Para Dançar o Tango

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São precisos dois para o tango. E mais. Entrega. Antecipação. Esse enlace de corpos que se adivinham, um instante antes de ser. Um jogo de quase. Deixar o corpo um pouquinho mais, pra roçar. Tirar o corpo um pouquinho antes, para não esbarrar. Quase encostar. Perto. Mais perto. Sai. Volta. Esfrega. Desejo. Distância. Olhar além. E reconhecer que mesmo ali, o agora da sedução abriga a melancolia de uma solidão, no depois. Talvez, por isso, se tenha dito que “dançar tango é algo grave e profundo, quando se dança não se ri”.  São necessários dois, suspeito, para marcar o vazio, a distância, a geografia da ausência. Dois para dividir o peso da impossibilidade do encontro. E para vislumbrar o encanto, claro, dos momentos em que a gente acredita que sim. Quase.

Como aquele dia. Aquele moço. Errado, claro. Também ela. Sozinhos. Não sempre. Naquela noite. Encontros. Não. Colisões. Dois desejos. Duas fomes. Dois pra lá, dois pra cá. Expedições ao corpo do outro. Mãos que se roçam. Dedos que se entrelaçam. Um pé desnudo que esbarra na perna alheia. Salivas que se misturam no mesmo copo. Desbravadores inexperientes nesse território, precipitam-sem em beijos. Um pra lá, vem mais para cá. Errados. Confusos. Descompasso. Sem salão de baile, um tango interrompido.

O que ela sabe, é preciso deixar as portas abertas. E as janelas. E as pernas, opa, o peito. Os poros. Os olhos. As mãos. Oferece. Recebe. Permite. Acolhe. Dá. Vive. Não negar. Não esperar. Sem receita. Sem modelo. Sem tipo, apesar do Ney. Ela sabe, ela se despe. De receios. De reservas. Ensaia uns passos. Não será tango, que venha a alegria do samba, o suor, a cerveja e que dure enquanto for festa no corpo. Carnaval.

Toca Sebastiana!

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Na semana passada li um artigo publicado na BBC Brasil sobre masturbação feminina e no quanto isso ainda é tabu na sociedade. Na Suécia até lançaram, em junho, uma campanha para inventar um novo nome para a “autoestimulação genital feminina” (ufa!). O escolhido foi “Klittra”, fusão das palavras “clitóris” e “glitter”, escolhido entre 200 sugestões recebidas pela Associação Sueca para a Educação Sexual.

A ideia da campanha é estimular a igualdade de gêneros. “Segundo um relatório da educadora sexual americana Debby Herbenick, 44% dos homens se masturbavam duas ou três vezes por semana. Entre as mulheres, essa proporção era de apenas 13%. Já um estudo espanhol, realizado em 2009, indicou que era muito maior a parcela dos homens que dizia ter se masturbado no mês anterior à pesquisa do que a de mulheres (46,9% deles contra 4% delas).”

O texto ainda destaca a influência da religião na busca do prazer feminino: “Nascemos com o corpo organizado para sentir, há funções específicas que são ativadas no momento de receber um estímulo agradável (…), mas as normas culturais e religiosas não permitem que as mulheres desfrutem de sua sexualidade na plenitude.”

A matéria não fala especificamente do Brasil, mas sabemos que não é muito diferente. Com a diferença que lá estão lançando campanha. Aqui, a gente continua sem nem falar muito sobre o assunto. Mesmo em grupos de discussão e rodas de conversa, masturbação feminina não costuma ser tema dos mais corriqueiros. Falamos pouco disso, inclusive com nossas melhores amigas.

Pois dialoguemos aqui. E minha maneira de falar sobre o assunto é começando por revelar que, sim, minha gente, eu me masturbo! Antes, preciso dizer que glitter na xoxota não é exatamente meu ideal de estimulação genital. Embora, sei lá, seja até bonitinho. Mas, tô mais é pruma licka licka, mesmo.

Ilustração de "Garota Sirirca"

Ilustração de “Garota Siririca”

E isso não tem nada a ver com insatisfação sexual. Tem a ver comigo e comigo mesma. E não sou muito dos brinquedinhos, não. Me regalo mesmo é com minhas mãos. E com os meus dedos. Principalmente de manhã.

Estímulos eróticos, como contos, me excitam bastante. Em geral, basta um tiquinho de putaria na web pra me deixar ligada. E, não, não tenho 15 anos. Tenho bem mais. Mas, é isso. Continuo facinha, facinha pra me excitar com bobagem sacana da internet. Ai, se meu google falasse! Estamos aí, tocando campainha desde a mais tenra idade. Poderia dizer que me masturbar me acalma, e é verdade. Me desestressa. Também é. Mas, faço é porque é gostoso mesmo. E dá-lhe tocar sanfona de manhã!

Aliás, concordemos que os suecos pensando que inventaram um neologismo com essa “Klittra” e a gente nem precisou de campanha pra criar a siririca! Até fui atrás da origem do nome. Vasculhei por aí e descobri no primeiro blog recomendado que “siririca” poderia ser, na verdade, “um termo técnico usado inicialmente por médicos pesquisadores do assunto, no qual siririca é sigla para Sistema Individual de Recreação Íntima ao Rostir o Indicador no Clitóris e Adjacências.”

Curioso. Mas, né. Rostir. Sei nem como conjugar na primeira pessoa.

Segundo esse mesmo blog, outra explicação é que siririca seria uma onomatopeia, já que o clitóris é conhecido por alguns como “grilo ou grilinho”. “Algumas pessoas acreditam que o som que o grilo (inseto) faz é resultado de um esfregar de patas. Logo, a siririca seria então uma onomatopéia ao som do grilo esfregando.”

Vai ver é por isso que curto tanto. Vivo atrás do cri-cri-cri da roçadinha!

Me dei por satisfeita com essas explicações e nem segui com a busca. Preferi fazer outras coisas com a inspiração. E dá-lhe lapidar a safira! Só discordo do blog quando fala que a palavra siririca é vulgar prum ato que não é. Mas, gente. Não acho uma coisa nem outra. Antes pelo contrário. É até fofa. E, puxa. Que mal tem se a siririca é vulgar? Será que aqui também teremos que criar um neologismo chique pra boa e velha masturbação?

Tem mesmo que chipar duas palavras pras pessoas se livrarem de seus tabus? Qual seria, no caso, usando a sugestão dos suecos? Glitóris?

:-/

Até a siririca precisa ser sexy?! Pois defendo a ideia de deixá-la o mais natural possível. Isso posto, que não seja extraordinária. Que seja mesmo ordinária. Cotidiana. Feliz. Livre.

Porque aqui, nesse blog, a siririca é a verdadeira sororidade!

Conheça mais de Garota Siririca

Celebremos!

“Nem de exatas, nem de humanas, sou de trouxas”;

Eu o/

Eu o/

Se ser trouxa é demonstrar o que sente, sim, sou trouxa. Convicta. Daquelas que posta letras de pagode ou de sertanejo dos anos 90 na TL dedicadas ao(s) seu(s) amor(es). E nem é porque eu acredito em romance, em fórmulas perfeitas de amar ou de ser feliz, como na já meio batida (mas que ainda está longe de falir) vibe hollywoodiana. É porque passei bastante tempo sem celebrar – ainda que nas pequenas cafonices – o fato do meu coração estar aquecido pela presença de outro, assim, mais de pertinho. Eu já fui do time que ficava de bode quando pipocavam imagens de casalzinho feliz e pans.

A real é que faz pouquíssimo tempo que percebi que não me considerava merecedora de amor. Que eu não tinha motivos para ficar contente com algo que não era pra mim, porque na listinha padronizada do que é ser amável, eu nunca tive nenhum dos itens. Ou tentava mimetizá-los.

Nem preciso dizer o quanto falhei miseravelmente, né?

Por que dar afeto é ser trouxa? Por que comemorar momentos felizes (ou até de grudezinho) com quem você ama é indesejável? Por que isso ainda é visto como fraqueza, como ser bobo ou inconveniente, quando todos os envolvidos estão ok com a situação? Ou então, porque externalizar de alguma maneira seus sentimentos, mesmo que não sejam correspondidos, é tão zoado?

Sei lá. Talvez, a gente tenha meio que desaprendido o bem que faz um ato de carinho, tanto para quem dá quanto para quem recebe. Vivemos num mundo em que manifestações de bem querer parecem perda de tempo ou coisa de quem não tem nada melhor para fazer. Os lances que “dão certo” são os que encontram dificuldades. São os cheios de joguinhos, de esperar o outro te procurar, de não escancarar muito o que você está sentindo, porque senão não dão valor.

Amor como moeda de troca. Amor mercadológico.

Se ser trouxa é transbordar de amor, a ponto de não caber no peito, olha eu aqui!

Só não rasguem minha carteirinha de biscate, tá? Vai ter biscatagi trouxa sim.

Vai ter biscate celebrando o amor sim!

Detox

Não, não irei falar sobre esses sucos verdes, que estão bem na moda. Alguns deles são bem gostosos e eu até tomo por isso (porque não sei se desintoxicam mesmo ou pra que eles de fato servem). Vou falar sobre algumas atitudes que às vezes, se fazem muito necessárias. Sobretudo para quem milita ou precisa de um tempinho para organizar as ideias, especialmente nas redes sociais.

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É. Tô na fase do detox. Mas um “detox pessoal”, sabem? É uma coisa que no fundo eu não gostaria de precisar fazer na vida, mas que não dá pra ficar sem. A internet as vezes se transforma num ringue onde algumas pessoas competem para saber quem tem o ego mais inflado, usando uma deturpadíssima noção que possuem do que é liberdade de expressão para propagarem suas falácias, que quase sempre são carregadas de preconceitos diversos.

E o mais legal de tudo isso é que essa galera domina muitíssimo bem vários recursos de linguagem, que fazem com que qualquer bobagem se pareça com uma opinião consistente, bem articulada e sensata. O grande segredo da coisa toda é enumerar, passar para tópicos, usar palavrinhas pomposas e “acadêmicas”. Te deixam confusa. Você aparentemente precisa parar para pensar – ou para ler – minuciosamente antes de elaborar uma resposta. Enquanto isso, vem os likes. Os shares. Os números. O alimento que aquele ego sobre o qual falei acima tanto precisa para não morrer.

Acham que tô falando sobre os reacionários, conservadores, trolls, coxinhas e afins? Antes fosse, porque eles são reconhecidos muito mais facilmente. É só dar unfollow né? Pronto. Só que não. Eu falo de gente que até bem pouco tempo atrás, lutava lado a lado comigo, porém, que adota justamente o modus operandi daqueles que diz combater (odeio essa palavra, é que não encontrei outra melhor). Gente que dizia acreditar no mesmo que eu. Gente que ao longo do tempo, aprendi a respeitar, mesmo em meio à inúmeras divergências teóricas/ideológicas.

O que quis dizer hoje aqui é bem simples (e doloroso, porque sou dessas): tô me desentoxicando dessas pessoas. Ou melhor, desses discursos contaminados. Porque me faz mal, percebem? Não vim ao mundo para ser vaca de presépio, sem ser crítica e autocrítica. Sou aprendente e aprendiz nesse mundo gigante, que não gira ao redor do umbigo de ninguém. Não endosso discurso de ódio disfarçado de militância, venha de quem vier. Sororidade, esse conceito altamente questionável e seletivo não é pra mim. O patriarcado já caga regras demais na minha vida, acho que não preciso que feministas venham fazer o mesmo, certo?

Façam o que bem entenderem com minha carteirinha.

 

Preliminares

Por Paulo Candido*, Biscate Convidado

Há sempre muita conversa sobre a importância das preliminares, a forma das preliminares, a duração e natureza das preliminares. Para falar a verdade, se você olhar com cuidado, ninguém sabe mesmo como devem ser preliminares.

Preliminar é aquele jogo antes do jogo principal, em geral um sub-20 meio mambembe para distrair quem chegou cedo no estádio, um jogo de meninos em um campeonato que ninguém sabe direito se é o estadual, se é o nacional ou se nem é nada disso, se é só um amistoso extemporâneo. Perá lá, o telefone…

– Alô? Oi, Silvia!
– Cara, esquece o futebol, você esté escrevendo no Biscate, futebol é no outro site. Aqui é ripa na chulipa e pimba na gorduchinha, para de enrolar!
– Mas estava construindo a metáfora…
– Apaporra, Paulo, metáfora de futebol com sexo já tinha cansado minha mãe, lá na época que o Pelé jogava futebol em vez de falar bobagem!
– Tá, tá, eu paro…

Como eu ia dizendo, preliminar vem do latim limens, limite. “pre”, todo mundo sabe, é antes. Antes do limite, mas que limite? Ora, ainda gastando o latim, num antigo manual de sexo atribuído a Cícero, o grande orador romano escreve: “Ante coitum pre limens sed”, implicando que as preliminares são tudo o que vem antes da penetração. Telefone de novo, segura aí…

– Oi, Rê!
– Latim, Paulo? Latim??
– Ah, eu estava só me divertindo…
– Mas onde o Cícero escreveu essa porra?
– Em lugar nenhum, né? Eu inventei tudo, até a frase. Mas preliminar vem de pre limens mesmo.
– E limens é onde está a paciência da leitora..
– Quantas editoras tem esse site, afinal?
– Quantas forem necessárias para fazer você parar de enrolar e ir direto ao ponto.
– Ou pelo menos ir bem indiretamente ao ponto, para deixar crescer a tensão, né?
– Mas lembra da paciência no limens, rapaz.
– Lembro sim.

A verdadeira natureza das preliminares é alvo de algum debate. Os americanos, que gostam de definições precisas e objetos mensuráveis, costumam situar o início das preliminares de forma um tanto exata no momento em que os parceiros começam a se tocar, mesmo ainda completamente vestidos.

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 A ação propriamente dita envolve beijos na boca, abraços, mãos passando pelos corpos, apertões, chupões no pescoço, beijos pelos corpos (quando a roupa começa a sair), mãos roçando bucetas e pirocas. Hmm. Deixa eu perguntar uma coisa aqui…

– Oi Paulo, tudo bom?
– Oi, Lu! Eu estou com uma dúvida. Aqui pode piroca?
– Por que não poderia?
– Sei lá, outro dia deu um problemão lá num grupo de novela…
– Você vê novela?
– Não, mas adoro o grupo de novela. E daí teve uma piroca e um moço ficou muito ofendido.
– Com a piroca?
– Com a palavra.
– Ah. Mas pode. Pode piroca, pode buceta, pode cu, pode o caralho a quatro. Parece que você nem lê o que eu escrevo.
– Era só para confirmar. Vai que está rolando alguma interdição da piroca e eu não sei.
– Pode tudo. Mas um aviso: não use diminutivos. Se você falar em xoxotinha, piupiuzinho e coisas assim, a gente vai rir de você daqui até o fim dos tempos.
– Tá, não se preocupe.

O Consenso de Las Vegas, a lendária reunião dos principais sexólogos americanos ocorrida em meados de 1995, determinou que as preliminares terminam no momento em que o órgão de um dos parceiros é tocado.

Na verdade, o Consenso de Las Vegas determinou um monte de outras coisas, como a ordem em que as partes do corpo devem ser estimuladas, a duração destes estímulos, as variações aceitáveis dependendo do sexo e da orientação sexual de cada um dos parceiros, etc. Se é verdade que as determinações de Las Vegas fizeram um estrondoso sucesso nas redações de revistas femininas e masculinas por todo o Ocidente, se tornando a base de 99% dos artigos sobre sexo publicados desde então, a reação do resto do mundo não foi menos feroz.

Já em 97, um artigo coletivo de um grupo de sexólogos, antropólogos, anarquistas latino-americano denunciava o Consenso como “a base do neo-liberalismo sexual” e “uma bobagem sem tamanho”. Um ano depois, a nota final do Congresso Pan-Europeu de Sexologia criticava o Consenso sem meias palavras. “La merde réductionniste américain”, era o título da nota, cujo tom e vocabulário causou certo espanto na época.

A polêmica sobre a natureza real das preliminares se arrastou por toda primeira década deste século. Com o reducionismo empiricista do Consenso desacreditado, restou-nos tentar uma visão mais abrangente, menos presa a dogmas e a fenômenos diretamente mensuráveis, ainda que talvez menos precisa e mais genérica.

Quando começam as preliminares? Ora, talvez elas comecem no instante em que os parceiros decidem que vai ter sexo. Pode ser um olhar, pode ser um leve toque, pode ser um beijo. Mas também pode ser uma calcinha descendo, um vestido subindo, um zíper se abrindo urgente. Mas talvez elas comecem antes, um roçar de pernas sob a mesa, um dedo subindo distraído pelas costas, uma mordida despretensiosa na orelha. Numa mensagem de texto, num inbox de Facebook.

Quando elas terminam? É uma pergunta difícil. Claro, todo mundo concorda que quando ocorre uma penetração as já preliminares terminaram. Mas quando elas terminaram exatamente? O orgasmo não é parâmetro, pode acontecer a qualquer tempo. O toque em um órgão genital, como queriam os americanos, é um parâmetro insuficiente e claramente errado – a brincadeira pode ir e voltar dos ditos órgãos por um longo tempo. Pior ainda, dissemos ali que quando há penetração, as preliminares terminaram. Mas e se não houver penetração? Quem disse que sexo envolve necessariamente e sempre a penetração? Se alguém chupar o outro até os confins do êxtase, sem penetração, não é sexo? E se alguém se deixar amarrar e vendar e bater e quase morra de gozar no processo, não é sexo? E duas mulheres perdidas com as línguas no outro clitóris, estão fazendo o que, senão sexo?

Um pergunta de outra ordem talvez ajude. Qual a função das preliminares? Excitar-se, excitar o outro? Deixar paus duros e bucetas molhadas, prontos para a ação principal? Divertir os parceiros? Ver quem aguenta mais tempo sem gozar? Tudo isso junto?

As preliminares talvez terminem quando a atenção do jogo se foca decisivamente no orgasmo de um, de outro ou dos dois. A tensão já subiu até o limite (o limite, lembra?) e agora muda natureza da dança. Claro, isso não diz nada sobre duração. Pode durar os cinco ou dez segundos necessários para abrir o zíper e afastar a calcinha. Pode durar horas. Pode até ter por objetivo não deixar o outro gozar.

Mas ainda cabe aqui um epílogo mais antropofágico, por assim dizer. Uma outra forma de ver a natureza mesma do sexo, uma forma menos compartimentada, mais afastada das receitas fáceis das revista femininas. Porque para alguns de nós, parafrasendo Paul Veyne, as preliminares não são uma ciência e não tem muito a esperar das ciências; elas não se explicam e não tem método; melhor ainda, as preliminares, das quais muito se tem falado nesses dois últimos séculos, não existem.

 Ah, claro, o telefone. Como não ia tocar…

– Oi de novo, Rê
– Paulo, meu filho, ninguém tem nem ideia de quem é Paul Veyne…
– Mas povo não lê mais “Como se faz a História” no primeiro ano da faculdade?
– Temo que não.
– Lá quando a gente fez faculdade acho que só os engenheiros escapavam. O quê eles leem agora?
– Vai saber. Acho que alguma apostila ou outra bobagem assim. Com certeza não leem historiadores franceses amigos do Foucault.
– Bem, Biscate também é cultura, quem sabe alguém se anima a ler…
– Você é que sabe…

Por que eu digo isso? Por que eu acho que posso dizer isso? Não estava claro para todo mundo que as preliminares tem função, começo e fim? Pois então. Estava claro que algumas pessoas querem que as preliminares tenham função, começo, meio e fim. Método, técnica e sentido. Se possível, que sejam mensuráveis e que se possa dar nota aos participantes. Mas e se não? E se todo o objetivo do jogo fosse jogar, sem ponto de partida ou porto de chegada?

 O caso aqui é por em dúvida alguns dogmas. O primeiro é a centralidade do orgasmo. Toda a visão de que existem preliminares se baseia na visão anterior, de que o auge e o fim do sexo é o orgasmo. Mas se você toma o orgasmo como passagem e não como ponto de chegada, você muda todo o paradigma. Porque aí você precisa questionar o outro dogma, do sexo como algo separado da vida e delimitado por momentos, ambientes e regras. Algo com método e técnica. Algo além de uma narrativa.

 Pense numa paisagem. Nessa paisagem existem lagos, rios, talvez um braço de mar por vezes calmo, por vezes bravio. Tem montes, montanhas, vulcões. Tem bosques, campos, florestas. Talvez tenha até geleiras e pântanos. E ligando cada acidente desses, caminhos: vias expressas, trilhas difíceis, caminhos batidos e caminhos perdidos, estradas de terra, de asfalto, de tijolos amarelos. Cada acidente um orgasmo, cada caminho um jeito de chegar lá. Mas os caminhos não começam nem terminam  nos acidentes, nem os acidentes estão lá para serem necesariamente alcançados. Por vezes os caminhantes querem apenas andar a esmo. Olhar de longe a montanha, contemplar as ondas quebrando.

Se vida e sexo são um só, a distinção entre preliminares e sexo em si perde qualquer razão de existir. Você até pode tentar manter a diferença, mas vai acabar com um conceito circular – as preliminares começam exatamente quando termina o “sexo”, atravessam aquilo que os manuais chamam de “pós-sexo” e vão terminar lá no próximo “sexo”. No fim, um conceito que não serve para nada. Porque o sexo existe, pode existir, o tempo todo. Qualquer gesto, qualquer olhar, qualquer toque, pode desencadear a escalada do vulcão, o banho no lago ou a corrida pelo campo florido. Basta uma mudança na direção do olhar. Basta encarar a vida como uma imersão contínua e eterna num oceano de sexo sem fim.

Claro, todo mundo precisa dormir, trabalhar, comer e ir ao supermercado. Mas quem disse que cada uma dessas atividades não são parte da vida e, portanto, da vida enquanto sexo?

Não estou sugerindo que você saia agarrando sua chefe, a caixa do supermercado, o garçom do quilo. Você até pode fazer isso, se eles quiserem e vocês combinarem de orientação, mas não é essa a ideia aqui. A ideia aqui é que qualquer momento pode e deve ser aproveitado para se mover na paisagem dos orgasmos – basta prestar atenção aos sinais que você manda e recebe. Basta encontrar outro alguém tenha ânimo para fazer da vida não uma sequência de orgasmos, mas um contínuo de sexo, que ocupa todo no tempo e desfaz as fronteira do espaço.

Porque dormir também é dormir juntos sem roupas, comer também é cozinhar e alimentar alguém, e não preciso nem dizer como isso pode ser sexual, trabalhar também é pensar continuamente em cenas explícitas enquanto a reunião se arrasta ali fora, imaginar mil jeitos de sair dali e ir andar até um acidente orgásmico ou simplesmente mandar uma flor, uma língua ou uma boca vermelha no whatsup.

E tudo retorna a uma nova caminhada em direção ao mesmo ou a outro, um novo encontro com o mesmo ou com outro, uma nova visita ao pântano, uma um novo passeio pela estrada dourada, um novo mergulho no vazio…

PauloCandido* Paulo Candido imagina que grande maldade fez para uma cigana, para viver em tempos tão interessantes. E vez por outra conseguir aquilo que deseja. Prefere o jogo aos times e aos jogadores, mas adora contemplar esse Fla-Flu eterno do mundo. Mas torcendo sempre pelo Olaria ou pelo Juventus. E daí escreve, na esperança de um dia se perder no texto e nunca mais ser visto.

(Não) sendo feminina

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Tem aquela coisa de ser delicada, ne? ~ Feminina ~. Nunca fui. Especialmente nos gestos. Quer dizer, acho até que correspondo a alguns estereótipos, mas sempre no exagero, na retumbância: um batom vermelho aqui, uma unha roxa acolá, um cabelão cacheado todos os dias…

Mas, gestual contido e fino não esperem de mim. Falo alto, rio alto, piso forte, sou desajeitada e desastrada (“tímida e espalhafatosa…”), torço o pé até de chinelo havaiana parada na fila do banco e ainda quebro copos, derramo bebida na roupa alheia (sem-pre!). E, bom, de vez em quando, cometo gafes.

Daí que quando eu tinha 10 anos minha mãe resolveu me matricular no balé pra ver se eu ficava mais “delicada”. E com minhas coxas grossas tinha eu que me esforçar pra fazer o pliê sem deixar uma roçar na outra e ainda fazer de conta que era magra.

Não fiquei mais de dois anos por lá. Menos pela compleição física e mais por não conseguir dançar em conjunto mesmo. Eu simplesmente não consigo fazer passo marcado, coreografado.

Não sei dançar em bloco.

Mas,  sem querer desistir da dança, sai do balé e fui pro jazz. O desajeitamento não mudou muito, mas com o passo rápido dava pra me embolar no meio da muvuca e enganar. Cheguei a me apresentar na 2a fila. Só no carão. E na coxona. Yes!

Até que um dia…

Dancei. Sai do palco, fui pra trás do cenário, subi numa mesa pra ver melhor a coreô seguinte e… fomos eu, a mesa, o cenário, a minha cara… tudo pro chão! Morri de vergonha. Muita mesmo. Quis morrer. Mas, ao mesmo tempo, me dei conta que eu não tenho jeito. Tipo isso: não sou jeitosa.

Aí, sim, comecei a me saber de verdade.  O impacto disso só percebi bem mais tarde, mas ao menos comecei a me entender melhor…

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

Ainda aprendo a cair assim, divamente! <3

E quando teve aquela entrevista de trabalho amarrei tudo de uma vez. Encontrei uma conhecida na recepção e nos cumprimentamos com entusiasmo.

Na hora da entrevista, a recrutadora me disse, algumas vezes, em tom de reprovação, que eu falo muito alto. E foi tudo ladeira abaixo a partir disso. Falar com vocês que nem me esforcei muito em mudar a impressão. Seria mentira. E, de posse do meu entendimento sobre mim, senti um cansaço enorme.

Porque é isso, né. Temos que falar baixo, não gargalhar, não falar palavrão, não nos embebedar, não arrotar, não peidar… A vida resumida aos “bons modos”, à “classe” e sorrisos doces e simpáticos, de preferência.

E vai ficando pior quando saímos dos trejeitos engraçadinhos e entramos mesmo nas características que fazem com o que seja visto como positivo num homem seja altamente criticado numa mulher. Autoconfiança x arrogância. Firmeza x grosseria. Liderança x centralização. E por aí.

Inclusive, me pergunto, fosse eu um homem cumprimentando de maneira entusiasmada e expansiva um amigo que encontrasse por acaso, seria meu tom de voz um dado percebido? E, se fosse, visto como negativo?

(Pausa prum suspiro)

Falar com vocês que este texto ainda tinha mais coisa e eu cortei pra não virar (mais) textão (ainda). Mas, nem só por isso. Tô aqui me perguntando quantas vezes eu mesma já li textos sobre estereótipos de gênero antes.

E quantos mais ainda lerei pela vida. Tantos, né?!

Às vezes, não sei. Me canso disso tudo e quero só assistir novela. Mas, aí, me lembro que na das nove mulher que gosta de sexo é patologizada e vira “ninfomaníaca”. E depois desvira.

E rio de minha ingenuidade. Tem como ficar alheia? Vamos nessa, então, sendo a chliquenta monotemática!

Ela

Desde aquele dia, não fui mais a mesma…

A iniciativa foi dela. Sem que eu esperasse – ou me desse conta do quanto queria – recebi o doce e forte toque dos seus lábios. Os meus, tímidos, aceitaram este encontro. E meu corpo já não estava mais sob controle.

Ela sabia disso. E assim, me fiz entregue…

Aliás, ela sabia tantas coisas sobre o meu corpo que parecia conhecê-lo há muito tempo. Cada carícia dela me mostrava o que, por muitos anos, neguei a mim mesma sentir. Ela me ajudou a descobrir não apenas desejos, mas também um pouco de quem realmente sou.

Desde aquele dia, o que sinto por ela é gostoso e conflitante. Gostoso porque flui, sem grandes esforços de ambas as partes. Conflitante porque ainda existem em mim barreiras que me impedem de dizer a ela o quanto a quero outra(s) vez(es). Algumas dessas barreiras, infelizmente, eu mesma coloco. Porque sou aquela pessoa toda errada que não lida tão bem assim com as próprias vontades…

Acho que tudo seria bem mais fácil e menos doloroso numa sociedade aceitasse e compreendesse que o desejo muitas vezes transcende gênero e sexo. Que não diminuísse ou colocasse em descrédito as bissexualidades. Que não fizesse com que em alguns momentos, eu e mais um monte de gente pensasse que sentir algo por outra mulher fosse menor/uma fase/ uma mera experimentação.

No mais, tô aqui ensaiando como dizer a ela o quanto gostaria de ter ela em meus braços denovo. E como agradecê-la por ela, sem saber, ter me tirado desse limbo que é a negação…

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Pelo gozo

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Da série “Osmosis”, de Alvin Booth

Entrei no vagão cheio e me encostei na primeira barra que vi pela frente. Do meu lado, um casal de trelelê. Ao menos, assim entendi. Ele, mais alto, com os braços levantados se segurando na barra de cima. Ela, baixinha assim que nem eu, meio que encostada na outra barra vertical. Ou não. Pensando melhor, acho que ela se equilibrava nas duas pernas mesmo, pra não ficar muito longe dele.

E nesse meu voyeurismo diário, fiquei por ali, fingindo devaneio, mas ligada na conversa. Não era nada. Era de futebol, algo assim. Mas, não importava. Era o tom. Era a voz. Era o jogo de corpo. Era o olhar, o sorriso, o jeito como ele ia pra frente e pra trás, seguindo o meneio do trem enquanto falava com ela. E o jeito como ela levantava os ombros e olhava pra ele, daquele, aquecido.

E era tanto clima, tanta vontade de se tocar, tantas desculpas pra isso, pro roçar no braço, pras mãos no abdômen do outro pra não cair, e tantos olhares e línguas molhando os lábios, secos decerto, e eu ligada, sentindo eu mesma coisas minhas, doidinha com aquilo lá.

Que situação mais saborosa! Se pra mim, imagina pra eles.  Até que ficou assim:

“Você nunca me viu jogar…”, ele disse.
“Você nunca me convidou!”, disse ela.
“Você iria?”
E ela, sorrindo:
“Você nunca me convidou quando a gente namorava. Naquela época, valia mais!”

E ele riu de volta e reforçou o convite e eu quase vi um roçar de dedos na pele. Ou quis ver. Ou fiz uma prece. Pode ser. E me afastei, entendendo que aquilo era um prenúncio de um revival. Não um revival sentimental. Mas, o do outro amor. O da pica. O da buceta. Aquele que não passa, o que fica, aquele que dizem.

E sorri eu internamente, fantasiando que eles iriam sair dali e se pegar, que aquele clima não podia ficar só no vai-e-vem do trem, e que ia ser delicioso, porque já estava sendo.

Fiquei pensando se eles se encontraram por acaso na estação ou se marcaram pelo whatsapp. Se trabalhavam juntos ou perto ou se tinham desviado o caminho apenas pra viver a coincidência. Pensando se seria a primeira vez depois do rompimento.

Que eles estavam conversando também com doçura e amizade, o que, pra mim, indicava uma cumplicidade sem mágoas, sem necessidade de DRs, só aquilo lá mesmo. Um beijo, um sarro, uma trepada. Uma vontade. Ou não. Ou aquilo mesmo era que bastava: o desejo não realizado no vagão do metrô, que também pode ser bom, que também dá prazer, de um jeito assim, que quase doi. Mas, que doi bom. Na quentura do meio das pernas.

E que iriam continuar no dia seguinte.

E fiquei pensando naquela sábia que acumula amores, e que acumular amores e desejos nos oferece esses momentos assim, de pele pura no metrô, provocando quem assiste.

Que lembranças, que historias, que paixões podem ser relembradas, revividas, por apenas. Por elas. Pelo gozo.

Umbigada e sal grosso

 

Dois mil e quinze anda a merecer carinhos. Sim, o ano. O ano todo, repleto dele. Disse uma de nós que estamos a carecer de sal grosso neste ano ímpar. O tal banho de: Para espantar agouros, olhados ruins, presságios, adágios de costumes e tralhas que carregamos, mesmo sem querer, ombros e ombros. Talvez seja verdade. Talvez…

Mas há carinhos ali nas esquinas, saudades e desejos. Num texto recente aqui no clube lembramos de nossa história e das bonitezas dela. Sim, tem lá uns percalços, uns escorregas. Mas tem muito mais esfrega, banho, amor, saliva, massagem, abraço, conforto, pertencer. Talvez o sal grosso todo.

Porque não tem sido razoável o mau humor lá fora. Como gente mimada e birrenta, o tal século vinte e uno se transformou numa ode aos próprios umbigos, estamos num mundo onde a regra é o do “não brinco mais” dos parquinhos infantis: as batalhas por aí tem sido travadas como fúrias sem fim, pontes são destroçadas como quem pisa em baratas – sim, baratas, sabe nojo de barata que faz até o budista mais zen sair para matar as feiosas? – e há um distanciamento cínico da elegância no trato. A rede social, tão bela pra algumas cousas, é um portal para o inferno do dane-se o que o outro pensa.

Dois mil e quinze é um pouco a adolescência chata deste século vinte e um. Repleta de neuroses, problemas mal cuidados, debates encalhados, a graninha firme no despropósito dos futuros incertos. Nós, as biscates – e não tenho problema algum em me definir assim, com artigo feminino – estamos aqui a convidar as pessoas para dançarmos, em bailinhos, rostos e corpos grudados, pois entendemos que cada vez mais são esses chameguinhos que podem tirar este século da modorra. Porque se a marca marcada deste dois mil e quinze é o umbigo, a resistência só pode ser expressar desejos, em gotas, suores, labaredas, gozos infindos. Um umbiguinho bem trabalhado, com língua, óleo para besunte, porra ou só um carinho é capaz de devaneios muito mais bonitos. Sal grosso, do bom pra churrascos…

o-umbigo

Vem com a gente, vem.

Não ao #bebeuperdeu

Este texto estava no rascunho desde outubro de 2014. Mas depois de ver o absurdo de uma campanha do Ministério da Justiça onde há a responsabilização da vítima pelo que ela sofre, eu decidi publicar.

Eu fui estuprada.

No dia 21 de abril de 1997, aos 20 anos. Foi a minha primeira relação sexual, e não foi consentida. Foi em uma cidade universitária, no feriadão, em uma festa.

Mas eu não denunciei. Eu não contei para ninguém. Eu não sabia que era estupro, eu achei que foi culpa minha. Ele era da turma de amigos, era irmão de alguém, amigo de alguém. Eu me senti segura com ele. . Eu estava embriagada, ele me levou para o quarto dele. A gente estava se beijando. E eu quis parar. Eu disse não. Eu gritei, eu chorei, eu dei um soco nele, mas ele não parou. E no dia seguinte, ele foi tão gentil. Eu achei que tinha feito algo errado, que estava louca. Mas estava dolorida, com a calcinha suja do sangue da minha virgindade. E ele disse que como eu era “muito quente”, ele não imaginou que eu fosse virgem. Até a hora “h”. Nos despedimos, eu peguei o ônibus e voltei para casa.

Levei anos até superar o que houve.

Outro dia em um seriado americano, L&O: SVU, o episódio foi sobre um humorista que faz piada de estupro, e que é também um estuprador. Ele usa de todo o arsenal do “politicamente incorreto”, lança mão da liberdade de expressão, e ao final, consegue um acordo com a promotoria, e não cumpre pena.

O ponto não é nem esse. É que a responsável pela Unidade de Vítimas Especiais (Crimes Sexuais), ao levar o caso para o promotor responsável, encontra uma séria resistência.

Porque a vítima não era “confiável”. Porque ela havia bebido, havia beijado o estuprador, bêbada, em público. Porque não avisou ninguém, não pediu socorro, não contou para ninguém.

E o “humorista” faz sua fama e inclusive usa do processo para ficar mais famoso, mais “polêmico”, mais “incompreendido”.

Afinal, toda mulher bêbada que faz sexo casual e no dia seguinte não recebe flores vai acusar o parceiro de estuprador, não é mesmo? E é um dos maiores “temores” masculinos, equivalente ao da vagina dentada: ser acusado de estupro depois de sexo casual.

Ele fala que a piada não é sobre o estupro “estupro”, o “de verdade”, “for real”, mas aquele estupro do “ele disse/ela disse”. Essa categorização já diz que há vitimas que são mais vítimas do que outras. Há a antecipação, a previsão, de como vai agir uma “verdadeira vitima de estupro”. E confunde, de propósito, estupro com sexo.

Eu já fiz sexo casual. Eu sei o que significa casual, sem compromisso. E eu já fiz sexo casual depois de beber, e eu já me arrependi de ter feito sexo, casual ou não. Mas só uma vez disse não, e pedi para parar, e demonstrei meu desconforto. Só uma vez foi estupro. Houve arrependimentos, em outras ocasiões, depois que eu superei e passei a curtir sexo? Sim, quem nunca? Mas não houve outro estupro. E sim, eu recuperei minha vida e tenho uma vida sexual saudável, isso me torna menos vítima na visão de algumas pessoas -para elas, não foi estupro se não há o trauma e a frigidez posterior.

Estupro não é sexo.

Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Quando alguém diz NÃO, é não. Quando alguém diz PARE, é para parar.

Então, isso tem que parar.

Não é NÃO.

Precisamos arcar com nossas escolhas, sim, mas precisamos nos educar, a todas e todos, para entender que não há nada, NADA, que justifique o sexo forçado. NADA.

A Luciana, nesse texto aqui, fala:

“Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.”

Nem a roupa, nem a bebida, nem qualquer amasso anterior, nem ir para o quarto ou para o carro, ou qualquer dessas coisas. Ninguém “pede” por isso.

Se em algum momento de uma relação, uma pessoa pedir para você parar e dizer que está desconfortável com situação, que não quer, você não tem que insistir, que forçar de forma psicológica ou muito menos física. Você tem que PARAR. A pessoa não te “deve” nada.

E se em algum momento de uma relação você se sentir desconfortável, intimidada, ameaçada, você TEM o direito de dizer NÃO. Você não “deve” nada.

Eu escrevi a primeira vez sobre o tema em 2011, com o título “isso não é um convite para me estuprar”, no Blogueiras Feministas Mas não tornei público que eu também fui uma vítima de date rape.

Toda vez que alguém faz piada com estupro, uma de nós sente de novo a dor e a vergonha que passamos. Toda vez que alguém ri e diz que é só uma piada, uma das mulheres que passou por isso se sente pior. E somos muitas, uma em cada quatro.

(sim, foi muito difícil para mim falar isso, publicamente, mas é preciso. Eu preciso. E não, eu provavelmente não vou denunciar quem foi o sujeito. Mas eu tenho o direito de contar o que houve, sim, porque foi real, sim, e porque pode acontecer com qualquer uma. Sim, você, que está ai e olha com ares de “isso não vai acontecer comigo, eu me dou ao respeito”, saiba que pode sim, acontecer com você, e que eu vou estar do seu lado, se você precisar).

Leia também: Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

Para tudo e um jeito

Estou aqui a matutar trepadas…

corpo

Jeitos e jeitos de encontrar um jeito de te pegar de jeito. Na verdade, nos pegarmos. Pegarmos, de jeito, no jeito, leito, sem pudores, com suores, gozos, labaredas e dedos. E línguas. E falo e vulva, e pau e buceta, e caralho e xoxota e qualquer canção que trate de dois – ou mais, por que não? – corpos se fodendo. Estou aqui a imaginar que quando abres estas páginas de blogue não pensas o mesmo e já tira minha roupa, já chupa meu talo, já pensa barbaridades que só quem trepa é capaz de pensar. De cu, de lambida, de salto alto, de chicote, serpentina, de quatro, de papai e de mamãe, de sabão, de vaselina, de sessenta e noves vezes dez e que mais de cálculo e meto, enfio, tiro, ponho, retiro, recebo, levo, passo o cheque e bota e camisola de oncinha e sei lá mais qual linha… que eu tô mesmo é tarado e pensando num jeito. Num jeito… que jeito?

Mas aí a gente se encontra no mundo, de roupa, de tecidos, de teias emaranhadas, de vizinhos, de opiniões alheias, de o que vão pensar de mim, e tem que fingir que não estamos pensando num jeito – e é assim que eu percebo: Gabo tinha razão e cada um vem ao mundo com suas trepadas contadas e a gente perde um montão delas pelas simples razão que insistimos nesse negócio de sexo sagrado, é amor, é sei lá namoro, casamento, teto, afeto. É jeito, desconfio. E volto aqui a matutar trepadas, inventar argumentos para um filme de foda, sonhando com um enredo que ao cabo acabe com uma transa, um nexo, um amplexo, um ósculo sem fim de boca a boca, de lábio a lábios, de fio a pavio terra e tudo.

Então, imagino é um jeito de um jeito que quando acabares este texto tu esteja – no mínimo – molhada e dê…

Um jeito… um jeitinho… um tesão.

Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

amarelos

Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

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