Palhaçando de lugares

Tem um filme muito lindo do Tim Burton que fala sobre natal. É um desenho. A personagem principal é o Jack, uma simpática caveira que assusta as pessoas no dia das bruxas mas que resolve sair do script e ocupar o papel do Papai Noel na noite de natal… Obviamente o trem descarrilha solto… A dica é ver o filme e – incrivelmente, a versão dublada é excelente, as músicas funcionam excelentemente em português – depois contar aqui.

gentileza1-300x238

Mas a questão toda não é o filme. Este texto aqui, de véspera de véspera de natal, quer dar a ideia mágica da gente se permitir um pouco ser o Jack. Sair da casinha, despirocar, descabelar o palhaço que mora na nossa alma. E faço este convite com uma única e expressiva vontade – ou desejo, palavrinha lúbrica parente de algum grau da vontade – que é o de possibilitar gozar em outras frentes, reconhecer outros espelhos, calçar sapato na cabeça, calcinha no peru, cueca na prexa. Sair como o Jack numa noite de natal.

Tá… fica com cara de auto ajuda este palavrório todo. Eu sei, sabemos. Mas juro que não é esta a intenção deste texto pré natalino. Esses dias de dois mil e quinze tem pesado demais. O ar tá carregado de intolerâncias, de panelas com bile, de sabedorias definitivas, de papai noel de vermelho mesmo que faça um calor da porra lá fora. Não importa aqui quais as concepções, posições, preservativos que se use, abuse ou cante.

O desejo é outro, é se permitir estar em outro papel. Buscar nesta transitoriedade fugaz alguma empatia, algum elemento novo para caraminholas, uma nova camisola para as ideias, um samba canção para vestir argumentos.

No filme do Tim Burton, apesar das cousas aparentemente não darem certo, dão: e muito…

Gira o mundo, Elza!

Nesses tempos absolutamente macambúzios, tristonhos, é comum que a gente se sinta sem nada a dizer…

Esses momentos do nada a dizer são broca na moringa. Eles martelam. E como aquele gosto de ontem, depois do fogo destemperado, mas sem a glória de um evento qualquer. Um guarda chuva imenso, chuva ácida.

A gente acaba, sempre e sempre, esquecendo que o mundo gira, naquela antiga anotação: sempre a girar. Nesse giro é sempre um buscar. Não quero com isso tirar destas irresignações, desta raiva, deste inconformismo, desta tristeza, a sua intensidade brutal. Não é relativizar. Mas o mundo de ontem sempre foi pior, as fogueiras, as forcas. Desde que alguém patenteou o fogo ou resolveu escolher um deus em detrimento doutros estamos nessa lama destruindo rio. Talvez nunca superemos esse egoísmo, essa latrina da acumulação, a meritocracia – a verdadeira bazófia do planeta. Talvez…

Aí, nesse cantinho e noutros por aí, a gente acaba tendo aquela coceira de continuar a crer, acreditar, militar. Sou daqueles que acho que isso é mais gostoso se for melado, molhado, ereto, bolinante, em sussurros, gemidos, tesões, olhares. Trocas: de fluídos, de ideias, de corpos, de linhas, de comida com cheiro de refogar.

Tá… deve o texto estar naquele pretensioso, falso otimista e tal e lal lousa mariposa. Ok, vamos aos finalmentes, entrementes: O disco novo da Elza Soares. Um colosso.

Elza encontrou os meninos de São Paulo, Rodrigo Campos, Kiko Dinucci, Rômulo Fróes, Marcelo Cabral. Nos versos cortantes do Passo Torto, na guitarra de Kiko que parece cortar, Elza – pra variar – se reinventa. A grande dama. A mulher do fim do mundo. A mulher excepcional. Desta vida e deste mundo que gira. E segue. Corre lá. São quarenta minutos de disco. Sairemos todos novos. É necessário: combustível. E como sexo, vital.

800x455_16

Sete Vidas e o estreito lugar do masculino

Acabou ontem uma das melhores novelas dos últimos tempos: Sete Vidas, que contava a história de sete irmãos biológicos e do seu pai, o doador anônimo que acabou sendo descoberto e vendo ser construída, em torno de sim, uma improvável família.

Na esteira do final da novela, Nilson Xavier publicou um comentário elogioso, falando da produção, dos temas delicados abordados, dos personagens bem construídos. Mas fez a seguinte ressalva:

Aqui cabe apenas uma crítica à autora, algo já percebido em “A Vida da Gente”. Seus dramas são universais e acometem todos os gêneros, mas percebe-se um maior afinco de Lícia ao retratar personagens femininas em detrimento aos masculinos, em sua maioria reconhecidos como fracos, emocionalmente imaturos e/ou dependentes, ou mesmo “bananas”.

Bem, para quem não viu a novela, a primeira observação é que não é da falta de personagens masculinos que ele está falando. Dos sete personagens que acreditavam ser filhos de Miguel  – uma, Julia, depois descobre que na verdade não era -, cinco são homens. Some-se a isso o próprio Miguel, Lauro, seu melhor amigo, Vicente, namorado de Lígia, e seu irmão Arthur, Eriberto e, agora perto do final, Renan. Uma profusão de personagens homens. Do que será que estaria falando Nilson então?

Ele menciona um “afinco” em retratar personagens femininas, “em detrimento” dos masculinos – para afinal chegar no ponto: os personagens masculinos seriam “fracos, (…) imaturos, dependentes (…), ‘bananas’.”

E foi isso que me fez parar e pensar. Porque, na verdade, a crítica é sobre os próprios personagens masculinos, generalizados em termos que sugerem fragilidade e insegurança. Sem discutir a verdade ou não dessa caracterização, o que incomoda é a afirmação subjacente a essa: fragilidade, insegurança não são qualidades “de homem”. Não são o que se espera de um homem. Se os homens retratados na novela são assim, bem… eles não são homens-homens, não é mesmo? O personagem de Eriberto ainda vai, porque afinal se debate com a própria ideia de masculinidade tradicional, e, a partir de conversas e reflexões sobre si próprio,  acaba se declarando a Renan, mas os outros?

Aliás, assistindo a novela e antes de me deixar encantar completamente pelo Eriberto, me incomodei foi com esse clichezão mais uma vez repetido: se o homem é frágil, sensível, gosta de música clássica, de arte, bem… não é um homem-masculino. E há de ter uma orientação sexual compatível com esses gostos tão pouco de “homem-homem”. (É verdade que à luz desse critério poucos parisienses passariam no teste de homem-homem, mas fazer o quê, é outra cultura. Eles são diferentes, lá pode. E lá vai clichezão. Mas isso é outra conversa ainda. Voltemos).

Nilson Xavier ainda complementa:

Entende-se que a audiência da novela das seis é – em teoria – predominantemente feminina. Mas já que o estilo da autora é naturalista, uma melhor dosagem caberia bem, sem desmerecer nenhum gênero.

Atenção para o termo usado: sem “desmerecer” nenhum gênero, diz o autor. Quer dizer, novamente: personagens masculinos sensíveis, confusos, complexos seriam uma forma de “desmerecer” o gênero, que, afinal, deve ser merecedor de respeito.

Parece um comentário tão pequeno, quase à toa. Mas enganchou na minha cabeça, de tanto que reflete bem a estreita caixinha onde se guarda o que é considerado masculino. Em outro texto, já falei disso. Como é difícil se manter dentro desses limites do que é aceito como masculino. Como  características de homem-homem. O texto era sobre o feminino, mas lá pelo meio tem esse parágrafo:

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

 Em outro canto ainda, falando de ter filhos meninos, e das dificuldades com que me deparava, escrevi sobre a construção dessa imagem do masculino ainda na infância, da preparação dos meninos para serem homens-homens e do que isso implicava:

Porque é aí que começa tudo: as meninas sonham com vestidos de princesas e com o beijo do príncipe. Os meninos…tadinhos. Dão pra eles bolas, armas, carros. Carros. Caraca. Que coisa mais sem graça. Eu acho. Armas. Aqui em casa era vetado. Mas é comum, né. Bolas. Ok. Mas porque não cordas de pular, elásticos? Porque não bonecas? Tantos meninos gostam de bonecas. É tão legal brincar disso. Cuidar. Botar no colo. Fazer carinho. Isso sim é educar um menino pra ele não ser machista. Pra ser um pai bacana. Pra ser feliz como ele quiser ser.

Por que não? Por que não a gente pensar em educar meninos diferente, em abrir espaços novos, em deixá-los ser, e brincar de boneca, de panelinha, do que quiserem? Por que não entender que personagens masculinos angustiados, sofridos, confusos, inseguros são, sim, homens-homens, não precisam ser uma desvalorização dos homens e talvez sejam, ao contrário, uma revalorização? Um mostrar que é possível ser homem e sair um pouco daquele molde futebol-cerveja-coçar o saco, é possível ser homem e artista, ser homem e usar saia, ser homem e gostar de se arrumar, de se enfeitar, ser homem e preferir cuidar dos filhos, ser homem e botar no colo, e – mais difícil ainda – ser botado no colo… relaxar, chorar, dançar solto, rir desbragadamente, ser homem e sair do molde em que prenderam os homens, em que os próprios homens se prenderam há tanto tempo atrás que não sabem mais o caminho de volta e se obrigam a, permanentemente, vigiar outros homens. Porque todos têm que estar lá, dentro da caixinha. A estreita caixinha dos homens-homens. Tão apertadinha. Gestos, entonações, jeito de corpo: coreografia permanente dos homens-homens. Certos, fortes, musculosos, ousados, corajosos: aí, sim. Aí, talvez, o Nilson Xavier ficasse satisfeito e não considerasse que a novela tinha “desmerecido” os personagens homens.

Eu, aqui do meu cantinho, gostei foi muito. Que venham mais. Tá pouco ainda.

miguel-familia-sete-vidas-e1436571473124

#KDMulheres: questionamento e ocupação

Foto de arquivo da página do "Kd Mulheres?"

Foto de arquivo da página do “Kd Mulheres?”

Vi o “KD Mullheres?” nascer. Estive com Laura Folgueira e Martha Lopes, suas criadoras, na praça da Matriz de Paraty no ano passado, questionando por que tão poucas escritoras participavam das mesas principais da Flip-Feira Literária Internacional de Paraty. Em 2014, apenas 15% dos debates na Tenda dos Autores contavam com mulheres. De todas as edições da Flip, apenas uma escritora brasileira foi homenageada até hoje: Clarice Lispector.

E, mais uma vez, estive com elas esse ano fazendo a mesma pergunta. Dessa vez, na Flip Zona (destinada a um público mais jovem), quando Laura e Martha participaram de um debate, junto com a cantora Karina Buhr, sobre a presença da mulher na literatura.

Que lógica é essa que faz com que menos mulheres sejam publicadas, resenhadas e premiadas? Por que o perfil do autor mais publicado no Brasil é homem, branco, que mora nas grandes cidades? Por que isso não nos surpreende? Por que mulheres são mais inseguras pra mostrar seus escritos e se assumirem escritoras? A representatividade importa?

Que lógica é essa que faz com que, ano após ano, menos de 20% das mesas principais de um evento como a Flip sejam ocupadas por mulheres, mesmo quando o próprio evento abre sua programação pra discutir o assunto?

Sigo com a provocação de Martha Lopes martelando na cabeça: quantos livros de homens e quantos de mulheres você tem em sua estante? E fico com a constatação de Laura Folgueira: quanto mais a hierarquia sobe, menos mulheres ocupam postos de comando. Isso em praticamente qualquer indústria. Na do mercado editorial parece não ser diferente.

Portanto, é preciso mais mulheres liderando editoras e curadorias de feiras literárias, é preciso mais mulheres selecionando “livros do ano” em jornais e revistas (ou o que venha depois disso, quando os jornais e revistas deixarem de existir). Quem sabe, assim, as coisas começam a se ajustar.

Falo mais sobre o debate, aqui, no Blogueiras Feministas.

Abaixo, prosa minha publicada no zine do “KD Mulheres?”, que abriu um concurso para autoras e ilustradoras participarem da publicação que elas produziram pra Flip 2015. Foram selecionados 16 contos e poesias e três ilustrações, incluindo essa sereia maravilhosa da capa, gorda e com mamilos! <3

Prado

E tem essa agonia. Esse desejo, essa pulsão. Palavras a eleger. E essa malquerença da escolha. O que é de certeza, o que é passageiro, o que morre. E esse medo (da morte) sem transcendência. E se ninguém gostar, se ninguém quiser, se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Se ninguém lembrar. Bate como eco. Badalando na cabeça, naquele barulho seco e contínuo. Tum, tum, tum. Se ninguém quiser. Tum, tum, tum. Se ninguém lembrar. A vontade de não ser apenas pó. Falo nem de vaidade. Mentira. Falo, sim. Que tanto transitórias somos. Que são palavras se não plasmadas? Se guardadas, existem? E soltas por aí. Emprestadas. Se em fuga. São nossas? E se me canso antes mesmo de sabê-las. E chupá-las. Com limão e tequila. No ácido da casca. Lá, onde se pode chorar. Lambendo o que escorre pelo punho até o cotovelo. Aff. Quem alcança o cotovelo? E a palavra ali, do cotovelo pingando pro chão. E eu querendo prendê-la na axila. Apelando pra mesóclise, dar-lhe-ando perfumes embaixo do sovaco. Mas, a palavra, essa malina, corre ali pro canto da mesa. ‘Inda me precipito por ela e bato o dedinho na quina da cadeira. E paro no meu desassossego. Merda. Que sei eu sobre dor virar poesia? Se nem de clichê a encontro. A palavra me acena de longe. Debochada. E me mostra a língua. Mal educada. Faz orelha de burro e tatibiteia lá-lá-lá-lá-lá. Desgraçada. Quantas vezes não quis que fossem minhas “Mulher é desdobrável. Eu sou.” Quanto já não quis ser Adélia. Que ainda quero. Acendo vela pra ela, faço reza pra ela. Promessa. Sinal da cruz. Ajoelho nos pés dela. Sã Adélia. Te devoto minha sanha. A palavra volta. Sirirca. Falsa! Mas. Deixa-me usá-la. Numa ênclise. Adélia, minha santinha. O milagre!

Amém.

Um cipreste triste e dois amores de tia Agatha

Este texto contém spoiler, caso exista alguém no mundo que ainda não leu Agatha Christie.

Tia Agatha, como um socorro. Como uma pedra de fundação. Como um galho em que me seguro. Como uma rede, que sempre me embala.
Todo mundo acha que eu estou brincando, menos quem me conhece mais de perto: volto aos mesmos livros, sempre e toda vez. Comfort-livros. Durante muito tempo foi Monteiro Lobato. Depois, Agatha Christie e alguns outros.

O livro no formato “whodunit” (quem matou?) é redondo. Fechado. Acaba de volta no começo, quando a pergunta ganha uma resposta. Querem algo mais reconfortante? Quando a sensação é de caos e de angústia demais da conta, deito na rede da tia Agatha e embalo-me em suas certezas.

Vento que balança as palhas do coqueiro….

Balançando na rede, lembro de recente conversa sobre amor. Tia Agatha fala muito de amor. De um jeito bem peculiar, e não consigo não associar a forma como ela fala de amor à sua própria história: o primeiro casamento com um homem mais jovem, Archibald Christie, a separação violenta, o segundo casamento com o arqueólogo Max Mallowan.

Cipreste Triste é o livro em que tenho a sensação que ela fala desses dois maridos. Nunca vi isso escrito em lugar nenhum: é uma impressão apenas. A personagem principal de Cipreste Triste é Elinor Carlisle, apaixonada a vida toda pelo primo distante, Roddy. Estão noivos.

O sentimento de Elinor tem por Roddy é intenso, ardente. Mas ela disfarça. Sabe que ele não sente dessa forma: é mais contido, mais distante, todo postura ereta, fleuma e jogos de palavras. Extremamente britânico. E Elinor sabe que o assustaria, caso exibisse seus sentimentos reais: Roddy acharia indecente, e sem dúvida deselegante. Algo feito para o povo, não para um pretendente a aristocrata como ele.

Até que aparece Mary Gerrard, filha da caseira da mansão da tia, e Roddy se encanta por ela à primeira vista. Desfaz o noivado. Elinor o flagra olhando para a moça, e imediatamente percebe tudo. Tem vontade de matá-la, a tal ponto que quando ela de fato aparece morta, deixa-se acusar e levar a julgamento. Quem sabe a vontade, de tão forte, não matou Mary de verdade?

E aí é que entra em ação o outro personagem masculino do livro, antípoda de Roddy – e, na minha interpretação, a representação de Max Mallowan: o médico da tia, dr. Peter Lord. Jovem, ruivo, desajeitado. Grande. Reconfortante. Seguro. Confiável. É a ele que Elinor recorre. É ele que chama Poirot para ajudá-la a sair da confusão em que está metida. E, no final do livro, ela acaba dando a entender que o que sentia por Roddy era demais: intenso demais, sangrento demais, violento demais. Portador de sofrimento. E acrescenta que talvez com ele, Peter Lord,  consiga encontrar alguma felicidade. Uma felicidade tranquila, feita de pequenas coisas, de miudezas do dia-a-dia. Mas nem por isso menos real, justamente porque sólida, porque estável. O contrário dos amores de romance, das paixões desbragadas. Do que sentia por Roddy Welman.

Max Mallowan era arqueólogo, e Agatha Christe não só o acompanhou, mas trabalhou como ajudante em diversas das escavações que ele coordenou. Existe uma frase atribuída a ela que diz que o bom de ser casada com um arqueólogo é que, quanto mais a pessoa envelhece, mas ele a acha interessante.

Tia Agatha tinha humor. E sabedoria tanta.

tia Agatha

Roteiros Biscates: “Play it again, Sam!”

Sempre divago, devaneio, sonho. E é naquele boteco da distante Tatooine, quando Luke e Obi-Wan buscam uma nave espacial para seguir viagem e dar origem à saga “Guerra nas Estrelas”. No meu sonho o boteco é do Rick Blaine e ele ajuda Obi-Wan, mesmo fingindo indiferença, a encontrar Hans Solo – que conversava com Ugarte. E que dias depois, longe das telas, alguma cantora de cabaré de três cabeças cantará algo parecido com a “Marseillaise” enquanto o bar é invadido por clones vestidos de branco e senhores representantes do Império. A cena toda já fiz e repeti, gravei, filmei, escrevi.

casablanca-humphrey-bogart

Mas não só. Quando li – e, depois, assisti – Harry Potter nunca as cousas se esgotam ali no triângulo Harry, Rony, Hermione. Sempre imagino os corredores de Hogwarts e as conversas sobre “você sabe quem” longe do menino eleito, dos olhares de Dumbledore. Das conversas na sala comunal da Sonserina entre aqueles que não seguem Voldemort e por isso são perseguidos, calados, ofendidos. E de como estes ajudam – anônimos – na batalha final. E segue a cabeça girando a imaginar enredos, numa gostosa promiscuidade de ideias, de versões, de desvios dos textos originais. Ah…. aquele duelo final de Três homens e um conflito”….

amarcord_3

Quando me perguntam por que escrevo aqui ou do como me descobri biscate, gosto de imaginar ainda mais assim e assim. Porque aqui estamos buscando construir novas histórias, novos paradigmas, sair das caixinhas, mudar roteiros prontos e desvirtuando o que se considera dogma, regra, padrão. Sim, aqui cabe o Marrocos em Guerra nas Estrelas – até porque as imagens do filme foram filmadas na África Mediterrânea, Cabe, porque temos sonhos de outros mundos, outras possibilidades, outros roteiros. Na neblina, na tabacaria, na “Internacional” que toca na torre. Neste mundo cada vez mais árido é cada vez mais amplamente necessário um afago.

Sim, óbvio solar, nesses nossos roteiros teriam muito mais beijos, sexo, sacanagens. E como seria lindo o filme do dia em que o Batman sai do armário. Ele conta para a Mulher Maravilha e os dois saem para um mambo numa rua de Havana Velha.

E a gente sorri gargalhadas.

As vilãs e o sexo nas novelas

As novelas têm perdido audiência, a tv aberta têm perdido audiência, e a cada estréia de um novo produto e a cada queda do IBOPE os mandachuvas correm em busca de novos culpados em busca da audiência perdida. Pode ser o casal homoafetivo da vez, pode ser o vocábulo ateu,  pode ser a moça que não vai ser mais prostituta mas sim amante  e pode ser a vilã ninfomaníaca

 ALCIONE-405x600

Peraí. Ninfomaníaca? Ahhh transou com mais de 3 já é ninfomaníaca. Bem, não é bem assim. O apetite sexual excessivo, hipersexualidade, desejo sexual hiperativo (DSH), ou ninfomania (em mulheres) e satiríase (em homens) é um transtorno sexual caracterizado por um nível elevado de desejo e atividade sexual a ponto de causar prejuízos na vida da pessoa. Trata-se de um tipo de vício com sintomas compulsivos, obsessivos e impulsivos, e seu tratamento é similar ao de outros tipos de dependências. Ou seja, é preciso que cause sofrimento e transtorno na vida da pessoa e não prazer.

Pois bem, Beatriz tava lá feliz,  de boas, transando com um carinhas aqui e acolá e me parece que o fetiche dela tá mais para mandar, poder, e o perigo de ser flagrada. Quem nunca, né? Fetiche, cada um com o seu. Mas aí a Dona de casa, de acordo com sei lá que  grupo de pesquisa, resolveu que Beatriz é ninfomaníaca. Já patologizaram a moça.

susani

Mas sexo em novela, e na tv em geral, nunca é uma coisa bem resolvida, sempre vem com um caminhão do tipo fenemê de culpa junto. Notem que as mocinhas sempre são virginais, só amam e transam, por amor, com um só mocinho, e ai delas se fizerem isso com mais de um ou por puro prazer. Castigos terríveis surgirão, separações, gravidezes indesejadas e por aí vai.  Basta ver a Márcia na reprise de o Dono do Mundo que foi dar pro homem errado e teve o posto de protagonista roubado pela prostituta arrependida da Taís (prostituta se for arrependida, pode, deve ter algo a ver com Maria Madalena, mas tem que sempre sofrer, por óbvio).

Já as vilãs, ahhh essas são terríveis! Elas são sensuais, adoram sexo. Com mais de um, se puderem.  Gostar de sexo pra vilã mulher está associado com, veja bem, vilania. E pagam  muito por gostarem de sexo as pobres. Bastante. Se não forem vilãs o máximo que pode acontecer é que a personagem fogosa é o alívio cômico da trama, tipo Tina Pepper ou Tancinha, e sempre quase pega os caras, mas nunca chega aos finalmentes, como diria madrinha noveleira,  porque na verdade só tem um grande amor e tal.

Já vilão homem gostar de sexo faz parte mas não é castigado, é bacana, é sexy sem ser vulgar. Nem o personagem engraçadinho que trai a mulher,  nem o que tem 2, 3 famílias  e por aí vai. Lembrem-se de Cadinho, Seu Quequé , Laerte e Laerte2, o retorno (ops, desculpa, Luís Fernando).

Na verdade nossas tv parece moderninha mas continua nos anos 50. Que o diga Fátima Bernardes e seu encontro matinal com a máquina do tempo.  Espero que no próximo aniversário de 50 anos da emissora minhas netas  ou netos possam assistir mulheres que transam e não são chamadas de ninfomaníacas, ou até lá a globo faliu e o Netflix ou outros dominam. Sonhar nunca é demais.

carminha

Preliminares

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Há sempre muita conversa sobre a importância das preliminares, a forma das preliminares, a duração e natureza das preliminares. Para falar a verdade, se você olhar com cuidado, ninguém sabe mesmo como devem ser preliminares.

Preliminar é aquele jogo antes do jogo principal, em geral um sub-20 meio mambembe para distrair quem chegou cedo no estádio, um jogo de meninos em um campeonato que ninguém sabe direito se é o estadual, se é o nacional ou se nem é nada disso, se é só um amistoso extemporâneo. Perá lá, o telefone…

– Alô? Oi, Silvia!
– Cara, esquece o futebol, você esté escrevendo no Biscate, futebol é no outro site. Aqui é ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, para de enrolar!
– Mas estava construindo a metáfora…
– Apaporra, Paulo, metáfora de futebol com sexo já tinha cansado minha mãe, lá na época que o Pelé jogava futebol em vez de falar bobagem!
– Tá, tá, eu paro…

Como eu ia dizendo, preliminar vem do latim limens, limite. “pre”, todo mundo sabe, é antes. Antes do limite, mas que limite? Ora, ainda gastando o latim, num antigo manual de sexo atribuído a Cícero, o grande orador romano escreve: “Ante coitum pre limens sed”, implicando que as preliminares são tudo o que vem antes da penetração. Telefone de novo, segura aí…

– Oi, Rê!
– Latim, Paulo? Latim??
– Ah, eu estava só me divertindo…
– Mas onde o Cícero escreveu essa porra?
– Em lugar nenhum, né? Eu inventei tudo, até a frase. Mas preliminar vem de pre limens mesmo.
– E limens é onde está a paciência da leitora..
– Quantas editoras tem esse site, afinal?
– Quantas forem necessárias para fazer você parar de enrolar e ir direto ao ponto.
– Ou pelo menos ir bem indiretamente ao ponto, para deixar crescer a tensão, né?
– Mas lembra da paciência no limens, rapaz.
– Lembro sim.

A verdadeira natureza das preliminares é alvo de algum debate. Os americanos, que gostam de definições precisas e objetos mensuráveis, costumam situar o início das preliminares de forma um tanto exata no momento em que os parceiros começam a se tocar, mesmo ainda completamente vestidos.

pre

 A ação propriamente dita envolve beijos na boca, abraços, mãos passando pelos corpos, apertões, chupões no pescoço, beijos pelos corpos (quando a roupa começa a sair), mãos roçando bucetas e pirocas. Hmm. Deixa eu perguntar uma coisa aqui…

– Oi Paulo, tudo bom?
– Oi, Lu! Eu estou com uma dúvida. Aqui pode piroca?
– Por que não poderia?
– Sei lá, outro dia deu um problemão lá num grupo de novela…
– Você vê novela?
– Não, mas adoro o grupo de novela. E daí teve uma piroca e um moço ficou muito ofendido.
– Com a piroca?
– Com a palavra.
– Ah. Mas pode. Pode piroca, pode buceta, pode cu, pode o caralho a quatro. Parece que você nem lê o que eu escrevo.
– Era só para confirmar. Vai que está rolando alguma interdição da piroca e eu não sei.
– Pode tudo. Mas um aviso: não use diminutivos. Se você falar em xoxotinha, piupiuzinho e coisas assim, a gente vai rir de você daqui até o fim dos tempos.
– Tá, não se preocupe.

O Consenso de Las Vegas, a lendária reunião dos principais sexólogos americanos ocorrida em meados de 1995, determinou que as preliminares terminam no momento em que o órgão de um dos parceiros é tocado.

Na verdade, o Consenso de Las Vegas determinou um monte de outras coisas, como a ordem em que as partes do corpo devem ser estimuladas, a duração destes estímulos, as variações aceitáveis dependendo do sexo e da orientação sexual de cada um dos parceiros, etc. Se é verdade que as determinações de Las Vegas fizeram um estrondoso sucesso nas redações de revistas femininas e masculinas por todo o Ocidente, se tornando a base de 99% dos artigos sobre sexo publicados desde então, a reação do resto do mundo não foi menos feroz.

Já em 97, um artigo coletivo de um grupo de sexólogos, antropólogos, anarquistas latino-americano denunciava o Consenso como “a base do neo-liberalismo sexual” e “uma bobagem sem tamanho”. Um ano depois, a nota final do Congresso Pan-Europeu de Sexologia criticava o Consenso sem meias palavras. “La merde réductionniste américain”, era o título da nota, cujo tom e vocabulário causou certo espanto na época.

A polêmica sobre a natureza real das preliminares se arrastou por toda primeira década deste século. Com o reducionismo empiricista do Consenso desacreditado, restou-nos tentar uma visão mais abrangente, menos presa a dogmas e a fenômenos diretamente mensuráveis, ainda que talvez menos precisa e mais genérica.

Quando começam as preliminares? Ora, talvez elas comecem no instante em que os parceiros decidem que vai ter sexo. Pode ser um olhar, pode ser um leve toque, pode ser um beijo. Mas também pode ser uma calcinha descendo, um vestido subindo, um zíper se abrindo urgente. Mas talvez elas comecem antes, um roçar de pernas sob a mesa, um dedo subindo distraído pelas costas, uma mordida despretensiosa na orelha. Numa mensagem de texto, num inbox de Facebook.

Quando elas terminam? É uma pergunta difícil. Claro, todo mundo concorda que quando ocorre uma penetração as já preliminares terminaram. Mas quando elas terminaram exatamente? O orgasmo não é parâmetro, pode acontecer a qualquer tempo. O toque em um órgão genital, como queriam os americanos, é um parâmetro insuficiente e claramente errado – a brincadeira pode ir e voltar dos ditos órgãos por um longo tempo. Pior ainda, dissemos ali que quando há penetração, as preliminares terminaram. Mas e se não houver penetração? Quem disse que sexo envolve necessariamente e sempre a penetração? Se alguém chupar o outro até os confins do êxtase, sem penetração, não é sexo? E se alguém se deixar amarrar e vendar e bater e quase morra de gozar no processo, não é sexo? E duas mulheres perdidas com as línguas no outro clitóris, estão fazendo o que, senão sexo?

Um pergunta de outra ordem talvez ajude. Qual a função das preliminares? Excitar-se, excitar o outro? Deixar paus duros e bucetas molhadas, prontos para a ação principal? Divertir os parceiros? Ver quem aguenta mais tempo sem gozar? Tudo isso junto?

As preliminares talvez terminem quando a atenção do jogo se foca decisivamente no orgasmo de um, de outro ou dos dois. A tensão já subiu até o limite (o limite, lembra?) e agora muda natureza da dança. Claro, isso não diz nada sobre duração. Pode durar os cinco ou dez segundos necessários para abrir o zíper e afastar a calcinha. Pode durar horas. Pode até ter por objetivo não deixar o outro gozar.

Mas ainda cabe aqui um epílogo mais antropofágico, por assim dizer. Uma outra forma de ver a natureza mesma do sexo, uma forma menos compartimentada, mais afastada das receitas fáceis das revista femininas. Porque para alguns de nós, parafrasendo Paul Veyne, as preliminares não são uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; elas não se explicam e não tem método; melhor ainda, as preliminares, das quais muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existem.

 Ah, claro, o telefone. Como não ia tocar…

– Oi de novo, Rê
– Paulo, meu filho, ninguém tem nem ideia de quem é Paul Veyne…
– Mas povo não lê mais “Como se faz a História” no primeiro ano da faculdade?
– Temo que não.
– Lá quando a gente fez faculdade acho que só os engenheiros escapavam. O quê eles leem agora?
– Vai saber. Acho que alguma apostila ou outra bobagem assim. Com certeza não leem historiadores franceses amigos do Foucault.
– Bem, Biscate também é cultura, quem sabe alguém se anima a ler…
– Você é que sabe…

Por que eu digo isso? Por que eu acho que posso dizer isso? Não estava claro para todo mundo que as preliminares tem função, começo e fim? Pois então. Estava claro que algumas pessoas querem que as preliminares tenham função, começo, meio e fim. Método, técnica e sentido. Se possível, que sejam mensuráveis e que se possa dar nota aos participantes. Mas e se não? E se todo o objetivo do jogo fosse jogar, sem ponto de partida ou porto de chegada?

 O caso aqui é por em dúvida alguns dogmas. O primeiro é a centralidade do orgasmo. Toda a visão de que existem preliminares se baseia na visão anterior, de que o auge e o fim do sexo é o orgasmo. Mas se você toma o orgasmo como passagem e não como ponto de chegada, você muda todo o paradigma. Porque aí você precisa questionar o outro dogma, do sexo como algo separado da vida e delimitado por momentos, ambientes e regras. Algo com método e técnica. Algo além de uma narrativa.

 Pense numa paisagem. Nessa paisagem existem lagos, rios, talvez um braço de mar por vezes calmo, por vezes bravio. Tem montes, montanhas, vulcões. Tem bosques, campos, florestas. Talvez tenha até geleiras e pântanos. E ligando cada acidente desses, caminhos: vias expressas, trilhas difíceis, caminhos batidos e caminhos perdidos, estradas de terra, de asfalto, de tijolos amarelos. Cada acidente um orgasmo, cada caminho um jeito de chegar lá. Mas os caminhos não começam nem terminam  nos acidentes, nem os acidentes estão lá para serem necesariamente alcançados. Por vezes os caminhantes querem apenas andar a esmo. Olhar de longe a montanha, contemplar as ondas quebrando.

Se vida e sexo são um só, a distinção entre preliminares e sexo em si perde qualquer razão de existir. Você até pode tentar manter a diferença, mas vai acabar com um conceito circular – as preliminares começam exatamente quando termina o “sexo”, atravessam aquilo que os manuais chamam de “pós-sexo” e vão terminar lá no próximo “sexo”. No fim, um conceito que não serve para nada. Porque o sexo existe, pode existir, o tempo todo. Qualquer gesto, qualquer olhar, qualquer toque, pode desencadear a escalada do vulcão, o banho no lago ou a corrida pelo campo florido. Basta uma mudança na direção do olhar. Basta encarar a vida como uma imersão contínua e eterna num oceano de sexo sem fim.

Claro, todo mundo precisa dormir, trabalhar, comer e ir ao supermercado. Mas quem disse que cada uma dessas atividades não são parte da vida e, portanto, da vida enquanto sexo?

Não estou sugerindo que você saia agarrando sua chefe, a caixa do supermercado, o garçom do quilo. Você até pode fazer isso, se eles quiserem e vocês combinarem de orientação, mas não é essa a ideia aqui. A ideia aqui é que qualquer momento pode e deve ser aproveitado para se mover na paisagem dos orgasmos – basta prestar atenção aos sinais que você manda e recebe. Basta encontrar outro alguém tenha ânimo para fazer da vida não uma sequência de orgasmos, mas um contínuo de sexo, que ocupa todo no tempo e desfaz as fronteira do espaço.

Porque dormir também é dormir juntos sem roupas, comer também é cozinhar e alimentar alguém, e não preciso nem dizer como isso pode ser sexual, trabalhar também é pensar continuamente em cenas explícitas enquanto a reunião se arrasta ali fora, imaginar mil jeitos de sair dali e ir andar até um acidente orgásmico ou simplesmente mandar uma flor, uma língua ou uma boca vermelha no whatsup.

E tudo retorna a uma nova caminhada em direção ao mesmo ou a outro, um novo encontro com o mesmo ou com outro, uma nova visita ao pântano, uma um novo passeio pela estrada dourada, um novo mergulho no vazio…

PauloCandido* Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

Teatro do Oprimido na Maré

Por Felipe LSM*, Biscate Convidado

Maré1

Domingo,  29 de março, aconteceu a primeira Mostra do Teatro do Oprimido na Maré.

A apresentação, divulgada como ensaio aberto, envolvia três grupos de  jovens, cada um trazendo conflitos do dia-a-dia problematizados em forma de peça:  A garota que queria jogar futebol e o pai não deixava, o garoto que queria fazer teatro e não trabalhar na oficina, o pai que abandonava a família e voltava como se nada houvesse acontecido… Algumas das histórias passavam mesmo a impressão de clichês.

Até você se dar conta de que eram cenas baseadas nas experiências e vivências das pessoas ali. Até você se dar conta de que os clichês vêm de algum lugar. O que torna a cena mais pesada da mostra – uma situação em que o pai abusa sexualmente da filha, que não consegue contar para os amigos e não recebe apoio da mãe – ainda mais assustadora.

E aí você pensa um pouco mais e percebe que quase todos os problemas apresentados se reduzem a um: machismo. Só consigo pensar em uma história dentro da apresentação (que envolvia um garoto discriminado no trabalho por morar na Maré) cujo problema não estava ligado a machismo e papéis de gênero.

Em TODAS as peças, se encontrava uma família na seguinte estrutura:

O Pai: sempre o chefe da família e tomador decisões. O Pai fazia o papel de antagonista e opressor.

A Mãe parecia estar sempre resignada à sua condição de oprimida e, apesar de em geral concordar com a filha, dificilmente tinha forças ou vontade para se opor ao Pai. Mesmo trabalhando fora, recaíam sobre a mãe todas as tarefas da casa, e a cena típica (que apareceu várias vezes) mostrava a mãe fazendo o jantar e servindo o marido, que além de não ajudar, só reclamava).

A Filha: geralmente o centro do problema em questão, A Filha era a oprimida que de fato tentava lutar contra a opressão do Pai. Às vezes recebia o apoio da Mãe, mas nunca de forma muito enfática. Em uma das histórias, havia um filho nesse papel, com uma questão que envolvia fazer uma atividade que não era “de macho” (teatro), com a qual o pai (claro) não concordava.

Algumas das famílias incluíam uma irmã, um irmão, uma tia, mas – independente de estarem ou não no papel de oprimido – esses personagens não pareciam interessados em questionar o patriarcado.

Analisando esses arquétipos das personagens, talvez seja interessante lembrar que as peças foram concebidas por grupos de teatro jovens, e retratam vivências do seu cotidiano.

Como acontece tradicionalmente no teatro do oprimido, as situações nunca chegavam a uma resolução e, ao final de cada apresentação, as pessoas da plateia eram encorajadas a tomar o lugar de uma das personagens numa cena e buscar resolver o conflito apresentado. Havia alguma variação nas soluções: umas mais sérias e argumentativas, outras mais engraçadas e impulsivas. Dependendo da cena, das abordagens e dos atores participando do improviso, algumas funcionavam melhor do que outras. Na primeira intervenção, um garoto assumiu o lugar da mãe e expulsou o pai ausente de casa sob ovação da plateia. Aliás, em todas as cenas, havia meninos fazendo papel de meninas, meninas fazendo papel de meninos.

Maré2

Mas, no final de tudo, sempre vinha o “curinga” (como são chamados os animadores que fazem a intermediação com a plateia), lembrando que aquilo tudo era reflexo de um mundo real. Que aquelas personagens eram pessoas, e as histórias, vidas. E de repente nenhuma resposta parecia boa o suficiente. E de repente você se via perguntando, de novo e de novo: o que fazer?

FelipeLSM

*Felipe LSM assina assim porque não quis escolher um sobrenome. Gosta de criar laços e entender pessoas, odeia impotência, morre de medo da solidão e tem conflitos com essa coisa de paixão.

BDSM de 50 tons é uma (perturbadora) invenção baunilha

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

 #nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Divina, Biscate Convidada

Se uma protagonista feminista estereotipada surgisse no cinema, muita gente ia comprar a ideia. De antemão, é palatável aceitar o que dizem as más línguas sobre o Outro. Esse texto é destinado a  quem ficou atormentado com o filme e gostaria de saber na opinião de quem vivencia: É mesmo verdade que o pessoal do BDSM se comporta daquele jeito? As pessoas fazem aquelas coisas? Atenção, se não quiser saber detalhes do enredo, não prossiga a leitura.

untitled

Anastasia Steele é uma estudante de literatura com visual ladylike, curiosa e declaradamente romântica (além de virgem), dirige um fusca e tem o hábito de morder os lábios. Christian Gray é um homem muito rico, com “gostos peculiares”, experiente sexualmente, órfão de uma mãe viciada em crack, abusado sexualmente quando mais jovem. Ao se conhecerem, Anastasia se sente intimidada pela figura de Christian, a jovem expressa muitos indícios de desconforto dada a coação nas coisas mais simples: “Coma isso, não beba aquilo”. Em determinada ocasião, bêbada numa danceteria, telefona e solta meia dúzia de verdades. Ao invés do Dominador sexualmente experiente aceitar que a moça semi-desconhecida não gosta da abordagem, o que ele faz? Vai procurar o que fazer já que é um ocupado homem de negócios? Não. Ele aparece no clube e a leva para a casa dele (sem perguntar se queria). Ao acordar na casa de Christian com uma camisa masculina, descobre que ele a trocou porque estava suja de vômito e de acordo com o sujeito, não aconteceu nada sexual entre eles. Esse é o princípio das incongruências do personagem, supostamente tão versado no BDSM mas completamente desestabilizado por uma mulher baunilha (baunilha = alguém que gosta de sexo dito convencional, sem conteúdo BDSM) e iniciante.

Se um homem te proíbe de ver amigos e família sem estar na presença dele, ou liga para saber com quem está e o que está fazendo, ele não é um Dominador no BDSM, na verdade, ele não passa de um homem inseguro, controlador e de postura abusiva. Se um homem se desfaz das suas coisas sem te perguntar, isso é violência patrimonial. Se um homem não deixa você transitar em nenhum espaço sem aparecer sorrateiramente (até na sua casa!), controlando o que você bebe e come, ele não está cuidando da sua saúde porque te ama,  está controlando o seu corpo porque assume que você é posse dele.  Se um homem não te deixa sair de casa  “nesse castelo que construiu para te guardar de todo mal”, ele não está te preservando, ele quer que viva somente em função dele sem projetos pessoais ou interação social. Se um parceiro proíbe e restringe seu contato com o mundo exterior ele está te fazendo prisioneira, no máximo concedendo uma liberdade assistida aqui e ali. Romantizar o cárcere emocional, financeiro e psicológico de mulheres é preocupante. Não interessa a justificativa dada por ele, você não precisa ser refém da insegurança alheia, nem tem a obrigação “salvar” um homem controlador. Essa é uma tendência romântica alarmante: Mulheres são ensinadas a aceitar o ciúmes e a possessão de seus parceiros, porque se sentem mães deles (sequer mães, tem a obrigação perpétua de responder pelos atos dos filhos). Mulheres não precisam ser as responsáveis por marmanjos capazes de limpar a própria bunda.

Entre os muitos abusos de Christian Gray, está coagir uma moça completamente alheia ao BDSM em embarcar nas preferências sexuais que não a contemplam. A negociação dos termos BDSM varia de pessoa para pessoa, há mesmo quem elabore contratos, outros preferem estabelecer os parâmetros verbalmente. Isso pode parecer um tanto estranho, mas se as pessoas conseguem pensar pragmaticamente ao casar com quem fica com a residência, o carro, a guarda das crianças e o cachorro, porque não fazer isso em uma união sexual? Não é uma obrigação, apenas um dos modos de operar em um acordo BDSM. Estranho um Dominador experiente como Christian, aparecer de contrato pronto com termos técnicos e pressionar tão insistentemente para que Anastasia o assine. A jovem é completamente baunilha, inexperiente sexualmente, seria no mínimo indelicado abordar qualquer pessoa virgem e sugerir um punho enfiado no cu, quem dirá impor a assinatura de um termo para alguém cuja expectativa de estreitamento afetivo, envolve chocolate e cinema sendo que a outra parte aspira açoitá-la. Como um Dom experiente não é seguro o bastante para ouvir um “Não”?  Como não tem auto-controle o bastante para se abalar com as perguntas (legítimas) de uma moça baunilha? Como proíbe o toque se a moça ainda nem assinou o contrato? Anastasia Steele não é a submissa de Christian Gray, em nenhum momento do primeiro filme ela assina o contrato. Como o tal Dominador experiente nega quando bem entende o uso do acordo, mas exige que a parte da submissa seja completamente cumprida se ela sequer assinou? Como não respeita o tempo e os limites de quem se envolve? Como antes da concordância da parte envolvida já parte para um flogger? Como um Dominador experiente não sabe lidar com uma simples virada de olho sem reagir punitivamente?

Esse filme poderia perfeitamente ser realizado nos anos noventa, nessa época filmes sobre relacionamentos abusivos ganharam destaque, por exemplo, “Dormindo com o Inimigo” e o reprisado muitas vezes na tv, “Medo”. A diferença é que em 50 tons de cinza a violência contra a mulher foi romantizada numa roupagem distorcida de BDSM. O BDSM é estruturado na tríade São, Seguro e Consensual. Assim, as pessoas envolvidas tem de ser adultas com discernimento suficiente para distinguir a encenação BDSM e a violência não consentida. E isso, em sobriedade. Perdi as contas das cenas do personagem bebendo, até mesmo oferecendo uma taça antes dela assinar o contrato. Se na sua cabeça não faz sentido se excitar com BDSM, não force, não é para você. Não há problema nenhum ser baunilha, você não é uma pessoa desinteressante ou menos liberta por gostar de sexo convencional.  Ao que parece, as cenas de 50 tons, envolvem camisinhas e aparatos novos (pela possibilidade de pequenos cortes e sangramentos, o instrumento deve ser de uso exclusivo e devidamente higienizado). Espantosamente, as práticas não foram consensuais, uma vez que o contrato não foi assinado e a moça não teve a segurança do que aconteceria entre eles. Um preceito básico do BDSM menosprezado no filme, é o aftercare, o cuidado após a sessão. Que tipo de dominador experiente não sabe fazer um aftercare, ainda mais com uma iniciante? Enquanto Domme, sei quais palavras excitam meu submisso e quais não devo usar por serem gatilho de experiências traumáticas. Além dessa consideração, tenho de estar atenta aos sinais do corpo para que não fira a integridade física e psicológica, no entanto, pode ser que um dia ele não esteja bem ou mesmo sem esperar, demande parar uma sessão. BDSM é um jogo de mútua atribuição, não apenas a figura dominante tem de ter auto-controle e saber se é hora de interromper, a parte submissa tem de conhecer os próprios sinais e indicar ao dominante que a sessão precisa de uma pausa (dominante não tem bola de cristal).

Anastasia sentiu prazer em um bondage brando, o uso de uma gravata para tornar uma coisa interessante aqui e ali. Ela não se sentiu bem com as cintadas no final. Por mais que uma pessoa baunilha tenha curiosidade em experimentar o BDSM, um dominador não pode ceder aos apelos de quem jura de pé junto que aquenta, ao mesmo passo que oferece todos os sinais de despreparo. Um dominador experiente sabe que até conhecer os limites de alguém, é preciso pegar muito, muito leve. Por mais que se implore, por mais que alguém diga ser corajoso, não se dá um mix de pimenta com quem reclama da ardência de agrião.

Christian Gray não faz Anastasia se sentir segura como um Dominador faria. Ele a deixa perdida e proíbe a moça até de declarar seu amor. Ele termina uma sessão e ao invés de cuidar, a abandona em um quarto sozinha. A proíbe de contar para qualquer pessoa sobre o que estão prestes a concretizar. Sabe-se que praticantes de BDSM criam pseudônimos para lidar com o preconceito, uma vez que a credibilidade profissional e até mesmo moral é posta em questão ao serem descobertos. Como um casal (ou uma casa, quando há um pequeno grupo), lidará com a relação do público e privado das identidades, é acordo mútuo. Assim como muitas pessoas vivem no armário por não serem hétero,  praticantes de BDSM tem de chegar em consenso com seus parceiros sobre quem será capaz de não os jogar no ostracismo, se assumirem a prática não baunilha. Em 50 tons de cinza, o clichê do relacionamento abusivo como sinônimo do amor possessivo e monogâmico, uniu-se ao que os baunilhas pensam ser práticas BDSM. É como um homem hétero com pouca experiência sexual descrevendo sexo lésbico. Passar gelo no corpo é tão baunilha quanto cobri-se de chantilly e morangos. Até as reações são cinematográficas demais, ao variar o lugar da estimulação por exemplo, o corpo dela (inexperiente) não se antecede em nenhum momento, não hesita, não tem contrações involuntárias. A única marca visível durante o filme é um erro de edição, antecede o primeiro contato da bunda com um chicote de hipismo (riding crop). Christian afirma que uma das vantagens em ser submisso é abrir mão do controle, não ter obrigações e responsabilidades, como afirmei algumas linhas acima, o submisso também tem responsabilidade e auto-controle durante a sessão. Se você ficou curiosa para saber mais sobre o BDSM e deseja experimentar, leia bastante sobre o assunto, procure referências da pessoa no meio fetichista, faça todas as perguntas, todas mesmo. Você não precisa forçar nenhum comportamento para se moldar ao gosto alheio. Você não precisa chamar fulano que nem conhece de “Senhor” porque ele te diz que é Mestre há não sei quantos anos. Se você tem vontade apenas de ser amarrada mas não de ser amordaçada, se você tem vontade de ser chamada de determinados nomes mas não de outros, se você quer experimentar uma dinâmica de dominação mas sem dor, cada um desses limites deve ser respeitado. É você que definirá se e como o BDSM será condizente com seu desejo, é o seu tempo, é o seu espaço, é o seu gozo. Para ser Domme não é preciso ser carrancuda, para ser submissa não precisa ser introvertida. BDSM é indissociável do livre-arbítrio nos dois lados do chicote.

 

AVATAR* Divina é uma biscate oblíqua e dissimulada, conversa sobre feminismo com as fetichistas e de fetiche com as feministas. É Domme,  sadista e aprecia homens amordaçados.

Chuá de saudades, Inezita

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher
inezita

Uma mulher não precisa ser feminista de carteirinha ou sem carteirinha para ser uma grande mulher. Basta ser apenas uma grande mulher. E no dia 8 de março, o dia em que se comemora e tal o tal dia, perdemos uma grande mulher, uma das maiores brasileiras que tivemos: Inezita Barroso.

E este post curtinho é só uma homenagem minha a ela, e uma homenagem indireta a outar grande mulher: minha mãe, Teresa, que me ensinou a gostar de música, de arte, de cultura e em especial de cultura brasileira. Me ensinou a amar o Brasil.

Ë engraçado como as músicas que embalam a nossa infância nunca são esquecidas, posso cantar as modas de viola todas de cor até hoje e elas me soam mais doces e mais lindas que todas as outras músicas que conheço.

Inezita era mais que a grande dama da música caipira, era uma grande dama da cultura de raiz brasileira. Apresentou por 35 anos o “Viola Minha Viola”  na TV Cultura aos domingos, som que sempre embalou a casa dos meus pais e dos meus avós. Além de cantora ela foi instrumentista, arranjadora, folclorista e professora.  E como toda mulher forte e admirável, a moça de família tradicional, Ignez Magdalena Aranha de Lima, teve de brigar e desgostar a família para seguir carreira artística, tendo se formado primeiramente em Biblioteconomia, na USp. Pelo seu trabalho como folclorista, e por ser uma enciclopédia viva da música caipira e do folclore nacional, recebeu o título de doutora Honoris Causa em Folclore pela Universidade de Lisboa.

Mas o certo é que, durante esses 35 anos, Inezita manteve acesa  a chama da cultura popular caipira brasileira. Uma grande mulher que fará muita falta em nosso cenário cultural e humano, pois era queridíssima de todos que a conheceram.  Em nome de tantas mulheres que fazem muito pelo país e jamais levantam a bandeira feminista é também o dia 8 de março, pois a luta às vezes também é feita de pequenos atos, como seguir em frente pela carreira que se ama, pela cultura que se ama. Esse post é também uma homenagem a tanta mulheres que sacolejam em ônibus lotados pelo pão nosso de cada dia. Talvez elas escutem pérolas do nosso cancioneiro popular nas poucas horas de folga e cantem sem saber que quem manteve vivas essas músicas foi Inezita. Tomara que novas Inezitas surjam dessa músicas que a gente canta.

 

Pequena Lista de Desejos e Um Grande Livro

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Adrianne Ogeda, Biscate Convidada 

Nigerian born, Chimamander Ngozi Adichie, author of the novel Purple Hibiscus.

Costumava fazer listas com os desejos e as fiz para muitos e muitos dos anos que já se foram. Nas listas, tem desde as coisas mais banais e triviais (cuidar da saúde, fazer atividades físicas e essas coisas) as mais subjetivas (focar nisso ou naquilo). Não tenho mais feito listas. Ou melhor, ainda as faço, mas são curtas. Singelas. Talvez porque nos últimos anos o meu desafio tenha sido lidar com aquilo que foge as listas, as previsões, ao controle. Aceitar mais o fluxo da própria vida. Imprevisível, surpreendente, dinâmico.  Da curta lista de desejos para 2015 um em especial: trazer a literatura para mais pertinho, bem pertinho. De tão bem me faz. De tão alargada que ficam as coisas quando novas formas de olhar surgem a cada livro que se abre. E quando o encontro é bom… ô, aí é demais.

Foi assim com “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie. Essa jovem escritora nigeriana já tinha me tocado fundo com sua palestra para o TED em 2009, “O perigo da história única”, quando dizia tão bem dito o quanto enclausuramos pessoas e culturas ao conhecer apenas uma faceta de suas expressões em estereótipos que limitam a possibilidade de ver mais amplo. Com olhar mais aberto.

Seu livro trata disso. Trata das roupas que nos vestem sem que tenhamos a chance de ser mais do que aquilo que dizem que somos. E da dureza que é viver com essas roupas, apertadas que são. Em seu livro, essa questão está ali. Pulsando. Os personagens denunciam os lugares consagrados a que estão destinados. Ser negro, ser negro americano, ser negro nigeriano. Ser visto como negro e se ver como negro aos olhos de outros. Os desafios de jovens imigrantes africanos nos EUA e em Londres são o mote e uma deliciosa história de amor costura encontros, desencontros, reflexões. Personagens com nomes africanos dão um sabor especial ao romance, todo entrecruzado com o panorama cultural e político da África e dos países para os quais os personagens imigram.

Hoje acabei o livro. Li daquele jeito que livro bom é lido. Levando na bolsa para tudo que é canto, gostando até de fila de banco.  E já estou com saudades de Ifemelu, Obinze, Uju e tantos outros com os quais convivi esses dias. Meus amigos.

Sua palestra sobre feminismo, “Todos nós deveríamos ser feministas” também fala dessa mesma e mesmíssima história: as marcas da cultura em cada um de nós. Mas também do tanto que a gente é que a faz, e que por isso pode fazer diferente. Melhor. Mais bonito.

As palestras abaixo dão uma ideia da mulher forte, articulada, bonita e sensível que Chimamanda é. Leitura das boas.

https://www.youtube.com/watch…

https://www.youtube.com/watch…

Adrianne* Adrianne Ogeda é pessoa sensível, sem qualquer fragilidade. Muita força. A luz brilha nos seus olhos, vinda de dentro dela e das marcas que deixa fora. Sua busca pelas ideias no que lê não é só a fonte dos saberes e vivências que semeou e ainda semeia dentro de muitas pequenas almas: é também e principalmente o resultado da sua paixão visceral pelas boas histórias e do desejo sincero e genuíno de propagar vida e conhecimento.

 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...