As vilãs e o sexo nas novelas

As novelas têm perdido audiência, a tv aberta têm perdido audiência, e a cada estréia de um novo produto e a cada queda do IBOPE os mandachuvas correm em busca de novos culpados em busca da audiência perdida. Pode ser o casal homoafetivo da vez, pode ser o vocábulo ateu,  pode ser a moça que não vai ser mais prostituta mas sim amante  e pode ser a vilã ninfomaníaca

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Peraí. Ninfomaníaca? Ahhh transou com mais de 3 já é ninfomaníaca. Bem, não é bem assim. O apetite sexual excessivo, hipersexualidade, desejo sexual hiperativo (DSH), ou ninfomania (em mulheres) e satiríase (em homens) é um transtorno sexual caracterizado por um nível elevado de desejo e atividade sexual a ponto de causar prejuízos na vida da pessoa. Trata-se de um tipo de vício com sintomas compulsivos, obsessivos e impulsivos, e seu tratamento é similar ao de outros tipos de dependências. Ou seja, é preciso que cause sofrimento e transtorno na vida da pessoa e não prazer.

Pois bem, Beatriz tava lá feliz,  de boas, transando com um carinhas aqui e acolá e me parece que o fetiche dela tá mais para mandar, poder, e o perigo de ser flagrada. Quem nunca, né? Fetiche, cada um com o seu. Mas aí a Dona de casa, de acordo com sei lá que  grupo de pesquisa, resolveu que Beatriz é ninfomaníaca. Já patologizaram a moça.

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Mas sexo em novela, e na tv em geral, nunca é uma coisa bem resolvida, sempre vem com um caminhão do tipo fenemê de culpa junto. Notem que as mocinhas sempre são virginais, só amam e transam, por amor, com um só mocinho, e ai delas se fizerem isso com mais de um ou por puro prazer. Castigos terríveis surgirão, separações, gravidezes indesejadas e por aí vai.  Basta ver a Márcia na reprise de o Dono do Mundo que foi dar pro homem errado e teve o posto de protagonista roubado pela prostituta arrependida da Taís (prostituta se for arrependida, pode, deve ter algo a ver com Maria Madalena, mas tem que sempre sofrer, por óbvio).

Já as vilãs, ahhh essas são terríveis! Elas são sensuais, adoram sexo. Com mais de um, se puderem.  Gostar de sexo pra vilã mulher está associado com, veja bem, vilania. E pagam  muito por gostarem de sexo as pobres. Bastante. Se não forem vilãs o máximo que pode acontecer é que a personagem fogosa é o alívio cômico da trama, tipo Tina Pepper ou Tancinha, e sempre quase pega os caras, mas nunca chega aos finalmentes, como diria madrinha noveleira,  porque na verdade só tem um grande amor e tal.

Já vilão homem gostar de sexo faz parte mas não é castigado, é bacana, é sexy sem ser vulgar. Nem o personagem engraçadinho que trai a mulher,  nem o que tem 2, 3 famílias  e por aí vai. Lembrem-se de Cadinho, Seu Quequé , Laerte e Laerte2, o retorno (ops, desculpa, Luís Fernando).

Na verdade nossas tv parece moderninha mas continua nos anos 50. Que o diga Fátima Bernardes e seu encontro matinal com a máquina do tempo.  Espero que no próximo aniversário de 50 anos da emissora minhas netas  ou netos possam assistir mulheres que transam e não são chamadas de ninfomaníacas, ou até lá a globo faliu e o Netflix ou outros dominam. Sonhar nunca é demais.

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O Globo de Ouro feminista, Tina, Amy e os Clooney

O 72º Globo de Ouro foi apresentado domingo, dia 11 de janeiro de 2015, pela terceira e infelizmente última vez, por Tina Fey e Amy Poehler. Desde antes do show, no tapete vermelho, Amy lançou a #askhermore, incitando os jornalistas a perguntarem para as atrizes algo além do já batido “o que você está vestindo”, algo que realmente se pode descrever como feminista.

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Apesar da linda iniciativa, o E! (canal de variedades especializado celebridades, em fofocas e reality shows como os das Kardashians) e os demais canais que fazem a cobertura dos “Red Carpets” não foram nada além disso.

Já nos primeiros minutos, Amy e Tina, oriundas do SNL (Saturday Night Live) e grandes nomes da comédia contemporânea nos EUA, falaram de uma acusação que tem balançado Hollywood: a que que o comediante Bill Cosby teria estuprado mais de 20 mulheres, durante sua carreira. A cada dia um novo caso surge. Ele nega. A platéia ficou estática, e somente Lena Durhan, de Girls, da HBO, aplaudiu.

Pouco depois,  Joanne Froggatt, que venceu como melhor atriz coadjuvante pela sua atuação com Anna em “Downton Abbey,” uma personagem que foi estuprada na temporada anterior, iniciou a fala de agradecimento mencionando que várias espectadoras do show escreveram cartas contando que foram estupradas, e como era importante que uma vítima tivesse voz.

Mas quero falar aqui também sobre uma das falas que mais repercutiu: sobre o casal George e Amal.

George Clooney, que começou na TV com o seriado E.R (na Globo, Plantão Médico), foi para o cinema, para uma gloriosa carreira como ator, diretor e produtor, e estaria recebendo o prêmio Cecil B. De Mille, pela trajetória no show bussiness.

Ao iniciarem a apresentação do prêmio, Tina Fey disse:

“George Clooney se casou com Amal Amaluddin este ano. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, assessorou Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi indicada para uma comissão que investiga violações na Faixa de Gaza”, detalhou Fey. “Então nesta noite seu marido está aqui para receber um prêmio pelo conjunto de sua obra.”

Então, para algumas pessoas, o feminismo foi o fato de  o ‘marido-troféu’ ser George Clooney, e de dessa vez termos um “marido-troféu” em vez da “mulher-troféu”.

E eu não vejo isso como ser feminismo, não mesmo.

Vejo, sim, como feminismo, dentro de todo o contexto dessa apresentação dos Globo de Ouro, desde o #askhermore até o finalmente, com o discurso de Maggie Gylenhaal, que ganhou como melhor atriz por “The Honorable Woman”, onde interpreta uma empresária:

“Há muita gente falando sobre a riqueza de papeis para mulheres poderosas na  televisão ultimamente. E quando eu olho para este salão e para estas mulheres que estão aqui, penso nas performances que vi este ano e o que vejo são mulheres que às vezes são poderosas, outras não; às vezes são sexy, outras não; às vezes são honradas, outras não. E o que acho que o que é novo é a riqueza de papeis para mulheres de verdade na TV e no cinema. Isso que é revolucionário e uma evolução. E isso me anima. (…)”.

Vejo como feminismo apontar que o que elas fizeram, jogando a luz sobre a esposa Amal e abafando o indivíduo George, foi evidentemente uma piada inteligente, que demonstra o quanto é ridículo o conceito de “pessoa-troféu”.

Pessoas são pessoas, não objetos, não prêmios ou consolos.

Já se falou sobre as situações de George Clooney, que se casou com Amal, aos 53 anos (dele), e ainda foi visto como um prêmio, e de Jeniffer Aniston, que também teria anunciado um noivado, aos 45 anos, e para ela seria um consolo, não uma escolha.

Então, considerando as subjetividades de todos os envolvidos, o feminismo nessa apresentação não foi a de trocar seis por meia-dúzia simplesmente invertendo a posição de poder, mas jogar luz sobre as mulheres, e não relegá-las ao que estão vestindo (ou a “quem” estão vestindo) nos Red Carpet da vida.

Pergunte sobre ela, pergunte além do vestido e das joias, e não simplesmente passe a perguntar para eles o que estão vestindo, apontando que George Clooney usou o mesmo terno do casamento (oh, horror dos horrores!) ou que Tiago Lacerda usou oito vezes a mesma bermuda para andar na praia (sim, isso é manchete do Ego). Já o Globo deu destaque às “polêmicas” luvas brancas usadas por Amal, e teve piadinha machista, do Jeremy Renner, falando sobre aquele humor de quinta-serie, sobre os seios de J-Lo (incrivelmente sexy a J-Lo, aliás, como sempre – não resisti). Mas até os companheiros de mesa dele se mostraram constrangidos com a besteira “eu vi peitos, eu vi peitos” a la Beavis e Butthead.

Quando Tina Fey apresentou o curriculo de Amal ao apresentar o prêmio de George, ficou claro que era uma piada. Mas quando as mulheres, independentemente de suas vidas e conquistas pessoais, são apresentadas apenas como acessórios para os maridos poderosos, isso não é nada anormal, e não é visto como piada, mas como coisa rotineira.

Que tenhamos mais feminismo em 2015, mais luz nas mulheres, nas pessoas trans, nas pessoas homo e bissexuais, e que isso seja o normal, e não uma ano atípico.

Figurinha repetida não completa álbum, mas troca a lâmpada

Sabe aqueles dia que não tem nada digno na tv aberta e tudo que você  queria era não ver o futebol na quarta-feira, rir e comer bobagem na frente da tv? Seus problemas acabaram. Tem Lili, a ex, no GNT.

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Interpretada por Maria Casadevall, Lili é a ex-esposa que não esquece e não larga do seu inseguro ex-marido, Reginaldo ( COMO UMA DEUSAAAA, canto internamente toda vez que ela fala Reginaldo, desculpa) e vai morar no apê vizinho ao dele.  O objetivo para poder vigiá-lo de perto e atrapalhar todos os seus casos amorosos.

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Reginaldo é um bananão interpretado deliciosamente por Felipe Rocha, inclusive aparecendo várias vezes de cueca em cena #trackbonus.  Os personagens secundários são igualmente ótimos, a melhor amiga, a linda e sexy  Cíntia (Daniela Fontan), a mãe muito maluca e viciada em compras de Lili (deve ser genético) Gina ( Rosi Campos),  e novo #bonustrack tem o Seu Anselmo ( Milton Gonçalves), o avô muito maluco da Cintia e caidinho pela mãe da Lili.  Temos ainda o irmão galinhão do Reginaldo, o Reinaldo e o Bituca, dono do bar da esquina (João Vicente Castro e Robson Nunes).

Eu adoro, particularmente, a Cíntia, mais que a Lili. É a amiga doida da doida (só doidos se entendem, gente) é mais descolada que a Lili, é linda, baixinha, gordinha e super sexy com um cabelão lindo.  Sabe sempre o que dizer. Pega todos os gatos. Praticamente minha meta de vida.

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Tá mas o que uma feminista com carteirinha rasgada (eu) curte tanto num seriado que estereotipa mulheres como doidas? Bom, o texto é leve, divertido, a edição excelente, os figurinos e cenários são super bacanas. Mais: é para gente ver a Lili e se lembrar das maluquices que fez por causa de homem, ou pensou em fazer, e lembrar que homem não é e nem deve ser o centro das nossa vidas. O exagero das situações vividas por Reginaldo e Lili é pra ser tomado como um: não se apegue loucamente ao seu ex.

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É um lembrete divertido de que existem relações doentias em que casais se envolvem.  É para ver e rir e na hora do desespero em que você insiste em stalkear o ex ou a ex de 5 anos atrás por quem você ainda é apaixonada e pensar que tá na hora de mudar de fase no joguinho da vida. Afinal, figurinha repetida não completa álbum e só serve pra uma rapidinho jogo de bafo. Sem apegos, claro.

E a lâmpada?  clique aqui

ps: o último episódio da temporada vai ao ar na quarta que vem mas tem tudo no site do programa ou aqui

Shonda Rimes

Por Renata Côrrea

Shonda Rhimes

Shonda Rhimes

Shonda Rimes é uma showrunner e produtora executiva de séries americanas. Ela é uma das mais poderosas figuras do show business americano, criando histórias icônicas da dramaturgia da tv aberta na gringa. Sua série principal, Grey’s Anatomy já está na 11ª temporada é um dos shows mais bem sucedidos da história. Chegar nesse nível na carreira sendo mulher numa indústria muito machista já seria admirável. Mas além de mulher, Shonda Rimes é negra e gorda. Mas o que tem isso, Renata? E daí ser mulher, negra e gorda?

Elenco de How to Get Away With Murder

Elenco de How to Get Away With Murder

E daí que nas séries com o dedo de Shonda Rimes mulheres são as protagonistas. É delas a voz. E daí que nas séries onde Shonda Rimes coloca a mão, mulheres negras e não-brancas (latinas, asiáticas) e mulheres gordas, lésbicas e com deficiências físicas possuem um protagonismo inédito, vida sexual ativa, sensualidade, talento, conflito, contradições. Basicamente profundidade e um arco dramático completo.

Protagonista de Scandal

Protagonista de Scandal

Enquanto na dramaturgia o “normal” é que os donos da histórias sejam homens ou, com restrições, mulheres brancas, e os outros corpos sejam relegados a posições completamente secundárias e subalternas, Shondinha muda as regras do jogo, faz dramaturgia de primeira que mobiliza milhões de pessoas na frente da telinha com corpos tradicionalmente relegados ao segundo plano.

Naomi Bennett (Audra McDonald) e Sam Bennet (Taye Digs): personagens centrais em Private Practice

Naomi Bennett (Audra McDonald) e Sam Bennet (Taye Digs): personagens centrais em Private Practice

Isso só confirma a necessidade da indústria audiovisual ter mais mais mulheres em posições de poder, que possam decidir as histórias que serão contadas. Precisamos ter a caneta na mão: seja para criar as narrativas ou assinar os cheques que pagam por elas.

Personagens Centrais de Grey's Anatomy

Personagens Centrais de Grey’s Anatomy

Personagens Centrais de Grey's Anatomy

Personagens Centrais de Grey’s Anatomy

renata corrêa* Renata Corrêa é uma tijucana exilada em São Paulo, fotógrafa sem câmera, desenhista desistente, roterista praticante e feminista. Já fez livro pela internet, casou pela internet, fez amigos pela internet, compras pela internet, mas agora tá preferindo viver um pouquinho mais offline. Saiba mais dela no seu blog ou no seu tuíter @letrapreta.

Amor & Sexo caretas

Amor & sexo é um programa de auditório engraçadinho, pretensamente libertário e até feminista, moderninho, mas na verdade é conservador, eu diria até tucano (rs).#vote45nãopera

Sempre começa com a bela Fernanda Lima exibindo sua curvas em roupas  diminutas e/ou justas com um belo elenco de machos no apoio num número musical “brodway wanabe”. Nesse, até tinha a nossa amiga #siririca (oba!), que eu achei mais parecida com um carrapato, e um clitóris com um textinho de duplo sentido de humor no palco.

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Pra dar um certo ar de seriedade acadêmica temos a famosa  psicanalista e escritora Regina Navarro para dar suas pílulas de sabedoria de sempre. Aí temos o Xico Sá pra ser o exemplo do canalha que ama as mulhrezzzzz (sobre ele o texto da Juliana Cunha é perfeito, mas também tem um texto sobre as bobices que moço comete aqui no Biscate). E tem O Otaviano Costa de palhaço-bobo-da-corte, tinha o lindo do Alexandre Nero (#voltaNerinho), o José Loreto que às vezes fala uma coisas bacanas e mais uns globais.

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Mas o que programa faz mesmo é backlash (aprenda sobre o que é backlash aqui, juro que vai ser muito útil pra ler revista, ver tv, etc.), bastante misoginia e muito machismo. O desta quinta em especial, pois, ao pretensamente diferenciar o que seria uma boa cantada de rua (será que existe isso?) de uma agressão verbal, validou as cantadas agressivas disfarçando-as em piadas. A participação de uma delegata (odeio o termo) não ajudou muito nem nisso.

Também sempre há um revalidação de estereótipos: nesse teve homens-pagam-o-motel porque-as-mulheres-gastam-com-depilação-e-unhas (de novo, não somos feministas que não se depilam ou não fazem as unhas: somos contra obrigações de depilar ou não, por exemplo), pessoas com corpos definidos como belos desfilando com pouca roupa, revalidação da monogamia como única forma possível de relação (apesar dos apartes da Regina Navarro, rs), entre outras coisas.

Seria um bom programa que poderia mesmo tratar de sexo e amor, mas é só um programa de auditório mesmo, e sem o Chacrinha e o bacalhau, ao menos aquele bacalhau.

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O Que Aconteceu Com Renée Zellweger?*

com a leitura querida
de Patrícia Guedes e Liliane Gusmão

Circularam esses dias uns links sobre a aparência de Renée Zellweger, no estilo antes e depois e a pergunta, em diversos tons, dos mais maliciosos aos bem preocupados: o que aconteceu com ela? Engordou? Emagreceu? Anorexia? Botox? Bronzeamento artificial? Cirurgia? Doença terminal? Drogas? Os comentários nos links não foram menos diretos e não pouparam agressividade e virulência: ridículo, aterrorizante, doente, repulsivo foram termos usados para descrever seus rosto e devastada, mentalmente desequilibrada, enlouquecida, embarangada, plastificada, algumas das palavras usadas – das que tive estômago pra ler – que se referiam a ela integralmente.

Então agora, vou dizer tudo que eu acho que tem que se discutir sobre a aparência dela: (                                ). Pois é, um imenso, enorme, absoluto: NADA.

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Mas, como sou muito legal e para efeitos pedagógicos, vou até responder a inquietação dos mais bem-intencionados: o que aconteceu com ela tem nome. Vida. Em muitos sentidos.

Vida, porque é uma mulher de 40 e tantos anos que tem uma doença de pele (rosácea), que usou bastante maquiagem dados seus compromissos profissionais, que se expõe a forte iluminação artificial por causa das filmagens, uma mulher que engordou e emagreceu várias vezes por motivos vários – inclusive de trabalho. Vida porque é razoável supor que ela riu, chorou, teve dor de cotovelo, passou alguma noite em claro, divertiu-se, pegou sol, pegou brisa. Então, vida, ou como costuma ser apelidada: tempo.

Mas vida, também e principalmente, porque o que lhe aconteceu é o que tem nos acontecido, a nós, mulheres, por todo o tempo que passamos nessa bagaça: somos observadas, julgadas, avaliadas e rotuladas. O corpo, o rosto, a “moral” sob uma enorme lupa. Uma série de “tem que” dos quais é difícil escapar (e nunca sem alguma marca), inscritos na estrutura e que, no máximo, nos é apresentado como uma luta individual. Autoestima, amor próprio, ser mais independente… uma dose especial de crueldade tomar como responsabilidade pessoal um problema social que se espalha na cultura.

Essa lupa enorme e constante não deixa escapar nada. A mulher está sempre errada. Caso se submeta ao padrão (olha aí, não sabe envelhecer, tá usando botox; tá magra demais,deve ser anorexia) e caso o ignore (devia ter vergonha de ir a praia mostrando as pelancas; olha já dá pra ver cabelo branco, é muito desleixo). Uma mulher TEM QUE manter-se jovem, mas, atenção, não pode aparentar estar querendo se manter jovem. Tem que ficar jovem sem esforço e aí, se envelhecer (risível usar o “se” pois viver é sempre “quando”) desaparecer. Sabe coméqueé, velhice é feio, não é pra expôr assim.

Li um bocado de comentários dizendo que ela não soube envelhecer com dignidade, como se houvesse um jeito correto de viver, como se a uma mulher – especialmente famosa – não houvesse pressão sobre a aparência, como se não vivêssemos em uma cultura que glamouriza a juventude, como se não houvesse menos papéis nos filmes para mulheres maduras, como se não fôssemos bombardeados diariamente com a relação entre aparência jovem e saúde. Como se “envelhecer com dignidade” fosse um caminho reto individual sem relação alguma com contexto sócio-histórico. Como se, especialmente, pudéssemos julgar como alguém deve viver sua própria vida. Alguém, claro, uma mulher. Esse animal público.

O fato é que nos sentimos no direito de avaliar e emitir impressões sobre a aparência das mulheres. Isso está tão naturalizado que nem nos questionamos sobre. Como se o corpo e o rosto da mulher existissem para o olhar dos terceiros e devessem a ele corresponder, agradar, submeter-se. Mesmo as pessoas que solene ou alegremente entoam: “meu corpo, minhas regras” às vezes escorregamos e estamos lá, dando nota mental pro corpo da coleguinha.

Então não, não devia interessar a aparência da Renée. Renée não existe pra enfeitar a vida de ninguém. Nenhuma de nós, aliás. Mesmo que você esteja falando com a melhor das intenções e super preocupado com a saúde dela, é bom prestar atenção no pronome possessivo. O corpo, a saúde, a aparência, tudo DELA. No lugar de apontar dedos pras coleguinhas, talvez seja melhor a gente desconstruir esses padrões que oprimem, machucam e demandam de todas nós um dolorido impossível. E, no “por enquanto” dessa demorada mudança de paradigma, todas as vezes que pensarmos em comentar a aparência de alguém – especialmente uma mulher, mais ainda uma mulher envelhecendo – vamos contar até 10. De preferência, em biscatês (um rala e rola, dois rala e rola, três rala e rôlas, OPS…). Distrai e faz sorrir.

PS. Não que cada uma de nós não tenhamos autonomia ou discernimento, não que sejamos conduzidas, moldadas e forjadas apenas pelo ambiente. Não. Mas ignorar esses fatores é cruel e deturpa o olhar. Não custa lembrar do Graciliano Ramos: “liberdade completa ninguém desfruta: começamos oprimidos pela sintaxe e acabamos às voltas com a Delegacia de Ordem Política e Social, mas, nos estreitos limites a que nos coagem a gramática e a lei, ainda nos podemos mexer”

PS2. Não por acaso a pergunta “o que aconteceu com Renée” leva-nos ao filme “O que aconteceu a Baby Jane” e à discussão sobre fama e aparência.

Peitos

Eu tenho peito. Dois, inclusive. Grandes. Gosto deles, um bocado. Mas, alerto, eles não são atestado nem condição do meu ser mulher. Tem mulher com dois peitos, mulher com um peito, mulher sem nenhum. Mulher que nunca teve peito. Mulher que nunca teve peito e colocou. Mulher que teve, mas tirou. Tirou tudo, tirou só um pouquinho. Mulher com peito grandão, mulher com peito miudinho. Mulher com silicone nos peitos. Ou mesmo com peito só de silicone. Mulher com peito que tem mamilo saltado. Ou mamilo invertido. Mulher com peito em desenvolvimento. Mulher com peito murchinho. Mulher com peito que aponta a lua, mulher com peito que roça barriga. Mulher com peito no sutiã, com peito soltinho, mulher com peito na memória.

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Sabe o que esses peitos e corpos, todos, tem em comum? Não existem pra o nosso escrutínio. Não existem para terceiros terem prazer, embora, peitos e/ou corpos, generosamente, às vezes o façam. Não existem para ser julgados. Nossos corpos não existem para. Eles são. E é por isso que repudiamos esse vídeo da Campanha da Nestlé contra o Câncer de Mama, que, em palavras livres, diz pra gente: “mantenha seu peito saudável que o mundo tá de olho”. Não cuidamos dos nossos corpos para que eles sejam vistos e examinados pelos outros. Se o fizermos é por nosso prazer e saúde. Sem mencionar a culpabilização da mulher totalmente mastectomizada e o recado implícito que, se ela não tem peito, seu corpo está “fora do jogo”.

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O ser mulher não está no nosso peito. Nem no cabelo, unha, buceta. Ser mulher não está em nenhum lugar do corpo que se possa apontar – e julgar. Relacionar o foco do cuidado e da saúde com avaliação social compromete a campanha e machuca mulheres que já passam ou passaram por processos dolorosos, o temor de perder a vida, a mudança na auto-imagem, os ajustes nos relacionamentos e tantas outras coisas que sequer podemos, de fora da situação, dimensionar.

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Então, sim, apoiamos e divulgamos a ideia de que é preciso atenção com a saúde dos seios, o auto-exame, que as pessoas com peito devem estar atentas ao diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas repudiamos qualquer naturalização de gênero relacionada ao processo e toda e qualquer legitimação da objetificação do corpo nessas campanhas.

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Então, pessoas com peito, vamos nessa: meu corpo, minhas regras, meu cuidado. Vamos se tocar 😉

O Sexo e as Negas: queremos só representação?

Por Bianca Cardoso*, bisca convidada e participação especial de Iara Paiva

Adoro novelas. Adoro mais ainda a dramaturgia televisiva brasileira, com seus tipos rurais românticos, ricos que dão banana para o Brasil, pobres que encontram uma bolada em dinheiro, mocinhas e vilãs com suas vidas cruzadas por vinganças, entre outros clichês. Porém, desde que comecei a me preocupar com as desigualdades sociais no Brasil, busco observar como a produção televisiva mostra as minorias e, especialmente como reflete o embranquecimento forçado de nossa sociedade. Em pleno 2014, ainda é difícil ver protagonistas negras e negros em telenovelas, por exemplo.

Portanto, ao ouvir falar pela primeira vez num projeto de seriado com quatro mulheres negras protagonistas, aos moldes do americano Sex And The City, tive alguma esperança. Porém, o título “O Sexo e as Negas” logo fez esse sentimento ruir.

Há muitas pessoas no Brasil que utilizam as expressões “nega” e “nego” de maneira carinhosa, para se referir as pessoas que amam com intimidade. Porém, isso não acontece em todos os estados e, num país com dimensões continentais como o Brasil, acho que essa deve ser uma preocupação de um programa que será exibido em rede nacional. Além disso, há uma referência a expressão “não sou tuas negas”, herança do nosso passado escravocrata tão presente nas vidas de tantas pessoas negras em nosso país. Ao dizer “não sou tuas negas” afirmo que não são sou como suas escravas, com as quais você pode fazer o que bem quiser, o que inclui molestar, ofender e até mesmo abusar. Por isso, mesmo que o novo seriado da Rede Globo fosse ótimo, isso não exclui o fato do título ser extremamente racista.

É óbvio que as pessoas virão jogar a carta do moralismo: mas qual o problema com o sexo? As negras não podem ser biscates?

Meu querido e minha querida, as negras podem tudo! A questão é que num país em que mulheres negras tem mais chances de serem estupradas é preciso repensar, criticar e debater como a imagem da mulher negra é representada na mídia e quais as consequências sociais disso. Não se pode esquecer que, na nossa cultura, as mulheres negras são hipersexualizadas. Porque o problema é esse. Óbvio que elas podem ter sexualidade, é óbvio que podem trepar. Mas em um país em que elas são mais estupradas, mais prostituídas por falta de opção, em que seus corpos são usados pra vender de tudo, quem pode falar e ganhar dinheiro com a sexualidade delas deveria ser apenas elas mesmas. Você sabia, por exemplo, que as mulheres negras recebem menos anestesia em procedimentos hospitalares como partos? Isso ocorre porque existe o mito de que a mulher negra é forte, aguenta tudo. As mulatas tão exaltadas, que tem a origem do termo na palavra “mula”. Por isso, não posso dizer que me surpreendi ao ver que numa das primeiras cenas do primeiro episódio de “O Sexo e as Negas”, um vendedor de carros negro ao ser questionado pelas protagonistas se há algum carro no valor que podem pagar responde: “Por esse preço podem levar um burro, mas a carroça fica por conta de vocês”.

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Há pontos positivos no seriado, como o fato de todas usarem cabelos afro com diferentes estilos e os números musicais do final que remetem a grandes estrelas da música negra americana como The Supremes. Também é fato que existem mulheres negras como Zulma, Lia, Tilde e Soraia. Porém, as quatro não avançam na representação das mulheres negras na televisão, porque repetem os mesmos estereótipos: carreiras profissionais subalternas a pessoas brancas, o objetivo final da vida é conquistar um homem, se precisam de dinheiro tem que recorrer a ações que são crime, sempre dispostas a fazer sexo sem importar o local e a presentear o homem que lhe faz um favor com sexo, entre outros.

Recentemente, em “Cheias de Charme” (2012), Taís Araújo fez o papel de uma empregada doméstica que tornava-se uma estrela da música. Parecia ser uma nova representação da mulher negra, justamente exorcizando o papel da eterna empregada doméstica. Porém, não foi o que vimos acontecer. Atualmente, na novela Boogie Oogie (2014) que se passa no fim dos anos 70, a atriz Zezé Motta faz o papel de uma empregada doméstica. Por mais que se alegue que na época, uma mulher negra com mais de 60 anos provavelmente seria doméstica, são autores quem escrevem as novelas e eles são livres para criar personagens. Fico arrasada ao constatar que uma atriz do porte de Zezé Motta, com tantos trabalhos pioneiros e revolucionários, ainda seja escalada para fazer o papel da empregada doméstica subalterna. Ela poderia ser uma profissional que ascendeu em uma empresa, uma cantora na discoteca que dá nome a novela, uma mulher casada com um homem rico que enfrenta o racismo em diferentes esferas. Ela poderia ser muitas coisas, mas preferem mais uma vez retratar a mulher negra como a empregada doméstica. É esse o lugar destinado a mulher negra na cultura das telenovelas.

 Então, quando criticamos o seriado “O Sexo e as Negas” e falamos com todas as letras que trata-se de um homem branco escrevendo sobre mulheres negras, não estamos dizendo que Miguel Falabella é o anti-cristo racista e que deve ser preso. Estamos dizendo que mais uma vez os estereótipos estão se repetindo, num veículo que ainda é o maior meio de comunicação do pais. E o retrato da mulher negra na televisão tem consequências nas vidas das mulheres negras da não-ficção cotidiana.

Outra pergunta que me faço é: quem assiste a esse seriado? Porque sendo exibido às 23h, imagino que as mulheres negras trabalhadoras das comunidades não terão muito tempo para assistí-lo já que precisam acordar cedo para pegar o transporte coletivo e continuarem suas jornadas triplas e quádruplas. Então, no fim, será um seriado para a classe média rir dos estereótipos das mulheres negras?

A Rede Globo até tem investido em programas com a presença ou elenco formado por pessoas negras. O “Esquenta” de Regina Casé e seriados recentes como “Suburbia”, mas a representação das pessoas negras no geral é a mesma: estão sempre felizes, mostrando que na vida o que importa é alegria. Também estão sempre ligados a música, carnaval e a imagem romantizada do pobre brasileiro. Essa representação estereotipada acaba tornando-se vazia ao não trazer uma representatividade ou uma identidade que não seja apresentada como algo exótico pelas pessoas brancas.

A boa notícia é que hoje as mulheres negras tem voz e isso incomoda muito, porque significa que novos espaços serão conquistados por elas, elas não vão esperar por convite. Por isso, convido você a acompanhar o projeto #AsNegaReal das Blogueiras Negras que pretende apontar e debater o racismo presente nesse novo programa.

Mais sobre o assunto: As Faces da Representatividade e 10 Motivos Óbvios pra Não Ver “O Sexo e As Negas”

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

O rebuceteio exala sexo

E O Rebu começou quente, edição cinematográfica, cortes rápidos, fotografia caprichada (cargo de Walter Carvalho, responsável por Madame Satã e Lavoura Arcaica, entre outros).  É remake de uma novela de Bráulio Pedroso, considerada inovadora em sua época pela narrativa em três tempos já que tudo se passa numa noite, o crime acontecido numa festa, no dia seguinte a esse crime e na sua investigação, o que leva a fatos passados.

O título é uma referência à expressão criada por Ibrahim Sued, famoso colunista social, para “rebuceteio”, que significa aglomerado de mulheres bonitas ou confusão.  Por exemplo, esse blog é um rebuceteio. 🙂

foto: GShow

Angela, personagem de Patricia Pillar

A estética de O Rebu me lembra muito Walter Hugo Khoury, cineasta brasileiro que gostava de sexo nas classes altas. Tudo muito sacana e muito chique, claro, pobre sacana nunca é chique, é no máximo engraçado. A série respira sexo. Até agora não sei quem pega quem, acho que todo mundo pega todo mundo, na verdade. Patrícia Pillar está linda, divina, um olhar matador, inclusive acho que ela está também querendo me pegar toda vez que ela olha pra tela da tevê. A mulher está exalando sensualidade.

foto: GShow

Duda (Sophie Charlotte) dança para Antonio Gonzalez (Michel Noher) durante a festa

Tem gente que tem dúvidas sobre a relação de Patrícia e de Sophie Charlotte que faz sua filha adotiva na série. Olha, não é a gente que tá maldando a coisa, é a série que tá exalando sensualidade pelos pixels da tevê. Juro. Acho que é só carinho de mãe e filha mesmo (ou não, sei lá, todo mundo nesse jogo aí guarda mil segredos loucos, não boto nem meu mindinho no fogo).

Jesuíta Barbosa, um dos garotos sex appeal do momento está na série, é gato, e ótimo ator, e essa semana nos brindou com uma linda cena de ménage com ninguém menos que Camila Morgado que faz uma socialite muito doida e inconsequente.

O sexo na série não é reprimido, as mulheres são sexualmente livres (como todas nós deveríamos ser, né?), mas acho que isso se deve ao ambiente social da série, a classe média alta. O único momento mais repressor veio da policial, interpretada por Dira Paes, membro da classe média baixa, como deixou clara a ambientação da cena da casa da personagem. Também não há por parte do público reclamação quanto ao conteúdo sexual explícito da série nem ao comportamento de homem, e em especial, das mulheres mas acho que devido a baixa audiência e ao horário da série (depois das 23 horas).

O fato é que um sexo livre e bacana na tevê parece ser ainda um privilégio da elite branca numa estética bem glamourizada.  Quanto ao resto da série perdeu um pouco de ritmo, vamos ver se com as investigações engrenando as coisas fiquem tão boas quanto a trilha sonora.

Clarina e a família brasileira

E lá se foi a  novela mais chata dos últimos tempos. Ok, na verdade, a novela mais chata e ponto. Ganhou de lavada de todas. Até a última semana foi morna, até o último capítulo, zero surpresa, zero reviravolta, zero emoção digna de nota.

Tento avaliar o aspecto que poderia ser mais positivo: levar ao público a visão positiva de um casal lésbico, mas pela forma que a trama foi conduzida nem isso conseguiu. Talvez se Maneco tivesse optado por outras soluções dramáticas e tivesse um mínimo de coragem as coisas fossem diferentes.

Os questionamentos mais frequentes se referem ao Cadu, personagem de Reinaldo Gianechinni, um cara reconhecidamente gato. A pergunta de sempre: que mulher largaria um gato daqueles por outra mulher? Vamos lá pra FAQ lésbica da vida real.  A sexualidade humana não é um negócio assim fechadinho, sabe? As pessoas que se permitem experimentar muitas vezes se descobrem bissexuais, gostam de pessoas dos dois sexos e isso pode ocorrer em diferentes momentos da vida. Ademais, casamento acaba simplesmente porque acaba. Vários são os motivos, viram irmãos na mesma casa, vários conflitos de personalidade, tédio e são tantas coisinhas miúdas… Mas ahhhh, a família… Olha, as pessoas se separam e os filhos sobrevivem. E bem, sabe? Assim na vida real como na novela, caso do garotinho Ivan. Tudo depende de como os pais levam a separação. Sobre o sexo lésbico temos aqui no Biscate mesmo um ótimo post, sim, é possível e ótimo um sexo sem pinto.

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Cadu entre Clarina (foto do facebook da Giovanna Antonelli)

Mas quanto à novela, Cadu era uma cara que sonhava alto mas sempre metia os pés pelas mãos, era infantil, isso no começo da novela, era perfeitamente possível e aceitável que exatamente por isso o casamento tivesse acabado e estivessem juntos só pelo filho. Quantos casais vivem assim? Mas o público não aceitou que o fofo Giane fosse trocado, veio a doença do personagem e paf! Giane se tornou um cara maduro e bacana. Mágica de novela!  Daí ficou mais difícil ainda pro público careta, homofóbico, lesbofóbico, entender porque Clara deixou de amá-lo e amava uma mulher. Mas olha, juro que isso acontece na vida real, viu? Porque tem gente que ama pessoas, não gêneros. Simples assim. E amor começa, e acaba, e tem que ter tanto coragem pra começar quanto pra terminar e, sim, as crianças vivem muito bem se tudo isso for dito a elas ao invés de… e fomos felizes para sempre (o que na grande maioria dos casos é uma grande mentira). Aliás, essa cena foi muito bem resolvida na novela, Clara contando ao filho que iria casar.

Então, o grande público que detestava ver, de novo, um casal homossexual, aguentou porque não tinha nenhum toque explícito, só um selinho e agora leio comentários nos sites especializados em tevê sempre reclamando de uma suposta invasão homossexual nas novelas.

Por outro lado o casal foi queridíssimo por outra parcela do público que formou até fã-clube e shippou (juntou) as duas formando o casal #Clarina (Clara+Marina) torcendo pelo amor das duas, e subindo várias vezes a hashtag no twitter. Realmente, aleluia, o mundo mudou. Mas nem a emissora, nem o autor me pareceram dar muita bola pra fãs não, infelizmente, porque poderiam ter explorado muito mais o romance entre as duas. E digo por explorar terem mostrados cenas românticas mesmo e não sexuais (já que parece ser demais e não é para o horário).

Olha, e não é invasão gay, é o mundo real. Graças a muita luta, e muita dor nessa luta, as pessoas estão saindo dos armários e vivendo a vida que todos vivem, se abraçam, se beijam, se casam, vão ao mercado, criam filhos e a novela, como produto de sua época, só espelha isso. Então, seja bem vindo o novo casal gay, Zé Mayer e Klebber Toledo em Império e que tenham melhor sorte. Ao menos não se casarão com vestido igual e que se parece com o das discípulas de Inri Cristo…

As Inrizetes

as Inrizetes

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

Annie Walker

Eu vivo assistindo seriados, acabo me apaixonando por alguns em especial. A menina dos meus olhos de agora é o seriado Covert Affairs. O motivo, bem, sempre fui louca por séries policiais e por enredos que trabalhassem com FBI e a CIA, com agentes infiltrados. Mas, sempre faltou uma personagem forte, que não fosse frágil e secundária, que fosse uma protagonista a altura. A agente Annie Walker (Piper Perabo) fez eu me identificar com ela.

Annie Walker

Annie Walker

Uma mulher inteligente, com seus vinte e poucos anos, que tem um emprego “masculino”, agente da CIA que trabalha em campo, sem parceiro para ajudar. Sei que é uma realidade longe da minha, ou de muitas outras mulheres, mas me sinto feliz ao ver uma mulher na posição de protagonista em uma série desse tipo. Todas as outras séries atuais com personagens mulheres que são agentes têm uma fragilidade, têm parceiros, não vejo uma protagonista tão forte e presente quanto ela desde o seriado Cold Case.

Annie é uma mulher inteligente, vive na casa de hóspedes de sua irmã, trabalha como agente secreta, então sua família não sabe. Todos acreditam que ela é curadora de um Museu. Interessante que sempre que assisto lembro do 007, uma agente secreta que trabalha sozinha.

Annie, sua chefe, Joan  e Auggie, seu colega de trabalho.

Annie, sua chefe, Joan e Auggie.

Sua irmã se preocupa por ela trabalhar demais e não conhecer caras interessantes: mal sabe ela que Annie tem vários casos rápidos, afinal, são em suas missões. Diferente de sua irmã, ela é mais solitária. O que, na série, não é melhor nem pior que ser casada e mãe, só é diferente. E a escolha de uma não atrapalha a vida da outra, são companheiras e irmãs.

Além de Annie e sua irmã temos muitas personagens femininas: sua chefe, Joan Campbell, também é uma personagem interessante, uma chefe um tanto quanto mandona, mas no fim das contas, ela age assim para reforçar que ela não é apenas “esposa do seu chefe”. São personagens mais profundas e muito maiores que mulheres indefesas de séries comuns. Na verdade, todxs xs personagens da trama são complexxs. Por isso gosto tanto de Covert Affairs. Estou cada dia mais apaixonada pela série.

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