A misteriosa tabela entre a caixa de retalhos, a bola e a descoberta da liberdade

Por Fernando Amaral*, Biscate Convidado
#BiscateandoEntreAsQuatroLinhas #BiscateFC #2anosBiscateSC

Quase que o apito, final. O ano. Abro jornal, correio, caixa de email. Caixa de costura… Gosto de ler sobre futebol. Zilhares de metáforas, que bem cabem em tudo. Das analogias, com a vida, com a guerra, com o amor… O meia que costura. A meia costurada, cerzida. Urdiduras…

coração bola

“A menina cresceu, mas ainda hoje, como todo atleticano, quando ouve um estouro de foguete, grita: GALOOOO!!!! “. Em maio de 2012, nos primórdios do blog, fomos convidados a escrever sobre nosso time do coração. E eu encerrei meu texto, Paixão em Preto-e-Branco, com essa frase. E outro dia, no Facebook, uma amiga, de São Paulo, que mora em BH, falava sobre a estranha mania dos belorizontinos de gritar GALO, do nada, em coro. Só que não é “do nada”, especialmente nesse final de ano: 2013, TREZE, é GALO, é CAMPEÃO DA LIBERTADORES, campeão das AMÉRICAS… e o final do parágrafo acabou no Raja, um time africano desconhecido para nós, que só olhamos para nossos próprios umbigos, um time africano que derrotou o Atlético e cujos jogadores disputaram um sorriso do Ronaldinho Gaúcho, reconhecendo o talento mundial. Pena que nós subestimamos o talento deles, todos, e não mostramos futebol nenhum. De toda forma, ainda assim, 2013 foi o ano do Galo, vencendo o título inédito e nos fazendo cada dia mais ter orgulho de torcer para o Clube Atlético Mineiro.”

Fui lá. Fui tentar entender, buscar, compreender, desenhar, rascunhar, chorar e mais um monte de verbo tudo junto misturar. Nesses dois anos foi sempre assim. Um texto ali e outro ali, estórias e histórias, por mais que saiba que as regras da gramática, do vernáculo, da boa escrita, teimam em afirmar que as primeiras não existam mais. Mas regras… quem acostumou a menstruar sabe bem que nem sempre…

“Ser tricolor vai além de ser um resultado prático de animação por cheer leaders eletrônicas ou por ufanismos bestas, não é um sintoma de arrogância clubística cortejada pelas redes nacionais de mídia, menos ainda é cortejar felicidades iludidas aliando-as ao abandono quando navegamos pelos vales da sombra da morte. É mais do orgulho histórico de sermos ela, a História, com seus erros e acertos, com suas dúvidas, lambadas e rebaixamentos, com a lama nos sapatos, na alma, na camisa. É mais do que nos ater a Dons Sebastiões rotos e esfarrapados como ex-deputados sujos de charuto e de manobras. É mais do que portar o estandarte de uma glória inexistente, de museu mesmo, e arrotar uma grandiosidade ao mesmo tempo que abandona as parcas cores por que o amor de sua vida não repete o que Anjos de Pernas tortas fizeram em passado longínquo. Ser tricolor é, antes de tudo, Ser. Ser tricolor é cantar, com Candeia, que “de qualquer maneira meu amor eu canto, de qualquer maneira meu encanto eu vou cantar!”

Mas que textos! Já chorei, ri, compartilhei, amei e até odiei. E sou outra agora. Depois de dois anos, aquela que achava que certas cousas eram importantes, mas não fundamentais, mudou de lado, de escrete, de time. Já me chamaram até de feminazi, numa idiotia de quem não quer entender para além do próprio umbigo. E da própria impressão que faz de si mesmo. Para nosso espelho quase sempre somos lindas, lindos, perfeitos, engajados até. Aprendi, firme, que não: fundamental. A velha anotação: o time joga, perde uma, perde outra, ganha uma, ganha outra, mas é, também, o campeonato que disputa.

Mais de ano e meio depois deste texto aqui, o que ali estava desenhado se concretizou: a despeito de um título de Copa do Brasil sofrido e até heroico, fizemos uma péssima campanha no Brasileirão e caímos à B. Subimos, é verdade, e em 2014, ano do centenário, estaremos de volta à elite. Muito provavelmente para ser um ano centernada e com sérios riscos de disputarmos o Tri da Série B em 2015. Mas, isso pouco importa. Na alegria e na tristeza; na saúde e na doença; na moderna Arena de nome alemão ou nos maltratados campos estado e país afora; continuaremos sofrida mas apaixonadamente cantando:  “Palmeiras minha vida é você….””.

Da primeira vez que me chamaram “biscate”, doeu. Opa, se doeu! Porque ali naquela palavrinha havia um adjetivo. Uma consideração, uma opinião, um rótulo, um pré: conceito. É difícil, muito, mesmo, sempre, sentir esta labareda que sobe o ventre, molha o sexo, explode no coração, muda a entonação do cérebro. Hoje sei, “biscate” é substantiv(a). Mais que palavra que só acompanha. Mais que palavras… Mais do que os jogos, bem mais que os jogos.

“Em 2012, quando tivemos o especial de futebol no Biscate, o Atlético Paranaense, meu Furacão, amargava a segunda divisão no Brasileiro. Hoje não só estamos na primeira divisão como conquistamos uma vaga na Libertadores. Fizemos uma final inédita contra o Flamengo na Copa do Brasil (parabéns pelo teu rubro-negro Luciana!) e temos, no elenco do time, o artilheiro do Brasileirão 2013. Ser torcedor do CAP – Clube Atlético Paranaense – é viver com o coração na mão, entre altos e baixos, mas nunca, jamais, despir a camisa rubro negra que, como diz o hino do time ‘só se veste por amor’.”

Fui aqui escolhida, e confesso lisonjas, bela, nua, inteira, para escrever nestas festas de dois anos deste blogue linda. Fêmea. Plural. Legal, de bom e não de de direita – feminino de direito ou definição ideológica do palco da revolução. E resolvi que neste texto seria ela, que acaba por muitas vezes e muitas vezes tentar compreender o que se passa por uma cabeça feminina.

“Em maio de 2012 o Brasil de Pelotas estava na segundona do Gauchão e tinha ganho na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Depois disso foi rebaixado para a série D pelo STJD, entrou na justiça comum contra a CBF e a FGF, e se segurou enquanto pode enfrentando a cartolagem do futebol. Mas sabe comé… índio pequeno – mesmo guerreiro – num mar de tubarão… virou isca pra peixe. 2012 encerrou sem títulos, como sempre; mas com promessas e o crédito da torcida, como sempre. Finalmente, em 2013 voltamos à elite do Gauchão. Brasileirão? Sei lá… Andando pro Brasileirão. 2014 teremos de novo o maior clássico do universo futebolístico: o BRApel, e… “nós esse ano vamos vencer, salve o Brasil, o campeão do bem-querer”! Eu acredito.”

coração costurado

Aprendi muito das mumunhas nesses dois anos: a simples “conferida” pode encerrar um conteúdo político, sexista, machista, feio. E eu, que sempre gostei de olhar, admirar, paquerar, brincar, começo a pensar que seria muito linda a noite depois da revolução. Onde estas questões se resolveriam sem medos, receios, tolices, mas sem opressão, caralho de qualquer tamanho, tamanho qualquer de quadril. O jogo, a bola, a jogada arquitetada – ou intuição, talento, faro, tino.

“Entre maio de 2012 e dezembro de 2013, algo não mudou no Grêmio: a “seca”. Não ganhou absolutamente nada. Sequer um turno do estadual. Nem mesmo o grupo da Libertadores de 2013: ficou em segundo lugar, atrás do Fluminense. Mas nesse tempo aconteceram importantes mudanças. Paulo Odone felizmente deixou a presidência, para o retorno de Fábio Koff. Também houve a inauguração da Arena, em dezembro de 2012. Um belíssimo estádio, sem dúvidas, que oferece muito mais conforto que o Olímpico. Mas lá falta algo: alma. Parece um lugar mais voltado ao consumidor do que ao torcedor. Onde um cachorro-quente bem fuleco (eis um bom uso para o nome do mascote da Copa: como palavrão) custa os olhos da cara. Onde a norma é assistir ao jogo sentado em uma confortável cadeira… Como se estivesse em casa. Mas se é para assistir “como se estivesse em casa”, por que ir ao estádio? Minha última partida no estádio foi em abril: Grêmio 0 x 0 Fluminense, pela Libertadores. Nunca passei tanto tempo sem ir a um jogo do meu time. Talvez volte em 2014, já que tem Libertadores de novo (e num grupo difícil pra caramba). Dizem que o estádio é nossa segunda casa, mas a verdade é que agora me sinto mais em casa assistindo no buteco, junto com aqueles que não podem pagar caro por um ingresso.”

Estou aqui a cerzir. Costurar cousas neste canto de sala que tem meu computador, alguns livros, dicionários. Cerzir, fantasiar sobre tecidos puídos. Costurar, que as etiquetas todas dão como tarefa de menina porque “banal”. Enquanto que o alfaiate faz o chique, o soberbo, o diferente. Tão simples de entender as razões desses significados, destas dicotomias… mas que demora tanto quando a gente simplesmente não quer tentar entender. O passe está lá, a redonda também… o que nos impede de jogar o fino?

“Há dois anos escrevi sobre o Vasco. Ainda assinei com meu pseudônimo, Letícia Fernández, e me empolguei falando do orgulho de ser vascaína. Falei dos cem anos de história do meu time. E é exatamente essa história que vem sendo apagada hoje. Preciso explicar? Todo mundo viu a barbárie do último domingo do campeonato. Meu time do coração caiu para a segunda divisão, e isso não é nada perto do que aconteceu. O Vasco não caiu de pé; pelo contrário, caiu em meio a muita violência e vergonha. Continuo vascaína, porque torcer por um time é um amor que não se explica, mas, agora, não carrego a cruz de malta com nenhum orgulho. Minha torcida, agora, não é por gols, mas sim por decência no clube do meu coração.”

E quando me convidaram para escrever, que beleza, resolvi que seria Alfaiata. Minhas fazendas e vestidos nesta festa de comemoração: falar de futebol! Alfaita, treinadora, professora, lutadora. Tática, métrica, ponto, linha, agulha, ponta de lança, artilheira, zagueira, goleira, comentarista, corneteira… biscate.

“Transição. A palavra serve para definir o que foi o Santos de 2013. Com um presidente que já vinha se afastando por problemas de saúde e agora definitivamente licenciado, além de um técnico cansado e cansativo saindo do clube, o torcedor teve que ver seu maior craque pós-Era Pelé ir embora justamente para o clube catalão de tão amarga lembrança. Foi a saída do gênio ainda garoto que determinou a queda de Muricy, a quem o santista tem gratidão pela Libertadores de 2011, mas pelo qual nunca teve reverência, por conta de seu DNA nada ofensivo. E o samba de uma nota só caracterizado pelo refrão “bola no Neymar que ele decide” deixou de existir, dando lugar a um time comandado por um maestro ainda inexperiente, Claudinei Oliveira, que talvez tenha grande futuro à frente de outras orquestras. Fez o papel que lhe cabia, e era o que se podia fazer, lançou jovens e recuperou jogadores experientes, como Montillo. Deixou um legado (palavra da moda) e o torcedor alvinegro pode ver um Santos mais afinado com alguns reforços em 2014.”

Futebol que se define macho. E por isso, bestializam – no sentido de feras animalescas e não no bestial de estupendo, fenomenal, maravilhosa. Naquilo que podemos fazer, o melhor que faríamos, era desmachar o ludopédio. Porque a bola, é fêmea. A meta, mulher. A torcida, a peleja, a vida, a paixão, a desmedida. Olha que linda a partida, olha que maravilha, que bestial. Plural, porque coletivo. Singular, porque comum de gêneros.

Não pense que estou dizendo isso pela proximidade do “ano novo”, estou dizendo essa frase desde junho, aliás desde junho eu gostaria que o ano acabasse… Sem casa e sem comando, o meu AMOR se perdeu, tropicou, quase caiu /o\ Briguei, xinguei, chorei..agora passado o susto , quero que venha 2014 e que o velho-novo GIGANTE seja o palco da nossa reconciliação. Te amo INTER, meu CAMPEÃO DE TUDO, e sei que o GIGANTE me espera para começar a festa!!!!”

E mais, não me cabe só falar – escrever – sapatear – brincar – sobre o futebol. Outra das missões era costurar um conjunto de parágrafos e linhas descritos sobre nossos times, nossos casos de amor, nossas camisas. A minha são-paulina e as outras. Biscates que somos! E não é porque este campeonato brasileiro acabou que a linha deixou de ter sentido. O novelo todo, segue lá, necessário. Alias, já houve um “biscateando nas quatro linhas”, uma série de paixões moventes que encantou o blogue no ano passado e que inspirou este brigadeiro.

Em 2012 eu escrevi que eu torço Flamengo pra sentir tudo mais vivo e feliz em mim. Há uma magia em saber-se Flamengo. Digo sempre que cada clube tem seu estilo. Entra e sai jogador, passa o tempo, o time muda, mas há alguma coisa, intangível e específica, que permanece. No meu Mengo é a vocação para a leveza. Meu time me faz feliz quando joga assim: leve, alegre, com vontade de vencer, sem medo de perder. E foi assim que o Flamengo venceu a Copa do Brasil de 2013, com essa ousadia, essa vontade de um pouco mais. Foi o primeiro campeão do “novo” Maracanã – e por mais que se conteste a forma e o processo dessa transformação, é ainda belo que o time que tem o Maraca como casa inscreva na História seu nome de campeão. Torcer Flamengo. Amar o Flamengo. É quem sou. A alegria rubro-negra, pra mim, só equivale à alegria do grande amor. Aquele que tira o fôlego, o eixo, o norte, os pés do chão. Aquele amor de sempre ou o amor de agora. O amor de pra sempre, o amor de uma rapidinha no banheiro do bar. O amor dos que se conhecem sem falar e os que não param de falar pra tentar chegar mais perto. O amor dos iguais, o amor dos dessemelhantes. O amor de alma, o amor de corpo. A alegria rubro-negra equivale à alegria do amor que é gozo. A alegria rubro-negra é a do amor biscate. é de dançar na rua e do coração sambar no peito. Eu sigo alegre.”.

Vamos lá, cerzir pedaços. Construção. Jogada. Defesa, meio campo, ataque. Tática, estrutura, resultado, método. Aqui a agulha, a caneta, o teclado, a chuteira, o boteco. Parabéns para todas nós. Biscateando, sambando, vivendo: “Gooooooooooool”.

biscateando entre as quatro linhas

Os textos foram costurados e são: Da Renata Lima, o do Galo. Do Gílson, o do Fluminense. Do Daniel Nascimento, o do Palmeiras. Da Cris, do Furacão. Da Niara, do Brasil. Do Rodrigo, o do Grêmio. Da Nádia, do Vasco. Do Glauco, o do Santos. Da Suzana, o do Colorado. Da Luciana, do Mengo. E eu, que são-paulino.

fernando_amaral *Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

Pequeno Compêndio sobre Questões Táticas no Futebol

Brasileirão da Biscatagem
Fernando Amaral*

Durante muitos anos o que unia Marta, Gasolina e Diego era uma amizade colorida, um festerê danado, uma alegria gostosa do descompromisso gostoso. Ninguém sabia muito como aquela história começara, nem quem deu o primeiro flerte, muito menos quem sugeriu ideias de triangulações como forma de tornar o jogo mais prazeroso. O fato é que Marta, libertária como tal, era sempre a indicada como responsável pelo fuzuê. Embora alguns insistam numa versão mais endemoniada da história, pois Diego tinha uma capacidade universal de fazer milongas, de floreios e romances tempestuosos. Mas também era inegável a vocação do Gasolina para o gol… e este apetite nunca poderia ser desconsiderado para justificar aquela peleja tão sinuosa que os três participavam, divertiam-se, encantavam. E, sincera e honestamente, este encantamento entre eles gerava mais encantamento. Era difícil não gostar e não torcer por eles.

Marta era daquelas mulheres inesquecíveis.  Era fantasista, cerebral, ousada, corajosa, tratava a pelota com esmero, com gala. Tinha um faro de gol incrível. Eram numerosas as histórias de parelhas árduas resolvidas por soluções simples, mas absolutamente geniais. Assim era Marta, que ademais falava inglês, sueco, português e se tivesse que aprender italiano resolvia o trem em uma semana.

Gasolina, moço da pele preta, era definitivamente um homem de superlativos. Genial, objetivo, contumaz. Fazia gols como quem respira e era o homem das jogadas espetaculares. Para Gasolina não tinha zagueiro. A vida se apresentava e ele, com gala, com altivez e com aquela soberba de majestades, seguia adiante. Jogava o fino. Na verdade, desconfio, era a própria pelota em forma de gente.

Já Diego era mágico. Sim, a definição para aquele moço só poderia ser esta: mágico. Uma habilidade sobrenatural o acompanhava. Ninguém reparava em outra gente se Diego tivesse por perto. “Este tem pacto com o canhoto”, diziam. Devia ser verdade, pois a redonda grudava em seus pés, assim como os problemas, as confusões, as bebedeiras, as intensidades. Além de ser bailarino. Imaginem a confusão, entre sopapos e sapatilhas.

Mas o romance deles, que era uma história de muita fuzarca, liberdade e libertinagem, como nessas brincadeiras de bola em campos de futebol na rua ou nas praças e parques – não tinha muita regra, como todo jogo de recreio com tampa de refrigerante ou bola feita de papel amassado-, começou a ter problemas na mesma proporção em que resolviam estabelecer contratos, pactos, obrigações. Num jogo como estes, anotem, é batata que o ciúme venha empacotado com qualquer “porque você não me passa mais a bola”. E, convenhamos, qualquer ser vivente reconhece que o ciúme degenera qualquer encantamento.

E Gasolina queria ser melhor que Diego. E os dois resolviam pavonear. E quando pavoneavam, ainda que sem querer (não esquecendo às vezes em que isso acontecia por querer…) tratavam Marta como um bibelô, como um brinquedo para se ter. E nessa moléstia, acabava a elegância, sobrava bravata. Num jogo assim, sabemos, o vaticínio é o gol contra.

E aquela belezura de antes começou a ficar chata, tipo comercial de margarina: tudo lindo, maravilhoso, perfeito, mas nunca mais manteiga. E foi perdendo o viço, as cores e por fim, até, não jogavam mais se não fosse para competir. Dava pena, sabia… E como a vida assim vira campeonato, acabou tudo no tribunal de justiça desportiva.

Mas noutro dia a Marta resolveu ligar. Sempre ela, atrevida como só. Arteira, numa breve frase que resumia tudo: “O Campeonato Brasileiro vai começar e seria uma tremenda enorme e retumbante estupidez que nem uma cerveja a gente tome juntos.”.

 “Ô, seu Mané, desce aí umas ampolas que o negócio tá começando a esquentar…”. E o Mané trouxe foi um engradado cheio: “Vai faltar João”.

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*Fernando Amaral é um advogado paulista de rara sensibilidade. Se define como alguém que gosta de ler e escrever e é pai de dois caras supimpas. Torcedor do São Paulo, gosta de papo, chope, torresmo, listas, cinema, Chico Buarque, Deep Purple, Jamelão, Charlie Parker e mais um tantão de coisa. Conheça seu blog e o acompanhe no tuíter @Quodores.

O campeão do bem-querer!

Brasileirão da Biscatagem
Brasil de Pelotas, Niara de Oliveira

Nasci numa família dividida entre gremistas e colorados. Os homens todos gremistas talvez expliquem a minha aversão pelo tricolor gaúcho, talvez seja o azul, não sei. Fato é que nunca entrei nessa disputa e cheguei a cogitar torcer por um time que não fosse gaúcho. Mas sem ver de perto e sem poder manifestar e nem com quem dividir a paixão o futebol perde muito da sua graça.

Tinha dezoito anos quando um grupo de amigos petistas estava combinando um churrasco  bem próximo da Baixada para ir depois ao jogo. Animei de ir, talvez mais pelo frege e pela curiosidade que sempre tive de ir no mítico Estádio Bento Freitas. Era um domingo sombrio, bem do tipo que gosto, quase chovendo. E ali, no meio da mais apaixonada torcida de futebol era impossível não se apaixonar também, e desde então meu coração é Xavante.

Títulos? O Grêmio Esportivo Brasil de Pelotas foi o primeiro Campeão Gaúcho, em 1919. Esse permanece sendo nosso principal título. Né… Fazer o quê?

Como um time consegue manter uma torcida tão apaixonada e fiel sem títulos? Ninguém sabe. Esse mistério não pode ser explicado, só sentido. Só estando na Baixada, em meio àquela torcida rubro-negra, barulhenta e exigente — sim, não tenham dúvidas disso — é possível explicar o que é ser Xavante.

Quando quero contar quem é o Brasil de Pelotas para quem nunca ouviu falar, falo do nosso maior feito: o terceiro lugar no Brasileirão de 1985, que incluiu derrotar o Flamengo não por sorte, mas por competência. E não era qualquer time. Era o Flamengo de Fillol, Mozer, Leandro, Adalberto, Tita, Zico, Adílio, Andrade, Aílton, Bebeto e Chiquinho; treinado por Zagallo. Foi esse time que o Brasil de Pelotas inacreditavelmente venceu na Baixada por 2×0. O time Xavante vencedor? João Luís, Jorge Batata, Silva, Hélio, Nei, Dias, Alamir, Lívio, Canhotinho, Márcio, Doraci, Bira (25’/1) e Júnior Brasília (86’/2) treinado pelo lendário Valmir Louruz. O Brasil perdeu o jogo de volta no Maracanã por 1×0, sendo que foi um gol de pênalti do Bebeto.

Se fosse hoje, onde os jogos são de 180 minutos, talvez o Brasil tivesse ido à final do Brasileirão de 85, talvez tivesse sido campeão. Mas… Se vocês notarem, o Brasil não conseguiu usar seu uniforme principal nem no Maracanã. Valia “a força da camisa”, leia-se o poderio dos grandes times de futebol.

Tem ainda a história da quase troca de Joaquinzinho por Pelé, história curiosa do futebol brasileiro. Joaquinzinho, craque do Brasil de Pelotas, interessou ao Santos, que na proposta de compra incluiu o empréstimo de Pelé na negociação. O Brasil pediu muito dinheiro pelo passe e o Santos desistiu do negócio. Joaquinzinho acabou indo jogar no Fluminense e depois no Corínthians. A história é confirmada por Pelé.

Não sei se a placa ainda está lá, e infelizmente eu não tenho mais a foto, mas ao chegar a Pelotas, próximo da Polícia Rodoviária, existia uma placa dizendo: “Bem-vindo a Pelotas. Aqui de cada dez habitantes, oito são Xavantes!“. Não sei se a proporção é exatamente essa (já teve até proposta do Cão Uivador de que a cidade adote o escudo do GEB nos órgãos públicos — proposta muito justa, por sinal), mas é mais ou menos isso. Diferente da grande maioria dos municípios gaúchos que se dividem entre tricolores e colorados, nós temos a nossa própria rivalidade. E Pelotas, além do arqui-inimigo Lobão (EC Pelotas), tem ainda o Farrapo (GA Farroupilha).

Por que o Brasil é tão popular em Pelotas? Bueno, lembrando que Pelotas é a cidade mais negra do Rio Grande do Sul e que a história de riqueza das Charqueadas foi construída à custa do trabalho escravo, talvez uma parte da letra do nosso hino — composto em 1956, pelos músicos José Costa e Victor Jacó — explique:

“Brasil, Brasil, Brasil
As tuas cores são nosso sangue nossa raça”

Entre as minhas lembranças mais ternas está eu cantando (não se iludam, só a lembrança é terna, eu canto muito mal) para ninar o Calvin quando ele era bebezinho (eu cantava o hino da Internacional também…). Agora que estou longe de Pelotas, ouço os jogos pelo rádio, via web. O Brasil está disputando nesse momento a segundona do Gauchão e acabou de ganhar na justiça o direito de disputar a série C do Brasileirão. Ou seja, só amor explica.

É assim que os jogadores na Baixada comemoram as vitórias, junto da torcida.

E só o amor imenso de sua torcida poderia fazer o time superar seu pior momento, que foi o acidente com o ônibus do time em 15 de janeiro de 2009 que vitimou o zagueiro Régis, o treinador de goleiros Giovani Guimarães e nosso maior ídolo, o atacante Claudio Milar. Após o acidente, o Brasil de Pelotas perdeu todos os jogos que disputou pelo Gauchão e caiu para a segundona sempre apoiado e aplaudido pela torcida Xavante.

ídolo Milar fazia esse gesto na comemoração de seus gols

Por que Xavante? Após a vitória do Brasil num BRAPEL em 1946 por 5×3 (havia terminado o primeiro tempo perdendo de 3×1, na casa do adversário) “a torcida vencedora não se aguentou nas arquibancadas, atropelou o alambrado e invadiu o campo para comemorar. Vendo toda aquela euforia, quase que descontrolada, um dirigente áureo-cerúleo (do Pelotas) comparou a festa em vermelho e preto ao filme “Invasão dos Xavantes” (em cartaz naquela época), dizendo: “eles foram um bárbaros ao final do jogo, pareciam uns Xavantes”. Irreverente que é, a torcida rubro-negro ignorou o tom pejorativo da expressão e adotou a simpática e querida figura do Índio Xavante como mascote do Brasil.”

Essa história de termo pejorativo ser adotado com orgulho e usado a seu favor, nós biscates conhecemos bem, né?

Mais sobre a história do Brasil de Pelotas? No site Xavante.

PS: Esqueci de dizer… O Felipão não iniciou sua carreira como técnico de futebol no Brasil de Pelotas, mas sua passada pela Baixada foi decisiva. Foi lá que ele conheceu seu fiel escudeiro Flávio Teixeira, o Murtosa, que é pelotense.

É de pelada que elas gostam!

Por Amanda Vieira*

Amanda (a primeira de camiseta branca da esquerda pra direita) e suas parceiras de futebol, em Brasília

Ela saiu de casa com aquela meia 3/4, que cobre a perna até o joelho e deixa um pedação das coxas pra fora. As unhas ainda estavam lindamente pintadas, mas a maquiagem estava visivelmente vencida. Andava com pressa, flutuando de alegria ao deixar uma pia de louça suja para trás. No meio do caminho o celular tocou. Ela apertou os lábios, olhou para o céu e soltou:

– Será que hoje vai dar quórum?

É assim que, aos poucos, a pelada das mulheres vai se formando. Algumas saem direto do trabalho para o jogo, outras levam os filhos, os maridos, as namoradas, as vizinhas, as chegadas – tem até as que aparecem do nada, sozinhas, sem avisar previamente: simplesmente elas chegam! E são bem recebidas – se os times estiverm completos, ela fica de próxima, no revezamento, sempre há um jeito de agregar uma visitante.

Algumas mulheres amam jogar futebol. Não pra acompanharem seus maridos ou terem um assunto em comum com homens: amam jogar futebol por motivos que dizem respeito somente a elas. O futebol pode ser vivido como um prazer puro e simples, mas também pode servir como um momento de relaxar as tensões do cotidiano, como um ritual sagrado de confraternização com outras mulheres e até mesmo uma forma lúdica de perder calorias e manter a forma, por que não?

O que nenhuma mulher gosta é de preconceito: nenhuma mulher deixa de ser mulher por jogar futebol, nenhuma mulher pode ser discriminada por cometer o crime de jogar bola. O futebol amador vem revelando jogadoras fantásticas – por que ainda se paga tão pouco para as que decidem se tornar profissionais? O que justifica essa desvalorização absurda?

Quando você encontrar mulheres jogando bola, fazendo embaixadinha ou treinando pênaltys, lembre-se: ali estão mulheres felizes. É futebol de valor, honesto e raro: ver mulheres felizes não tem preço!

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* Amanda Vieira é jornalista, paulista dando o ar de sua graça e profissionalismo em Brasília, mãe da fofa Sofia, feminista, de esquerda, ativista das lutas essenciais e justas e uma das pessoas lindas desse mundo que ajudam a mantê-lo habitável, “fazendo castelos de areia e soprando as brincadeiras dos outros”. Dá uma espiadinha no seu blog e a acompanhe no tuíter em @amanditas1904.

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