Ainda Mais Biscate

Reunir a biscatagem. Biscatear. Arregimentar biscates. Ser Biscate. Ser cada vez mais Biscate. É isso, é o nosso club, a nossa dança, é o jeito que a gente dirliza na sociedade.

Entender o jeito de se biscate, o propósito de ser biscate e a vontade de se tornar e estar biscate é o nosso trabalho, o nosso sacerdócio, a nossa sina! Optar, politicamente, pela biscatagem é o que nos move coletivamente, é o que nos faz uma corja! Sim, porque se quiséssemos ser família, também seríamos, mas queremos ser corja!

Queremos e tentamos subverter os padrões, somos o buteco incômodo do debate político-trollador, libertário-afetivo, artístico-militante e nada, mas nada modestos! A regularidade não nos importa! A conformidade não nos apetece! O discurso pronto, pelo discurso, não nos elabora! E apontar dedos, não nos cabe!

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Nossa Cor Biscate (foto: Antonio Miotto)

O Biscate é o espaço do nosso conforto enquanto sambamos na lama, na cama e na passarela. Descalços, de salto, de sapato alto! Gloriosos ou tristonhos. Mas sambando num mesmo tom furta-cor!

E são nesses tons, que não são 50 nem 250 – contar pra quê? – que damos a nossa tônica. Que reunimos a nossa esbórnia. Que compartilhamos a nossa sanha! Sim, porque ser biscate é ter sanha de viver! Ser biscate é acontecer, onde quer que esteja!

E quando queremos acontecer, o melhor que seja junto, que seja misturado, que seja agregando amigos-leitores. É assim que a gente gosta! Se espetando e se amando, em processos profundos de afofamentos! Na mesa, na cama, no banho e no feno! Rolando no chão e mordendo de tesão. Tesão pela vida, tesão pelos outros, tesão por si mesmo, tesão em ser biscate.

E é assim que aprendo não apenas ser, mas ser ainda mais! E é assim,  Biscate é a nossa amizade, a nossa familiaridade, o nosso amor. Amor pela nossa liberdade, juntos, separados, com os outros e com ninguém. Ser biscate é estar reunido nesse objetivo, ser biscate é a suruba da vida!

Essa Gente Sem Vergonha

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

O convite da Lu já quase caducou antes de eu fazer minha estreia no Biscate. Em minha defesa, digo que tive um início de ano atípico (ou, pelo menos, assim espero, pois se isso for ficar comum, acabarei numa camisa de forças). De início, eu tinha combinado que escreveria sobre a Mary Wollstonecraft (tipo: biscatage também é cultura), mas ainda não é o momento. Depois pensei em escrever sobre a magnífica Mae West, uma das minhas biscates favoritas (o que era aquele andar, gente?), porém ainda não rolou. Se alguém quiser escrever sobre ela, pode avançar o sinal que eu deixo, incentivo e facebookeio.

BEIJINHO , MARIA SEMVERGONHA

Maria Sem Vergonha: fazendo jus ao nome, encostada no pau.

Então, acabei achando que não tinha melhor jeito de fazer meu outing no Biscate do que escrevendo sobre “essa gente sem vergonha”. Bem claro que não estou me referindo a corruptos e ladrões. É o “sem vergonha” noutro sentido, sabe? É, aquele… Pois é. Acabei ficando meio obcecada com essa coisa de ter vergonha e ser sem vergonha e como isso mexe com os nossos sentidos, com a libido e com o que queremos que os outros pensem da gente. A coisa toda me surgiu com a Marcha das Vadias. “Pôxa, a causa é show, mas eu teria vergonha de andar por aí com uma placa escrita: sou vadia.” Ouvi essa de gente insuspeita, surpreendentemente desconfortada com ouvir para si o termo que usa para xingar as outras. “Por que esse nome? Bradaram moralistas e machistas enrustidos. “Querem ser levadas a sério? Usem outro.” Respondo sempre que, quem se choca com o termo vadia, certamente não entendeu a ironia.

Não é diferente quando indico o Biscate para leitura. “O quê? Aquele blog de gente sem vergonha?” É, é sim. Só que, se é para brincar e ser subversivo com a história das palavras, então, vou dizer que o pessoal desse blog tem vergonhas sim. Só que não as esconde. As coloca à mostra, as deixa a nu, não tem vergonha de exibir suas vergonhas.

O fato é que, do meu ponto de vista, ter vergonha (ou vergonhas) não é problema, colocar folhinha de parreira sobre ela, é sim. Expor o que se pensa, num mundo tão limitado pela hipocrisia, é sempre obsceno. Dizer o que se quer, numa sociedade moldada a que todos digam apenas o que se quer ouvir, terá sempre um componente subversivo. É como deixar as vergonhas bem altinhas e peludinhas todas de fora (lembrando o anuncio de Caminha sobre as gentes destas paragens). É o que se encontra no Biscate e é por isso que passei a ler o blog e depois indicá-lo. Porque, na minha lógica, sexo não é vergonha. Nem desejo, nem tesão. Vergonha é ter regras que se apliquem mais aos outros que a si mesmo. Vergonha é patrulhar o cu alheio.

Passado o primeiro choque, muitos se deixam convencer e há os que estacionam em gradações intermediárias. O interessante é que entre os renitentes, os que se vergonham com simples palavras, estão os que, em grande parte das vezes, acham que estupro só acontece com quem “tá pedindo”; que criança de 8 anos que aparece grávida “era bem sem vergonhinha”, pois não tem sinal de violência. São os mesmos que idealizam a única e “verdadeira” vítima de estupro: bela, virgem, jovem, “decente”, com corpo escultural e roupas doadas pelo Exército da Salvação, agarrada por um desconhecido, em plena luz do dia (oh!). São os mesmos que acham que piada envolvendo violência sexual e doméstica, mulheres grávidas e espancamento de gays são: “poxa, só uma piada”. Aí, essa mesma gente se envergonha do que? De sua falta de noção? Não, de palavras. Palavras bobas, com um significado cultural eivado de preconceito como vadia ou biscate. E chamam de sem vergonha quem as usa assim, sabe, sem vergonha nenhuma, quem brinca com a história, quem subverte e expõe a tolice dos rótulos que só servem para cercear a liberdade.

Se o rumo disso pode ficar pior, contabilizem comigo. E acompanhem o raciocínio deste povo que se acha moral e cheio de vergonha na cara.

É feio e coisa de “sem vergonha” falar de sexo na escola e se fornecer educação sexual para crianças e adolescentes. Contudo, crianças abusadas que não sabem identificar a agressão por mal entenderem o que lhes acontece, tá na boa não é? Ensiná-las a se defender, nem pensar.

O mesmo vale para a gravidez adolescente, quase epidêmica, abortando a vida de um sem número de meninas – ou pelo aborto mal feito mesmo ou por terem de criar outra criança sem ainda deixarem de sê-lo. Muitas destas meninas ficam sozinhas nesta tarefa imensa de cuidar de crianças, enquanto os pais, irresponsáveis como os garotos (quase meninos) que são, continuam a sair, ir à escola, à balada. Algumas têm sorte (?), são assumidas (?), casam e com 14 anos já são totalmente mulheres, isto é, não tem mais direito a estudar, têm filho pra criar, casa para cuidar e gerenciar e uma mini-troglodita a lhes regular os passeios, a saia e a vida. Alguém que lhes diz que “mulher minha não faz isso ou aquilo”. Mas, claro, a culpa é da menina, não é? Quem mandou ser sem vergonha? Quem mandou ser curiosa e jovem? Sexo, afinal, é uma coisa feia, a ser evitada, mas, aparentemente, filhos aos 14 anos (ou menos) não. A educação que tudo lhe escondeu não tem culpa nenhuma, pois nunca se falou, explicou, nem se estimulou o sexo. Sabe? Aquilo que não é falado, simplesmente, não existe. Como se precisasse falar? Lembram-se do filmezinho tolinho Lagoa Azul? Pois é, ignorância total e ainda se descobriu como é que se faz. Ninguém precisa ensinar a transar, se aprende. Ensinar a não ter filhos… ah, isso, bem, hã, é… desconversam. Afinal, o problema é que não se deve fazer sexo, certo? Isso é que tem que ser coibido. Mas, se fizer e o filho vier, foi deus quem mandou e é uma benção. Mesmo que a pobre criatura não tenha corpo ou estrutura. Mesmo que a vida dela e das crianças que tiver tenho como destino o abuso e a miséria. (O aparente exagero não se refere, certamente, aos casos felizes, as exceções que, de fato, só servem a confirmar a regra). Evitar é pecado. Um pecado maior do que fazer. Sério? No nosso mundo?

É uma lógica interessante esta que acha que falar ou usar as palavras: sexo, estupro, vadia, biscate, racismo, homossexualidade, etc. é estimulante. Vai fazer com que as pessoas pensem nisso e saiam por aí transando, biscatiando, vadiando, se tornando mais racistas do que já são ou pegando geral na parada gay. De tudo isso, preserve apenas: vai fazer com que as pessoas pensem nisso, PENSEM, e isso sempre é melhor do que não pensar.

Não é nas palavras que o perigo se esconde, mas nos seus conceitos. As palavras só dizem o que queremos dizer com elas e onde elas silenciam é que ficam suas zonas mais obscuras. No silêncio destas palavras estão as crianças abusadas e sem defesa; estão as pessoas que acreditam que o mundo é assim mesmo e não há o que se possa fazer; estão os que acreditam que você pode evitar a violência doméstica se obedecer; que pode escapar de ser estuprada se seguir rigidamente um código que envolve toque de recolher e roupas abotoadas.

Não é das palavras que devemos ter vergonha. Nem de expor aquilo que, gente adulta, vacinada e dona do nariz faz e gosta. Vergonha é de se ter quando a gente cala, quando não ensina, quando não exige, quando baixa a cabeça, quando obedece. É por isso que, mesmo que com algum atraso, estou aqui, me somando com essa gente sem vergonha do BSC. Que fala em alto e bom som as palavras, subverte-as, brinca com elas, atira pra cima e dá risada. Essa gente sem vergonha que também não se cala, não se intimida e ainda diz: não, não passarão!

Ô mãe! Ô pai! Tô no Biscate!

flivrostmaria2012062*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Entre o Preto e o Branco

Por Mestre Addam*, Biscate Convidado

Machismo. A palavra me incomoda um bocado e por diversos motivos. Já correndo o risco de irritar quem me leia, aqui, o principal deles é a facilidade com que ela é usada para justificar argumentos nem sempre tão “preto no branco”, assim. Mas somos uma sociedade maniqueísta, que gosta de polarizar questões, dessa forma, e com isso cobrar que uma pessoa (e TODA pessoa, aliás) esteja deste ou daquele lado. O fato é que não existem apenas dois lados. Toda questão social tem seus 2, 20, 50, 250 tons… os infinitos pontos da reta. E o quê isso tem a ver com o livro “50 Tons de Cinza”? Bem pouco, em não ser uma narrativa nada sutil, mas muito em contar uma história pra lá de machista.

Quem sou eu? Aqui e para este texto, eu sou Mestre Addam, um fetiche que descobri relativamente mais cedo que a maioria das pessoas que conheço. Sim, ser esta persona é um fetiche meu, e dos mais prazerosos. Dominador, torturador sádico e mentor no uso de agulhas e facas em práticas eróticas. Machista? Sempre me pergunto isso e acho que não é algo que eu consiga responder, mas gosto de pensar que não. Que em toda mulher que já veio a mim para cenas e/ou relações sadomasoquistas havia o desejo consciente desse mesmo fetiche. Me apóio em um dos preceitos da prática de Bondage, Dominação e Sadomasoquismo (BDSM), de que o divisor de águas entre o fetiche e a violência doméstica é que toda prática seja Sã, Segura e Consensual. (SSC) O problema é que, como em meu primeiro parágrafo, são conceitos abstratos o suficiente para também entrarem na dança de que mero “’ser’ ou ‘não ser’” pode falhar em definir certo e errado: SSC ou não-SSC?

Sob esse ponto de vista, o título do livro vem então cheio de promessas, certo? São pelo menos 50 tons da coisa, que veremos em nuances delicadas, enquanto nos deixamos envolver por esses tantos desejos, sabores, sensações. Críticos e fãs dizem que é uma obra que vem desnudar e escancarar os segredos de toda mulher, com suas fantasias. Mas se for acreditar nisso, é ainda mais preocupante.

Temos uma protagonista, jovem adulta chamada Anastasia (pelo simples motivo que os editores disseram à autora que ela não poderia publicar como no texto original, em que ela se chamava Bela), que na realidade só é maior de idade em seu RG, mas com a clara mentalidade de adolescente deslumbrada de 16 anos. Ela é uma mulher certa de suas convicções. Do outro lado, Christian Grey (que, da mesma forma, os editores deixaram claro não podia mais se chamar Edward) é um homem bonito, com aquele desdém altivo que uma adolescente de 16 anos acha o máximo em seus ícones pop e, muito importante à trama, rico. No entanto, Christian é parte de uma subcultura perigosa – e atraente – de sadomasoquistas (porque os editores nem precisaram dizer que a autora precisava mudar a parte “vampiros”, da coisa).

Sim, o texto surgiu como uma fanfic erótica de Crepúsculo, mas essa não é sua pior característica. Releia o parágrafo anterior e você verá que eu coloquei a importância da riqueza do galã acima de sua característica fetichista. Ana, a protagonista de fortes princípios e toda sua certeza adolescente do que quer da vida, claramente rejeita os fetiches de seu “príncipe encantado”. A princípio. Mas Christian sabe bem ‘comprar’ a consensualidade da parceira, ao longo de uma história que nem tenta esconder seus tons (!!!) de material girl – Madonna, excelente para a trilha sonora do filme, hein! –, demorando-se em detalhar e descrever marcas e patentes de todos os presentes que a aos-poucos-submissa Ana vai ganhando de seu cada-vez-mais-Mestre Grey.

Méritos? Vários, no entanto. O livro sucede bem em trazer à luz práticas tão tabus quanto interessantes, ainda que claramente não seja essa sua intenção. A aceitação do fetiche é talvez seu maior ganho, ainda que (ao menos o primeiro volume) encoste apenas na casca de uma gama de práticas possíveis. Resume BDSM a bem pouco, sem deixar sombras o suficiente para que leitores vislumbrem o universo de outras possibilidades, em sua própria imaginação. Apresenta a ritualística por trás da relação Dominador/submisso (D/s), um interessante movimento de tentar ordenar o caos de sensações e desejos que envolvem a interação entre Top e bottom (termos genéricos, facilitando a identificação de papéis sem distinção de gênero, das partes), presente na forma de um contrato entre as duas personagens – o qual Ana recusa-se a assinar, claro.

Em relações D/s, a questão contratual é importante no sentido em que não há consensualidade sem que ambas as partes possam estabelecer seus limites – bem como a disponibilidade a testá-los ou estendê-los. Não é algo que necessariamente esteja colocado em papel e tinta (embora possa ser parte da diversão, estar), mas cabe ao Top explorar essas barreiras e dar ao bottom a segurança de que serão respeitadas. A existência de uma palavra (ou gesto) de segurança, estabelecida como “freio de mão” a qualquer cena ou prática é normalmente o que mantém essa noção do ato consensual, não importa o fetiche sendo explorado.

Portanto, é quase correto dizer que “o poder está nas mãos da submissa”. Uma premissa muito lógica, com todo o exposto aqui, e uma percepção que o livro arremessa janela afora, com a “consensualidade comprada” de Anastasia. Sua submissão física e psicológica a seu Dono está claramente condicionada ao deslumbre causado pela condição financeira do mesmo e a uma horrível ligação disso com a noção romântica de amor. Críticos da obra dizem que o problema do livro está em uma mulher ceder a posição de igualdade com seu parceiro, na cama. Digo que é bem pior, em que ela cede a sutil superioridade que as fantasias de uma submissa têm sobre os desejos últimos de seu Mestre.

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fotografia: Alexandre Medeiros; modelo: Jessica Luz

Não defendo aqui que o Top seja estritamente dominado pelos limites de um bottom, mas que é o seu maior desafio moldar sensações e desejos da pessoa submetida aos seus prazeres, criando a sensação da perda de liberdade. Seja usando de vendas, algemas e mordaças ou da vigilância quase opressiva de um olho de poder foucaultiano. (em um aspecto bem mais psicológico do ato da dominação) É delicioso – e me permito o deslize analítico, aqui, por que é mesmo! – ver o comportamento e a postura da pessoa dominada ir mudando, à mera presença de uma figura que lhe chega cheia de regras, vontades e exigências, sem que essa sequer pronuncie a primeira palavra. Mas por que isso é parte de um fetiche, um contrato entre os dois. Qualquer dependência inerente a essa relação precisa estar ligada à adrenalina, ao prazer, ao desejo (até mesmo da dor), à afinidade entre as partes.

No primeiro volume da trilogia de 50 Tons, o contrato toma tons de negócios, meramente. Grey com seu dinheiro (e todo o glamour que ele traz), Ana com seu amor. Condicionar o fetiche a qualquer dessas duas coisas é, para mim, o principal desserviço do livro a seus leitores. Ver surgir, em meio aos seus fãs, frases como “sem amor e romance, BDSM não passa de violência doméstica”. Não é preciso haver amor, para que haja o sentimento (mesmo meramente teatral) de posse, mas, principalmente, não é preciso haver posse para que haja amor. O fetiche da posse do outro, a excitação sexual com esse pertencimento, é até muito mais saudável que a assumpção formal dessa mesma posse por causa de qualquer papel assinado em cartório.

Sinceramente, falho em ver qualquer tom de são, seguro ou consensual em muitos casamentos e relacionamentos tradicionais, por aí. Mas ir além de apenas 2 ou mesmo de 50 tons da coisa pode mostrar toda uma dissonância (e distância) necessária, entre amor e sexo.

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2012-12-07 08-50-00.895*Mestre Addam (mestreaddam@gmail.com) é Marcelo Leite, carioca, defensor da liberdade de expressão, da livre relação e da biscatagem em geral. Escreve ainda como Troll, no Palácio Elétrico e surta em doses homeopáticas pelo twitter @addammgl

Biscatagem e responsabilidades

Por Verônica Mambrini*

Começa tão promissora a biscatagem: interesse mútuo e instigante. A primeira vez que a pele roça na outra, quase por acidente – quase. Marcar um bar, um boteco, um restaurante qualquer para, entre copos, comer com os olhos e antecipar o que pode vir a ser. Conversas: ir tateando o que o outro gosta, como gosta, para onde quer ir. Se deixar levar em discussões profundas ou conversinha furada e mole. Tudo tão bom.

É o ponto em que a boa biscate se lança no salto livre do desconhecido: o querer. É quando ela, mordida de curiosidade, dá ou rouba um beijo. E os corpos vão se avançando. Guerra de trincheiras, que se batalha lentamente.

Nessa zona cinza as relações não têm nome exato. Não existe um compromisso, não existe uma intenção clara, detalhada, definida – com exceções. Tem quem discuta e ponha tudo às claras, de cara. Mas é parte do próprio jogo de sedução não colocar as cartas na mesa todas de uma vez, dar um pouco e tirar um tanto mais, confundir um pouquinho no entontencimento do desejo, em vez de deixar tudo claro e conversado. É ingrediente fundamental da euforia.

Acontece que nem sempre os desejos caminham para o mesmo lado. Nem sempre as falas de um se casam com o silêncio do outro. Nem sempre os corpos fulminam de paixão. Se a relação é justamente de paridade, o laço se desfaz como fez.

E quando o encantamento toca um só? A biscatagem é arte de adultos – todos responsáveis sobre si e mais ainda, cientes do risco de cair nos os enredamentos do tesão, da paixão, do amor. É um pouco amargo se permitir travar contato com o outro, deixar a intimidade progredir, sem intenção de levá-la adiante. Sobretudo quando se lê no outro a fome de continuidade, a expectativa. Não tem gozo nenhum em não poder matar vontades e ainda assim, alimentá-las.

Tem biscate que e mestra na arte do não, do virar a página. Tem as titubeantes, que se melindram porque tudo dó um cadinhos: dizer o não ou deixar o silêncio que pode virar sim na cabeça do outro. Ainda assim, atravessar o pequeno deserto da dúvida e experimentar a relação até ter certeza do não querer é necessário. Porque nem só de doçura e maciez é feita a biscatagem.

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* Verônica Mabrini é jornalista, fotógrafa e feminista, uma gata de rodas circulando por São Paulo e você pode acompanhá-la pelos seus perfis no Facebook ou pelo twitter @vmambrini ou ainda no seu blog. Boa viagem!

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