Pequena Lista de Desejos e Um Grande Livro

Essa quinzena, lembramos o dia internacional da mulher do nosso jeitinho biscate: luta, celebração e inquietação, tudo junto, arfante e misturado…

#nãomedeemflores #diainternacionaldamulher

Por Adrianne Ogeda, Biscate Convidada 

Nigerian born, Chimamander Ngozi Adichie, author of the novel Purple Hibiscus.

Costumava fazer listas com os desejos e as fiz para muitos e muitos dos anos que já se foram. Nas listas, tem desde as coisas mais banais e triviais (cuidar da saúde, fazer atividades físicas e essas coisas) as mais subjetivas (focar nisso ou naquilo). Não tenho mais feito listas. Ou melhor, ainda as faço, mas são curtas. Singelas. Talvez porque nos últimos anos o meu desafio tenha sido lidar com aquilo que foge as listas, as previsões, ao controle. Aceitar mais o fluxo da própria vida. Imprevisível, surpreendente, dinâmico.  Da curta lista de desejos para 2015 um em especial: trazer a literatura para mais pertinho, bem pertinho. De tão bem me faz. De tão alargada que ficam as coisas quando novas formas de olhar surgem a cada livro que se abre. E quando o encontro é bom… ô, aí é demais.

Foi assim com “Americanah” de Chimamanda Ngozi Adichie. Essa jovem escritora nigeriana já tinha me tocado fundo com sua palestra para o TED em 2009, “O perigo da história única”, quando dizia tão bem dito o quanto enclausuramos pessoas e culturas ao conhecer apenas uma faceta de suas expressões em estereótipos que limitam a possibilidade de ver mais amplo. Com olhar mais aberto.

Seu livro trata disso. Trata das roupas que nos vestem sem que tenhamos a chance de ser mais do que aquilo que dizem que somos. E da dureza que é viver com essas roupas, apertadas que são. Em seu livro, essa questão está ali. Pulsando. Os personagens denunciam os lugares consagrados a que estão destinados. Ser negro, ser negro americano, ser negro nigeriano. Ser visto como negro e se ver como negro aos olhos de outros. Os desafios de jovens imigrantes africanos nos EUA e em Londres são o mote e uma deliciosa história de amor costura encontros, desencontros, reflexões. Personagens com nomes africanos dão um sabor especial ao romance, todo entrecruzado com o panorama cultural e político da África e dos países para os quais os personagens imigram.

Hoje acabei o livro. Li daquele jeito que livro bom é lido. Levando na bolsa para tudo que é canto, gostando até de fila de banco.  E já estou com saudades de Ifemelu, Obinze, Uju e tantos outros com os quais convivi esses dias. Meus amigos.

Sua palestra sobre feminismo, “Todos nós deveríamos ser feministas” também fala dessa mesma e mesmíssima história: as marcas da cultura em cada um de nós. Mas também do tanto que a gente é que a faz, e que por isso pode fazer diferente. Melhor. Mais bonito.

As palestras abaixo dão uma ideia da mulher forte, articulada, bonita e sensível que Chimamanda é. Leitura das boas.

https://www.youtube.com/watch…

https://www.youtube.com/watch…

Adrianne* Adrianne Ogeda é pessoa sensível, sem qualquer fragilidade. Muita força. A luz brilha nos seus olhos, vinda de dentro dela e das marcas que deixa fora. Sua busca pelas ideias no que lê não é só a fonte dos saberes e vivências que semeou e ainda semeia dentro de muitas pequenas almas: é também e principalmente o resultado da sua paixão visceral pelas boas histórias e do desejo sincero e genuíno de propagar vida e conhecimento.

 

Música de molhar a calcinha

Ensaio "Beleza Real". Foto de Bárbara Heckler.

Ensaio “Beleza Real”. Foto de Bárbara Heckler.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

E nessa polêmica toda de “50 Tons de Cinza” estava era me lembrando que os livros têm trilha sonora. Se não me engano, fãs compilaram tudo, numa seleção clichê que inclui até “I’m on fire”, do Bruce Springsteen. Claro!

Mas, ó, nem critico, não. Provavelmente, é a menor das questões da trilogia. Sem falar que, né, este texto aqui também está beeem provido de lugar-comum. Inclusive, minha dúvida no momento é: tem como música de molhar a calcinha fugir tanto assim do obvio? Mesmo que você me apresente aquela canção delicinha de uma banda indie norueguesa, pode mesmo ser melhor que “Lets get it on”?

Ouquei. Admito que estou falando de trilha sonora de motel, que já provoca formigamentos pelas obvias ilações que sugere. Bota aí as de Sade, Nina Simone, Marvin Gaye, Al Jarreau, Billy Paul, que molho a calcinha com todas as versões algo meio cafonas de “Your song“. E seguindo o fluxo, há quem molhe com Astor Piazzolla e Gerry Mulligan e outros com Bryan Ferry, por quê, não?

E há quem alucine com “Besame Mucho“. Adoro demais “Samba para ti“, do Santana, mas, piro mesmo é com “Fogueira“, de Rô Rô. E o que dizer de “Tatuagem“, especificamente com Elis? Ou “Ne me quitte pas“, com Maysa, que é de fossa, mas pra mim de sexo?

Cartas de amor são ridículas. Será o tesão igual?

Eu tinha muito siricutico sublimado quando dançava música lenta nos bailinhos da turma do colégio. E aquele negócio de o menino passar a mão nas costas, a dança inteira, só no alise, e a gente ir se chegando, esbarrando os quadris e a parte de baixo de quando em quando?

E quando a dança deixava de ser dança e virava mesmo um abraço e uma carícia entre o cabelo e o pescoço, ainda mais com salão escuro, segundos antes do beijo, que nem sempre vinha, as vezes era só o sarrinho acanhando e um cheiro no cangote? E era bom. Bom mesmo.

Duvidar, sou capaz de sorrir safada até hoje se ouvir “We’ve got tonight“, que fez parte da trilha sonora da novela mais bafo do meu comecinho de adolescência. E a vozinha atrevida que soltava aos 11, 12 anos, quando cantarolava, me fazendo de distraída, sussurrando no ouvido do coleguinha “wo-ho, let me see…”, que só anos mais tarde descobri que era mesmo “from all that we see”?

Porque, né. A gente entende o que dá conta de entender. E fala o que convém na ocasião, fazendo o maior virundum malicioso dentro daquela ingenuidade toda. Eu nem sabia direito o que queria “see”, mas o “let me” saia assim, com sorrisinho nervoso de canto de boca, num pedido espertinho escondido no verso equivocado da música. Sim, amigues, sou das antigas. Já molhava a calcinha antes mesmo de vocês terem nascido.

Enfim, a maioria disso tem um cenário, uma lembrança, uma pessoa no meio ou várias. Mas, também tem aquela música que a gente se arrepia só de ouvir, do nada, não porque lembre alguém ou alguma situação, mas pela canção em si. Não tem?

Tem uma que me enlouquece, pela música mesmo, por essa interpretação maravilhosa. Tesão absoluto. Nem tenho memória específica de nada com ela, de primeiro namorado ou transa épica. É que acho a música fodástica (ui!) de verdade. Bom, se bem que tem esses dois juntos, lindos, tesudos, cúmplices, se querendo. É. Tem isso.

Como não gosto de complicar e posso ser bem evidente nas historias, e esse texto aqui é sobre obviedades, afinal de contas, minha melhor música de molhar a calcinha é esta! A de sempre. A de muitxs. Porque nessa vida, minha gente, tudo o que é gostoso começa mesmo é com Chico Buarque de Hollanda.

Segura essa, Christian Grey!

Poesia que transborda no corpo

Por Martha Lopes*, Biscate Convidada

livromarthaQuando eu tinha uns 13, 14 anos escrevia poesia, assim, compulsivamente. Escrevia principalmente para expurgar as paixões que me aconteciam e tudo aquilo que eu não conseguia entender. O tempo passou, eu virei jornalista e o impulso para escrever ficção, prosa e poesia foi ficando de lado. Foi só em um momento difícil, de profundo sufocamento, que resgatei esse jeito de transbordar.

O resultado são os 28 poemas reunidos no meu primeiro livro, “Em Carne Viva”, pela Kayá Editora, especializada em publicar literatura produzida por mulheres e livros que abordem questões de gênero e feminismo. São poemas que falam sobre fatias diferentes da vida: o trabalho, o amor, o tesão, a maternidade, o cotidiano. Mas, quando olho para todos eles, percebo algo que os une: o corpo. É ainda para essa superfície, para esse espaço das sensações, que levo tudo do que não é possível falar.

*******

Que coisa louca

eu desejar você

assim

como Lilith montada sobre Adão

e agarrar-te pelos cabelos

buscar a tua boca

no meio desse mar de gente

buscar só a tua boca

louca, louca

te amar nesse recôncavo

e saborear todos os licores

guardados no seu reconvexo.

********

Noturna

ontem em sonho te vi

com os cabelos soltos

quase escondiam seu rosto

seu tão perfeito rosto

então ávida,

eclipse

com sede de você

– e sabendo da sua sede de mim –

afastei seus cabelos

encontrasse com a minha

e deixei que a sua boca

que a sua boca

se colasse com a minha

e que a gente vivesse um amor

profundo e desejoso

um amor perfeito

como são os amores feitos em sonho

que fazem a gente acordar molhada

no dia seguinte

mas principalmente morta de

vergonha

depois quando encontra a pessoa

em carne e tesão tão concretos.

eu_perfil copy (1)*Martha Lopes nasceu em São Paulo, capital, em 1984. Formou-se em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, na mesma cidade, em 2006. Escreve poesia e prosa desde a adolescência. É uma das diretoras da ONG feminista Casa de Lua e idealizadora do #kdmulheres, movimento que questiona a pouca visibilidade feminina no mundo da literatura e das artes em geral.

 

O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

askhermore

Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

Ano de Ogum

 

ogum1

To aqui sentando chorando por um monte de coisas misturadas. O bestial atentado ao Charles Hebdo, o inédito editorial conjunto de 6 jornais europeus que acabo de ler e uma amizade, que já era longínqua, mas pela qual eu nutria carinho, que acabou.

É…2015 começou quente, e triste,  na vida mundial e pessoal.

De acordo com uma consulta informal biscate aos orixás, OGUM vai  dominar o ano de 2015 e ele não liga para a opinião dos outros, gosta de atravessar fronteiras; isso vai fazer muitas pessoas gostarem de viajar e fazer coisas diferentes e o melhor, no sexo é sem preconceitos, gostas de coisas diferentes, de fetiches!!!! (Oba, fetiches! Trabalhamos!)

Mas também tem o lado ruim de Ogum, deus da guerra, e é que este ano junto Marte estará reinando junto com ele. Há previsões de mortes terríveis,  guerras  a serem declaradas e  as pessoas vão ser mais intolerantes com os outros (ainda mais intolerantes? )

Mas a cigana leu o meu destino e eu sonhei que nem tudo está escrito, então façamos amor, não façamos a guerra. SE for pra fazer a guerra a gente faz a guerra biscate de sempre, contra o preconceito, a caretice e os limites. E a favor da risada e do sexo. Sempre. Um ano de Marte, um ano de luta, mas um ano de luta por um mundo melhor e mais justo. Lutemos sempre a boa luta. Axé.

charlieb

(muito axé para todos os jornalistas, cartunistas, franceses e muçulmanos. Paz E Amor para todos)

Muchacha en la ventana: un culo. Una inspiración

muchacha1

Tenho uma reprodução bastante digna desse quadro em casa. Tão boa que a emolduramos de um jeito lindo, dando a chiqueza que ela merece. Quem olha de longe (e não conhece a origem, obviamente) pensa até que é original. Rá!

“Muchacha en la ventana” (ou “Figura en una finestra” ou “Figura en una ventana”) é uma famosa pintura de Salvador Dalí, de 1925, e retrata Anna María, sua irmã e principal modelo por anos (até que ele conhecesse Gala, sua mulher e musa até a morte).

Eu gosto muito mesmo desse quadro (aí pelo texto botei uns links para algumas rápidas e boas análises artísticas da pintura). Mas, passei a ter um xodó maior ainda quando, uns 2 anos atrás, Lucas, meu filho caçula, afirmou, perguntando:

– Mamãe, é você?!

Na verdade, outras pessoas já me tinham dito isso antes e outras disseram depois: que acreditavam que a retratada fosse eu. Mas, vindo dele, me fez dar mais atenção.

Preciso nem dizer que fico mega envaidecida, ne? “Quem me dera” é o que costumo responder pra quem ainda faz esse comentário. Principalmente depois do comentário do Lucas, acabei indo atrás pra ver se encontrava mais informações sobre a modelo de “Muchacha en la ventana” e qual não foi meu prazer ao descobrir em Anna María uma mulher realmente interessantíssima, interlocutora sagaz e inteligente, de despertar paixões.

Em minhas andanças rápidas pelo Google, encontrei este post, que achei pura delícia, no qual o autor comenta o seguinte sobre “Muchacha en la ventana”:

“El culo es la parte más daliniana del cuerpo. Y este es el mejor culo pintado por Dalí, el de su hermana, en una mezcla misteriosa de belleza comestible y voluptuosidad incestuosa.”

E vai mais além, porque não foi apenas o irmão que Anna María teria encantado. Em umas férias, ela teria conhecido o poeta García Lorca e a partir daí iniciado uma intensa troca de cartas com ele:

“El epistolario Lorca-Ana María es de una ternura deliciosa, con arrebatos atormentados de Lorca. ¿Hubo algo entre ellos? Yo apuesto a que sí. La admiración de Salvador por su hermana sólo fue superada por la del poeta granadino, que la tuvo como diosa de una nueva religión y musa de sus desvelos artísticos.”

Quando ela morreu, em 1989, o jornal “El País” publicou:

“Anna María compartió desde la infancia el universo de su hermano. Entendía sus gestos y excentricidades, e interpretaba su fantasía y tomaba parte en las bromas y juegos, a veces impenetrables, de Salvador. Fue compañera ideal, por su inteligencia aguda y penetrante, y su carácter alegre y divertido. Cuando la conoció Federico García Lorca, en la primavera de 1925, aquella camaradería fue una realidad insólita. En tiempos en que la mujer permanecía, social y culturalmente, marginada del mundo de los hombres, Anna María formaba parte del grupo de amigos y compañeros de su hermano. Fue atentísima testigo de la obra de Salvador y su más asidua modelo de la etapa plástica esencial del pintor de los años diez.”

Pode até parecer que ela ficava ali, orbitando ao redor de gênios, no único espaço que lhe era concedido e que, num primeiro olhar, não era o de protagonista. Mas, considerando o contexto da época e a intensidade de sentimentos e inspirações que essa mulher parece ter provocado, só consigo vê-la absolutamente fascinante – senhora de situações, com esse espírito biscate, moleque, de raiz, que a gente adora! E, finalmente, sendo eternizada por quadros como “Muchacha en la ventana”.

A pintura original está exposta no museu “La Reina Sofía”, em Madri.

PS: Se alguém quiser complementar esse texto, dando mais informações, vou adorar!

Corpo Magro e Saúde. Saúde?

Por Mariana Vedder, Biscate Convidada

Essa semana, no programa Bem Estar, que passa de manhã na Globo, um especialista convidado falava sobre dieta e as festas de fim de ano. Segundo ele, “estudos apontam que a maior causa de ganho de peso ao longo da vida são as festas de fim de ano”, porque a pessoa engorda 3kg em dezembro, depois ao longo do ano ela emagrece só 2kg e, depois de 5 anos ela já engordou 5kg só com esse quilinho a mais que ela ganhou em dezembro. Zero novidade, né? É TV deixando a galera “neurótica” com peso até nas festas de fim de ano. Só que a gente sempre encara essas “dicas” como conselhos pra melhorar a saúde, a forma física etc. Mas aí logo depois de falar dos PERIGOS de engordar, no intervalo do programa, rola uma propaganda de shake de emagrecimento da Herbalife, além de vários outros produtos light e diet que “auxiliam” nas dietas.

Eu não consigo enxergar isso como coincidência. Há quem diga que essa campanha da mídia “pró emagrecimento” é pela saúde do brasileiro. Mas pra mim isso é sobre o lucro mesmo. É o mesmo capitalismo que incentiva durante horas e horas do dia que a gente coma bastante hambúrguer, sorvete, bolacha e tudo mais, dando um jeitinho de lucrar com os supostos resultados disso. Falo supostos porque há inúmeros estudos que mostram que nem sempre a alimentação determina o formato dos corpos dos indivíduos, e em alguns casos também não determina a saúde. Só sendo muito inocente pra achar que a quase exigência da mídia pelo emagrecimento não tem foco no lucro. A indústria do emagrecimento é uma das que mais cresceram recentemente, como alguns números nessa matéria aqui indicam.

Esse lucro vem de uma estratégia eficaz: baseada no discurso da saúde, não no da estética, a indústria te convence de que você precisa emagrecer uns quilinhos ou quilões, mesmo que você esteja com a saúde perfeita. Os argumentos relacionados à estética são hipocritamente menos valorizados, mas também são utilizados – “veja como fulana ficou mais bonita após perder 12kg”. Digo hipocritamente porque as propagandas exibem corpos magérrimos e que não existem (porque são moldados via photoshop) como ideais de “saúde”. Mas não se pode identificar a saúde dos corpos olhando pelo seu formato. Quando discuto sobre isso no twitter, sempre alguém diz “minha mãe é pele e osso e tem um colesterol altíssimo, e também é cardíaca”. Pois é. Meu irmão sempre foi magro e é o único dos três filhos que tem problemas com colesterol. Eu sou gorda e minha saúde tem estado OK, mesmo com o hipotireodismo que descobri em 2008. Tem aqui uma entrevista razoável sobre o tema.

Então, se o objetivo é exibir o ideal de corpo saudável, por que nas capas constam corpos que não existem, esculpidos em photoshop? Por que não mostrar os corpos “reais” com saúde – em tese – perfeita? É preciso desmascarar esse discurso porque as crianças estão crescendo em um mundo que opera precisamente através dessa lógica nociva para o desenvolvimento psicológico de qualquer pessoa. E é óbvio que não preciso dizer que as que mais sofrem são as meninas. Será que vale à pena, portanto, arriscar a saúde mental das meninas pra alimentar um grande capital em desenvolvimento sem questionar os objetivos disso? Vale a pena expor as crianças a um ambiente que maltrata os corpos porque vivemos sob uma lógica equivocada que diz que magreza é sinônimo de saúde e sobrepeso é sinal de doenças – se não já existentes, futuras?

1465224_660458583974836_1508417344_n*Mariana Vedder é feminista, funkeira, mestranda em cultura e territorialidades, comuna, paulista que mora no Rio, e tem uns afetos: Emicida, Criolo e o São Paulo. Não necessariamente nessa ordem.

 

Figurinha repetida não completa álbum, mas troca a lâmpada

Sabe aqueles dia que não tem nada digno na tv aberta e tudo que você  queria era não ver o futebol na quarta-feira, rir e comer bobagem na frente da tv? Seus problemas acabaram. Tem Lili, a ex, no GNT.

lâmpada

Interpretada por Maria Casadevall, Lili é a ex-esposa que não esquece e não larga do seu inseguro ex-marido, Reginaldo ( COMO UMA DEUSAAAA, canto internamente toda vez que ela fala Reginaldo, desculpa) e vai morar no apê vizinho ao dele.  O objetivo para poder vigiá-lo de perto e atrapalhar todos os seus casos amorosos.

lili-620

Reginaldo é um bananão interpretado deliciosamente por Felipe Rocha, inclusive aparecendo várias vezes de cueca em cena #trackbonus.  Os personagens secundários são igualmente ótimos, a melhor amiga, a linda e sexy  Cíntia (Daniela Fontan), a mãe muito maluca e viciada em compras de Lili (deve ser genético) Gina ( Rosi Campos),  e novo #bonustrack tem o Seu Anselmo ( Milton Gonçalves), o avô muito maluco da Cintia e caidinho pela mãe da Lili.  Temos ainda o irmão galinhão do Reginaldo, o Reinaldo e o Bituca, dono do bar da esquina (João Vicente Castro e Robson Nunes).

Eu adoro, particularmente, a Cíntia, mais que a Lili. É a amiga doida da doida (só doidos se entendem, gente) é mais descolada que a Lili, é linda, baixinha, gordinha e super sexy com um cabelão lindo.  Sabe sempre o que dizer. Pega todos os gatos. Praticamente minha meta de vida.

cintia-340

Tá mas o que uma feminista com carteirinha rasgada (eu) curte tanto num seriado que estereotipa mulheres como doidas? Bom, o texto é leve, divertido, a edição excelente, os figurinos e cenários são super bacanas. Mais: é para gente ver a Lili e se lembrar das maluquices que fez por causa de homem, ou pensou em fazer, e lembrar que homem não é e nem deve ser o centro das nossa vidas. O exagero das situações vividas por Reginaldo e Lili é pra ser tomado como um: não se apegue loucamente ao seu ex.

personagens-lili-aex_1

É um lembrete divertido de que existem relações doentias em que casais se envolvem.  É para ver e rir e na hora do desespero em que você insiste em stalkear o ex ou a ex de 5 anos atrás por quem você ainda é apaixonada e pensar que tá na hora de mudar de fase no joguinho da vida. Afinal, figurinha repetida não completa álbum e só serve pra uma rapidinho jogo de bafo. Sem apegos, claro.

E a lâmpada?  clique aqui

ps: o último episódio da temporada vai ao ar na quarta que vem mas tem tudo no site do programa ou aqui

Separação e Sofrimento

Por esses dias vi, na TL de uma pessoa querida, esse link que rendeu uma boa conversa. Uma fotógrafa registrou mulheres depois do fim de um relacionamento. E é tão bonito na imensa tristeza e melancolia que transmitem. Esteticamente encantador.

Dá pra lembrar tanta coisa bonita assim, nesse mote, né? Elis Regina cantando Atrás da Porta, o livro A Dama das Camélias, o filme sobre Camille Claudell, Fafá de Belém batendo a real em Abandonada. Sem falar na loucura de Ofélia. Pra completar temos as incontáveis matérias em revistas femininas tratando do tema: como a mulher pode abandonar a tristeza do fim de um relacionamento, como superar, dar a volta por cima, etc, etc, etc. Se você colocar no google: “mulher fim relacionamento” vai ver a profusão de resultados.

sofrer

Daí que me bate a inquietação. Essa narrativa única que relaciona mulheres e sofrimento no término das relações. Onde estão os outros sentimentos? E não digo só o riso, embora ele também. Onde a raiva? Porque tão poucas Medéias? Onde o prazer da liberdade? Onde o alívio? Onde o medo do futuro? E, claro, a fotógrafa não tem obrigação de dar conta de todos os registros, já não estou conversando sobre este trabalho especificamente. Mas entender que este trabalho se inscreve em uma tendência majoritária de tratamento do tema. O discurso geral, homogeneizante, uniforme e autorreferente é: as mulheres sofrem no fim dos relacionamentos. Parece que esse é o único caminho, o único sentimento possível para a mulher: lamentar o fim do relacionamento. E, aparentemente, como passiva. Porque tanta tristeza só faz pensar que ela não decidiu. Foi decidido por ela. Objeto da solidão e não sujeito dela.

Não é que eu esteja negando o sofrer. Eu também sofro, às vezes. Eu escuto Maysa, eu canto Dolores Duran. Eu assisto Casablanca e Suplício de uma Saudade com o propósito específico de reviver a solidão e dar sentido à ausência.  Não sou nada contra a estética da dor. Nem questiono a identificação. Mas eu acho cruel que seja a narrativa não só principal como única que se possa ter de um momento do relacionamento. E acho que é o ampliar das possibilidades de sentir que enriquece a vida. Porque o registro: mulher que sofre por ser deixada sozinha é, não só o registro mais escolhido para ser feito mas também o mais divulgado. Não precisamos reivindicar espaço para a tristeza, ela já é a norma.

Eu estou pra ver o foco de fim de relacionamento pra mulher no cinema, na música, nas fotografias que não seja essa ideia aí de solidão e dor e sofrimento, E, olha, digo por experiência própria que nem sempre é tristeza. Mesmo quando o relacionamento era bom. Especialmente quando era. Pode ser riso, inclusive conjunto. Mas não achamos que seja porque não aprendemos que pode ser assim. Não há, significativamente, fotos, relatos, músicas nem filmes que desvelem outras possibilidades. A narrativa única é que me irrita. Porque molda. Porque faz com que as mulheres acreditem que TEM que ser triste primeiro pra depois ser riso. Não tem não. Pode ser alívio, pode ser reencontro, pode ser qualquer coisa. E mesmo quando é tristeza tem intervalos. Mesmo na dor e na angústia tem o abraço do amigo, as compras de calcinhas novas com a amiga, tem a trepada casual do fim de semana, tem aquele riso leve diante da salada de frutas com sorvete, tem sair pra cortar o cabelo. Tem vida. Tem respiros e não só o encarar o vazio e chorar na cama. Como a gente pode aprender outro lugar se só nos oferecem esse?

Claro que ninguém chega pra uma menina e diz que romper dói e ensina: olha, menina, você vai ser mulher e vai sofrer sozinha sempre que acabar um relacionamento. Mas ninguém chega e diz pra gente que tem que ser magra, alta, branca, jovem e de cabelo liso pra ser bonita e desejável, assim como ninguém chega e diz que mulher direita não goza – e mesmo assim a gente aprende isso. Porque é o que está por aí, no senso comum e representado esteticamente. Porque eu acredito que a gente vai dizendo o que aprendemos a dizer e a sentir, né? Pelo menos a maior parte das experiências não é de admoestação direta. É de construção simbólica. Então o “nosso sentir” não é um dado de essência imutável. É uma construção subjetiva a partir de narrativas sociais e vivências.

Não estou dizendo que sofrer não tem espaço e razão de ser. Claro que sim. Doer faz parte de ser humano. A falta é estruturante da nossa subjetividade. Sermos incompletos é, justamente, o que nos faz ser – e as experiências de separação são o reviver dessa angústia. Mas o sofrimento não é o único sentir proveniente dessas experiências – mas muitas vezes é o único que aprendemos a nomear e a dar concretude. E aquela borboleta na barriga? Alívio? Excitação? Curiosidade? Alegria? E tanto espaço, tanta vida pra viver, que outros sentimentos nos podem acompanhar? O que podemos escolher, para além do que já escolheram pra nós?

Pra mim é como o lance da beleza. Tem que ter opção. Tem que ter todo tipo de corpo nas capas de revistas, tem que ter todo tipo de rosto nas telas, tem que ter todo tipo de gente pra gente poder sentir, verdadeiramente, que nosso corpo é válido. Tem que ter pintura, filme, fotografia, música, cartaz com mulher vivendo as separações de várias formas para além do sofrimento pra gente poder aprender que nosso sentir é verdadeiramente válido e aceitável.

Reinventar a narrativa. Ser protagonista. Escolher o riso e o bom. Minha bandeira.

Para a Eterna Biscate, Amy

Por Tiago Costa

10668421_392103400941332_1445825804_n

 A dor de uma paixão é uma tragédia.

Corpo e vida desfiguradas. A dependência do outro ou de algo que tome o lugar desse outro na vida. A forma como isso atinge implacavelmente a auto-estima.

Na cabeça de alguns, essa tragédia vira comédia. Na verdade, a dor do outro, de uma forma ou de outra, é uma tragédia que vira comédia. E se tem uma vertente passional, viramos espectadores fomigerados de uma novela da vida real. Só que sem final feliz.

E assim assistimos a vida da biscate Amy Winehouse. Jovem dona de uma voz poderosa. Daquela que faz o coração tremer. Mas para além da própria voz, os refletores estiveram mais interessados em sua vida privada. Na sua autodestruição. No como ela se tornou ícone de dependência, de vexame, de autodestruição, de fraqueza. Essa foi a parte em que programas de televisão, tablóides e memes deram conta de transformar a dor tão bela e sinceramente cantada (a parte em que Amy tornava pública a sua dor) em piada. Já não havia espaço para publicizar a beleza de sua voz (única, diga-se de passagem), o interesse estava na sua imagem, melhor dizendo, na transfiguração de sua imagem.

As pessoas compravam seus cds, iam a seus shows, cantavam, adotavam seu estilo, acompanhavam seu drama. Todas a consumiam. Mas quem entendia o que ela gritava dentro dela mesma?

Quando nos apaixonamos, entramos num exercício de calibração do coração. Costuma-se a levar os sentimentos aos seus extremos. Nesse exercício, ou descobrimos (não sem custos) qual a medida certa do sentimento a ser desprendido, ou não descobrimos. E quando não descobrimos tudo é excesso. E quando tudo é excesso, cresce a dependência e adoecemos.

De certo, tem que haver um esforço individual para superar a dependência emocional e a baixa autoestima. Nem mesmo as biscates, como a Amy, estão livres disso. Mas o esforço é ainda maior quando a pessoa pela qual mantemos dependência identifica essa fraqueza e se aproveita disso. Não existe um único Blake no mundo. Mais esforço ainda, quando em tudo que se fala a respeito de você, está associado ao fracasso. As possibilidades de reabilitação são implacavelmente minadas.

E o desfecho dessa história já é conhecida. A morte. A morte de um jeito triste. Sozinha, como pareceu sempre ser.

Para alguns, fica a lembrança da infeliz piada que a pessoa se tornou. É triste ainda se deparar com isso ainda hoje. Para mim, fica a saudade de alguém que não conheci pessoalmente, mas que permiti entrar na minha intimidade. E permito que apenas a beleza dela ocupe esse espaço. Choro, ainda hoje, pela presença e pela ausência de Amy.

 

tiagoTiago Costa, meio termo, semitons, adaptável e qualquer coisa a mais que seja capaz de movimentar o mundo com graça! Quer conhecê-lo melhor? Espia seu blog ou no seu tuíter @FTiagoCosta.

 

Palatável

Vamos lá… muitxs companheiras criticam essa ou aquela mulher por ter um discuso feminista digamos… palatável. Daí fui no pai (oi, patriarcado!) dos burros (oi novamente, patriarcado!) e achei o seguinte sobre a palavra…

1. Palatável
Por Alvaro Fraga (BA) em 02-01-2008
[Do ingl. palatable.]
Adj. 2 g.
1. Que é grato ao paladar ou gosto; que sabe bem.
2. Fig. Aceitável, tolerável:
“Seu papel [o de Getúlio Vargas] era corrigir os excessos, tornar a coisa palatável ao país e útil ao exercício real do seu domínio.” (Gilberto Amado, Depois da Política, pp. 1-2.)

Então…
1- eu mermo gosto do que tem gosto bom, “é grato ao paladar e gosto e que sabe bem” (ui!). Tanto que estou comendo chocolate nesse momento.

2- Gosto de ser aceita ou tolerada por pessoas que se pudessem escolher me matariam. Já que não podem gostar de mim, pessoa maravilhosa e muito da legal, dos males…

3- Esqueçamos Getúlio porque senão vou ficar falando da falta de representação das mulheres na política e tals.

Resumindo… que mais pessoas se digam feministas. Porque mesmo que não seja o feminismo que VOCÊ acredita, a utopia feminista é uma porta de entrada para leituras diversas sobre igualdade e diferenças. Para questionamentos, mesmo que leituras não aconteçam. Para conversas de mesa de bar e no jantar da família. Para enfrentar brigas que pouca gente quer tomar para si.

Sim, obviamente merdas acontecem, mas quem nunca? Claro que não se está, aqui, fazendo apologia de um feminismo que agrade gregos, troianos e machistas de estirpe e costas largas. O que se propõe é a) espaço constante pro diálogo, b) compreensão de que o machismo é estrutural e vamos, vez ou outra, enfiar o pé na jaca – todos nós – e,  c) principalmente, dar-se o direito de curtir quando coisas legais acontecem.

feminismo

Por exemplo? Esses dias a jovem Emma Watson, mais conhecida como Hermione, fez um discurso (pró) feminista na ONU. Um feminismo branco, de primeiro mundo e cissexual? Certamente. Mas um discurso que inspira e que diz, em maiúsculas, FEMINISMO pra jovens que crescem em uma cultura que trata o movimento como menor, revanchista e mal-intencionado. E ela vai e diz: sou feminista, ser feminista é procurar a igualdade de gêneros, vamos todos nesse embalo?

Pode não ser o discurso feminista que você faria. Provavelmente não é nem mesmo o discurso feminista que eu faria. E é, como todo discurso, passível de ser criticado e repensado. Mas não é, na minha opinião, um discurso a ser menosprezada ou ignorado só porque não é perfeito. O feminismo é, em processo.

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

10553863_834283313262240_7660767801524760664_o

Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...