Rotina

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Chico Buarque – Cotidiano

Acostumei com o meu todo dia, acostumei a ser sempre comum. Todos os dias eu estou ali, pronta pra trabalhar, pra estudar ou ir malhar. Parei de me questionar, de me perguntar se essa rotina me faz bem. Parei de ser quem eu deveria ser, uma pessoa incomodada. Costume.

rotina1

Quando alguns acontecimentos me fizeram acordar. Comecei a não suportar o costume, não suportar o meu lugar comum de todos os dias, o trabalho enfadonho, o estudo estilo “comer livros”, sem pensamento crítico, sem vontade alguma. Comecei a me cansar das unhas feitas com decorações, grandes e chamativas, cansei do cabelo comprido. Não que eu tenha decidido mudar tudo de uma vez, mas comecei a mudar aos poucos. Depois que adoecemos, nos compreendemos frágeis, incertxs. Não me via mais ali, não me achava e eu precisava muito de mim.

Precisei me ver doente, sem um monte de coisas pra fazer pra compreender que faltava eu acordar e me perguntar: tá tudo do jeito que eu quero? Minha vida tá indo na direção que desejo? Será que tô protelando coisas necessárias em minha vida por medo de mudar? Porque não tentar algo no susto, no chute? Fiquei sem emprego, porque não trabalhar de freelance? E o mestrado? Porque não voltar aos planos de estudo de antigamente, de antes desse emprego louco que tive?

Chegou a hora de sair da rotina, antes que ela me engula e eu vire mais um número. A rotina é gostosa, mas, pra mim, tem que ser moderada. Tem que ser a rotina do dormir de conchinha, do tomar uma cerveja toda sexta, de tirar uma hora do dia pra fazer nada, de estudar por amor e pra absorver coisas novas. Rotina sem pensar, pra mim, não dá.

You are only coming through in waves
Your lips move but I can’t hear what you’re saying
When I was a child I had a fever
My hands felt just like two balloons

Now I’ve got that feeling once again
I can’t explain, you would not understand
This is not how I am
I have become comfortably numb

Pink Floyd – Comfortably Numb

Cis e trans e o grupo LGBT: As diferenças entre sexualidade e identidade de gênero

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

O que é cis ou cisgênero? Do latim, cis significa “do mesmo lado”. Cisgênero é um homem que nasceu com pênis e se expressa socialmente como homem (expressão de gênero), é decodificado socialmente como homem (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para um homem, e reconhece-se como homem (identidade de gênero), logo, é um homem (gênero).

Cisgênera é uma mulher que nasceu com vagina/vulva e se expressa socialmente como mulher (expressão de gênero), é decodificada socialmente como mulher (papel de gênero) por vestir-se/comportar-se/aparentar com aquilo que a sociedade define próprios para uma mulher, e reconhece-se como mulher (identidade de gênero), logo, é uma mulher (gênero).

Ao passo que transgênero é o contrário disso. Ou seja, são pessoas que apesar de terem nascido com pênis podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com um pênis e, logo, foi compulsoriamente designado como homem. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter um pênis, foge ao conceito de homem.

Assim como transgêneros são pessoas que apesar de terem nascido com vagina/vulva podem não possuir expressão de gênero e/ou papel de gênero e/ou identidade de gênero em consonância com aquilo que a sociedade espera para alguém que nasceu com uma vagina/vuvla e, logo, foi compulsoriamente designada como mulher. Ou seja, é uma pessoa que apesar de ter uma vagina/vulva, foge ao conceito de mulher.

Dentro do grupo das pessoas transgêneras há as pessoas travestis, transexuais, crossdressers, agêneras, bigêneras, genderfuck, e tantas outras classificações.

As definições não devem ser engessadas e nem limitar identidades, de forma que, a melhor definição para uma pessoa é aquela que ela própria lhe dá. De toda forma, é importante pensar nessas definições para que não se corra o risco de se achar que a palavra GAY dá conta de todas as identidades dentro do arco da diversidade identitária. Como uma palavra que diz respeito a uma pessoa que possui ORIENTAÇÃO SEXUAL diversa daquela legitimada socialmente vai refletir na identificação de pessoas que podem inclusive serem héteros? Ou seja, identidade de gênero (o gênero com o qual me identifico) NADA TEM A VER com orientação sexual (o gênero pelo qual me atraio). Uma pessoa pode ser travesti ou transexual e ser hétero, homo, bi, assexual (…), assim como acontece com todo o restante das pessoas que estão dentro do grupo dos transgêneros. De forma que não, a palavra GAY não reflete todo o grupo, outrossim, inclusive há mulheres lésbicas que ressaltam que o termo lésbica é a palavra que denomina politicamente o grupo das mulheres homossexuais, não a palavra gay.

Veja, não se trata apenas de meras diferenças conceituais ou meras palavras diferentes pelo que se está lutando.
Estamos lutando pela visibilidade das reivindicações das pessoas transgêneras que é bastante diversa das pessoas gays cis, ainda que estejam unidas por conta da discriminação que sofrem socialmente, em maior ou menos grau pra esse ou aquele grupo.

Quando se diz que a luta LGBT é a luta gay, que o movimento LGBT é o movimento gay, é importante ressaltar que pautas especificamente gays não atingem diretamente as pessoas transgêneras, uma vez que nem todas as pessoas transgêneras são gays. Vejamos, pelo que, de forma geral, escuta-se quando se ouve falar nas reivindicações do grupo LGBT:

– parada GAY
– movimento GAY
– orgulho GAY
– HOMOfobia
– casamento GAY
– adoção por GAYS
– família HOMOparental
– direitos HOMOafetivos

Pois bem, poderíamos perguntar, as pessoas gays passam pelas seguintes agressões?:

– ter o nome desrespeitado cotidianamente

– ter o gênero deslegitimado o tempo todo

– precisar evadir-se da escola dado o grau de agressões verbais e desrespeito INCLUSIVE vindas de professores e gestores escolares que insistem em não respeitar o nome social e o gênero da pessoa

– possuem o acesso ao banheiro barrado

– seus documentos não correspondem com aquilo que você é (nome e gênero)

– possuem sua identidade questionada frequentemente por todos aqueles que necessitam identificá-lo por meio dos seus documentos

– sua identidade é vista como patologia pelo consenso científico e faz parte do DSM (Manual Estatístico e Diagnóstico de Transtornos Mentais) e do CID (Catálogo Internacional de Doenças), bem como pela OMS (Organização Mundial de Saúde)

– possuem os genitais questionados frequentemente por estranhos? (você operou? você tem pênis ou vagina?)

– acham que você é mais ou menos homem de acordo com o número de cirurgias que você fez

– você necessita de laudos e ofícios de médicos de diversas especialidades para que acreditem que você é o que você diz ser

– possuem enorme dificuldade de encontrar profissional habilitado para receitar hormônios próprios para o seu organismo (lembrando que os hormônios não foram feitos pensando nas pessoas trans* e a bula dos mesmos não corresponde àquilo que acontece dentro do corpo trans*)

– possuem o corpo identificado como “corpo errado” por toda a população (fulano nasceu no “corpo errado”, como se só o corpo cis fosse o corpo certo)

– sua identidade é vista como fetiche pela maioria esmagadora das demais pessoas

– esperam durante décadas para conseguirem fazer uma cirurgia de transgenitalização, algo que lhe custa enorme sofrimento psíquico e muitas vezes suicídio

– sua identidade está dentro das mais altas taxas de suicídio e assassinatos mundiais

– contratos de empréstimo ou locação de imóveis são negados com muita frequência por conta da sua expressão/papel/identidade de gênero

– o mercado de trabalho associa sua identidade à marginalidade, ao crime e portanto, é extraordinariamente difícil encontrar um emprego

– sua identidade é vista como habilitada para ocupar apenas trabalhos dentro da prostituição ou em salões de beleza

– a necessidade que você tem de fazer cirurgias (como transgenitalização, mamoplastia masculinizadora, mamoplastia de aumento, remoção de útero e ovários, feminilização facial…) é vista como capricho, sem sentido, e há um total descaso com isso por parte do governo

– você precisa viajar quilômetros ou pagar do próprio bolso para obter atendimento médico especializado para o seu caso

E tantas outras agressões, bem, parece que os gays cis não passam por esse tipo de coisa, de forma que não dá pra dizer que todo mundo dentro do grupo LGBT é gay e que a pauta desse grupo é a pauta gay, pois não, não é.

Assim, há de se fazer distinção clara entre homofobia (preconceito por conta da orientação sexual) de transfobia (por conta da identidade de gênero), já que inclusive a raiz da palavra HOMOfobia reduz-se ao seu radical HOMO que quer dizer igual, quando as pessoas transgêneras são as diferentes do estipulado adequado no que tange à expressão/papel/identidade de gênero. É uma distinção que deve ser feita inclusive pra se visibilizar as agressões específicas sofridas pelas pessoas transgêneras a fim de se trazer para o debate essa problemática e se encontrar caminhos para resolvê-la.

Quando uma pessoa transgêneras têm nome e gênero desrespeitados, ela está sofrendo de transfobia e não homofobia. Como costuma brincar o ativista e transhomem João W Nery: eu sou um transhomem hétero, eu sofro por conta da transfobia, não homofobia. Ou: vemos o tempo todo as pessoas falando das famílias homoparentais, mas e as transparentais ninguém diz, dos relacionamentos homoafetivos, mas e os transafetivos? As pessoas trans também constroem famílias e se relacionam.

Frequentemente vemos pessoas dizendo que aceitam e não têm nenhum problema com os gays, mas que travesti/trans já é algo demais, ou que ainda que aceitem os gays, travesti/trans não dá para aceitar. O que seria isso senão uma demonstração explícita de transfobia?

E, ainda que se diga que são conceitos muito novos, muito difíceis e que a sociedade não vai entender, todas essas desculpas não passam de mote para continuar a invisibilizar as demandas da população trans*, que são expressivas, urgentes e diversas daquelas da população gay cis, ainda que, novamente, todas essas identidades tenham uma luta em comum que é contra a heteronormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de um comportamento heterossexual, visto socialmente como o correto) e a cisnormatividade (que aprisiona as pessoas dentro de aspectos cis/cisgêneros, vistos socialmente como o correto).

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

No último domingo, 28/09/2014, assistimos ao vivo, em cadeia nacional de TV o que talvez tenha sido a maior expressão de desrespeito pelo humano da nossa história recente. As declarações do candidato à presidência Levy Fidélix sobre a legalização definitiva do Casamento Homoafetivo deixou incrédulos atônitos, cépticos desconcertados e militantes destroçados. E foi “formidável”!

Pra quem não assistiu, o vídeo está aí, se forem capazes da ousadia de apertar o play.

Digo formidável por não encontrar palavra que melhor caiba ao assunto. Quase quimérico, fabuloso (no sentido de “saído de uma fábula”, embora alguns animais se recusassem a dizer aquelas palavras se pudessem falar), o espanto geral, dizem, derivou de ninguém ser capaz de reagir simultaneamente a tal discurso, não importa o motivo.

Porém, eu digo, isso aconteceu justamente pelo fato de não ser nossa praxe reagir ao “formidável”. Diariamente, a grande maioria da população LGBT* no nosso país ouve calada esse tipo de discurso envolto em risos, palmas e outras formas de aprovação e nós continuamos a não falar. Esse problema é nosso! Nós estamos convalidando a continuidade desse tipo de coisa.

by Bosh (via @perfunctorio)

by Bosh (via @perfunctorio)

Temos que dar a cara a tapa! Dizer que o “espanto” vem do fato que seria inimaginável um candidato à presidência, em pleno 2014, usar abertamente desse tipo de discurso é simplesmente negar o cotidiano e tentar dar uma aura de “especialidade” ao fato. NÃO! Não há nada de especial no discurso do Fidélix!

Esse discurso é o que ouvem diariamente jovens ao acordar em um família conservadora e que não os aceita. Esse discurso é o que ouvem pessoas que passaram a vida inteira reprimidas por suas religiões enquanto tentam manter sua crença, as vezes o único consolo, firme. Esse discurso é aquilo que se propaga diariamente nas piadas infames que vitimiza transexuais, lésbicas, bissexuais e homossexuais e que sai da boca de “pessoas de bem” e das próprias vítimas desses discursos, seja por homofobia, misoginia, falta de aceitação, medo (sim, porque o terror imposto por muitos armários provoca isso) ou simples costume.

Friso isso, pois não é pra causar espanto que esse tipo de discurso ganha força numa campanha à presidência da república. É para justificar atitudes! É pra justificar a falência de uma sociedade que tornou-se incapaz de entender e aceitar o outro. É para deslegitimar a luta cada vez mais esvaziada e inócua por cidadania do ser e não do ter.

E quando coloco isso como “nosso” problema, não estou falando da militância. É nosso problema como sociedade! Pois é formidável como, com isso, o que perdemos não tenha sido apenas o senso de democracia, a noção de igualdade ou qualquer mostra de alteridade.

O discurso do candidato à presidência da república Levi Fidélix é a prova da nossa anulação como seres humanos, como humanidade.

E deixo em destaque essa frase pra chamar a atenção para o que talvez não seja tão óbvio: o primeiro passo para o extermínio é a desumanização. Coisificar o ser humano, suas vontades, seus anseios e suas lutas, já disse Hannah Arendt, é o primeiro passo pra justificar sua desnecessidade e sua possibilidade de inexistência. E disso a nossa sociedade já pode se gabar. Demos o primeiro passo ao formidável, ao enterro da nossa última quimera, à ilusão de que éramos uma sociedade capaz.

+ Sobre o assunto:

[+] Vandalize o discurso de ódio nas eleições! (escrito em parceria com a coordenação do Blogueiras Feministas)

[+] A homofobia de Levy Fidelix doeu tanto quanto o silêncio dos candidatos

Aborto. Qual é o crime?

E neste final de semana teremos eleições. E mais uma vez o tema do aborto foi tratado de forma clandestina pela maioria das campanhas. Isso é inadmissível. O aborto continua sendo… crime.

No último dia 28 de setembro foi o dia de luta latino americano e caribenho pela legalização do aborto. Todo dia, entretanto, é dia de lembrar que milhares de mulheres morrem no continente por causa de procedimentos absolutamente precários e inseguros de interrupção da gravidez. Morrem. Acabou, ponto final.

A questão principal não é – nem sei se algum dia foi – ser favorável ou não ao aborto. Para esta decisão o importante são as informações, os valores, a cultura de cada mulher. A questão é se a prática do aborto deve ser um crime, punindo com cadeia quem faz e quem realiza ou ajuda a realizá-lo. E é este o ponto que revela toda nossa hipocrisia. Porque todo mundo conhece uma história. Todo mundo conhece uma mulher que fez. Todo mundo conhece. E a pergunta é: esta mulher deveria ser presa?

1606921_842009922499794_318466483375386735_n

Não estou pedindo para que aceitem o aborto. Estamos pedindo para que este deixe de ser crime. Para que seja o serviço de saúde equipado para realizar procedimentos seguros, diminuindo a mortalidade de mulheres por todo o continente. No Brasil. No mundo. Porque a morte destas mulheres resulta no fim de várias histórias, das mulheres, de suas famílias, de suas crianças, de seus pais e mães, dos amigos e amigas, dos sonhos. Porque quando não resultam em mortes podem existir sequelas graves, muito graves.

O sonho da maternidade é um sonho bonito, sem dúvida. Mas não é para todas. E todos. Mas mais do que isso: quando o aborto é ilegal, todo e qualquer procedimento que não o parto passa a ser clandestino ou feio ou inóspito ou triste. Quantas e quantas grávidas não tem o processo de gestação interrompidos naturalmente, por algum problema no feto ou no organismo da própria mulher, alguma incompatibilidade? Quantas e quantos episódios não conhecemos de gravidez interrompida?

E como no serviço de saúde, o público e o privado,  o aborto é pecado, sabe o que acontece nestes casos onde naturalmente houve a interrupção da gravidez? As mulheres são tratadas como “gestantes”. As mulheres são encaminhadas para exames, que vão detectar que o feto não tem mais pulsação, que a gravidez é tubária ou qualquer outro tipo de problema, junto com mulheres que estão indo bem em seus sonhos, com a gestação seguindo firme. E para se fazer uma curetagem, porque é preciso em determinados casos realizar um procedimento invasivo para se limpar o útero, encaminhamos estas mulheres para maternidades, para onde são realizados partos. A crueldade deste tipo de situação é enorme. É triste demais. Na mesma sala de espera… Por causa de um tabu, de um crime.

Aborto seguro. O sistema de saúde, público e privado, preparado para ofertar procedimentos com começo, meio e fim. Com tratamento específico, diferenciado, educado. Com acompanhamento, acolhimento, humanidade. Com informações para se decidir, cada mulher, o mais adequado proceder. A questão do aborto não pode ser vista como um crime.

O crime, sinceramente, é outro. É o da hipocrisia. Lenta e sempre, que mata: vidas e sonhos. Só que este não leva ninguém à cadeia.

 + Sobre o assunto:

[+] O que é aborto

[+] Documentário Clandestinas

[+] 28 dias pela vida das mulheres

[+] 5 Mitos Sobre o Aborto

[+] Aborto é coisa de mulher

Vandalize o discurso de ódio nas eleições!

Texto assinado pelas coordenações
das Blogueiras Feministas e pelo Biscate Social Club.

No último domingo (28/09), foi realizado um debate ao vivo entre os principais candidatos a presidência do Brasil transmitido pela Rede Record.

Ao longo do debate, o candidato Levy Fidelix (PRTB) proferiu diversas ideias preconceituosas. Em relação a usuários de drogas, disse que: “o País tem mais de 1 milhão de drogados apenas nas grandes capitais. Esse pessoal todo não trabalha, não produz nada, além de serem, honestamente, peso para qualquer governo”. Em outro momento, ao elaborar uma pergunta ao candidato Pastor Everaldo (PSC), ofendeu presidentes da América do Sul dizendo que “Evo Morales vai trazer mais cocaína pra cá”, além de chamar Cristina Kirchner de louca. Porém, o pior ainda estava por vir.

Em determinado momento, a candidata Luciana Genro (PSOL) questionou Levy Fidelix: “os homossexuais, travestis, lésbicas sofrem uma violência constante. O Brasil é campeão de mortes da comunidade LGBT. Por que as pessoas que defendem tanto a família, se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?”.

Na resposta Levy Fidelix derrubou um caminhão de chorume, fazendo relação direta entre o conceito de família com reprodução, além de se referir a homossexualidade como uma doença e relaciona-la a pedofilia. Por fim, ainda bradou que a maioria não deve aceitar essa minoria, que é preciso enfrentá-los. Praticamente conclamando a população para agir com preconceito e violência contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans*.

O silêncio dos outros candidatos

Após essas declarações, houve o momento das considerações finais, mas nenhum candidato usou esse tempo para repudiar veementemente as declarações absurdas de Levy Fidelix. É assustador pensar que NENHUM dos candidatos tenha usado seu tempo para repudiar a fala de Fidelix.

E, se nenhum deles o fez, se ninguém quis marcar posição nesse momento tão importante diante de uma manifestação fascista de um candidato a presidência em rede nacional, então fica difícil endossar as falas e programas dos candidatos quanto ao tema dos direitos LGBT.

É fácil estampar tais temas em programas de governo ou discursos de campanha. O uso demagógico das lutas das minorias não é novidade. Porém, responder de modo enfático e imediato é o atestado de quem tem a sensibilidade para perceber a gravidade do discurso homofóbico, lesbofóbico, bifóbico e transfóbico proferido. E isso não aconteceu.

O candidato Eduardo Jorge (PV) reconheceu em declaração no twitter que errou ao não repudiar o discurso de ódio no momento do debate. Após o debate, Luciana Genro publicou em seu twitter uma mensagem de repúdio. Ao que parece os outros candidatos não irão declarar nada quanto ao que foi dito por Levy Fidelix.

Nessa hora em que alguém mostra todo o seu ódio em rede nacional, não responder só mostra o quanto essa pauta é pequena para a nossa política. Que dia triste esse em que um sujeito incita a violência contra homossexuais dizendo: “Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”; e assistimos os demais silenciarem.

O discurso de ódio será vandalizado

O discurso de Levy Fidelix é homofóbico e também carrega muitos outros discursos de ódio. Porém, é preciso lembrar que não devemos desumanizar Levy Fidelix, como ele faz quando se refere a gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans*. Esse discurso não é coisa de um monstro horroroso que mora em um lugar distante ou de apenas um candidato nanico isolado. Não. Esses discursos estão no cotidiano dos corpos marginalizados.

É o discurso que rasga, violenta e mata diversas pessoas todos os dias. Esse discurso não vem só de Levy Fidelix, vem também de nossos vizinhos, amigos, parentes, etc. O que você faz quando alguém diz: “tenho até amigos gays, mas não quero que nenhum chegue perto”? Ou que “respeita, que tolera”, que “não entende como tem homem que gosta de outro homem”, que diz que “a mulher é lésbica porque nunca achou o homem que a pegou de jeito”?

Esse discurso limpinho de tolerância é o suficiente para você? A piada feita com aquelas pessoas que não se encontram dentro de uma categorização normativa de gênero e orientação sexual é engraçada para você?

Apoiamos as diversas manifestações populares em repúdio a Levy Fidelix. Estão sendo organizados desde beijaços na Avenida Paulista até campanhas de denúncias em massa ao Ministério Público Federal. Exigimos que o candidato não possa mais participar dos debates, porque não aceitamos que discursos de ódio sejam proferidos em canais de televisão que são concessões públicas.

Não, não é fácil ouvir Levy Fidelix fazer um discurso extremamente violento em um debate para candidatos a presidência. Não desce. Não tem como dar conta disso. E por isso, esse tipo de discurso não pode mais ser admitido. Nem no debate de candidatos para presidente, nem por aquele seu amigo do trabalho, nem pelo tio no jantar de família. Não aceite ser tolerado. Não aceite ser apenas respeitado. Nós não merecemos migalhas. Nós merecemos existir da forma que queremos e não dentro dessa categoria normativa que engessa. Vandalize essas categorias e vamos à luta! Vandalizar a política!

bandeira_lgbt

Foto de Danilo Verpa/Folhapress.

+ Sobre o assunto:

[+] OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas

[+] Luciana Genro e Jean Wyllys apresentam representação contra Levy Fidelix por discurso homofóbico em debate

 

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

10553863_834283313262240_7660767801524760664_o

Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Eu tô cansada dessa merda

Eu tô cansada dessa merda
Da violência que desmede tudo
Da minha liberdade clandestina
De ta no meio dessa briga, Chega!*

Porque tem dias em que eu me canso. Chego em casa rouca, as pernas cansadas, a voz brigando por resultado nenhum. Não, é mentira. A gente tem resultados. E é assim que eles germinam: baixinho, em silêncio, crescendo rasteiros na grama do jardim. Em cada olhar sensibilizado, em cada pequena iniciativa de proteção à mulher, à diversidade, à fala da população que é sempre calada pela mídia de massa e pela política perversa de exclusão.

Eles estão sempre lá, os donos do poder. Os Sarneys da vida. Os “macho” usurpadores da liberdade feminina. Os machistas agressores. Os homofóbicos. A voz dominante da opressão aos pobres. Aos negros. A grana suja do tráfico lá no Congresso, e todo mundo fazendo de conta que tá tudo bem, que as drogas devem continuar todas ilegais porque “fazem mal”.

As campanhas financiadas pelas grandes empresas que querem grana, e mais grana, seus whiskys importados no iate na praia, suas mulheres plastificadas de silicone, sua viagem para a Europa arrotando caviar e degustando a elite soberba que sempre cagou na nossa cabeça brasileira. É essa grana mesmo, que cresce e destrói coisas belas. Se ao menos as mães fossem felizes. Mas nem isso. Essa vida consumista é vazia. E a violência contra a mulher existe lá também, no paraíso de praias artificiais com grama sintética e champanhe francês.

Eita!
Que o sangue pinga nas notícias
Vendidas como coisa bela
A merda já tá no pescoço
E a gente acostumou com ela

Aqui embaixo tá foda. Todo dia é uma notícia nova de corrupção, de violência, de morte. Mulheres morrem por abortos clandestinos às pencas, enquanto a grana cala e paga o preço da hipocrisia. Porque lá em cima, na montanha, mulher que aborta não morre e ninguém fica sabendo. Aborto de rica é só uma solução para um problema. Aborto de pobre é crime.

Negrxs apanham por coisa nenhuma. Lésbicas são agredidas por amarem. Gays são espancados por não “falarem como homens”. Trans são agredidas até dentro do próprio movimento feminista! Xs militantes do SUS estão esgoelando que a saúde vem sendo sucateada e vendida à preço de banana e ninguém fala nada. Não, minto de novo. Falar a gente fala, mas a todo momento temos nossos microfones cortados nas grandes arenas decisórias.

A máquina acordou com fome
Vem detonando tudo em sua frente
Comendo ferro, carne e pano
Bebendo sangue e gasolina

Mas eu acredito. Que temos que gritar contra as violências e injustiças. Que temos que nos mobilizar. Que temos que brigar por um mundo melhor. Que temos que denunciar. Que não podemos nos calar. Que temos que juntar nossas forças, parar de atacarmos os aliados, os movimentos tantos que estão despontando com causas diversas de luta, e lutarmos com essa grande lógica perversa capitalista e excludente, branca, machista, homofóbica, elitizada e concentradora de renda, riqueza, bens e outras parafernálias tantas que nos fazem consumidores vazios e desumanos.

É que hoje eu cansei. Vou dormir um sono bom, e voltar com mais energia para as brigas tantas.

*versos da banda Eddie. Eu tô cansado dessa merda. 

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

destaque23

Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Quanto ao desafio da maquiagem

Por Daniela Andrade*

Apoio todas as mulheres que podem, que querem, que decidiram fazê-lo. Apoio a luta contra a manutenção de padrões de gênero que punem as mulheres, as diferentes mulheres, em diferentes aspectos.

Apoio a luta contra a camisa de força de gênero que decide, que dita de que forma se faz uma mulher. E uma mulher precisa estar sempre adequada aos padrões da indústria da beleza – decidiu a sociedade patriarcal.

Posto isso, digo que nada disso deve significar impor que quem não pode, não quer, não se sente à vontade sem maquiagem deve ter sua identidade invalidada, deve ser apontada e ridicularizada, deve ser instada como se aqui estivéssemos falando de alguém inferior.

A mulher que usa maquiagem, seja por qual motivo for, deve ser tão respeitada quanto a que não usa, seja por qual motivo for.

É triste ver uma guerra instalada em situações em que se as partes estivessem dispostas ao diálogo, sem ver a outra como inimiga, as coisas se ajustariam. É triste ver como há pessoas que precisam inferir que a violência que sofre é muito maior para invalidar a violência que a outra sofre, como se houvesse realmente esse termômetro que diz qual sofrimento deve ser considerado mais sofrimento que os outros.

Eu posso fazer a minha manifestação contra opressões sem agredir nenhum grupo historicamente discriminado e sequestrado em seus direitos primários.

PS. Sobre esse desafio já publicamos aqui no Biscate “A Loucura da Beleza” de Karen Polaz e tem post no Blogueiras Feministas: Desafio sem make: desafio para quem? e no Lugar de Mulher:  Por que eu não participei do Desafio Sem Make

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A Loucura Pela Beleza

Por Karen Polaz*, Biscate Convidada

Nos últimos dias, está rolando a campanha Stop The Beauty Madness (“Parem Com A Loucura Pela Beleza”) nas redes sociais. Criada pela escritora Robin Rice, a campanha surgiu com o intuito de questionar os padrões de beleza valorizados hoje em dia. Aderindo ou não ao objetivo original da proposta, muitas mulheres cisgêneras estão postando suas fotos sem maquiagem e sem filtro e desafiando outras mulheres a também fazerem o mesmo.

Não participei do desafio, até porque estou sem maquiagem na maioria de minhas fotos no Facebook, inclusive em algumas do perfil. Mas não penso que o desafio seja besteira, não. Afinal, crescer sendo menina é saber que seu papel no mundo, pelo menos um dos principais, é estar bonita para poder agradar e ser mais aceita. Mas aí você não nasce como as modelos das revistas (aliás, nem elas mesmas nascem assim!), então parece quase que uma necessidade esconder e camuflar qualquer “desvio” no rosto e no corpo. A maquiagem está aí para isso, mesmo que também possa assumir funções mais artísticas e lúdicas – e quem já se reuniu com as amigas para se maquiar antes de algum evento sabe bem do que estou falando.

Não somos, portanto, contra a maquiagem em si. Mas estamos questionando a noção – bastante difundida pela mídia e pelas gigantes redes de cosméticos, interessadas em consumidoras fiéis -, de que se sentir bem e bonita deva passar, necessariamente, pelo uso da maquiagem. Em outras palavras, somos contra a ideia extremamente extenuante de que não seja possível ser feliz sem camuflar irregularidades na pele, de que a maquiagem tenha se tornado a poção milagrosa que vai trazer imediatamente nossa autoestima de volta.

Apesar de estarmos nos opondo a tal modo de pensar, admito que seja uma ideia que deu muito certo, porque não é nada fácil se livrar da cultura da beleza. Tanto que, nas redes sociais, postar uma foto sem maquiagem se torna, realmente, um “desafio”, no sentido que envolve riscos para a nossa já frágil autoestima. Vemos várias mulheres, e até garotas, se adiantando a possíveis críticas à sua aparência, justificando as tão comuns olheiras, por exemplo, com a noite anterior mal dormida, como que se desculpando pela cara limpa. É triste, mas a gente se sente pressionada, de verdade, a pedir desculpas pelos poros abertos, pelos cravos, pelos cílios não curvados. É como se nosso rosto ofendesse.

E aí que vemos alguns homens dizendo que estão levando “sustos” com mulheres sem make, tirando um sarro daquelas que “pareciam tão lindas até participarem do desafio”, implorando que, “para o bem da imaginação masculina”, voltem a usar maquiagem e filtro e o que quer que seja para parecer diferentes do que são. Demonstram, sobretudo, uma leviandade típica dos que acordam e saem para o mundo sem sentir que precisam “esconder rugas e imperfeições”, dos que nem fazem ideia da violência que é tentar se ajustar, muitas vezes a altos custos, a padrões de beleza irreais e nocivos.

O cenário não parece animador, mas a campanha é válida e poderia contar com desdobramentos ainda mais corajosos, como ir a uma festa de casamento sem maquiagem – ou a quaisquer outros eventos considerados importantes e, por isso, não dignos da nossa cara lavada. Enfim, muita força e união, mulherada, porque mudanças na sociedade não são fáceis e não vêm de graça.

Mais sobre o tema: Por que eu não participei do Desafio Sem Make

Desafio sem make: desafio para quem?

Karen Polaz

* Karen Polaz, ainda não sabe o que quer ser quando crescer, mas prefere dizer que é artista para resumir a vida e não confundir os interlocutores.

Sobreviver

emergir

Sobreviver. Não é para os fortes, não é coisa de herói, nada disso. Sobreviver porque é a única coisa que se pode fazer. Não tem escapatória. A gente sobrevive porque a vida está aí. Batendo na cara todo dia o dia todo. A gente sobrevive só por hoje. Só mais essa semana. Só mais esse mês. Quando vê, isso tudo foi a vida que deu pra viver.

Sobreviver. Apesar de. Da dor que dói furando. Do cansaço. Do choro. Da falta de choro. Da apatia. Do medo. Da incerteza. Da angústia. Da insônia. Do tombo. Da falta de caminho. Da falta de riso. Da falta de amor. Por você mesmo.

Sobreviver. Às pancadas do cotidiano. Às risadas maldosas. Aos comentários ferinos. Sobreviver sem dinheiro no banco. Sem sentido pra vida. Sem planos e nem projetos. Sobreviver sem amor. Por você e pelos outros. Sobreviver com um vazio no peito sem explicação. E tentar dar explicação pra aquilo que não tem nome. Que se desconhece. Que nunca antes na história dessa vida.

Sobreviver. Levantar da cama todo dia com a vontade de se afundar nela. Comer pra tentar tampar o vazio que consome. Beber pra tentar achar resposta pra um mundo de perguntas infindáveis. Trabalhar para pagar a vida. Faltar força até para dar cabo da vida.

Sobreviver. Andar olhando pros prédios altos desejando um piano enorme na cabeça. Olhar para a rua movimentada e pensar num ônibus esmagando o corpo. Querer um corpo sem vida. Outro corpo. Outra vida. Fugir. Na verdade, ser fugida. Um sequestro, uma morte acidental, qualquer coisa que o valha.

Sobreviver. Saber que é preciso continuar. O dinheiro mal paga a vida, não vai pagar a morte. Saber que nada é eterno. Que um dia isso passa, muda, se transforma. Um dia você vai rir disso. Ou não. Vai lembrar com dor desse momento doloroso, dessa eterna agulha debaixo da unha, e saber que ele acabou. Merecer você não o merecia, mas ele veio. Ficou. Se instalou de mala e cuia. Fez estrago, corroeu o amor, a esperança, a fé na vida. Mas você sobreviveu. E sobreviver dói, mas é a única alternativa.

Não é sobre felicidade, é sobre trabalho

Por Monique Prada*, Biscate Convidada

Essa coisa de “prostitutas felizes” acaba muitas vezes passando a falsa ideia de que a luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a luta pela liberdade sexual feminina ou alguma outra abstração alheia ao trabalho.

Não. A luta pela regulamentação da atividade tem a ver com a conquista de direitos trabalhistas. Até por que o trabalho sexual, embora hoje ainda exercido principalmente por mulheres, ele não é exercido APENAS por mulheres (cis e trans). Só aqui em Porto Alegre existem no mínimo 3 casas e 2 sites com anúncios de profissionais homens (e alguns deles atendem apenas a mulheres), fora os acompanhantes que atuam de modo independente. O PL Gabriela Leite também os atinge e beneficia.

Quanto a essa exigência de sermos felizes para validar nossa escolha profissional, é algo que venho questionando faz algum tempo. Felicidade é uma abstração. Algumas pessoas são felizes, outras não – e isso independe de sua atividade profissional.

A imensa maioria das pessoas, aliás, não é feliz com sua escolha profissional. A imensa maioria das pessoas trabalha pela grana. A imensa maioria das pessoas diferencia vida pessoal de trabalho – e parece que nós, não. Como se não pudéssemos ser em nosso horário de folga algo além de prostitutas e esse algo, sim, nos trazer felicidade.

A conquista de direitos trabalhistas não tem relação com a felicidade com que cada um exerce seu ofício. Diria mais, diria o oposto: quanto mais infeliz se parece, quanto mais cruel parece sua rotina, tanto mais ele precisa de seus direitos trabalhistas garantidos.
Chega de putas felizes. Parem de nos cobrar sorrisos enquanto nos oprimem.

Aliás: quem gosta de trabalhador feliz é o patrão.

10429437_1639299509627620_3154711491717519962_n

*Monique Prada por ela mesma: “escrevo e faço amor a noite toda”.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...