Vestida de onça pintada

mulhertigre1

Carminha é vendedora de frutas lá em Pirapora, minha cidade natal, no sertão de Minas Gerais. Conhecida como “Mulher-Tigre”, na verdade, ela é mesmo uma onça! Há mais de 20 anos ela só se veste com roupas de estampa print animal, “inclusive nas peças íntimas”, me contou safadinha, da vez que conversamos.

“Me vestir assim é minha missão de vida”, disse, sem entrar em detalhes e me deixando mais atiçada ainda. A lenda que corre é que ela teve um marido abusador, que a maltratava física e emocionalmente. Belo dia, esse homem, metido a caçador, teria saído pela mata e sido engolido por uma onça. Desde então, Carminha assumiu essa espécie de luto perpétuo subvertido.

Até tentei confirmar isso que me parece uma história pra lá de instigante. Ela nada disse. Apenas riu.

Uns anos atrás foi publicado um texto apócrifo em Pirapora ridicularizando “personagens curiosos” da cidade. Carminha estava lá, num contexto de galhofa que misturava comentário sobre sua aparência e “piada” homofóbica sobre seus filhos.

Com que facilidade uma mulher se torna alvo de patrulha por não seguir um padrão, qualquer que seja ele, né? O do dress code cotidiano, por exemplo, sobretudo aquele apontado como o “mais adequado” a uma senhora. Ainda mais se tratando de uma senhora que, no folclore local, ao invés de render homenagem ao marido morto decidiu homenagear a onça que o teria devorado!

mulhertigre2

E por mais que eu fique tentada a dessa história escrever um conto, o caso é que, no final das contas, qualquer elucubração pretensamente literária esbarra mesmo nas perguntas mais simples: por que Carminha não pode se vestir da maneira que quiser sem contar ora com a condescendência, ora com o desprezo disfarçado de ironia por parte de alguns? Por que Carminha foi parar num panfleto covarde, porque sem autor, por sua maneira de vestir?

Ainda que seja amada na cidade, porque é, nem sempre as pessoas se abstêm da ironia ao se referir ao seu estilo.

O que me consola, nesse caso, é que ela não parece se importar nadinha com a opinião alheia. Porque ela passou ao largo do disse-me-disse machista e do texto barato e continua se mantendo fiel às suas escolhas de moda.Quer conhecê-la, é só ir lá em Pirapora. Da rodoviária mesmo basta perguntar onde fica a banca de frutas da “Mulher-tigre” ou ‘mulher onça”. Qualquer um sabe.

Recebe muitos presentes, de bichos de pelúcia a livros, de todos os lugares do mundo. Em um desses livros, me disse, aprendeu que há vários tipos de onça: grande, pequena, albina, mas que a mais valente é a onça pintada.

“Mais valente que o leão!”

BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Divina, Biscate Convidada

Se uma protagonista feminista estereotipada surgisse no cinema, muita gente ia comprar a ideia. De antemão, é palatável aceitar o que dizem as más línguas sobre o Outro. Esse texto é destinado a  quem ficou atormentado com o filme e gostaria de saber na opinião de quem vivencia: É mesmo verdade que o pessoal do BDSM se comporta daquele jeito? As pessoas fazem aquelas coisas? Atenção, se não quiser saber detalhes do enredo, não prossiga a leitura.

untitled

Anastasia Steele é uma estudante de literatura com visual ladylike, curiosa e declaradamente romântica (além de virgem), dirige um fusca e tem o hábito de morder os lábios. Christian Gray é um homem muito rico, com “gostos peculiares”, experiente sexualmente, órfão de uma mãe viciada em crack, abusado sexualmente quando mais jovem. Ao se conhecerem, Anastasia se sente intimidada pela figura de Christian, a jovem expressa muitos indícios de desconforto dada a coação nas coisas mais simples: “Coma isso, não beba aquilo”. Em determinada ocasião, bêbada numa danceteria, telefona e solta meia dúzia de verdades. Ao invés do Dominador sexualmente experiente aceitar que a moça semi-desconhecida não gosta da abordagem, o que ele faz? Vai procurar o que fazer já que é um ocupado homem de negócios? Não. Ele aparece no clube e a leva para a casa dele (sem perguntar se queria). Ao acordar na casa de Christian com uma camisa masculina, descobre que ele a trocou porque estava suja de vômito e de acordo com o sujeito, não aconteceu nada sexual entre eles. Esse é o princípio das incongruências do personagem, supostamente tão versado no BDSM mas completamente desestabilizado por uma mulher baunilha (baunilha = alguém que gosta de sexo dito convencional, sem conteúdo BDSM) e iniciante.

Se um homem te proíbe de ver amigos e família sem estar na presença dele, ou liga para saber com quem está e o que está fazendo, ele não é um Dominador no BDSM, na verdade, ele não passa de um homem inseguro, controlador e de postura abusiva. Se um homem se desfaz das suas coisas sem te perguntar, isso é violência patrimonial. Se um homem não deixa você transitar em nenhum espaço sem aparecer sorrateiramente (até na sua casa!), controlando o que você bebe e come, ele não está cuidando da sua saúde porque te ama,  está controlando o seu corpo porque assume que você é posse dele.  Se um homem não te deixa sair de casa  “nesse castelo que construiu para te guardar de todo mal”, ele não está te preservando, ele quer que viva somente em função dele sem projetos pessoais ou interação social. Se um parceiro proíbe e restringe seu contato com o mundo exterior ele está te fazendo prisioneira, no máximo concedendo uma liberdade assistida aqui e ali. Romantizar o cárcere emocional, financeiro e psicológico de mulheres é preocupante. Não interessa a justificativa dada por ele, você não precisa ser refém da insegurança alheia, nem tem a obrigação “salvar” um homem controlador. Essa é uma tendência romântica alarmante: Mulheres são ensinadas a aceitar o ciúmes e a possessão de seus parceiros, porque se sentem mães deles (sequer mães, tem a obrigação perpétua de responder pelos atos dos filhos). Mulheres não precisam ser as responsáveis por marmanjos capazes de limpar a própria bunda.

Entre os muitos abusos de Christian Gray, está coagir uma moça completamente alheia ao BDSM em embarcar nas preferências sexuais que não a contemplam. A negociação dos termos BDSM varia de pessoa para pessoa, há mesmo quem elabore contratos, outros preferem estabelecer os parâmetros verbalmente. Isso pode parecer um tanto estranho, mas se as pessoas conseguem pensar pragmaticamente ao casar com quem fica com a residência, o carro, a guarda das crianças e o cachorro, porque não fazer isso em uma união sexual? Não é uma obrigação, apenas um dos modos de operar em um acordo BDSM. Estranho um Dominador experiente como Christian, aparecer de contrato pronto com termos técnicos e pressionar tão insistentemente para que Anastasia o assine. A jovem é completamente baunilha, inexperiente sexualmente, seria no mínimo indelicado abordar qualquer pessoa virgem e sugerir um punho enfiado no cu, quem dirá impor a assinatura de um termo para alguém cuja expectativa de estreitamento afetivo, envolve chocolate e cinema sendo que a outra parte aspira açoitá-la. Como um Dom experiente não é seguro o bastante para ouvir um “Não”?  Como não tem auto-controle o bastante para se abalar com as perguntas (legítimas) de uma moça baunilha? Como proíbe o toque se a moça ainda nem assinou o contrato? Anastasia Steele não é a submissa de Christian Gray, em nenhum momento do primeiro filme ela assina o contrato. Como o tal Dominador experiente nega quando bem entende o uso do acordo, mas exige que a parte da submissa seja completamente cumprida se ela sequer assinou? Como não respeita o tempo e os limites de quem se envolve? Como antes da concordância da parte envolvida já parte para um flogger? Como um Dominador experiente não sabe lidar com uma simples virada de olho sem reagir punitivamente?

Esse filme poderia perfeitamente ser realizado nos anos noventa, nessa época filmes sobre relacionamentos abusivos ganharam destaque, por exemplo, “Dormindo com o Inimigo” e o reprisado muitas vezes na tv, “Medo”. A diferença é que em 50 tons de cinza a violência contra a mulher foi romantizada numa roupagem distorcida de BDSM. O BDSM é estruturado na tríade São, Seguro e Consensual. Assim, as pessoas envolvidas tem de ser adultas com discernimento suficiente para distinguir a encenação BDSM e a violência não consentida. E isso, em sobriedade. Perdi as contas das cenas do personagem bebendo, até mesmo oferecendo uma taça antes dela assinar o contrato. Se na sua cabeça não faz sentido se excitar com BDSM, não force, não é para você. Não há problema nenhum ser baunilha, você não é uma pessoa desinteressante ou menos liberta por gostar de sexo convencional.  Ao que parece, as cenas de 50 tons, envolvem camisinhas e aparatos novos (pela possibilidade de pequenos cortes e sangramentos, o instrumento deve ser de uso exclusivo e devidamente higienizado). Espantosamente, as práticas não foram consensuais, uma vez que o contrato não foi assinado e a moça não teve a segurança do que aconteceria entre eles. Um preceito básico do BDSM menosprezado no filme, é o aftercare, o cuidado após a sessão. Que tipo de dominador experiente não sabe fazer um aftercare, ainda mais com uma iniciante? Enquanto Domme, sei quais palavras excitam meu submisso e quais não devo usar por serem gatilho de experiências traumáticas. Além dessa consideração, tenho de estar atenta aos sinais do corpo para que não fira a integridade física e psicológica, no entanto, pode ser que um dia ele não esteja bem ou mesmo sem esperar, demande parar uma sessão. BDSM é um jogo de mútua atribuição, não apenas a figura dominante tem de ter auto-controle e saber se é hora de interromper, a parte submissa tem de conhecer os próprios sinais e indicar ao dominante que a sessão precisa de uma pausa (dominante não tem bola de cristal).

Anastasia sentiu prazer em um bondage brando, o uso de uma gravata para tornar uma coisa interessante aqui e ali. Ela não se sentiu bem com as cintadas no final. Por mais que uma pessoa baunilha tenha curiosidade em experimentar o BDSM, um dominador não pode ceder aos apelos de quem jura de pé junto que aquenta, ao mesmo passo que oferece todos os sinais de despreparo. Um dominador experiente sabe que até conhecer os limites de alguém, é preciso pegar muito, muito leve. Por mais que se implore, por mais que alguém diga ser corajoso, não se dá um mix de pimenta com quem reclama da ardência de agrião.

Christian Gray não faz Anastasia se sentir segura como um Dominador faria. Ele a deixa perdida e proíbe a moça até de declarar seu amor. Ele termina uma sessão e ao invés de cuidar, a abandona em um quarto sozinha. A proíbe de contar para qualquer pessoa sobre o que estão prestes a concretizar. Sabe-se que praticantes de BDSM criam pseudônimos para lidar com o preconceito, uma vez que a credibilidade profissional e até mesmo moral é posta em questão ao serem descobertos. Como um casal (ou uma casa, quando há um pequeno grupo), lidará com a relação do público e privado das identidades, é acordo mútuo. Assim como muitas pessoas vivem no armário por não serem hétero,  praticantes de BDSM tem de chegar em consenso com seus parceiros sobre quem será capaz de não os jogar no ostracismo, se assumirem a prática não baunilha. Em 50 tons de cinza, o clichê do relacionamento abusivo como sinônimo do amor possessivo e monogâmico, uniu-se ao que os baunilhas pensam ser práticas BDSM. É como um homem hétero com pouca experiência sexual descrevendo sexo lésbico. Passar gelo no corpo é tão baunilha quanto cobri-se de chantilly e morangos. Até as reações são cinematográficas demais, ao variar o lugar da estimulação por exemplo, o corpo dela (inexperiente) não se antecede em nenhum momento, não hesita, não tem contrações involuntárias. A única marca visível durante o filme é um erro de edição, antecede o primeiro contato da bunda com um chicote de hipismo (riding crop). Christian afirma que uma das vantagens em ser submisso é abrir mão do controle, não ter obrigações e responsabilidades, como afirmei algumas linhas acima, o submisso também tem responsabilidade e auto-controle durante a sessão. Se você ficou curiosa para saber mais sobre o BDSM e deseja experimentar, leia bastante sobre o assunto, procure referências da pessoa no meio fetichista, faça todas as perguntas, todas mesmo. Você não precisa forçar nenhum comportamento para se moldar ao gosto alheio. Você não precisa chamar fulano que nem conhece de “Senhor” porque ele te diz que é Mestre há não sei quantos anos. Se você tem vontade apenas de ser amarrada mas não de ser amordaçada, se você tem vontade de ser chamada de determinados nomes mas não de outros, se você quer experimentar uma dinâmica de dominação mas sem dor, cada um desses limites deve ser respeitado. É você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo, é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo. Para ser Domme não é preciso ser carrancuda, para ser submissa não precisa ser introvertida. BDSM é indissociável do livre-arbítrio nos dois lados do chicote.

 

AVATAR* Divina é uma biscate oblíqua e dissimulada, conversa sobre feminismo com as fetichistas e de fetiche com as feministas. É Domme,  sadista e aprecia homens amordaçados.

Mulher, de histórias e existências

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#8demarço #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

De repente me perdi e me achei no site do Museu da Pessoa, que criou um especial somente com historias de mulheres. Segundo o próprio site, “Mulheres guerreiras que com amor, fé, esperança, determinação e muita luta triunfaram sobre os mais diversos obstáculos impostos pela vida.” Puro encantamento, saberes tradicionais, conhecimento ancestral, orgulho, altivez, picardia, liderança, charme e sabedoria.

Acabei passando horas ouvindo os relatos dessas mulheres e lendo as informações mais detalhadas publicadas na própria página, num link logo abaixo. Como a historia de dona Raiumunda Nascimento, rezadeira, curandeira, descendente dos povos Tremembé, mas também reconhecida como uma liderança do povo Tapeba. “Não tenho vergonha da minha historia.” Também me perdi e me achei com a de Valdenice Santos, lavadeira, que embalava sua lida entoando cantigas que aprendeu dos mais velhos e, hoje, integra o grupo “As lavadeiras de Almenara”.

Pra mim, esse coral é uma escola e cantar no palco, no meio dos colegas, é como uma formatura. Hoje em dia eu dou valor a tudo o que eu fiz. Porque o que eu fiz não é nada perdido: trabalhar na roça, ser cozinheira, bom, graças a deus. Voltar a passar a ser lavadeira (…). Eu vou te falar que eu tenho uma felicidade muito chique.

Ou mesmo a de Maria José Carvalho, liderança que se destacou na ocupação de terrenos vazios no bairro onde mora, de Vila Maria, em São Paulo. Ela narra o processo de organização das ocupações e de negociação do movimento. “Não há cidadania sem luta”.

E dona Maria da Paz da Silva, que saiu de um relacionamento abusivo e se apaixonou outra vez? “Pretendo viver o resto da minha vida com ele.”

Coisa linda pra mim é mulher contando sua própria historia. Mulher se reconhecendo também como protgonista de suas conquistas e perdas e dores e afetos. Pra mim, toda historia é formidável e toda vida é uma biblioteca inteira de sentimentos, de amor, de terror, de frases transcendentes, de finais felizes ou inquietantes, de vários epílogos que se misturam, viram prólogos e ressignificam narrativas.

Foi bem nessa toada que me lembrei do MAMU – Mapa de coletivos de mulheres. Criado por Maria Carolina Machado, é um projeto de mapeamento de coletivos, organizações, movimentos, grupos e projetos brasileiros que têm como foco as mulheres, o feminino, o feminismo, nossos ciclos, ritmos, reivindicações e lugares na sociedade.

mamu_biscate

Em seis meses de existência, o MAMU tem cerca de 190 pontos mapeados. “É fundamental perceber que ele nunca estará completo, não é a sua função”, me conta Carol. “A ideia é que o mapa seja dinâmico, aberto e vivo, pronto para incluir cada coletivo e projeto formado e encontrado.”

O foco é a mulher e suas demandas, seja a de um coletivo, um movimento social, um projeto, um espaço ou uma iniciativa individual. Carol recebe vários pedidos de inclusão, no entanto, como ainda executa e desenvolve o MAMU sozinha, reconhece que pode ser um processo lento. “O desejo é que, num futuro próximo, esse mapeamento seja participativo e, com apoio e incentivo, possamos contar também com uma equipe para que esse processo de pesquisa, mapeamento e inclusão seja mais rápido e acessível.”

A expectativa é que o MAMU não seja apenas uma plataforma de visualização de pontos. “Queremos que esses grupos, ao se reconhecerem espacialmente, percebam suas afinidades, diversidade e façam conexões entre si.” Por isso, ela prevê a criação de campanhas de sensibilização, articulação, encontros e cursos que fomentem discussões, redes de troca de serviços, escambos e desenvolvimento de projetos.

“Desejo também que seja inspirador e motivador para o encontro de mais e mais mulheres, e a formação de mais e mais grupos.”

Se você conhece e quer indicar algum coletivo, movimento etc, é só ir no Cadastro do site e preencher os dados. Eles servirão de base para o mapeamento.

Quem vem?

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Renata Côrrea, Biscate Convidada

Mais um dia oito de março passou. O meu mais pessimista e mau humorado dia das mulheres. Não quero parabéns por ser mulher. Não me parabenizem.

8demarco4

Não gosto de ser mulher guerreira ou mulher lutadora. Esses são só adjetivos que mostram como nós temos que combater um mundo violento e machista.

Não me dêem flores. Elas significariam muito se fossem uma homenagem para aquelas que o machismo matou e continua matando. Mas não. São só símbolo da fragilidade que se atribui a nós.

Não tentem me vender cosméticos, roupas, seguros, aparelhos domésticos usando esse dia como pretexto. Isso só reforça o quanto o patriarcado acredita na nossa função decorativa e consumista motora do capitalismo. Sua publicidade que usa adolescentes brancas e anoréxicas não me interessa. É só mais uma forma de exploração.

Não me atribuam adjetivos de docilidade, não generalizem, não comecem uma frase com “as mulheres são”. As mulheres não são. Não são todas iguais. Não são o equilíbrio do planeta. Não são o esteio do lar. No máximo em sua totalidade as mulheres são, em maior ou menor grau, violadas, são subestimadas, são achatadas – no mercado de trabalho, nas relações amorosas, nos seus partos, no transporte público, na rua.

Então não. Eu não estou aceitando parabéns. Nem felicitações. Mas aceito de braços abertos quem deseja mudar essa realidade. Quem vem?

renata corrêaRenata Corrêa é tijucana no mundo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Do Que é Humano, Demasiado Humano

Por Daniela Andrade, Biscate Convidada

sexualidade

Toda vez que leio alguém defendendo a homossexualidade dizendo que ela também existe no reino animal (detalhe: seres humanos também são animais), eu me pergunto:

Todas essas espécies animais não humanas transam uns com o outros por conta de afeto e desejo ou só por instinto? Sei que há espécies de primatas e de golfinhos que segundo consta, transam também apenas por prazer, mas não tenho notícia que isso se dê com todas espécies animais.

Acho tão rasas essas comparações. Afinal de contas, parece que só serve para a homossexualidade e a heterossexualidade, como se sexualidade se reduzisse à práticas sexuais, que praticas sexuais definissem orientações sexuais, quando sabemos que isso não é verdade. Um homem que transou com outro homem não se transformou em um homem gay, uma mulher que transou com outra mulher não se transformou em uma mulher lésbica. Pressupõe que para alguém ser gay, para além de fazer sexo com outra pessoa, exista também o afeto; afinal, o cara pode nunca ter transado com alguém e ainda assim ser gay, pois seu afeto está orientado para determinado espectro de gênero: outros homens.

Um homem que é penetrado por uma mulher não é gay automaticamente. Ele pode continuar amando mulheres, ainda que goste de ser penetrado por elas, mas continuar rejeitando homens a qualquer pretexto.

Outra coisa, onde estão os animais não humanos bissexuais, pansexuais, assexuais, arromânticos, biromânticos, heteroromânticos, panromânticos, poliromânticos, gray-românticos, demirromânticos, pomossexuais, e todo o infinito de sexualidades diferentes e inimagináveis?

Fora que, quem define o que é homossexualidade e heterossexualidade são os seres humanos, para os animais não humanos isso não existe. E a definição da homossexualidade e da heterossexualidade foram modificadas ao longo dos tempos, da Grécia antiga até o que temos hoje, nem sempre o que se convenciona-se por homossexualidade e heterossexualidade é o que modernamente se define.

Acho que para dizer que a homossexualidade é mais uma das legítimas formas da sexualidade humana, não é necessário enquadrar todos animais que fazem sexo e/ou trocam afeto com animais de mesmo genital como homossexuais. Inclusive por que isso nem é homossexualidade para humanos, afinal de contas, um homem trans com uma vagina com um homem cis com um pênis, podem ser um casal homossexual; e uma mulher trans com um pênis e uma mulher cis com uma vagina podem ser um casal homossexual.

daniela andrade *Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Corpo Magro e Saúde. Saúde?

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada

Essa semana, no programa Bem Estar, que passa de manhã na Globo, um especialista convidado falava sobre dieta e as festas de fim de ano. Segundo ele, “estudos apontam que a maior causa de ganho de peso ao longo da vida são as festas de fim de ano”, porque a pessoa engorda 3kg em dezembro, depois ao longo do ano ela emagrece só 2kg e, depois de 5 anos ela já engordou 5kg só com esse quilinho a mais que ela ganhou em dezembro. Zero novidade, né? É TV deixando a galera “neurótica” com peso até nas festas de fim de ano. Só que a gente sempre encara essas “dicas” como conselhos pra melhorar a saúde, a forma física etc. Mas aí logo depois de falar dos PERIGOS de engordar, no intervalo do programa, rola uma propaganda de shake de emagrecimento da Herbalife, além de vários outros produtos light e diet que “auxiliam” nas dietas.

Eu não consigo enxergar isso como coincidência. Há quem diga que essa campanha da mídia “pró emagrecimento” é pela saúde do brasileiro. Mas pra mim isso é sobre o lucro mesmo. É o mesmo capitalismo que incentiva durante horas e horas do dia que a gente coma bastante hambúrguer, sorvete, bolacha e tudo mais, dando um jeitinho de lucrar com os supostos resultados disso. Falo supostos porque há inúmeros estudos que mostram que nem sempre a alimentação determina o formato dos corpos dos indivíduos, e em alguns casos também não determina a saúde. Só sendo muito inocente pra achar que a quase exigência da mídia pelo emagrecimento não tem foco no lucro. A indústria do emagrecimento é uma das que mais cresceram recentemente, como alguns números nessa matéria aqui indicam.

Esse lucro vem de uma estratégia eficaz: baseada no discurso da saúde, não no da estética, a indústria te convence de que você precisa emagrecer uns quilinhos ou quilões, mesmo que você esteja com a saúde perfeita. Os argumentos relacionados à estética são hipocritamente menos valorizados, mas também são utilizados – “veja como fulana ficou mais bonita após perder 12kg”. Digo hipocritamente porque as propagandas exibem corpos magérrimos e que não existem (porque são moldados via photoshop) como ideais de “saúde”. Mas não se pode identificar a saúde dos corpos olhando pelo seu formato. Quando discuto sobre isso no twitter, sempre alguém diz “minha mãe é pele e osso e tem um colesterol altíssimo, e também é cardíaca”. Pois é. Meu irmão sempre foi magro e é o único dos três filhos que tem problemas com colesterol. Eu sou gorda e minha saúde tem estado OK, mesmo com o hipotireodismo que descobri em 2008. Tem aqui uma entrevista razoável sobre o tema.

Então, se o objetivo é exibir o ideal de corpo saudável, por que nas capas constam corpos que não existem, esculpidos em photoshop? Por que não mostrar os corpos “reais” com saúde – em tese – perfeita? É preciso desmascarar esse discurso porque as crianças estão crescendo em um mundo que opera precisamente através dessa lógica nociva para o desenvolvimento psicológico de qualquer pessoa. E é óbvio que não preciso dizer que as que mais sofrem são as meninas. Será que vale à pena, portanto, arriscar a saúde mental das meninas pra alimentar um grande capital em desenvolvimento sem questionar os objetivos disso? Vale a pena expor as crianças a um ambiente que maltrata os corpos porque vivemos sob uma lógica equivocada que diz que magreza é sinônimo de saúde e sobrepeso é sinal de doenças – se não já existentes, futuras?

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

 

Mulheres rodadas: quem tá nessa roda?

Por Larissa Santiago*, Biscate Convidada.

1970440_603011886494913_5122229924736376141_n

Essa semana, a poderosa internet nos agraciou com uma imagem que já era piada pronta: depois de ouvir os Bolsonaro da vida falar que a Dep. Maria do Rosário não merece ser estuprada, vimos um homem cis branco e [provavelmente] hetero exibir orgulhosamente um cartaz que diz: “Não mereço mulher rodada”.

Não me surpreende em nada essa declaração machista, depois de ter notícia da última pesquisa divulgada no Fórum Fale Sem Medo que aponta que 51% dos jovens defendem que a mulher tenha a sua primeira experiência sexual somente em um relacionamento sério; 41% afirmam que a mulher deve ficar com poucos homens; 38% garantem que a mulher que fica com muitos homens não serve para namorar e, difícil de acreditar, 25% dos jovens pensam que, se usar decote e saia curta, a mulher está se oferecendo.

Ora, a juventude aponta que a sociedade é machista e sexista e suas respostas corroboram com seus atos, justificando assim a dinâmica da sociedade patriarcal. Estamos falando de liberdade sexual e direito aos corpos também, e fica claro com essa pesquisa que a sociedade ainda acha que é ela quem manda nas mulheres.

Precisamos ter o aval de homens e instituições para resolvermos se queremos ou não nos relacionar, sair, transar. E seja lá qual for nossa “decisão”, teremos ônus.

Mas o que eu quero destacar nesse texto, além do machismo evidente, se resume a pergunta: De qual mulher estamos falando?

Fechem os seus olhinhos e imaginem a mulher rodada. Depois me contem nos comentários.

De largada lhes digo que essa mulher rodada tem independência financeira, no mínimo tem alto grau de escolaridade e provavelmente está no hall das “eleitas para um futuro”. Quero dizer com isso que algumas mulheres podem se dar ao luxo de serem rodadas, outras não. E mesmo que não exerçam sua liberdade sexual tal qual gostariam, serão taxadas de ““““prostitutas”””” [com muitas aspas, pois não há intenção de moralismo aqui] e sempre serão hipersexualizadas.

Queremos que ser rodada ou não seja uma escolha nossa, certo? Mas ainda temos os dedos do machismo em riste na cara, dizendo quem pode ser rodada e quem nem se quer pode andar na rua em paz, ou se sentar num bar com amigas de cor sem ser importunada pelos que se sentem no direito de invadir seu espaço e lhes cobrar atenção – e caso não role, ainda saem como as “““““vadias””””” [também com bastaaante aspas].

 O dilema da liberdade sexual atinge as mulheres de diferentes modos, essa é a verdade das coisas. O machismo e o sexismo também. É óbvio que o mocinho se referiu a todas as mulheres quando as quis insultar, mas para algumas mulheres – como essa que vos fala –  ser rodada tem um preço bastante alto e que envolve variadas questões. Isso significa que eu quero abrir mão de ser rodada? Não. Isso quer dizer que eu prefiro o celibato? Muito menos. Só não posso negar o fato complexo que isso, ser rodada ou não, significa na minha vida e na vida de outas mulheres negras. Impossível fechar os olhos para o simples fato de que isso na maioria das vezes não é uma escolha pra nós: está implícito, graças ao machismo, o sexismo e o racismo.

Por enquanto, vamos juntas tentando desconstruir esse pensamento machistinha uó enraizado de que mulher boa mesmo é mulher que não transa no primeiro encontro, de que mulher tem que ficar em casa enquanto uzomi sai com os amigos (vide video da plateia Altas Horas) e que nenhum homem merece (sic) uma mulher rodada.

De verdade? Nenhuma mulher merece essas violências simbólicas e essas baixarias, seja na rua, seja na internet. Estamos todas fartas e isso sim deve estar na roda!

 

larissa*Larissa Santiago é baiana e publicitária.

 

Aborto e retrocesso social: não!

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

aborto11

O aborto clandestino mata mulheres. Essa é uma realidade incontestável. Uma realidade triste, diante da qual a sociedade brasileira se cala. Sem luto. Aceitando o destino de milhares de mulheres que, diariamente, submetem-se às mais diversas situações para poderem dispor sobre seu corpo. A média anual estimada pelo Ministério da Saúde é que cerca de um milhão de mulheres (sim, UM MILHÃO!) submetam-se a esse procedimento no Brasil, isso o Brasil registra, ao ano, 250 mil internações de mulheres por complicações decorrentes de abortos ilegais.

É muito, não? É muita condenação às mulheres, mulheres que não engravidam sozinhas mas que sofrem sozinhas, jogadas à sua própria sorte. E, claro, quanto menos dinheiro a mulher tem, menos chances ela tem que ter um procedimento seguro. Sim, porque o aborto também é uma questão de desigualdade social. Não são só mulheres pobres que abortam. Mas são mulheres pobres e negras que sofrem as piores consequências do aborto. E também é sempre bom lembrar a Pesquisa Nacional sobre Aborto feita por Débora Diniz e Marcelo Medeiros: as mulheres católicas e evangélicas abortam, e as mulheres casadas, com outros filhos, também. São o maior número, inclusive, de mulheres que se submetem ao aborto no Brasil. Todas as mulheres abortam. Eu, você, sua amiga, sua avó, quem você nunca pensou que tivesse. Clandestinas, somos todas nós.

aborto9

Claro, queremos a legalização do aborto. Queremos que qualquer mulher, enquadrada em diretrizes legais e em procedimentos determinados e regulados pelo Ministério da Saúde, possa se submeter, se assim for da sua vontade, a um aborto seguro e legal.

Hoje, no Brasil, existem possibilidades de aborto legal. Pelo artigo 128 do Código Penal, as mulheres podem se submeter ao aborto de forma segura e legal nos casos de: risco à vida da mulher e violência sexual. A ADPF 54 (Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamenta), julgada pelo Supremo Tribunal Federal em 2012, determina que nos casos de anencefalia as mulheres que gestam um feto anencéfalo também tem esse direito, caso optem pela interrupção da gravidez. Isso porque considera inconstitucional qualquer interpretação que enquadre uma mulher que se submeta ao aborto nos crimes de aborto tipificados no código penal (artigos 124 e seguintes). Um avanço na nossa legislação retrógrada e retalhadora de mulheres.

Os casos mais controversos continuam sendo, claro, os casos de violência sexual. Porque né? Na hipocrisia social em que vivemos, a mulher é sempre culpada pela violência que sofre. “Ela provocou”, “ela quis”, e por aí vai. Sem contar que a maior incidência de crimes sexuais contra mulheres acontece dentro de suas próprias casas, ou no âmbito familiar. Como provar os casos de violência sexual numa sociedade que condena mulheres pelo simples fato delas serem…mulheres? Não é tarefa fácil, não.

aborto4

Hoje para uma mulher se submeter ao procedimento de abortamento legal, nos casos previstos em Lei, ela deve apenas procurar um serviço de saúde. Existem Centros de Referência e serviços especializados para garantir esse direito das mulheres. Mas, já sabem né? É muito difícil chegar neles: são apenas 65 Centros de Referência em todo país.

E, no caso de mulheres vítimas de violência sexual, NÃO é preciso que a mulher se submeta a exames de corpo delito nem de queixa numa delegacia de polícia para ter acesso ao procedimento. Não. Chega de duvidar da vítima. Chega de obstar seu acesso à saúde!

A Portaria PRT GM n. 485 de 1º de abril de 2014, que redefine o funcionamento do Serviço de Atenção às Pessoas em Situação de Violência Sexual no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), que determina, dentre outras questões, como deve ser realizado o abortamento nos casos previtos em lei. O artigo 6º desta Portaria dispõe que o serviço de Referência para Interrupção de Gravidez nos Casos Previstos em Lei terá suas ações desenvolvidas em conformidade com a Norma Técnica de Atenção Humanizada ao Abortamento do Ministério da Saúde, realizando: I – atendimento clínico, ginecológico, cirúrgico e psicossocial, contando com serviço de apoio laboratorial; II – apoio diagnóstico e assistência farmacêutica; e III – coleta e guarda de material genético.

aborto5

Bom, se avançamos um pouquinho nessa Portaria e nessas possibilidades de aborto legal, não podemos relaxar, porque a bancada conservadora do Congresso Nacional, que continua querendo culpabilizar e colocar mulheres em destinos de morte por aborto (e que, infelizmente, aumentou nessa última eleição), não está parada. São diversos projetos de Lei destinados a retroceder o direito ao aborto nos casos legais, e a agravar ainda mais a situação que temos hoje, em relação à punição ao aborto. Como o malfadado e tão comentado estatuto do nascituro (PL 478/2007). Vamos ver alguns que, numa pesquisa rápida, encontrei tramitando na Câmara dos Deputados?

– PL 6115/2013 (Apensado ao PL 1545/2011), de autoria de Salvador Zimbaldi – PDT/SP ,  Alberto Filho – PMDB/MA  – Quer acrescentar um parágrafo único ao art. 128, do Código Penal, para exigir o exame de corpo de delito comprovando estupro para que o médico e o Sistema de Saúde possam realizar o abortamento. E, olhem a justificativa dos ditos doutores deputados!!! “O abuso foi o de dar a gestante o suposto “direito” de abortar sem qualquer prova de que houve estupro, bastando a simples alegação de que foi estuprada”.

– PL 5069/2013, de autoria de Eduardo Cunha – PMDB/RJ, Isaias Silvestre – PSB/MG, João Dado – PDT/SP – Quer acrescentar o art. 127-A ao Código Penal, para tipificar como crime contra a vida o anúncio de meio abortivo e prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática de aborto. A justificativa, para chorarmos mais um pouco: “o sistema jurídico brasileiro encontra-se mal aparelhado para enfrentar semelhante ofensiva internacional, contrária aos desejos da maioria esmagadora do povo brasileiro, que repudia a prática do aborto (oi?). A legislação vigente considera o anúncio de meio abortivo como simples contravenção, o que leva a não ser priorizada a atuação a respeito por parte dos órgãos policiais. Por outro lado, a lei não prevê penas específicas para quem induz a gestante à prática do aborto, mesmo quando se trata de menor”.

– PL 3207/2008 Apensado ao PL 4703/1998, de autoria de Miguel Martini – PHS/MG – Quer acrescentar os incisos VIII, IX e X ao art. 1º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 para incluir induzimento, instigação ou auxílio ao suicídio (eutanásia) e o aborto provocado nos crimes considerados hediondos! (olha o medo!). Querem ler a justificativa ainda? Lá vai: “Por atentarem gravemente contra a inviolabilidade do direito à vida, tais crimes monstruosos e hediondos estão, por sua vez, a merecer um tratamento penal mais severo a fim de se sancionar de modo mais adequado os infratores e desestimular a sua prática”.

Vale a pena nos cadastrarmos no site da Câmara para acompanharmos o andamento desses projetos, além de tantos outros que existem nesse sentido mórbido e avesso aos nossos direitos ao próprio corpo. É preciso fazermos barulho contra o retrocesso. Infelizmente não basta lutarmos pela legalização do aborto, temos que lutar pelo não retrocesso social a nossas possibilidades de aborto legal, e ao não agravamento da situação já injusta e severa que temos contra as mulheres!

Pela legalização do aborto, pelo direito à vida das mulheres!

aborto10

Hipocrisia

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento.

#AbortoSemHipocrisia

cartazaborto

Há alguns anos eu engravidei. Decidi ter a criança. Os dois pequenos fragmentos abaixo foram escritos no meu blog, em dias diferentes na época em questão, e contam um pouco do que aconteceu.

“Eu estava grávida. Até hoje. Perdi meu filho e minha confiança no serviço público de saúde e na empatia que acreditava natural entre os seres humanos. Comecei a sentir dor, um dia depois de passado o medo, finalmente ter me rendido à alegria e sair espalhando a notícia para todos os amigos. Rindo. Hoje fui para o hospital com J. Uma amiga não achou normal o sangramento. Nem a dor. (…) Esperas. E esperas. Mais. Até que uma mulher que não sabia meu nome, nem nenhum outro, nem minha história nem nenhuma outra, disse-me que não havia mais nada. Nem nome, nem história, nem espera. Friamente. Cruelmente. E resultado nenhum vale mais que seu diploma. Amém, amém… deuses todos eles. A atendente que queria saber minha profissão, o médico que viu a dilatação, o enfermeiro que mediu minha pressão. Deuses de pedra. E eu carne e sangue. E nada.”

“Terça-feira passada a dor me fez voltar ao hospital. Outro ultrassom, outros médicos impessoais. Fui internada. No quarto coletivo, mulheres e seus sofrimentos. Havia uma menina de dezesseis anos, uma mulher de quarenta e um. Outras. Mais. Todas perderam ou estavam perdendo seus filhos como eu. Sentiam dor como eu. Como eu, ficaram vinte horas sem comer até aparecer um anestesista que nos dopasse para arrancarem os últimos resquícios de uma maternidade que não aconteceu. O nome disso é curetagem. Quando acordei estava numa enfermaria com outras mulheres e seus recém-nascidos filhos. Entrei em choque. Quis ir embora, mas tive que assinar um termo de responsabilidade e passar os últimos cinco dias em casa, quase sem me mexer. Dor. Dor. Dor. Ainda. Acho que para sempre.”

Hipocrisia.

A hipocrisia não permitiu que eu tivesse um atendimento rápido, me mandou para casa sem nenhuma medicação para sofrer uma hemorragia. A hipocrisia matou meu filho. E me fez voltar para o mesmo hospital para ser tratada como uma pária dias depois. Achando pouco, a hipocrisia me acordou num quarto com recém-nascidos.

Hipocrisia. A única explicação que encontro e que fui obrigada a engolir junto com minha dignidade foi a de que me trataram no hospital “assim”, porque claro que eu, fêmea traiçoeira, filha de Eva, tinha “propositadamente” abortado.

Espera de horas, ironia, secura.

E se fosse? E se é? Porque não tive o direito de ser tratada com dignidade e respeito como qualquer pessoa que fez uma escolha?

Hipocrisia!

Aquela que só de substituir a palavra “pessoa” por “mulher” faz quase todo mundo mergulhar em relativismos. Que diz que, se como “mulher” não cumpro com minha obrigação maior que é parir, seja lá por que motivos, minha vida não vale nada mesmo.

É disso que trata discutir sobre aborto.

Da vida de pessoas. Que querem ter filhos. Que não querem ter filhos.

Da minha vida.

Da nossa vida.

Eu poderia ter morrido. Tive sorte. Mas até quando é apenas com a sorte que poderemos contar?

Dia Mundial Da Lembrança Trans

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O Dia Mundial da Lembrança Trans ocorre anualmente no dia 20 de novembro. É uma data para relembramos todas as pessoas assassinadas por motivos transfóbicos.

O Dia Mundial da Lembrança Trans foi fundado em 1998 por Gwendolyn Ann Smith, uma mulher trans designer gráfica, colunista e ativista, para relembrar o assassinato de Rita Hesler em Allston, Massachussets. No que foi seguida por diversas pessoas trans ativistas e pessoas aliadas da comunidade trans em São Francisco, que decidiram que era hora de lembrar de todas as demais pessoas trans assassinadas em diversas outras cidades.

Rita era uma mulher trans negra que foi brutalmente espancada e recebeu 20 golpes de faca no peito em seu apartamento por um homem desconhecido. Seu corpo foi encontrado no dia 28 de novembro de 1998.

À polícia, sua irmã contou que na noite anterior Rita foi vista na companhia de dois rapazes em um bar, sendo que um dos quais a seguiu até em casa. O suposto assaltante não levou qualquer joia, dinheiro ou objeto de valor de seu apartamento. O Boston Globe informou na ocasião que Rita trabalhava como prostituta com o nome de Naomi, mas que não há qualquer evidência de que ela tenha sido atacada por um cliente.

Muitas pessoas da comunidade trans norte-americana sustentam que se tratou de um crime de ódio por conta da forma brutal com que houve o assassinato, com diversos hematomas e escoriações pelo seu corpo e tendo o assassino não roubado qualquer objeto de dentro de sua casa. Esse fato levou a comunidade trans e seus aliados a fazer uma vigília com velas acessas e a promover uma marcha em Allston, em dezembro daquele ano.

Desde quando foi fundado, o Dia Mundial da Lembrança Trans, conhecido internacionalmente pela sigla TDOR, angariou diversas pessoas preocupadas com os assassinatos das pessoas trans.

Em 2010, 185 cidades em 20 países fizeram manifestações em função do TDOR.

Geralmente são lidos nesses atos os nomes das pessoas trans que tiveram suas vidas ceifadas no último ano em função da transfobia. Lembrando aqui que como esse tipo de crime é subnotificado, não sabemos exatamente quantas e onde são as pessoas trans assassinadas por motivos transfóbicos. Os atos geralmente contam com pessoas fazendo vigílias com velas acesas, exposições artísticas, apresentação de filmes e diversas marchas.

Members of the Gay, Lesbian and Transgen

Sendo o Brasil o país campeão mundial de assassinato de pessoas travestis e transexuais, é importante também relembrarmos a memória de tantas pessoas dessa comunidade, extremamente vulneráveis e invisíveis, que perderam suas vidas em função do ódio que a sociedade nutre contra as pessoas que possuem uma identidade de gênero divergente da maioria. Um país em que a expectativa de vida de uma travesti ou mulher transexual é de apenas 30 anos.

daniela andrade *Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Aborto: Ouvindo as Mulheres Negras

Nesta quinzena vamos falar de interrupção da gravidez no nosso clube. Aborto. É hora de parar de punir as mulheres que fazem sexo. O silêncio é cúmplice. Por culpa do seu, do nosso moralismo, uma mulher está morrendo a cada dois dias em um aborto inseguro e violento. Grande parte dessas mulheres são negras. Por isso, hoje, no Dia da Consciência Negra, convidamos a ouvi-las: suas lutas, dores, projetos. Convidamos pra saber sua força e as apoiarmos em suas bandeiras. Convidamos a ler o Blogueiras Negras.

#AbortoSemHipocrisia

logo-small

“O aborto no brasil precisa ser legal e seguro, é questão de saúde pública. E que ele seja legal não apenas nos casos previstos, mas que possa ser sim uma escolha da mulher, não somos propriedade nem particular, nem do estado e precisamos de cada vez mais acesso a informação sobre a interrupção da gravidez, precisamos estar todas atentas para que nossos direitos não sejam usurpados.” (leia mais em Mãe e Clandestina – A Favor da Legalização do Aborto de Maria Rita Casagrande)

“Não raro penso no aborto como uma medida genocida contra todas as mulheres: o controle é ineficaz, as mulheres não deixam de fazer um aborto por ele ser proibido. Manter essa medida criminalizadora só atesta o fato de que o Estado quer as mulheres (todas, sem exceção) pagando com sangue seus atos. Até a última gota.” (leia mais em O aborto das escravas – Um ato de resistência de Jéssica Ipólito)

Ato Pela Legalização do Aborto em São Paulo (leia mais em 28 de Setembro – Cortejo da Mulher Negra Morta em Aborto Clandestino por Blogueiras Negras)

“Não obstante do que acontece com a política proibicionista, o Estado brasileiro assume seu caráter genocida ao manter o aborto na ilegalidade, pois deixa mulheres pobres e negras em situação de vulnerabilidade, uma vez que quem tem uma boa condição financeira paga, e muito caro, pelo aborto em clínicas clandestinas.” (lei mais em Sobre o proibicionismo e a ilegalidade do aborto: o que essas políticas tem em comum? por Rafaela Giffone)

“É responsabilidade portanto, do Estado, garantir que todas as mulheres tenham o direito a exercer livremente sua sexualidade e de ser assistida nesse livre exercício. Sendo assim, quando o Estado brasileiro mantém o aborto na ilegalidade, está fugindo de suas funções cometendo assim uma violência que é sexista e assume um caráter genocida quando se trata daquela que é mais atingida e mais vulnerável nesses casos, que é a mulher negra”. (leia mais em Aborto e Ilegalidade: a violência do Estado contra as mulheres negras, por  Luana Soares)

“”A OMS afirma: uma mulher morre a cada dois dias no Brasil. Todos os brasileiros e brasileiras precisam se responsabilizar por isso e unir forças em busca de uma alternativa para salvar a vida de nossas mulheres.” (leia mais em Legalizar o aborto no Brasil: pelo combate ao genocídio da população negra, por Bruna Rocha)

“Não temos tempo. Mais que pra ontem enegrecer as questões “clássicas” de gênero, mostrar seu rosto negro; que a luta contra o racismo é feminismo, que precisa ser agenda e não apenas um recurso de argumentação ou uma pauta a ser apenas publicizada.” (leia mais em Um dia pra lembrar que lutar contra o racismo também é feminismo,  por Charô Nunes)

Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

casal3

Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

casal4

Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

casal7

PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...