Nem mesmo Shonda Rhimes escapa da desnecessária pressão para se casar

Texto de Sesali B. Publicado originalmente com o título: ‘Not even Shonda Rhimes can escape de unwanted pressure to get married’, em 11/11/2015 no site Feministing. Tradução de Bia Cardoso.

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Shonda Rhimes. Foto de Joe Pugliese/August Images.

Shonda Rhimes, uma das mais bem sucedidas produtoras e escritoras negras da televisão americana, tem conquistado algumas coisas. Ela foi nomeada para três prêmios Emmys. Ela é a produtora e principal roteirista de quatro programas de grande sucesso da rede ABC. Ela tem um doutorado honorário. Qual destas realizações lhe renderam a maioria dos elogios em sua vida? Nenhuma delas.

Em vez disso, Shonda contou a NPR, que as pessoas lhe fizeram mais elogios quando ela tinha um homem elegível-para-o-casamento em seu braço:

Eu nunca recebi tanta aprovação, elogios, carinhos e felicitações como quando tinha um cara no meu braço, com quem as pessoas achavam que eu ia me casar. Foi incrível. Quero dizer, ninguém me parabenizou tão fortemente quando eu tive meus três filhos. Ninguém me felicitou tão fortemente quando eu ganhei um Globo de Ouro, ou um Peabody, ou meus 14 Prémios NAACP Image Awards. Mas quando eu tinha um cara em meu braço e as pessoas achavam que eu ia casar, as pessoas perderam suas mentes como se Oprah estivesse dando carros. Foi inacreditável. … Eu era fascinada por isso, porque eu pensava: como eu não sou Dr. Frankenstein, eu não fiz esse cara — ele apenas está lá. Todo o resto tinha relação com algo que eu tive que fazer.

O Feministing já abordou os mitos sobre as mulheres solteiras — sempre chamadas de solitárias e desesperadas por um casamento. Nós também falamos sobre de que modo aplicativos de namoro como o Tinder estão chamando a atenção para o fato de que as mulheres estão interessadas em — * suspiro * — sexo ocasional (algumas vezes queer), também. Mas relatos como o de Shonda nos lembram que ainda há uma narrativa predominante de que se você é uma mulher solteira, independente de suas outras realizações e contribuições para o mundo, o seu principal objetivo na vida deve ser o casamento. Em última análise, o seu potencial marital é a verdadeira medida da feminilidade.

E, eu seria negligente ao não mencionar o significado desta expectativa quando aplicada a Shonda Rhimes. Mais do que uma diferença entre ter um triunfo desejável ou ser a “senhora louca dos gatos”, ser uma mulher solteira que também é negra significa estar envolta em estigmas e patologia. Começando pelas interesseiras que só querem dinheiro, passando pelas negras raivosas até as mães inapropriadas, as mensagens referentes as mulheres negras são quase sempre negativas e problemáticas. Algumas vezes, os sucessos nas carreiras de mulheres negras solteiras apenas exacerbam esses aspectos, porque, aparentemente, ainda temos dificuldade para entender a complexidade de mulheres que precisam ao mesmo tempo trabalhar e ter famílias. As pessoas ainda estão à procura de um “felizes para sempre” heteronormativo para validar o sucesso profissional, educacional e financeiro das mulheres negras.

Para reiterar o ponto de Shonda Rhimes, qualquer cara potencial que ela tenha significa que “ele apenas está lá”. Eu sou grata por ter uma comunidade que me apoiaria se me apaixonar e quiser estar com alguém que me faz feliz, e tenho certeza que com Shonda também seria assim. Mas nossos parceiros não nos definem. Eles não aumentam ou diminuem o nosso sucesso ou valor. E eles certamente não são algo maior do que a criação de um império de mídia como ShondaLand!

Autora

Sesali B. escreve no site Feministing e também em seu blog: Bad Fat Black Girl. Twitter: @BadFatBlackGirl.

Bia Cardoso é autora convidada, feminista e lambateira tropical.

Conversas difíceis: AIDS.

Por Bia Cardoso*, Biscate Convidada.

Falamos muito sobre sexo nesse espaço. Porém, as vezes é preciso ter conversas difíceis que envolvem sexo, uma delas é sobre doenças sexualmente transmissíveis, mais especificamente a AIDS. Hoje, primeiro de dezembro é Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, uma das mais perversas doenças que já vimos, porque ataca diretamente algo prazeroso, o sexo.

Por mais que existam campanhas e que falemos sobre a importância do sexo seguro, sabemos que não é fácil praticá-lo. A maioria das pessoas ainda não incorporou produtos de prevenção como a camisinha no jogo lúdico sexual. Nas produções culturais como filmes, livros e músicas, dificilmente vemos descrições de atos sexuais em que o sexo seguro é explicitado. Além disso, desde o surgimento do coquetel anti-HIV e de sua distribuição pelo Ministério da Saúde, há essa impressão falsa de que a epidemia foi controlada e os jovens mostram cada vez menos receio do vírus que foi tão temido nos anos 80 e 90.

A cada hora, cerca de 10 pessoas são infectadas com HIV na América Latina. O Brasil é responsável por quase metade dos casos. E pelo menos um terço dessas novas infecções ocorrem em jovens entre 15 e 24 anos, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as mulheres representam mais da metade das pessoas infectadas pelo vírus HIV no mundo inteiro. De todas as mortes causadas pela AIDS no Brasil até 2012, 28,4% ocorreram entre mulheres, de acordo com o Boletim Epidemiológico Aids HIV/Aids 2013. O documento também aponta que a única faixa etária em que o número de casos de aids é maior entre as mulheres é de 13 a 19 anos. A população com mais de 60 anos é uma das faixas etárias em que a ocorrência de casos de Aids mais cresceu na última década — 32% entre 2013 e 2014.

São dados preocupantes. Especialmente num mundo machista em que muitas mulheres não conseguem impor o uso da camisinha a seus parceiros, em que muitas mulheres não se sentem seguras para conversar abertamente sobre sexo, em que muitas mulheres nem imaginam que possam estar expostas ao vírus porque o parceiro não se responsabilizou ao fazer sexo com outras pessoas.

Não existe mais grupo de risco para AIDS. Porém, as campanhas sobre sexo seguro concentram-se muito no período do carnaval ou são as únicas que envolvem prostitutas, estigmatizando-as ainda mais. Como afirma Amara Moira:

As políticas públicas de prevenção estão se cagando pra saúde da profissional do sexo: se nos dão camisinha e gel de graça e insistem pra que os usemos é apenas por medo de que a gente transmita DSTs pro pai de família e, consequentemente, pra sua esposa fiel. Porque sabem que não haverá como discutir a questão do preservativo de forma mais ampla com essas esposas, com esses maridos — o machismo não permitiria. Se sumíssimos todas nós, profissionais do sexo, sem levar junto esses veneráveis representantes da família Doriana, o Estado não derramaria uma lágrima.

A AIDS está presente no cotidiano de muitas pessoas, mas isso não pode virar um estigma. Lutemos para que a informação e o sexo seguro sejam incorporados as práticas sexuais, que o nosso desejo também seja descobrir novas formas de se divertir com segurança.

direitos hiv

[+] Conheça os direitos das pessoas soropositivas.

[+] ‘Eu me sentia perdida’. Professora conta os dramas e a vivência de uma mulher com Aids. Ela coordena o Grupo de Mulheres Positivas, em Londrina, no Paraná.

[+] ‘Não se dizia que uma mulher de idade podia ter Aids’, diz pianista de 88 anos.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Sextas de Nova: Especial Xô Crise!

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Olá Amiga-Mulher-Enlouquecedora-De-Homens, já estamos há algum tempo sem nos ver, não é mesmo?

As notícias não são boas, nossa amada Revista Nova mudou de nome e agora é Cosmopolitan, enquanto eu e você continuamos na catuaba, lutando pelo macho bezuntado com inhame de todo dia. Porém, nada de tristeza, pois como diz o comercial de produto de limpeza: estamos aqui pra brilhar! Agora juntaram várias revistas com dicas imperdíveis no Portal M de Mulher e podemos dançar na velocidade cinco da sedução.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Oi? Tô aqui super gata, me querendo muito e enlouquecendo meu homem com essa peruca de carnaval gigante que virou um casaqueto em dias de frio.

Você podia estar assistindo novela turca. Você podia estar cantarolando alguma música de Wesley Safadão. Você podia estar pesquisando a cura para a volta da calça pantalona curta. Porém, sabemos que tudo que você quer é enlouquecer um homem. O problema é que a crise está aí, afetando também o mercado de relacionamentos, fazendo seu PIB sair pela calcinha, inflacionando suas metas fiscais sexuais. Para resolvermos isso, agarro sua mão e indico 5 matérias que vão fazer seus juros subirem pelas paredes:

– 25 verdades que não contamos sobre relacionamentos longos.

Como diz a famosa pensadora contemporânea, Patricia Guedes: “A linguiça tem que ser muito boa para aguentar o porco inteiro”. Após tanto tempo num longo relacionamento é normal ter crises, mas esses são também momentos de oportunidades para pensar no bacon nosso de todo dia. Portanto, vale lembrar que segundo a matéria, calcinha de algodão e camiseta rasgada só depois de uns aninhos de relacionamento. Vai rolar preguiça de transar porque ninguém tá afim de constituir família. Seu humor e seus problemas emocionais infelizmente não serão passíveis de viver eternamente na gaveta da cozinha. Porém, a dica imperdível para manter a chama do amor acesa está bem no começo: 4. Soltar pum de propósito achando que é engraçado…

– 20 verdades que as mulheres casadas escondem das amigas solteiras.

Imagina uma revista feminina que não promova o eterno embate: casadas x solteiras? Mas nem no sonho maluco do Gugu veremos algo do tipo. Tal qual time de futebol, precisamos dessa divisão para expressar toda inveja que temos umas das outras, não é mesmo? Portanto, pegue seu celular e divida todos os seus contatos entre quem colocou o bambolê no dedo ou não, e siga as dicas para levar sua amiga solteira a mais uma comédia romântica que seu gato terá vergonha de ver.

Entre todas as dicas para ser uma amiga muito chata, do tipo que ganhará mute em todas as redes sociais logo que isso for possível, a melhor é: 3. Aproveitamos quando vocês rompem com seus namorados para sentirmos alívio porque, por pior que o casamento às vezes possa ser, pelo menos não estamos mais procurando alguém com quem sair. Um brinde de cosmopolitam às mulheres que preferem ver as outras na pior para se sentir bem. Tim Tim!

15 dicas para apimentar o ato sexual.

Até que enfim chegamos no momento empreendedorismo com Kama Sutra no Sebrae. Pule o papinho de que o segredo do orgasmo feminino é focar na mente ou que um bom desempenho sexual requer autoconhecimento, vá para o final da apostila e foque nessas duas dicas bem descritivas: 9. Esprema o pênis dele com as paredes da vagina por longos períodos. É infalível para intensificar o prazer masculino. E o feminino também. 12. O sexo oral precisa de técnica para ser executado. Segure o pênis de modo firme. Depois morda delicadamente as laterais. Beije, dê lambidas, faça movimentos de sobe e desce e simule que o engole. Esses são os segredos da perfeição. Realize os movimentos devagar e observe as reações dele. Depois é só jogar tudo na panela com óleo de coco, ferver por meia hora e servir com um purê de mandioquinha. Se você fazia sexo oral com outra receita antes, sinto informar que essa talvez não leve leite.

25 Dicas para fazer qualquer homem delirar na cama.

QUALQUER HOMEM! Eu disse: qualquer homem! A gerente ficou maluca: QUALQUER HOMEM! Se seu homem ainda não está delirando, provavelmente você não está jogando o remedinho certo no café dele. Mas agora tudo dará certo. Depois de estudar a Zona P e de esfregar o suvaco nos lábios do bonitão, decore e salve no celular as dicas mais importantes dessa autoescola sexual: 9. Passe a língua de um lado do pênis e os dedos molhados do outro. O gato terá a sensação de que está sendo beijado por duas mulheres. 10. Envolva a base do equipamento dele com a língua e estimule a cabeça com os dedos, bem de leve. 12. Forme um anel com o polegar e o dedo indicador. Envolva a cabeça do pênis com o anel da mão direita e a base com o da esquerda. Faça os movimentos em direções opostas. Com essas três dicas tenho certeza que você se sentirá numa suruba dentro de um fusca, realizando mais uma fantasia automobilística vintage.

5 dicas para ter um orgasmo mais poderoso.

Vamos continuar com nossas apostilas em mãos nesse maravilhoso Pronatec Sexual. Nesse momento você precisará de uma trena, uma chave de boca, uma lixa, um medidor de pressão e um clipe de papel. As regras básicas são: preparar, provocar, excitar e torturar. Porque se você achou que o orgasmo era pra você, se enganou, Gatuxinha! Estamos aqui para sovar essa massa masculina chamada homem.

O início é moleza: lingerie, caras e bocas no espelho, sensualidade com a escova de dente. No segundo passo, tem que rolar umas beliscadas e ele tem que ficar ofegante de tesão, talvez seja necessário providenciar um oxigênio.

A terceira parte é que parece difícil, mas basta seguir as instruções: A essa altura, seu parceiro já estará implorando por carícias no pênis. Seja firme! (Prenda o buzungão dele com a chave de boca). Peça para ele virar (180 graus) e esfregue seus mamilos nas costas dele, massageando-o. Agora arranhe o bumbum do gato (até ele gritar: Miau!) e pressione as nádegas com a ponta dos dedos (fazendo pressão no local para não ficar roxo). As duas dobras logo abaixo do bumbum, entre o tronco e as pernas (alinhadas 90 graus com a linha do Equador), são muito erógenas para os homens. Pressione os polegares delicadamente em cada uma delas, deslizando no sentido horizontal. Depois desça seus três primeiros dedos em direção ao pênis (Apenas os três primeiros!). Ele está desesperado? Ótimo!

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O tesão platônico

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

O popularesco colunista reaça que escreve em blogs com bic duas cores criticou uma recente charge da deliciosa Laerte Coutinho. Mas aqui vale a máxima: Laerte é nossa diva e nada nos faltará. E assim foi feito. Laerte declarou publicamente seu tesão platônico em relação ao colunista reaça. E quem aí nunca teve tesão platônico, né minha gente? Quem aí não guarda nos átomos do corpo aquele desejo de desnudar quem deveríamos desprezar, não é mesmo?

Sobre o Reinaldo Azevedo.
Acho que eu não devia dizer o que vou dizer, mas minha advogada opinou que não vai gerar ação na justiça. E minha analista deu força, pra botar pra fora senão somatiza e piora a situação das varizes.
Então lá vai – esse cara me dá um tesão desgraçado.
Não sei o que é – tá, ele não é um ogro -; se é o olhar decidido, o nariz, os lábios, não sei!
Nessas noites de frio que vem fazendo eu fico debaixo das cobertas e, como diria o Henfil, peco demais.
Vou acabar tendo que depilar a mão com cera espanhola.
Acho que eu tenho síndrome de Estocolmo platônica.

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Tesão é desejo. E muitas vezes inexplicável. Aquela sensação de simplesmente encontrar alguém capaz de acender algo diferente, gostoso, um requeijão cremoso a mais na vida. As vezes não dura muito, as vezes dura a vida toda, especialmente quando se é platônico, alimentado com carinho e pão de mel.

Porém, quando falamos de alguém que age e pensa de forma contrária ao que acreditamos, ao que temos como ideal e buscamos ser, surge sempre a dúvida: biscate com princípios ou não? Relevamos em favor do tesão? Esquecemos em favor da revolução? Aquecemos com mãos solitárias no calor do colchão? Infelizmente não há resposta fácil quando o assunto é desejo, tesão ou direito tributário. Todos temos nossas prioridades, sentimentos e taxas pra colocar na mesa. A melhor parte pode ser reconhecê-las. Assim como fez Laerte, também quero botar pra fora o que alimenta meus pensamentos mais proibidos…

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Lapada na rachada?

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Falar abertamente sobre sexo é algo que desejo para todas as pessoas. Não precisa dar detalhes da vida sexual, nem ficar se gabando ou se lamentando, mas acredito que seria bom para todo mundo conseguir falar bastante sobre o assunto, sem receios, preconceitos ou limitações. Isso ajuda até mesmo a identificarmos melhor o que é violência sexual, o que é consentimento, o que é prazer. Por isso, compartilho com vocês minha nova ídola: Monica Moreira Lima, apresentadora do programa Sem Vergonha na TV Guará do Maranhão, que descobri recentemente por meio de uma entrevista na Revista TPM.

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Em seu programa, Monica discute tudo sobre sexo e entrevista pessoas nas ruas. O ponto alto é seu vocabulário direto e espontâneo:

Uma das abordagens recentes de fã foi bem específica. “Um cabra me parou no shopping: ‘Mônica, ligue aqui pra minha mulher, por favor, convence ela a dar o cu pra mim, vai?’. Como é que é, meu compadre? Cu é meritocracia e muita dedicação. Deixe a moça doidinha e tu vai ver ela dizer ‘é hoje que eu quero dar esse cu”.

“Primeiro tire um sarro, no cinema, na balada, para conferir se o cabra é sua pontuação de rola. Feita a checagem, dê uma boa lapada na rachada”.

“Um ‘Eu te amo’ pode ser falso, mas um pau duro é sempre sincero”.

“O melhor pau é o pau cavalheiro. Aquele que levanta para a dama sentar”.

Mônica é jornalista, tem 47 anos e três filhos. A fuleiragem é sua marca registrada. Vítima de violência doméstica no casamento, assume que tem trauma de relacionamentos com homens, mas trabalha para ver as mulheres sentindo-se mais livres para vivenciar sua sexualidade.

Acredito que não se trata apenas de pregar libertinagem e nem dizer que todas as mulheres devem transar bastante. Fazer mais ou menos sexo é indiferente, falar abertamente sobre sexo é o que quebra nossos tabus internos, é o que pode transformar nossas relações de prazer, é o que abre portas para que jovens perguntem e não sintam vergonha. Ao perguntar: você sabe o que é lapada na rachada? Mônica estimula nossos sentidos e nossa forma de vivenciar cotidianamente o sexo. Ou no mínimo nos faz dar boas risadas.

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Meninas escoteiras contra a transfobia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, um grupo de escoteiras norte-americanas recebeu uma doação de 100 mil dólares. Porém, o dinheiro veio com o pedido de que não fosse usado para ajudar meninas trans. As Girls Scouts of Western Washington devolveram o dinheiro, começaram uma campanha e arrecadaram o triplo do valor doado.

Por importantes gestos como esses, que são fundamentais para o combate a transfobia e a inclusão das pessoas trans, publico hoje a tradução que fiz do texto ‘Girl Scouts of Western Washington Aren’t Interested in Transphobic Money’ de Jess Kimbler, publicado no site Bitchmagazine.org em 30/06/2015.

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As Girl Scouts of Western Washington ganharam recentemente uma doação de 100 mil dólares. Mas o doador exigiu uma condição: se as escoteiras não pudessem garantir que o dinheiro não seria usado para ajudar meninas transexuais, elas deveriam devolver todo valor. Cem mil dólares é uma tonelada de dinheiro para as Girl Scouts of Western Washington — representa cerca de um terço do seu programa de assistência financeira para o ano inteiro.

Mas o que a organização decidiu fazer? Elas devolveram o dinheiro! Mantiveram seu compromisso na criação de um grupo diverso, possível para todos os tipos de meninas, elas responderam que não estavam interessadas em uma doação que significa excluir meninas trans. Como as escoteiras dizem publicamente em seu site, elas aceitam escoteiras transgêneros: “A questão da transexualidade na juventude é tratada caso a caso, visando o bem-estar e interesses da criança e dos membros da tropa/grupo tendo esse assunto como prioridade. Dito isso, se a criança é reconhecida pela família e escola/comunidade como uma menina e vive culturalmente como uma menina, então as Escoteiras é uma organização que pode servi-la”.

Porém, a decisão de recusar uma doação de 100 mil dólares ainda é algo muito grande, especialmente ao considerar que, no outono de 2011, houve uma controvérsia em torno da decisão do conselho de Colorado de permitir a entrada de uma menina transgênero na organização, após inicialmente terem recusado sua participação. Ver as Escoteiras em desenvolvimento, num crescente compromisso com a inclusão e com sua capacidade para mudar e aprender com seus erros são importantes, porque elas são uma causa altamente visível e influente na vida de muitas meninas.

Ao invés de perder as esperanças por causa daqueles 100 mil dólares, elas decidiram começar uma campanha de financiamento coletivo para compensar os fundos perdidos. Elas já fizeram isso e mais um pouco: como esperávamos, elas conseguiram 185 mil dólares, quase o dobro de seu objetivo, apenas no primeiro dia de arrecadação de fundos.

É ótimo ver uma organização pública tomar uma posição firme em uma questão como essa. Como se você precisasse de mais uma razão para estocar seus deliciosos biscoitos. Confira o vídeo da campanha abaixo:

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Aborto e arrependimento

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esta semana, foi divulgada uma pesquisa norte-americana mostrando que 95% das mulheres que fizeram um aborto acreditam que essa foi a melhor decisão, sem arrependimentos.

Do total de pessoas avaliadas, 40% justificaram a decisão com base em aspectos financeiros; 36% das mulheres disseram que “não era o momento certo”; 26% recordam que a escolha foi tomada facilmente ou muito facilmente; e 53% dizem que a decisão foi difícil ou muito difícil.

Os pesquisadores destacam que a amostra foi diversificada no que diz respeito a métricas como cor de pele, educação e emprego. Eles também procuraram mulheres com diferentes contextos de gestação. Segundo os autores, a grande maioria das mulheres que participaram do estudo sentiram que o aborto foi a decisão certa “tanto no curto prazo, como ao longo de três anos”.

Para mais detalhes, divulgo aqui a tradução que fiz do texto ‘Study finds 95 percent of women who had an abortion say it was the right decision’ de Maya Dusenbery, publicado no site Feministing.com em 14/07/2015.

O mito de que o aborto provoca problemas de saúde mental nas mulheres é usado há muito tempo e agora pode ser colocado de lado. Porém, no caso de você precisar de mais evidências para responder aqueles cartazes contrários ao aborto que insistem em dizer “as mulheres sempre se arrependem de um aborto”, há inúmeras fontes, aqui estão algumas.

De acordo com este novo estudo que acompanhou centenas de mulheres que realizaram abortos, mais de 95% das participantes relataram que a interrupção da gravidez foi a decisão certa para elas. Sentimentos de alívio ultrapassam quaisquer emoções negativas, mesmo três anos após o procedimento.

Os pesquisadores investigaram tanto mulheres que realizaram abortos no primeiro trimestre da gestação, como mulheres que realizaram o procedimento após esse período (casos que muitas vezes são classificados como “abortos tardios”). Quando o assunto são as emoções das mulheres após o aborto, ou suas opiniões sobre se era ou não a escolha certa, eles não encontraram nenhuma diferença significativa entre os dois grupos.

A pesquisa, que é a mais recente fora o Turnaway Study, encontrou alguns fatores que levam as mulheres a terem sentimentos negativos. Como você pode imaginar, um aborto que pôs fim a um gravidez planejada ou uma pessoa em conflito com a decisão tomada relataram mais emoções negativas e menos confiança de que essa foi a escolha certa. Além disso, aquelas que precisam desafiar as regras de seus grupos sociais para realizar o procedimento tendem a ter menos apoio social e sentem mais o estigma do aborto.

Em outras palavras, a esmagadora maioria das pessoas não se arrepende de seus abortos, e para a minoria que se sente mal sobre sua escolha, isso acontece, pelo menos em parte, graças ao empenho e esforço do movimento anti-escolha para que elas se sintam mal. E mesmo assim, eles não parecem estar fazendo um trabalho muito bom nesse campo.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

Manifestantes espanholas lutam pelo direito ao aborto legal. Setembro/2014. Foto de Susana Vera/Reuters.

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Frida Kahlo e a intensidade do sentir

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Hoje é aniversário de Frida Kahlo. Nascida em 06 de julho de 1907 no México, Frida sempre foi para mim aquela pessoa que gostaria imensamente de ser amiga. O fillme “Frida” (2002) só reforçou essa imagem de que ela era uma mulher única e incrível, uma biscate com a qual todos gostaríamos de flertar.

Com uma vida marcada por doenças, acidentes e limitações físicas, a intensidade com a qual vivia e produzia é o que mais me chama atenção em sua trajetória. Sendo considerada uma mulher feia socialmente, subverte essas questões fazendo de sua imagem a representação mais forte de seu trabalho. Ao mesmo tempo, sua intensidade transborda em cada foto que vemos dela, trazendo consigo uma sensualidade e atração. Frida nos convida com o olhar e nos provoca a conhecê-la.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Frida Kahlo fotografada por Nickolas Murray em 1946. Imagem do Museu Frida Kahlo.

Bissexual, revolucionária e autêntica. Se vivesse nos dias atuais, provavelmente Frida Kahlo seria questionada até mesmo entre as feministas. Por que usar vestidos que remetem a uma cultura indígena que enxerga a mulher tão feminina? Por que o desejo de ser mãe e agradar o marido é tão importante? Por que manter por tantos anos uma relação tão conturbada com Diego Rivera?

Em meus devaneios, penso que Frida responderia apenas que estava vivendo. Sentindo e absorvendo cada ação, tempo e espaço que lhe cabia no mundo. Preenchendo o vazio com o existencial complexo e dialético do amor. Misturando às suas tintas a falta de respostas óbvias que há quando perguntamos para nós mesmas: o que quero?

O querer de Frida passa pelo desejo de autonomia, de ação, de construção, de provocação. Seja por meio da arte, da política ou da própria existência. Sua imagem nos remete a força e autenticidade, mas sua obra e seus escritos retratam fragilidade, medos e inseguranças. Como pode uma mulher tão livre cair em ciúmes por um marido infiel a quem parece implorar o amor? Como vemos nesse trecho de uma carta escrita por Frida a Diego Rivera em 23/07/1935:

[…] uma certa carta que descobri por acaso num certo paletó de um certo cavalheiro e que provinha de uma certa senhorita que mora na distante e feia Alemanha e que, imagino, deve ser aquela dama que Willi Valentiner achou por bem mandar se aventurar por aqui com fins “científicos, artísticos e arqueológicos”… me deixou absolutamente furiosa e, a bem da verdade, ciumenta… Por que sou tão suscetível e limitada e não consigo compreender que as cartas, os casos com o primeiro rabo de saia que aparece, as professoras… de inglês, as modelos ciganas, as assistentes cheias de “boa vontade”, as aprendizes interessadas “na arte de pintar” e as “enviadas plenipotenciárias de regiões distantes” não passam de aventuras sem futuro e que, no fundo, eu e você, nós nos amamos ao extremo e, mesmo quando sofremos com os inúmeros pecadilhos um do outro, as portas batendo, os piores insultos e as solicitações internacionais, continuamos a nos amar. Creio que o problema é que sou um pouco brutal e um tantinho maliciosa, pois todas essas coisas que aconteceram  e se repetiram ao longo dos sete anos em que vivemos juntos e todas as cóleras que senti me levaram a compreender melhor que o amo mais que minha própria pele, inclusive se você não me amar do mesmo jeito: de todo modo, você me ama um pouquinho… não é mesmo? E se isso não for verdade, sempre me resta a esperança de que venha a ser, e isso me basta. Ama-me um pouquinho. Eu te adoro. (1 – pg. 115).

Será tão fácil explicar Frida Kahlo? Será que essa intensidade não é justamente o seu dínamo pessoal para produzir uma obra tão instigante, expressiva e questionadora? Talvez sim, talvez não. Talvez o melhor de Frida esteja justamente na maneira como suas dualidades e ambiguidades evidenciam nossas imperfeições e fraquezas. Não há respostas simples para os relacionamentos humanos, especialmente os amorosos. Não há cartilhas feministas que deem conta das complexidades internas e externas das mulheres, de seus desejos e atitudes. Por isso, mais do que determinar o que é certo ou errado nos comportamentos humanos, podemos aprender com Frida Kahlo a ampliar os horizontes de possibilidades, sem tantos julgamentos, mas rindo ou chorando juntas e apoiando quando for necessário.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Frida Kahlo com a cantora Chavela Vargas.

Referência

(1) BURRUS, Christina. Frida Kahlo: pinto a minha realidade. Tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2010.

Quer mais de Frida?

Também tem texto meu nas Blogueiras Feministas: Frida Kahlo: imagem, corpo e feminismo. Aqui no Biscate tem Frida, romance e receita no: E a Biscate Mexicana Enfeitiçou Trotsky.

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O amor que não precisa ter nome

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

A Iara tem feito vários textos sobre a novela Sete Vidas, que está na reta final sendo exibida na Rede Globo. Também sou fã da trama e hoje quero falar sobre dois personagens em especial: Eriberto e Renan.

Eriberto é um homem requintado, leiloeiro que gosta de bons jantares e preza muito a amizade das pessoas. Ele é casado com Marta, metódica e ambiciosa. No início da trama, havia uma suspeita levantada em diálogos se Eriberto era gay, mas nada foi comprovado. Essa suspeita só retornou quando Renan apareceu na trama. Dentista que também gosta de prazeres refinados, foi Marta quem os apresentou sabendo que se dariam muito bem.

Acontece que tanto Eriberto como Renan são casados com mulheres. Aí, nossa curiosidade mórbida sobre a vida alheia fica naquela expectativa: são gays? não são? o que é isso? A melhor parte é que Lícia Manzo, autora da novela, não parece estar preocupada em definir o que Eriberto e Renan são, mas sim em nos presentear com cenas maravilhosas em que os personagens mostram uma intimidade e um amor tão pungente que chegam a ser mais explícitas que um beijo na boca.

Há algo nas cenas cotidianas, como a visita a casa de Petrópolis ou a compra de um terno, que mostram uma amizade até rara de se ver entre dois homens. Porém, foram nas cenas ocorridas após o falecimento do pai de Eriberto que mais transpareceu esse amor sem nome ou carteirinha registrada. O olhar entre os dois quando Renan consola Eriberto é a representação física da empatia e do acolhimento entre duas pessoas. Além desse, há o momento da cerimônia das cinzas e a decisão de Renan presentear Eriberto com um relógio antigo.

Os atores Fábio Herford e Fernando Eiras declararam que essa é uma história de amor e paixão cheia de afinidades e fraternidade, mas sem beijos e carícias. Até mesmo o fato de serem dois homens mais velhos representa uma nova forma de apresentar um relacionamento em novelas. É claro que queremos ver nas novelas e em outras produções culturais muito beijo na boca e sexualidades que fujam da heteronormatividade, mas ao defender todas as formas de amor também é preciso lembrar dessas outras vivências do verbo amar.

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

Eriberto (vivido pelo ator Fábio Herford) e Renan (vivido pelo ator Fernando Eiras) em cena da novela Sete Vidas (2015).

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Siririqueira de mão cheia

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esses dias, a cantora Pitty reclamou em seu perfil no Twitter sobre uma declaração sua que saiu deturpada em matéria do jornal O Globo. O caso já foi resolvido. Pitty havia comentado sobre masturbação: “Meu corpo me basta! Cheguei a pensar, inclusive, em incluir um momento de masturbação, reforçando o quanto estou me amando sozinha”. Após a repercussão, ela logo recebeu inúmeras mensagens ofensivas na internet, muitas delas dizendo: “Siririqueira”, “Toca uma pra nós” e “Mal amada”.

Ora pois: eu, como boa siririqueira, preciso levantar a mão, chupar os dedos e me manifestar. Quem pratica e mantém o hábito de siriricar sabe que sozinha sim, mal amada nunca! Um ato tão prazeroso que pode começar nas roçadinhas básicas do braço do sofá, passando pelo tão idolatrado chuveirinho íntimo do banheiro, até chegar nas atléticas habilidades em cima da máquina de lavar. A siririca é essencialmente uma prática do cotidiano, da qual podem participar inúmeros objetos presentes ao nosso redor, que pode ser realizada em momento solitário ou em conjunto, em ritmo lento ou rápido dentro do molejo que o dia apetecer.

Entre nós do Biscate há um dito interno que diz: a siririca é a verdadeira sororidade. Porque é por meio da siririca que damos as primeiras mãos em direção a conhecer nosso corpo, nossa fluidez, nossos desejos, nossa intimidade. É a espuma do banho que um dia faz uma cócega diferente. É o líquido que apareceu depois de um beijo na novela. É o frisson de ter cruzado com alguém que soltou faísca. É também, no meu caso, a certeza de que eu e Keanu Reeves fomos feitos um para o outro desde a minha adolescência. Assim como hoje tenho certeza que eu e Chay Suede também deveríamos nos conhecer melhor.

Siririca eu, siriricas tu, siririca ela, siriricaremos nós todas. Siririca é a resistência da buceta, da vagina, do clitóris, dos grandes e pequenos lábios. Desse corpo cheio de terminações nervosas e desejos. Desse corpo que sabe exatamente como gosta de ser tocado por aquela pessoa que mais o ama. Se toque! Toque para os outros! Faça como Pitty e fale sobre masturbação. É bom para o gozo, a alma e o coração.

Cena do clipe 'Adore' da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

Cena do clipe ‘Adore’ da cantora Miley Cyrus com direito a chupadas de dedo e masturbação.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

O peso da palavra “vadia” ainda mata mulheres

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esse clube se denomina biscate desde sempre com muito orgulho. Vadias, putas, vacas profanas, libertinas, piranhas e qualquer outra palavra com a qual queiram atacar nossas vivências ou liberdades serão mastigadas e cuspidas de volta com nossa boa falta de educação. Fazemos resistência justamente a quem acredita que a mulher tem um “papel” na sociedade. Porém, sabemos que isso não é fácil para todas as mulheres. Especialmente para as mais jovens, que numa idade em busca de aceitação sofrem muito com o machismo da sociedade.

Semana passada, a mídia noticiou o caso das listas “Top 10 Vadias” que estão circulando via redes sociais entre os alunos das escolas de São Paulo e tem provocado abandono dos estudos e até tentativas de suicídio entre as meninas.

Os alunos montam rankings classificando dez meninas como “vadias”. Os nomes circulam pelo WhatsApp, vídeos no Youtube, Facebook e até cartazes colados no interior das escolas. Cada colégio tem sua lista e alguns alunos as divulgam semanalmente. As escolhidas que ficam mais de uma semana no ranking vão subindo de colocação. Desde que a lista começou, há quase um ano, a rotina dessas meninas se transformou em uma espécie de prisão e condenação sem que nada tivessem feito.

Essas listas não são novidade. Já existem há muito tempo, mas antes eram restritas à turma da escola. Hoje, com as redes sociais e aplicativos de celular tudo é amplificado e ganha dimensões muito maiores. A violência não se restringe apenas ao ambiente escolar e o apoio é minimo, há muita cobrança de todos os lados. É o velho discurso da “mulher que não se dá o respeito”. Como se houvesse justificativa para a violência. É absurdo que as pessoas insistam em culpabilizar essas meninas ao invés de tentar compreender como nossa sociedade cria meninos que acham o abuso e o assédio algo corriqueiro.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Essas listas de classificação de meninas não são fatos isolados, assim como o estupro de uma menina de 12 anos por três colegas no banheiro de uma escola em São Paulo também não foi. A cultura violenta que atinge diretamente as mulheres também está presente entre os jovens e as escolas não estão fazendo muito para mudar isso.

Programas de educação sexual e igualdade de gênero são constantemente barrados por deputados e vereadores conservadores, que ainda acreditam que não falar de sexo com crianças e adolescentes vai fazer com que eles não pensem nisso. A falta de diálogo e informação com os jovens só tem contribuído para o aumento dos casos de violência.

Por que os meninos acham legal humilhar as meninas dessa maneira? Por que é divertido rir, expor e fazer escárnio da sexualidade de meninas? Provavelmente, não se importam com o fato de que várias delas estão vivendo um inferno em suas vidas. E isso acontece porque não veem as mulheres como eles, não as veem como pessoas. E quem desumaniza essas meninas e mulheres? A própria sociedade que apoia e incentiva que os meninos sejam predadores e as meninas passivas.

É preciso muita autoestima, apoio de pessoas próximas e orgulho para enfrentar a quantidade de violência a qual se é exposta no momento em que seu nome passa a circular nessas listas, a ser pichado em muros, a ser divulgado por gente que elas nem conhecem na internet. É algo que quebra por dentro, coloca essas meninas numa situação de vulnerabilidade e desespero enormes.

Grupos feministas organizaram um “Grafitaço” para apagar os xingamentos expostos em muros da periferia de São Paulo. Mesmo assim, vemos a apatia da sociedade em relação a essa violência absurda. Estamos preocupados em pensar e propor medidas eficazes para coibir esse tipo de ação? Vamos incluir a juventude no debate? Quais currículos educacionais brasileiros promovem um debate amplo sobre o assunto entre os alunos?

Infelizmente, parece que estamos bem distantes de mudar esse quadro. De mudar essa maneira podre e cruel com a qual as meninas e mulheres são tratadas em nossa sociedade. O peso da palavra “vadia” continua matando meninas e nós não podemos deixar isso acontecer.

Ajuda as vítimas do estupro coletivo no Piauí

A violência contra a mulher continua sendo um problema grave e urgente. Semana passada, três adolescentes foram vítimas de um estupro coletivo na cidade de Castelo do Piauí (PI). Nesse momento, o que as pessoas mais precisam é ajuda e apoio. Amigos e familiares das quatro meninas violentadas encabeçam uma campanha para arrecadar dinheiro para o tratamento das garotas que permanecem internadas nos hospitais. Intitulada “Flores para Elas, a iniciativa já está sendo divulgada nas redes sociais. A intenção é ajudá-las financeiramente e psicologicamente.

+ Sobre o assuntoListadas como vadias, punidas por serem mulheres. Por Jarid Arraes no blog Questão de Gênero.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

osexperientes_francisca

Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

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