Uma estrada em amarelo

Totó, acho que não estamos mais no Kansas.

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Uma coisa que eu tento não esquecer é que a vida está menos para uma sequência linear e progressiva de eventos do que para um caleidoscópio de vivências. Os momentos vão e vem e as pessoas são em suas diferenças, belezas, divergências, limitações e encantos. Eu sou intensa. Teimosa. Nem sempre respeito os argumentos contrários. Muitas vezes eles me causam raiva, vergonha pelo outro, aversão, etc. Mas tento sempre respeitar quem os emite. Porque, tento me lembrar, a pessoa é mais do que aquela ideia emitida naquele momento, daquela forma e a vida é mais e mais complexa que aquela desavença. Eu gosto da diversidade. Dela toda, não só da diversidade com a qual eu simpatizo. Então, faço o que posso. Um pouquinho mais perto do que sonho, espero. Um passo: as delicadezas no cotidiano. O olhar generoso. O gesto afetivo. O riso. Desmantelar as estruturas pelo prazer.

Procuro belezas, coleciono-as pra me lembrar: o bom, o belo, o justo, é isso que faz civilidade. Em pequenas pedras amarelas, reconstruo minha estrada. Eu choro, enterneço-me. E rio tão de leve como se tivesse desaprendido. Procuro palavras em mim e elas se amontoam como pira. Eu ardo. Mas faço soar música e há amanhã. Tenho gostos. E sou grata. Grata por todo momento que não é só dor. Grata. Pelas coisas pequenas, tão pequenas como o riso da menina vizinha, alegre em seus 2 anos de correr atrás de um gato. Seu grito alegre me atravessa. É bom. Grata pelas amizades, pela conversa fácil, pelo abraço morno, pelo riso solto. Grata porque o mundo que quero construir já vai sendo, em pequenos tijolos, em pedacinhos de estrada, em fragmentos. Momentos.

Sou grata por haver, ainda, pessoas no trabalho, gente fazendo sexo, meninos atirando de estilingue, idosos de mãos dadas em praças, partos, aniversários. Sou grata por haver, sei lá, a Austrália, e tanta gente que não sabe de mim. Sou grata porque a vida segue e não me espera. Sou grata porque, assim, nesse lugar de desconhecida, não preciso saber tudo, dizer tudo, me posicionar sobre tudo. Não preciso ter certezas nem verdades. Posso calar. Sumir. Descansar. Ouvir. Acolher. Aprender. Mudar.

Sou grata pela dinâmica, pela plasticidade, pela possibilidade. Pelas mudanças que podemos ser. Que podemos viver. Sou grata pelas pessoas que conheço com intimidade e pelas que  cruzo uma só vez na rua e que sorriem, tímidas ou expansivas. Sou grata pelos que já foram e pelas pessoas que serão. Sou grata porque ser humana é estar. Pela finitude que me permite saber-me. Sou grata pelo tantinho de paciência que o tempo construiu em mim.

Sou grata por esse blogue, pelas pessoas que o escrevem, pelas pessoas que o lêem, pelos olhos e mãos desconhecidas que o divulgam. Sou grata por ele ser bebedouro de riso, alento, alimento. Sou grata por escrevermos assim: desejo, tesão, sexo, liberdade. Sou grata pelas perguntas. Pelas respostas que não temos. Pelas estradas que são muitas. Sou grata por dizermos: quero e mais. Sou grata por não escolhermos o caminho da resposta ácida, da pedra dura, das turbulências que separam. Por acolhermos nossos limites, fragilidades, mudanças. E por nos sabermos, ainda assim, gostosos, ávidos, disponíveis e interessantes.

Sou grata pela biscatagem. Biscatear amarela as pedras com que (nos) fazemos estrada. Biscatear avermelha os sapatos. Biscatear é nosso mágico de Oz particular, por aqui encontramos elementos com o que pensar, coração para sentir, coragem para resistir. Biscatear é ser nossa própria casa.

Grata pelo bonito que me diz: o humano também pode ser em ternuras. Obrigada. Porque eu quase esqueci. Uma pedra amarela de cada vez, reconstruindo a humanidade em mim. O mundo precisa de beleza. Eu preciso. Obrigada, você, que nem sabia do árido que era meu aqui dentro. Cada palavra de afeto, cada gesto de gentileza, cada pequena delicadeza, cada afago, cada gozo, cada gosto. Chuva. Humanidade. Esse caminho que fazemos biscateando. Mais uma pedra. Amarela, por favor.

Não Pode ou Um Dedo Sempre a Postos

não pode

Não pode sentar de perna aberta.

Não pode dar de quatro.

Não pode andar de roupa curta.

Não pode gostar de ser chamada de cachorra na hora do sexo.

Não pode trepar sem ser casada.

Não pode estar em um relacionamento hetero e se sentir bem.

Não pode ter sexo casual, é coisa de vadia.

Não, não pode mesmo ter sexo casual, é coisa de mulher que agrada ao patriarcado sem saber.

Não pode sair sozinha pra beber.

Não pode estar em uma relação a três, a quatro, a muitos.

Não pode ter pau.

Não pode esconder seu pau e “fingir” ser mulher.

Não pode não ter peito.

Não pode colocar peito.

Não pode esquecer de cuidar do seu corpo.

Não pode ter prazer em mudar o seu corpo.

Não pode gostar muito de sexo.

Não pode gostar de dar o cu.

Não pode tocar sua buceta.

Não pode tocar o cu do parceiro.

Não pode gozar.

Não pode querer agradar.

Não pode gostar de dominar na cama.

Não pode gostar de ser submissa na cama.

Não pode gostar de variar, inclusive, quedê sua coerência?

Não pode, não faça, não pode, não seja. Escolha sua cartilha e se atenha a ela. Não, seu desejo não é desculpa. Não, sua vontade não é motivo. Não, seu querer não é legítimo. Estamos todos prontos pra te julgar. Lá e cá. Todos os dedos prontos pra apontar. Ei, pera, o que você está fazendo com meu dedo apontado? Para já de chupar meu dedo. Para, para de lamber meu dedo, assim, assim, sugando, chupando, mordendo. Para, para de se esfregar no meu dedo, ai, ai, para de enfiar gostoso meu dedo na buceta molhada, assim, um, dois, roça, roça, mais, mais…

O amor

O amor que me alcança tem o cheiro dos meus cuidados em ti. Te amo, me preocupo, sou teu escudo, quero que nenhum mal chegue enquanto estiver perto. Te pego, te apanho, te desconstruo. Te costuro, emendo, cuspo e mordo. Te arrebato. Me arrebatas. Nas palavras, na cama, na nossa cama, no nosso encontro. Te sinto todo, inteiro, teso, durmo junto contigo e faço teu café. Te amo por nadinha, por coisa nenhuma. O meu amor é uma velha e boa conversa fiada de porta de esquina. Mas é verdadeiro, viu? Porque não valemos nada juntos, a não ser essa matéria feita à base de ilhas e mares que construímos tortamente. Te dou tudo que tenho, possuo só o coração, esse gerente do mal que me incita a viver beijando o chão que pisas. Pra ti, te trago flores, te acordo com beijos e carícias danadas, daquelas que você gosta e calado, se permite e se entrega as minhas mãos cheias de coragem, finitude e gozo. Pra ti, Exu meu, eu cozinho, rebolo, amasso pães, invento histórias e faço cafunés matadores na tua cabeça. Mesmo que de ti se façam dois, sou eu, pequenininha, que te ponho no teu melhor lugar (dentro de mim). Só queria dizer que habitas por entre a sombra e o destino. Não sei de onde vens. Te observo furtivamente (ou não), pois não sei quem és. Porque secretamente, me enganas e finges (e sim, eu sei da presença invisível dessas coisas doloridas). Mas olha, se te dou amor, é porque em mim tem forças que vem de dentro do rio e do mar. E gente do meu trato, feita de barro pelo amor, sempre sobrevive. Dá o que tem, ama no possível e segue em frente. Acende o cigarro, toma um gole, vira o copo e respira fundo. Porque sabe que o amor, esse território imenso, nasce e morre um sem-número de vezes dentro do peito. E gosta.

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

O Exu Tranca Ruas, poderosa entidade da umbanda que também arrebata corações incautos

Aprendiz de amor livre

Se a Cláudia de hoje pudesse trocar uma ideia com a Cláudia adolescente, ou mesmo com a Cláudia apática e rancorosa do ano passado, certamente ela diria:

“Você não faz ideia de quanta coisa seu coraçãozinho jovem vai viver em tão pouco tempo. Para de ser babaca e aproveita”.

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A sensação mais recorrente evah na vida desta que vos fala é a de aproveitar pouco o que sente. Sim, eu tenho um medo imenso de amar. Sim, sou uma bisca medrosa e já sofri demais. Vocês não fazem ideia de como fico absolutamente idiota quando me apaixono e acho que é por isso que evito envolvimentos mais profundos com as pessoas atualmente. Viro a pior companhia possível neste estado, perguntem a quem convive comigo.

Sambaram na minha cara tantas vezes por causa disso…

Eu acho que essa coisa toda vem da visão que construí do amor ao longo da minha existência. E ela é bem parecida com o que vendem pra gente como única forma de amor possível ou verdadeira. É a velha receita de bolo: você conhece alguém, se encanta e é recíproco. Aí vocês ficam, começam a namorar, tudo é lindo no começo e tals. Vem a rotina, tudo esfria e vira bosta. Termina. E lá vai você obrigatoriamente viver o luto e ficar na sofrência até que surja UM novo amor.

Por que tem que ser assim pra ser de verdade?

Nem todo mundo fica de luto quando um amor acaba (eu fiquei, mas isso é regra?). Tem amores que se transformam. Existem casais que ficam melhores depois que tudo acaba. E há pessoas que não encontram apenas um amor, inclusive, há quem encontre váaaaaaarios amores ao mesmo tempo.

Ficou confuso?

Bom, o que quis dizer com tudo isso é que enquanto o que vendem e ensinam como verdade única e possível são as relações monogâmicas – e quase sempre heteronormativas, diga-se de passagem – muita gente luta para desconstruir esse paradigma visando ter relações norteadas pela autonomia e pela liberdade.

Mas que liberdade é essa? É poder sair por ai pegando todo mundo, sem “compromisso”?

Olha, não necessariamente. Você pode sair por aí pegando todo mundo sem compromisso, não é crime. Mas relacionamentos envolvem uma série de outras questões, problemas e desafios. Numa relação não monogâmica, arrisco dizer que essas nuances todas podem ser multiplicadas pelo número de parceiros que se tem. São pessoas diferentes, com vivências diferentes. Cada uma com seu jeito de sentir. Complexo, né?

Para os homens, a não monogamia nunca foi exatamente uma novidade. A eles sempre foi permitido – e enaltecido – o direito ter muitas parceiras. Ainda hoje, a mulher que decide buscar uma relação livre não é vista com bons olhos pela nossa sociedade. Então, para uma mulher, a não monogamia pode significar e ao mesmo tempo exigir um nível de empoderamento e de autonomia muito grande. E ainda nem mencionei a pressuposição machista (especialmente nas relações heterossexuais) de que a moça que deseja se relacionar com várias pessoas está, na verdade, disponível. Como se ela não tivesse o direito de escolher com quem quer estar. Digo isso por experiência própria, mesmo que ela seja pouquinha.

Não acho que as pessoas não possam ser felizes inseridas nos modelo tradicional de relacionamento. No entanto, acredito que desconstruir o conceito do amor romântico pode sim fazer com que tenhamos vivências mais plenas em nossas relações. Tô aprendendo ainda. Tá difícil. Mas estou neste caminho pela minha própria vontade, porque não quero mais me destruir por conta de ideais que na maioria das vezes são inatingíveis.

Que o amor venha para me (nos) libertar.

*** Dois textos bem interessantes para quem deseja se aprofundar sobre o tema: aqui e aqui! 😉

Ela, Ele

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Era uma vez uma coragem. Tantos contrários. O dia e a hora. Ele, menino ainda. Ela, já tanto. Ele, reserva. Ela, escândalo. Ele, pensamento e ela, um grito. Ele, a caminho. Ela, a própria estrada. Não era tempo, sabia-se. Porque eram deste tipo: de saber. Pensavam, claro. Ela dizia: não, não, não, em noites de querer tanto. Ele? Ela não adivinhava, mas ele dizia os miúdos e se perdia nela, sempre. Ela, rubor. Ele, velho tênis e calça desbotada. Não era agora. Claro que não era. Apesar das flores e das letras tantas. Ele, olhares distantes. Ela, olhares pra dentro. Mas, se havia o querer. E havia. E havia. E tantas palavras fazendo carícias. E letras como línguas. Ela se pôs a caminho. Ele se pôs, apenas. Em esperas? O branco macio do abraço quase ofusca. Ela não diga que não se assustou. Pois sim, quase corria. Mas era uma vez uma coragem e ela ficou. Ele, arisco. Ela, esquiva. Não era lugar. Mas havia o querer. E havia mão que encontrava outra. Não pode. Não deve. E o querer? Havia. E mãos que viravam bocas e também se sabiam. Queriam. E havia ainda o refúgio das palavras e eles faziam de conta que. Que não era nada. Que não era demais. Que não era querer. Que não era. Era uma vez. Uma vez não conta. Era uma vez. Uma vez não conta. E seguiram. Como se nada. Como se não tivesse existido a coragem. Mas as estradas ficaram mais largas. E os caminhos mais curtos. Ela, mais menina. Ele, mais um tanto. E a distância virando pergunta. E a pergunta virando desejo. E o desejo, de novo, coragem. A coragem pede andança. Nem sempre ela vai, às vezes ela é o próprio atalho. E se despe, lenta, peça por peça, enquanto escreve, descreve. Ela, nua. Ele?

Tem mulher boa, sim. E se reclamar tem o dobro!

Uns meses atrás, o site Catraca Livre fez uma matéria sobre o ensaio “Beleza Real” . As fotos, sem fotoshop, mostram mulheres das mais variadas formas, etnias, idades e seus corpos lindos, cheios de curvas e historias (até já falei disso aqui). Ao compartilhar o link em sua página no Facebook, o Catraca escolheu esta que, pra mim, é a foto mais potente do ensaio. Uma mulher de 52 anos, com 2 filhos adultos, nessa lingerie rosa. Poderosíssima!

Foto: Bárbara Heckler

Foto: Bárbara Heckler

A partir disso, comecei a acompanhar a movimentação na página. E foi triste. Foi pior do que eu esperava. O body-shaming, o moralismo, a patrulha, a crueldade, especialmente sobre o corpo dessa mulher (já que ela acabou em evidência) foram tamanhos e tão intensos, que o próprio site acabou apagando a postagem da página, pra evitar mais agressão.

Surgiram desde “conselhos” pra saúde até comentários sobre a idade, o peso, a pose… quando não tinham mais o que criticar, começaram a questionar a competência da fotógrafa. E, né. Claro que me pergunto se o fato de a fotógrafa ser mulher não intensificou o recalque destilado. Foram mais de mil comentários. A maioria carregada de preconceito.

A principio, minha amiga, a modelo desta foto tão potente e esplendorosa, se sentiu bastante atingida. Magoada. Constrangida. Ela, que disse ter vivido um processo tão empoderador somente de haver posado pra esse ensaio. Isso me doeu muito. Porque eu estava lá na sessão de fotos. Vi quando ela chegou de tubinho preto e colar de pérola e vi quando, duas horas depois, ela saiu na garagem, que é totalmente devassada, pra posar de calcinha e um lenço que apenas lhe cobria parte dos peitos, em cima do fusca vintage do marido que dirigia naquele dia.  Em plena 3 da tarde de um dia de semana!

Eu vi esse momento. E o tanto que ele foi excitante. E o tanto que ela se sentiu linda e sexy e gostosa naquele corpo que conta uma historia tão rica de 30 anos de dedicação ao magistério.

“Essas veias que tenho nas pernas são de anos de sala de aula, ensinando em pé em frente ao quadro negro”, ela diria numa conversa. “Reverencio esse corpo e essa história”, completaria.

O tanto de amor que senti? E o tanto de estupor que me causou a cegueira, a burrice e a maldade da pessoas? A gordofobia,  o body-shaming, a misoginia, o machismo, o moralismo, o preconceito geracional… O recalque de ver mulheres tão seguras sobre seus corpos e sua aparência. Porque isso também parece imperdoável. Afinal, como poderíamos nos sentir assim, tão felizes, se nem “dentro do padrão” estamos? E ainda exibir essa felicidade publicamente?

Com essa amiga conversamos muito, lhe relembrando que não havia nada de errado com seu corpo. Que o orgulho que ela tem sobre cada uma de suas micro varizes nas pernas devia ser recuperado e festejado. E que é claro que sabíamos que este tipo de ensaio provocaria reações muito controversas mesmo.

Pessoalmente, fiz questão de reiterar o quanto essa foto me emociona.

Dias depois, acabamos nos reunindo presencialmente pruma conversa sobre patrulha, bullying, body-shaming, deselegância. E na conversa alguém comentou que, pra ela, fazer as unhas era algo empoderador e libertador. Fiquei surpresa. Porque, claro, eu também faço as unhas, mas via muito mais como uma aquiescência à pressão pra estar em dia com a “feminilidade”, especialmente a “feminilidade higienizada”, e uma submissão à indústria da beleza. Não como algo livre.

E ela respondeu que foi educada por pais religiosos e muito conservadores, que não permitiam nenhum tipo de adorno ou de embelezamento. Quando finalmente ela conseguiu sair da casa dos pais, passou a frequentar a manicure frequentemente pra mostrar que pode.

O que vai colocando mais nuances e especificidades em alguns discursos e práticas, ne? Mas, isso é assunto pra outro post. Aliás, nem sei por que tergiversei assim. Acho que é porque, no fundo, pra mim, a raiz é a mesma: o corpo é meu. Claro que sempre há espaço pra problematizar, mas fundamentalmente eu decido sobre ele e se quero exibi-lo, com veias, celulites e estrias. Se quero pintá-lo, tatuá-lo, não depilá-lo, expô-lo, entregá-lo, dá-lo, vendê-lo… Meio que parafraseando Valesca, a porra do corpo é meu!

PS: Aviso aos do recalque: minha amiga acabou de posar para a segunda edição do ensaio.  E vocês não têm ideia da maravilha que ficou! Que bunda, amigues. Que.Bunda.

Entreveros, ou você tem que vir pegar

To nessas fases da vida em que escutar Cher é dos meus melhores momentos de sabedoria… Porque, claro, a maior Diva Internacional viva tem algo a nos ensinar (tudo bem que, em geral, ouço Bethânia, mas esse momento eu to mais pra Cher). Pois é, toca a música aí abaixo e vem comigo!

 

Não sei se isso são bem preguiças de férias… ou se são somente preguiças, mas to na fase do “tem que vir pegar”, ou “me pegar”, ao gosto do freguês. Não se trata de uma revolta com a vida, ou um recado (afinal, em geral, se Maomé não vai até a montanha, a montanha fica na internet postando indireta), mas sim de um completo e total estado de preguiça. Afinal, como diz nossa querida Cher, “but if you want my heart, you gotta take it like a man”.

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Pois é… é preguiça. Preguiça dos “entreveros”: do muito esforço por nada, dos excessos de esforços alheios, de ser alvo quando quero ser seta… Pegar é uma arte que tem que ser dominada por todos os lados envolvidos, sem qualquer exceção… Esforços são válidos, mas quando eles partem de um único lado causam isso, essa profunda e completa sensação de “não sei”, que eu prefiro chamar de preguiça… só pra não ter que explicar muito…

Por isso, em alguns momentos, o essencial é deixar estar… ver o quanto o outro suporta esperar e o quanto e de que forma o outro vai vir te pegar… E, assim, ver as atitudes tomarem forma para além de palavras, de meros gestos, de promessas – se é que essas promessas, de fato, existem ou são simples frutos podres da nossa imaginação… No fim, não ser o motor de um futuro entrevero… ter, simplesmente, preguiça por um pequeno período de tempo…

E, depois dessa fase Balú, aquele urso fofo e rabugento amigo-pai do Mogli-Menino-Lobo, de saber que “Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”. Depois da pegada, passar para a fase Preta Gil e “não ter preguiça, não”! Mas isso é pra outro post.

Carícias: de leve…

Ano novo começando e deu aquela vontade de falar de carícias… Aquelas pequenas, cotidianas, costumeiras, que podem virar um acontecimento. E tem esta receitinha que uso e vi sei lá onde. Provavelmente, numa revista feminina dessas “para agradar o parceiro”. Aí, a gente subverte tudo e vira uma folia a dois, pra nos agradar em primeiro lugar. Afinal, carícias podem apenas ser. Somente. Elas. E a pessoa que você quer.

Coloca óleo mineral num potinho, esquenta de leve no microondas, volta correndo pra cama e comece a brincadeira!

E com a pele besuntada, depois de palmas das mãos cheias e onipresentes, vem aquela outra parte que mais adoro.  O roçar das pontas dos dedos nas costas… Leve, mas longo e contínuo. Por horas. Saindo da omoplata, passando pela cintura, quadril e subindo de novo. Às vezes, desliza pro abdômen. Mas, nem sempre. As costas. Nas costas. E um ir se desmilinguindo toda. Virando pele. E silêncios. Quando muito, suspiros. Baixinhos. Um sussurro qualquer.

Tenho pra mim que se me mover os dedos vão se lembrar que estão ali e perceber que estão cansados. E de bruços, arrisco só um abrir de pernas. E os dedos percebem e escapam pra lá. E voltam repetindo o trajeto ao revés: quadril, cintura, omoplata, pescoço…

Posso gozar só nisso.  Com as pontas dos dedos nas minhas costas. E desse ir manchando o lençol de óleo. Há anos.

Festas de fim ano e o relógio biológico

Minha família nunca foi uma família muito ¨normal¨, na casa da minha mãe, só entra namorado meu ou da minha irmã depois que temos certeza que vamos passar um bom tempo com ele. Ou seja, quando há pelo menos um ano de namoro, eu levo o namorado pra casa, ele fica incomodado, sem graça e depois não volta. Na casa da minha mãe não se dorme com namorado, há uma regra muito confusa para a minha cabeça: filhas e filhos não fazem sexo lá.

Na casa do meu pai, sempre foi mais na bagunça, namorados vão pra lá, dormimos com eles, sem muito estresse, sempre todo mundo muito liberal. Desde que voltei a frequentar a casa de meu pai, levei os namorados, nada de dormir um separado do outro, nada de hipocrisia, casal dorme junto, é normal e saudável.10881569_580749158735512_3254406835003859872_n

Pra falar a verdade, meu pai e minha mãe tem uma cabeça muito boa em questão de casamento, gravidez e estudos, nunca fui pressionada por nenhum dxs 2 a ser mãe ou casar. Sei que não é muito comum ouvir mulheres feministas falarem que, em festas de fim de ano, não ouve nenhuma pergunta sobre filhxs e casamento, eu até ouço, mas não de meu pai ou minha mãe. Sempre tem aquelx familiar intrometidx que acredita que meu relógio biológico tá correndo e que eu preciso logo casar e ser mãe. Eu tenho o costume de balançar a cabeça e pensar em coisas que preciso fazer, ou se vou repetir um prato da mesa da ceia, ou já to beuba e nem presto atenção, só rio o tempo todo.

Mas, uns 2 anos atrás, numa festa em família na casa do meu pai, me perguntaram de filhos e casamento. Entendam, nesse exato momento, eu tinha acabado de terminar um relacionamento longo, não tinha nem planos de casar com ninguém. E, se você está solteira por opção, você vira uma ET em festas de família. Nessa conversa, tinha um casal da família e uma familiar divorciada e que nunca teve filhxs. Eu e essa familiar explicando que, às vezes, não ser mãe pode ser muito bom, tão bom quanto é ser mãe pra outras mulheres. O casal tentando me mostrar que a minha vida profissional não iria acabar se eu fosse mãe e esposa. Afinal, você sempre está tentando equilibrar a vida profissional com o grande sonho da maternidade. Mas eu não estava, eu nem sabia se queria ser mãe. Isso era o que elxs não entendiam, enquanto nós duas falávamos que ser mãe não era o sonho de toda mulher, elxs negavam cada frase nossa falando de, ¨alguém para nos apoiar na velhice¨ e outras frases típicas pra justificar a necessidade de ter filhxs.

E essa conversa durou bastante, até a hora em que eu desisti de tentar explicar minhas opiniões e fui ficar beuba. Pois vi que nada iria mudar, voltei ao que sempre faço em festas de família: balançar a cabeça e pensar em qualquer outra coisa. E, se eu fosse sonhar com um futuro parecido com de alguém da família do meu pai, seria com uma vida como a dessa minha parente divorciada e sem filhxs. Sempre foi livre, fala alto, fala palavrão, bebe, viaja e se diverte muito em todas as festas de família. E sempre a achei a mais divertida e a mais simpática da família.

Por um verão sem padrão

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Aqui vem o verão. E com o verão, exacerba-se o padrão.

O padrão. Os padrões, ah, os padrões. As mulheres são bombardeadas cotidianamente com milhares deles. Padrões de comportamento de “boas moças”. Padrões sexuais. Padrões estéticos. Até padrão para as nossas respectivas bucetas, sim, eles existem , e machucam as mulheres que fogem deles. Machucam tanto, que muitas buscam cirurgias doloridas para modificá-las (veja aqui), para se enquadrarem nos padrões de beleza vaginal. Não, não é culpa da mulher que faz. Não, não vou julgá-la. Sei que dói. Dói estar sendo apontada como diferente. Dói a sensação de não ser aceita. De não ser “bonita”, “desejável”, ou coisa que o valha, perante a sociedade de corpos padrão e beleza consumível em revistas e propagandas de iogurte.

Até as propagandas de cerveja, claro, elas, as piores. Bebam. Eu bebo. Mas mulheres que são desejadas pelos homens cervejeiros não são aquelas que sentam na mesa do bar com eles e se divertem noite adentro, bebendo e gozando a vida. São aquelas do corpo padrão academia-barriga-de-tanquinho e bumbum durinho, que provavelmente sofrem ao tomar o terceiro copo, porque né?

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Barriga de cerveja é algo repugnante. Mulheres que vendem cerveja não são aquelas que bebem cerveja sem culpa, com prazer, degustando e sentindo-se feliz com sua barriga saliente de mesa de bar. Não. Não pega nem bem. Porque mulheres são objetos de desejo. E nessa sociedade consumista e padronizada, mulher desejável não pode ser feliz como é. Ela tem que se enquadrar, o tempo todo, no peso “certo”, no corpo “bonito”, no cabelo de revista, na pele sem manchas e sem olheiras, na vagina “certinha”, no bumbum malhado, na barriga delineada, no comportamento adequado, nisso, naquilo e naquilo outro. Padrão machista. Fetiche machista. É isso que a gente vê  por aí.

Auto estima babe. E auto estima não é algo fácil. Nós, mulheres, estamos a todo tempo enfrentando esse grande espelho social que nos tolhe e nos oprime. E temos que quebrar esse espelho. Não, não é fácil. Mas é possível. Porque não podemos mais aceitar esse espaço comprimido de beleza. Essa saia justa para nossas pernas grossas. Esse espartilho que sufoca nossa respiração. Saúde e bem estar não pode ser confundido com o manequim 38. E nós temos que brigar, sempre, pelo direito ao prazer. Para sermos felizes como somos. Pelas nossas barrigas serem sinônimo de desfrute, degustes, alegrias, e não choros escondidos e vômitos provocados no silêncio de depois.

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Não é fácil estar acima do peso, olhar as rugas, ver pular os cabelos brancos, ouvir as fofocas: “nossa como ela engordou”. E eu me coloco dentre essas tantas mulheres que, sim, vez por outra também sofre. Sofre o olhar social, o julgamento, o não enquadramento como “bela”. Outro dia ouvi, num ato falho da minha própria mãe: “é que filha, você ERA tão linda”. É, uma mulher acima do peso não é linda. Ela, né? Pode até ter sido, ou vir a ser. Mas não é. Ou, a pior frase: “ela é uma gordinha bonita, tem o rosto bonito!”. Essa me dá vontade de agredir de volta. Mas me contenho, e milito. Militemos por esse processo de desconstrução.

É, sim, é preciso um processo de desconstrução, começando por nós mesmas. É ver-se por dentro. Olhar a saúde de outra forma, mais associada ao bem estar e à felicidade. É ver que o padrão é falho. Que está todo mundo atrás de algo que nunca se alcança. Que a beleza imposta à mulher é capitalista, cheia de produtos, plásticas, malhações infinitas, estéticas de consumo. Que é machista, que escraviza, que nos enche de culpa e que ofusca os olhos da alma, que são aqueles que nos enchem de sorrisos por dentro, independe de. Já dizia Vinicius: “uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza”. Eu digo: uma mulher não tem que ter nada. Ser, viver, ser feliz é essa beleza toda. A beleza de existir, cada qual no seu universo.

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Ano passado eu, que tenho um problema crônico de tireoide, fiquei hiper, com hormônios a mais. Meses de insônia, taquicardia, tremedeiras, ansiedade. Emagreci muito, 7 kilos em 2 meses. As pessoas me falavam: “nossa, como você está bem!”. E eu pensava: “Não, eu não estou bem, estou doente”. Regulados os hormônios, engordei tudo de novo, e mais um tanto. Voltei a comer, a dormir, a estar bem. Kilos e sorrisos a mais, saúde em dia e felicidade de poder ficar onde existe prazer. Magreza não é sinônimo de saúde. A cultura da magreza é a cultura dos padrões e metas, ditadura da estética, nem sempre feliz.

Corpo perfeito é o que a gente tem. E eu sempre prefiro a felicidade. Por menos imposições, e mais prazer…sigamos!

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Sedução

Essa história de química é batata. Saliva, cheiro, pele, o jeito de olhar e até de tirar remela do olho tem alguns encaixes do outro lado que pouca cousa pode explicar. Não é ciência, não é amor, não é gratidão, nem afago, nem nada, absolutamente nada. Aquele jeito dela responder aquela última pergunta e pronto. Sobe um sangue pela alma do corpo e alea jacta est. Estamos perdidos e obcecados e apaixonados e entregues. A fome passa a ser e estar naquele desejo fluído, de gozo. De sexos eretos. A ponta do grelo quando pulsa, sabemos, revela quânticos elementos elétricos. Assim como o cacete que refastela pra cima procurando ar. Parece um girassol buscando o sol, de tanto que remexe.

Há uma linha tênue nesse bonde chamado desejo que reside na reciprocidade. Reconhece-la é a chave para a cama, o chão, o joelho ralado, a bunda na parede fria, o cotovelo rasgado, o pentelho que engasga na hora agá, para a alegria dos fluídos e da risada larga depois do flacidez. O problema dos amantes, entretanto, muitas e muitas vezes, é esse reconhecimento. Porque reciprocidade pressupõe a tão sonhada empatia, se colocar no lugar do outro. A empatia é o sentimento biscate por excelência.

Nesses jogos de sedução devíamos experimentar sempre e sempre a nudez dos corpos e a nudez de poses e posses. Quando se deixa a empatia – e, portanto, a reciprocidade – como uma preocupação diversa ou diletante, a sedução passa a ser somente um jogo de vencer. Vencer, infelizmente, pressupõe derrotar. Nesse xadrez todo, sabe-se lá, pensar que a metida, a trepada, a abocanhada é mera questão de xeque mate é, sinceramente, uma bosta.

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O fato é que ele sabia do quão ridículo eram aqueles conselhos de revista cosmopolita, guias lacrados de sexo e que tais, que tanto fazem rir quando são levados a sério. Mas não resistiu e numa última tentativa desesperada mandou um envelope para a moça, com a cueca dentro, no meio do expediente. E a chave de um quarto de motel barato, desses que as portas abrem com cartão. Não disse mais nada.

Ela vestiu a cueca. Tinho ido trabalhar com uma calcinha tão confortável, mas tão bege, tão puída, tão descolorida, que achou melhor manter o clima.

Um corpo novo, um sexo novo

Chegou de mansinho no bar e ficou de pé ao meu lado. Tinha uma cadeira ali perto, mandei sentar. Sentou. Gosto assim: obediente. Conversamos. Horas, eu acho. Te beijei. Ansiava aquela boca, boca nova, gosto novo, sexo diferente, inusitado, nada familiar. Estava repudiando tudo que eu já soubesse na memória.

Bebemos. Muito. Eu sei, moça de família não faz isso, mas nunca fui santa né? Rimos dos nossos sotaques. Ah, como é bom descobrir, ler o outro. Reparei no seu braço. Uns pelos espessos sobre uma pele tão branca. Uma barba ainda por fazer. Seus lábios grossos, me sugando, passando pelo meu pescoço suado, sua mão já entre as minhas pernas…

Dei um ultimato: vamos embora! Pra sua casa! Entrei me sentindo dona daquele lugar em que nunca pisei, que meus olhos viam pela primeira – e última – vez. Quando cheguei ao quarto, já estava com a calcinha dentro da bolsa. Já cheguei de pernas e vida aberta pra você. Escolhi você para estar nessa página das minhas histórias sexuais. Você me lembrava alguém que eu tanto quis esquecer. E era ao mesmo tempo tão parecido e tão diferente . Não sei se meu coração palpitava por ti ou por ele. Acho que por ambos.

Seu pau enorme. Nunca imaginei que portasse um assim. Não me entenda mal, mas é que com aquela carinha de menino meio tímido não dava pra saber o que eu ia encontrar entre suas pernas. Grata surpresa que chupei com vontade. Em retribuição, você me fez gozar na sua boca.

olhos_vendados

Fiquei de quatro. Do jeito que gosto, mas que você ainda não sabia e nem poderia. Pedi: me bate. E você deu um tapa tão leve que comecei a rir. Você se desculpou: “não sei fazer isso”. Ah, as semelhanças. Mas eu estava afim de te ensinar como gosto de ser comida. E você estava ávido por aprender.

Trepamos. Muito. Não sabia se o gozo era per se ou se era pela delícia de um sexo novo, um corpo novo, dos caminhos desconhecidos. Os descaminhos. Gozei pela delícia do sexo que fizemos e pela alegria de trepar com um completo desconhecido. Fui embora no outro dia de fininho. Não peguei seu telefone, e-mail, nada. Nem o sobrenome perguntei.

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