Uma negra na capa da Playboy

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Quando era criança, o mês de maio era celebrado como o “mês das pessoas negras”, por causa da assinatura da Lei Áurea. Com o fortalecimento e ampliação do movimento negro, o mês de novembro passou a concentrar as demandas de luta e cada vez se fala menos na “abolição da escravatura”. Esse foi um dos primeiros pensamentos que me ocorreu ao ver que na edição de maio da revista Playboy brasileira, havia uma mulher negra na capa.

Ivi Pizzott é bailarina do “Domingão do Faustão”. A nona negra, em toda a história de quase 40 anos da revista no Brasil, a sair na capa. Meu pai assinou por anos a revista e, em minha memória, só consigo lembrar de Isabel Fillardis, num cenário de dunas.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

Ivi Pizzott na edição de maio/2015 da Revista Playboy Brasil.

As primeiras críticas que vi, falavam que não há nada de novo em ter uma mulher negra sexualizada na capa de uma revista. Não há empoderamento, não há representatividade. É fato que na mídia a mulher negra é ou hiperssexualizada ou invisibilizada, e nos contextos capitalistas o poder dificilmente muda de mão, mas me questionei: nos dias de hoje, essa capa da Playboy pode representar algo?

Se a Playboy existe, num mundo em que corpos femininos são comercializados para o prazer, especialmente masculino, o fato de termos apenas 9 negras num universo de mais de 400 edições da revista é a comprovação que os corpos dessas mulheres não servem nem mesmo para essas revistas, são cruelmente mais descartáveis.

Trago para a reflexão um texto, que considero clássico, de Charô Nunes: Deixar de ser racista, meu amor, não é comer uma mulata! A maioria dos elogios feitos as mulheres negras foca em seus atributos físicos opulentos, retirando-lhes humanidade, colocando-as no açougue, exatamente o trabalho de uma revista como a Playboy, que vende corpos femininos. Especialmente tendo uma capa que remete a etnicidade com os acessórios e exibe o cabelo de Ivi como uma grande coroa, temos a referência animalesca com a chamada que diz “solta suas feras”. Uma questão parece ser o espaço social que o racismo nega e que ainda mantem negras e negros acorrentados a representações legitimadas pela branquitude. O mesmo cabelo que na capa da Playboy é destaque e elemento componente da construção do desejo e apelo sexual, em outros é ridicularizado e tratado como abjeto. Não parece ser a mulher negra que decide como seu corpo lhe agrada mas a narrativa, as fotografias, os discursos externos que são feitos sobre esse corpo.

Porém, negras e negros também são pessoas que desejam, também são corpos desejantes, que muitas vezes gostariam de ver mulheres e homens negros lindos, gostosos, sedutores, todo mês em revistas que pudessem ser folheadas com prazer. A expressão da sexualidade acaba por ser mais um espaço a ser conquistado, um espaço em que negras e negros não precisem existir apenas para servir, apenas para ser a bunda do carnaval ou o maior pênis da festa gay.

Então, há essa luta pela liberdade dos corpos. A luta por uma estética que não seja eurocêntrica, exotificada, ridicularizada ou hostilizada. É preciso reconhecer que a objetificação do corpo das mulheres negras ocorre de formas diferentes a da mulher branca, portanto é preciso levar em consideração também outras formas de representação e vivência de sua sexualidade.

E há inúmeras perguntas que acompanham: o protagonismo individual de Ivi Pizzott pode significar ganhos dentro da teia capitalista, que vislumbra um poder também individual? Porque posar nua, ver-se nua numa revista famosa, traz novas formas de se olhar. Talvez seja também o sentimento que carrega a passista nua da escola de samba, que tem no momento do desfile o seu auge individual. Coletivamente, para as mulheres negras não há mudanças, mas individualmente pode haver significados diversos? E caso sim, como acolhermos e legitimarmos os desejos e ações individuais sem perder de vista os compromissos coletivos de transformação da realidade?

É uma capa da Playboy, mas é bom que até isso seja o catalisador de novas perguntas sobre o protagonismo das mulheres negras.

+Sobre o assunto:

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

 

Agrada, mas não satisfaz

por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

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Não nos conhecíamos, mas nos reconhecemos como duas pessoas que gostam de sexo. Estávamos há pelo menos meia hora numa disputa onde os corpos ficavam bem encostados e os lábios muito próximos. No confronto de olhares, um mais direto e o outro se fazendo de bobo – mas foi ele mesmo que fez o gesto: correu a boca pelo meu pescoço, arrastou os lábios, os dentes e um gemido na orelha. Cedi, como não, e mergulhei para provar a boca carnuda que me desafiava com malícia. Passamos a tarde perdidos nesses novos sabores, em línguas afoitas, dois cegos se identificando.

No início da noite um pequeno descanso, um lado a lado silencioso e ofegante. Mas depois de insinuados os caminhos, eu já queria mais, mais beijos, bem quentes. Queria o outro se contorcendo, gemendo baixinho, respirando mais fundo, entregue às minhas mãos. Você quer? Sim. Eu conheço um lugar. Sim. Agora? Sim. Aqui? Sim. Os outros mesmos beijos e roupas que se empilhavam no chão. Nessa alternância de desbravamentos, uma insinuação de força nas mãos que usei pra empurrar seus ombros em direção ao colchão. Meio riso, meio tesão, ele deitou e se deixou como brinquedo novo pra diversão alheia. Sentado no seu quadril, olhos fixos naquele rosto relaxado, eu me esfregava enquanto decidia o que fazer. Com a outra mão, alisei seu peito, belisquei mamilo, escorreguei pelo braço até encontrar sua mão. Sem desviar o olhar, entrelacei os dedos e puxei em minha direção. Lambi a palma, entre os dedos, mordisquei e chupei, firme, o dedo médio, como convite ou promessa. Ele gemeu e tentou levantar o corpo. Neguei espalmando as duas mãos no seu tórax. Fica aí. Ele ficou.

 Mordi seu ombro sem força e deixei a língua molhar seus pelos até o umbigo. Pequenas contrações na barriga denunciavam os desejos, não sei bem se dele ou meus. Descobri seu pau, ainda não intumescido. Sem aviso nem preparo, enfiei-o inteiro na boca e lá o deixei, quieto, sem movimentar língua nem bochecha, apenas lá, enquanto minhas mãos deslizavam pra baixo, levantando-lhe o quadril e apertando com força sua bunda. Paciência, paciência e o pau, em espasmos, esquentou e cresceu entre meus lábios. Satisfeito, deixei que escorregasse pra fora da boca e passei a alternar mão e boca. Lambi desde a base, chupei só a cabeça, enfiei o saco na boca e fiquei chupando com ritmo enquanto apertava ora de leve ora com força. Mordi entre as coxas e suguei. Um tantinho descontrolado, segurei com mais vigor antes de colocá-lo inteiro dentro da boca. Estava gostando tanto de sentir aquele volume entrando e saindo que poucas vezes olhei para o rosto do dono do pau. Estava dominado pelo anseio de saboreá-lo. Meu corpo enrijecia e se movia como um espelho do prazer que ele parecia sentir. Seu quadril se mexia como a indicar o que, quando e como. Ali, mais forte, agora. A minha boca antecipava o quase. Quase nada se ouvia além do deslizar úmido do pau no movimento que já não era meu nem dele. O tempo. E o alerta: vou gozar – enquanto puxava meu cabelo com força, afastando minha boca e me obrigando a ver seu rosto meio distorcido enquanto o esperma quente escorria. Como um desafio a mais, lambi enquanto segurava seu pênis entre as duas mãos, acolhendo enquanto amolecia o tesão. Um cochilo, penso. Mas ele me puxa pra cima, me vira de bruços, monta e sussurra no ouvido com a cara mais cínica e toda a sua sinceridade peculiar:

– Agrada, mas não satisfaz.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

Quando

por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

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Quando acordo e te vejo de costas, ali dormindo nesse nosso colchão no chão, dá vontade de desenhar nas suas costas com a língua. Sobe um desejo de abraçar teus ombros e te acordar com mordidas na orelha. Você de costas é um convite para sentir teu coração no peito. Te puxar de barriga para cima e me aninhar por algum tempo, corpos roçando, pernas e pêlos misturados, me encaixar no teu morno e pensar que às vezes mentiras podem ser verdades por alguns minutos.

Quando acordo e te vejo de barriga para cima, você sabe que não resisto a subir em você, começar a beija-la do umbigo até o queixo e de volta até a buceta. Sempre tenho mania de te acordar, porque você sorri ao me ver ali querendo mais. Agora tenho você, nessa casa vazia, com o tempo que temos para sermos duas. Dali a pouco sei que tudo vai acabar, mas agora só meu corpo nu, pedindo você.

Somos nós aqui outra vez, você disse. Porque é mesmo improvável esse nós, porque apesar de nos beijarmos tanto e dormirmos tão bem juntas, amanhã é outro dia e não há nós todos os dias, nossos dias correm ao sabor da água salgada que corrói as cordas.

Sempre preferi as manhãs para transar, porque assim o resto do dia fica mais tranqüilo, porque saio com o sol no rosto e nosso cheiro ainda grudado no meu corpo. É quando gozo no seu ouvido, quando você enfia seus dedos bem fundo e eu dou aquela paradinha sem ar com o rosto entre seus seios. É quando nossos corpos caem suados e entorpecidos. É aí que eu te beijo com mais desejo e cumplicidade. Sempre estamos juntas aí.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como@srtabia.

Pequenos Prazeres Biscates: Acordar

Essa quinzena, nas entrelinhas, tem gemidos baixinhos, suspiros, um tanto de saliva, arrepio na pele, sorriso largo, memórias e desejos. Vem com a gente, conhecer nossos pequenos prazeres biscates…

#PequenosPrazeres
por Bianca Cardoso, Biscate Convidada

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Obra de Darli de Oliveira, 2010. Outras obras, aperte aqui

Ele tinha chegado de viagem no início da noite. Eu havia prometido que ia dormir no seu apartamento. Cheguei arrumada, mas estava cansadíssima, só consegui dar uns beijinhos e quando ele levantou para ir à cozinha, dormi. Uma comédia. Mas na manhã seguinte acordei mais cedo e decidi fazer algo para dar as boas vindas.

Ele ao meu lado dormindo, só de cueca. Levantei o cobertor com toda a delicadeza para não acordá-lo, me movimentava bem devagar. Dei um beijo de leve, ele começou a acordar. Então peguei sua cueca e comecei a tirá-la. Ele ainda com sono, meio sem saber se era sonho ou não. Segurei seu pau e comecei a movimentá-lo para cima e para baixo… Bem devagar, olhando para seus olhos ainda sonolentos. Minha língua começou percorrendo a região ao redor, lambendo a parte interna das coxas… Até chegar na base do seu pau, que já estava duro e pronto para receber todos os carinhos que eu poderia dar.

Posicionei-me com o rosto bem em cima de seu quadril, bem na direção onde ele pudesse observar, deixei a bunda bem arrebitada e comecei com longas lambidas, da base até a ponta… Percorrendo todo o comprimento daquele pau, procurando sentir o sangue que corre por dentro dele. Sugando com vontade o líquido que denuncia sua excitação. Chupando primeiro a cabeça, beijando-a, passeando os lábios. Preparei-me para a descida, abri um pouco a boca e deixei que ele entrasse e saísse… Entrava fácil com a ajuda da minha saliva e saía com alguma resistência por causa da pressão que eu fazia, tentando segurá-lo mais tempo dentro da boca. Em intervalos, eu parava de chupá-lo e segurava seu pau com força com umas mãos, procurando manter o ritmo enquanto o assistia se contorcer na cama… Suas mãos tentando alcançar meus cabelos… E sua boca tentando dizer “não pára” entre gemidos. E quanto mais via ele se contorcer, mais eu mexia minha bundinha rebolando… E mais eu brincava com seu pau.

Abri a boca mais uma vez e enquanto escorregava seu pau dentro, passava a língua ao redor, deixava-o todo lambuzado, até o momento em que senti que ele estava mais duro, que seus músculos estavam ficando tensos, aumentei o ritmo e a intensidade das chupadas. E então escutei o gemido profundo, só um. E senti na boca aquele gosto que começa doce na ponta da língua e vai descendo amargo no final, quente e fácil de engolir.

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bia Cardoso teve uma curta carreira de escritora erótica entre 2005 – 2007. Esse texto é dessa época, quando ela ainda nem pensava no gozo de hoje. É autora do Groselha News e pode ser encontrada no twitter como @srtabia

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Na Cama Com Simone

Hoje temos duas mulheres especiais fazendo a festa no nosso Clube. Nosso GUEST POST dessa segunda é da Biscate Convidada Srta. Bia, autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas. Divertida, antenada e lambateira tropical, a Srta. Bia pinta e borda no twitter. E como Biscate adora celebrações, nada mais apropriado que lembrar a aniversariante ilustre do dia: Simone de Beauvoir – que, aliás, não recusaria um brinde: tim-tim.

Na Cama Com Simone, por Srta. Bia

Em 1952, Simone de Beauvoir estava dando uns amassos com seu peguete, o escritor Nelson Algren. Os amassos evoluíram para um je t’aime moi non plus e no fim do dia Simone precisava de um banho. Simone tinha 44 anos e Nelson tinha um apartamento alugado sem chuveiro. A solução foi levá-la até a moradia do fotógrafo Art Shay, um amigo que tinha um chuveiro e uma câmera na mão, exatamente na hora em que Simone se arrumava no espelho.

Simone foi uma biscate intelectual, que nunca deixou de exprimir suas dúvidas e de conhecer profundamente seus desejos. Sabia que seu casamento racional com Sartre era eterno, mas seu corpo sempre precisou de novos sabores, que vinham ou não com o tempo, e permaneciam ou não com o momento. Na Chicago dos anos 50 lá estava ela, nua em um banheiro de alguém. Liberta e relaxada, decidindo como prender o cabelo.

Como seria bom se todos pudéssemos nos despir do conservadorismo e do medo de se entregar ao corpo. Um corpo que pulsa, está vivo e tem desejos, que sucumbe aos pormenores de uma fungada no cangote, que está pronto para decidir o que os lábios não precisam falar. Simone está despida de seus medos e pudores, pronta para arrancar mais um pêlo na sobrancelha, ou pronta para mais uma noite em meio a braços e pernas sedentos. A foto pode ter sido roubada, mas não havia nada a esconder. Há uma mulher viva, corpórea, e sensual. Uma mulher entregue a espontaneidade de sua liberdade.

A biscate não esconde por pudor, ela está inteira e transparente no momento em que joga o cabelo suado para trás depois de horas sambando. O sorriso transborda em cada gesto. Tirem quantas fotos quiserem, ela está estampada nos murais da vida, Aproveitando cada dia como uma dádiva. Um momento que escolheu viver, sem fechar portas para quem quiser compartilhar esse clique de intimidade.

Ela nasceu em 09 de janeiro de 1909. E em 1952, mantinha o ímpeto de se entregar a quem ela desejasse, sem receios, sem compromissos e sem pensar no que os outros iam dizer. Uma mulher que atravessou seu tempo, sem nunca perder l’ésprit de la biscatage.

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