuceteio. 🙂

foto: GShow

Angela, personagem de Patricia Pillar

A estética de O Rebu me lembra muito Walter Hugo Khoury, cineasta brasileiro que gostava de sexo nas classes altas. Tudo muito sacana e muito chique, claro, pobre sacana nunca é chique, é no máximo engraçado. A série respira sexo. Até agora não sei quem pega quem, acho que todo mundo pega todo mundo, na verdade. Patrícia Pillar está linda, divina, um olhar matador, inclusive acho que ela está também querendo me pegar toda vez que ela olha pra tela da tevê. A mulher está exalando sensualidade.

foto: GShow

Duda (Sophie Charlotte) dança para Antonio Gonzalez (Michel Noher) durante a festa

Tem gente que tem dúvidas sobre a relação de Patrícia e de Sophie Charlotte que faz sua filha adotiva na série. Olha, não é a gente que tá maldando a coisa, é a série que tá exalando sensualidade pelos pixels da tevê. Juro. Acho que é só carinho de mãe e filha mesmo (ou não, sei lá, todo mundo nesse jogo aí guarda mil segredos loucos, não boto nem meu mindinho no fogo).

Jesuíta Barbosa, um dos garotos sex appeal do momento está na série, é gato, e ótimo ator, e essa semana nos brindou com uma linda cena de ménage com ninguém menos que Camila Morgado que faz uma socialite muito doida e inconsequente.

O sexo na série não é reprimido, as mulheres são sexualmente livres (como todas nós deveríamos ser, né?), mas acho que isso se deve ao ambiente social da série, a classe média alta. O único momento mais repressor veio da policial, interpretada por Dira Paes, membro da classe média baixa, como deixou clara a ambientação da cena da casa da personagem. Também não há por parte do público reclamação quanto ao conteúdo sexual explícito da série nem ao comportamento de homem, e em especial, das mulheres mas acho que devido a baixa audiência e ao horário da série (depois das 23 horas).

O fato é que um sexo livre e bacana na tevê parece ser ainda um privilégio da elite branca numa estética bem glamourizada.  Quanto ao resto da série perdeu um pouco de ritmo, vamos ver se com as investigações engrenando as coisas fiquem tão boas quanto a trilha sonora.

Clarina e a família brasileira

E lá se foi a  novela mais chata dos últimos tempos. Ok, na verdade, a novela mais chata e ponto. Ganhou de lavada de todas. Até a última semana foi morna, até o último capítulo, zero surpresa, zero reviravolta, zero emoção digna de nota.

Tento avaliar o aspecto que poderia ser mais positivo: levar ao público a visão positiva de um casal lésbico, mas pela forma que a trama foi conduzida nem isso conseguiu. Talvez se Maneco tivesse optado por outras soluções dramáticas e tivesse um mínimo de coragem as coisas fossem diferentes.

Os questionamentos mais frequentes se referem ao Cadu, personagem de Reinaldo Gianechinni, um cara reconhecidamente gato. A pergunta de sempre: que mulher largaria um gato daqueles por outra mulher? Vamos lá pra FAQ lésbica da vida real.  A sexualidade humana não é um negócio assim fechadinho, sabe? As pessoas que se permitem experimentar muitas vezes se descobrem bissexuais, gostam de pessoas dos dois sexos e isso pode ocorrer em diferentes momentos da vida. Ademais, casamento acaba simplesmente porque acaba. Vários são os motivos, viram irmãos na mesma casa, vários conflitos de personalidade, tédio e são tantas coisinhas miúdas… Mas ahhhh, a família… Olha, as pessoas se separam e os filhos sobrevivem. E bem, sabe? Assim na vida real como na novela, caso do garotinho Ivan. Tudo depende de como os pais levam a separação. Sobre o sexo lésbico temos aqui no Biscate mesmo um ótimo post, sim, é possível e ótimo um sexo sem pinto.

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Mas quanto à novela, Cadu era uma cara que sonhava alto mas sempre metia os pés pelas mãos, era infantil, isso no começo da novela, era perfeitamente possível e aceitável que exatamente por isso o casamento tivesse acabado e estivessem juntos só pelo filho. Quantos casais vivem assim? Mas o público não aceitou que o fofo Giane fosse trocado, veio a doença do personagem e paf! Giane se tornou um cara maduro e bacana. Mágica de novela!  Daí ficou mais difícil ainda pro público careta, homofóbico, lesbofóbico, entender porque Clara deixou de amá-lo e amava uma mulher. Mas olha, juro que isso acontece na vida real, viu? Porque tem gente que ama pessoas, não gêneros. Simples assim. E amor começa, e acaba, e tem que ter tanto coragem pra começar quanto pra terminar e, sim, as crianças vivem muito bem se tudo isso for dito a elas ao invés de… e fomos felizes para sempre (o que na grande maioria dos casos é uma grande mentira). Aliás, essa cena foi muito bem resolvida na novela, Clara contando ao filho que iria casar.

Então, o grande público que detestava ver, de novo, um casal homossexual, aguentou porque não tinha nenhum toque explícito, só um selinho e agora leio comentários nos sites especializados em tevê sempre reclamando de uma suposta invasão homossexual nas novelas.

Por outro lado o casal foi queridíssimo por outra parcela do público que formou até fã-clube e shippou (juntou) as duas formando o casal #Clarina (Clara+Marina) torcendo pelo amor das duas, e subindo várias vezes a hashtag no twitter. Realmente, aleluia, o mundo mudou. Mas nem a emissora, nem o autor me pareceram dar muita bola pra fãs não, infelizmente, porque poderiam ter explorado muito mais o romance entre as duas. E digo por explorar terem mostrados cenas românticas mesmo e não sexuais (já que parece ser demais e não é para o horário).

Olha, e não é invasão gay, é o mundo real. Graças a muita luta, e muita dor nessa luta, as pessoas estão saindo dos armários e vivendo a vida que todos vivem, se abraçam, se beijam, se casam, vão ao mercado, criam filhos e a novela, como produto de sua época, só espelha isso. Então, seja bem vindo o novo casal gay, Zé Mayer e Klebber Toledo em Império e que tenham melhor sorte. Ao menos não se casarão com vestido igual e que se parece com o das discípulas de Inri Cristo…

As Inrizetes

as Inrizetes

Aventuras da elite branca classe média sofre na Copa

Como toda brasiliense branca #classemédiasofre da elite lá fui eu #tercopa, afinal não dá para ver a cidade toda postando foto no Instagram e você ser a única a não participar  da festa da democraciERROr… e GENTE QUE MARAVILHA DE COPA!

Comprar ingresso foi a primeira aventura: depois de noites no site da amada FIFA desisti e fui para um grupo do Facebook e dei uma baita sorte, consegui dois ingressos pelo preço de custo, no mesmo anel do estádio (piso) mas em lugares diferentes, eu e filho, torcendo pra na hora sobrar um assento perto e a gente assistir junto (sim, conseguimos, tinha uma assento vazio do meu lado).

Eu queria era sentir a copa, sabe? Adoro copa, sempre assisto todos os jogos que dá pela tv (também adoro Olimpíadas).  Eu queria ver os estrangeiros, falar com eles. Tive uma palhinha deles no show do Jorge Benjor no T-Bone Cultural na 312 Norte e achei muito bacana ver a cidade invadida.  Mas tinha meio que desistido de ir porque sou brasiliense burra e fui ao jogo teste da seleção , o amistoso, e como toda brasiliense estúpida que dirige há 20 anos, insisti em ir de carro. Péssima  idéia, andei um montão para chegar ao estádio porque tem que parar o carro longe e cheguei lá morta e de péssimo humor.

"minha barriguinha e a do Obelix"

“minha barriguinha e a do Obelix”

Mas dessa vez não. Escutei filho e além de sairmos cedo deixei o carro e fomos de metrô. Primeira vez que andei de metrô na minha própria cidade. E nossa! Que transporte público maravilhoso! Eu tava na Brasília da propaganda do AgNulo!!!! É tudo mentira aquilo que passa no DFTV, viu? Claro que tava tudo lindo porque as escolas estão de férias obrigadas pela Lei Geral da Fifa, essa entidade magnífica, e em dia de jogo aqui é ponto facultativo pro Governo Federal e pro GDF, ou seja, o trânsito diminui uns 60% ou mais na cidade. Óbvio que só tinha torcedor no metrô, né? É algo como: o dia em que o metrô fica branco.  Ademais o GDF disponibiliza ônibus gratuitos da rodoviária, ponto final do metrô, até o Estádio, tudo sinalizado por voluntários, pros turistas  não se perderam. Nunca achei achei Brasília tão eficiente, não é a toa que foi uma das capitais mais elogiadas. Quase votei no AgNulo de novo e NÃO PERA…

Chegando ao estádio pensei que ia encontrar hordas de franceses e tal, alegres, bebendo mas não… fui recebida pela Marcha para Jesus na Copa, com cartazes em francês e inglês. Fiquei sabendo que eles estão lá todos os dias de jogo. SOCORRO. QUERO UMA COPA LAICA! To apavorada achando que os visitantes pensam que somos um país fundamentalista, desculpa qualquer coisa, aí, viu, gente? Aqui somos da ZOEIRA. ZOEIRA.

"você chega no estádio e quem te recebe? rysos..."

“você chega no estádio e quem te recebe? rysos…”

O estádio ficou pronto, ao menos onde eu estava, os banheiros eram padrão shopping, padrão FiFA, e pela primeira vez na vida vi uma fila pra banheiro masculino imensamente maior que a feminina. Me senti vingada.

Também fui alertada por filho que tem mei que um dress code pro estádio, eu tava indo a vontade ( diga-se, esportiva desleixada confortável), mas descobri que as brasilienses vão tudo arrumadas  e filho meio que pediu pra eu me arrumar um pouquinho, atendi, porque né? Pra que envergonhar o adolescente acompanhante? Todas vão muito maquiadas e milhares de selfies são tiradas.  O povo tira mais selfies que vê o jogo, me parece. Cada doido com sua mania. Eu tirei foto com o Obelix. Foi meu ponto alto. Aí eu crente que o Obelix era francês, fui gastar o meu je ne suis com ele e…fuén… era brasileiro…

"torcida francesa"

“torcida francesa”

Aliás, eu que queria tanto ver os franceses, nigerianos, etc e vi só de longe mesmo. Mas adorei o clima do Estádio todo torcendo para a Nigéria. Lindo a torcida acolhedora e vingativa contra a França, né? Mas continuamos péssimos de músicas, mas graazadeus ‘sou brasileirooo com muito orgulhoooo’ foi cantada só uma vez. Inclusive, fiquei sabendo que a torcida brasiliense é uma das mais animadas e acolhedoras (um torcedor que está acompanhando todos os jogos da seleção contou para filho no jogo passado) #BSBMELHOREMTUDO. Mas o pessoal que tá lá no estádio entende de futebol tanto quanto eu entendo de cozinha, foi lá para tirar selfie mesmo e por isso que grito de torcida que preste tá difícil. Some-se a isso o fato que a amada FIFA não permite um bumbo, um pandeiro pra gente tocar música. Só se gritava Nigéria mesmo. Elite branca num é muito criativa pra futebol. E digo elite branca porque era o que tinha lá mesmo, eu inclusa.

No final do jogo achei lindo que os brasileiros aprenderam a limpar os estádios com o japoneses e passavam recolhendo os copos deixados embaixo dos bancos. NÃO PERA. Era o mesmo pessoal que curte levar enfeite de mesa de casamento e formatura para casa catando copos usados, além dos seus, para levaram de lembrança. JURO. Fiquei passada. Pessoal passava com pilhas de copos na saída. Morri de rir. Pra completar tinha fila para comprar Fuleco a 79 pila. Irmã me contou que as crianças pequenas estão loucas por Fuleco, culpa da lavagem cerebral das festas juninas das escolas, todas com tema: copa, muito originais.  Acho esse povo da minha classe média todos uns loucos. Romanos não eram nada perto disso, Asterix.

Na volta mesmo percurso: ônibus e depois metrô. Filas longuíssimas para entrar nos ônibus. Gente tentou furar a fila e foi vaiada. Estavam obedecendo as filas!!!! ALELUIA ERMÃOS. Se esse for um legado da copa: filas e catar copos,  já tamo bem. MELHOR COPA!!! Ei, Fifa, a gente pode comprar a outra e parcelar em 12 vezes no Visa? Sem juros?

Quem ama não bate

Sílvio Santos é um mito da tevê. Sílvio Santos despreza as regras da tevê quase sempre, faz e desfaz das grades de programação a seu bel-prazer e acerta e erra de forma mítica. Dá entrevistas onde se mostra um empresário cheio de ética, sua ética particular, e já foi candidato a presidente mas a gente deve sempre se lembrar que esse cara querido e simpaticão, no auge da ditadura, tinha o minuto do presidente na sua emissora para elogiar o militar presidente da vez e que, agora, em 2014, não foi capaz de dizer a Rachel Sheherazade que não promover censura é diferente de salvo-conduto para emitir opiniões ofensivas aos direitos humanos e dizer bobagens.

O SBT é seu reflexo, acerto e erros igualmente catastróficos, nada é embalado em busca da ética, embora possa parecer ser, somente na busca da audiência e nisso muitas vezes a responsabilidade social ou mesmo a jurídica se vão pela janela. O acerto nesses campos SBT sempre me parece aleatório ou a busca  obstinada de uma ou outra pessoa, não exatamente do ‘Seo Sílvio’.

E aí tivemos mais um “Casos de Família” com a Cristina Rocha e esse teve como tema “mulher que não gosta de apanhar, tem que se comportar”, e espancadores de mulheres tiveram seu palco para defender seu machismo sob aplausos talvez de boa parte da “família brasileira”, embora  a chamada do programa invoque a Lei Maria da Penha em defesa das mulheres.

Captura de tela de 2014-06-19 03:40:53

Isso me lembra o Jairo de “Em Família” que sempre solta pérolas machistas, é grosso  e mal-educado com a Juliana e ela suporta tudo por amor (personagens do Maneco sempre suportam tudo por amor). No entanto acho que Jairo é um personagem com um forte recorte de classe por parte do autor da novela com fortes traços de preconceito social demonstrado nessa oposição vida na comunidade X vida no Leblon (sendo o segundo sempre melhor e o outro mostrado de forma estereotipada e pior).

O traço em comum entre o personagem os personagens da novela e os participantes do programa como a vida real no SBT é que fica clara a cultura onde a  mulher deve sempre buscar ser feliz num relacionamento e que isso é tarefa dela, mesmo apanhando, a culpa é dela e ela deve ou obedecer ou evitar o conflito. E é isso que a que gente deve começar a desmitificar. Ser feliz não significa estar num relacionamento a qualquer custo e não é unicamente da mulher o ônus de um relacionamento feliz. E mais que tudo, violência física e verbal não é demonstração de afeto, é inaceitável e ponto.

ps: você quer ver o programa do SBT? clique aqui (o programa foi forte em transfobia também).

ps2: cenas do Jairo e Juliana em Em Família aqui.

As mulheres do Maneco

Manoel Carlos é descrito como um autor de mulheres, em especial por causa de suas Helenas, série iniciada por Lilian Lemmertz em Baila Comigo e terminada agora por sua filha, Julia, na novela Em Família. Mas ao ver a atual novela das 9 e rever no Viva, História de Amor, com outra Helena, vivida por Regina Duarte, me pergunto o porque desse título.

a última Helena (Julia Lemmertz)

a última Helena (Julia Lemmertz)

Naonde que resolveram que o Maneco entende tanto assim de sentimentos femininos? O que vejo em ambas as novelas, e em especial na novela atual são mulheres neuróticas (no sentido freudiano) beirando a histeria, outras beirando a psicose (vide a Juliana de Em Família).

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada -- de novo -- no capítulo de ontem (foto: gshow)

Juliana (Vanessa Gerbelli) descontrolada — de novo — no capítulo de ontem

Todas poderiam fazer parte de um clássico da literatura de autoajuda: Mulheres que Amam Demais, que inclusive já apareceu numa novela do Maneco, que tratam de co-dependência emocional, o livro inclusive gerou grupos de ajuda pra dependentes emocionais a exemplo do AA. As mulheres das novelas do Maneco amam filhos, maridos, namorados, ex-namorados, ex-maridos e por aí vai muito mais que a si mesmas e suas vidas giram somente em torno disso. A vida familiar para o Maneco está acima de tudo. Ninguém curte os amigos, os estudos, o emprego, nada. Para a mulher do Maneco só existe o amor e pra provar o amor, só muita, muita dor. Pra ela, claro.

As mulheres de Em Família matam pra ter uma filha porque não concebem uma vida sem aquela determinada criança. Não amadurecem e vivem presas ao passado e à figura materna, filhas são eternas filhas adolescentes, mesmo quando mães. Filhas adolescentes saem de casa mas papai paga as contas, ficam emburradinhas por tudo, escolhem o pior sujeito da face da terra pra casar. Sempre amam o homem errado, óbvio, mas é aí que se prova o amor, né Maneco? Amando muito o estrupício que vai destruir a sua vida. #SQN

virgilio

a voz da razão é sempre masculina; em “Em Família” essa voz é de Virgílio (Humberto Martins)

Já a voz da razão na novela existe pela boca de um homem, Virgílio ( alter ego do autor?, assim como o Dr. Moretti em História de Amor?), havendo , inclusive, um diálogo onde se diz que “tinha que ser ele, tinha que ser um homem” pra resolver aquela situação (mais uma bebedeira do Felipe, irmão da Helena). Virgílio em geral pensa com calma e lucidez, ao contrário das mulheres da novela, que berram e esbofeteiam em cena ao esboço da menor contrariedade. E quando Virgílio se altera, como no capítulo do dia 03/06, é visto como másculo e enfim deixou de ser banana. Quero, ainda, deixar anotado que Humberto Martins está excelente no papel, mesmo a novela sendo péssima.

Sendo assim, se a gente concorda que o Maneco é um autor de mulheres, ele está escrevendo para quais mulheres? Será essa falta de identificação da mulher moderna que tem as rédeas da própria vida nas mãos, que ama mas não é escrava de nenhum amor e tem diversos interesses que tem deixado a novela com índices de audiência tão baixos? Acho mesmo que essas mulheres se identificavam mais com as empreguetes (Cheias de Charme), que eram amor, garra, trabalho, amizade e não uma neurose sem fim. Só resta torcer pra novela acabar logo, ou tentar a novela da Record.

A PEC das domésticas, o machismo, a nova economia, o trabalho da mulher e outras reflexões

PS. Esse é um texto que se dirige às mulheres de classe média, predominantemente héteros, usualmente brancas, quase sempre cisgênero. Sabemos que existem outras mulheres, com outras queixas, outras demandas e outras realidades. Quando o texto refere-se à “você” e suas escolhas, pensamentos e possibilidades é esse “você” socialmente designado.  

Sobre a PEC das domésticas hoje ouvi choro e ranger de dentes. “não se consegue mais empregadas decentes/de confiança” é a frase recorrente. Aí, um dos homens mais machistas  que conheço declara ao outro colega que choraminga sobre a falta de babás: “olha,  não quero dizer isso, mas…se a fulana (mulher do outro) não tivesse tido essa conquista recente (passar num concurso) era melhor não trabalhar, porque quem vai olhar o filhinho de vocês?” E por isso ele acha melhor que a mulher fique em casa com o filho, como a dele faz. São escolhas.

Tenho dois filhos e gosto de trabalhar, além de obviamente precisar. Mas, a gente sente saudade deles, se culpa (por nós mesmas e pelo que nos culpam) por não estarmos com eles como ficavam as mães de outras gerações que não trabalhavam fora, mas davam um duro danado dentro de casa, quase sempre não reconhecido. Se a gente se preocupa com os filhos? Claro, né?! E o que está errado nessa estrutura aí é a mulher trabalhar? Discordo.

Simone de Beauvoir já disse há mais de 50 anos: “É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.” Isso não é um chavão, é concreto. O casamento (aleluia!) não é para sempre, você pode se separar se estiver infeliz, filho não sustenta casamento. Aliás, acho que ao perpetuar o padrão — ‘serei infeliz, mas darei uma família, um pai pro meu filho’ — a gente está ensinando que ninguém é responsável pela própria felicidade, mas que deve aceitar desígnios do destino (que nem o são desígneos, a gente escolheu casar, e às vezes escolhe bem errado).

Hoje, felizmente, a não ser que você queira, você não depende mais de um homem para lhe sustentar, você pode fazer suas escolhas, inclusive financeiras e amorosas, você pode sair de um casamento que não lhe agrada, que lhe faz infeliz, que lhe faz mal em vários sentidos, inclusive  em casos de violência doméstica.

Se você não depende de ninguém para morar e comer, você pode escolher mais livremente ir embora. Isso acaba com a família? Só se os adultos envolvidos forem imaturos ao ponto de passarem o resto da vida brigando ao invés de saberem que tem algo em comum, e legal, que precisa deles, os filhos. E família é um conceito bem mais amplo que papai, mamãe e filhinhx. E isso serve para famílias heteroparentais e homoparentais, aliás família é um conceito social e não religioso para o sentido das leis. Se a sua religião não permite casais homossexuais ou monoparentais é escolha sua, mas não pode ser imposta por lei ao resto do país, relembrando pela milionésima vez nos últimos meses que o estado é laico e por sua vez sua políticas também deveriam ser.

Mas voltando ao assunto… Antes da mulher trabalhar, quero dizer, as mulheres de classe média trabalharem — porque as pobres sempre trabalharam — a mulher era um ser completamente dependente. Dinheiro é poder, dinheiro é poder de escolha. Se você trabalha você escolhe, ir, ficar, e como e quando gastar. O trabalho também enriquece a nossa vida em outros sentidos, pois convivendo com outras pessoas e não ficando restrita ao ambiente caseiro aprendemos a tolerância, o respeito a todos porque convivemos, conhecemos pessoas que tem ambiente social e cultural diverso do nosso ambiente originário.

Deputada Federal Benedita da Silva, autora da PEC das Domésticas

Deputada Federal Benedita da Silva, autora da PEC das Domésticas

Não estou fazendo aqui um libelo contra as mulheres que decidiram deixar o trabalho e cuidar dos filhos, cada qual com suas escolhas, seus ônus e bônus. Porque eu, ao escolher trabalhar, perdi os primeiros passinhos do meu filho mais novo, por exemplo, mas não me arrependo. Tive ônus e bônus, como em qualquer escolha. Tenho meu emprego, dependo de mim. E entendo quem escolheu não passar pela tristeza de perder os passos do filho.

Não acho que o erro está no fato da mulher escolher trabalhar ou não, mas no fato do Estado não ter políticas públicas de apoio à mulher, de não termos creches, assistência pediátrica e médica de qualidade, da licença maternidade ser diminuta.

Mas, o principal problema é mesmo o machismo, inclusive de algumas mulheres, que não veem o homem como alguém que possa ser responsável por cuidar de um bebê ou de uma criança. Alguns países tem licenças maternidade que são longas e divididas entre pai e mãe, para não pesar só sobre a mulher o peso da família e afastá-la do mercado de trabalho, de postos de comando por ter menos tempo para o emprego, já que obrigatoriamente deve ser dela o dever de cuidar da família, organizar compras, limpar a casa, alimentar a todos… Isto não é uma obrigação divina, cultural e até biológica, como querem alguns. Exceto pela amamentação, já que não dá para desatarraxar os peitos, o companheiro, ou companheira, é capaz de executar as outras atividades todas, e não só ajudar tocando uma fraldinha quando está a fim.

E que o machismo tem a ver com o suposto sumiço das boas empregadas? Aquelas que davam sua vida por nós e eram como se fossem da família e o encarecimento desse serviço? Boa parte, o resto se deve a evolução do mercado.

A mulher de classe média quer e precisa trabalhar. Mais até do que quer, precisa e às vezes, tem um bebê, e obviamente o bebê é dela e deve cuidar dele — mesmo devendo ser uma obrigação compartilhada com o pai, esse quando está presente no máximo “ajuda” –, mas para ter a solução que acomoda a mulher no trabalho sem ônus para os demais membros da família passa pelo fato da  mulher de classe média repassar o encargo das tarefas do lar para uma pessoa que muitos veem como uma escrava,  pois deve estar a disposição 24 horas por dia. Não  se enxerga  a doméstica como alguém que presta um serviço contratado, uma trabalhadora, afinal o serviço doméstico é socialmente desvalorizado, exatamente pelo machismo.

Não tenho nada contra pessoas que gostam ou acham que precisam ter  empregadas. O que não dá é para conviver com esse resquício de escravidão e achar que o salário dessas profissionais deve ser baixo e que essas trabalhadoras não merecem as  mesmas garantias trabalhistas das outras categorias. Essas pessoas tem seus sonhos, família e filhos e merecem o mesmo que você deseja para você e os membros da sua família. Aí, entra também o preconceito de classe. Uma incapacidade de enxergar a outra trabalhadora merecedora dos mesmos direitos, mesmo com outro grau de escolaridade.

Passar a culpar a falta de empregadas (note, empregadas no feminino, pois a maior parte dessa mão-de-obra barata e desvalorizada socialmente é de mulheres, e de mulheres negras) por não ter alguém para cuidar da sua casa e do seu filho enquanto você trabalha não resolve o problema. Mas, talvez, resolva o problema repensar essa estrutura machista da relações familiares e de trabalho que ainda veem a mulher como rainha do lar . O que ajuda é promover mudanças nos relacionamentos, na estrutura familiar. Dividir igualmente as tarefas da casa, por exemplo. E para os direitos de nós todas, trabalhadoras, domésticas ou não, devemos pressionar o governo para que institua políticas públicas específicas para mulheres.

As culpadas não são as domésticas. Elas são trabalhadoras como nós, a culpa desse desespero causado pelo “apertem os cintos, a doméstica sumiu” é de se tentar manter uma estrutura patriarcal num mundo que evoluiu.  E continuará a evoluir. Devemos nos adaptar a essa nova estrutura que nasceu com o desenvolvimento do país e  fazer com que as leis se adaptem a ela.

Lado a lado, uma novela e suas mulheres livres e biscates

Novela também é cultura, informação e, porque não, biscatagem, em forma de entretenimento. Sem perder que mais que cultura novela é um produto feito para dar lucro temos que admitir que é um produto brasileiro, apreciado em vários lugares do mundo, e que pode ser feita com muita qualidade. O filósofo pop star Slavoj Žižek diz que as novelas brasileiras são uma contribuição genuína para a cultura mundial. Ou seja, agora você pode dizer que é noveleira sem culpa de ser chamada de fútil, desinformada e inculta.

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Isabel e seu corpo, livre.

Tivemos recentemente o sucesso retumbante de Avenida Brasil e Cheias de Charme, mas quero é falar da novela que ganhou o meu coração – Lado a Lado. Ela não atingiu na média o Ibope que a emissora pretendia como média para o horário, mas é um sucesso de crítica. Esse texto excelente do Maurício Stycer explica algumas das razões,  por exemplo, excesso de didatismo no começo e  um ritmo mais lento que as novelas atuais. O texto também fala uma boa reflexão sobre o dilema audiência x qualidade.

Mas entre várias noveleiras amigas e amigas feministas (algumas são as duas coisas) a novela está nos nossos corações.  Lado a Lado me ganhou logo de início: ambientação de época linda, como só a vênus platinada faz, atores dando o melhor de si e muito bem escalados para o papel e texto ótimo, com diálogos ágeis e bem escritos como há tempo não se via (sou fã de filmes calcados em bons diálogos). Aliás, do lado de cá da telinha é quase palpável a alegria dos atores ao interpretar, o carinho por suas personagens e suas falas, como demonstra Lázaro Ramos nesta entrevista linda aqui. 

E não há só diálogos maravilhosos quando a novela toma um lado, digamos, panfletário, há diálogos ótimos na parte dramalhão – nos embates entre Isabel e Constância (Camila Pitanga e Patrícia Pilar, que aliás está novamente dando um show como grande vilã da trama). Digo que na novela há um tom panfletário porque são claras as bandeiras levantadas pelos autores – o racismo e  a emancipação feminina e a liberdade de culto – tendo como pano de fundo no início do século XX. Em vários momentosa novela deu uma aula de História, melhor que vários livros didáticos, sobre a expulsão dos cortiços da cidade, o início da formação das favelas, a Revolta da Chibata e a Revolta da Vacina.

Mas ao meu ver o grande fio condutor de toda a trama ainda é o amor, e encarnado numa das formas mais belas de amor, porque não tende a aprisionar – a amizade profunda que nasce entre as duas mocinhas da trama, Isabel e Laura, uma negra e a outra branca. Elas se encontram no dia que deveria ser o mais precioso de suas vidas, o dia  de seus casamentos. Uma indo casar com o amor de sua vida (Isabel) e a outra casando com um homem que não amava e mal conhecia, por conveniências sociais. Uma alegre outra infeliz. Os acontecimentos do destino mudam a vida de ambas – Isabel não se casa e Laura encontra com o tempo sua alma gêmea no marido Edgar (Thiago Fragoso, também em ótimo momento).

Ok, ficou meio conto de fadas. Mas esse modelão clássico do drama vem junto com o pacote de duas mulheres que também lutam contra toda espécie de preconceito do início do século, muitos deles ainda presentes nos dias de hoje, infelizmente. Duas mulheres bem  biscates, por assim dizer. Elas almejam ser independentes, dentro das relações amorosa, em  suas vidas profissionais, pessoais e na vida sexual, na liberdade de ir e vir sem ser vista como mero objeto de desejo dos homens.

Laura quer ser reconhecida como pessoa, como mulher capaz de se sustentar sem um marido, depois de um divórcio (na época mulher divorciada e prostituta eram a mesma coisa). Laura que ser jornalista (homenageando talvez  o papel desempenhado pela primeira mulher  a publicar textos em jornais do Brasil e precursora do feminismo, Nísia Floresta). Isabel também quer ser profissional reconhecida – empresária e bailarina (inspirada talvez  em Josephine Baker), com o adendo da dificuldade de ser negra, aliás um grande obstáculo no seu caminho. Ser mulata, negra, a faz sofrer ainda mais que Laura na trama, bem mais. Ela é além de vítima do machismo da época, vítima do racismo, esse mesmo racismo que até hoje negam existir entre nós, mas insiste em mostrar a sua face perversa aqui e acolá.

E, claro, a  liberdade sexual de ambas as moças é questionada – uma porque é negra e dançarina no teatro (algo equivalente a prostituição na época) e outra porque é divorciada, logo, sem dono. Laura, inclusive, é vítima de uma tentativa de estupro em dado momento, e pesa contar ela o fato de ser divorciada, como se por isso só instigasse os avanços indesejados dos homens. Afinal a mulher até o hoje é  considerada muitas vezes culpada pelas violências que sofre. Isabel, para piora é ainda mãe solteira, um terror na época.

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Uma mulher “sem dono” que escolhe quando e como quer ficar ao lado de quem ama

E é essa a novela que amamos todos dias ás 18:15. Que nos emociona, nos faz ver o quanto  as mulheres que lutaram antes de nós fizeram com que possamos ser mais livres hoje, mas ainda não totalmente livres, somos prisioneiras de nossos corpos, da nossa cor, de imagens preconcebidas do que é ser mulher. Somos, ainda, vítimas de sexismo e violência doméstica, mas estamos lutando para que isso tenha um fim.

E todo esse pano de fundo da trama vem  colorido por  excelentes atuações e diálogos finíssimos. E ainda temos o amor, porque somos biscates românticas (quem disse que feminismo não combina com romance?) e faz a gente torcer pelos casais: Laura e  Edgar (Laured) e Isabel e Zé Maria. Porque na novela a vida sempre tem final feliz.

As mais belas das belas

Oi eu sou feminista. É, as vezes eu sou chata, todo mundo ás vezes é chato (ok, tem gente que quase sempre é chata) e nem sou chata porque sou mulher ou sou feminista. Mas tenho certeza que fico mais chata na TPM – sim ela existe, alguns cientistas estão tentando dizer que é mito e tal, mas acho melhor eles perguntarem aos meus hormônios e família.  Mas minha chatice vem do fato de existir e da vida ser às vezes chata, normal. Quem nunca?

Mas a despeito da chatice tive um final de semana tão lindo com gente maravilhosa – as amigas feministas – algumas biscateiras, outras não, mas todas vadias, que bem nos entendam. Daí que de repente me peguei olhando para aquela sala cheia de mulheres com ideais semelhantes, de luta, de igualdade, de amizade e de um mundo melhor para todos . Um mundo onde as pessoas são respeitadas , independente de cor,  classe social, gênero, raça e religião, é um mundo melhor (bj João Lennon) e vi tantas pessoas lindas ali.

A capa da Nova não estava ali,  nenhuma modelo de revista – de acordo com as revistas, claro – mas todas mulheres lindas. Ninguém reproduzia um padrão como vejo em outros ambientes que frequento, onde às vezes me sinto vendo as pessoas naquela cena do The Wall e a fábrica de salsichas – tudo igual.

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Cada uma ali estava confortável no seu jeito de ser, com ou sem maquiagem, com ou sem unhas feitas, e se feitas de várias cores e jeitos. Com e sem cabelos pintados- tinha até um roxinho fofo (ai que vontade…).  Roupas mais confortáveis ou bolsas peruas de oncinha. Cada uma era cada uma, confortável em ser quem era.

Depois que conheci essa mulheres maravilhosas além de dar mais risadas e também debater mais sobre assuntos que gosto, com política, sexo e cinema, também passei mais a poder ser eu mesma, usando meu jeans, meu cabelo curto, minhas camisetas. Ter menos preocupação com a imagem com que passo. Pude ser cada vez mais eu. Isso é um processo, mas devo admitir que ter amigas tão diversas e diferentes foi gratificante e fortalecedor nesse processo.

Esse post é para dizer que todas vocês, mulheres, são lindas e admiráveis, do jeitinho que são e nunca deixem ninguém dizer que não são.

 

 

Sexo aos 40- Liberdade

Estou há poucos dias dos meus 41 anos, demorei uns bons 35, na verdade quase 40, para me descobrir e me sentir mais confortável comigo mesma. E esse confortável defino como: ligar o botãozinho do foda-se para o que estão pensando de mim, desde que eu esteja satisfeita com o que escolhi – o maior número de vezes possíveis (ok, não tenho a escrita tão elegante quanto as demais maravilhosas amigas e companheiras de blog, só sei ser assim, direta, quando falo, e aqui estou falando com quem está a fim de bate-papo tomando uma cervejinha e com vocês, leitoras  e leitores).

Estando assim, confortável comigo, também estou cada vez mais confortável  para fazer sexo, me conheço mais, me toco mais, sinto mais o parceiro. Dou e recebo tanto quanto posso e quero, a entrega é igual, o prazer é dividido, se agrado também sou agradada. Cedemos juntos. Percebo mais, julgo cada vez menos. Aprendo cada vez mais.

Aliás, o que é uma delícia dos 40 anos e ter certeza que a gente não sabe muita coisa da vida, mas já aprendeu mais que aos 20 e, embora não se tenha tantas certezas como aos 20, se esteja aberta a experimentar bem mais de tudo, pois já temos mais certeza da impermanência das coisas. Dos instantes que desaparecem, das oportunidades perdidas, somos ao mesmo tempo menos ansiosos (se der errado a gente sabe que sobrevive) e mais ousados aos 40, ao menos eu sou. Meus peitos caíram, minha bunda também, mas definitivamente sou uma mulher melhor aos 40.

Mas daí que me surgem as pulgas atrás da orelha, os pensamentos que coçam, as coisas que quero entender, consigo entender melhor com a preciosa ajuda da terapia, que adoro, os processos que me levam a ser quem eu sou. Mas como conhecer os processos de quem vê o mundo de forma diferente da minha? Como não julgar essa pessoas pela minha régua? Porque, afinal eu estaria certa e elas erradas, não? Vivemos baseados na dicotomia certo-errado. Como abandonar isso e ver um mundo múltiplo? Onde não há uma moral, mas diversas pessoas e diversos desejos? Não havendo certo e o errado definidos como num filme do George Lucas?

Bom, primeiramente entendo que elas não são eu, óbvio. Porque eu sou uma liberal, libertária e especialmente libertina (desculpa, Alex Castro, mas roubei deliberadamente o nome do seu blog porque me vejo sempre nele). Tendo por meus objetivos ser honesta e clara comigo, incomoda deparar-me com julgamentos sobre o exercício da sexualidade alheia, o cerceamento da sexualidade alheia baseado em moralismos. É bem fácil a gente acabar escorregando por esses moralismos. Eu escorrego. Eu me vigio. Volto atrás, peço desculpas, ou até me calo, embora algumas vezes me irrite e fale. Mas um velho ditado budista me ensinou – é melhor ser feliz que ter razão. Acho que ás vezes nos falta educação emocional pra nos vermos como somos e suportar isso.

Por fim, acho que a única forma gostosa e permitida de dar pitaco na sexualidade alheia é trocar idéias, informações e até, quem sabe, fantasias. O  resto me cheira sempre a cerceamento impróprio de liberdade de ser. Mas, né? Esses são meus achismos, como me sinto confortável vendo o meu mundo.

Sexo não é um fim em sim, nem a única forma de ser feliz e ter prazer, é apenas uma delas. É ótima e deliciosa? É, mas não pode nem deve ser obrigação de ninguém aprender o ABC do Kama Sutra de cabeça pra baixo ou ter orgasmos múltiplos toda vez que transa. Mas seria muito bom que cada mulher se conhecesse, se tocasse. Soubesse mais de si mesma, do que espera de uma relação porque senão pode correr o risco de ficar trocando sexo por amor, e uma coisa não é outra. Pode se ter sexo com amor e sexo, só sexo.

Por fim, o que quero dizer é que  a régua para medir a sexualidade alheia não serve para nada, nem para si mesmo – até o Gilberto Gil disse que a Bahia lhe deu régua e compasso, mas o mundo tirou e ele se sente cada vez mais “sem certezas, sem fórmulas, sem instrumentos já propriamente construídos.” Não há certo e errado. Há se conhecer, saber o que se quer, o que se gosta, ser honest@ e clar@ consigo mesm@. Não é isso uma fórmula de caminho para a felicidade, mas um caminho para uma aquietação interna do turbilhão de carência e auto aceitação em que nos afundamos procurando  aprovação externa que na verdade só pode vir de nós mesm@s, nunca e apenas de uma relação amorosa ou sexual, pois, assim nos tornaremos escravos de alguém, nunca donos de nós mesmos.

Educação sexual e educação sentimental deveriam andar sempre juntas e serem ensinadas nas escolas e lares. Mas ás vezes não sei bem quem é mais necessitado delas- pais sexualmente reprimidos ou filhos ainda descobrindo o mundo.

As regrinhas ou você não é síndico

Tentei achar um nome mais elegante para o que está na minha cabeça mas não há forma mais direta de dizer – odeio a cagação de regra. Entenda-se por cagação de regra isso que a gente ouve todo dia – você deve ser isso, deve ser aquilo, deve fazer isso aquilo, ouvir , ler, vestir, sentir, etc. As normas. Os conselhos que você nem pediu e nem quer ouvir. Conselhos que são uma cagação de regras disfarçados de carinho e atenção. Alguém acha que ser o que essa pessoa acha que é certo ( defina certo) é que será melhor para você.

Nas relações amorosas e sexuais a regras terão os seguintes nomes: heterossexualidade, monogamia, fidelidade e a tal pessoa certa ou alma gêmea (a metade da laranja,  dois amantes, dois irmãos). Qualquer coisa que saia disso você estará automaticamente errada. Não estou pregado aqui também a poligamia, a homossexualidade, a transsexualidade ou a infidelidade. Cada qual escolhe seu caminho. Não há culpas, pecados e erros aqui.

Estou pregando a amizade e a ternura, o abraço terno quando a amiga ou amigo com coração em frangalhos porque a relação amorosa acabou, ou nem começou, (quem nunca?) vem pedir ajuda e a gente ao invés de escutar e abraçar – porque na verdade tudo o que a pessoa quer é um abraço,  ou dar um colo para chorar as pitangas, porque a pessoa sempre sabe se, porque e onde errou, porque acabou ou nem começou, e se não sabe um dia saberá, cada qual ao seu tempo – a gente acaba deitando uma cagação de regra sobre onde a pessoa errou, como errou, como deveria ter feito, ao invés de somente acolher.

Cagar regra. Sabemos. Cumprir regras. Nada fácil. Desejo. Amor. Paixão. Não tem regras. Autoconhecimento cada qual  tem ao seu  próprio tempo. Mas, amizades verdadeiras costumam ter sempre compaixão e carinho e abraço, mais que regras. Isso não é passar a mão na cabeça. É saber a hora de falar e a hora de calar, e como falar. Isso é conhecer seu amigo, saber que cada um tem seus limites e desejos, cada um tem seu tempo, sua forma e ser e agir. Amizade passa por respeitar o outro, amando-o como ele é.

Cagar regra em relacionamentos alheios é ainda pior que no seu próprio relacionamento. Cagar regra é diferente de escolher seus limites. É ficar arrotando superioridade para os outros. Escolher seus limites é saber quem você é, o que te deixa confortável e aonde você pisa. É algo só seu e não é pra ser escrito na tábua dos 10 mandamentos como verdade absoluta e imutável. Nem no estatuto do condomínio, afinal você não é síndico de relacionamento.

Assim, se a amiga querida ou o amigo querido estiver em apuros acho que até vale contar como você resolveu seu impasse amoroso, mas jamais imponha que a pessoa resolva o dela como você resolveu o seu. Abrace e acolha. Deixe que os outro junte seus caquinhos. Quantas vezes for preciso. Isso é amor e respeito. E se, naquele momento, isso estiver além das suas forças, porque ás vezes isso acontece, seja claro e dê um abraço no amigo e diga a ele ou ela para procurar um outro suporte, mas jamais cague regra, jamais seja grosso. É desumano. Grosseria, ao contrário do que parece não é sinal de força, é sinal de medo disfarçado talvez, ou de várias outras coisas, até de preguiça. Gentileza consigo e com o outro é força. E se for gentil se afastar, que você o faça sendo gentil e clara, sucinta. Mas quando puder, que volte a abraçar. Mas cagar regra, jamais.

E desculpem, não achei expressão melhor pra definir o que é jogar na cara de alguém o que você acha que deve ser do que – cagar regra. E é só isso mesmo – uma achismo barato – um achar que deve ser. E achando, é só seu esse achado, não o jogue em outra pessoa. Dói. Amizade biscate é respeito e compaixão.

ps: qualquer dúvida sobre regras chame o síndico

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