Visibilidade lésbica. Porque nós nos recusamos a sermos invisíveis.

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Lésbica, sapata, fancha. Sapatão. Butch. Gobi, para xs baianxs. Somos, não importa o nome, mulheres que amam mulheres. Mulheres cis e trans que se relacionam com mulheres. Mulheres que fazem sexo com mulheres. Somos, assim, sapatonicamente, inteiras em nossas sexualidades e desejos. Femininos. Ou nem tanto. Não importa a classificação que se queira dar, não somos enquadráveis. Somos muitas. De todos os jeitos, cores, trejeitos, números, vestimentas. Amamos. Desejamos. Pulamos nesse mar, para nadar a perder de vista.
Nós existimos. Temos amores, famílias, trabalhos, dores, delícias. Temos corpo, temos rostos, temos história. Andamos pelo mundo, estamos nos bares, nos ônibus, em um lugar bem perto de você. Até dentro da sua casa, mesmo que você não queira ver. E já é hora de não nos escondermos mais. De transitarmos por aí como somos. De amarmos livremente, sem estarmos confinadas em guetos ou armários empoeirados. Porque já basta.
Foto: Coletivo lesbitoca

Foto: Coletivo lesbitoca

Essa é a semana de visibilidade lésbica e o dia 29 de agosto representa uma importante data de luta contra a lesbofobia. Essa data foi criada no 1º Seminário Nacional de Lésbicas em 1996, é um marco fundamental para o registro da luta de mulheres que têm seus direitos violados por sua orientação sexual no Brasil.

Nessa semana de visibilidade lésbica estamos aqui para pedir respeito, para lutarmos pelos nossos direitos civis, sexuais e de liberdade individual. Nossa Constituição nos garante proteção e a opressão, qualquer opressão, física ou moral, é totalmente ilegal. E nós estamos aqui e resistimos. Nosso amor é resistência. Nosso amor é luta. É tesão. É parceria. É tudo junto. É humano como qualquer outra forma de amor que, como já tanto se cantou: sempre vale a pena.

Guarde seu preconceito no bolso, para ser educada. Não importa a sua crença religiosa, seu recalque, sua mentalidade. Vivemos num Estado de Direito que optou por respeitar os direitos humanos  (graças às deusas) e nos garantir liberdade e direitos plenos para vivermos como somos. Afinal, ninguém paga nossas contas e a moral é problema de cada umx. Moral não confere o direito de ninguém nos julgar ou ofender ou tolher. Beijo no ombro.

Coletivo lesbitoca

Coletivo lesbitoca

E estamos aqui para dizermos que não seremos mais invisíveis. Como afirma o coletivo lesbitoca: não queremos mais viver na invisibilidade. Ou melhor, como bem dizem as meninas lesbitoqueiras, nós nos recusamos a sermos invisíveis. Existimos e exigimos respeito. Essa é a nossa luta e essa é a nossa vida. E não pararemos até que nenhuma mulher mais sofra violência por ser quem é.

Acostumem-se conosco, porque nós não voltaremos, nunca mais, para a invisibilidade. Os armários estão de portas abertas e a gente continuará a existir e a resistir. Pela vida das mulheres, pela liberdade das mulheres, pela sexualidade livre das mulheres. Keep calm and respeita as sapatão!

Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal

Algumas ideias soltas sobre tudo isso que está aí

– Eu não sei para que o meu corpo foi feito. E, sinceramente, não me interessa. O que gosto e sei (ou vou descobrindo) não é para que ele foi feito (sai de mim, determinismo biológico, esse corpo não te pertence) mas o que faço com ele, o que ele pode fazer, o que gosto de fazer, o que gosto que façam com ele, o que não preciso fazer, o que não quero fazer e por aí ladeira abaixo e cama acima. Blá blá blá corpo feminino feito pra procriar/gestar/alimentar… Samuel tem 18 anos e já não mama, me mato agora? Meu corpo é e eu sou meu corpo e no meu corpo, mas não é apenas ele que me determina, nem a minha identidade, nem meu desejo ou possibilidades.

– Liberdade sexual é ser livre pra fazer sexo quando quiser, como quiser, com quem quiser – se a (s) outra (s) pessoa (s) envolvida (s) também quiserem. Primeiro, o óbvio: o “quando quiser” também comporta o nunca, o vez em quando, o só essa vez e todas as demais variáveis temporais… o quando não quer dizer sempre #ficadica. O “como quiser” não implica em dar de quatro ou não dar de quatro, nem se deu de quatro tem que dar sempre de quatro, etc, etc, etc… como as pessoas envolvidas quiserem não precisa ser pautado em regras externas de movimentos sociais, sejam eles legais como forem. O “com quem” compreende o dou pra todo mundo mas não pra qualquer um #leiladinizfeelings, o com quem quiser não significa com quem me quiser, embora eu possa usar isso como critério, se eu assim o desejar. Isso posto (eu que julgava desnecessário, mas parece que não é), acrescento que acredito que liberdade não é (apenas) um fenômeno individual. É um processo de construção coletiva. Liberdade não é uma condição estanque, é um processo relacional e dialético. Manifesta-se na individualidade mas se inscreve no contexto.

Sexo é busca de conexão emocional e não é suficiente sermos tocados por quem nos deseja, a gente quer ser amado blá blá blá não fomos feitos para transar a toda hora com qualquer um.  Olha, eu não sei quem é essa gente aí, mas me inclua fora dessa. Meus relacionamentos (e, suspeito, o de todos, mas nem vou meter o bedelho nos alheios) são únicos. Particulares. E dinâmicos. Sei lá eu o que vai ser. Sei o que está sendo e mal e mal. Sinto. E não, não espero o depois. Que, eventualmente, acontece. Porque a vida, a minha vida, é isso, dias que vão sendo e pessoas que vão estando nesses dias que são. E, vez em quando, olho pra estrada e vejo pegadas juntas que vem de longe. Outras, desvios, abraços de despedidas ou mudanças de rumo quase sem notar. Uma estrada hora mais movimentada, hora percorrida sozinha. Chato isso de pegar a sua demanda emocional e generalizar pro mundo e ainda rotular de superficial quem não sente como quem escreve sente. ZZZZzzzzz. E tem essa insistência no “não fomos feitos”, como se o ser humano fosse peça dessas de fazer casa pré-fabricada.

Sexo é melhor quando feito com sentimento. Não fomos feitos para relações vazias. – Ué, eu faço sexo casual com sentimento e o tempo não é nada vazio, ocupamos de maneiras bem divertidas e criativas… Mas, claro, respondo isso de zueira. Porque sei que quando se fala de sentimento, nesse contexto aí, está implícito o “duradouro”. E, quase sempre, vem junto a ideia de que isso “é coisa de mulher”, “qualidade (ou defeito, depende de onde o machismo fala) feminina”. Encontrar alguém na balada, em um aplicativo, na casa de um amigo, ter interesse mútuo e se jogar no rala e rola, onde mesmo que está o impedimento pras pessoas envolvidas nesse processo sentirem respeito, consideração, carinho pelo outro? Se eu respeito, considero e estou aberta ao contato com outras pessoas por elas serem gente, apenas, e não pelo que elas podem ou não me oferecer, não está suposto que também sentirei assim por alguém no vuco-vuco comigo? O que tem o sexo de tão degradante que alguém perderia automaticamente o carinho, respeito, consideração alguém só por ter trocado fluidos, se esfregado, chupado, lambido, sei lá o que mais o corpo da outra? E lá vem a dogmatização do “foi feito pra isso” novamente.

O “fomos feitos para” supõe uma intencionalidade externa a nós. Implica em uma passividade que não me atrai. Tem um deus ali disfarçado nas entrelinhas desse discurso, dá pra ver de relance. Um deus que, não nomeado nem definido, acaba se parecendo com a versão mais propagada e enlinhada na nossa sociedade. Esse mesmo, o que – pelo que dizem em nome dele – não curte que a gente goze. Não curte que a mulher trepe sem ser pra parir com dor. Esse mesmo no qual não acredito nem assino o conversê.

Por mais respeito aos peitos e histórias de cada uma

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Foto da minha história. única. que não cabe a outra mulher.

Estamos na semana mundial da amamentação. Uma semana política importante, que nos lembra da importância do Aleitamento Materno como política para reduzir a mortalidade infantil. Que nos lembra que a indústria do leite, Nestlés e Danones da vida, impuseram uma lógica, lá nos idos dos anos 70-80, que fizeram pressão e lobby junto aos médicxs e fizeram tantas e tantas mulheres acreditarem que não podiam amamentar ou que não precisavam amamentar, para que comprassem produtos e substituíssem o leite materno por leite artificial. Lógica esperta. Movimento feminista, liberdade às mulheres: leite artificial e mamadeira. Lucro garantido.

O que se colheu foi um aumento muito expressivo na mortalidade infantil e em tantas doenças alérgicas, gastro-intestinais, dos bebês. Se a gente fizer uma breve pesquisa em “a verdade sobre a indústria do leite”, no google, leremos coisas impressionantes. Comprovado cientificamente: o leite de vaca não é bem digerido por nós, humanos. Sim, existe um lobby absurdo das indústrias junto aos pediatras e neonatologistas para tirar o leite materno da jogada e vender produtos, coisas que enfraquecem as mulheres, que as oprimem e entristecem. Então, não, nem sempre, não precisamos.

Existem alternativas ao leite de vaca, e as fórmulas prontas. Muitas vezes o pediatra pode ser contestado: “A criança não está ganhando peso, seu leite não é suficiente”; “o bebê precisa do complemento”; “você não consegue amamentar”. Frases que nem sempre acolhem a mulher. As políticas públicas de saúde hoje reconhecem e buscam reverter esse quadro, pelo fato de: promoção à saúde de mães e bebês. Redução da mortalidade infantil. E é por isso, e da mesma forma, que defendo a amamentação: como política de saúde, e nunca como julgamento ou imposição individual. Porque onde o calo aperta, como cada uma consegue apoio e, o mais importante, como cada uma DECIDE sua vida e sua experiência de amamentar ou não amamentar é uma jornada individual e não coletiva.

Minha experiência em grupos de apoio à amamentação foi muito importante pra mim. Participei deles, onde vi tantas e tantas mulheres sendo acolhidas, voltando a amamentar, desmistificando imposições e amamentando livremente, com os peitos de fora e contestando o “não pode”. Eu fui dessas. Amamentei meu filho até os 3 anos, peitão de fora, leite pra todo lado, seja em casa, seja na rua. Ouvi comentários absurdos, críticas, falas atravessadas, “esse menino desse tamanho, credo”. “dá uma mamadeira”. “enfia uma chupeta”. “esconde esse peito”. Não. O peito é meu e ele ficará onde está e como está.

Eu escolhi amamentar por 3 anos: essa foi a melhor escolha para nós e enfiem seus comentários e julgamentos onde eles couberem, não em mim. Meu filho teve o leite materno como um alimento, aumento de imunidade, afago, aconchego e assim serviu para nós. Língua e mais peito de fora. E essa foi a minha história, minha e de mais ninguém. Ainda é muito difícil chegar aos apoios e cada uma tem sua história, seus limites, suas necessidades, seus desejos e seu jeito único, e insubstituível, de maternar. E, não, amamentar não faz ninguém mais mãe, menos mãe, melhor ou pior: vamos abandonar isso aí. Filhxs adotados, alimentados com mamadeira, com chupeta na boca podem ser tão amados quanto, tão cuidados quanto, nem mais nem menos e isso que queria eliminar dessa conversa: comparações e julgamentos individuais.

E é aqui que está minha ressalva e o meu limite para esses grupos todos e de tantas coisas que vi e vivi: o julgamento ao diferente. A condenação individual a mulheres e suas histórias. Uma coisa é brigar politicamente e oferecer apoio, militar, tentar reverter situações coletivas e condutas políticas. Outra é julgar individualmente.

Apontar+seus+defeitos...

Cada uma de nós tem a sua história. E respeitar a história de cada uma é respeitar e defender as mulheres. Se a mãe dá Danoninho para o filho, se ela amamenta até os 5 anos, se ela faz cama compartilhada até os 10, se ela coloca no berço e deixa chorar, se ela dá o complemento, se ela coloca chupeta, se ela isso, se ela aquilo, apenas: não cabe a ninguém julgar. Ninguém está na pele dessa mulher. Ninguém vive a sua história. E a ninguém é dado o direito de julgá-la.

Quando temos filhxs parece que viramos um ser coletivo. Todo mundo pode palpitar “pelo bem da criança”. Todo mundo pode interferir, pode dar dicas que você não quer ouvir, pode te condenar pelo que você não faz. Todo mundo tem uma receita mágica infalível que a criança vai adorar e, claro, viver melhor. De um lado e de outro: “ai, coitada dessa criança que não é amamentada”. “ai coitada dessa criança pendurada no peito da mãe com 4 anos, vai virar um ser humano dependente”. “nossa, esse menino dorme agarrado com a mãe aos 8 anos”. “ai, coitado desse menino que a mãe deixa chorando para dormir sozinho, o que será dessa criança”?

Respeitados os limites legais, claro – não estou falando de abusou ou abandono às crianças, Conselho Tutelar neles -, que tal olharmos para o coletivo, e respeitarmos cada mãe, cada história e cada jeito de ser, ou de não ser, mãe? Cada história é única. Julgar é achar que sabemos o que é melhor para uma história que não é a nossa. Vamos nos organizar politicamente, tentar chegar, informar e ajudar quem quer ser ajudada. No mais, não nos cabe adentrar a vida individual alheia. Mais acolhimento, e menos julgamento as mulheres!

Nossa história única

Começo esse texto ouvindo a Chimamanda falar dos perigos da história única. Ouvindo na minha cabeça, porque eu já assisti ao video uma, duas, várias vezes. E me encanta sempre. Essa história da “imagem da africana” em que a prendiam, e que não era ela, da qual ela tinha tanta dificuldade de se desvencilhar de tanto que estava grudada na cabeça das pessoas.

Curiosamente, já vivi uma coisa assim ao reverso. A “história única” na qual me prenderam era uma história de Suíça. Morei na Suíça quando criança, até os 12 anos de idade. Em Genebra: uma cidade conhecida, não um vilarejo perdido nos confins das montanhas. Pois bem, cheguei ao Brasil e fui instantaneamente oprimida com uma imagem de Suíça. Que não era a minha. Era uma imagem de colégios privados exclusivíssimos à beira do lago – dos quais só descobri a existência depois que voltei -, de vida de luxo e opulência. E ainda tinha a famigerada pergunta sobre “a moda”. A pergunta era “qual é a moda na Suíça agora?” E eu, sinceramente, não tinha ideia do que era pra ser respondido. Não sabia o que era “a moda”. A gente comprava roupa em lojas de departamentos ou nos brechós. E a “moda” era a gente que fazia, pré-adolas, usando a calça jeans (a mesma, velha, gasta) dobrada de tal jeito, a camisa por dentro ou por fora… “A moda”, a outra, era coisa de alta costura. O que isso teria a ver com a minha vidinha? Mistério. Escola? A pública na esquina de casa. Como, aliás, praticamente todo mundo que eu conhecia. Só não digo que era todo mundo porque tinha o Zuza que estudava na Escola Internacional. A dos filhos de diplomatas e dos organismos sediados em Genebra (OIT, Comitê da Cruz Vermelha, OMS etc.). O resto da galera era todo de escola pública, e encapava os livros emprestados no começo do ano para devolvê-los no final. Essa, definitivamente, não era a Suíça pela qual me perguntavam meus novos colegas de escola.

Essas divagações todas têm (é, têm) um ponto que me interessa trazer pra cá: uma narrativa sobre mulheres que tem me parecido mais e mais comum por aí. A das mulheres oprimidas pelos “machos” opressores. É mentira? Não, claro que não. Como, aliás, a Suíça de quem me perguntava não era de mentira: era apenas outro olhar e outra narrativa.  Mas não pode ser a única. Digo mais: não deveria ser única. Sob pena de despossuir essas pessoas todas que vivem e lutam e avançam e mudam o mundo todo dia. De tirar-lhes tudo o que têm de coragem, de dignidade. Tanta gente que é senhora da própria história. Tem um meme conhecido que circula por aí que diz algo como “não sou descendente de escravos: sou descendente de seres humanos que foram escravizados”. Mudança de enfoque. De maneira de contar a história.

Tem ainda outra coisa: a narrativa única dos “machos opressores”. Esses, como a gente, não vieram de Marte. Foram criados aqui, nessa sociedade, com esses valores, com essa cultura. Nela estão imersos desde que nasceram. Como não haveriam de reproduzir tal ou qual hábito, forma de fazer, um jeito que viram o pai  fazer e que lhes foi ensinada, tantas vezes, pela mãe…? A mudança do mundo tem que levar isso em conta, e dialogar com eles sempre. Sob pena de criar uma utopia-mundo de que os homens estariam, por definição, excluídos. E aí não, né. Esse não é o mundo em que quero viver. Ninguém nasce sabendo: vamos abrir espaço para escutas e para novas narrativas. Outras. Outras formas de olhar, de escutar, que possam levar a outros modos de fazer.

gato-de-alice

Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

SoniaPilar

Sônia e Pilar. Vida.

Eduardo Cunha, o déspota dono da bola, e a redução da maioridade penal

Nenhum país sai de um processo de 30 anos de ditadura sem sequelas, é certo. Mas acho que a nossa transição suave e a falta de punição aos responsáveis por desmandos, corrupção, torturas e mortes com a Lei da Anistia talvez também estejam deixando sequelas.

O clamor que levou o país a mergulhar no processo ditatorial temendo, injustamente, que pudéssemos sofrer uma revolução socialista, com boatos de um Jango socialista, que hoje se sabe não corresponderem aos fatos, se repete com clamores de Lula e Dilma bolivarianos, cubanos e bobagens por aí. A nossa falta de revisão histórica ao findar a ditadura reitera os mitos que o brasileiro médio tem acerca do que significa direita e esquerda, e vemos as confusões se repetirem. E talvez toda essa polarização baseada em falsas premissas e muito populismo tenham ajudado a configurar o congresso mais conservador que temos desde antes da ditadura.

golpe

E o que isso tem a ver com a votação de ontem e anteontem na Câmara dos Deputados? Para mim, tudo. Os discursos populistas, a falta de embasamento técnico e de pesquisas acerca do assunto dos digníssimos deputados para votar, o discurso   vazio contra o governo – mesmo que a votação nada dissesse a respeito disso, pois a não-redução da maioridade penal não é um política estrutural do atual governo -, ou seja, uma Câmara conservadora e bastante fraca, facilmente manipulável e frágil no que diz respeito a um dos alicerces da democracia: o respeito à Constituição vigente. Um indivíduo, de perfil quase caudilhesco, o deputado Eduardo Cunha, manipula pela segunda vez uma votação, rasgando a Constituição Federal (art. 60) a seu bel prazer. Até o ex-presidente do STF, Joaquim Barbosa, criticou a manobra de Cunha. “Matéria constante de proposta de emenda rejeitada ou havida por prejudicada não pode ser objeto de nova proposta na mesma sessão legislativa”.

A manobra de Eduardo Cunha está sendo chamada de “pedalada regimental” e ocorre após a derrota-surpresa, por apenas 5 votos, na noite de terça para quarta-feira. Aliás, a cara de Cunha quando foi aberto o painel foi impagável, e naquele momento ele já encerrou a sessão dando início à manobra que culminou na sua vitória no tapetão, quando nesta 5a feira, no plenário, foi comparado ao Fluminense pelo deputado Paulo Pimenta. Quero lembrar que Cunha é alvo de inquérito no STF por crimes contra a ordem tributária e também responde a ações por crime de improbidade administrativa. 

É esse o homem que faz cara de probo quando vocifera sobre outros crimes que não os dele.  

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Uma das deputadas que alterou o voto de terça para quarta, após ter publicado texto em sua página contra a redução da maioridade, foi a deputada Mara Gabrilli, do PSDB –SP. Cabe a seus eleitores perguntarem o motivo da drástica mudança de opinião, já que se sabe que houve pressão pessoal do deputado Eduardo Cunha na reversão dos votos. Há de se perguntar também, quanto os demais parlamentares, que poder é esse que o Presidente da Câmara exerce e que medo, como foi falado no plenário por alguns deputados, é esse que impõe, com base no qual consegue ser obedecido. Tem, inclusive, exercido pressão nos funcionários concursados da Casa.

Há possibilidade de reversão da PEC no Senado e até no STF, embora não haja consenso sobre se fere ou não a cláusula pétrea. Mas o que quero deixar como reflexão neste post é a fragilidade da nossas democracia e o clima de pressão numa das casas do Congresso Nacional, onde o dono da bola só deixa jogar se ele vencer o jogo.

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Mais sobre a redução:

A redução da maioridade penal e as mulheres

Veja como cada deputado votou na redução da maioridade penal

 

Uma onda colorida

Foi bonita a festa, pá. O tapete multicolorido em que se transformou minha TL do feicebuque ontem. Um a um, meus amigos iam ficando cobertos pelo arco-íris. E eu me alegrava, “curtia” até ficar com o dedo doendo, sorria e, ocasionalmente, ficava com os olhos cheios de lágrimas.

Voltava aos meus afazeres e, quando ia lá de novo, mais uma ruma de amigos tinha se transformado e entrado debaixo do arco-íris.

Celebrando. Celebrando o quê? Celebrando o fato de que uma pá de gente no mundo passou a ter seus direitos garantidos, num país pro qual todo mundo olha, que exporta seus jeitos e suas modas pro mundo todo, ou pelo menos pra boa parte do mundo.

Celebrando a solidariedade, o fato de que gente é pra brilhar, celebrando a alegria do outro, a festa do outro, comemorando junto com o outro, junto com a outra.

Dia do Orgulho Alheio, disse a Lena, e eu pego emprestado: orgulho e alegria dos amigos que não precisam ser gays para saber que isso muda a vida, a deles, a nossa que passamos a viver num mundo melhor e mais justo.

Casamento? É besteira, você diz? Intromissão do Estado nas relações privadas? Tinha que acabar, é? Ué, mas quem está discutindo casamento? A gente tá celebrando é a conquista do direito. Pra que os gays, as sapatas também possam dizer que é besteira, que não querem casar. Não querem, mas podem. Ou querem, e também podem.

Well done, tio Zucka. O arco-íris foi bem sacado que só.

E quando a gente celebra e faz festa junto por mais um direito adquirido, que já existia aqui, mas não lá, quando os juízes da Suprema Corte lá garantem o direito porque reconhecem que é um direito constitucional, isso muda coisas. Não é mera burocracia. Não é a mera permissão para os estados de celebrar o casamento gay: é a obrigação, visto que é direito constitucional, e o embasamento é a 14ª emenda, que fala da igualdade de todos os cidadãos diante da lei. Entendeu-se, pois – em votação apertada, 5 a 4 – que isso abrange o direito dos cidadãos de casar. A discussão toda faz diferença, do ponto de vista dos direitos. E vai bem além dos Estados Unidos.

Abraços, risos, lágrimas: foi dia de festa, em meio a tantas dores de todo dia. E meu coração se alegra com os amigos e amigas de cujos sofrimentos sei tão pouco, de que só ouço ecos: o de sair do armário (ou não), o de contar para os pais, para os irmãos, para a família toda, o de ser apontado como “aquele ou aquela que….” . E é tão lindo e tão raro quando a reação é “eu quero que minha filha seja feliz” e ponto. Tantas vezes é dor, é incompreensão, é um “não criei filho meu para…”, é choro e ranger de dentes, apenas porque o desejo da gente é o que é e a gente não tem controle disso. Não sei dessa dor que deve ser você ser motivo de tristeza para seus pais, simplesmente por ser quem é. A dor de escolher não contar, por ser mais fácil, para não confrontar. O dia-a-dia de quem assume, o dia-a-dia de quem disfarça: dores que não conheço, eu, cis e hétero.

Então quando tem um dia assim, em que a linha do tempo do fêice se transforma em tapete multicolorido, meus olhos se enchem de lágrimas e, sem achar que a revolução foi feita, permito-me acreditar que um passo foi dado na direção certa. A da gente juntos. A da gente gente. Em direção ao dia em que isso não será mais questão nem motivo de sofrimento: Ana namora Luciana, Claudio namora Ricardo, Mariana namora Paulo, Fábia namora Stella. Mônica namora Max. Fabi namora Rita. Dodô namora todo mundo, claro. E a gente vai dançar ciranda, todo mundo junto, rodar até perder o fôlego e cair na areia da praia.

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Qual república vai cair?

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Anunciaram e garantiram que a República iria se acabar nesta segunda-feira. Mas que república? Uma grande questão sobre a nossa sociedade e a atual situação de grupos vulneráveis e minorias é, certamente: Que República?

Desde que decidimos, por um golpe militar, implantar uma República no Brasil, fizemos a instituição de um estado estratificado, desigual, patriarcal e patrimonial. O que eu quero dizer com isso? É que fizemos um estado do “meu” e não um estado “de todos”.

A nossa concepção de política, de liberdade, de igualdade e de fraternidade simplesmente se resume a: o quão livre eu posso ser no meu grupo de privilégios; o quanto de igualdade eu posso conceder sem permitir que todos os meus privilégios decaiam; e, como conter os ideais de alteridade pelo simples fomento do ódio.

É isso o resumo do que somos. Somos uma sociedade heteronormativa, que busca manter-se como tal. Que, às vezes, faz concessões por vias de enfrentamento (decisões judiciais, protocolos administrativos, etc) e que, quando estamos muito descontentes, nos ensinam que emitir um mugido de revolta, mandando nosso opositor procurar uma rola (ou coisa melhor, às vezes), é a melhor solução.

Nosso grande “esquecimento” é que a condição de igualdade, formando a base republicana, só se dá quando reconhecemos no outro a nossa própria liberdade. Isso mesmo! A nossa verdadeira liberdade só se realiza na liberdade do outro. Na sua igualdade e no seu reconhecimento.

A noção de “público” na República não é simplesmente algo que seja de todos indistintamente. Mas é algo que todos possam reconhecer o próprio gozo. Sim, GOZO, simbólico e material. Gozo, realizado mediante o entendimento de que gozo proveniente do desejo do outro é tão legítimo quanto o nosso gozo, quanto o nosso desejo.

A república que não temos é justamente a nossa incapacidade de aceitar que a “coisa” mais pública que temos que preservar é a não-intervenção no desejo alheio, na medida em que ele não pratique nenhuma opressão e, como tal, manifeste a integridade de um sujeito.

Quando chegarmos a esse patamar, o de reconhecer a plenitude do outro como um ser que merece gozar, desejar e ser e viver a delícia que é, que teremos uma república… E ela não cairá!

Do que precisa ser dito. E do quanto doi.

Imagem da campanha "Jovem Negro Vivo", da Anistia Internacional

Imagem da campanha “Jovem Negro Vivo”, da Anistia Internacional

Acho que o fato mais inusitado que me aconteceu essa semana foi falar num TEDx. De repente, depois de um convite nos últimos minutos do segundo tempo, me vi em cima do palco desse evento badalado, que corre o mundo, no qual você tem que mandar sua mensagem em alguns minutos, agradecer e implorar internamente para que sua fala tenha sido suficientemente inspiradora pra receber alguns aplausos e, quem sabe, até tocar as pessoas.

Dessa experiência, poderia discorrer sobre vários aspectos. Sobre o que é falar num TEDx, ainda mais nesse, com recorte de gênero: TEDxSãoPaulo Women, que acontece no mesmo dia em vários países. Poderia falar do que é palestrar no auditório lotado do Masp (Museu de São Paulo), onde você põe aí umas 500 pessoas sentadas.

Poderia falar do quanto foi emocionante ouvir e conhecer mulheres tão bacanas, generosas, engraçadas… Poderia até contar do conteúdo da minha palestra.

E até vai ser um pouco isso. Mas, também é outra coisa. Mais particular. Em resumo, o meu relato foi assim: contei da minha autoidentificação étnica, da epifania que representou uma experiência específica de racismo que vivi com o meu filho mais velho e finalizei falando do genocídio de nossos jovens negros.

Segundo dados da Anistia Internacional, todos os anos morrem 30 mil jovens no Brasil. Desses, 77% são negros. O que dá mais de 23 mil jovens negros assassinados anualmente.

São 64 por dia. Mais de dois por hora.

Por que permanecemos em silêncio diante desse genocídio? Por que não estamos protestando, nas ruas, com indignação? Como podemos deixar de ser cúmplices desse extermínio? O que podemos fazer pra criar uma sociedade mais acolhedora, amorosa e livre de preconceitos para nossos jovens negros?

E aí, na noite de quarta-feira (27), véspera do TEDx, fui conversar com o meu filho mais velho sobre o evento, o que ia falar, etc e tal. Afinal, ele tem sido minha inspiração quando abordo esse tema.

Pois durante a conversa, me dei conta que falar essas coisas pra 500 pessoas (além daquelas que acompanham na transmissão online) é até fácil. Difícil mesmo é falar com o meu filho.

Como dizer a um adolescente que, todos os dias, ao sair de casa, ele está vulnerável e exposto a diversas formas de violência, incluindo o risco de morte, já que a despeito de sua condição social, o racismo não poupa ninguém?!

Quando vi, estava minimizando meu conteúdo ou usando mil eufemismos pra narrá-lo. Parecia que eu estava guardando minha assertividade apenas pra plateia do TEDx. Com ele, falei tranquilamente da primeira parte até o episódio de racismo que vivemos juntos (quando o segurança de uma doceria famosa aqui em São Paulo o retirou pelo braço do local), mas, fui ficando mais genérica, sem entrar em muitos detalhes sobre o extermínio.

É muito, muito duro mesmo dizer isso. Terminei a conversa reiterando o quanto adoro e tenho orgulho de seu cabelo black e que ele é lindo. Porque, de fato, é. Mas, naquele momento, talvez pelas emoções já afloradas pela tensão da palestra, não consegui ser mais específica. Não é fácil.

Perguntei se estava tudo bem pra ele que eu contasse a história da doceria publicamente, nesse contexto. Ele me devolveu um sorriso orgulhoso e cúmplice, respondendo:

“Só não divulga a minha foto!” Vontade, bem que eu tive. 😉

Aproveita e acesse a campanha da Anistia Internacional “Jovem Negro Vivo”. Assine o manifesto!

A música é porque ele pediu!

Tempos amargos

Quando penso no nosso tempo presente, me recordo dos amargos versos de Cálice: tanta mentira, tanta força bruta. E dói, sabe? Presenciar o avanço desse conservadorismo, já tão reverberado e amplificado nas redes sociais, junto com a crescente onda de intolerância e da violência contra grupos minoritários, é coisa que faz dobrar até o mais otimista dos sonhadorxs.

E aí a gente cansa, quer jogar a toalha, dar um tempo.

Um beijo de duas mulheres idosas “choca” o país e faz com que toda uma trama promissora seja repensada. Uma travesti é brutalizada na cadeia (caso Verônica Bolina) e tratada como um animal em exposição pública. Uma mulher, Amanda Bueno, 29 anos, dançarina de funk, é morta de forma hedionda pelo companheiro e câmeras registraram tudo. Um menino de 10 anos, Eduardo de Jesus, é assassinado com uma bala na cabeça, disparada por um policial no Complexo do Alemão. Na política, os projetos mais conservadores e regressivos, como a lei da terceirização, que visa precarizar ainda mais as relações trabalhistas, corre grande risco de ser aprovado. A pavorosa redução da maioridade penal. A bancada política que atende aos interesses da bala, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e da negação dos direitos humanos está mais do que articulada e infiltrando seus tentáculos em tempos de crise e caos.

E uma das coisas que mais me doem, do macro ao micro, é ver essa perversidade expressada no campo do cotidiano. Gente que nunca soube na vida o que é viver sem seus privilégios de classe, cor, sexo, gênero e etnia, e, na atualidade vêm placidamente a público defender os seus interesses. Sim, as marchas dos dias 15 de março e 12 de abril foram protestos burgueses marcados pelo discurso de ódio e pela manutenção (e aumento) dos privilégios de quem já os têm e parece nunca se dar conta disso. Não é de embrulhar o estômago?

E o conteúdo político dessas marchas, afff… Desperta em mim a síndrome de Regina Duarte: elas me dão medo. Porque são movidas por racismo, por beligerância, pela aniquilação do outro, pela anulação da diferença. Na minha humilde cosmovisão, elas demarcam mais do que uma oposição política; elas são sintoma de puro mau-caratismo de uma elite rançosa, decadente e tacanha.

E, pra piorar o estado de coisas, a sociedade brasileira não se assume como violenta. Mas ela é, até o tálamo. Um prato cheio pra gente aplicar a tese da banalidade do mal, da Hannah Arendt. E uma cultura como a nossa, que permite a naturalização da violência, o mal, esse que desconsidera o outro e implode com a prática da alteridade e da justiça, tem se instalado com tamanha força que o que sobra pra gente é o peso do pessimismo e a falta de esperanças em dias melhores.
Mas amanhã, vai ser outro dia…
Tomara, viu?

Abuso não será discurso

Foto de Miroslav Tichy

Foto de Miroslav Tichy

E foi noite dessas, num restaurante com meus dois filhos, que entabulei uma conversa simpática com uma mulher (porque tudo foi dito na simpatia e no bom humor) que acabou me derrubando ao final: “você só tem meninos, né? Eu também. Três meninos. E ainda quero adotar mais um…”

“Outro menino?”, perguntei, educada.

“Ah, sim. Menina dá muito trabalho. Vejo por aquelas que aparecem batendo no meu portão…” E, se virando para o meu filho de 13 anos, completou: “Por isso, abusa, viu?! Abusa mesmo das meninas porque tá sobrando!”

Nada disse. Saímos de lá, conversei rapidamente com o Mateus sobre o ocorrido, mas, só pensava mesmo naquilo que continua latente, na base de tantos discursos e atos de violência contra mulher que sabemos, presenciamos e vivemos.

Por favor, eu pensei, que venham tempos que meninas não sejam consideradas um fardo. Que os estereótipos de gênero que fundamentam as proibições sobre elas e as permissões a eles caiam.

Que meninas possam buscar amigos, namorados ou flertes sem que isso legitime abuso. Que elas possam fazer isso sem constrangimento, com segurança e bom humor e que sejam recebidas com respeito.

Que a palavra abuso não seja trivializada numa anedota debochada. Que eu sequer precise explicar ao meu filho que a gente não abusa das pessoas, em hipótese alguma, porque essa possibilidade sequer será considerada. Não será parte de um conselho.

Porque ninguém mais será educado a acreditar que algumas pessoas merecem.

Nunca.

Teatro do Oprimido na Maré

Por Felipe LSM*, Biscate Convidado

Maré1

Domingo,  29 de março, aconteceu a primeira Mostra do Teatro do Oprimido na Maré.

A apresentação, divulgada como ensaio aberto, envolvia três grupos de  jovens, cada um trazendo conflitos do dia-a-dia problematizados em forma de peça:  A garota que queria jogar futebol e o pai não deixava, o garoto que queria fazer teatro e não trabalhar na oficina, o pai que abandonava a família e voltava como se nada houvesse acontecido… Algumas das histórias passavam mesmo a impressão de clichês.

Até você se dar conta de que eram cenas baseadas nas experiências e vivências das pessoas ali. Até você se dar conta de que os clichês vêm de algum lugar. O que torna a cena mais pesada da mostra – uma situação em que o pai abusa sexualmente da filha, que não consegue contar para os amigos e não recebe apoio da mãe – ainda mais assustadora.

E aí você pensa um pouco mais e percebe que quase todos os problemas apresentados se reduzem a um: machismo. Só consigo pensar em uma história dentro da apresentação (que envolvia um garoto discriminado no trabalho por morar na Maré) cujo problema não estava ligado a machismo e papéis de gênero.

Em TODAS as peças, se encontrava uma família na seguinte estrutura:

O Pai: sempre o chefe da família e tomador decisões. O Pai fazia o papel de antagonista e opressor.

A Mãe parecia estar sempre resignada à sua condição de oprimida e, apesar de em geral concordar com a filha, dificilmente tinha forças ou vontade para se opor ao Pai. Mesmo trabalhando fora, recaíam sobre a mãe todas as tarefas da casa, e a cena típica (que apareceu várias vezes) mostrava a mãe fazendo o jantar e servindo o marido, que além de não ajudar, só reclamava).

A Filha: geralmente o centro do problema em questão, A Filha era a oprimida que de fato tentava lutar contra a opressão do Pai. Às vezes recebia o apoio da Mãe, mas nunca de forma muito enfática. Em uma das histórias, havia um filho nesse papel, com uma questão que envolvia fazer uma atividade que não era “de macho” (teatro), com a qual o pai (claro) não concordava.

Algumas das famílias incluíam uma irmã, um irmão, uma tia, mas – independente de estarem ou não no papel de oprimido – esses personagens não pareciam interessados em questionar o patriarcado.

Analisando esses arquétipos das personagens, talvez seja interessante lembrar que as peças foram concebidas por grupos de teatro jovens, e retratam vivências do seu cotidiano.

Como acontece tradicionalmente no teatro do oprimido, as situações nunca chegavam a uma resolução e, ao final de cada apresentação, as pessoas da plateia eram encorajadas a tomar o lugar de uma das personagens numa cena e buscar resolver o conflito apresentado. Havia alguma variação nas soluções: umas mais sérias e argumentativas, outras mais engraçadas e impulsivas. Dependendo da cena, das abordagens e dos atores participando do improviso, algumas funcionavam melhor do que outras. Na primeira intervenção, um garoto assumiu o lugar da mãe e expulsou o pai ausente de casa sob ovação da plateia. Aliás, em todas as cenas, havia meninos fazendo papel de meninas, meninas fazendo papel de meninos.

Maré2

Mas, no final de tudo, sempre vinha o “curinga” (como são chamados os animadores que fazem a intermediação com a plateia), lembrando que aquilo tudo era reflexo de um mundo real. Que aquelas personagens eram pessoas, e as histórias, vidas. E de repente nenhuma resposta parecia boa o suficiente. E de repente você se via perguntando, de novo e de novo: o que fazer?

FelipeLSM

*Felipe LSM assina assim porque não quis escolher um sobrenome. Gosta de criar laços e entender pessoas, odeia impotência, morre de medo da solidão e tem conflitos com essa coisa de paixão.

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